Desdobramentos da leitura frente à pandemia

El terror a la peste es, simplemente,
el miedo a la muerte que nos acompañará siempre
como una sombra.
Mario Vargas Llosa
(El País, Piedra de Toque, 14/03/2020)

Meses sob pressão motivada pela pandemia fazem com que a peste, esse tema recorrente ao longo da História, provoque interpretações as mais diversas. É natural que assim seja. Os séculos guardam na memória testemunhos que, ou pela escrita ou através da oralidade, são revisitados sempre que episódio marcante assim determine.

Constantemente menciono nos blogs diálogos profícuos com o amigo Marcelo, que encontrava aos sábados na feira-livre de minha cidade-bairro. Leitor assíduo dos posts hebdomadários, marcávamos um curto em um dos cafés das cercanias e discutíamos. O confinamento distanciou-me desse aprazível mercado aberto, espaço que sempre tive imenso prazer de frequentar. Já lá se vão mais de quatro meses de pleno isolamento.

Deu-se situação singular num desses dias. Marcelo toca a campainha, atendo-o com a máscara e ambos conversamos ao ar livre, sentados num banco interior e frente ao pequeno jardim de casa. Bem mais jovem, Marcelo transita protegido. Lera na manhã de sábado último o texto a comentar La Peste, de Albert Camus, e durante um bom tempo abordamos a temática e seus reflexos nesses tempos do Covid-19, pois não lera o livro e entendeu pertinente o tema.

Os blogs têm seguido uma dimensão que possibilite a leitura, se não integral numa primeira abordagem, completa após revisita. Busco escrever essencialidades sucintamente, mas entendo que, pelo alcance, outras fiquem prejudicadas. Os questionamentos de Marcelo serviram para comentá-los nesses Ecos sobre La Peste.

Suas indagações invariavelmente voltavam-se à nossa pandemia e, interpretando suas palavras, “o tema que o fez pensar numa exaustão do povo quanto ao noticiário”. Há sim semelhanças entre o conteúdo do livro e a nossa realidade. Camus estabelece em sua narrativa aspectos hodiernos frente ao flagelo que nos assola. Da revolta inicial em tempos da peste passa-se a uma acomodação, ao relaxamento e, tantas vezes, à depressão. Camus acompanha as transformações do concidadão. Anônimo, este adquire importância crucial, observado quase sempre nessa atmosfera de espanto. Na epígrafe do blog anterior já mencionara uma de suas frases: “A peste suprimira julgamentos de valor. Via-se que ninguém mais se preocupava pela qualidade das vestes ou dos alimentos que compra. Aceitava-se tudo em bloco”. Seria o que hoje definimos como efeito manada. “Não se estaria a aceitar o cansaço do povo quanto às cifras dadas com profusão e ênfase pela mídia?”. À pergunta de Marcelo diria que em La Peste esse posicionamento é claro. Hoje, à custa de informações diárias pelos veículos de comunicação, não sem antes manter o ouvinte ou telespectador em suspense, esse cidadão também se cansou, caso dele específico. Quase poderíamos não errar ao dizer que a mídia necessita desses números elevados, verdadeiro chamariz. Durante quanto tempo, exaustivamente, Mariana e Brumadinho não estiveram em pauta? O cansaço de que nos fala Camus advém do excesso de notícias que se repetem ad nauseam.

