Tema que pode aplicar-se a inúmeras áreas


Acredito que o piano traduz uma confidência,
e esta não se grita sobre o telhado.
Désiré N’Kaoua

Há temas que extrapolam os limites de determinada área. Métodos podem diferenciar-se, mas a essência temática torna-se coesa e doutrinária a partir do enfoque abrangente que se lhe queira dar . A pedagogia relacionada a uma área do conhecimento tem com frequência vertentes que se aplicam em campos do conhecimento por vezes antagônicos.

Ao tratar, no post anterior, da crise do recital de piano solo, mormente para os intérpretes sem o abrigo de patrocinadores e das luzes dos holofotes, tópicos outros foram apreendidos nos textos que inseri anteriormente e de autoria dos notáveis músicos franceses Désiré N’Kaoua e François Servenière, pianista e compositor, respectivamente.

Primeiramente, há um aspecto que se torna mais sensível à medida que a tecnologia avança em seus multifacetados meios de comunicação. Paradoxalmente, há o progressivo desinteresse pelos padrões culturais que foram a base sólida da cultura ocidental. Désiré N’Kaoua comenta, com profunda agudeza e, hélas, ceticismo, vários dos muitos problemas que atingem o cerne da denominada música clássica ou de concerto, nas várias entrevistas concedidas recentemente para o site www.pianodoux.fr: “A história do piano ensina-nos que, no começo do século XX, a chegada de um virtuose numa capital era anunciada bem antecipadamente como um evento, as senhoras pensavam no que vestir ou mesmo encomendavam uma nova toilette para a ocasião. E hoje, é isso que ocorre?” Lembraria que Alfred Cortot (1877-1962), ao realizar tournée pelo Japão, ganhou da imperatriz uma ilha, Cortoshima, oferta rigorosamente impossível de ser dada na atualidade. Continua N’Kaoua:  “Paralelamente ao rush de novos pianistas, o público reduziu-se consideravelmente. A seguir a segunda grande guerra, a maioria dos melómanos europeus não supunha sequer a ideia de inserir, no interior do vocábulo ‘música’, outra coisa que as obras de grandes criadores como Mozart, Beethoven, etc… assim como algumas belas canções populares. O jazz, já existente há decênios no outro lado do Atlântico, veio (por que não?) a ser aceito até por aficcionados sectários e a ter abrigo no vocábulo ‘música’. Evitando-se um casamento misto, tomou-se o devido cuidado de delimitar fronteiras, qualificando-se de ‘clássica’ as obras escritas pelos grandes compositores incensados através da História. Sessenta anos após, o que nós chamamos de música, e que acreditamos ser eterna, mendiga um espaço restante, drenando um público cada vez mais restrito. Os amorosos dessa música, qualificada erroneamente de elitista, encontram-se confinados em um gueto e a mídia (cuja ambição é expandir seus índices) tem dúvidas sobre o concerto, e não se aflige sobre o fato de o Requiem de Mozart ser utilizado para suporte de uma publicidade”. E sobre a alienação da juventude frente à música clássica: “Os jovens que crescem hoje são ‘acalentados’ pelos ritmos primários, que desconhecem o sentido da música. Quem virá amanhã aos concertos? Sob outro enfoque, qual a porcentagem de crianças chegadas à adolescência que continuará a estudar um instrumento, sabedores que aprender é sinônimo de esforço? É fato que os vídeos são tão mais atraentes!!!”.

O desvio de intenções, voltado às “geringonças” sempre in progressiPad, iPod, iPhones - e seus infindáveis aplicativos, está a retirar das gerações mais novas a reflexão necessária. Colados às telinhas, multidões em compulsão fixam-se nas mensagens que proliferam nessa via em expansão, o WhatsApp. Essa distração globalizada impede a concentração, a disciplina e N’Kaoua, ao mencionar que “aprender é sinônimo de esforço”, aponta para uma realidade sem retorno. Tornar-se-ia evidente que o estudo sério de um instrumento musical, independente da apreensão de toda uma estrutura contida na partitura e além dela, requer disciplina espartana para que objetivos concretos se realizem. E estariam as gerações que surgem dispostas ao “sacrifício”, quando um totus se apresenta tão mais fácil? Não teria a pianista Eudóxia de Barros, no seu livro “Valeu a Pena?”, enfatizado incontáveis vezes a necessidade do estudo diário imprescindível?

