Reflexões que atravessaram os séculos

Verifica-se que o bom procedimento influi na perfeita execução;
dela sendo inseparável.
Tudo deve concorrer para que a perfeição resulte,
pois o menor vício destrói a interpretação.
Jean-Philippe Rameau (1752)

Questionaram-me sobre o ato de observar apregoado nos posts de Agosto, dedicados a Rameau. Entendi que seria enriquecedor traduzir para os leitores segmentos de texto basilar do compositor e teórico sobre a observação como fator essencial para deduções a que chegou. Anteriormente mencionara a obra “Réflexions de Monsieur Rameau sur la manière de former la voix et d’apprendre la musique et sur nos facultés en géneral pour tous les arts d’exercice”, publicada no “Mercure de France” em 1752. Essas “Reflexões…” farão parte de uma das sessões que apresentarei em Goiânia, no curso a ser ministrado na Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás, entre os dias 26 e 29 de Setembro. Serão quatro palestras-recitais, em que interpretarei a integral para teclado. Os temas das palestras abordarão sucintamente temas fulcrais relativos a Rameau: “Compositor e Teórico”; “Cravo e Piano – debate estiolado, o instrumento piano e as possibilidades sonoras frente à obra ramista para teclado”; “Querelle des Bouffons – um dos prenúncios da Revolução Francesa”; “Rameau – Debussy, Rameau e seu legado”. No dia 28 darei recital Rameau-Debussy no Centro Cultural da UFG.

A dimensão das “Réflexions…” impede-me de inseri-las por inteiro nos dois posts a que me proponho. Busquei os itens em que o compositor focaliza essencialmente decorrências da observação como meio essencial à teorização que leva à prática. Espírito cartesiano, Rameau tece deduções a partir da arguta observação, que será tipificada e adequada à determinada prática musical que pretende defender, visando à mais correta interpretação musical. “Réflexions…” encerra em seu conteúdo uma inédita apreensão pedagógica e Rameau não despreza, por vezes, as mais simples reações humanas para chegar a conclusões precisas, não se utilizando do condicional. A História dar-lhe-ia razão quanto ao seu antológico ensaio. Frise-se que muitas reflexões permanecem hodiernas tanto pelo aspecto de práticas corretas, como também, hélas, por equívocos que permanecem na pedagogia atual e denunciados pelo compositor em 1752!!!

Para a tradução utilizei-me do texto original francês, sem atualização, publicado naquele ano. Palavras como mesure e nature, como exemplos, têm de ser contextualizadas. Mesure tem várias aplicações.  No caso, seria o tempo, sequência regular da duração dos sons, Há também os termos anima ou andamento, que apreendem igualmente a abrangência do significado. Camille Saint-Saëns (1835-1921) define a mesure ramista como mouvement, no prefácio da edição Durand das  “Pièces de Clavecin”, ao comentar as palavras hardiment, sans altérer la mesure (com brio, sem alterar o movimento, pois), várias vezes inseridas na peça  L’Enharmonique, de 1728. Segundo Philippe Beaussant, um dos biógrafos de Rameau, nature “é um dos conceitos fundamentais da visão clássica do mundo. Quando Rameau fala da natureza, emprega sempre a palavra em seu senso cartesiano”. Em determinados exemplos contidos nas “Réflexions…”, entenda-se também a palavra natureza como predisposição física de um músico. O ensaio foi publicado no ano do início da “Querelle des Bouffons”, contenda estética que se estenderia de 1752 a 1754 entre os partidários da música italiana e os admiradores da música francesa. O termo natureza seria profusamente empregado com significados diferenciados pelas duas correntes.

Houve a necessidade de se dar liberdade à tradução das “Réflexions…”, pois Rameau exercita tantas vezes frases muito longas numa exposição. Importou-me manter o mais possível a coerência e a intenção nos segmentos traduzidos. O leitor entenderá que a divisão em dois posts mostrou-se necessária. Não obstante, esse texto, com precípuo desiderato prático, tem interesse não apenas na área musical e na sua multiaplicação, pois dimensiona a extraordinária capacidade dedutiva de Jean-Philippe Rameau.

