Uma população refém do descaso

A violência é o último refúgio da incompetência.

Isaac Asimov (1920-1992)

O tema veio à mente após conversa com amigos durante um café descontraído. Que estamos vivendo tempos difíceis quanto à segurança é unanimidade. Sem interrupção, a palavra foi progressivamente perdendo o seu sentido essencial nessas últimas décadas. A insegurança reina no país. Logicamente, temos de nos adaptar às transformações que, de maneira cada vez mais acelerada, ocorrem em todas as áreas. Aos leitores mais jovens, rememorar fatos vividos muitas décadas atrás estabelece comparações. Desapareceu a descontração que nos fazia caminhar pelas vias públicas sem quaisquer preocupações quanto à segurança. As conversas informais com amigos nos portões das casas, em qualquer hora do dia, eram comuns; roubos e sequestros existiam de maneira esporádica; o golpe via o antigo telefone era quase nulo, assim como tantas outras situações nas quais a segurança não era prioridade em decorrência da delinquência bem menos acentuada.

Estou a me lembrar dos anos 1950. Estudávamos, João Carlos e eu, no excelente Liceu Pasteur, período matutino. Quando ainda adolescentes, o referencial professor de piano José Kliass convenceu  nosso Pai a que, durante um ano letivo, estudássemos no período noturno, a fim de termos mais tempo – 5 ou 6 horas – de estudos pianísticos diários em uma fase fundamental. João Carlos estudou naquele período no Colégio Ipiranga e eu, no Liceu Eduardo Prado, que ficava na Alameda Pamplona com a Avenida Paulista. Após esse ano regressei ao Liceu Pasteur para finalizar o curso Clássico.

A menção ao ensino noturno tem significado expresso pelo fato de que, entre 16 e 17 anos de idade, após as aulas que findavam quinze minutos antes da meia-noite, caminhava solitário até as portas do Instituto Pasteur na Av. Paulista (algumas centenas de metros de distância) para pegar o bonde que subia a Brigadeiro Luís Antônio vindo do centro, virava à esquerda, parava em frente ao Instituto e me deixava na confluência da Av. Domingos de Morais com o início da Av. Rodrigues Alves. Daí, descia até o nº 984, nossa morada, onde chegava por volta das 0:30. Jamais fui importunado nessas caminhadas solitárias e nunca tive receio algum de ser assaltado.

Já no final do primeiro lustro dos anos 1960, a convite do notável pianista Jacques Klein (1930-1982), Regina e eu fomos jantar em casa de um de seus amigos nos morros do Rio, não distante do Outeiro da Glória. Subimos e descemos a pé sem qualquer receio, na maior descontração.

A explosão da violência no país se deu máxime nestas últimas décadas, em que em determinadas regiões o Estado brasileiro deixou de ter soberania, pois impossível de se entrar nesses enclaves de maneira desavisada, regiões estas nas quais as populações vivem subjugadas àqueles que comandam as comunidades. Já houve diversas mortes de incautos que, de carro ou a pé, entraram nesses territórios que proliferam em várias regiões do Brasil, perdendo suas vidas atingidos por armas de fogo dos “vigilantes”. Se cerca de 1.500 comunidades no Rio de Janeiro, e tantas outras espalhadas pelo país, hoje vivem sob os olhares permanentes dos que praticam toda espécie de ilícitos, o que esperar de um país nessas condições? Na realidade, a nossa soberania é relativa.

Atualmente, quantos não foram aqueles que, ao reagirem ao roubo de celulares, são abatidos, sendo que os malfeitores, a seguir, vão tomar cervejinha com gosto de sangue? Só em São Paulo, segundo a Secretaria de Segurança Pública, mais de 500 aparelhos são roubados diariamente, o que significa um a cada três minutos.

Décadas atrás, saíamos, Regina e filhas, nos fins de semana, frequentando com certa regularidade a mesma pizzaria de amigos, distante algumas quadras de nossa antiga morada. Atitude quase impossível na atualidade, pois os riscos durante o retorno podem ser altos. Recentemente, uma neta, seu marido e quatro bisnetos, ao saírem da missa em pleno meio-dia, sofreram assalto diante de inúmeros fiéis. Furtaram-lhes celulares e alianças. Incrédulos, os cidadãos em torno nada puderam fazer, pois os assaltantes estavam armados.