O compositor e pensador François Servenière comenta: “admiro a dimensão geopolítica de Désiré N’Kaoua (post anterior). O que mais me chamou a atenção foi justamente a análise sobre a predominância da cultura europeia, que estancaria frente à mundialização, correlativamente à predominância de um de seus instrumentos culturais e burgueses mais emblemáticos, o piano”. Servenière escreve sobre os impostos do Estado taxando abusivamente a arte. “A arte era justamente a última coisa, individual, introspectiva, íntima, talvez reputada pelos invejosos como pertencente à burguesia – nada é menos seguro -, que poderia fazer supor estar fora da soberana e implacável tutela do Estado, da lei, muitas vezes oriunda geneticamente da violência cruel e injusta dos senhores ou príncipes de antanho contra seus povos. E por que não impor as garras sobre lápis, pincéis, cadernos, cores? Violência soberana, que provocou, há não muito tempo, nossa ensanguentada revolução francesa, com suas chagas jamais cicatrizadas e que se podem abrir a qualquer momento”. Não seriam os tentáculos do Estado a taxar a Cultura como um todo, como o faz com produtos banais de consumo, uma das formas do desvio de intenções? Sob outro ângulo, a grande maioria dos dirigentes culturais desconhece o sentido da palavra Cultura, entendendo-a como entretenimento, apenas. Assim não agiu o prefeito eleito João Dória ao convidar inicialmente Boni Sobrinho para a Secretaria da Cultura, que acabaria declinando o convite, ele um nome emblemático do… entretenimento? E a Cultura erudita, que não pertence aos índices mediáticos estratosféricos, mas que é base essencial para que não percamos o norte? Teria o futuro alcaide a noção ao menos potável da abrangência da Cultura?  Servenière continua: “Pode-se entender a mundialização como parâmetro evidente da decadência do recital de piano face às grandes máquinas espetaculares, que fazem lembrar um verdadeiro Barnum nos estádios para 80.000 lugares. Como lutar contra a potência dos decibéis, dos astros do rock e da canção? Pela inteligência. Na França, país de ponta no progresso e nos excessos, temos o rap, as mídias e a televisão invasora, a vulgarização do pensamento, seja ele artístico ou político, literário ou filosófico. Os códigos milenares da pintura e da escultura foram pisoteados pelos aprendizes de Fausto, teóricos da ideologia fecal encurralados e a levar a arte à sua vibrante dimensão do caos original, o menos digno que se possa imaginar. Não, não estou a metamorfosear artificialmente, nessa atualidade consumista que não sabe a diferença entre o universal e o banal, entre a escatologia e a coprologia. Um mundo de m—- gera o que promete e idealiza”. Para tanto, Servenière apresenta link com obras tidas como “arte”, fecais gigantescas que ocupam espaços em jardins,  parques e museus do Ocidente. Mario Vargas Llosa não teria mencionado exposição em Londres onde a “obra de arte” era representada pelo material constituído por fezes de elefante?

Servenière, em sua longa mensagem, retoma o item relativo à “geopolítica ligada ao desaparecimento do recital de piano e do piano… Pode-se invocar essa posição, pois nenhuma forma de expressão tem na essência validade universal para a eternidade. A moda e os instrumentos passam. Contudo, a sociedade humana é feita de ciclos, de avanços e recuos, de fases de excessos e, como contradição, de temperança, o que me leva a lembrar frases de Franz Liszt: “Fecundar o passado pensando no futuro, eis para mim o sentido do presente”, e de Nietzsche: “O homem do futuro será aquele que terá a mais vasta memória”. Que significam essas duas frases magistrais, pensadas por dois grandes mestres do passado? Simplesmente que o indivíduo que não tem memória (histórica, artística, cultural, semântica, visual, sonora, linguística, filosófica…) não terá futuro. Vivemos atualmente um dos grandes cismas psicosociológicos da história”.

Em artigo publicado nos anos 1980 (“As mortes do intérprete”, Cultura, O Estado de São Paulo, 24/12/1988), mencionava que a gravação é a aparência da perpetuação. Escrevia: “Pense-se no piano Bösendorfer-Computer ‘SE-Grandpiano’, capaz de dar ao registro fonográfico o real absoluto, onde a inexistência física do intérprete – ou o seu fantasma – , após gravação fixada, restitui à obra exata fidelidade da execução no instrumento mesmo em que o registro se verificou”. Tive a oportunidade de gravar uma peça de Rameau num desses pianos, em demonstração numa Feira de instrumentos no Anhembi, em São Paulo, ouvindo-a após, exatamente como se estivesse a tocar, ou seja, as teclas abaixavam durante a execução e eu, em pé, só observava atônito a minha interpretação tal qual a tinha realizado. Disse-me o representante da empresa que, doravante gravada e arquivada, em qualquer momento alguém no planeta poderia ouvi-la, desde que em instrumento similar. Atônito também fiquei ao sentir a “digitação” de grandes mestres mundiais do piano em obras fantásticas, teclas sendo acionadas, por vezes em velocidades à la Usain Bolt, como no caso do fantástico pianista de jazz Oscar Peterson. Teclado em seus movimentos naturais, mas sem a figura humana, e o som real transmitiam uma estranha sensação presencial. Servenière menciona o Diskklavier da Yamaha, inventado em 1980, e vê no processo dessa “família” tecnológica, próxima à do piano Bösendorfer, um caminho distinto, “o piano do recital solo a entrar no futuro neste século XXI !!! Muitos poderão urrar, voltados que estão ao purismo. Não eu. Para mim a cultura do piano se difunde, e as performances dos mais ilustres contemporâneos estão gravadas. A geração passada recusa o processo, mas ela também recusou a informatização eletrônica décadas atrás para o órgão instrumento, processo que pode manter todos os dados arquivados pelo organista. Os puristas que não concordam utilizam em suas casas aparelhos de microondas, celulares, computadores e televisão. Doravante, o piano tem mais esse caminho e as performances dos grandes pianistas (do presente e do futuro) poderão ser escutadas em tempo real, tranquilamente, em casa. Não falo dos meios de difusão da música, graças aos aparelhos domésticos que conquistaram o mundo inteiro. A Cultura sempre teve opções outras em seu baú… Nada há que comprove a sua morte, pois, acredito, o inverso está a se produzir. Como sempre, há cumeeiras e abismos, ciclos, recuos, renascimento, novos meios de difusão, desaparecimento de modismos, novos processos artísticos. Haverá uma triagem natural no que concerne à cultura. Os povos, mesmo enclausurados em campos de concentração e de morte, sabem o que é importante ou não. Depois da enxurrada de idiotices musicais que inunda o planeta, o ouvinte retorna aos lugares onde ele sabe que encontrará a qualidade, mais do que a absurda quantidade de furor e barulho ensurdecedor. Os povos, naturalmente, sabem o que é necessário salvaguardar ou não, mesmo nos períodos de caos. Enfim, seu último post permite essas digressões filosófico-histórico-pragmáticas. Há a necessidade de retorno ao trabalho manual, necessário para certas qualidades e experiências valorizadas no passado e, como escrevia Rousseau, ‘é necessário cultivar nosso jardim’. A tecnologia virtual evolui sem limites… mas sem o contato com a terra, com o real, essa inteligência ‘retorna ao caos’. De maneira cíclica”. Não por acaso, Désiré N’Kaoua observa em sua entrevista plena de reflexões: “Ao chegar à idade próxima de meus mais de 80 anos, dividi meu tempo ora dedicado ao piano, ora à jardinagem cotidiana e aí, como faço ao ler uma obra musical, a menor folha morta sobre a terra é para mim como uma mancha sobre uma bela partitura”. (traduções: J.E.M.)

