Duas manifestações que mereceram especial atenção

Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros.
Nunca julgar que aquilo em que se acredita
é efetivamente a verdade.
Fujo da verdade como tudo,
porque acho que quem tem a verdade num bolso
tem sempre uma inquisição do outro lado
pronta para atacar alguém;
então livro-me de toda a espécie de poder – isso sobretudo.
Agostinho da Silva
(Entrevista)

Apesar do desconhecimento que se tem no Brasil da criação musical portuguesa de cariz erudito, tiveram invulgar recepção os dois blogs focalizando o compositor Francisco de Lacerda (1869-1934), neste ano em que se comemora o sesquicentenário do músico nascido nos Açores. Gostariam de conhecê-lo mais. Observei no post precedente que brevemente sua produção maior, as “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, estará no Youtube a partir de minha gravação para o selo belga De Rode Pomp em 1999, com power point preparado pelo ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso e a montagem do vídeo pelo devotado amigo Elson Otake, responsável pelas inserções de minhas interpretações no popular aplicativo.

Também, em parte, foi em torno de Francisco de Lacerda que o compositor e pensador Willy Corrêa de Oliveira e eu estreitamos laços de amizade, tênues e sujeitos aos nossos humores no intramuros universitário durante décadas. Dez anos de silêncio após nossas aposentadorias e reencontramo-nos, primeiramente em torno de sua preciosa obra “Recife, Infância, Espelhos…”, 16 peças que estreei em 1989 e que foram gravadas em Maio último na mágica capela de Saint-Hilarius em Mullem, na Bélgica flamenga, para CD a ser lançado em França pelo selo ESOLEM em 2020, junto a obras de François Servenière, Eurico Carrapatoso e Maury Buchala. Nos nossos 81 anos, Willy e eu podemos manter conversas unicamente sobre temas que nos são caros, como música, literatura diversa, poesia…, distantes de quaisquer assuntos da tumultuada vida universitária. Esse tête à tête sem interferências burocráticas ou acadêmicas alegrou nossos corações. Insaciavelmente, a buscar resgatar tempos perdidos, trocamos livros, CDs e filmes, avidamente copiados. Octogenários, ainda encontramos tempo para recuperações e avanços. Já mencionei em posts anteriores o desenrolar dessa nossa “tertúlia” dual.

Duas mensagens recebidas, com teores absolutamente diferenciados, despertaram minha atenção em particular. Regina Porto, musicista, jornalista e promotora cultural de mérito, escreveu-me e-mail que me calou muito. Há longos anos não entrávamos em contato, nem saberia precisar a distância temporal. Parece eternidade. Em torno de Willy em longínqua apresentação e de Francisco de Lacerda a ser interpretado, Regina Porto rememora e capta o instante do acontecido presente. A reminiscência, nessa fase da vida, pode representar tantas outras memórias. A mensagem de Regina Porto faz-me lembrar dos símbolos que, passados 30 anos, não dimensionara à altura. Percebo, através da escrita da amiga, que eram marcos de resistência. Diminuto e fiel público, a ouvir a primeira audição de criações do Willy Corrêa de Oliveira num período em que nossos laços amistosos não eram constantes.

Regina Porto, dotada de fina observação, apreendeu essencialidades de um relacionamento entre dois músicos. No dizer de Stravinsky, na entidade musical há somente duas espécies de músicos, o criador e o intérprete. Mas há mais, acredito, a depender de voos para outras áreas do pensar que dimensionam as duas categorias de músicos. Sem esses acervos reflexivos, por vezes fruto do acaso, lacunas insanáveis estiolam possibilidades. Ausência de amarras, sempre. Escreve Regina Porto, após meu pedido para estar presente ao recital do dia 26 de Outubro no Ateneu Paulistano em São Paulo:

“Você nem imagina os pulos que meu coração deu com a sua mensagem e o seu convite. É uma memória inteira que voltou, de tantas vivências musicais que partilhamos.

E uma dessas vivências primeiras e mais fortes é justamente a lembrança de você tocando Willy no Conservatório do Brooklin em 1988. Aquele foi um momento histórico que me marcou muitíssimo. Está no centro de toda a aproximação que vim a ter com o Willy tantos anos depois. E de tudo o que eu viria a entender dele a partir daí.

