Uma pianista surpreendente

Não há cérebro melhor para fazer música
do que o de Tatiana Petrovna Nikolaieva.
Sviatoslav Richter

No blog do dia 15 de Agosto focalizei a notável Maria Yudina em suas interpretações rigorosamente pessoais, resultado de tantas opções na vida concernentes a outras áreas. Tatiana Nikolaieva tem perfil distinto. Membro do Partido Comunista desde 1956, sem contudo ter-se engajado na causa, Nikolaieva forjaria uma carreira sui generis e dois compositores preponderariam em seu vastíssimo repertório, J.S.Bach e Dmitri Shostakovich. Dotada de uma memória prodigiosa, em seu repertório imenso muitas obras foram apresentadas em público poucos dias após aprendê-las.

Tendo participado do Concurso Bach em Leipzig em 1950, obtém o primeiro prêmio. Shostakovich, que integrava o júri, ficou impressionado com os dons de Nikolaieva. A ela dedicaria os 24 Prelúdios e Fugas op. 87, obra cuja publicação dependeu de várias tratativas, pois entendida pela Nomenklatura como “formalista”. Enfim, é publicada e estreada pela pianista aos 23 de Dezembro de 1952 em Leningrado. A pianista foi a intérprete preferida do compositor. O opus 87, assim como tantas outras, Nikolaieva apresentaria nos muitos países satélites da União Soviética e no Ocidente.

Clique para ouvir, na interpretação de Tatiana Nikolaieva, o Prelúdio e Fuga op. 87, nº 7 de Shostakovich:

https://www.youtube.com/watch?v=3w0C3Ipwxkw

No ano de 1951 receberia o prêmio Stalin como compositora, mercê de seu Concerto para piano e orquestra, sendo que em 1983 foi proclamada “artista do povo”.

Clique para ouvir, na interpretação de Tatiana Nikolaieva, o Estudo em Mi Bemol Maior de sua autoria:

https://www.youtube.com/watch?v=CuIFhwDvO78

 

Em 1959 torna-se professora do Conservatório Tchaikovsky em Moscou, sucedendo seu ilustre professor, Alexandre Goldenweiser. Em 1993, executando os 24 Prelúdios e Fugas de Shostakovich em São Francisco, nos Estados Unidos, sofreria um AVC, vindo a morrer nove dias após.

Ficaram marcados os ciclos J.S.Bach, Beethoven e Schumann, assim como a incursão no repertório de seus contemporâneos, como a Sonata para piano de Henri Dutilleux e o Capriccio para piano e orquestra de Stravinsky. Sobre essa obra, fato memorável se deu quando o compositor visitou Moscou a fim de participar de um Festival e propuseram o seu Capriccio no programa. Como não houve quem o pudesse preparar em tão pouco tempo, Nikolaieva se habilitou e não apenas ensaiou com a orquestra, realizando leitura à primeira vista, como o tocou de memória durante o concerto.

A sua compreensão da obra de J.S.Bach era decantada e prolongar-se-ia após sua morte. Assim como Claudio Arrau e Edwin Fischer, Tatiana Nikolaieva apresentou em público a integral do compositor alemão. Sua leitura da obra de Bach segue a tradição, mas Nikolaieva imprime suas impressões digitais. Suas interpretações das Variações Goldberg e do Cravo bem Temperado são rigorosamente referenciais.

Clique para ouvir, na interpretação de Tatiana Nikolaieva, a Partita nº 1 em Si bemol Maior de J.S.Bach. A se observar, entre tantos outros processos da técnica pianística, a peculariedade de seus staccatos:

https://www.youtube.com/watch?v=4QTtcNWr7q0

Alexandre Scriabine igualmente fez parte de seu vasto repertório. Nikolaieva compõe a lista dos grandes scriabinistas. Ouçamo-la a interpretar os oito Estudos op. 42:

https://www.youtube.com/watch?v=aTlzKA91GIE

Como professora não impunha sua vontade e, desde que a interpretação fosse a seguir preceitos da partitura e da individualidade, a excluir o livre arbítrio, aceitava-a de bom grado. Dizia que disciplina e paixão são ferramentas indispensáveis e que uma obra a estudar deveria ser fonte de perene alegria. Seus pósteros afirmavam que aprendeu um dos Concertos para piano e orquestra de Brahms nos seus trajetos de ônibus e que a prática de aprender uma música sem a necessidade do instrumento lhe era habitual.