Todas essas observações de ilustres músicos e pensadores nos levam à reflexão sobre o futuro do piano. Salientaria que a tecnologia mecânico-sonora dos pianos Bösendorfer e Yamaha, mencionada acima e datada das décadas de 1980, ocupou poucas salas de concerto, mas aponta para o futuro. Sob outro aspecto, aperfeiçoamentos acrescentados aos pianos Steinway, assim como a qualidade indiscutível dos instrumentos Fazioli, levam-nos a pensar. Se, por um lado, as grandes marcas são basicamente destinadas às grandes salas de concerto espalhadas pelo planeta, mercê dos preços altíssimos, os recitais de piano solo nas pequenas salas continuarão colocando, mormente no Brasil, o pianista sempre em alerta, pois jamais saberá a qualidade do instrumento que terá de enfrentar. Um recitalista experiente poderá não se lembrar dos melhores pianos, mas jamais se esquecerá de um mau piano.

Continuo pleno de esperanças, friso.

Resuming the subject of last week’s post, I transcribe excerpts of an interview given by the French pianist Désiré N’Kaoua and of an e-mail message from the composer François Servenière, both musicians giving their views on the issue of shrinking spaces for piano solo performances.

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Chapecoense (In Memoriam)

Nada sabemos a respeito de determinados desígnios. A tragédia que se abateu sobre a valorosa equipe de futebol da Chapecoense só ocorreu graças ao contrário absoluto, instantâneo, fruto do mais preciso reflexo. Ao defender com o pé direito uma bola certeira endereçada ao gol da Chapecoense, chutada por jogador do San Lorenzo, Danilo, o goleiro salvador, “São Danilo”, doravante aclamado pelos milhares de torcedores que acorreram à Arena Condá, em Chapecó, eliminava a equipe argentina e entregava a caneta àquele que redigiria, uma semana após, o atestado de óbito de praticamente toda a gloriosa equipe da aprazível e congraçadora cidade. Assisti pela Fox Sports aos dois jogos inteiros entre a Chapecoense e o San Lorenzo, esta a equipe do Papa Francisco. No instante do acontecido, o brilhante narrador Deva Pascovicci, em locução apaixonada, exaltou o milagre da defesa de Danilo, o goleiro “salvador”. Lógico, também vibrei. Pascovicci, Danilo e mais 69 atletas, dirigentes, jornalistas e tripulantes da aeronave sucumbiram.

Como sempre o faço, não me inclino a escrever imediatamente após qualquer acontecimento. Fá-lo-ei na próxima semana. A decantação elimina incertezas.

 

 

 


Aspectos relativos ao recital piano solo

É melhor debater ideias sem regulamentá-las
do que regulamentá-las sem as ter debatido.
Joseph Joubert (1754-1824)

A recepção à epígrafe do post anterior, a abordar conceitos sobre a atividade “profissional” do pianista, causou-me surpresa. Reproduzo-a: “A carreira de pianista também é muito difícil. Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação, esse talento, essa vontade, nada seria compensador. A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é! A pessoa se dedica tanto! É uma experiência espiritual que eleva a pessoa. A pessoa penetra naquela música, e fica alheia do mundo por aquele período. Acaba levitando dentro daquela música.” Os inúmeros e-mails não deixaram de louvar, sem exceção, a pianista Eudóxia de Barros em seu trabalho cotidiano em prol da música brasileira e a epígrafe em apreço de Henrique Morelenbaum.

