E outras publicações de Catherine Lechner-Reydellet

O artista não conquista se não sobre a imitação;
pois toda forma existe, na origem,
através da luta de uma forma crescente contra uma forma imitada.
André Malraux

Em blogs recentes abordei o livro “Messiaen-l’empreinte d’un géant” da escritora e pianista francesa Catherine Lechner-Reydellet. Gentilmente enviou-me quatro outras publicações, as quais evidenciam a pluralidade do pensar da professora do Conservatoire de Grenoble. O objeto deste blog está direcionado ao “Traité de technique musicale pour tous” (Paris, Harmattan, 2014). Quanto aos três outros livros, dois revelam parte do universo poético da autora e um terceiro é dedicado à prosa e serão tema para o blog do dia nove de Fevereiro.

O “Traité de technique musicale pour tous” (Paris, Harmattan, 2014) tem real importância. Ao longo da história, incontáveis tratados sobre a técnica musical foram publicados no Ocidente, uns didáticos, outros herméticos e outros beirando transmissão de conhecimento de maneira até pueril. Atingir equilíbrio, a tornar o texto compreensível sem as amarras acadêmicas, não parece tarefa fácil. Estou a me lembrar de dois “tratados” pianísticos que bem compreendem a técnica a ser adquirida por um jovem estudioso de piano. Foram escritos por dois lendários pianistas franceses. Alfred Cortot (1877-1962),  ao escrever “Principes rationnels de la technique pianistique” (Paris, Maurice Senart, 1928), propõe incontáveis “fórmulas” criteriosamente organizadas sob o aspecto formal, sendo de grande interesse, mas complexas ao ponto de desestimular estudantes. Marguerite Long (1874-1966), ao escrever “Le Piano” (Paris, Salabert, 1959), realiza uma síntese de procedimentos que se perpetuavam a mais de século e meio. Dois tratados com aproximadamente o mesmo objetivo, mas tão diferentes no conteúdo.

Poder-se-ia dizer que tratados de música existem em quantidade apreciável espalhados pelo mundo, mormente pela Europa. Ao propor um “Tratado de técnica musical para todos”, Lechner-Reydellet escolhe subtítulos, numa abrangência que contempla alguns temas essenciais da música, a dar uma noção didática e transparente a segmentos que oferecem até armadilhas, graças ao leque de opções que pode se apresentar. Divide-se em cinco capítulos: La Théorie musicale, L’intérprétation musicale, L’écoute et l’analyse, La transposition e l’improvisation. Completa o livro um dicionário a abranger léxico de termos próprios à linguagem musical, assim como lista seletiva de compositores.

Uma das qualidades do “Traité de technique…” é seu alcance, desde o iniciante em música verdadeiramente atento ao leigo com verniz musical, no melhor dos sentidos.

O “Traité…” abre teorizando. A autora transmite sem empáfia, com absoluta clareza, desde as noções básicas da linguagem musical como som, ritmo, timbre, figuras das notas, claves, intervalos, notas enarmônicas, tempos dos compassos, escalas, tonalidades maiores e menores, assim como outros elementos essenciais. As explicações vêm sempre acompanhadas dos exemplos pertinentes.

No capítulo voltado à interpretação musical a autora expõe os fundamentos para que se chegue a contento ao resultado: “Análise detalhada das obras antes da execução. A análise é o estudo de uma obra musical para se compreender sua gênese, sua construção, seus desenhos. Ela examina diferentes pontos muito precisos, necessários para a boa interpretação”. Enumera as modalidades de análise: “a época e o gênero; a composição, a estrutura a forma; o tempo; a melodia; a cadência; a nuance; o ritmo e a acentuação; o caráter”. Pormenoriza cada item e, como exemplos do primeiro, época e gênero, dá uma explicação resumida dos períodos históricos, do fim da Idade Média às tendências mais hodiernas. No item “a composição, a estrutura e a forma musical” perpassa, em ordem alfabética, os principais modelos musicais, explicitando a seguir suas estruturas, sempre com proverbial clareza. Allemande, Boléro, Cantata, Gaillarde, Lied, Madrigal e tantos mais desfilam no “Traité de Technique…” de maneira harmoniosa e seguem explicados de maneira transparente, não professoral. Lechner-Reydellet explicita as várias construções formais que caracterizarão cada gênero mencionado. Sobre a Fuga, observa bem simplificadamente: “Ela não é uma forma, mas utiliza o processo de imitação sujeito/tônica – resposta: dominante”. O item “o ritmo e a acentuação” é bem rico e a autora apresenta exemplos que servem de modelo para a prolixa utilização rítmica encontrada no repertório musical.

