Tantas reflexões após o acesso ao recital de 1964!

Pede-me o senhor algumas palavras escritas à mão?
Amo a vida sem condições;
rico ou pobre, jovem ou velho, são ou doente,
ocupando papel proeminente ou como modesto espectador,
sou feliz em viver, sendo portanto humildemente reconhecido à Providência.
A música, ao ser de alguma maneira meu sexto sentido, nada falarei a respeito, mas amo as viagens, os livros, a pintura, as flores
- amo o espetáculo único e sempre mutante da vida.
Em suma, amo tudo!
Há apenas uma coisa que não amo de jeito algum, escrever.

(carta de Arthur Rubinstein a Bernard Gavoty)

As estações são como uma sinfonia deveria ser:
Quatro movimentos em harmonia uns com os outros.

Arthur Rubinstein

Como de hábito, visito o YouTube noite adentro, após findas as atividades musicais ou da escrita, a fim de ouvir recitais ou concertos de grandes intérpretes do passado. Mais e mais sou avesso às apresentações espetaculosas a cada ano em ascensão permanente. A câmara, que  tudo fixa, detém-se prioritariamente no gesto facial, nos cacoetes de intérpretes mediáticos que, munidos de extraordinária destreza, enfeitiçam público distante culturalmente daquele que frequentava recitais e concertos muitas décadas atrás. Esse fato é contundente. A presente transformação deu-se a acompanhar o crescimento vertiginoso da música pop e de outras manifestações igualmente voltadas às massas aturdidas. Encenações barulhentas e feéricas, tem moldado a mente de segmento expressivo de gerações. Fatores vários fazem com que a mídia, ávida na quantidade e no consequente lucro, lhes dê guarida. Cientes dessa mudança de postura, músicos da área denominada clássica, erudita ou de concerto mesclam-se àqueles “ídolos” do universo popular que granjearam plateias numerosas, acreditando que o contrário poderá advir. Ledo engano. O gesto e tantas vezes a indumentária provocativa podem ser um último apelo ao público de concerto subjugado a essa civilização do espetáculo. No jargão popular, batalhas serão ganhas, mas…

Em artigo publicado no Suplemento Cultural de O Estado de São Paulo (“As mortes do intérprete”, Dezembro de 1988), escrevia: “Tencionando adquirir uma obra gravada por Arthur Rubinstein nos anos 50, perguntei a respeito a um funcionário de casa especializada em Paris. Qual não foi o meu espanto ao receber como resposta que desconhecia o pianista! Indaguei-lhe ainda se trabalhava há muito tempo nessa atividade, tendo laconicamente me dito que havia seis meses se dedicava à venda de discos e fitas cassetes”. O notável pianista falecera em 1982!!! Já àquela altura, a neblina sobre figuras de intérpretes do passado glorioso se fazia sentir.

Sobre o pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), a biografia e discografia de um dos mais importantes pianistas do século XX, judeu nascido na Polônia e bem posteriormente obtendo a nacionalidade norte-americana, está fartamente divulgada em sites da internet. Sua autobiografia, dividida em três volumes, conta a longa trajetória do lendário músico. Menino prodígio, teria desfrutado dessa condição que impactaria seus coetâneos durante uma juventude feliz, como apregoou. Diria bem mais tarde sobre essa fase: “Diziam que na juventude dividi meu tempo imparcialmente entre vinho, mulheres e música. Recuso totalmente essa afirmação e posso afirmar que 90% de meus interesses eram as mulheres”. Carreira meteórica em torno de vida social e viagens intensas. A maturidade traria o debruçamento pleno da atividade de pianista, que se prolongaria em altíssimo nível até os estertores de sua trajetória. Acompanhando suas gravações, de passado remoto até às últimas já idoso, é sensível a percepção da qualidade do intérprete em todas as etapas da existência, sendo que as derradeiras têm a aura da plenitude interpretativa.