A conversa com Marcelo abordou reflexões do personagem Jean Tarrou diante de duas condenações à morte que o marcaram profundamente: a primeira, após julgamento a ter seu pai como juiz, sentenciando à pena capital um acusado e a segunda, presencialmente, ficando-lhe indelével a impressão da cena do fuzilamento de outro infeliz, quando enfatiza a ínfima distância entre o batalhão e o condenado. A construção de outro livro relevante de Camus, L’Étranger, é realizada, entre tantas implicações, na direção à guilhotina da figura central do livro, Meursault, este aparentemente indiferente frente à vida e à morte. Evidencia Camus um repúdio à pena máxima. Uma frase de Camus é decisiva: “No universo do revoltado, a morte exalta a injustiça. Ela é o supremo abuso”. Na cena final da peça teatral Caligula, a preceder o assassinato do imperador romano, Albert Camus insere em uma de suas últimas falas: “Quem ousará me condenar nesse mundo sem juiz onde ninguém é inocente!”. Em 1954 intervém a favor de sete tunisianos condenados à morte. Acrescentei que apenas em 1981 a pena de morte foi abolida em França. Estou a me lembrar de meus anos como estudante em Paris nas fronteiras das décadas de 1950-1960. Quase todas as noites tomava sopa e bebia uma taça de vinho tinto com o adorável casal de concierges do prédio onde eu morava. Mais de uma vez, Robert Orambourg, leitor diário de jornal popular, comentou episódios de execuções de condenados à guilhotina. Espantou-me o fato de que uma dessas execuções se dera poucas semanas após o julgamento de bárbaro crime. Jean Tarrou, após ter narrado ao personagem central, Dr. Rieux, o trauma que o acompanharia pela existência devido àquelas duas condenações à morte, ao sucumbir vítima da peste teria, talvez, encontrado a “santidade sem Deus”. Apesar de não acreditar em Deus, Camus não se considerava ateu. No caso de Meursault, no peristilo do cadafalso há a sua plena revolta ao receber a visita do Padre a falar que rezaria por ele.

Em nossa profícua conversa observei que, sob outra égide, a de Saint-Exupéry, Camus também apresenta, através de seus vários personagens, mensagens sobre essencialidades da condição do homem. Acrescentei que se, sob o aspecto humano, “há mais coisas a admirar do que a desprezar”; sob o lado dos periódicos flagelos nada a fazer, mas sim aguardá-los, pois vírus ou bactéria estariam sempre à espreita através dos tempos. Fui buscar o livro e traduzi para Marcelo o final contundente quanto às futuras e malfadadas pestes: “Escutando efetivamente os gritos eufóricos que vinham da cidade, Rieux se lembrou de que essa alegria estava sempre ameaçada. Sabia ele que se pode ler nos livros que o bacilo da peste não morre, tampouco jamais desaparece, mas que essa multidão alegre ignorava tal fato. O bacilo pode permanecer durante dezenas de anos dormindo nos móveis e nos lençóis, a esperar pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada. Talvez dia virá quando, por desgraça e para ensinar os homens, a peste despertará seus ratos e os enviará para morrer numa cidade feliz”.

Finalmente, Marcelo disse-me que lera nesses últimos dias, num site portal conhecido, que o Prêmio Nobel de Literatura (2010), Mario Vargas Llosa, escrevera que La Peste era um livro medíocre. Disse-lhe que tinha lido o artigo publicado em El País, periódico espanhol, em sua coluna Piedra de Toque. Discordo, data venia, da posição do ilustre Mario Vargas Llosa, escritor que muito admiro, a entender inoportuno e até deselegante segmento de seu artigo Regreso al Medioevo? (14/03/2020): “La peor novela de Albert Camus, La Peste, tiene un súbito renascimento y tanto en Francia como en España se hacen reediciones y esse libro mediocre se há convertido en un best seller”. Considere-se que a afirmação se destina a uma das obras essenciais de Albert Camus, Prêmio Nobel em 1957. Opiniões, opiniões…

Once again I write about Camus’ novel The Plague, with focus on the similarities between the book and the moment we now live: tiredness, sometimes almost indifference, in face of the sensationalist media coverage of the Covid-19 pandemic, the heroism of ordinary people doing extraordinary things, the awareness – as in the final paragraph of the book -  that plagues never die, they just lie dormant waiting to take us by surprise. And, opposing this pessimism, the faint note of optimism when the novel’s main character says  “there are more things to admire in men than to despise”. Camus, the man who said he didn’t believe in God but was not an atheist, had faith in humanity after all.