Então, vê-los juntos no palco novamente, em um recital, 30 anos depois (!), é coroar um capítulo de vida, se posso dizer assim. No sentido de entender que a vida ajusta as coisas, todos os desvios, todos os desencontros – ou simplesmente que põe todas as coisas nos seus devidos lugares, num gesto maior de compreensão. E no caso seu e do Willy é um ciclo de anos que se completa: as duas pontas se encontrando de novo. É muito lindo. Muito. Fico mesmo comovida.

Isso tudo para dizer o quanto estou encantada. E o quanto quero poder estar lá para, mais uma vez, ser testemunha de um momento histórico e extraordinário.

A última vez em que estive na casa do Willy (semestre passado), a primeira coisa que ele tocou ao piano para mim foi justamente esse Lacerda que você deu a ele. Significou muito para ele, o seu presente, você nem imagina. Você sabe, o Willy é todo ritualístico, me fez ouvir sem dizer o que era, sem que eu pudesse olhar a partitura, nada, aquelas coisas dele. E fui ouvindo aquela peça e me afundando na poltrona até ficar paralisada, sem reação, de tão profunda e imensa é essa miniatura. Agora só posso ansiar pelo que seja a intensidade de resposta do Willy. E posso intuir o que ela já representa para vocês dois.

Então, muito obrigada por convocar minha presença.

E aqui volto ao chão.

… Não queria perder por nada esse recital. E caso, em último caso, se isso não for possível, deixo desde já um pedido: gostaria de vê-los juntos uma vez, você e Willy, tocando e falando música. Seria uma honra viver isso”.

A miniatura de Lacerda tem título e subtítulo: “Zara – Epitáfio para uma criança” e, a anteceder os 23 compassos da peça, estrofes de um poema de Antero de Quental (1842-1891), igualmente açoriano:

Feliz de quem passou por entre a mágoa
E as paixões da existência tumultuosa,
Inconsciente como passa a rosa,
E leve como a sombra sobre a água

Era-te a vida um sonho, indefinido
E tênue, mas suave e transparente,
Acordaste – sorriste… e vagamente
Continuaste o sonho interrompido

Willy captou a essência essencial de “Zara” em sua “In memoriam Francisco de Lacerda”, miniatura atemporal.

Ao leitor José Alberto, autor da segunda mensagem, respondo através de artigo com o título “Francisco de Lacerda e Claude Debussy por José Eduardo Martins”, publicado aos 12 de Janeiro de 1992 em ‘O Telégrafo’, Horta, capital da Ilha Faial, uma das nove do arquipélago dos Açores e assinado pelo redescobridor de Francisco de Lacerda, o musicólogo, também açoriano, José Manuel Bettencourt da Câmara. Anunciava a digressão que realizei àquela altura por três ilhas, Faial, Terceira e São Miguel.

“Encontrámo-nos pela primeira vez vai para três anos, na tarde acalorada duma Lisboa de Junho. José Eduardo Martins havia dado aqui o recital que o trouxera a Portugal, e eu falhara. Telefonara-me um crítico musical seu amigo, propondo o encontro, e a razão, para mim, já então com notícia, se bem que imprecisa, do percurso do pianista brasileiro, adivinhava-se facilmente: ao intérprete de Debussy, ao músico formado na velha França, interessavam naturalmente os traços que na música portuguesa encontrasse do chamado impressionismo musical, interessaria, concretamente, Francisco de Lacerda. Se algumas responsabilidades me já cabiam na matéria, havia, pois, que arcar com elas…

Para um segundo encontro, dias depois, em casa da minha velha professora, sua amiga igualmente, D. Júlia d’Almendra, apareci munido, como assentáramos, da cópia de trechos inéditos de Francisco de Lacerda, que previamente selecionara (das ‘Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste’ obtivera já José Eduardo Martins um exemplar da minha edição, incluída na coleção ‘Portugaliae Música’ da Fundação Calouste Gulbenkian).