Em uma dessas noites ouvi na íntegra recital de Arthur Rubinstein gravado em vídeo na cidade de Moscou em 1964, na Sala do Conservatório Tchaikowsky, disponível no YouTube. Tinha ele 77 anos. Recomendo ao leitor a escuta dessa magistral apresentação, assinalada em link abaixo. Na juventude assisti a recitais de Rubinstein no Teatro Municipal em São Paulo e, anos após, várias vezes em Paris. O fascínio apenas se acentuou. Estou a me lembrar da opinião de um de meus professores em Paris, o ilustre pianista e professor Jacques Février (1900-1979), amicíssimo de Rubinstein. Disse-me ele que nenhum pianista tinha a flexibilidade do discurso musical e das frases, em particular naquilo que se denomina rubato. Para o leitor leigo, a comparação com um elástico que lentamente é esticado, para a seguir voltar à sua condição inicial, pode dar uma noção do rubato, termo italiano que significa roubar o tempo para recuperá-lo após, a possibilitar à frase liberdade rítmica. Graças a meu saudoso professor José Kliass (1895-1970), amigo do ilustre pianista que o visitava quando das vindas ao Brasil nos anos 1950, a comparação do rubato a um bêbado serviu-me de orientação ao longo da vida. Dizia ele que o ébrio, ao tentar caminhar, dá passos para um lado, equilibra-se e tenta retornar ao ponto inicial e assim prossegue na sua caminhada etílica. Não obstante, não se deve confundir rubato com mau gosto nessa condução da frase, como bem afirmava Rubinstein. Frise-se a relevância da mão esquerda na manutenção adequada do rubato. Considere-se que uma das grandes virtudes do pianista polonês foi a de evitar excessos de qualquer natureza durante a execução de uma obra musical. O magistral recital mencionado é uma verdadeira aula de como interpretar Chopin na sua plena flexibilização estilística.

Algumas outras considerações se fazem necessárias sobre a performance de Rubinstein. Sua abordagem da obra dos românticos, principalmente Chopin, é mágica, etérea e sem quaisquer excessos musicais e físicos, de modo absolutamente natural. Toda a compreensão da obra, a dinâmica jamais abrupta, a técnica rigorosamente à l’aise, sem quaisquer artifícios. Não há o menor gesto supérfluo, aliás Rubinstein permanece em posição “estática” e o belo acontece. Mente-coração, teclado-transmissão. Distintamente de tantos exemplos atuais, quando o intérprete só pensa em si, unicamente no sentido de atender a apelos mediáticos, a provocar o delírio dos súditos dessa civilização do espetáculo. Idoso, nesse memorável recital Chopin em Moscou – como o fez em cerca de 6.000 récitas pelo mundo, com ou sem orquestra, assim como integrante de conjunto de câmara em repertório imenso – transmite as obras na excelência. O leitor observará a ausência absoluta do supérfluo e admirará o rigor gestual a não interferir minimamente na transmissão inefável das mensagens de Chopin. Saliente-se que ao final, entre as músicas extra-programa, Rubinstein interpreta fantasticamente Polichinelo de Villa-Lobos (1887-1959), seu amigo, assim como Henrique Oswald (1852-1931) a quem o pianista visitava quando de seus recitais no Rio de Janeiro.

https://www.youtube.com/watch?v=8K4ZwA2nQqI

Se por um lado o YouTube já conta com milhares e milhares de belas gravações ou vídeos a privilegiar a música de concerto ou erudita, fato absolutamente louvável, é de se lamentar a intromissão, durante o recital em apreço, de propaganda sonora bem acima do possível e de gosto bem discutível, a interromper abruptamente a mensagem musical excelsa de Rubinstein. Há quase treze anos tenho denunciado a derrocada cultural. Interromper uma apresentação dessa magnitude é como colocar a knockout, por parcos segundos, o ouvinte encantado com a interpretação do grande pianista ou de tantas outras existentes no aplicativo. Sim, propaganda é necessária, mas poderia estar sempre em faixa pequena e brevíssima, como habitualmente acontece. Já é um incômodo, mas tolera-se.