Tatiana Nikolaieva foi certamente um dos grandes fenômenos pianísticos do século XX. Sua concepção interpretativa tem quase sempre a amplitude de uma orquestra, pois timbres variados, graduação agógica, sentido pleno da dinâmica, articulação diferenciada e rica, pedalização ímpar, detectável mormente na obra de J.S.Bach, a privilegiar as grandes linhas, imprimem a cada obra executada singularidade raramente encontrada. Assim como alguns luminares da arte pianística de antanho, Nikolaieva tinha uma cultura geral respeitável. Ela confessava que não apenas a música era foco de suas atenções, mas a arte como um todo, pintura e literatura preponderando.

O curto documentário sobre Tatiana Nikolaieva, com legendas em inglês, pode se acessado através do YouTube:

https://www.youtube.com/watch?v=Wtu81rUqrfk

The Russian pianist, composer and pedagogue Tatiana Nikolaieva (1924-1993) was one of the greatest pianistic phenomenon of the last century. In 1950 she won first prize at the Bach Leipzig piano competition, where she met Dmitri Shostakovich (a member of the jury panel). It was the beginning of a lifelong friendship with the composer, who considered Nikolaieva the best interpreter of his music. His 24 Preludes and Fugues have been dedicated to her, who premiered the work in 1952. Famous for her remarkable memory, Nikolaieva built up a huge repertoire, the names of Bach and Shostakovich standing out. Her performances had almost always the amplitude of an orchestra, with varied timbres, nuanced agogics, full sense of dynamics, rich articulation and unique use of pedals giving to her music a seldom found originality. For those who want to know her better, I give the link to a short documentary with English subtitles available on YouTube.


 

 

Idalete Giga e a leitura constante dos blogs

Escrevendo ou lendo nos unimos para além
do tempo e do espaço, e os limitados braços
se põem a abraçar o mundo;
a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Agostinho da Silva

Diversas vezes escrevi sobre a notável especialista em Canto Gregoriano Idalete Giga, Diretora do Centro Ward de Lisboa. Conheci-a em 1981, pois discípula de nossa saudosa amiga, a ilustre professora Júlia d’Almendra (1904-1992), fundadora do Centro de Estudos Gregorianos em 1953, futuro Instituto Gregoriano de Lisboa (1976).

Quase todos os anos dou recitais em Portugal e nossos encontros são inevitáveis, prazerosos e profícuos. Há tantos temas em nossa área musical no sentido amplo e tenho a convicção de que nos enriquecemos mutuamente.

Idalete é leitora fiel de meus blogs semanais, fato que me traz alegria. A pandemia impediu-me de estar em Portugal neste 2020. Há meses não nos comunicamos. Todavia, foi uma surpresa agradável receber sua mensagem, a fazer uma síntese dos blogs que mais a sensibilizaram a partir do dedicado à grande pianista Guiomar Novaes em 9 de Maio último.

Transmito ao leitor a mensagem de Idalete Giga, como o faço com os e-mails do compositor francês François Servenière a focalizar sempre determinado post, estendendo largamente suas convicções a respeito da temática. Desta vez é Idalete que, ao opinar sobre blogs de Maio ao presente, bem focaliza essencialidades dos temas abordados.

“Sempre Querido Amigo José Eduardo,
Estive a ver o último e-mail que lhe enviei. Foi a 6 de Maio. O tempo passa muito depressa, apesar da situação de pandemia que estamos a viver. Aliás, perdemos até um pouco a noção do tempo.

Peço desculpa por ter deixado passar praticamente três meses sem lhe escrever. Fui, no entanto, lendo os seus posts, que são sempre para mim uma aprendizagem preciosa.

Já que tomo sempre algumas notas quando leio os seus textos, vou referir-me a alguns que mais me emocionaram. Fiquei encantada com tudo o que escreveu sobre a extraordinária pianista Guiomar Novaes. Que bela quadra do nosso saudoso e querido Agostinho da Silva como prelúdio do post de 9 de Maio! Congratulo-me com o querido Amigo por fazer lembrar, sobretudo aos brasileiros, essa genial pianista. Ouvi as gravações que inseriu nos posts de 9 e 16 de Maio (Rapsódia Húngara, de Liszt, Orfeu e Euridice , de Gluck-Sgambati e o Concerto para piano nº 20 em ré m, K.466, de Mozart!) . Qualquer das interpretações revela uma grande intérprete. A Melodie emocionou-me especialmente. Que expressividade, que delicadeza! Gluck choraria ao ouvi-la. Partilhei-a na minha página do facebook, bem como o Concerto de Mozart.