No capítulo voltado à “l’Écoute et Analyse”, Catherine Lechner Reydellet expõe a essência essencial da boa escuta, aquela que desenvolverá o espírito crítico: “Aprender a escutar é adquirir uma formação e uma cultura do senso musical. É saber progressivamente descrever, explicar, caracterizar elementos sonoros para formular sua percepção de maneira clara e desenvolver assim as competências artísticas”. Quanto à análise, escreve: “É a disciplina indissociável da escuta e da interpretação, disciplina que consiste no estudo aprofundado e não global de uma obra musical para se compreender inteiramente sua ossatura e sua construção. Essa análise hermenêutica conduz à apropriação total da escritura de um compositor e passa por diversas etapas”. A autora elenca os vários procedimentos analíticos a permitir ao intérprete a liberdade de expressão e, ao ouvinte, a escuta esclarecida.

No capítulo “La Transposition”, Lechner-Reydellet bem sabiamente esclarece que “A transposição é uma operação que consiste em reproduzir uma peça de música em uma tonalidade diferente da tonalidade original. A transposição modifica pois a altura absoluta de todos os sons, conservando os mesmos intervalos, os mesmos ritmos, os mesmos compassos”. Poucos intérpretes são hábeis em transposição, conhecimento rigorosamente necessário a um bom acompanhador.

No que concerne à “L’Improvisation”, Catherine Lechner-Reydellet surpreende com uma frase inicial “A improvisação não se improvisa”. Continua: “Trata-se de um processo no curso do qual o instrumentista ou um grupo de instrumentistas produz uma obra musical espontânea, servindo-se de seu saber técnico e teórico, para chegar a um resultado o mais criativo possível”. A seguir, a autora, de maneira didática, estuda os vários processos para se atingir um bom nível na improvisação (tradução: JEM).

A segunda parte do livro é dedicada a um “Dictionaire Musical”. Apesar da brevidade, ele é substancioso, pois a autora não apenas apresenta lista – com comentários pertinentes – dos principais compositores que a história elegeu, como, sempre em ordem alfabética, expõe os principais elementos que constituem a linguagem musical.

Tendo percorrido incontáveis tratados musicais ao longo da existência, mormente nos anos de formação, a leitura do “Traité de technique musicale pour tous” foi um agradável convívio e a certeza de que Catherine Lechner-Reydellet atingiu com competência o propósito a que se dispôs.

Comments on the book “Traité de Technique Musicale pour Tous”, by Catherine Lechner-Reydellet, French pianist, writer and professor at the Conservatoire de Grenoble. In five chapters, the author conveys with clarity and accuracy the basic notions of musical techniques. The second part of the book consists of a music dictionary, listing in alphabetical order the main elements of the musical language and the most celebrated composers in history. A very complete book capable to appeal, as the title says, to all: from budding music students to advanced ones or anyone else who needs to understand the more important concepts of music theory.

 


Leitores e seus posicionamentos

Mais custa quebrar rocha do que escavar a terra;
mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou.
A grandeza da obra é quase sempre devida
à dificuldade que se encontra nos meios a empregar.
Agostinho da Silva

Foram inúmeras as mensagens sobre o último blog. Leitores e alguns ex-alunos escreveram, o que me leva a compartimentar posições no presente post. Desses alunos que estudaram minha disciplina piano, mas que frequentaram a classe de Willy Côrrea de Oliveira, ficariam marcas indeléveis, pois tantos têm a lembrança perene dos ensinamentos de Willy. A essência transmitida em aula pelo professor passou por inteiro e a única palavra inexistente nessas mensagens pós-aprendizado é o termo indiferença. Willy Côrrea de Oliveira permanece nas mentes desses missivistas pelo legado. Legião de docentes é esquecida mesmo antes da conclusão de curso.

