Máximas morais

É uma das obras que mais contribuiu para formar o gosto da nação
e para lhe incutir um espírito de exatidão e precisão…
Acostumou as pessoas a pensar e a expressar
os seus pensamentos de forma ágil, precisa e delicada.
Voltaire (1694-1778)
(“Le siècle de Louis XIV”)

Por que não se leem mais
os grandes mestres da sentença psicológica?
– pois, sem qualquer exagero:
o homem culto que tenha lido La Rochefoucauld
e seus pares em espírito e arte é coisa rara na Europa;
e ainda mais raro aquele que os conheça e não os insulte.
Nietzsche (1844-1900)
(“Humano, Demasiado Humano”)

Há meses que não encontrava Marcelo na feira livre do Campo Belo. É um amigo que prezo e admiro, inúmeras vezes presente ao longo dos anos neste espaço. Leitor assíduo dos blogs hebdomadários, por vezes sugeria um tema que me fazia pensar e geralmente se transformava em blog. O encontro se deu nesse último sábado. Após a feira livre, como sempre fazemos nesses raros, mas agradáveis encontros, fomos tomar um curto nas cercanias, e a conversa se estendeu. Falou-me das epígrafes que insiro e de algumas que coloquei nos posts bem anteriores, entre as quais as do “Adagiário Açoriano”. Infelizmente, após a mudança de morada no ano passado não mais encontrei os dois volumes contendo as frases tão pitorescas e oriundas da tradição oral do povo do arquipélago dos Açores. Igualmente lhe agradaram inúmeras citações e pensamentos do pensador português Agostinho da Silva (1906-1994), que serviram de introdução a inúmeros posts. Disse-me que arquivou todos esses aforismos.

Ao regressar da feira livre pensei nas “Máximas morais e reflexões diversas” de François de La Rochefoucauld, geradas por uma das mentes mais brilhantes em França no século dezessete e obra que influenciaria gerações futuras. De um livro que pertenceu ao meu Pai e que tive o prazer de ler na juventude, extraí algumas máximas relevantes (“Les Maximes de La Rochefoucauld”, Paris, Flammarion, 1937) a partir do texto da quinta edição (1678), sob o título: “Réflexions ou sentences et maximes morales”.

O Duque François de La Rochefoucauld nasceu em Paris e descendia de família pertencente à nobreza. Foi uma ilustre figura do século dezessete, pois escritor, moralista e também militar.  Teve atritos com os cardeais Richelieu e Mazarin, assim como com Luíz XIV. Como militar, participou das revoltas da Fronde (1648-1653). Em uma escaramuça no faubourg Saint-Antoine, foi gravemente ferido com um tiro de mosquete no rosto. Posteriormente exilou-se em seus domínios. As Máximas de La Rochefoucauld, pela amplitude de seus propósitos, imortalizaram o autor.

O autor do longo prefácio do livro mencionado, J.-F. Thénard, sintetiza os efeitos da escolha literária de La Rochefoucauld: “Ele viveu neste mundo, mais como um espírito brilhante do que como um erudito, mas nasceu pensador e escritor de gênio — quero dizer, por instinto. Tendo surgido em uma época conturbada e frívola, dedicou-se a reproduzir as reflexões suscitadas pelo ambiente em que se encontrava. Se o autor das Máximas tivesse sido alimentado por profundos estudos históricos e filosóficos, se, ao pegar na caneta, tivesse podido evocar em seu pensamento os homens e as coisas dos antigos anais dos diversos povos, juntamente com os julgamentos proferidos por escritores de grande prestígio, poderíamos acreditar que ele não teria sido tão amargo, tão desanimador às vezes na análise que faz dos sentimentos íntimos do homem; mas teria perdido parte de seu eu, de sua originalidade.”

Distanciam-se as máximas, citações ou pensamentos do romance ou das narrativas literárias, pelo fato de traduzirem aquilo que o autor pensa no seu cotidiano, expondo, através da escrita, o que está no seu de profundis. As centenas de Máximas de La Rochefoucauld são o seu retrato mental.

Clique para ouvir, de Jean-François Dandrieu (1682?-1738) e de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), nascidos pouco após a morte de La Rochefoucauld, “Les Tourbillons”, criações com o mesmo título utilizado pelos dois compositores, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=begt8k6ErRY&t=203s

Selecionei diversas máximas, entre centenas, e cujo teor básico perdura através dos séculos. Há temas sobre os quais La Rochefoucald mais se debruçou, entre esses: mérito, orgulho, paixões, amor, amor-próprio, espírito, interesse, elogios, humor, amizades…

A clemência dos príncipes não é senão uma política para ganhar a afeição dos povos.
Essa clemência, tida como virtude, se pratica ora por vaidade, às vezes por preguiça,
muitas vezes por medo, e quase sempre pelas três razões juntas.