Considerando-se pianistas de minha geração, não é difícil concluir que havia no país uma maior oportunidade para recitais de piano, com cachets pertinentes. Apenas na cidade de São Paulo o pianista se apresentava algumas vezes ao ano e com salas abrigando bom público. Quase todos de minha geração tocaram, como exemplo, no Teatro Colombo, no Largo da Concórdia, no Brás, que seria consumido pelas chamas em 1966. Naquele período havia menos entraves burocráticos e as instituições, públicas ou privadas, convidavam o músico, recolhiam os impostos devidos e pagavam o que lhe era devido. Quanto aos entraves burocráticos, Eudóxia de Barros, em “Valeu a Pena?”, apresenta generosamente os passos para um intérprete conseguir dar entrada no Ministério da Cultura, a fim de obter o registro necessário e daí partir em busca de patrocinadores!!! Eudóxia de Barros comenta: “Já me aconteceu de que quando consegui o patrocinador, o prazo de validade do registro no MINC tinha expirado. Voltamos à estaca zero e daí resolvi nunca mais cuidar dessa parte tão burocrática e cansativa. Enfim, é muito complexa a intermediação entre as entidades que contratam e o pianista que precisa se atualizar com todos esses procedimentos para manter sua carreira!”. Servindo-me de várias observações pontuadas no livro “Valeu a Pena?”, a pianista Eudóxia de Barros, que percorreu centenas de cidades e Estados brasileiros, exceção a Tocantins – certamente aquela que visitou o maior número de localidades do país para recitais em teatros e auditórios -, verifica-se sensível declínio da apresentação piano solo. Factível uma das considerações, a apontar que o recital solo atualmente tem menor apelo junto às instituições e promotores, em detrimento da apresentação conjunta. Eudóxia de Barros é enfática ao observar que “as Secretarias de Cultura não vêm se interessando muito por recitais de piano. Não está fácil conseguir concertos, porque as Secretarias de Cultura, que existem aos milhares no Brasil, quase não contratam mais recitalistas. O pianista depende, sobretudo, de patrocinadores ou do SESC e SESI”. Sob outra égide, bem menos causadora de impacto no imenso Brasil, as “Grandes” Sociedades de Concerto, quando agendam um pianista pátrio – contam-se estes nos dedos de uma apenas das mãos – fazem-no prioritariamente no formato piano e orquestra.

Henrique Morelenbaum tem extrema razão ao dizer que “a recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é!” Tirando-se os que “se contam nos dedos de uma apenas das mãos”, os pianistas residentes no país sabem que os cachets são bem menores do que antanho, pois o interesse diminuiu. Se amparada pela lei Rouanet e por poderosos patrocinadores, as possibilidades se apresentam. Considere-se que a música popular e as “celebridades ‘vocais’ popularescas” têm consideravelmente uma guarida extremamente mais ampla – público avassalador em gestual uniformizado – e, em acréscimo, casos de desvios vêm a público. A decadência da arte erudita, enfatizada por Mario Vargas Llosa no livro “La Civilización del Espectáculo”, e a certeza de promotores visando à quantidade de público e rarissimamente à qualidade do ouvinte, explicariam em parte a queda dos valores eruditos. O lucro a preponderar sobre a Cultura. Antolha-se-me que, na música erudita ou de concerto, a apresentação individual de um intérprete não pertencente à “seleta” elite bafejada pelo binômio patrocínio-holofote, estará a cada ano mais restrita a público diminuto, mas geralmente qualificado. Diria, audiência de resistência. Sem o fator formado pelo binômio acima, o intérprete individual estará a buscar a “recompensa espiritual” mencionada  por Morelenbaum. Comentei, em tantos blogs, que voluntariamente muitos pianistas altamente qualificados não têm propensão a situações necessárias para serem ungidos, como a constante viagem ou o holofote que pode obliterar intenções mais dignas. Mencionei várias vezes meu Mestre em França, o pianista Jean Doyen (1907-1982), pertencente a um nível de primeiríssima elite, mas que era avesso às “badalações” mediáticas.

Para o pianista que pratica repertório conhecido do grande público, que insere composições brasileiras e, por motivos tantos, obtém patrocínios, as chances de ser abrigado pelas leis de incentivo são maiores. A realidade, contudo, é mais dramática para aqueles que, sem acesso a poderosos patrocinadores e consequente “amparo” da Lei Rouanet, insistem no piano solo em apresentações fortuitas. Se convidados por Universidades no país, têm de se sujeitar aos pro labores apenas; se lembrados por entidades particulares, ficam a mercê do imponderável. A universidade surgiria como “refúgio” de sobrevivência e possibilidade até de rumos outros, devido ao “canto das sereias” administrativo.