Escutei-lhe então a leitura, à primeira vista, de algumas peças que, se não são de dificuldade transcendente, apelam, contudo, a outras qualidades de que não pode o pianista prescindir. Lembro ainda o esvoaçar leve de ‘Papillons’, sem hesitações, o elaborado modalismo de ‘Feuilles mortes’, o contraponto de ‘Danse funèbre’ – tudo, o que é sem dúvida mais importante, já na boa opção interpretativa, na melhor configuração estilística. Era a primeira vez que aqueles sons – que, tanto quanto sei, não tinham ainda conhecido outros dedos além daqueles que os haviam criado (e dos meus, que décadas passadas sobre a morte do compositor, os procuraram recuperar) – passavam a um outro plano de existência, objeto de diferente exigência interpretativa”.

Fica-me indelével esse sesquicentenário. Propiciou-me a introspecção sonora nessa fase crepuscular. Sondar o som puro que se desprende das harmonias para vibrar com as consequentes ressonâncias que lhe dão permanência, mesmo que efêmera. Mas, não seria a ressonância a alma inefável do som ou dos sons? Francisco de Lacerda, legado.

In this post I publish a message that touched me deeply, in which the journalist and musician Regina Porto whom I’ve known for a long time , recollects with affection the roundabout course of my relationship with composer Willy Corrêa de Oliveira through time. Next, in reply to a reader, I transcribe an article appeared in 1992 in the newspaper “O Telégrafo” (from Faial Island, Azores), entitled “Francisco de Lacerda and Claude Debussy by José Eduardo Martins”, signed by musicologist José Maria Bettencourt da Câmara. This article, so I think, well explains the genesis of my admiration for the work of the Portuguese composer Francisco de Lacerda.


Em torno de uma coletânea singular

Que beleza há na música “apenas ela”,
aquela que não toma partido,
uma busca para surpreender os ditos “diletantes”…
Seria a plena emoção que ela contém encontrável em qualquer outra arte?
… raros são aqueles para quem basta apenas a beleza do som.
Claude Debussy
(carta de Debussy a Bernardo Molinari, 06/10/1915)

No post precedente tracei sucintamente dados biográficos de Francisco de Lacerda, assim como seus laços musicais com Claude Debussy, fundamentais para a conferência do dia 19 no Consulado Geral de Portugal em São Paulo com o tema “Francisco de Lacerda e o requinte sonoro”. Ilustres coetâneos do músico açoriano louvaram suas inefáveis qualidades no comando de uma orquestra. No presente blog, abordarei Francisco de Lacerda compositor, pormenorizando-me nas obras para piano que serão apresentadas no dia 26 no Ateneu Paulistano, em São Paulo.

Comparando-se à opera omnia de tantos ilustres compositores, a produção de Francisco de Lacerda é quantitativamente ínfima. Sob outra égide, o notável Henry Duparc (1848-1933) bem mais não produziu por ter sido acometido por doença mental, impossibilitando-o de continuar a compor regularmente. Seu legado maiúsculo é constituído pelas 17 melodias (1868-1884) que têm sido visitadas pelos mais respeitados cantores, como Gérard Sousay, Jessye Norman, José van Dam, Kiri Te Kanawa… A intensa atividade de Lacerda como regente foi uma das razões para que ele se tenha fixado nas peças de curto fôlego, as denominadas miniaturas. Não obstante, excelsa qualidade emana das “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1902-1922) e da “maioria” de outras pequenas composições avulsas, cerca de três dezenas. Dessas composições apresentarei cinco na segunda parte, que dizem muito da personalidade de seu criador.

“Zara – epitáfio para uma criança” (1900), miniatura que, em apenas 23 compassos, expõe magistral capacidade de síntese. O compositor e pensador Willy Corrêa de Oliveira (1938- ), ao ouvir “Zara”, pediu-me imediatamente uma cópia. Dias após, nascia “In Memoriam Francisco de Lacerda” (2019), outra categoria de síntese onde não faltam alusões a Chopin, Beethoven, Schönberg e Zara, “o som de Zara”, como diz Willy. Gostei imenso. Lembro ao leitor que em 2011 os ilustres compositores Eurico Carrapatoso (Portugal) e François Servenière (França) escreveram, respectivamente, “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste” e “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” em homenagem a Francisco de Lacerda. Apresentei as duas séries no mesmo ano e em primeira audição, na cidade de Coimbra em Portugal.