O compositor inicia o texto: “Em todos os exercícios que têm relação com a Música, seja ela destinada ao Canto, à Dança ou aos Instrumentos, o sentimento do tempo (movimento) e da harmonia é igualmente igual para todos; esse tempo é comum nos animais, pois seus movimentos são sempre iguais, o que significa, a tempo”. Rameau coloca uma questão: “Não vemos nós muitas vezes determinadas pessoas executarem perfeitamente a música compassadamente, mas não sabendo manter essa regularidade ao dançar?” Encontra a possível resposta na distração.

Rameau considera que “aqueles que ouvem música desde a infância e continuamente são mais sensíveis”. Segue o princípio contido no “Discours de la Méthode”, de René Descartes, do simples ao mais complexo, conceito, aliás, que seria repetido inúmeras vezes em outras reflexões a partir da observação.

De interesse a constatação que depreende de uma escuta simples, diria. Rameau comenta, ao ouvir um jovem que não podia encontrar o uníssono ou a oitava de um som e parecia mesmo ter a voz bem desajustada: “Fi-lo emitir um som à sua escolha, pedi em seguida para que gritasse mais forte e rapidamente, sem pensar, pois ele não sabia o significado de mais alto ou mais baixo, e o jovem emite no instante a Quinta do primeiro som; de onde concluo que ele nascera Músico como qualquer outro, e que poderia chegar a sê-lo, se bem orientado. Dois ou três meses após conseguia cantar com justeza e sucessivamente qualquer intervalo. Esse jovem, sem dúvida, sempre ocupado com algumas ideias, jamais prestara atenção não somente às Músicas que o faziam ouvir algumas vezes, nem aos cantos das Igrejas, tampouco aos cantos das ruas ou dos sinos, que certamente ouvia todos os dias. Explica o fato em si que quase todos os iniciantes em música entoem facilmente os menores graus naturais para a voz, como dó, ré, mi, fá, etc., pois estão familiarizados à força de escutá-los; mas, se ouvem sem escutá-los, esses intervalos lhes serão estranhos como quaisquer outras coisas das quais eles não tenham noção: cabe ao Mestre encontrar a causa dessa aparente surdez”.

Mencionei no post ( III ) dedicado a Rameau uma observação, constante das “Réflexions…”, em que ele rememora lembrança retida concernente a um idoso que, aos 70 anos, cantava as fundamentais de uma canção conhecida, o que o levou a deduzir que é natural ao homem essa noção das notas mais graves, conceito maior para suas teorias envolvendo a Harmonia.

Rameau considera a flexibilidade como uma das faculdades da Música, crendo que muitos se julgam incapazes por má formação até física. Apesar de considerar rara essa situação, acredita não ser senão uma desculpa à má orientação recebida.

Na “Méchanique des doigts”, de 1724, Rameau compara o exercício dos dedos ao se tocar cravo com a caminhada e a corrida. Volta a fazê-lo nas “Réflexions…” em termos mais gerais:

“Porque caminhamos? Porque corremos também? Os que se exercitam menos correm pressionados, e isso basta como prova: é que desde a infância nós nos acostumamos a colocar um pé diante do outro sem pressa, sem nos causar incômodo, sem forçar, pois nossos movimentos formaram-se insensivelmente e ganharam velocidade à medida que aumentavam nossas forças e, consequentemente, a agilidade natural na corrida. É verdade que todos correm com diferentes velocidades. Poderemos atribuir como causa as disposições mais ou menos felizes; mas, sem nos pormenorizarmos nas diferenças de temperamento e conformações, que é uma das causas principais, verificamos que o aprimoramento deixa-se ao tempo. Se pudéssemos dedicar-nos a todos os exercícios desde a mais tenra infância, as disposições seriam proporcionais como na corrida, pois não há movimento que não sejamos capazes de realizar, desde que nos habituemos desde cedo”. Rameau adianta que não é à natureza que se deve atribuir a má disposição, mas sim à orientação: “Mais os hábitos se tornam inveterados, mais difícil se torna debelá-los, impossível até, pois não se trata de retornar ao caminho simples e natural que foi descartado, pois nossos mestres, geralmente menos versados nos segredos da natureza e mais naqueles relativos às artes, não buscam preferencialmente as causas”. Causa e efeito estão constantemente nas reflexões ramistas concernentes a cada aluno e Rameau insiste no fato de que a busca incessante para debelar defeitos está no entendimento da causa, a fim de que ” não mais aconteçam” (má execução).