Considerando parcela apreciável de pianistas docentes na universidade, a hipótese de drástica desmobilização quanto à eventual carreira artística é real. São necessárias disciplina férrea e perseverança para conciliar aulas, burocracia imensa na Academia e o estudo pianístico e, nesse aspecto, Eudóxia de Barros mostra-se bem cética em “Valeu a Pena?”, justamente pelo desvio de foco. Apenas não menciona, por desconhecer possivelmente as entranhas universitárias, que incontáveis reuniões intramuros são estéreis, como, aliás, majoritariamente na vida política do país.

O consagrado pianista francês Désiré N’Kaoua – meu colega durante curso na classe da legendária Marguerite Long – afirmou recentemente, em longa e substancial entrevista para o site “Pianodoux”, que “o que eu não diria, sob pena de ser acusado de ‘tentativa de desmoralização da legião’ de pianistas, é que sou bem pessimista no que concerne ao futuro do piano, pelo menos em sua formatação de recital público. Creio que o piano está intimamente ligado ao período romântico, durante o qual ele era essencialmente vocal e não destinado a se tornar o símbolo da destreza e da percussão, tal qual o é atualmente. Outro motivo da redução do público: uma visão geopolítica da música ocidental nos revela rapidamente os gigantescos territórios que não mais estão dispostos a receber essa música essencialmente europeia, que alimentou toda a nossa existência. A rapidez dos meios de transporte e a propagação de CDs de todas as origens pelo planeta tiveram como consequência uma incrível proliferação de aprendizes-pianistas, assim como de concursos, sendo que esses oferecem uma sobrevida de curta duração ao laureado – até a aparição de um novo ungido -, abandonando-o à própria sorte, tornando o primeiro, doravante, um pianista em busca de algum concerto. Paralelamente ao rush de novos pianistas, o público que os acolhe encolheu drasticamente”. Em meu livro “Témoignages – Entretien avec le pianiste brésilien José Eduardo Martins” (Paris Sorbonne, 2012), abordava o tema e dizia que, anualmente, legião de pianistas do Extremo Oriente inunda concursos internacionais de piano, habilíssimos instrumentistas, mas na grande maioria com ausência de ideias precisas e criativas.

Pareceria evidente que há mercado para a quantidade de pianistas premiados em concursos internacionais, geralmente por período curto, raramente a ultrapassar um ano. A proliferação dos certames e a quantidade de primeiros prêmios agraciados por numerosos recitais e concertos, logo após a láurea máxima, não são garantias de carreira certa. Seriam as “leis da natureza” a minimizar o laureado anterior, a fim de promover o novo talento. Proliferam os exemplos. Essa assertiva ocorre basicamente em todas as áreas. Uma quantidade mínima consegue prosseguir com uma agenda de concertos preenchida. Vários fatores envolveriam o pianista eleito nesse desenvolvimento a ultrapassar a barreira do prazo vencido: talento indiscutível, patrocinadores relevantes, contatos certos e repertório. Muitos talentos sucumbem ao day after da premiação pelo fato da limitação de repertório e da impossibilidade de, em curto prazo, edificá-lo. O mercado é implacável e a depressão pode instaurar-se.

François Servenière elabora outra metáfora àquela que apresentei no livro citado. “Em seu livro da série ‘Témoignage’, publicado pela Sorbonne, do qual fui um dos entrevistadores, você estabelece metáfora em algumas páginas sobre a existência na ponta do iceberg do repertório super frequentado e na massa submersa, escondida, do repertório pouco tocado ou nunca programado. No âmbito da interpretação, proponho outra metáfora, da montanha. Há aqueles raríssimos, que conquistaram os 14 picos himalaios acima dos 8.000 metros e tantos outros que repartem os cerca de 200 picos na faixa dos 7.000m, também no Himalaia. Virtuosidade na ascensão, perigos enfrentados, risco mortal nas duas faixas de altitude evidenciam profundo valor. Todavia, a mídia apenas projeta todos os holofotes nos ungidos que realizaram o feito do acesso aos 14 picos, as cumeeiras, o Olimpo!!! Casta à parte e poderíamos considerar normal a atitude. Diria que a metáfora relativa ao Himalaia bem se aplica à elite na música, no caso, aos pianistas. A parte submersa do iceberg ou os dificílimos picos logo abaixo dos 8.000m não contam para a mídia. Ficam nas profundezas (iceberg) e na sombra (montanha), respectivamente. Apenas a elite tem o privilégio da unção, independentemente de talentos e qualidades individuais” (traduções: JEM). O certo é que, se aqueles que tiveram acesso aos picos próximos aos 8.000m têm pouca divulgação, menos ainda os que, meritórios, não atingiram os 7.000m. Lembremo-nos que a maior altitude abaixo dos 7.000m está distante da cordilheira do Himalaia. Trata-se do Aconcágua (6.962m) na Cordilheira dos Andes. Metáforas à parte, o recital de piano fora das condições de elite está em crise.

O tema é rico, polêmico e a ele darei espaço no próximo blog, aproveitando trechos da entrevista e da mensagem dos ilustres músicos Désiré N’Kaoua e François Servenière, respectivamente, que acrescentam, inclusive, outros temas significativos relativos à interpretação.