“Papillons” (1896) evidencia outro compartimento, diria raro, na criação de Lacerda. Trata-se de uma valsa d’un mouvement trés vif et capricieux.

As três peças, pertencentes às “Levantinas – Impressões de viagem”, teriam sido escritas em 1925, ano em que Lacerda esteve no Próximo Oriente. Em “Acrópole – Dança grega”, “Dos minaretes de Suleiman-Djami” e “Ao crepúsculo – No cemitério de Eyoub” Lacerda impregna-se da atmosfera vivenciada e o trio, mormente na segunda criação, emana nítido orientalismo. Quanto “Ao crepúsculo…”, Francisco de Lacerda faria versão para orquestra sob o título “Almourol”. Seu biógrafo José Manuel Bettencourt da Câmara escreve: “É significativo que, no frontispício de páginas musicais indubitavelmente destinadas ao piano, Francisco de Lacerda tenha escrito: ‘Je ne peux rien concevoir sans entendre l’orchestre’… tal afirmação manifesta também, reversamente, o lugar por Lacerda atribuído ao piano, na sua vida e no conjunto de sua produção musical”.

Clique para ouvir de Francisco de Lacerda, Almourol. Budapest Philharmonic Orchestra sob a direção de János Sándor (selo PortugalSom) Fonte: Google / Youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=gF7hzW2SR8I

No post anterior comentei a premiação recebida por Lacerda no Concurso promovido pela Revue Musicale em 1904, estando Claude Debussy no júri. Interpretarei a “Danse du Voile – Danse Sacrée” de Lacerda e as duas danças de Debussy, “Danse Sacrée  Danse Profane”, na versão para piano solo realizada pelo editor do compositor, Jacques Durand (1907), aprovada pelo mestre francês, finalizando o programa do recital do dia 26 de Outubro.

Lacerda seria imortalizado, porém, pela magistral coletânea “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, longamente gestada, que será apresentada na íntegra na primeira parte do programa. Miniaturas que representam uma enciclopédia de timbres, de sonoridades seletivas, de ressonâncias, de processos escriturais. Seguindo trilha paralela à de Debussy nesse aspecto sonoro e na busca dos timbres inusitados, Lacerda realizaria penetração incisiva nessas searas, mormente se considerarmos a extrema economia quanto a processos virtuosísticos e o emprego de formas tratadas de maneira resumida. Sob outra égide, à inexistência da transcendência técnico-pianística contrapõe-se outra transcendência, essa de ordem interpretativa, pois em todas as 36 miniaturas o cuidado com a sequência sonora, que tem de ser seguida com o esmero de um ourives, implica emergir o que há de mais intrínseco no de profundis de um intérprete. A expressão que emana dessas miniaturas corresponderia à contemplação. Inexiste o arroubo, a vaidade a evidenciar egos e exterioridades. Enciclopédia outra de aspectos “interiorizados” da técnica pianística como legatos; substituições dos dedos sobre uma mesma tecla; pedais em múltiplas gradações; articulação; agógica; dinâmica preferencialmente voltada às baixas intensidades; prolongamento sonoro da nota solitária, continuação de discurso que, a certa altura, deixa-a soar até a extinção. Por vezes, na plena textura essa nota tem o caráter de nota pedal, não apenas como fundamental. Essa nota destacada, geralmente de um acorde, estabelece outras ressonâncias. Liberada tornando-se isolada, segue seu destino até o inaudível ou a gerar outras possibilidades. Solitária, povoa as Trente-six histoires… Testemunha sem disfarces as impressões digitais etéreas de Lacerda. A nota som, a soar com suas ressonâncias, está presente em tantas obras de Debussy, mas em Lacerda adquire o permanente convívio.