Atualíssimas palavras vêm a seguir. O compositor explica claramente que os mestres, “unicamente ocupados com os efeitos, julgam nossa capacidade de execução somente através desses efeitos, chegando tardiamente a constatar um vício difícil de ser corrigido, e não retomando novamente o caminho traçado. Adia-se: entende-se melhor continuar com os defeitos, imputando-os à natureza, e é dessa maneira que o estudante se consola e o mestre se desculpa”. Diria que, ainda hoje, o imediatismo e a necessidade de resultados, que favoreçam mais determinados mestres e menos o aluno, podem provocar sérias lacunas no desenvolvimento técnico-interpretativo. Sob outro aspecto, o professor “concurseiro”, que visa primordialmente a preparar alunos para concursos de instrumento, não estaria a negligenciar a formação homogênea do músico, preocupado que está em se valorizar através de vitórias, tantas delas de Pirro?

Rameau a seguir tece reflexões sobre atributos que devem existir para a harmoniosa evolução do jovem músico, “os felizes hábitos que denominamos disposições e que consistem em conservar a leveza natural nos movimentos, perdida caso haja preocupações como a ansiedade e as interferências”. O compositor entende que diversos motivos podem prejudicar a execução, como “excesso de interatividade, a pressa em se chegar rapidamente aos objetivos e, nesses quesitos, o mestre é muitas vezes responsável pelo fato de não saber controlar a empolgação de um iniciante. Tantas vezes a prática sem sucesso não é compreendida na origem e a causa seria que a natureza não foi poupada”. Compreenda-se que nessa visão rumo a uma pedagogia eficaz, Rameau volta-se à natureza como aptidão.

É de se admirar o senso profundo de observação contido nas “Réflexions…”, tema a que Rameau se dedica após seus tratados teóricos, aprofundando-se na problemática visando ao  bom desempenho interpretativo, que durante mais de dois séculos a seguir, foi permanentemente estudado na pedagogia musical e comentado por professores e músicos. Escreve sobre o canto e o instrumento e indica vícios e defeitos que têm de ser sanados, como a voz trêmula contraindo a glote, caretas que evidenciam contração, as várias posições incorretas dos dedos sobre o cravo, que podem indicar igualmente execução contraída, má orientação, tudo demonstrando não estar o executante preparado, a merecer estudar para que não persistam esses equívocos que levam ao mau desempenho.

Rameau aborda igualmente o gesto na arte da dança e, como mencionei nos blogs de Agosto a ele dedicados, a observação ramista estende-se igualmente a outras áreas. Aconselha-se junto aos especialistas. Fá-lo a citar exemplos no que tange às armas e ao adestramento, “como explicaram-me os mais famosos mestres dessas Artes”.

No próximo post tecerei ainda comentários sobre essas “Réflexions…”, um dos textos mais esclarecedores sobre a área da pedagogia musical, indicando acertos quanto à sua aplicação e presságios relativos a vícios, qualidades e equívocos que persistem após mais de dois séculos e meio do memorável texto do grande teórico e compositor.

After four posts dedicated to J.-P.Rameau in August, this week I will focus on his work as music theorist, that to this day persists as one of the most influential contribuitions to music pedagogy.