A esperança, por mais enganosa que seja, serve pelo menos para nos conduzir,
até o fim da vida, por um caminho agradável.

Longe disso: a inocência não encontra tanta proteção quanto o crime.

Se não tivéssemos defeitos, não teríamos tanto prazer em percebê-los nos outros.

A felicidade está no gosto e não nas coisas; é por ter o que amamos que somos felizes,
e não por ter o que os outros consideram agradável.

O orgulho é igual em todos os homens,
a única diferença está nos meios e na maneira de manifestá-lo.

O mundo costuma premiar mais as aparências do mérito do que o próprio mérito.

O amor à justiça não passa, na maioria dos homens, do medo de sofrer injustiça.

A verdade não traz tanto bem ao mundo quanto as aparências causam mal.

A ausência diminui as paixões medíocres e intensifica as grandes,
tal como o vento apaga as velas e acende o fogo.

Há pessoas que nunca se teriam apaixonado se nunca tivessem ouvido falar do amor.

Muitas vezes passamos do amor à ambição, mas raramente voltamos da ambição ao amor.

Uma mulher honesta é um tesouro escondido;
quem a encontrou faz muito bem em não se gabar disso.

Um homem a quem ninguém agrada é muito mais infeliz do que aquele que não agrada a ninguém.

Embora os homens se orgulhem de suas grandes ações,
elas nem sempre são fruto de um grande desígnio,
mas sim do acaso.

Como é próprio das grandes mentes expressar muitas coisas com poucas palavras,
as mentes mesquinhas, pelo contrário, têm o dom de falar imenso e não dizer nada.

Costuma-se fazer alarde até mesmo das paixões mais criminosas;
mas a inveja é uma paixão tímida e vergonhosa,
que nunca se ousa confessar.

Os idosos gostam de dar bons conselhos para se consolar
por já não estarem em condições de dar maus exemplos.

Um homem de espírito ficaria muitas vezes bastante constrangido sem a companhia dos tolos.

A recusa aos elogios é o desejo de ser elogiado duas vezes.

Somente aos grandes homens cabe ter grandes defeitos.

Os defeitos da alma são como as feridas do corpo: por mais cuidado que se tenha para curá-los,
a cicatriz sempre fica visível, e eles correm o risco de se reabrir a qualquer momento.

O mesmo orgulho que nos leva a criticar os defeitos dos quais acreditamos estar isentos
nos leva a desprezar as qualidades que não possuímos.

Chegamos como novatos às diversas fases da vida e, muitas vezes, carecemos de experiência,
apesar do número de anos.

Nem o sol nem a morte podem ser olhados fixamente.

No próximo blog apresentarei um dos textos das “Réfléxions diverses” de La Rochefoucauld: “De la Retraite”, no qual o autor observa com agudeza o período final da existência.

La Rochefoucauld’s Maxims, written in the 17th century, are timeless and capture the essence of what it means to be human.

 

 

Sem luz no fim do túnel?

Sou especialista da curiosidade não especializada.
Agostinho da Silva (1906-1994)
(“Espólio”)

Deixei passar algumas semanas para tecer observações que tiveram comprovação transparente no que concerne aos jogadores da nossa seleção frente aos desafios da Copa tão almejada pelo povo brasileiro. Ficou evidente o desempenho pífio da seleção em todos os cinco jogos que a levaram à melancólica eliminação. Contrariando a maioria dos meus próximos, não tinha nenhuma esperança nessa seleção sem brio. Desconhecia a maioria dos jogadores, um dos fatos que me encaminhou para a incógnita. O anúncio da convocação, em festividade desproporcional a um ato de rotina, normalmente realizado de maneira protocolar mundo afora, já era um indicativo de interesses outros a se acoplarem à essência do futebol.