No seu texto de 23 de Maio , mais uma vez cita no prelúdio do post um pensamento de Agostinho da Silva, que achei profundamente filosófico: ‘Deus não se afirma nem se nega. Deus é, mesmo quando não é, numa plena manifestação da sua extrema liberdade’. Gostei da entrevista que fez ao seu irmão Ives depois de todo o sofrimento por que passou no hospital e também dos dois artigos que ele escreveu. Graças ao Pai do céu, seu irmão regressou ao mistério que é a própria vida.

Ainda em Maio, o que escreveu sobre os Carnets de Saint-Exupéry revela muitos aspectos desconhecidos deste desse grande humanista.

Adorei o seu post sobre Clara Haskil. Das gravações que inseriu no Youtube e que ouvi, partilhei a Toccata em E m, de Bach. Que maravilha! Como é possível haver tanta ignorância sobre Clara Haskil e outros geniais pianistas que foram atirados para o mundo vazio do esquecimento?

As magníficas interpretações do José Eduardo de Les Tourbillons, de Dandrieu e Rameau, também as partilhei na minha página do facebook. Que desenho belíssimo do nosso querido e saudoso Luca Vitali, O giro da bailarina, a ilustrar o post. No Alentejo chamamos, ao turbilhão provocado pelo vento, um ‘espoginho’.

No post de 20 de Junho, as interpretações do pianista russo Emil Gilels são de cortar a respiração. Adorei sobretudo o Prelúdio em si m, de Bach-Siloti, e o célebre Concerto para piano nº 1, de Tchaikovsky. Interpretação vigorosa e ao mesmo tempo profundamente poética e romântica. Os temas dos vários andamentos são, aliás, belíssimos e inesquecíveis.

Fiquei impressionada com Sviatoslav Richter ao ver o documentário Enigma, de Bruno Monsaingeon. A sua interpretação da Fantasia & Fuga em Lá m, de Bach, é um monumento. Como Bach adoraria ouvir esse genial pianista. Partilhei na minha página e muitos amigos ficaram também impressionados com o virtuosismo de Richter. Ele desfaz-se em precisão rítmica! É único!

Desconhecia as obras interessantíssimas que o compositor contemporâneo Paulo Costa Lima lhe dedicou e que o José Eduardo interpreta genialmente. Pega essa nêga e chêra op. 28 e também Imikaiá op. 32 sugerem-me água em límpidas cascatas. O Ponteio-Estudo é de uma grande dificuldade interpretativa. Parabéns pelas suas interpretações! Estive a ver o link sobre o compositor e fiquei encantada. Encantou-me, sobretudo, a ligação que Paulo Costa Lima faz entre a música popular tradicional e a música erudita contemporânea.

Quanto aos posts de Julho, em que o Amigo escreve sobre as problemáticas da Música Clássica ( I e II ), a quadra de Agostinho da Silva, a preludiar o post de 11 de Julho,  ‘Não corro como corria/ Nem salto como saltava/ Mas vejo mais do que via/ E sonho mais que sonhava’ revela a profunda vivência e sabedoria dos velhos.

Creio que a diminuição de público nas Salas de Concerto é o resultado, sem dúvida, de uma Educação deficiente. Mas também se deve a uma ‘dessacralização’ do Ocidente , ou seja, ao desprezo por tudo o que é sagrado, cujo sentido se perdeu. Sendo a Música – popular e erudita, religiosa ou profana – a alma do som, a espiritualização sonora, nada disto interessa hoje aos materialistas e consumidores exacerbados de música barata , medíocre, descartável , ruidosa, que tem contribuído para a decadência da civilização. Justiça seja feita à China, que pretende mostrar ao mundo que assimilou a cultura ocidental, tendo criado centenas de Conservatórios e fábricas de instrumentos musicais…. e ultrapassa o Ocidente!

É uma distorção da mentalidade e mais uma vez uma triste ignorância considerar a Música clássica ligada ao racismo, como se a Música tivesse a cor branca, negra ou amarela. As citações que o José Eduardo menciona, uma de Rameau, ‘A música é a linguagem do coração’ e outra de Albert Schweitzer ‘Quando o homem aprender a amar o menor ser da Criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará de ensiná-lo a amar o seu semelhante’ revelam, sem dúvida, a alma da grande Música (a Mãe de todas as Artes), que é espiritual e profundamente humana.