Mensagens contendo relevantes informações

Europam, partimque Asiae, Libyaeque per urbes
Saeviit: in Latium vero per tristia bella
Gallorum irrupit: nomenque a gente recepit.
Nec non et quae cura: et opis quid comperit usus,
Magnaque in angustis hominum sollertia rebus;
Et monstrata Deum auxilia, et data munera coeli…
Girólamo Fracastoro
(“Syphilis sive morbus Gallicus”, 1530)

A doença subjugou a Europa, espalhou-se pelas cidades da Líbia
e irrompeu no Lácio pelas terríveis guerras gaulesas,
recebendo por isso o mesmo nome desse povo. Sim, e agora?
Qual o tratamento, como combater a doença
e as angustiosas decepções dos homens;
como nos socorrermos dos deuses e dos favores dos céus? (Tradução livre)

O post anterior suscitou inúmeras mensagens. Geralmente curtas, todas, sem exceção, enfatizaram a temática escolhida pelo ilustre médico e escritor Heitor Rosa, como questionaram o “paradeiro” da edição, não encontrável em livrarias. Soube que a Livraria Cultura, via internet, é um caminho. Como estarei em Goiânia no fim deste mês para curso e recital na Universidade Federal de Goiás, encontrar-me-ei com Heitor Rosa e poderei transmitir, àqueles que me enviaram mensagens, esclarecimentos sobre “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” e “O Enigma da 5ª Sinfonia” (vide blog de 30/07/2016).

Transcrevo inicialmente a mensagem de Heitor Rosa. Foi-me importante, pois receber a opinião do autor é sempre estimulante, seja ela boa ou má. Neste caso leva ao aperfeiçoamento; naquele, ao estímulo para prosseguir.

“Vi, fascinado e imensamente alegre, seu generoso comentário sobre o Cirurgião-Barbeiro. Não adianta esconder o ego inflado provocado por uma pessoa tão excepcional e importante como você. Parece que todo o sacrifício de escrever e publicar desaparece quando me vejo como motivo de tão distinta honra no seu blog, assim como uma análise comovente. Obrigado mil vezes. Agora, vou confessar-lhe um segredo sobre um momento muito importante da história, para mim, que foi o desfecho de Helena. Como você leu, ela se feriu no pé, e a consequência foi a causa de sua doença. A descrição de seu sofrimento e posição no leito correspondem fielmente ao tétano (arqueamento do corpo, espasmo muscular etc). Pesquisei longamente como a doença era interpretada na época…(coisa do demônio). Sofri muito em castigar minha heroína e dar-lhe tal destino. A cena toda me tomou muito tempo, vários dias, pois precisava de um cenário dramático. Só depois de ouvir, altas horas da noite, o Requiem de Fauré consegui enxergar a cena. Não me foi fácil…mas quando escrevemos não somos donos da história ou dos diálogos. Você deve saber disso melhor do que eu…os mistérios da composição ou da interpretação. Obrigado mil vezes por sua cumplicidade na minha obra. Não sei bem como agradecer. Seu, fraternalmente, Heitor”.

Como o faz com absoluta assiduidade, o que me honra muito, o notável pensador e compositor François  Servenière me enviou informações preciosas sobre a atividade do cirurgião-barbeiro, reportando-se igualmente à prática farmacêutica ontem e hoje e à função precípua de um especialista da área em período relativamente recente, a não ultrapassar um século, assim como às transformações aceleradas por que passa a sociedade como um todo.

A mensagem de François Servenière testemunha a qualidade temática escolhida por Heitor Rosa, o arguto conhecimento do médico-escritor goiano no que concerne à prática e ao tratamento, mormente no período medieval, assim como o desenrolar da trama do romance baseada em tantos fatos reais. É-me sempre prazeroso divulgar as posições de Servenière relativas ao post da semana. Músico e pensador de alto nível, suas mensagens enriquecem não apenas o blog, mas trazem uma diferente luz aos temas abordados. Escreve:

“Li com atenção seu artigo sobre o livro de Heitor Rosa. Evocou-me numerosas reflexões. Adoro esse universo literário que reporta aos períodos ancestrais da medicina de campo, através dos cirurgiões-barbeiros, associação que se nos afigura hoje iconoclasta e quase sacrílega pelos que mantêm a arte médica.