Recordo-me dos anos a estudar piano em Paris com mestres extraordinários (fins de 1958-1961), sem ter retornado ao Brasil nesse período. Ao regressar e após recital em São Paulo, fui entrevistado pela renomada atriz Bibi Ferreira (1922-2019) em um programa televisivo. A certa altura, ela observou que eu mantinha um sotaque afrancesado. A ponderação de Bibi Ferreira calou-me fundo durante um certo tempo. Confesso que no regresso, durante um período razoável, meus pensamentos estavam voltados à cultura e ao modus vivendi europeu: repertório pianístico alargado, apresentações e concursos internacionais, intensa leitura dos grandes escritores, amizades preferencialmente ligadas à cultura musical e literária da França, conjunto que me foi fundamental durante o passar dos anos. Sempre a conservar uma admiração plena pela cultura europeia, passei a admirar progressivamente nossos valores culturais e, à minha dedicação contínua ao maiúsculo repertório europeu, agregaram-se paulatinamente criações de compositores brasileiros, que estariam intensamente presentes doravante entre os meus eleitos.

Esse prólogo se faz necessário para que as deduções sobre o desempenho do futebol brasileiro nestes últimos lustros tenham alguma racionalidade, frise-se, totalmente desprovida de quaisquer outras intenções neste espaço.

Se pensarmos em alguns dos maiores ídolos do futebol brasileiro que se transferiram para o futebol europeu, como Julinho (Júlio Botelho – 1929-2003) e Careca (Antônio de Oliveira Filho – 1960), suas mudanças deram-se tardiamente, em 1955 e 1987, respectivamente, ou seja, após os 25 anos de idade.  Roberto Carlos (1973), após brilhar no Palmeiras, transferiu-se para a Europa aos 22 anos para jogar na Internazionale e no Real Madrid. Pelé (Edson Arantes do Nascimento (1940-2022), o atleta do século pelo Comité Olímpico Internacional (2000), só se transferiu para o New York Kosmos em 1975, um ano após se aposentar do seu time eleito, o Santos. Qualidades inalienáveis que estavam nas raízes do futebol brasileiro, como o drible, as improvisações desconcertantes e a alegria de jogar corroboraram essas contratações. Retornaram ao país de origem e vários prosseguiram suas brilhantes carreiras. O passar dos anos afunilou a precocidade das transferências. Romário (1966-), Ronaldo “Fenômeno” (1976-), Ronaldinho Gaúcho (1980-) e Adriano “Imperador” (1982-), nas fronteiras dos 20 anos, firmaram contratos com times da Europa e o retorno ao país se deu a fim de encerrarem suas atividades.

Considere-se que as transações eram imensamente menos custosas para os times compradores. Naquela época dizia-se “prata da casa”. As somas vultosas atuais poderiam alterar a designação para “diamantes da casa”, máxime para determinadas contratações a preços estratosféricos.

Presentemente, há casos em que, ainda imberbes, jogadores talentosos assinam pré-contratos a partir da idade mínima permitida na Europa para essas transações, documentos baseados na esperança do vir a ser do atleta saído da adolescência. Partem, majoritariamente sem um nível educacional sedimentado, para centros futebolísticos avançados, resultando no deslumbramento ou na decepção.

Transferência realizada, esses jovens jogadores recebem altos salários, inimagináveis em termos brasileiros se considerarmos os correspondentes décadas atrás. Sim, há uma plêiade de ótimos jogadores pátrios atuando, máxime na Europa. Permanecerão, tudo leva a crer, muitos anos no Exterior e, por vezes, serão transferidos para outros clubes igualmente qualificados. Esse é um processo bem natural, os ganhos continuarão elevados e os que, ao longo dos contratos, não corresponderem ao que deles se esperava, normalmente retornarão ao futebol pátrio ou serão transferidos para clubes menores da Europa ou da Ásia.

Acredito que esse grupo de jogadores atuando no Exterior perde, com o tempo e o sucesso, aquilo que sobejamente sobra nos atletas argentinos, a garra, atributo este que faltou na decisão contra a Espanha devido, é possível, ao cansaço pelas prorrogações anteriores, mas certamente pela enorme qualidade técnica e tática superior da seleção espanhola. Aquele apego ao Brasil, tão presente nas seleções vencedoras em 1958, 1962, 1970, 1994, 2002, esvaiu-se. Tive a sensação plena do não comprometimento dos nossos badalados jogadores, inicialmente nos quatro jogos iniciais e, a seguir, na contenda em que o Brasil foi derrotado pela Noruega. A seleção evidenciou nitidamente o não comprometimento pleno. Perdíamos por um gol, os atletas noruegueses ficavam a trocar bolas no centro do campo e os nossos jogadores não lhe davam combate. Excepcionalmente, diante de uma seleção historicamente inferior, mas que lutou bravamente, a Noruega teve 66% de posse de bola e o Brasil, 34%. Foi a menor porcentagem de posse de bola desde 1966 ao longo das Copas. Contrariamente, a seleção da Argentina, ao sofrer os gols do Egito e da Inglaterra, não mais deixou os oponentes respirarem. A todo instante um jogador argentino dava combate àquele adversário que estava com a bola.