Transmito duas mensagens aos leitores, do advogado e escritor Pedro de Almeida Nogueira e do Professor Titular da FFLECH-USP, Gildo Magalhães. Almeida Nogueira comenta: “Li seu texto no blog, conduzido pela curiosidade que o formato do livro de Willy, que não conhecia, me despertou. Gosto muito da forma leve e inteligente de sua narrativa e vou me acrescentando com as frases que dizem muito. Hoje me encantei com o Willy dizendo: ‘…encontrei-a numa tarde e brincamos a tarde inteira, amei-a (sem que ela soubesse) por semanas a fio’. Tenho uma consideração muito grande pelos nordestinos, em especial pelos pernambucanos e, em termos de música popular, não sei por que não há um trabalho (pelo menos não conheço) desenvolvido nos acordes do frevo. Capiba, Nelson Ferreira, o irreverente Maestro Spok, Gaby Amarantos e tantos outros. Veja que não é sugestão, apenas uma lembrança”. Creio que Willy poderia responder. Falarei com ele. Gildo Magalhães observa: “Belíssimo texto desta semana! É de pura crítica no melhor sentido da exegese. Quem, como eu, já cruzou com Willy, percebe uma qualidade do blogueiro: a atenção para a pessoa humana, pois sem deixar de apontar as estranhezas, conhecidas por alguns, do compositor, reconhece o mérito daqueles que têm muito a dizer”.

Quanto ao Willy, visitei-o outra vez. Levei-o ao cartório, a fim de autenticação autorizando-me a gravar em Maio, na Bélgica, sua coletânea “Recife, Infância. Espelhos…”, obra que pertence ao meu universo de afetos. Após, permanecemos longamente em um café no Brooklin e nossas conversas passaram pela diversidade e contrastes: Haydn-Mozart, Debussy-Ravel e pela música contemporânea, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen, assim como pelos cineastas Andreï Tarkowsky e Ingmar Bergman. Se a criação artística foi temática descontraída, mas a considerar tantas derivantes que percorrem nossas mentes, a interpretação pianística também teve relevância na troca de ideias. Ambos temos inclinação nítida pelos intérpretes do passado. Vladimir Horowitz, Vlado Perlemuter, Andor Foldes, Wilhelm Kempff foram alguns dos nomes referenciais lembrados, além de Vianna da Motta, extraordinário músico português, que mantinha sob os dedos um repertório descomunal (vide blogs: “Vianna da Motta – 1868-1948″, 07/07/2018 e “Seria Vianna da Motta lembrado à altura de seu mérito?”, 14/07/2018). Ouvintes das gerações mais recentes podem entender-nos saudosistas. Contudo, naturalidade, reflexão, envolvimento com a essência essencial deixada por um compositor, graças em parte à ausência dos portentosos holofotes atuais – praga que oblitera o aprofundamento -, tornaram-se concordância em nossos diálogos sobre pianistas. Salientaria uma exceção ainda em plena atividade, Daniel Barenboim, por nós considerado o intérprete mais completo da atualidade. Mencionei uma observação de Barenboim sobre a interpretação nos nossos dias, a priorizar a virtuosidade. Afirma o grande pianista, regente e pensador que os ouvidos humanos não conseguem apreender a velocidade extrema, desiderato de tantos, à la manière dos atletas olímpicos. Quanto à concepção para a execução de uma obra, Willy e eu mostramo-nos concordes com a arquitetura sonora que Barenboim extrai de uma partitura musical.

De outro segmento das missivas eletrônicas de leitores não músicos, ficou-me a impressão de um não dito em meu texto anterior, pois tantos também me perguntam sobre a carreira de professor na Universidade e sugerem-me abordar esse espinhoso tema. Como meu blog existe sem interrupção desde Março de 2007, lembrar-lhes-ia que dois posts do “passado” têm, sob a égide cirúrgica ou fulcral – se assim pudermos a eles fazer referência, mormente aos leitores mais recentes – uma visão ampla após minha leitura de três livros, que entendo referenciais e dos quais teço comentários: “Os Últimos Intelectuais”, de Russel Jacoby (vide blog: 21/03/2009), “Teoria Geral da Estupidez Humana” e “A Nova Ordem Estupidológica”, de Vitor J. Rodrigues (vide blog: 14/08/2010). Penetram fundo no compartimento da docência na Universidade, sendo que os de Vitor J. Rodrigues mostram-se ainda bem mais enfáticos na crítica aguda às mentes docentes na Academia.