Temos nas Trente-six histoires… uma fauna basicamente doméstica ou não violenta para o humano e mesmo se há um velho lobo, ele deixou sua agressividade e tem-se um canto de lamento. O bestiário de Lacerda, em muitas situações, busca inspiração e soluções sonoras na onomatopeia. Camille Saint-Saëns, Maurice Ravel, Francis Poulenc e Érik Satie, sob outra égide, assim o fizeram. Em várias histórias Lacerda segue o princípio da música programática, escrevendo frases acompanhando segmentos do discurso musical. Noutras, insere epígrafes em francês, umas jocosas, outras tristes, outras mais reflexivas. Insiro algumas dessas epígrafes, indicando o número da miniatura, traduzindo título e epígrafe:

6 – “O galo e sua sombra”: Um muro branco. / Um galo. / Muito sol!
12 – “Pomba Rola”: Felizes no medo e na solidão…
14“Meu cachorro e a lua”: Venha cá! Cala-te! O que tu vês? / Sombras? Chopin? Debussy? / Venha cá. Cala-te. São Amigos de nós todos.
17 – “O Macaco que Sonha”. Ao fim da peça: Algumas observações: O macaco que sonha… que devaneia, ou o macaco distraído, como quiseres. / Essa História deve ser muito bem tocada, pois deve ser bem uma macaquice… O ponto culminante é a palavra “Sol”. Tu entenderás que nesse momento será necessário que seja bem quente e luminoso. Para o vento, apenas uma pequena brisa, imperceptível. Quanto à queda – patatras? – não mexer o teclado, tampouco os dedos… E estarás bem assim.
18 – “Anacleto, o Simples”: Trata-se do único humano da coletânea: Está escuro…/ Brr… / Faz frio… / Tenho fome… / Brr…
21 – “O bode bêbado”: Bacchus et coetera, / Pã, Faunos e Sátiros, / tudo isso… / sou eu!
22 – “O cordeiro fugidio”: Um cordeiro. / Um rebanho. / Um pastor. / Um cachorro. / Sinos, etc, etc. / Uma colina à direita ao fundo / O mar ao fundo. / O céu muito azul.
23 – “ Pequeno Elefante Chora”: Ele chora pois fez traquinagem e então  apanhou um pouco, lamentando sua mãe e seu país a pensar então em coisas bem elefantinas e tristes…
24 – “O Polvo”. Erik Satie, ao escrever “O Polvo”, integrante da coletânea “Sports et Divertissement” (1911), apresenta o polvo a comer um crustáceo, inserindo a frase após o ato: bebe um copo de água salgada para se recompor”. Lacerda narra a história de seu polvo: O peixinho nada em círculos… e Madame Polvo observa / Viscoso e trágico / Após comer, ela entra em seu buraco… vê-se apenas um olho fosforescente e diabólico. Na realidade, liberando os sons do acorde, Lacerda deixa ouvir apenas a nota solitária tratada acima.
28 – “Lamúria de uma Cabra”: Quando encarceramos uma cabra habituada ao convívio de seus semelhantes, ela emite balidos de desespero, e fica muito tempo sem beber ou comer… (Brehm, vol. III, pag, 604).
30 – “O Velho Lobo”: Acabaram-se os rebanhos! / Colinas áridas; vales desertos! / Os doces e tenros cordeirinhos / Tornaram-se grandes e fortes carneiros / Acabaram-se os rebanhos / Colinas áridas, vales desertos.

O saudoso amigo e pintor Luca Vitali (1940-2013) recriou algumas figuras do bestiário nas atribuições que Francisco de Lacerda conferiu na sua criação maior, as “Trente-six histoires por amuser les enfants d’un artiste”. Essas imagens e mais o power point de todas as 36 histórias, preparado pelo ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso, estarão até o final do ano no Youtube, a partir de minha gravação da obra para o selo De Rode Pomp (1999). Elson Otake, como sempre, já está  a adaptar cronometricamente imagens e música.