Uma de nossas filhas, assim como uma neta, tiveram recentemente seus carros roubados. Em blog bem anterior descrevi um assalto à mão armada que sofri, ocasião em que meliantes levaram o meu veículo (blog: “A outra face da Polícia”, 23/08/2008). Iniciava o post com palavras retratando o ocorrido “Que vivemos numa espécie de guerra civil neste país que pouco faz para a segurança, é fato. Sofrer assalto a mão armada é assustador. Meliantes levaram o meu carro, instantes após balearem um ancião e um policial”. Infelizmente, após quase vinte anos desse episódio, a delinquência se agigantou de maneira avassaladora. Bastaria a consulta aos órgãos especializados.

O que esperar num país em que 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025 (dados oficiais divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP – e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública) e com mais de 40.000 assassinatos, sem que haja uma legislação implacável com penas elevadíssimas para os autores desses crimes? Quanto ao roubo de celulares, alianças, cartões e outros pertences, a justiça tem sido branda, mormente pelo fato de muitos autores desses atos serem soltos após a audiência de custódia, segundo noticiários, e acatados por parte da população e de partidos políticos como vítimas da sociedade.

Recentemente, a excelente violinista Elisa Fukuda sofreu assalto em sua morada. Dois violinos valiosos e de autores renomados, mais um arco precioso, assim como celulares dela e de seus irmãos músicos, foram furtados. Há uma campanha, bem difundida pelos aficionados, no sentido de recuperarem esses instrumentos indispensáveis à violinista. Em 1987, gravamos para o selo Funarte, a Sonata em Mi Maior op.36 para violino e piano, assim como o trio em sol menor op.9 para violino, violoncelo e piano de Henrique Oswald (1852-1931), deste participando o renomado celista Antônio Del Claro.

Certamente muitos dos meus leitores já sentiram a ação dos malfeitores. Estamos às portas das eleições. Segurança, Economia, Saúde, Educação, assim como a chaga aberta da corrupção praticada largamente sem pejo, deverão ser os temas essenciais abordados nos meios de comunicação a partir das propostas dos candidatos.

Oxalá cheguemos a acreditar em um futuro em que esses quatro pilares básicos possam ser a razão de um próximo governante e que a endêmica corrupção seja tratada com o maior rigor. Neste país tão conturbado, há ainda a possibilidade de se sonhar por dias melhores…

Clique para ouvir, de François Servenière, Promenade dans la Voie Lactée, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=JQDkWn1HcpQ

Security, the economy, health, education, as well as the festering scourge of corruption—these should be the key issues covered by the media based on the candidates’ proposals.

 

 

A partir de substancial diálogo

Enquanto Rameau, entre os maiores, não ocupar todo o espaço a que tem direito,
a História da Música do século XVIII e através dos tempos não terá a sua total orientação.
Georges Migot (1891-1976)

O ilustre pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), após se “aposentar” da atividade frente ao público aos 89 anos, manteve em seu repertório algumas obras que lhe foram caras durante a existência. Mutatis mutandis, sem quaisquer intuitos comparativos, após encerrar minhas atividades pianísticas públicas em 2023, diariamente me dedico umas poucas horas aos estudos de piano, relendo criações que me impactaram e apresentando-as periodicamente em petit comité com propósitos precisos: preservar a vocação iniciada aos 9 anos de idade, ter contato com amigos ouvintes possuidores da apreciação crítica e, finalmente, manter-me em atividade aos 88 anos, verdadeira dádiva. Minha mulher Regina realiza o mesmo caminho. Há um compositor que diariamente revisito, interpretando uma ou duas peças ao piano: Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Há anos, um belo dia caminhava com meu caro amigo, pensador e compositor meritoso, Willy Corrêa de Oliveira (1938-). Repentinamente, ele para e me pergunta à “queima roupa” qual era meu compositor preferido e instantaneamente, sem pensar, respondo: Rameau. Retribuí a pergunta e a resposta de Willy foi também precisa, Chopin. Logicamente outras figuras essenciais da composição fazem parte das minhas preferências. A admiração pela obra de Rameau vem da juventude, quando aos 16 anos, após ouvir a integral para cravo interpretada ao piano (2 LPs) pela excelsa pianista francesa Marcelle Meyer (1887-1958), fiquei fascinado pelas obras, que desconhecia por completo. Meu Pai, ao sentir o meu entusiasmo, presenteou-me com o álbum.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, La Dauphine, na interpretação de Marcelle Meyer:

https://www.youtube.com/watch?v=4IrpvP2xXDY

De uma conversa fundamental entre duas figuras marcantes em França, o musicólogo Roland-Manuel (1891-1966) e a pianista franco-russa Nadia Tagrine (1917-2003), parte de um dos programas da série radiofônica e literária Plaisir de la Musique, na qual as duas relevantes personalidades dialogavam a respeito de aspectos fulcrais da música e das criações concebidas por luminares da composição, extraí as considerações sobre Jean-Philippe Rameau. Bem anteriormente, escrevera dois posts sobre temas contidos em Plaisir de la Musique (25/08/2018 e 1/9/2018), abordando figuras fulcrais da história da música. Sobre Rameau foram vários blogs ao longo de mais de 19 anos de posts publicados sem interrupção.

Roland-Manuel insere no diálogo alguns dados pouco ventilados pelos biógrafos e que evidenciam traços da personalidade de Rameau:

“Áspero, tanto no estado de espírito como fisicamente, fechado, triste, solitário. Dizia-se que o vazio que ele encontrava na sociedade o levava a afastar-se dela. Quanto à sua arte e aos interesses dela estava, pelo contrário, preocupado em não negligenciar nada, segundo as suas próprias palavras; a avareza era o reverso dessa moeda dura. Incapaz de fazer concessões e particularmente inexorável em matéria de música, pois esta estivera presente em toda a sua vida. O escritor Louis Petit Bachaumont (1690-1771) conta que, à beira da morte, quando o pároco de Saint-Eustache foi dar-lhe a extrema-unção, Rameau encontrou forças para interrompê-lo, dizendo-lhe: «Mas que raio vem cá cantar-me isso, Senhor Pároco? A sua voz está desafinada…».

Rolland-Manuel enfatiza conceito que se tornaria uma constante nas avaliações feitas a posteriori sobre Rameau. A sua grandeza não apenas se fixou nas composições, exemplificada pelas suas magníficas óperas, que têm sido progressivamente apresentadas, como na profundidade dos seus tratados teóricos. Comenta: “«Não é tanto fruto do acaso, mas sim da Providência, que o maior teórico da música e o maior compositor francês do século XVIII se encontrem reunidos na mesma pessoa: a ciência e a experiência, a razão e a intuição apoiam-se e esclarecem-se mutuamente em Jean-Philippe Rameau».

Através das décadas mais se consolidou a minha admiração pela obra de Rameau. Em suas inúmeras óperas, Rameau revela todo o seu domínio escritural, assim como o domínio dos endereçamentos no que concerne à ópera-balé ou à tragédia lírica. Roland-Manuel observa: “O que há de admirável em Rameau é que ele efetivamente não apenas estabelece a razão demonstrativa e a sensibilidade mais profunda, como também a sabedoria a mais rigorosa, sem deixar de ser o poeta mais afinado às solicitações do sonho”.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Tendre Amour, da ópera-balé Les Indes Galantes, na interpretação do conjunto Les Arts Florissants sob a regência de William Christie:

https://www.youtube.com/watch?v=MvRMfR2c1hY

Em contraste ao Tendre Amour, clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, a Abertura da Tragédia Lírica Zoroastre, na interpretação do conjunto Le Concert des Nations sob a regência de Jordi Savall:

https://www.youtube.com/watch?v=9br3o8MfUvI&t=23s

Quanto à obra para cravo interpretada ao piano, a criação de Rameau quantitativamente é menor às de François Couperin, J.S.Bach e Domenico Scarlatti. Todavia, tem-se o multum in mínimo e a excelência de suas composições comprova a assertiva.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Les Cyclopes, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=c7lyY0pBRkU&t=4s

A fruitful dialogue between the French-Russian pianist Nadia Tagrine and the musicologist Roland-Manuel about Jean-Philippe Rameau is of interest because, although it took place in the mid-20th century, it remains highly relevant today.