Albert Camus (1913-1960)

A peste suprimira julgamentos de valor.
Via-se que ninguém mais se preocupava
pela qualidade das vestes ou dos alimentos que compravam.
Aceitava-se tudo em bloco.
Albert Camus
(“La Peste”)

Em carta ao pensador Roland Barthes, que tecera críticas a La Peste, Albert Camus responde aos 11 de Fevereiro de 1955: “La Peste, que eu gostaria que fosse lida através de várias perspectivsas tem entretanto, como evidente conteúdo, a luta da resistência europeia contra o nazismo. A prova é que esse inimigo, que não é nomeado, todos o reconhecem e em todos os países da Europa. Acrescentemos que uma longa passagem de La Peste foi publicada sob a ocupação, numa coletânea de combate, e que essa circunstância por si só justificaria a transposição que realizei. La Peste, num sentido, é mais do que uma crônica da resistência. Seguramente não é menos”. Ao mencionar a resistência, fá-lo por ter sido, entre outras atribuições como escritor, romancista, dramaturgo, ensaísta, um jornalista militante comprometido com a Resistência Francesa. Elaborado de 1939 a 1943, portanto do começo ao pleno desenrolar da 2ª Grande Guerra, Camus, em entrevista à revista Servir em 1945, diria: “Não sou filósofo. Não creio suficientemente na razão para acreditar em um sistema. O que me interessa é saber como se pode caminhar quando não se crê em Deus ou na razão”. Roger Quilliot, que estabeleceu textos e anotações para a edição de obras de Albert Camus da Bibliothèque de la Pléiade (Paris, Gallimard, 1962), observa que La Peste “…nos oferece enfim uma visão de um mundo sem futuro nem finalidade, um mundo de repetição e homogeneidade, onde o próprio drama cessa a dramaticidade e onde os homens se definem menos por sua ação, sua fala e seu peso físico do que pelo seu silêncio, sua sombra e sua reação diante dos desafios da existência”.  Apesar da temática necessariamente levar a tantas situações niilistas, há uma centelha de esperança no ser humano, como afirma Camus: “… aprendemos no turbilhão dos flagelos que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar”.

A morte trágica de Albert Camus aos 4 de Janeiro de 1960, comentada amplamente pela imprensa e por amigos franceses, despertou-me o interesse por suas obras, mormente as narrativas e romances. Estudava em França àquela altura e li quase em seguida, em tiragens econômicas, L’Étranger, La Peste, La Chute et l’Exil et le Royaume. Ao longo da existência reli L’Étranger e La Chute, livro este que sempre me pareceu enigmático, merecedor de mais leituras.

O Covid-19 despertou no planeta um interesse maior por La Peste. Se realmente a essência essencial decorre do exposto por Camus em sua resposta a Roland Barthes, outros alcances da obra podem ser compartimentados na abrangência de flagelo representado pela peste circunscrita ou pela pandemia mundial. A tipificação geográfica caracteriza a cidade de Oran por volta de 1940, às margens do Mediterrâneo, terra de afeto do autor naquele período da Argélia Francesa, seu berço natal.

A morte de milhares de ratos que saem das entranhas do subsolo das casas, dos encanamentos e das bocas de lobo para agonizar nas ruas, calçadas e corredores provoca a seguir a peste bubônica nos humanos, transmitida pelas pulgas desses roedores. Em La Peste, no peristilo do flagelo a mídia questionava o poder municipal: “Nossos edis já não teriam sido avisados do perigo representado pelos cadáveres desses ratos?”.