Mais de dez anos me separam do ensino na Universidade de São Paulo, graças à compulsória, àquela altura aos 70 anos. Contudo, responderia àqueles que me questionaram que, ao longo dos anos aprendi a diferenciar categorias de professores. Sucintamente, diria que na essência temos: vocacionado (inteira e prazerosamente dedicado ao ensino), burocrata (décadas a repassar os mesmíssimos ensinamentos, sem renovação e sem rubor), pesquisador, compartimentado em dois segmentos (brilhante nessa área e menos eficiente como didata, ou convincente nas duas atividades), carreirista (facilmente detectado, devido à indisfarçada volúpia pela ascensão na carreira diretiva, e para o qual a docência – mesmo que eficaz -, apresenta-se apenas como instrumento para voos intencionais visando ao Poder na Universidade), “profissional” de bolsas ou de subsídios para projetos de pesquisa, nem sempre de interesse. Creio que o leitor tirará conclusões abrangentes ao ler os posts mencionados, que aprofundam essa temática. Nesse item, em conversa na década de 1990 com colega de uma outra área que estava sempre com verbas a receber, dele ouvi que tinha muito maior trabalho em aprontar relatórios para os Institutos do que com a própria pesquisa!!!

O reencontro com Willy Corrêa de Oliveira, abastecido por tantas intenções mantidas no de profundis durante décadas e que estão aflorando, como se a buscar a recuperação do tempo, marca um momento prazeroso que, espero, perdure. Jamais, nas décadas da docência universitária, tivemos contato tão bom e descontraído. Nossos 80 anos trouxeram uma natural serenidade, mercê da decantação. Mesmo se tema possa levar a possível antagonismo de ideias, um absoluto respeito mútuo instaurou-se nessa releitura de relacionamento depois de longa hibernação. Impossível qualquer excesso. Não mais temos tanto tempo…

Today I publish messages received with comments on the previous post about the composer Willy Corrêa de Oliveira and his book “Passagens”. Willy and I have been contemporaries at the Department of Music of Universidade de São Paulo till we both retired. We met a few times recently due to my forthcoming recording of his work for piano “Recife, Infância, Espelhos…” and all I can say is that never in the past have we had such pleasant moments together. At our age, mutual respect prevails over any possible antagonism of ideas. And since many have asked my opinion about the academic career, I also explain briefly each of the categories into which I classify university teachers: naturally gifted, bureaucrats, researchers, careerists, experts in obtaining fellowships and grants from research funding institutions.

 

Reminiscências da infância

Por uma noite, em criança,
tive uma estrela que brilhou pela minha vida inteira.
Willy Corrêa de Oliveira
(Extraído da passagem “Apocalipse no fundo do quintal”)

Willy Corrêa de Oliveira é uma figura de convicções firmes em todas as áreas em que se pronuncia. Compositor de muitos méritos que viaja numa escrita multifacetada, extremamente cuidadosa e sensível. Um dos nomes essenciais da vanguarda no Brasil. Seu pensamento, rigorosamente pessoal, tem sempre profundo interesse. Diria que suas escolhas literárias, musicais e artísticas ratificam seu pensar.

Convivi com Willy durante décadas na Universidade. Éramos colegas. Acredito ter sido Willy o professor mais emblemático da Música na Universidade de São Paulo, pois parte considerável de seus alunos o veneravam e, não raro, seguiam-no pelos caminhos maltratados do entorno do Departamento. Mesmo aqueles que o criticavam jamais o faziam sob o aspecto da essência do que lhes era transmitido, mas sim por suas posturas de impacto e inusitadas frente à classe. Após nossas respectivas aposentadorias em 2008, através da compulsória, não mais o vi. Curiosamente, apesar da ausência de uma aproximação maior com Willy, tivemos dois recentes encontros em que pudemos nos entender bem amistosamente, como jamais ocorrera no campus universitário. É fato. Estamos exatamente nos 80 anos de idade e nessa faixa – é de se crer – distanciamo-nos de qualquer tentativa de simulacro. Fomos ao piano em seu estúdio e nos revezamos na mostragem que ele fez de exemplos de criações recentes e de outras, bem mais antigas, que toquei e que deverão fazer parte de meu próximo CD a ser gravado na Bélgica, na milenar Capela Saint-Hilarius em Müllem. A certa altura Willy me perguntou se tinha medo da morte. Minha resposta negativa deixou-o surpreso, pois asseverou o contrário.