Não sabia que Luiz Godoy (que dirige os Pequenos Cantores de Viena) tinha sido seu aluno. PARABÉNS! Adorei ouvir a obra de Dick Lee,  Home, pelos pequenos cantores de Viena, outros coros e a Orquestra Filarmónica Juvenil de Singapura. dirigida por Godoy. Partilhei na minha página do Facebook.

Também achei muito pertinente o seu texto sobre La Peste, de Albert Camus (post de 25 de Julho), em que faz a comparação com a actual pandemia que estamos a viver. As tragédias humanas continuam a repetir-se e não são coisa do passado, infelizmente. A actual pandemia tem uma relação directa com a poluição do nosso planeta, que continua a ser destruído. E os déspotas, os governos tiranos não querem ver….

Nos ecos de La Peste fiquei triste com a afirmação de Vargas Llosa, que considera medíocre esta obra de Camus. Não consigo compreender tal afirmação de um homem tão inteligente e humano como Vargas Llosa.

Quanto ao excelso pianista chileno Cláudio Arrau, basta ouvir a sua interpretação da Sonata Appassionata, de Beethoven, para não restarem quaisquer dúvidas da sua genialidade.

Depois de ler o seu post e de ouvir as gravações da pianista russa Maria Yudina, só posso agradecer esta dádiva preciosa e não poderia nunca deixar de escrever algumas palavras, embora insuficientes para expressar, com emoção, a personalidade de tão grande e genial pianista. Na verdade, ela não se enquadra em nenhum “formulário” saído da tradição. A sua filosofia de vida, o seu inconformismo, o seu despojamento perante as riquezas materiais, a sua simplicidade, bondade extrema e profunda religiosidade (era uma cristã ortodoxa convicta), o amor que nutria pelo seu povo, para quem tocava e por quem sofreu, todos estes aspectos da sua personalidade nunca poderiam conduzir Yudina a clichés interpretativos, a imitações ou à dependência fosse de quem fosse. Ela encarnava a própria Música. Por isso, as suas interpretações são únicas, pessoais, e revelam bem a alma dessa mulher extraordinária. Ela teve a coragem de enfrentar o déspota e cruel Stalin, que se rendeu à sua genialidade. Se a interpretação sublime do Adagio do Concerto nº 23 em Lá M K.488, de Mozart, fez chorar Stalin, a interpretação de  Lacrimosa, do Requiem de Mozart (incluída no Documentário russo  Alma Mater), é como uma marcha fúnebre em que Maria Yudina chora por todos os compatriotas perseguidos e mortos.

Afirmava que para ela só havia um caminho para Deus, a Arte. Para compreendermos esta afirmação da própria Maria Yudina basta ouvir a sua interpretação do Prelúdio & Fuga em Lá m para órgão, de Bach (transcrição para piano, de Liszt), num Concerto ao vivo, em 1953. É o esplendor da Beleza. Bach devia ser a sua luz, a sua inspiração. Não admira que, em Leipzig, tenha atravessado de joelhos a praça que a conduziu à estátua do grande Mestre. Emocionante.

Obrigada, querido Amigo, por nos proporcionar interpretações únicas e históricas de grandes pianistas que vieram ao mundo para torná-lo mais belo e humano”.

A mensagem de minha dileta amiga e notável gregorianista corrobora a vontade de continuar. Desde 2 de Março de 2007 ainda não deixei de publicar um sábado sequer meus blogs hebdomadários. Já escrevi que a respiração não pede férias. Continuarei até…

Clique para ouvir pelo Coro “Capela Gregoriana Laus Deo”, Natal de Elvas, Cancioneiro Alentejano. Harmonização e regência Idalete Giga:

https://www.youtube.com/watch?v=l5YnExjckwU

Idalete Giga, choral conductor and an authority on the performance of Gregorian chants who lives in Portugal, is also a longtime friend and attentive reader of my blog. What a surprise to receive a message in which she comments on each of my posts published from last May to the present. Today I share her words with my readers. Idalete is a music lover and  I believe her thoughts can deepen our understanding of the topics addressed.

A carreira singular da notável pianista russa

As relações entre autor, intérprete e ouvinte
são por vezes contraditórias. Para o ouvinte,
o intérprete e o autor se confundem facilmente,
mesmo que ele acredite distingui-los.
Na realidade, o ouvinte pouco se preocupa
com as intenções do autor e se atém àquilo que ouve,
fator este, reflexão feita, que só podemos aprovar.