Primeiramente, não me lembro de ter ouvido falar da sífilis como o Mal Francês e que o autor do terrível nome que se propagou era o célebre Hieronymus Fracastorius… Mal Francês ou sífilis, títulos de glória ou triste reputação no país do Marquês de Sade!!! Você me lembrou em seu blog. A cultura francesa é aquela do amor cortesão, mas o francês tem a reputação de sedutor vil e de marido  volúvel. Reputação confirmada pelas aldrabices de nossos políticos, a cem léguas do puritanismo dos peregrinos, os pilgrim fathers. Não obstante, italianos, espanhóis e portugueses não têm a invejar a propensão latina na arte da sedução.

Segunda lembrança evocada após seu artigo relaciona-se à música, que compus em 1993-1994 para o programa da France Télévision, ‘Au coeur des toiles’ (http://www.esolem-production.com/acd2list.html). Na lista de pinturas consagradas que deveriam ser ilustradas musicalmente figurava uma obra prima, ‘O tira-dentes’, de Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770), pintura de 1754. Fui buscar minhas leituras nesse universo dos cirurgiões-barbeiros, ascendentes dos dentistas-cirurgiões (enfermeiros, cuidadores…) que, em suas épocas, eram socialmente respeitados, pois manuseavam o bisturi e a navalha com rara habilidade, sabiam igualmente ‘impor as mãos’ e, sobretudo, eram psicólogos natos e conhecedores dos enigmas da alma humana. Adeptos bem anteriores dos princípios do Método Coué”. Servenière refere-se ao  Método decorrente dos trabalhos do psicólogo e farmacêutico francês Émile Coué de la Châtaigneraie – 1857-1926. O método está fundamentado na sugestão e auto-hipnose. Prossegue Servenière: “Apreendi um detalhe instigante das práticas contidas no Método e que nós quisemos reproduzir musicalmente no audiovisual citado anteriormente. Na verdade, quando o barbeiro apertava o dente que deveria ser extraído, esse agora prático tira-dentes ordenava aos seus músicos, sempre presentes nesses lugares, que tocassem mais forte até o clímax, momento em que decidia extrair de um só golpe seco o dente condenado. Na verdade, esse aumento de volume sonoro prestava-se a duas coisas essenciais. Primeiramente, permitia ao ‘cirurgião’ desviar a atenção do paciente, pois ele operava em público sobre um estrado, no meio da praça do mercado. O paciente não mais focalizava suas dores e o pós-operatório, tampouco o stress de sua exposição pública sujeita à gozação nessa cena de ‘cinema’, pois pensava em outra coisa, descontraía-se e seu stress caía. Ao mesmo tempo, a música permitia ao auditório saber que o evento principal estava por acontecer. A música desempenhava a função de ilusão e de ilustração, como nas sessões de magia, com uma dramaturgia indo em escala ascendente até o auge.

Outra reflexão. Mais avanço em seu texto, mais ele evoca reminiscências que remontam à tradição familiar. Meu avô criava sanguessugas para fins medicinais, pois elas eram atração em sua velha farmácia (anexo foto). Meu pai e meu avô foram herboristas renomados. Essa tradição perdeu-se pouco a pouco, mercê do surgimento dos laboratórios farmacêuticos multinacionais que iriam doravante buscar muitos de seus princípios ativos na imensa floresta amazônica de seu Brasil. A tradição europeia do medicamento e do herborista se esvai gradativamente no Ocidente, apesar de ainda ser ensinada. Todavia, a caixinha de comprimidos amputou seriamente o saber do apotecário, que perderia por sua vez sua curiosidade campestre ancestral!!! O jovem farmacêutico não mais faz longas vigílias, muito menos ‘colheitas’ nas zonas rurais. Milita pelas 35 horas e se satisfaz com a situação salarial, como examinador de receitas médicas e vendedor de caixas de remédios. Menciono esses fatos, pois há membros de minha família que mantêm profissões ligadas ao tema que desenvolvemos e, para exemplificar: irmã, tio, tias, primos… Com a música e sua vasta área, temos duas particularidades importantes de nossa cultura familiar, que remonta a mais de um século!!! Diria que a propensão vital é o contato preservado com a natureza! A antítese niilista é a ignorância e a viagem em direção ao vazio do pensamento. Os limites do homem são apenas internos, psicológicos, como nós dois sabemos.