Reações inesperadas de Willy Corrêa de Oliveira são proverbiais e ficaram registradas na memória. Em 1989 fomos ao Rio para a gravação de meu último LP no Brasil para o selo FUNARTE, dele a constar unicamente obras de sua autoria que estudei com entusiasmo. Gravei extenso repertório que seria lançado no ano seguinte. O desvario do recém empossado Presidente Collor de Mello, num desastroso início de mandato, inviabilizou a edição do material gravado, assim como os projetos que estavam em andamento na Instituição. O material desapareceu, exceção à coletânea “Recife, Infância, Espelhos…”, que Willy conservaria em fita cassete e mais tarde em CD particular. Adoro essas 16 peças, que estarão definitivamente gravadas, agora nas melhores condições planetárias possíveis na planura da região flamenga da Bélgica. Estou a me lembrar de que, durante os dias no Rio de Janeiro, fomos jantar com amigos e um convidado. Este era simplesmente esverdeado. A conversa encaminhou-se para a coloração inusitada do indivíduo, que mencionou ter recebido forte e irreversível radiação. Sentado ao seu lado, Willy estava intrigado e não falava. A certa altura – já o tema das conversas era outro – perguntou ao cidadão: “Você esteve em Chernobil?”, a se referir à catástrofe nuclear ocorrida em 1986 na então República Socialista Soviética da Ucrânia. O amargurado homem negou, mas observou que sofrera radiação no Brasil (creio ter mencionado a propagada contaminação por radioatividade ocorrida em Goiânia em 1987). Willy desajeitadamente levantou-se, sem querer provocar reações, e foi-se para outro assento.

Alegrou-me a dedicatória de dois Estudos para piano de Willy: “Hanns Eisler in memoriam: für das volk der DDR” (In memoriam Hanns Eisler: para o povo da DDR), composto em 1989, e “Estudo – retrato de José Eduardo Martins”, finalizado no dia de meu aniversário em 1990. O primeiro, tema com cinco variações, é verdadeira obra-prima, e o segundo a exigir do intérprete o controle absoluto da distância intervalar, mercê da presença de semicolcheias obsessivas em presto. Belo Estudo magistralmente escrito. Apresentei-os publicamente. “Hanns Eisler – para o povo da DDR” (Deutsche Demokratische Republik) em Potsdam e Berlim em fins de Maio e começos de Junho de 1989, na antiga Alemanha Oriental, meses antes da queda do muro. Ao receber o programa em Potsdam das mãos de um administrador – deputado igualmente -, observei que faltava a razão do título, ou seja, o “povo da DDR” enfatizado por Willy. Apenas respondeu-me que havia dois regimes distintos vigentes, mas que o povo da Alemanha era um só, motivo da supressão da sigla. Ao regressar entreguei o programa a Willy Corrêa de Oliveira e a Gilberto Mendes (1922-2016), pois deste também apresentara “Um Estudo? Webern e Eisler caminham nos mares do Sul”. A reação de Willy foi imediata, questionando-me sobre a ausência da sigla DDR. Após minha explicação, recusou-se a receber o programa. Se naquele momento causou-me forte estranheza, compreenderia mais tarde que a reação condizia com um dos atributos ou virtudes de Willy, a coerência.