Nowadays space for soloists dwindles as sponsors focus primarily on pop shows and, in terms of classical music, on orchestras, since grandiose shows capture more public and bring in receipts in ticket sales. Only star soloists – in special foreign ones – have a chance and audiences get more of the same, for they keep hearing the same things again and again. Winners of international competitions may become overnight superstars, but just until the next winner is chosen. Profit prevails over culture and legions of excellent soloists remain unknown because financial backers prefer a handful of celebrated performers. As Vargas Llosa announced in his book “Notes on the Death of Culture: Essays on Spectacle and Society”, high culture is dying, replaced by mere entertainment.

 

A pianista Eudóxia de Barros e a revelação por inteiro

A carreira de pianista também é muito difícil.
Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação,
esse talento, essa vontade, nada seria compensador.
A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa:
porque, material, certamente não é!
A pessoa se dedica tanto!
É uma experiência espiritual que eleva a pessoa.
A pessoa penetra naquela música,
e fica alheia do mundo por aquele período.
Acaba levitando dentro daquela música.
Maestro Henrique Morelenbaum

O que realmente importa em qualquer biografia
é o que a pessoa sente e não aquilo que fez.
Glenn Gould

Dentro das leituras existentes na ampla área musical destaca-se a biografia. Pode ser escrita pelo autor ou por outro, no caso, através de depoimentos ou material documental. Não poucas vezes a biografia adquire a roupagem de romance e todo o cuidado deve ser tomado para que equívocos não ganhem status de verdade.

Gosto do gênero biografia de músicos, mormente dos pianistas. Jamais as narrativas têm semelhanças, graças às categorias diferenciadas na abordagem.  Wilhelm Kempff  (1895-1991) narra com sensibilidade seus anos de juventude e cativa pela intensa visão espiritual (“Cette Note Grave – les années d’aprentissage d’un musicien”, Paris, Plon, 1955); Arthur Schnabel (1882-1951) aborda aspectos fundamentais relativos à interpretação e ao período em que viveu (“My life and music”, New York, Dover, 1988); Vladimir Horowitz (1903-1989) explora os muitos aspectos da carreira, comenta sobre pianistas coetâneos, evidencia suas preferências repertoriais (“Evenings with Horowitz” – entrevistas concedidas a David Dubal, New York, Citadel, 1994); Claudio Arrau (1903-1991) discorre sobre sua formação musical, carreira, repertório e, num anexo, tem longo e essencial texto em que aborda o intérprete frente à psicanálise (“Arrau Parle”, – entrevistas concedidas a Joseph Horowitz, Paris, Gallimard, 1985); Heinrich Neuhaus (1888-1964) realiza verdadeira explanação da sua metodologia de ensino, exemplificando processos técnicos, sem abandonar dados concernentes à sua trajetória de pianista e professor (“L’Art du Piano”, Tours, Van de Velde, 1971);  György Czifra (1921-1994) e Zhu Xiao Mei (1949- ) viveram experiências traumáticas. Aquele, prisioneiro dos nazistas e, após, de soviéticos durante a segunda grande guerra. Desde a infância, a trajetória pianística gloriosa teria lances dramáticos e, como toda a técnica pianística e a interpretação tiveram a mais absoluta naturalidade, pouco se refere a elas (“Des canons et des fleurs”, Paris, Laffont, 1977). Zhu Xiao Mei viveu a Revolução Cultural na China e descreve com agudeza os “campos de reeducação” onde esteve detida e sua prática digital-pianística sem piano, a visualização de fuzilamentos de seus mestres e todo o longo caminho até chegar a Paris e desenvolver carreira sólida (“La Rivière et son secret”, Paris, Laffont, 2007); Arthur Rubinstein (1887-1982), nas autobiografias “Les jours de ma jeunesse”, de 1973, e “Grand est la vie”, de 1980 (Paris, Laffont) e Magdalena Tagliaferro (1893-1986) em “Quase tudo” (Rio de Janeiro, 1979) permanecem preferencialmente nas exuberantes trajetórias, mas em abordagens nas quais as apresentações e o convívio social preponderam; João de Souza Lima (1898-1982) narra sua rica trajetória como pianista – dileto aluno de Marguerite Long -, maestro, professor e compositor (“Moto Perpétuo”, São Paulo, Ibrasa, 1982); João Carlos Martins (1940- ) esclarece seu envolvimento com a integral de J.S.Bach para teclado e os vários processos pianísticos criados, mercê de infortúnios que sofreu com as mãos (“Conversas com João Carlos Martins” – entrevistas concedidas a David Dubal, São Paulo, Green Forest do Brasil, 1999); Guiomar Novaes (1895-1979) apresenta-se em estudo multidirecionado onde não faltam depoimentos da pianista (“Uma arrebatadora história de amor” por Maria Stella Orsini, São Paulo, Editora C.I, 1992);   Glenn Gould (1932-1982) pormenoriza determinação consciente em suas interpretações, tantas delas polêmicas (“Glenn Gould – Uma vida e variações”, contém inúmeros depoimentos colhidos por Otto Friedrich, Rio de Janeiro, Record, 2000); Daniel Barenboim (1942- ), pianista, pensador e maestro, tem na polivalência uma de suas marcas essenciais, evidentes em duas autobiografias (“La musique éveille le temps” e “La musique est un tout”, Paris, Fayard, 2000 e 2008, respectivamente); Marguerite Long (1874-1966), em seus livros sobre três compositores franceses fulcrais, Gabriel Fauré, Claude Debussy e Maurice Ravel, expõe não apenas o convívio com os notáveis músicos, mas aspectos interpretativos deles aprendidos (“Au piano avec Gabriel Fauré”, Paris, Julliard, 1963; “Au piano avec Claude Debussy”, Paris, Julliard, 1960; “Au piano avec Maurice Ravel”, Paris Julliard, 1971). Considere-se que as três obras de grande importância, mas escritas bem tardiamente contêm, por vezes, fatos não comprovados. Seria Janine Weil que, ao escrever uma biografia da legendária pianista e professora, levaria ao leitor sua trajetória de maneira mais totalizante (“Marguerite Long, une vie fascinante, Paris, Julliard, 1969).