As seis ilustrações de Luca Vitali para a coletânea:

“Os pássaros que se vão para sempre”

“Anacleto, o simples”, “Certa raposa”, “Macaco”, “O cão a sonhar”, “O galgo russo”

“O veado ferido”, “O cachorro e a lua”, “O bode bêbado”, “O pequeno elefante chora”

“O galo e sua sombra”, “Duas pombas na torre”, “Mestre corvo”, “O pato que comeu a rã”:

“O polvo”, “Mamãe leão marinho acalanta seu bebê”, “Canção dos pinguins”, “Dança nupcial das morsas”:

“O dragão vermelho”
Alusão à Revolução Russa de 1917?
O ritmo marcial da seção intermediária da peça, a indicação de andamento “encore plus lent” e a frase “Très moscovite et mystérieuse” são indícios.
Luca Vitali teria captado a essência da mensagem de Lacerda:

Se encontramos tantas influências de compositores que Lacerda conheceu pessoalmente ou através de obras, como as de Moussorgsky e Borodin, destaca-se prioritariamente Claude Debussy e, independentemente dos aspectos sonoros, essa influência se estabeleceria também num plano do universo lúdico infantil. Quando estive em tournée pelo arquipélago dos Açores em 1992 (Museu de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira), observei que as inúmeras partituras de Debussy para piano, orquestra, canto, mormente “Childrens’s Corner” (1906-1908) e “La Boîte à Joujoux” (1913) para piano, estavam profusamente assinaladas e estudadas por Lacerda. Essas anotações visavam sobretudo a aspectos coreográficos das duas criações.

Entendo que a obra “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” é capital na literatura pianística. Francisco de Lacerda, apesar de não divulgado à altura, deixou legado insofismável. Contudo, para o público que aprecia a obra de arte que independe de outra categoria de valor, como o impacto e o possante holofote, ouvir Francisco de Lacerda subjetiva tantos outros valores…

The Portuguese musician Francisco de Lacerda, better known as conductor, was also a first class composer, but sacrificed his job as composer to that of conductor. For this reason, his production is very small and basically restricted to miniatures. Though Lacerda has not received the recognition a composer with his accomplishments would deserve, he left a precious legacy behind him, as evidenced by his “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1902-1922), a masterpiece of the pianistic literature on which he worked for twenty years. I will play the “Trente-six histories…” and five of Lacerda’s miniatures for piano, together with Debussy’s “Danse sacrée” and “Danse profane” (original ly written for harp and strings, piano transcription made by Debussy’s publisher Jacques Durand) and “In memoriam Francisco de Lacerda”, by Willy Corrêa de Oliveira, in my forthcoming recital at the Ateneu Paulistano on 26 October.


Sesquicentenário de um grande músico português

Forçado a optar,
Francisco de Lacerda escolhera a direção de orquestra.
É que ele dispunha de outras possibilidades.
E se incorro na grave indiscrição de mencionar
ainda as suas composições,
que muito poucos conhecem,
é porque creio que só o conhecimento delas
revelará completamente a sua personalidade artística.
Ernest Ansermet  (1883-1969)

Serão dois posts a homenagear Francisco de Lacerda, um dos nomes referenciais da música portuguesa nas décadas fronteiriças dos séculos XIX e XX. Em um primeiro focalizarei sucintos dados biográficos, sua ação como regente de orquestra e a relação musical com Claude Debussy, que o marcaria definitivamente ao longo de sua atividade composicional, pois mesmo pequena, multum in mínimo, tem relevância transparente. Conteúdo expandido dos dois posts fará parte da conferência que darei no dia 19 de Outubro no Consulado Geral de Portugal, em São Paulo. Num segundo, abordarei obras para piano, que interpretarei no dia 26 de Outubro no Ateneu Paulistano.

Se em 1973 a Fundação Calouste Gulbenkian publicava, na coleção “Portugaliae Musica”, Trovas para canto e piano de Francisco de Lacerda aos cuidados do compositor Filipe de Sousa (revisão e prefácio), devem-se ao musicólogo José Manuel Bettencourt da Câmara, açoriano como o homenageado, os estudos aprofundados não apenas da vida e da obra de seu conterrâneo ilhéu, como das edições da correspondência do pai do músico, João Caetano de Sousa e Lacerda, ao filho Francisco, assim como das Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste para piano (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, col. “Portugaliae Musica”, 1986), criação a ser interpretada na íntegra no dia 26 do corrente.