Dos nossos dois encontros, que se prolongaram em clima extremamente cordial, recebi “Passagens” (São Paulo, Luzes no Asfalto, 2008), livro de Willy editado num formato pequeno, espécie de pasta a abrigar folhas soltas seguindo ordenação alfabética dos títulos, mas a dar liberdade ao leitor de poder fazer sua escolha, organizando-as ao seu gosto. Temos mais uma revisita de Willy à sua infância na cidade que o viu nascer, Recife. Curtas narrativas extraídas do seu de profundis, recuperando momentos, por vezes instantes, que permaneceram inalienáveis num compartimento secreto. E as pequenas passagens, inconfessas durante imensas décadas, fadadas estariam ao ostracismo não fosse a memória que a reteve. Experiências individuais, escondidas durante toda uma existência, afloram com tonalidades narrativas sedutoras. Passagens que contêm introspecção única, não transferível. A quem contaria essas observações lúdicas? Talvez uma ou outra narrativa pudesse ser conhecida. Todavia, a ideia do “livro”, dedicado ao neto Lucas Dessalien, possibilitou lidar com as reminiscências e ligar elos de uma infância feliz. As brevíssimas crônicas passam ao leitor a autenticidade. Willy as escreveu aos 70 anos, num estilo tão ao gosto da percepção dos pequeninos, a estabelecer a aura da magia. Senti esse poder imanente na coletânea para piano mencionada: “Recife, Infância, Espelhos…” de 1989.

A contracapa do livro sintetiza a origem da ideia que levaria à decantação das lembranças: “Neste livro tudo o que é contado ocorreu antes dos 10 anos de idade. Não obstante, não se trata de autobiografia porque o cotidiano nã0 foi cotado. Preferimos indigitar tão só as passagens que observadas desde certo termo da vida do passageiro, aparecessem como passos essenciais (fundamentos): aquelas que se engramaram no ser indiviso, e não só na memória”.

Compartimentados, a maioria dos mais de trinta textos tem títulos sugestivos. Tantos tratam desses lúdicos devaneios rememorados, idílios de uma só via, sonhos de miúdo a ter coleguinhas ou filhas de vizinho como referência. Estando na mesma faixa etária de Willy, também tive minhas musinhas. E como frequentavam minha mente… Willy dedica a elas várias passagens, nomeando-as ou simplesmente mencionando etereamente as pequenas figuras femininas. Seria na passagem “Memórias de Casas Novas” que Willy amplia o leque desses deliciosos idílios da infância e um desenho em espiral na folha do texto contém o nome de algumas dessas meninas. Uma frase em um desses recortes diz tanto: “Encontrei-a numa tarde e brincamos a tarde inteira, e amei-a (sem que ela soubesse) por semanas a fio”.

Uma das virtudes de Willy, tão característica na literatura russa, mormente Dostoiewsky, é a observação. Seja ao tratar do mobiliário e dos espaços onde viveu a infância, descritos nos pormenores, ou quando se fascina pela luz mutante a incidir numa sala ou terraço, o que faz com que o menino acompanhe essas transformações, à la manière de Monet e a Catedral de Rouen, o olhar do garoto recifense está sempre atento e as imagens ficariam indelevelmente gravadas na memória.

Paradoxalmente, Willy, professor que influenciou gerações, graças também à abrangência de seus conhecimentos multidirecionados, comenta em “Bandeira do Reino do Desespero”: “Fiquei no Internato do Colégio Americano Batista do Recife por um semestre (ou dois) na divisão das crianças mais tenras. Afirmavam que aprenderia mais e melhor e que a disciplina iria me fazer bem. Não foi verdade. Não aprendi nada, melhor: menos ainda. Em escola nenhuma: então e nunca”.

Em “Bestiário Besta”, Willy desfila animais domésticos, nomeando cães e pombos, discorre sobre uma patativa que comprou na feira e descobriu-se mais tarde que estava tuberculosa. No sudeste denominamos facão (o tórax seca e os ossos ficam salientes), moléstia que leva fatalmente à morte. Ficaria “furibundo com o comerciante de pássaros da feira que me havia enganado”. Teve galinha de estimação, poupada da morte certa que viria pelas mãos da Creusa, “…galinha que tinha o peito estofado (como câmara de ar inflada), mas não de vaidades… Não muito tempo após amanheceu morta. Chorei”. Estou a rememorar minha infância e o vasto quintal onde coabitavam araras, papagaios, pássaros vários, peixes em dois tanques bem grandes, galinheiro e devidas incubadoras e mais jabutis e cães. Uma festa!