Essa breve panorâmica apreende fatores essenciais para a compreensão do pianista consagrado e do longo caminho percorrido. Cada um aborda, à sua maneira, as causas que o conduziram ao reconhecimento planetário. Contudo, processos do estudo pianístico ficam por vezes nebulosos, pois estaria mais em evidência o todo do aprimoramento.

Em “Valeu a Pena? – Conversando com Eudóxia de Barros”, entrevistas formuladas e colhidas por Rosângela Paciello Pupo (Brasília, Musimed, 2016), a pianista Eudóxia de Barros narra sua trajetória desde a infância e sua vocação insofismável, demonstrada desde os tenros anos, é largamente exposta. Os estudos no Brasil, em França, nos Estados Unidos e na Alemanha deram-lhe base sólida para a carreira escolhida. Apresentou-se com recepção crítica elogiosa, em muitos países europeus, nos Estados Unidos e na América Latina. Carreira consolidada, pois. Contudo seria, como afirma, a sua ligação umbilical ao Brasil que determinaria durante décadas sua afirmação como pianista pátria, nitidamente ratificada. Caminho escolhido, importaria a Eudóxia expor o seu envolvimento com a Música e, ainda mais, com o piano. “Valeu a Pena?” se diferencia das biografias apontadas pela visão “regional” da pianista, voltada preferencialmente para cenário no Brasil, país que apresenta severas deficiências relativas à cultura musical erudita ou clássica. Mostra-se corajosa nesse trabalho dignificante ao levar música de qualidade aos rincões mais afastados do nosso território.

Largamente comenta todos os processos de sustentação nessa dualidade imprescindível para o intérprete, a prática e a apresentação pública. Não sem razão, no raciocínio de Eudóxia a palavra “estudo”, como necessidade imperiosa, está presente em todos os capítulos. Seria ela a chave mestra, verdadeira fixação, que levaria a pianista a se manter ativa durante tantos decênios. Disciplina espartana quanto ao estudo, preparação para as apresentações, preferência repertorial, cotidiano voltado à música, mas também ao vestuário, às relações humanas, à saúde, ao saudoso marido, o compositor Osvaldo Lacerda, e a um verdadeiro “guru”, que ainda ouve seus programas montados para apresentações a cada ano, o maestro Henrique Morelenbaum, reiteradas vezes são mencionados. Rosângela Paciello Pupo, de maneira extremamente organizada, soube orientar as “entrevistas” para que nada pudesse ficar à margem.

Consideraria “Valeu a Pena?” um livro testemunhal de ordem prática. Quantas não são as vezes que Eudóxia de Barros se expõe de maneira confidencial? Dessa assertiva vem parte do interesse do livro. Revelar-se por inteiro, a não ocultar ao leitor pormenores “laboratoriais” rigorosamente íntimos, demonstra certezas, coragem e até possibilita armadilhas. Há retornos constantes a verdadeiros “dogmas” relacionados ao mencionado estudo diário inflexível, a obedecer regras e de preferência com horários fixos; ao estudo permanente com as mãos separadas; à memorização; à colocação de dedilhados em toda a partitura, mais ainda, em cada figura da trama musical; à prática diária da técnica pura; à preparação no dia de recitais e concertos, dela fazendo parte o estudo prolongado a anteceder a apresentação; à carreira como eixo paradigmático primordial em sua vida. Exaustivamente Eudóxia responde às perguntas inteligentes de Rosângela e, em determinadas reflexões sobre música e interpretação, demonstra até franqueza constrangedora. O leitor poderia se perguntar se estaria aí uma falha. Diria que temos em seus depoimentos a mais absoluta sinceridade, o que é raríssimo entre os intérpretes em suas biografias. Essa sinceridade é porosa, faz jorrar em cada página a descoberta de Eudóxia de Barros por inteiro e não seria essa autenticidade um dos aspectos a tornar “Valeu a Pena?” um livro de forte interesse? A ausência desse desnudamento não faria falta em tantas biografias, entre as quais algumas das acima citadas?