O surgimento da peste muda completamente a vida dos habitantes, que veem os portões da cidade se fechar, isolando-a do mundo exterior. Ninguém mais sai nem entra em Oran com seus de 200.000 habitantes, segundo o autor em sua obra de ficção. Os moradores passam a assistir à morte crescente de seus concidadãos. Nesse trágico quadro, são poucos os personagens narrados pelo escriba que, ao final do livro, se revela como sendo o personagem central, o Dr. Bernard Rieux. Ele os acompanha em suas aspirações, esperanças, desalentos, generosidade, solidariedade, desprendimento, mas também má conduta e sobretudo, no caso mais específico do cidadão anônimo, “a ignorância que acredita tudo saber”. Os personagens ignotos reagem de acordo com as circunstâncias: temor, ansiedade, aceitação da peste, desalento, resignação frente à morte e júbilo final com o flagelo debelado. Durante a peste os roubos se avolumam: “Casas incendiadas ou fechadas por motivos sanitários foram pilhadas. Difícil supor serem atos premeditados. A maioria das vezes, uma súbita ocasião levava as pessoas, até então honradas, a ações repreensíveis, que seriam imitadas a seguir”.

A edificação de La Peste foi lenta. Camus pesquisa obras fundamentais que tratam da peste na Europa e na Ásia dos séculos XI ao XIX. Seu conhecimento prévio substancia realidades de endemias que assolaram a região anteriormente e tornam, sob outro aspecto, verossímeis suas interpretações de determinadas agonias, como a do filho do juiz Othon ou de seu amigo Jean Tarrou. Este, acamado em casa do médico, torna-se uma das últimas vítimas da peste. Albert Camus, nessas inusitadas duas longas narrativas, transmite ao leitor a evolução do início à fatalidade, a descrever as mínimas reações. Faz-me lembrar outra leitura, a de “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro”, do ilustre médico e escritor Heitor Rosa, ao relatar pormenorizadamente outras agonias durante o século XVI devido à sífilis e ao tétano e a ter Girolamo Fracastoro (1478-1553) como personagem central.

Episódios que se repetem nas epidemias ou pandemias através dos séculos contêm certas constantes. Em La Peste, parte considerável daquilo que se está a sentir com a pandemia do Covid-19 lá está presente na imaginada peste de Oran: descaso inicial dos governantes frente ao flagelo anunciado, minimizando-o como irrelevante e passageiro, e mais: isolamento, lockdown, máscaras, legião de médicos e enfermeiros dedicados que se extenuam nessa luta sem descanso, cidade vazia, distanciamento, temor, agonia do infectado, tentativas para se encontrar “o” remédio, aproveitadores, acúmulo de mortos nos cemitérios. “A peste como abstração era monótona”, escreve o narrador. “Muitos coveiros e enfermeiros, primeiramente oficiais, a seguir improvisados, morreram da peste. Impressiona o fato de não faltarem homens para essa tarefa”.

Se considerarmos a pandemia que se está a viver nesse 2020, La Peste pareceria retratar situações multum in mínimo limitadas a Oran, que se expandem avassaladoras na atualidade. Personagens do enredo desempenhariam duplo papel, se consideradas forem guerra e pandemia. Teriam semelhança com outras que o nosso cotidiano expõe, assim como com outras durante a resistência na Segunda Grande Guerra ou outras mais advindas.