Nascido na Ilha de São Jorge, uma das nove do arquipélago dos Açores, ainda adolescente parte para Portugal continental, onde realizou seus estudos mais aprofundados em Lisboa, junto ao Conservatório Nacional. Após os anos de aprendizado leciona no mesmo Estabelecimento de Ensino até 1895, quando uma bolsa de estudos fez com que pudesse se aperfeiçoar em Paris, onde teria entre seus professores Charles-Marie Widor (contraponto e órgão). Após a passagem pelo Conservatório de Paris, ingressa na Schola Cantorum, a ter como mestres Felix Alexandre Guilmant (órgão) e o compositor Vincent d’Indy. Seria este o responsável pela primeira apresentação de Francisco de Lacerda como regente (1900), atividade que o notabilizaria ao longo da carreira. Sempre em ascensão, vemo-lo como Diretor artístico da orquestra do Cassino Municipal de La Baule (Loire Atlantique – 1904) e de Nantes (Concertos Históricos de Nantes). A direção da orquestra do Kursaal de Montreux (1908-1912) fá-lo deparar-se com outra realidade.  Sob sua batuta, alguns dos principais nomes da interpretação europeia se apresentaram, tendo sido o responsável pela execução de obras referencias do período, destacando-se, entre aquelas consagradas do repertório tradicional, criações coetâneas francesas representativas e dos compositores russos de cunho nacionalista. O grande regente Ernest Ansermet (1883-1969), que o sucederia na direção do Kursaal e que se tornaria um dos maiores regentes do século XX, confessaria sua admiração por Lacerda: “a cada vez que me via com tempo disponível em Lausanne, corria até Montreux para assistir a seus ensaios e ele foi meu mestre na direção de uma orquestra, pois regente de primeira categoria”. Em outro escrito louva as qualidades do mestre Lacerda: “Na direção de Francisco de Lacerda deparamos com aquilo que constitui as duas faces de sua personalidade: riqueza e proeminência do instinto musical, que é seu traço pessoal e marca da sua raça; uma cultura profunda e vasta, que é resultado dos seus anos em Paris”. Insiste Ansermet nessa apreensão cultural: “Ela explica a consistência admirável de seus programas, a compreensão que ele demonstra em relação a obras aparentemente alheias ao seu espírito, como as de Strauss ou de Brahms”. Louva a seguir a ato de reger de Lacerda: “ausência completa de truques, de imprecisão, de trompe-l’oreille, simplicidade, clareza, rigor de expressão, franqueza e precisão na dinâmica, no movimento, no acento, no ritmo”. Entre 1912-1913, sob contrato, Lacerda dirigiu em Marselha os Grandes Concertos Clássicos da cidade.

Após esse período glorioso, Francisco de Lacerda permanece durante longos anos nos Açores, período em que intensifica suas pesquisas relacionadas à música de raiz. Em 1921, a demonstrar seu espírito empreendedor, idealiza e funda não apenas a Pró-Arte como a Filarmônica de Lisboa, realizações que tiveram pouco fôlego, mercê de antagonismos que surgiram à sua ação em prol da melhoria da música em seu país. Retorna à França, a fim de desenvolver atividades temporárias como regente em Paris, Marselha, Nantes…

Debilitado fisicamente, retorna a Lisboa, quando continuaria suas pesquisas relacionadas ao folclore português. Parte desse aprofundamento teria progressiva publicação póstuma, o Cancioneiro Musical Português, harmonizações de música de cariz popular. Seu biógrafo, José Manuel Bettencout da Câmara, escreve: “Afirmando-se o seu nome de novo por terra alheia, a Pátria continuará a ignorá-lo, malgrado a homenagem de que, com Viana da Mota, é alvo no Teatro Nacional de S. Carlos a 30 de Abril de 1925″. Prossegue o biógrafo: “Lacerda continua a esperar até o fim da sua vida o reconhecimento que não virá”.  Faleceria em 1934, vítima de doença prolongada, a tuberculose pulmonar.