Quanto à primeira epígrafe, trata-se de carta endereçada a Bernard Gavoty, crítico francês do jornal Le Figaro e autor do texto de Arthur Rubinstein, da coleção Les Grands Interprètes (Genève, René Kister, 1955). Apesar de dizer que não amava escrever, tardiamente preocupou-se em redigir sua autobiografia em três volumes, originalmente publicados nos Estados Unidos (New York, Knopf) e traduzidos para o francês: Les jours de ma jeunesse (1973), Grand est la vie (1980) e Ma jeune vieillesse (1980), editados pela Robert Laffont em Paris.

My impressions after listening to Arthur Rubinstein’s recital in Moscow in 1964 on YouTube. His approach to the work of romantic composers, Chopin in special, is magical, extracting the best music of the written score. The musical language is treated in an impeccable way, his sense of rubato is unrivaled, his dynamics are never abrupt, going from pianissimo to fortissimo in a gentle manner. Sound technique without pyrotechnics and mannerisms, transmitting the composers’ musical thought in a limpid style. A masterly performance of one of the greatest pianists of the twentieth century.

O piloto-escritor por vocação imperiosa

Refiz todos os meus cálculos.
Nossa ideia é irrealizável.
Não nos resta outra coisa a fazer,
Realizá-las.
Pierre-Georges Latécoère
(fundador das Lignes Aériennes Latécoère)

Nesse segundo comentário do livro em apreço abordarei as duas atividades mais imperativas na breve existência de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944). Amalgamadas sem a menor possibilidade de separação, literatura e aviação fazem parte de uma maneira única de entender o mundo em que vivemos ou o universo. Essa premissa leva-nos ao O Pequeno Príncipe em seu asteroide, o mais breve dos livros de Saint-Exupéry, mas o que granjearia o maior alcance. Vislumbre estelar imaginário, passível de acalantar os almejos mais recônditos do autor.

A trajetória de Saint-Exupéry voltada à aviação remonta aos seus doze anos de idade, quando, contrariando sua mãe, reiteradas vezes vai ao campo de pouso de pequenos aeroplanos de madeira e tela em Ambérieu. Dizendo-se autorizado por sua mãe, pela primeira vez voa num avião pilotado por Gabriel Wroblewski-Salvez. O maravilhamento da “aventura” seria a origem do fascínio que o seduziria por toda a vida.

Em Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry, a autora Nathalie des Vallières fixa datas precisas para o envolvimento de seu tio-avô. Vemo-lo, a partir de 1921 até a morte em 1944, basicamente engajado com a aeronáutica, como piloto e, por vezes, como dirigente. Como aviador, naqueles tempos ainda precários em termos de segurança, Saint-Exupéry sofreria vários acidentes, alguns graves. Em 1933 quase se afoga após aterrissar mal. Seria em 1935 a queda que o teria influenciado de maneira mais marcante, quando, ao tentar bater o recorde Paris-Saigon, cai com seu amigo e piloto André Prévot no deserto da Líbia. Já em 1938, ao buscar o recorde Nova-York–Terra do Fogo, sofre queda na Guatemala, ficando gravemente ferido. Em 1940 participa, pela primeira vez como piloto, da Segunda Grande Guerra, sendo atingido pela artilharia antiaérea alemã. Ao todo seriam sete acidentes, o último fatal. Poder-se-ia entender esse número como “antecipações” de progressiva “atração” pela mors certa hora incerta. Corrobora esse desenrolar a morte constante de seus amigos e companheiros.

Presente nos romances e em Citadelle, a imensidão do deserto terá forte impressão no autor. Convidado em Outubro de 1927 para a chefia do aeroporto de Cap Juby (Mauritânia), permanecerá no enclave durante um ano e meio e o convívio com o deserto ser-lhe-á vital. Durante esse período, as poucas distrações, como o xadrez, ajudam-no nas longas horas de silêncio. Período de reflexão e da compreensão da condição do homem. Acidentes aéreos no deserto e a missão de salvar companheiros vítimas de quedas e aterrissagens forçadas, ter a índole do congraçamento e dar-se amistosamente com beduínos, chegando a frequentá-los em suas tendas, escrever cercado pela imensidão do Sahara corroboram o comprometimento amoroso com o ambiente. O acidente mencionado de 1935 é relatado: “O deserto? Abordei-o um certo dia pelo coração. Durante voo em direção à Indochina, fui parar no Egito, nos confins da Líbia, preso nas areias como uma cola e pensei que iria morrer”. Estava em companhia de seu mecânico André Prevot. Durante três dias caminham sem rumo certo, sendo encontrados em estado lastimável por um beduíno. Em Terre des Hommes há a narrativa da quase tragédia. O deserto fá-lo pensar na solidão, na morte e no silêncio: “Um silêncio não se parece com outro silêncio”. Ao deixar Cap Juby sente-se aliviado.