A ratificar o apreço menor ao país, após a derrota diante da brava Noruega, o avião fretado para a delegação brasileira retornou ao país com apenas um jogador. Uns foram paras suas moradas na Europa, outros mais para gozarem as férias, e aquele proclamado anos antes como o salvador da pátria, um ex-jogador em atividade, segundo jornalistas não comprometidos, poucos dias após o fracasso estava em torneio de carteado em um cassino dos Estados Unidos. Esses distanciamentos não são a evidência cabal do não comprometimento? Sob outra égide, o treinador preferiu se refugiar em sua propriedade no Canadá ao invés de, ao menos, regressar ao Brasil e se pronunciar. Acúmulo de erros, desinteresse transparente da maioria dos jogadores, evitando explicações em entrevistas, silêncio da CBF…

Não mais acredito em uma verdadeira seleção imbuída dos valores nacionais, com “o sangue nos olhos”, como o jargão professa. Uma CBF plena de interesses, patrocinadores poderosos e influentes gerindo paulatinamente os clubes nacionais e a consequente perda da identidade dos nossos jogadores, que passam a ser, apenas, mercadoria valiosa nas mãos de dirigentes e empresários. A alegria, a espontaneidade, o drible, marca registrada dos atletas de antanho, como os de Pelé, Garrincha, Ronaldo e Ronaldinho, ficaram na memória daqueles que tiveram o privilégio de vê-los atuando.

Sob outro aspecto, já não somos há tempos o país do futebol. Ásia e África evoluíram muito no que tange ao esporte bretão. Marrocos, Cabo Verde, Costa do Marfim, Egito e Japão evidenciaram progressos expressivos, mormente planejamento. A Europa recebe anualmente a talentosa “safra” de jogadores bem jovens da América do Sul e da África como um todo. Em termos sul-americanos, a Argentina demonstrou, na Copa anterior ao se sagrar campeã e, de maneira implacável na última eliminatória para o maiúsculo certame, uma superioridade enorme comparada à nossa desorganizada e sem anima seleção.

No presente só exportamos jovens saídos da puberdade. Essa atitude, mais a consequente perda de identidade desses talentos promissores, só levarão nossas aspirações em termos de Copa do Mundo ao impasse. Não será em quatro anos, até a próxima Copa, que se estruturará uma seleção, partindo hoje da estaca zero, pois é desta situação que teremos de partir, ainda mais sob a direção de um técnico estrangeiro com contrato firmado até 2030, extraordinário treinador em clubes expressivos europeus, mas que tomou decisões equivocadas não apenas na convocação dos jogadores, como também na escalação para os jogos. Tem histórico comprovado para realizar uma restruturação total da nossa seleção.

Poderia parecer absurdo, mas creio que, neste imenso país com tantos times relevantes, uma seleção apenas com os que estão a disputar jogos no Brasil não poderia ser uma solução? O amor à camisa canarinho não estaria preservado? CBF, patrocinadores e empresários permitiriam?

Comentei a temática do post com o dileto amigo Dorinho Bastos, renomado cartunista e professor doutor da ECA-USP. Dias após, Dorinho me enviou o sugestivo cartoon que ilustra o blog.

My belated reflections on our national team’s dismal performance in the World Cup and the loss of a sense of national identity among our players, who almost always leave Brazil as soon as they reach puberty, moving to European teams with astronomical salaries. Sponsors, agents, and the governing body of Brazilian soccer itself, the CBF, have a lot to explain regarding the causes of such a disjointed national team

 

 

Um pianista, músico na acepção, a ser lembrado

Mais custa quebrar rocha do que escavar a terra;
Mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou.
A grandeza da obra é quase sempre devida
à dificuldade que se encontra nos meios a empregar.
Agostinho da Silva (1906-1994)
(“Considerações”)

Recebi mensagem da musicista e pedagoga Luzia Benda, viúva do notável pianista e professor Sebastian Benda, comunicando uma efeméride especial, o centenário do seu marido com quem teve cinco filhos, músicos instrumentistas e professores.