André Souris
(“Conditions de la Musique”)

A trajetória da pianista Maria Yudina foge completamente daquela de qualquer outro intérprete, se considerado for o rotineiro traçado de um concertista. São tantos os acontecimentos em seu caminho que se torna difícil enquadrar Maria Yudina em um formulário tão repetitivo na maioria das biografias dos executantes, como número de países visitados, regentes afamados sob a batuta dos quais foram solistas de Concertos para piano e orquestra, exaustiva repetição repertorial, recepção crítica. Igualmente distancia-se fulcralmente do politicamente correto no que tange aparência física, dinheiro como status social, presença do empresário, fatos esses que corroboram decididamente a sua interpretação diferenciada. Maria Yudina é convicta de suas execuções plenas da leitura personalíssima das partituras, fator esse que resultaria no respeito de seus ilustres contemporâneos, compositores e intérpretes, mas também em opiniões controversas.

Ao entrar no Conservatório de São Petersburgo estudará, entre outros professores, com Leonid Nikolaiev. Em sua classe teve como colegas Sofronitsky e Shostakovich.

Primeiramente, está-se diante de uma pianista anticonformista, distante de quaisquer padrões. No final da juventude converte-se à religião ortodoxa, devota atenção especial a São Francisco de Assis, torna-se fiel aos seus princípios espirituais. Quando professora no Conservatório de Leningrado, em aula não deixava de predicar, fato que durante longas décadas motivou ações persecutórias na extinta União Soviética e que lhe acarretaria sérios problemas.

Impedida de lecionar, viveu na pobreza durante algum tempo. Lecionou em Tbilisi, na Geórgia, e mais tarde, sob influência de Heinrich Neuhaus, no Conservatório de Moscou e igualmente no Instituto Gnessine. Em 1960 foi proibida de lecionar por motivos ligados à religião e ao seu repertório, que incluía compositores contemporâneos ocidentais que professavam técnicas repudiadas na União Soviética. Poderia dar recitais, mas ficou impedida de ter suas performances gravadas. Antes de um recital, a preceder a leitura de um poema de seu amigo Boris Pasternak, fez o sinal da cruz e o ato valeu-lhe cinco anos sem poder tocar em público. Tempos de Nikita Khruschev, oposto da aceitação inexplicável que Stalin a ela dispensava. Estou a me lembrar que, estando em Moscou para participar do II Concurso Tchaikovsky em 1962, ganhei LPs com obras de Scriabine interpretadas por Vladimir Sofronitsky, falecido em 1961, assim com o Cravo bem Temperado de J.S.Bach por Sviatoslav Richter. Colegas me falaram inúmeras vezes da consagrada Escola Russa de piano, mas jamais mencionaram Maria Yudina, “ressuscitada” nessas últimas décadas. Em seu importante livro “A Arte do Piano” (1º edição russa, 1958), Heinrich Neuhaus não menciona Maria Yudina e Harold C. Schonberg, em sua obra “The Great Pianists” (1963), apenas cita seu nome sem se pormenorizar.

Fez sempre severa oposição ao regime comunista e inacreditavelmente, apesar das críticas ácidas que fazia ao próprio Stalin, jamais recebeu “castigo”, fato inusitado. Um colega russo disse-me certa vez, no início da década de 2010, na Bélgica, que não tivesse ela o respeito de Joseph Stalin teria desaparecido inexplicavelmente, como quantidade incalculável de opositores.

Alguns fatos, entre muitos na vida de Maria Yudina, merecem menção. Bem divulgado há o episódio narrado nas memórias de Shostakovitch. Refere-se ao fato de Stalin ter ouvido através da rádio o início do Concerto nº 23 para piano e orquestra de Mozart, a ter Maria Yudina como pianista. Pediu ao seu ajudante de campo que buscasse a gravação. Todavia, o concerto estava em transmissão direta. Com medo de represálias, o diretor da rádio envia alguém para contatar imediatamente a pianista. Acordaram-na no meio da noite, conduziram-na ao estúdio e uma pequena orquestra chamada às pressas já estava à sua espera. A gravação foi feita com outro regente, pois o da transmissão direta estava traumatizado com o acontecido. A execução foi gravada diretamente num LP e nele adicionaram uma etiqueta. Quando o ditador morreu, dizem que o LP estava na sua vitrola. Em outra oportunidade Stalin lhe concede um apartamento e ela quebraria os vidros das janelas, a dizer que preferia viver como os outros russos menos afortunados. Em carta a Stalin, após receber uma quantia a ela destinada, responderia que daria a importância à sua igreja para que rezassem pela alma do ditador mercê dos crimes por ele cometidos contra o povo russo. Supersticioso, Stalin a admirava, mas nunca lhe respondeu.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina, o Adagio do Concerto nº 23 em Lá Maior de Mozart, K. 488