Bernard Rieux, narrador, médico responsável e humanista está sempre propenso a atender os infectados, atitude que, transposta em pleno 2020, exemplificaria a legião de médicos, enfermeiros e ajudantes que têm labutado nesses tempos do Covid-19. “Em todos os exércitos do mundo, à falta de material, substituem-se por homens. Todavia, faltam-nos homens também”. Alguns poucos voluntários e abnegados juntam-se ao médico durante o percorrer da narrativa. Tarrou “é exemplo que pode compreender tudo e que sofre”, segundo o amigo Rieux. Tarrou também redige suas observações e ajuda Rieux em suas difíceis tarefas. Será um dos últimos a sucumbir, ele que buscava uma empírica santidade sem Deus. Joseph Grand, funcionário público, tenta escrever livro, mas a buscar a perfeição da primeira frase, dela não passa. Será o primeiro a se curar da peste. Suas aparições chegam a dar uma pitada de humor contido à narrativa. O padre Paneloux tem várias aparições e seus dois sermões ao longo da peste têm apreensões diferenciadas. Inicialmente tonitruante, após presenciar a longa agonia do filho do juiz Othon tem uma outra percepção do flagelo. “Sim, o sofrimento de uma criança era humilhante para o espírito e para o coração”.  A figura de Raymond Rambert ocupa vários espaços no livro.  Jornalista  temporariamente em Oran, nela fica retido pelo confinamento obrigatório. Após muitas tratativas para burlar o lockdown a fim de encontrar a amada, entende o devotamento do Dr. Rieux e se engaja na ajuda ao combate do mal. Estudiosos veem nele um resistente tardio durante a ocupação nazista. Após a abertura dos portões da cidade, sua amada o reencontra. Castel, médico como Rieux, representaria hoje a legião de cientistas na busca de uma vacina. O juiz Othon, que perde seu filho frente à peste, engaja-se na luta empreendida por Rieux. Também foi visto como um resistente tardio. Outros mais figurantes cruzam o caminho de Rieux, mas um é intrigante: Cottard, personagem que tentara o suicídio, mas propenso a atividades suspeitas. Desagrada-lhe o fim da peste e essa atitude foi entendida como a de um collaborateur em tempos da ocupação nazista. Enlouquece e é preso.

Considere-se em La Peste o tributo ao afeto, seja através da ausência, caso do jornalista Rampert separado da amada pelo fechamento dos portões da cidade, seja pelas várias situações afetivas no cotidiano dos personagens que cruzam os caminhos do Dr. Rieux ou, finalmente, no episódio da abertura plena da cidade, nos encontros daqueles que estiveram separados. Camus enfatiza o afeto, vivifica-o, dá-lhe sentido, a justificar a afirmação “há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar”. (Tradução: J.E.M.).

Situações intrigantes envolvem Camus com a temática julgamento em tribunal e execução física. Em L’Étranger seria o personagem principal, Meursault, que, julgado por ter assassinado um árabe, é executado. Em La Peste, Tarrou, em longa confidência ao médico Rieux, carrega um trauma em duas situações: ao assistir seu pai, juiz, condenar um acusado à pena máxima e ao presenciar, em outro momento, o fuzilamento de outro condenado.

A atemporalidade de La Peste leva o leitor a entender que, na essência, o homem não se desvia do atavismo. Frente ao flagelo, mais acentuadamente acertos e desvios de procedimentos se fazem sentir. Albert Camus em suas obras expõe esses comportamentos. Com raro sentido de observação. O Prêmio Nobel, tão discutido em tantas escolhas, foi conferido em 1957 ao escritor. Inquestionável.

My comments of the book “La Peste” (The Plague) by Albert Camus. Written from 1939 to 1943 — in the midst of the Second World War — and published in 1947, the novel follows the inhabitants of the Algerian city of Oran during a fictional outbreak of bubonic plague. According to Camus’ own words, the novel could be read on several levels, but its most obvious allegory deals with the pestilence of Nazism and the German occupation of France. Each moment in history has its own reading. For us, in the year 2020, the novel seems to be a warning of the dangers posed by infectious diseases at any time. The constants are the same then and now: authorities’ unwillingness to accept the early signs of the epidemic, quarantine, lockdown, face masks, people dying in droves, plague profiteers, expressions of solidarity, the heroism of medical workers, the search for a cure. No wonder coronavirus has made Camus’ novel a bestseller again.

 

 

 


Música Clássica e racismo

A música é a linguagem do coração.
Jean-Philippe Rameau (1683-1764)

Quando o homem aprender a amar o menor ser da Criação,
seja animal ou vegetal,
ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante.