Francisco de Lacerda guardaria indelevelmente admiração plena por Claude Debussy. Dataria a aproximação entre os dois ao ano de 1904, quando de um concurso de composição organizado pela “Revue Musicale”, no qual Lacerda obteve o primeiro prêmio com sua Danse sacrée – danse du voile. A respeito desse concurso, escreve Ernest Ansermet: “…a sua obra foi premiada e publicada, tendo no júri deixado impressão suficiente para que um dos seus membros, M. Claude Debussy, lhe prestasse homenagem pública, dela retirando, com toda a franqueza, um tema a partir do qual escreveu uma outra dança para harpa cromática e orquestra”. Trata-se das célebres Danses – Danse Sacrée et Danse Profane (1904), em que tema da Dança de Lacerda, assim como o título, testemunham admiração pelo músico açoriano. Se as Danças dos dois compositores serviram para uma aproximação maior em 1904, seria contudo o distanciamento, que se dá devido à atividade de Lacerda como regente fixado temporariamente em tantos centros geográficos fora de Paris, que progressivamente sedimentaria no músico açoriano a irrestrita e perene admiração pelas criações de Debussy.

Tem-se quatro cartas conhecidas do mestre francês para Lacerda (1906-1908), assim como citações de seu nome em missivas endereçadas a músicos, enaltecendo as qualidades de Lacerda. Nas cartas de 22 de Janeiro e 9 de Março de 1906, Debussy faz referência à ópera Fêtes de Polymnie, de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), pois encarregado da revisão, pedira a ajuda de Lacerda para esse mister. Debussy reiteradas vezes tece elogios à regência competente do músico açoriano e ao seu trabalho de investigação musicológica: “Lacerda é um músico sólido e experiente, que poderá prestar relevantes serviços em tudo o que se refere aos coros e à orquestra. Tem, em acréscimo, o gosto e o conhecimento profundo dos velhos mestres, o que é raro em nossa época…” (carta a Albert Carré, 08/06/1906); “Aconselhei Lacerda a publicar os Chants et Danses d’un petit peuple oublié… escreverei prazerosamente o prefácio” (carta a Louis Laloy, 11/06/1906); “Permita-me recomendá-lo com ênfase, pois ele é um excelente músico, acreditando mesmo que existam poucos regentes de orquestra que poderiam prestar melhores e mais seguros serviços” (carta a sugerir Lacerda a Alexandre Émery como regente no Kursaal de Montreux, 25/08/1908). Nomeado para o posto, Lacerda recebe de Debussy a carta bem significativa quanto à escolha: “… não lhe parece preferível respirar os ares de Montreux ao invés do perfume de sacristia da Schola?” ( carta a Francisco de Lacerda, 05/09/1908).

Entende-se a ironia de Debussy, pois conhecedor da formação de Lacerda na Schola Cantorum, estabelecimento no qual Lacerda esteve a estudar a partir de 1897. Entre os fundadores da Schola estava Vincent d’Indy, que, com seus colegas, tinha como um dos postulados a restauração da música antiga. Debussy não nutria a menor simpatia pela Schola Cantorum. Se princípios indeléveis da Schola podem ser detectados na composição de Lacerda, preponderam as inovações propostas por Debussy, mormente na qualidade sonora, na essência essencial a visar ao timbre, às ressonâncias, às baixas intensidades, que ficariam indelevelmente na mente do músico português. Imitação estilística? Absolutamente não, pois essas apreensões de tendências até antagônicas possibilitaram a Lacerda o amálgama. Se o aprendizado da Schola Cantorum permaneceu como “captações formais”, poder-se-ia dizer que a influência de Debussy é patente em vários procedimentos, a preponderar o culto às sonoridades inusitadas, ao timbre seletivo.

Considere-se que a dedicação à regência em alto nível foi um dos motivos da criação restrita, mas reveladora das qualidades escriturais de um grande mestre. Composições para piano, canto e piano, orquestra, orquestra e canto, câmara, coro, órgão…, geralmente de curta duração, constituem um legado significativo para a música portuguesa.

No próximo post abordarei a obra para piano de Francisco de Lacerda e determinadas características estilísticas de suas esmeradas miniaturas, presença de um estilo personalíssimo.

This is the first of two posts addressing Francisco de Lacerda (1869-1934), one of the most prominent figures of the Portuguese classical music in the late 19th and early 20tth centuries, with a brief biography, his role as composer and conductor, his relationship with Claude Debussy, who would be an indelible influence in his works as a composer. The contents of the two posts are part of a talk on Lacerda I will give at the Consulate-General of Portugal in São Paulo on October 19, followed by a recital with Lacerda’s music for piano in the Ateneu Paulistano concert hall on October 26.