Sob outra égide, basicamente inexiste nas biografias mencionadas o autoelogio. Por questões éticas, de modéstia – ou ausência dela -, de foro íntimo, dificilmente um intérprete em texto faz referência às suas qualidades. Eudóxia, não como vanglória, frise-se, mas como necessidade de expor suas virtudes, revela essa franqueza que pode ser apreendida como vontade de transmitir aos seus incontáveis ouvintes qualidades que eles já tinham captado e que o documental escrito apenas solidifica em suas mentes. Proliferam os superlativos voltados à excelência das oitavas, da velocidade, da compreensão e do fraseado, da memória. Todas essas exaltações transcorrem normalmente e Eudóxia transmite o que ela sente, entende e assiste ao verificar suas facilidades frente ao teclado. Quem teria essa coragem? Quanto à memória, não poucas vezes ressalta ser inadmissível a interpretação tendo-se à frente a partitura em recital solo. Nesse aspecto, entendo o conceito passível de interpretação. Nem todos tem a memória de Eudóxia e, como narra em “Valeu a Pena?”, há todo um científico trabalho para se decorar uma obra. Contudo, tem-se de ver caso a caso. O grande Sviatoslav Richter (1915-1997) confessaria que, nas últimas décadas da vida, apresentava-se com partitura à frente. Assim procedeu tardiamente Roberto Szidon (1941-2011), dessa maneira habitualmente desempenha brilhante carreira o pianista português Arthur Pizarro (1968-  ). Certamente todos tiveram ou têm as obras absolutamente digeridas e a presença da partitura serve certamente como um conforto, a fim de que nada de anormal possa ocorrer. Apenas isso. Sabe-se que ela lá está. Assisti a um sem número de excelentes pianistas na Bélgica interpretando ou integrais ou recitais com obras diversas com a partitura como ajuda. Pessoalmente, mormente nestes últimos anos, assim procedo. O grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro já afirmava que “o tempo é insubornável”.

Uma das qualidades inalienáveis de Eudóxia, exposta com insistência, é o culto à música brasileira. Revela inquestionável missão, cruzada sem trégua a que se dedica desde jovem, não apenas a cultuar compositores consagrados, como Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1897-1986), Camargo Guarnieri (1907-1993) e seu discípulo e marido da pianista, Osvaldo Lacerda (1927-2011), mas também autores que eram desconhecidos do grande público. Dedicou-se igualmente ao repertório pátrio semi-erudito, clássico-ligeiro na visão de seu até hoje conselheiro musical, o Maestro Henrique Morelenbaum. Ernesto Nazareth (1863-1934) e Chiquinha Gonzaga (1847-1935) tiveram suas obras estudadas, interpretadas e propagadas pelos mais distantes rincões do país. Contam-se às centenas as cidades brasileiras visitadas pela pianista nessa hercúlea tarefa. Do clássico-ligeiro ao popular tem-se um passo e Eudóxia demonstraria em sua carreira intrínseca intimidade com a música de Zequinha de Abreu (1880-1935) ou com grupos que praticam o chôro, os denominados Chorões. Polivalência relativa à música brasileira, do erudito ao popular.

Não tendo trilhado carreira acadêmica, Eudóxia faz críticas ao trabalho dentro da universidade e suas obrigações. Crê que a sobrecarga intramuros impeça o desenvolvimento de uma carreira como a que empreendeu.

Um longo capítulo apresenta situações hilariantes pelas quais a pianista passou ao longo da carreira. Tem muita graça, realmente diverte o leitor.

Apêndices apresentam o enorme repertório de Eudóxia de Barros. Verifica-se que, após perpassar parcela das composições sacralizadas e comuns a todos os pianistas, mais e mais ela revelou esse notável trabalho voltado aos compositores brasileiros. Um mérito indiscutível. Também sua larga discografia, críticas recebidas no Brasil e no Exterior e uma instigante entrevista de seu conselheiro musical – Maestro Henrique Morelenbaum – que descreve o perfil pianístico de Eudóxia, complementam o copioso livro. Serve o depoimento do ilustre músico para evidenciar esse entendimento profícuo estabelecido entre ambos.

“Valeu a Pena?” é obra obrigatória na biblioteca de músicos e leigos, mormente dos estudantes que terão em mãos um verdadeiro vade mecum voltado ao cotidiano pianístico, do estudo à apresentação pública, a ratificar in adendo, com letras maiúsculas, a imperiosa dedicação e disciplina para que objetivos sejam atingidos. Essas palavras apenas corroboram o caminho meritório e consagrado da pianista Eudóxia de Barros.

Today’s post addresses the book “Valeu a Pena?”, a series of conversations between the Brazilian pianist Eudóxia de Barros and journalist Rosângela Paciello Pupo. With honesty and candor, Eudóxia talks about a lifetime devoted to music: the discipline required for her daily piano practice, performance preparation routines, the importance of playing from memory, choice of repertoire, recordings, her option for the promotion of Brazilian composers since the beginning of her career. In my opinion, a mandatory reading for music lovers and in special for students, since it makes clear that nothing can be accomplished without practice, discipline and hard work.