Albert Schweitzer

Voltando à problemática da Música Clássica, neste segundo post abordo o recrudescimento do aspecto racial, entendendo parte da mídia que a bem mais que milenar criação e prática da Música Erudita seria arte unicamente da raça branca.

Seria possível considerar que todas as ruidosas manifestações pelo planeta, em consequência da morte cruel de George Floyd por um policial, repercutiram em desdobramentos imprevisíveis. Estátuas foram destruídas. A de Winston Churchill também quase o foi em Londres, assim como, em São Paulo, a dedicada a Borba Gato ou, ainda, o monumento de Victor Brecheret em homenagem aos Bandeirantes, inaugurado no 4º centenário da cidade. São criações que, independentemente do valor artístico, representam, através da estatuária, período histórico inalienável.

No periódico francês “Valeurs” online (22/06/2020) lê-se: “De fato, segundo relatório publicado em 2016 pela ‘League of American Orchestras’, os Negros representam 1,8% dos músicos de orquestra e os Latino Americanos, somente 2,5%. Alguns criticam igualmente a falta de ‘inclusão’ de outras obras e o fato que sejam escritas, em sua grande maioria, por compositores de origem europeia. Partindo desse postulado, o ‘San Francisco Chronicle’ recentemente lamentou que a Orquestra Sinfônica da cidade apresente quase exclusivamente composições criadas pelos homens brancos. Outras publicações da imprensa igualmente denunciaram o caráter entendido como etnicamente muito homogêneo do meio da música clássica”.

Somam-se a essas “denúncias” de racismo concernente à Música Clássica ventiladas pela “Valeurs” séries de publicações da mídia americana, inclusive do ‘New York Times’. Em suas várias matérias tem-se sobre a Música Clássica: “encobre um problema racista”, “atacar-se à sua brancura”, “extremamente branca”, “a música clássica é intrinsicamente racista”. O periódico francês completa: “Dessa maneira, a música clássica junta-se à extensa lista de instituições, pois possui uma proporção considerada pequena de pessoas de ascendência não-europeia e por isso são suspeitas de mascararem um modo de recrutamento discriminatório. Em resumo, de aplicarem uma forma de racismo estrutural”.

Pareceria bem exacerbada a ação de determinada corrente a entender também a Música Clássica como privilégio da população branca. Dos primórdios da civilização cristã, passando-se pelo Canto Gregoriano à criação musical ocidental na Idade Média, na Renascença, nos períodos Barroco, Clássico, Romântico e outros sucessivos, a feitura era realizada por europeus, brancos, e praticada tardiamente por outros povos. Não obstante, apesar de minoria, aqueles da “raça negra”, designação que constava nos livros escolares de antanho, notabilizaram-se pelo talento e tiveram e têm pleno reconhecimento mundial. Intérpretes negros da Música Clássica, mormente cantores, foram e são glorificados e a cor da pele não tem a menor influência. Eles são notáveis. Citemos Marian Anderson (1897-1993), Lawrence Winters (1915-1965) e Jessye Norman (1945-2019), como exemplos. O pianista André Watts (1946- ) é recebido pelas plateias do mundo sem discriminação. Sob outra égide, a tão decantada Música Clássica, considerada como sendo da elite unicamente, receberia o benfazejo contributo, há mais de um século, do Jazz praticado por negros nos Estados Unidos. Contudo, embora minoritários, quantos não foram os intérpretes brancos que granjearam lisonjas na prática do Jazz? Na composição, Claude Debussy (1862-1918), Ravel (1975-1937), George Gershwin (1898-1937) e tantos outros não se valeram das inovações trazidas pelo Jazz? Intérpretes brancos pianistas, trompetistas, regentes das jazz-bands e outros mais não desenvolveram seus extraordinários talentos improvisando em torno do Jazz? Sim, majoritariamente praticada por músicos negros, muitos deles rigorosamente excepcionais e admirados pelos praticantes ou ouvintes da Música Clássica.