 

O olhar diferenciado de Saint-Exupéry

Os quarenta primeiros anos da existência nos dão o texto;
os trinta seguintes, o comentário.
Arthur Schopenhauer (1788-1860)

A juventude é o tempo de aprender sabedoria,
a velhice de praticá-la.
Jean-Jacques Rousseau (1712-778)

O tempo te constrói raízes.
Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)

O post precedente, ao abordar as reflexões de La Rochefoucauld sobre as fases derradeiras do ser humano, suscitou uma série de posicionamentos de leitores interessados na temática e até sugerindo estender as considerações. Nem todos apreendem a velhice como uma transição que deveria ser vivenciada como um caminho natural para o inexorável. Eliane Ghigonetto Mendes, viúva do meu saudoso amigo e notável compositor Gilberto Mendes (1922-2016), enviou-me uma mensagem da qual extraio uma preciosa frase: “Cada vez mais vejo amigos envelhecerem tão mal, tão amargos, por se deixarem escravizar pelo Ego, que não foi domesticado a tempo…”. Veio-me à mente Citadelle, de Saint Exupéry (1900-1944), várias vezes presente nos posts semanais desde a sua origem, que remonta a Março de 2007. Uma frase vinda de sua irmã, Simone de Saint Exupéry, pesquisadora que colaborou na elaboração de Citadelle, define a importância da obra. Afirma: “É impossível esgotar as riquezas dessa obra densa e profunda, que aborda todos os problemas do destino humano e do condicionamento do homem”.

As considerações a respeito da velhice em Citadelle têm aplicação na atualidade. Relembrando, o personagem principal da obra em pauta é um senhor do deserto, à semelhança de um rei. Nas narrativas na primeira pessoa do singular, Saint-Exupéry tece suas considerações sobre os mais variados temas que permeiam a humanidade.

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes: Sonatina à la Mozart (1951), na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4

“Naquela noite, ao descer da minha montanha pela encosta onde já não conhecia mais ninguém, como um homem já levado para a terra por anjos silenciosos, senti o consolo de envelhecer. E de ser uma árvore pesada com seus galhos, já toda endurecida por protuberâncias e rugas, e já como embalsamada pelo tempo no pergaminho dos meus dedos, e tão difícil de ferir, como se já tivesse me tornado eu mesmo. E eu tecia minhas reflexões: ‘Aquele que já envelheceu assim, como poderia o tirano aterrorizá-lo com o odor dos suplícios — que é aquele do leite azedo — e mudar nele qualquer coisa, já que sua vida ele a mantém no passado, como um manto desamarrado que só permanece preso por um cordão?’ Será que já estou assim guardado na memória dos homens? E nenhuma renegação da minha parte teria mais sentido. Também senti o consolo de estar livre das minhas amarras, como se tivesse trocado toda essa carne enrugada pelo invisível, assim como as asas. Como se eu estivesse finalmente caminhando por conta própria, na companhia daquele arcanjo que tanto havia procurado. Como se, ao abandonar meu velho invólucro, eu me descobrisse extraordinariamente jovem. E essa juventude não era feita de entusiasmo, nem de desejo, mas de uma serenidade extraordinária. Essa juventude era daquelas que se aproximam da eternidade, não daquelas que, ao amanhecer, enfrentam os tumultos da vida. Era de espaço e de tempo. Parecia-me que, ao ter concluído meu processo de formação, eu estava me tornando eterno”.

Estou a me lembrar do meu saudoso Pai, que morreu dias antes de completar 102 anos (1898-2000). Entendia a velhice como uma dádiva concedida por um Poder Maior. No prefácio do seu último livro, escreveu: “Finalizo esta minha pequena biografia declarando que em 31 de maio de 1999 partiu para a Pátria Celeste aquela que durante 67 anos iluminou minha alma e encheu de infinito amor meu coração. Na prece diária que consagro a Deus, repito o apelo que Ana Madalena Bach fazia a Deus, mudando o nome de Sebastian por santa Alá, porque era por Alá que eu carinhosamente a chamava” (José da Silva Martins, “Breviário de Meditação”, São Paulo, Martin Claret, 2000).

Aos 88 anos acredito firmemente na denominada juventude da idade madura, que pode ser prolongada desde que haja a permanente motivação mental, apesar de esta ser em ritmo menos acentuado. A lendária pianista e professora francesa, Marguerite Long (1874-1966), com quem tive o privilégio de estudar (1958-59), afirmava acreditar que “quem é jovem é para sempre”, e ela o era em suas atitudes.

Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, 4ème Nocturne, na interpretação da insigne Marguerite Long. Gravação realizada em 1937:

Marguerite Long plays Fauré Nocturne no. 4 in E flat major

Readers requested a second post on old age following my previous one based on the writings of La Rochefoulcald. For this one, I have chosen to focus on the reflections on old age found in Saint -Exupéry’s *Citadelle*.