https://www.youtube.com/watch?v=6l0bsTNsnX0

Apresentar-se-ia na União Soviética e países satélites, mas jamais fora do bloco. Estando em Leipzig pela primeira vez, atravessaria de joelhos a praça que a levaria à estátua de J.S.Bach. Vestia-se de preto, não cuidava da aparência física sempre austera e tinha em suas relações de amizade artistas plásticos, escritores e arquitetos.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina (1952), o Prelúdio e Fuga em lá menor para órgão, na transcrição para piano realizada por Franz Liszt.

https://www.youtube.com/watch?v=1qWSNI_P378

Um ano mais tarde (1953), transfigura a execução e, ao vivo, destaca com incrível pujança a presença dos baixos, a lembrar sua reverberação em uma catedral.

Clique para ouvir, na interpretação gravada ao vivo de Maria Yudina (1953), o Prelúdio e Fuga em lá menor para órgão, na transcrição para piano realizada por Franz Liszt.

https://www.youtube.com/watch?v=puwboQ_zNNI

Após a queda do muro de Berlim, mais e mais a figura de Maria Yudina se agiganta. Fugindo de interpretações características da chamada Escola Russa, já observadas anteriormente (vide blogs sobre Vladimir Sofronitsky, Emil Gilels, Vladimir Horowitz e Sviatoslav Richter), em cada obra por ela executada há a nítida impressão digital. Suas interpretações fogem de qualquer ditame acadêmico. A tendência a uma espécie de “monasticismo social”, seus escritos religiosos, o despojamento total quanto à aparência física, o anticomunismo – anátema diante da Nomenklatura – não a teriam inclinado à interpretação diferenciada da obra J.S.Bach, prenúncio das ousadias propostas posteriormente relacionadas às composições do grande músico alemão empreendidas por outros pianistas? Arrojada ao tocar, demonstrando uma leitura inusitada das partituras, explorando as altas intensidades com bravura incomum, mas também tendo imensa sensibilidade no tratamento das sonoridades em piano e pianissimo e na flexibilização dos andamentos dentro de uma lógica rigorosamente individual, se tantas vezes ela foge dos ditames impostos pela convenção, nunca deixa de transmitir uma visão convincente. Exemplo claro temos na sua leitura dos Quadros de uma Exposição de Moussorgsky, em que Maria Yudina encontra sua visão particular de cada quadro exposto, a chegar até a interferir no original do compositor. Nesse quesito, sobre outra égide, aproxima-se da releitura dos Quadros... realizada por Vladimir Horowitz, essa influenciada, bem possivelmente, pela transcrição para orquestra elaborada por Maurice Ravel.

Clique para ouvir, na interpretação de Maria Yudina, os Quadros de uma Exposição de Moussorgsky, gravação realizada em 1952:

https://www.youtube.com/watch?v=u2WrmLYfkvA

Em artigo publicado no Suplemento Cultura do Estadão (“As mortes do intérprete”, 1988) escrevia que, mesmo se considerando a qualidade do pianista, interpretações que se distanciam das normas da tradição têm grande interesse, mas dificilmente servem de modelo. Maria Yudina buscou caminho interpretativo inédito e bem tardiamente outros também assim agiram. Segui-la como arquétipo na tentativa de imitá-la leva ao simulacro exemplar. Todavia, as interpretações da notável Maria Yudina são extraordinárias. Nome referencial da arte pianística.

O documentário russo “Alma Mater” bem expõe depoimentos preciosos de seus contemporâneos. Há legenda em inglês:

https://www.youtube.com/watch?v=zF03KVIsrns

This post is about the Russian pianist and teacher Maria Yudina (1899-1970), who dared challenge the Soviet State with her advocacy of modern Western composers, religious convictions and open criticism of the communist regime. Joseph Stalin‘s admiration for her talent may have saved her life, but under Kruschev things have changed and she was often forbidden of pursuing some of her musical activitiesYudina’s playing is marked by virtuosity, strength, exceptional control of dynamics, but is also highly personal, deviating from the traditional piano practices of the Russian school. Hidden behind the iron curtain during her lifetime, after the fall of the Berlin wall her name has grown in stature and now commands huge respect in the classical music world.