Na contramão do exposto, o periódico francês online “Valeurs” publica em 13/07/2020 matéria sob o título “Tout le monde est terrifié: des acteurs blancs d’Hollywood dénoncent un racisme inversé”, que transmito, a integrar a exposição do tema desse post: “Sob o abrigo do antirracismo, as discriminações parecem estar de vento em popa em Hollywood… Em artigo publicado domingo, 12 de Julho, o jornal britânico ‘Daily Mail’ dá a palavra a diversos atores, autores e produtores de Hollywood. Estes últimos denunciam um ‘racismo inverso’, que visa aos membros brancos do meio cultural”. A seguir, “Valeurs” elenca uma série de atitudes e acontecimentos expressos no “Daily Mail”, entre opiniões de “alguns, explicando que se instalou um ambiente hostil a todo ‘homem branco de meia idade no show-business’, cuja carreira doravante ‘praticamente terminou’. ‘Nós só contratamos pessoas de cor, mulheres ou pertencentes à LGBT para escrever, desempenhar o papel principal, produzir, fazer funcionar as câmaras, trabalhar nos serviços de artesanato’, assim transmitiram ao ‘Daily Mail’. E prosseguem: ‘Se você for branco, você não pode se exprimir, pois será instantaneamente qualificado de ‘racista’ ou condenado por ‘privilégio branco’ ”.

O compositor francês François Servenière, que nos honra constantemente com suas observações após leitura dos blogs semanais, comenta: “Admiro o Jazz, a música negra, os ritmos cubanos, antilhanos e brasileiros advindos da mestiçagem. Em seu último post você nos fala da renovação da música clássica. Já lhe havia contado a admiração que tenho pelo extraordinário compositor e pianista Michel Camilo, nascido na República Dominicana. Meu Concerto para piano e orquestra Seasons Vertigo (1993-2007) faz parte da mesma tendência neste século, de uma mesma escola de pensamento, da mesma geração de criações do Concerto para piano e orquestra de Michel Camilo. A renovação está nessas tendências: rítmica, aberta, feliz, otimista. Só é necessário colher! O público lá estará enquanto tendências ultra contemporâneas o afugentam”.

Clique para ouvir, de Michel Camilo, o Concerto para piano e orquestra nº 1 com solo do compositor e a Orquestra Sinfônica Nacional de Lyon sob a regência de Leonard Slatkin. A recepção calorosa ao fim da apresentação revela a absoluta não discriminação racial:

https://www.youtube.com/watch?v=-TzNYJxIjfg

Ritmos afro-brasileiros tiveram e igualmente têm forte influência na denominada criação musical erudita. Três dos nomes referenciais de nossa História musical, Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1997-1986) e Camargo Guarnieri (1907-1993), incorporaram em incontáveis criações a rítmica afro-brasileira. As três obras do ilustre compositor da Bahia Paulo Costa Lima – branco nascido em 1954 – inseridas no blog do dia 4 de Julho não seriam flagrantes exemplos?

É realmente lamentável que essa mídia instigue uma situação que, curiosamente, entre os músicos da Música Clássica, que eu saiba, tem interesse secundário. O exemplo nítido, insofismável, verdadeiro orgulho para nós, brasileiros, está na figura do excepcional músico Luiz de Godoy. Teve formação essencial na Escola Municipal de Música sob a orientação do Prof. Renato Figueiredo. Posterormente estudou na Universidade de São Paulo. Tenho o privilégio de dizer que foi um de meus diletos alunos e que, após minha aposentadoria, ainda continuou parte da sua orientação em minha casa. Em concurso no dificílimo acesso como regente de um dos mais respeitados corais do planeta, os Meninos Cantores de Viena, foi aceito e durante anos viajou pelo mundo excursionando com o coral. Em Dezembro de 2016 receberia na capital da Áustria o Prêmio da Fundação Erwin Ortner, concedido a uma só personalidade do universo coral europeu. Presentemente, após pandemia, assumirá a regência da Ópera de Hamburgo.