Adorei a frase latina primum non nocere (‘antes de qualquer coisa, o médico não será nocivo’), atribuída a Girolamo Fracastoro. Há alguns anos li o extraordinário livro de um escritor inglês sobre a peste que grassou no século XIV e que ceifou 1/3 da população europeia, que era constituída por cerca de 30 milhões de indivíduos.

Obrigado pelo post soberbamente interessante em torno do livro de seu amigo Heitor Rosa. Fez-me ativar lembranças que não se apagam”. (tradução: JEM).

Last week’s post, about Heitor Rosa’s novel “Memories of a Barber-Surgeon” got much feedback. I publish two of the messages received. The first —a great honor— from the author himself, who sends his thanks for the post and takes the opportunity to clarify us on the destiny of one of the characters of the book. The second, by the always thought-provoking French composer François Servenière, who talks about the memories the reading arouse in him, born in a family of pharmacists, and on how the tradition of herbalists has been lost in the era of great pharmaceutical labs.

 

 

 

Um romance sedutor de Heitor Rosa

Mas não se trata de um trabalho científico, acadêmico;
o que temos aqui é um romance que prende o leitor
da primeira à última página.
Moacyr Scliar

Girolamo Fracastoro (1478-1553), também conhecido pelo nome latinizado de Hieronymus Fracastorius, foi uma das mais notáveis figuras de seu tempo. Médico, humanista, poeta e filósofo italiano, Fracastoro ficaria imortalizado por suas teorias racionais sobre as doenças contagiosas que grassavam no período. O nome sífilis, difundido na época como Mal Francês vem de um de seus poemas, “Syphilis, Sive Morbus Gallicus”, de 1530. Também se debruçou sobre a peste que ceifou porcentagem altíssima das populações europeias. Deve-se a ele estudos sobre o tifo. Como astrônomo, publicou em 1538 o importante “Homocentricorum Sive De Stellis Liber”.

Resenhei há semanas o livro do médico e escritor goiano Heitor Rosa, “O Enigma da 5ª Sinfonia” (vide blog de 30/07/2016). Heitor Rosa não é apenas professor e gastroenterologista respeitado, mas também escritor de reais méritos. Pesquisador da medicina antiga, mormente a do fim da Idade Média e início da era Moderna. No blog mencionado inseri alguns dos aprofundamentos de Heitor Rosa quanto às práticas medicinais do período, tratamentos habituais onde não faltavam ervas, sementes, poções advindas dos lugares mais distantes da Terra e que, misturadas ou não, produziam lá seus efeitos paliativos. Sangrias eram comuns, a sanguessuga habitualmente utilizada.

Li com enorme interesse “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” (Rio de Janeiro, Bertrand, 2006), romance de Heitor Rosa. O título já é intrigante. A classe de cirurgião-barbeiro era respeitada nas comunidades. Sem o título de Doutor, o cirurgião-barbeiro desempenhava função fulcral nas cidades. Lembraria ao leitor que, em termos brasileiros, nos séculos XVIII e XIX o barbeiro desempenhava em rincões do país igualmente a função de dentista, verdadeiro “tiradentes”. A extração nos casos necessários era realizada após ingestão “anestésica” de cachaça.

O narrador criado por Heitor Rosa, Gioacchino dalla Rosa, torna-se cirurgião-barbeiro, a mesma profissão de seu pai, estuda as práticas em Londres, regressa a Verona e dá-se o encontro com Fracastoro: “Em certa manhã de maio, enquanto amolava as navalhas, ele apareceu, pedindo-me para aparar a barba e o bigode. Impossível esconder o susto. Diante de mim, encontrava-se o homem mais popular, querido e respeitado de Verona, Girólamo Fracastoro. O mais sábio”. O médico convida-o para ser seu assistente nas tantas tarefas a visar ao combate ao Mal Francês (sífilis) que assolava a Europa. Apresenta-se atrasado no dia seguinte em casa do ilustre Fracastoro, pois a cidade estava atônita com a morte de dois jovens, Romeu e Julieta!!! Fracastoro o repreende pelo atraso e doravante Gioacchino tornar-se-ia fiel auxiliar.