Carta ao amigo Charles Sallés corrobora a admiração de Saint-Exupéry pelo ofício, mas também pela imensidão do deserto e pelos mouros.

“Meu velho amigo, coloque sobre a conta do clima, de uma imperdoável preguiça, de uma impossibilidade de compreender ainda tudo o que há de novo – este silêncio vergonhoso! Escrevi-lhe três ou quatro vezes e minhas cartas não seguiram. Tentava-lhe explicar e não conseguia. É algo maravilhoso e bizarro ao mesmo tempo. A cada voo dos correios, piloto dois mil quilômetros no Sahara para ir, dois mil para voltar. Milhares sobre tribos dissidentes. Imagine essa areia, sempre essa areia. E já passei uma noite, em pane, numa pequena fortaleza isolada. Amo esse isolamento, mas não sei defini-lo. E as tribos mouras e suas fisionomias me encantam. Contar-lhe-ei tudo um dia”.

Considere-se o companheirismo. Saint-Exupéry  teve-o nas figuras, alguma notáveis, ligadas à pilotagem e à navegação da Aéropostale, sucessora da Lignes Aériennes Latécoère. Verdadeiros heróis da aviação, desde a Primeira Grande Guerra tantos deles sucumbiram precocemente em acidentes. Entre eles: Jean Mermoz (1901-1936), a figura mais emblemática da história da aviação francesa; Henry Guillaumet (1902-1940), imortalizado em Terre des Hommes. Saint-Exupéry relata a epopeia do amigo que, após acidente nos Andes, caminharia durante vários dias, moribundo, até ser encontrado. Frase de Guillaumet ao piloto-escritor: “O que eu fiz, eu juro, nenhum animal teria feito”. Ao morrer Guillaumet, Saint-Exupéry se expressa: “Guillaumet morreu. Tenho a impressão de ter perdido meu melhor amigo”. Alguns outros pilotos da Aéropostale mortos tragicamente: Jean Chamsaur (1896-1931); Alexandre Collenot (1902-1936); Germain de Laguerie (1897-1930); Henry Lemaître (1894-1935); Gaston Génin (1901-1936); Marcel Reine (1901-1940); Henri Érable (1903-1936) e Léopold Gourp (1900-1926), aprisionados e mortos pelos mouros. Tantos outros sofreram quedas, mercê em parte do pioneirismo.

O pressentimento da morte se acentua ao assistir ao desenlace de amigos e colegas. Aos 30 de Julho de 1944, um dia antes de seu desaparecimento, escreve ao amigo Pierre Daloz carta que, segundo a autora de Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry, Nathalie des Vallières, faz dessa missiva um testamento. Após saudações, o piloto-escritor escreve: “Faço a guerra o mais profundamente possível. Certamente sou o decano entre os pilotos de guerra do mundo. O limite de idade é de trinta anos pilotando o tipo de avião de um só lugar que eu piloto. Outro dia tive  pane de um motor a 10.000 metros de altitude sobre Annency, na exata hora em que completava quarenta e quatro anos! Enquanto sobrevoava os Alpes com a velocidade de uma tartaruga, à mercê dos caças alemães, divertia-me docemente pensando nos superpatriotas que proíbem meus livros na África do Norte. Tem graça.

Conheci tudo desde meu retorno à esquadrilha (esse retorno é um milagre). Conheci a pane, o desfalecimento pela falta de oxigênio, a perseguição dos caças inimigos e também o incêndio em voo. Não estou exagerando e me sinto muito saudável. É minha única satisfação! E também de passear, só o avião e sozinho a bordo, durante horas, sobre a França, a tirar fotografias. Tudo isso é estranho.