A morte a conviver no cotidiano é lembrada por Willy nas “Três Mortes prematuras” e outras mais. Causam impacto na mente da criança, daí rememorá-las com certa ênfase. O imenso pianista Wilhelm Kempff não traduziria o efeito da morte de sua avó em sua imaginação de menino em “Cette Note Grave – Les années de la jeunesse”, em uma das mais pungentes páginas do gênero?

A antagonizar essa temática, histórias plenas de jocosidade levaram-me a gargalhar: “Mijo Mortal” e “Noite de Circo”. O garotinho entraria pela primeira vez num cômodo de despejo de sua morada e urinaria em uma parede. Fê-lo muitas vezes. Certo dia “… ouvi distintamente, Sila falando para Zulmira: ‘Cheiro horrível de xixi lá no quarto de despejos. Vou pôr fogo pra quebrar o cheiro; agora: dizem que seca o xixi da pessoa que fez e que a pessoa finda morrendo de xixi secado’. Perdi – naquela hora – a paz. Vivi dos pés à cabeça a estrutura fundamental de todas as angústias”. O intento realizado por Sila levou a criança ao desespero, contemporizado pelos adultos: “Vi-me cercado de familiares que me juravam que o meu xixi não ia secar não. Que eu não morreria, não”.

“Noite de circo” é hilariante. Willy escreve: “Fomos à loja comprar um fato novo com o fito de irmos ao circo no sábado. Sempre preferi circos a roupas, mas desta feita a conjunção roupa e circo valia alegria cheia. De boa vontade dispus-me a experimentar (frente ao espelho, e aos olhos e mãos das mulheres acertando as minudências das vestes sobre o corpo), pacientemente, até a eleição final para gáudio de todos nós. Um conjunto marrom com detalhes (pala, vira das mangas e bolsos) em bege xadrez diagonal com cores combinantes. Faziam vista até para quem gosta mais de circo e brinquedos de que de roupas”. Vem a noite esperada e o maravilhamento do circo, banda a tocar, a amazona em ousadas trocas de cavalos, palhaços, chineses habilíssimos nos trapézios e… “A seguir vieram os macacos. Multidão de macacos. Nunca vistos: tantos. As luzes rodeando-os para focá-los, e distingui – Céus! – todos (às dezenas): todos vestidos como eu: todas as roupas dos macacos eram iguaizinhas à minha. Idênticas, infalivelmente da mesmíssima confecção. Senti-me macaco (igualmente) na vida”. Prossegue o autor: “Alguém pode imaginar o que é uma criança ganhar uma roupa nova para estreá-la no sábado, dia inesquecível de um circo monumental, o sorriso franco luzido (chispando dos olhos, ventas, poros), e sentar-se na arquibancada para descobrir – em mágoa – que se assemelhava a macacos, e que toda a gente já sabia, estariam de olhos nele, arregalados, risotando do menino vestido na plateia, fora do picadeiro?” Willy finaliza que “nunca conseguiram que eu tornasse a usar a trágica indumentária”.

É de se salientar a recorrência da cantiga infantil Você gosta de mim? Ela surge nomeada, com o tema simples apresentado ou harmonizada no correr do livro. Faz-me lembrar da frase do poeta português José Gomes Ferreira: “Música minha antiga companheira desde os ouvidos de criança”.

“Passagens” encanta. Willy perpassa o cotidiano do menino que ele foi nesse incessante acúmulo que pode ser tão mais marcante se vivido numa plenitude. As várias mudanças de morada acentuam a diversidade geográfica que possibilita o aguçamento do miúdo observador. Sob outra égide, Willy também encanta pelo seu personalíssimo estilo literário. Se insere por vezes belas palavras arcaicas, trabalha o vernáculo a dar elasticidade a determinados termos (neologismos?), a ratificar que a pena do escriba é a mesma que desliza pelo papel pautado.

My comments on the book “Passagens”, written by Willy Corrêa de Oliveira, former professor of composition at Universidade de São Paulo and one of the essential names among Brazilian contemporary composers. The book is a collection of reminiscences of a happy childhood spent in Recife. Reflexive sometimes, hilarious others making me convulse with laughter but always delightful, his memories are written in a very personal prose style, as unique as his musical writing. An enthralling book one savours with pleasure.