O romance ganha “fidelidade” em todas as narrativas nas quais procedimentos médicos, tratamento, preparação de medicamentos estão em causa. Heitor Rosa, que durante seus estudos de medicina em França e na Inglaterra interessou-se pela temática a envolver os séculos XIV a XVI, assimilou conhecimentos imprescindíveis para dar às memórias do cirurgião-barbeiro a mais abrangente “autenticidade”. Gioacchino acompanha determinados tratamentos ministrados por Fracastoro e ganha o leitor ao conhecer procedimentos empregados pelo notável médico italiano. Nos incontáveis diálogos médico-assistente, Heitor Rosa tira de Fracastoro conceito relativo à moléstia e ao tratamento: “… a moléstia é pior do que o tratamento; viste alguém morrer dele? Garanto, entretanto, que não tens a conta dos mortos pela doença. Por acaso achas que desconheço o princípio de primum non nocere? ‘Antes de qualquer coisa, o médico não será nocivo’. É um aforismo de Hipócrates”. Basicamente a temática gira em torno da sífilis, o Mal Francês.

Católico, Fracastoro frequenta as mais distintas autoridades eclesiásticas, devido a sua sapiência médica. Esse tema é bem conduzido pelo autor e a narrativa feita por Gioacchino acompanha Fracastoro em visita privada ao Papa Paulo III. Comparece ao Concílio de Trento. A probabilidade de a peste atingir a cidade causa um imbroglio muito bem administrado por Heitor Rosa.

Uma das maiores virtudes de “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” é a sequência fidedigna. Percebe-se claramente que o autor buscou estudar pormenorizadamente a vida, os atos, a obra e os caminhos percorridos por Girólamo Fracastoro. Segui-lo em sua biografia, entrando em cena através de fértil imaginação e criatividade, foi consequência positiva. Trazê-lo aos nossos dias com o pleno conhecimento do personagem que desfilou sua competência a mais de meio milênio é tarefa difícil. Qualquer deslize inviabiliza a trama imaginária calcada na realidade vivida. Não fosse Heitor Rosa um respeitado profissional na área médica, teríamos inconsequências.

Não poderia faltar um relato amoroso. Gioacchino torna-se confidente de Fracastoro e segue a paixão do médico pela bela Helena que morreria após doença igualmente incurável àquela altura – tifo, peste, raiva?

Sob égide diferenciada na condução das tramas, não há como não associar “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” ao romance, igualmente abordando o período medieval, “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco. Se o autor italiano encaminha a narrativa em área de seu domínio, Heitor Rosa, de maneira quase professoral, ensina-nos uma parcela da história da medicina através não apenas das reflexões do narrador, como a partir dos inúmeros diálogos com o mestre e médico sobre a origem das doenças que levavam à morte, por vezes, populações inteiras.

Como bem escreve o médico e escritor Moacyr Scliar (1937-2011) nas orelhas do livro: “Através de sua narrativa, somos introduzidos a um capitulo verdadeiramente extraordinário na história da medicina e da humanidade. Aprendemos, portanto, e aprendemos com emoção e prazer. Pelo que só podemos dizer a Heitor Rosa: ‘Obrigado, doutor’. Ah, sim, e ‘obrigado, escritor’ “.

Reitero o que escrevi na resenha de “O Enigma da 5ª Sinfonia”, pois os livros de Heitor Rosa deveriam ser divulgados através de nossas livrarias. Oxalá isso ocorra.

Today’s post is my appreciation of the book “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” (Memories of a Barber-Surgeon), written by the Brazilian doctor and University teacher Heitor Rosa. Intertwining historical and fictional characters, the story focus on the life of the Veronese doctor Girolamo Fracastoro (1478-1553) and his research on syphilis. Narrated by Fracastoro’s fictional assistant , Gioacchino de la Rosa, the enrapturing plot — with its historical truth solidly documented – makes readers dive into the ambience of 16th century Europe, unveiling its religious ideas and medical practices.