Há personalidades que ficam retidas em nosso de profundis através de seus exemplos, tanto na área profissional como na vida familiar. Caso do pianista e professor Sebastian Benda (1926-2003), de quem guardo as melhores recordações, que datam dos tempos em que, aos 17 anos, frequentei o curso de férias da Pró Arte em Teresópolis. Minha admiração por Benda como pianista vem dessa época, pois, a convite da organização, veio ao Brasil para ministrar master classes e oferecer recital no curso em questão. Tivemos laços de amizade que perduraram. Benda foi um amigo sempre cordial e com quem mantive contatos, máxime sobre as nossas esferas de atuação. Uma de suas virtudes essenciais, a lhaneza, refletia-se em suas interpretações sempre bem cuidadas, onde não havia espaço para exibicionismos ou gestual exacerbado. Essa postura, baseada num sólido conhecimento, permitia a transmissão da obra executada dentro dos parâmetros da tradição, tradição esta negligenciada por muitos intérpretes voltados a fatores periféricos, que contaminam a mensagem musical.

Em um blog publicado aos 21/11/2015 (Sebastian Benda – 1926-2003), escrevi sobre o pianista e professor, que viveria no Brasil durante 29 anos, a atuar com frequência e a ministrar aulas na Universidade Federal de Santa Maria (RS) e na Universidade da Bahia. No blog mencionado acima incluo maiores dados biográficos. Quando de um Festival J.S.Bach no Teatro São Pedro, em que foram apresentados os Concertos do compositor para cravo (interpretadas ao piano) e orquestra, esta conduzida por Eleazar de Carvalho, participamos Benda, Regina e eu, no Concerto para três pianos, numa noite que ficou gravada pelo pleno entendimento.

Em 2013, dez anos após a sua morte, seria lançado um magnífico álbum de CDs pelo selo alemão Genuin  (Sebastian Benda – Memoires).

Clique para ouvir, de Heitor Villa-Lobos, “Impressões Seresteiras”, na interpretação de Sebastian Benda:

https://www.youtube.com/watch?v=NvZ3ot6UMnw&t=542

Infelizmente o nosso país não cultua figuras relevantes que atuaram na interpretação pianística em alto nível, perpetuando o repertório sacralizado. Esse esquecimento se dá pouco após a morte dessas personalidades. Guiomar Novaes, Magdalena Tagliaferro, Arnaldo Estrela, Yara Bernette, Roberto Szidon, Nelson Freire, Arthur Moreira Lima, entre outros, não são reverenciados como poderia se esperar. O falecimento desses ilustres músico tem, quase como condescendência da mídia, diminutos espaços, se comparados a roqueiros, funqueiros e sertanejos descaracterizados. A decadência da Cultura Humanística é um fato gritante em nosso país. Os grandes mestres do teclado franceses, alemães, russos e de outros países acima do equador, como exemplos, são constantemente lembrados, inclusive no Extremo Oriente. Sebastian Benda, pianista suíço que colaborou durante quase três décadas com a cultura musical no Brasil, não apenas divulgando o grande repertório, nele inclusos compositores brasileiros, mas exercendo igualmente o magistério competente, basicamente foi esquecido no país. Sebastian Benda e toda a família deixaram definitivamente o Brasil após assalto sofrido em sua morada no Campo Belo em 1981, casa essa que possuía um pequeno auditório no qual recitais eram realizados. Algumas dessas apresentações eram de música de câmara, às quais Sebastian Benda, filhos e a irmã, a violinista Lola Benda, que igualmente teve atuação relevante na cidade, destacavam-se harmoniosamente.

No retorno à Europa, foi nomeado professor na Escola Superior de Música e Artes Cênicas de Graz, Áustria, onde não apenas se dedicou ao magistério como chegou a ser Reitor, permanecendo na Instituição de Ensino até 1994. Frise-se a aptidão para os cursos coletivos de interpretação que o levou a várias Universidades de Música, entre elas as de Paris, Colônia, Basileia e Tóquio.

Clique para ouvir, de Franz Liszt, o Concerto nº 1 para piano e orquestra, na intensa interpretação de Sebastian Benda acompanhado pela Orquesta Sinfônica da Rádio Suíça, sob a regência de Luc Balmer:

https://www.youtube.com/watch?v=Cn55yiZSEIg

Neste 31 de Julho recebo da minha amiga Luzia Benda, viúva do pianista e professor Sebastian Benda, um link realizado concernente ao centenário do notável  músico:

https://www.sebastianbenda.com/

We are celebrating the birth centennial of Sebastian Benda, a notable Swiss pianist and teacher who worked with complete dedication in Brazil for 29 years, got married here, and had five children who followed in his musical footsteps. He left Brazil after being robbed at his home in 1981.