Aqui, estamos longe do banho de ódio, mas apesar da gentileza da esquadrilha, assim mesmo sinto tudo como um pouco da miséria humana. Não tenho ninguém, jamais, com quem convesar. No entanto, já é alguma coisa ter com quem viver. Mas, que solidão espiritual!

Se eu for abatido, não lamentarei absolutamente nada. O formigueiro futuro me espanta. E eu detesto seu aspecto robotizado. Fui feito para ser jardineiro”.

No dia 31 de Julho de 1944, o Journal de marche (da divisão 2/33 à qual Saint-Exupéry pertencia) comunicava: “Um triste acontecimento acaba de manchar a alegria que todos sentiam com a aproximação da vitória. O comandante Saint-Exupéry não regressou. Saiu às 9 horas para a Savóia, a pilotar o 223. Não regressou até às 13 horas. Os chamados pelo rádio ficaram sem resposta e os radares alertados o procuraram em vão, às 14 h 30 não havia mais esperanças de que ele pudesse estar voando”.

Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry, carinhosa e criteriosamente escrito pela sua sobrinha-neta, Nathalie des Vallières, através de rica documentação faz com que o leitor compreenda as várias virtudes do notável piloto-escritor.

Seus livros Courrier Sud (1929), Vol de Nuit (1931), Terre des Hommes (1939) e Pilote de Guerre (1942) evidenciam a sublimação do homem diante de uma das mais fatídicas profissões do período, seja como piloto a transportar correspondências e atravessando oceanos e continentes, seja durante as duas Grandes Guerras, quando a morte estrava sempre à espreita. No pós-guerra, os avanços tecnológicos, tornando a aviação muitíssimo mais segura, apenas dimensionam a naturalidade e coragem com que os pilotos de outrora, heróis na acepção, enfrentavam o destino.

This is the second post about the book  “Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry” (published in English with the title “Saint Exupéry: Art, Writings and Musings”), a collection of letters, drawings, photos and private notebooks of the French writer and aviator (1900-1944) assembled with adoring reverence by his great-niece, the art historian Nathalie des Vallières. Each chapter covers one aspect of Saint-Exupéry’s life: childhood, friendships, relationship with mother, wife and other women, the inventor with many patents to his name, his passion for writing, drawing, flying, his participation in the war, his thoughts about death. One entire chapter is dedicated to Saint-Exupéry’s affectionate correspondence with his mother, extending from childhood to 1944, the year of his death. Another chapter addresses the various women of his life: wife, sisters, friends, romantic liaisons.  A beautiful and richly illustrated edition with reproductions of Saint-Exupéry’s original manuscripts and drawings, in special the omnipresent sketches of “The Little Prince”, maybe an alter ego of the author, the book provides valuable information about life and thoughts of an extraordinary artist and human being.

Livro a corroborar o desvelamento do autor

Nunca compreendi e não compreenderei jamais
que as pessoas trocam histórias que não têm a menor importância,
pois são histórias distorcidas.
Será que teríamos a necessidade de desperdiçar a vida
se já é difícil vivê-la apenas uma vez?
Não vale a pena.
Antoine de Saint-Exupéry
(carta à sua mãe, Marie de Fonscolombe Saint-Exupéry)

Primeiramente, um livro bonito. Toda a montagem desse precioso volume demonstra um profundo culto ao notável piloto-escritor. Nathalie des Vallières, historiadora de arte e sobrinha neta de Saint-Exupéry, teve a colaboração da também historiadora Roselyne de Ayala para a realização da obra.

“Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry” teve a primeira edição em 2003 e a reedição em 2019 (Éditions de la Martinière). A autora dividiu-o em capítulos precisos, a buscar transmitir parcela considerável da personalidade de Saint-Exupéry. A grande maioria dos leitores conhece apenas O Pequeno Príncipe, livro que alcançou tiragens fabulosas e continua a ter grande aceitação. Parte essencial do pensamento de Saint-Exupéry lá está de maneira extremamente sintetizada, mas a despertar em muitos leitores o interesse por outras obras do autor: Correio Sul, Terra dos Homens, Piloto de Guerra. Raríssimos chegam a desafiar sua obra-prima, a caudalosa Citadelle, tantas vezes mencionada em meus blogs.