Clique para ouvir os Meninos Cantores de Viena, vários corais juvenis de Singapura e a Orquestra Filarmônica juvenil do país sob a direção de Luiz de Godoy na interpretação da canção Home composição de Dick Lee, em arranjo de Wong Kahchun:

https://www.youtube.com/watch?v=a-ei0jwbueI

No blog anterior abordei a eclosão da Música Clássica em países do Extremo Oriente. Não poderiam essas nações vilipendiar a Música Clássica, pois música dos “brancos”, sendo eles “amarelos”, segundo os antigos manuais de ensino? Pelo menos não li nem ouvi jamais um músico do Extremo Oriente, nessas décadas pós Mao-Tsé-Tung, comentar tratar-se de música racista, pois composta e perpetuada por brancos. A China acolhe a Música Clássica, tendendo a superar o Ocidente na sua prática. O “New York Times” de 03/04/2007 aponta para essa Revolução Clássica sonora: “Com a mesma energia, força e enorme peso populacional que a tornou uma potência econômica, a China se tornou uma força considerável na música clássica ocidental. Os conservatórios estão inchados. As cidades da província exigem orquestras e salas de concerto. Pianos e violinos fabricados na China enchem os contêineres deixando seus portos”.

Creio que o debate Música Clássica e racismo está formulado em parte sob as égides ideológica e de uma atualidade convulsiva. Toda uma edificação da linguagem musical, considerando-se a Grécia Antiga, foi elaborada paulatinamente pela raça branca, como apontado acima. O cerne estaria na Educação, não na Música Clássica. Governos como o nosso, através dos tempos, jamais veem a Educação como prioridade, a ela somando-se a Saúde e a Segurança. A Música Clássica não é o problema e sim a não possibilidade de ensino para as classes menos favorecidas. Quando surge o talento, ele é aceito nos quadros da Música Clássica e a recepção é plena e entusiasta, não discriminatória. Os dois links evidenciam a recepção pública ao final das apresentações no seu mais elevado entusiasmo. Michel Camilo e Luiz de Godoy são alguns exemplos exponenciais mencionados, esperança de que, através da educação não panfletária, mas profunda; não mediática, mas com sequência segura, muitos outros possam ter uma trajetória sólida. No caso específico da “genialidade” de Luiz de Godoy, termo utilizado apropriadamente pelo compositor François Servenière, juntemos sua disciplina férrea, determinação e poder de concentração.

François Servenière tem criações que exemplificam a apreensão do Jazz, entre as quais Croissant Jazz (1999-2001) para dois pianos:

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A Música Clássica é patrimônio indelével da humanidade, para não mais dizer e, se a maioria de seus criadores são “ainda” brancos, considerando-se essa eclosão “amarela” que cultua a composição escrita pelos “brancos” através dos séculos, seria na História que se deveria buscar a origem e o conhecimento e não numa realidade atual de cunho ideológico e imediatista.

Música Clássica e racismo. A cizânia como combustível ideológico e oportunista. Acredito que a Música Clássica estará sempre de braços abertos a acolher o talento, seja ele de qual raça for. A primeira epígrafe diz tudo: “A música é a linguagem do coração”, segundo Rameau. Acrescentaria, coração não tem raça, ele pulsa.

After the killing of the black George Floyd by a white policeman, a wave of antiracist movements swept the globe and now classical music, said to be “extremely white” — written by white composers and played by white musicians — is on the receiving end of racist attitudes. The press adds fuel to the fire by pointing out the small number of nonwhite musicians on the stages. Personally I believe the heart of the issue is not classical music, but education — or lack of education. Black children from low income families have few chances of learning an instrument or even of listening to classical music. Through education talented children from the poorest backgrounds would be able to develop their potential to the full and pursue successful musical careers independently of skin color, discouraging racist attitudes.