A obra, ao apresentar inúmeros manuscritos, escritos a lápis ou caneta, insistentemente preenchidos por singelos desenhos, tantos como esboços àqueles que surgiriam em Le Petit Prince, revela ao leitor o instante do acontecido, momentos em que a ideia flui para o papel, seja ele de qualquer qualidade ou cor, branco, bege, com timbres de hotéis e restaurantes, todo material passível de receber a escrita do piloto escritor. Vem a demonstrar que o autor não deixava uma ideia enclausurada, buscando sempre que possível vertê-la para qualquer tipo de folha à sua disposição. Diferentemente da grande maioria dos escritores, Saint-Exupéry é itinerante, e o “escritório” da escrita tem ampla geografia.  Redigiu textos inclusive em cockpits durante suas travessias aéreas. Também durante voos, algumas das mais profundas reflexões do autor surgiam.

Nathalie des Vallières enriquece cada página manuscrita inserida não apenas com a sua devida atualização digitalizada, adicionando comentários preciosos a cada situação apresentada. Saliente-se que as páginas manuscritas ou datilografadas contêm inúmeras correções do autor, eliminação de palavras ou frases inteiras e tantas delas, numa mesma página, formam verdadeira “teia”, a configurar intenções de aprimoramento reflexivo ou de maior fluência. Saint-Exupéry assim procede nos textos que deverão compor seus livros.

As missivas de Antoine de Saint-Exupéry se estendem da infância a poucos dias antes de seu trágico desaparecimento em missão como piloto durante a segunda grande guerra. Pode-se, através das inúmeras páginas manuscritas, seguir a evolução de seus traços caligráficos que se transformam, mormente em momentos mais estressantes.

Os desenhos que proliferam em suas cartas estariam a demonstrar que há algo pictórico em seu pensamento, a necessitar dessa presença do traço que leva à figura humana ou a determinado objeto. Insistentemente esboços desenhados de O Pequeno Príncipe surgem em cartas à sua mãe ou a amigos em contextos outros. Dir-se-ia que a imagem do personagem mirim, presente em traços diferenciados, representaria o alter ego do autor.

Um capítulo é dedicado às cartas à sua mãe, Marie de Fonscolombe Saint-Exupéry, que se estendem durante toda a vida. Tendo perdido o pai na idade edipiana, concentra seu afeto na mãe. São missivas plenas de ternura, comentando observações do cotidiano, externando amor filial sensível e por vezes, principalmente durante os anos de formação em escolas e no serviço militar, solicitando alguma ajuda financeira. Aos 30 anos, testemunha esse afeto com palavras sensíveis: “No fundo, a ‘mãe’ é o único verdadeiro refúgio dos pobres homens”. Em 1932, casado, escreve: “Minha mãezinha, em Saint-Maurice você foi para Consuelo a mais terna das mães. Sou-lhe infinitamente grato”. Essas palavras carinhosas persistem e, um ano antes da morte trágica, em plena atividade como piloto durante a guerra, Saint-Exupéry escreve: “Espero ansiosamente estar em seus braços daqui a alguns meses, minha mãezinha, minha velha mamãe, minha afetuosa mãe”.

A mente privilegiada de Saint-Exupéry leva-o à invenção desde à infância. Sua irmã primogênita narraria experiências de Antoine para melhorar desempenho de sua bicicleta, assim como de uma outra com asas que acabou explodindo. Futuramente, suas patentes apresentadas relativas à aviação, no sentido de aperfeiçoamento, não foram aplicadas em França, mas algumas, nos Estados Unidos. Nathalie de Vallières comenta: “Uma de suas mais importantes invenções, aquela hoje nomeada DME (Distance Mesuring Equipment), depositada em 19 de Fevereiro de 1940 (com aditivo em 7 de Março), só foi publicada aos 20 de Agosto de 1947 sob o título “Novo método de localizações por ondas eletromagnéticas”. Esse medidor de distância, presente hoje em todos os aviões, não existia até 1940. Saint-Exupéry estabelecera um dos princípios do radar”. Aos 28 de Novembro de 1939, patenteia um “torpedo aéreo” junto ao Instituto nacional de propriedade industrial. Igualmente no campo da matemática mostrou-se capaz.

Um capítulo é reservado à figura feminina na vida de Saint-Exupéry. Independentemente do extremo afeto filial, Saint-Exupéry teve inúmeros romances que não perduraram ou amizades femininas perenes, platônicas ou não, que gravitaram em sua vida. Foi considerado noivo oficial da escritora Louise de Vilmorin, sendo que a vocação do piloto-escritor teria sido um dos motivos da ruptura. Em 1931 há o casamento com a salvadorenha Consuelo Suncin, de “temperamento vulcânico e de menina mimada”, segundo Nathalie des Vallières, sendo que o relacionamento nem sempre foi harmonioso, devido em parte à vida itinerante de Saint-Exupéry. Como fato narrado em “Terre des Hommes”, quando relata o drama de seu amigo  Henri Guillaumet (1902-1940), que, após queda nos Andes nevados, teria caminhado durante cinco dias e sobrevivido mercê da certeza de não ter assinado o seguro de sua mulher, Saint-Exupéry sofre acidente e, após ter sido resgatado no deserto da Líbia, escreve: “É terrível deixar para trás alguém que tenha necessidade de você, como Consuelo”. Um subcapítulo é dedicado à irmã Simone, latinista, arquivista e historiadora, que viveu 25 anos na Indochina em função profissional. Cartas plenas de carinho e, em uma delas, Antoine a estimula ao casamento. Simone nunca se casaria.

Nathalie des Vallières comenta: “Todas as mulheres que ele sublima nas cartas e em seus pensamentos, mas que aparecem raramente em suas obras, exceção à Geneviève em Courrier Sud, a mulher de Fabien em Vol de Nuit e a Rosa do Pequeno Príncipe, iluminaram com uma doce aura a vida de Saint-Exupéry”.

Já narrei, em blog muito anterior (09/11/2007), ter participado com Simone de Saint Exupéry (1898-1978), de reuniões literárias inesquecíveis na morada em Paris de seu primo irmão, Barão André de Fonscolombe . O leitor que quiser acessar o blog “Antoine de Saint-Exupéry” encontrará dados desse período que se prolongou ao longo de 1959:

http://blog.joseeduardomartins.com/index.php/2007/11/page/2/

No próximo blog comentarei Antoine de Saint-Exupéry aviador, suas performances, seus inúmeros acidentes aéreos, seus colegas de profissão e a morte como fixação progressiva. Trechos de cartas e excertos dos livros do piloto-escritor dimensionarão os comentários.

In two posts I’ll write some notes on a book I’ve just finished reading: “Les plus beaux manuscrits de Saint-Exupéry” (published in English with the title “Saint Exupéry: Art, Writings and Musings”), a collection of letters, drawings, photos and private notebooks of the French writer and aviator (1900-1944) assembled with adoring reverence by his great-niece, the art historian Nathalie des Vallières. Each chapter covers one aspect of Saint-Exupéry’s life: childhood, friendships, relationship with mother, wife and other women, the inventor with many patents to his name, his passion for writing, drawing, flying, his participation in the war, his thoughts about death. One entire chapter is dedicated to Saint-Exupéry’s affectionate correspondence with his mother, extending from childhood to 1944, the year of his death. Another chapter addresses the various women of his life: wife, sisters, friends, romantic liaisons. A beautiful and richly illustrated edition with reproductions of Saint-Exupéry’s original manuscripts and drawings, in special the omnipresent sketches of “The Little Prince”, maybe an alter ego of the author, the book provides valuable information about life and thoughts of an extraordinary artist and human being. In the next post I will resume this book, dealing with the chapters in which Saint-Exupéry, in his lyrical and philosophical prose, writes about the fascination and dangers of flying, solidarity among professional colleagues, his obsession with death.