A decadência nos serviços de bordo

O pensador lança-se à tarefa de desembaraçar
o enrolado novelo que o mundo lhe apresenta,
mostrando como todo o fio não é mais do que ligação entre dois extremos,
o da eternidade e do tempo,
o da substância e o do acidente,
o de Deus e o do Homem.
E neste trabalho de desenrolar o novelo se lhe vai a vida.
Agostinho da Silva
(“As Aproximações”)

Ao longo das décadas foram dezenas de voos para a Europa, sempre em classe econômica, para atividades ligadas à música, como palestras, participação em Congressos ou júris de doutorado, mas preponderando, recitais e gravações. A constância determina a avaliação, após observação retida na memória. Há não muitos decênios os voos não saíam diretamente de São Paulo e a passagem obrigatória pelo aeroporto do Galeão era um fardo para qualquer paulistano, mercê da desorganização e da demora. Com a construção do Aeroporto Internacional de Guarulhos, os deslocamentos passaram a ser a partir de São Paulo. Depois da recente modernização desse aeroporto, o melhor do país, a vida do viajante tornou-se menos incômoda, pois alguns melhoramentos aconteceram. Ainda continua um transtorno absurdo chegar ao aeroporto, sobretudo em horários de pico ou quando há acidente grave ou chuva torrencial obstaculizando o trajeto. O trem expresso que sairá do congestionado centro de São Paulo, promessa bem antiga do governo estadual, deverá entrar em circulação brevemente, mas há ainda o problema da distribuição dos passageiros para os diferentes terminais que deverá ser feita, ainda, pelos ônibus. Alguns dos principais aeroportos do mundo já dispensaram esse meio de transporte para a ligação entre terminais.

Tenho por hábito chegar muitas horas antes de um voo. Há sempre um bom livro para se ler enquanto aguardamos o momento do embarque. Mais agradável seria a espera se preços escorchantes não fossem cobrados do momento em que ultrapassamos a barreira do exame dos passaportes pela PF e a verificação da bagagem de mão e dos pertences nas vestes. Esses preços estão acima do que se cobra no hemisfério norte. Nada a fazer, pois certamente uma engrenagem muito bem montada faz com que os preços nos vários pontos de venda de bebidas ou algo comestível se equivalham.

Modernizações como o finger, dispositivo que leva o passageiro até a porta da aeronave, já existem há tempos; contudo, quando se espera uma comodidade no interior do avião, assim como serviço de bordo menos direcionado à redução de custos durante as longas travessias, tal não acontece, apesar de preços das passagens em elevação contínua. Para o viajante que realiza desde o final dos anos 1950 a rota Brasil-Europa, a decadência e até, utilizando-me de palavra mais veemente, mesquinharia para com o passageiro naquilo que lhe é oferecido durante a travessia chama a atenção. Se for realizada uma pesquisa no que concerne ao tratamento desde a década de 1970 ao presente, a diferença no serviço de bordo é gritante.

Estou a me lembrar de voos, décadas atrás, por várias companhias que realizam a travessia a partir de São Paulo em direção à Europa. Altura do voo estabilizada, as aeromoças já apresentavam o menu completo impresso, podendo o passageiro escolher entre duas sugestões. Precedendo a refeição noturna, aperitivo era servido e havia farta variedade de bebidas para escolha. Logo após serviam o “jantar” e ofereciam para os amantes de vinho a garrafinha do tipo escolhido. Finda a refeição, passava o carrinho com licor ou conhaque. O material utilizado para todo esse processo era de boa qualidade, em plástico rígido ou vidro (entende-se o não emprego desse material após o fatídico 11 de Setembro). Quanto às mantas, algumas companhias as tinham em lã pura!!! Atualmente tudo foi alterado drasticamente, tanto na qualidade pífia do material, como no processo todo de apresentação e simplificação dos bens oferecidos.

Talvez o único benefício ocorrido nestas últimas décadas tenha sido a proibição do fumo durante as longas travessias, pois ao chegar ao destino o passageiro ainda teria durante um bom tempo suas roupas lembrando-o das horas vividas no interior da aeronave.

Um outro aspecto que evidencia a sanha predatória das companhias que fazem a travessia oceânica refere-se às bagagens. Em 2017 realizei três viagens para a Europa para participar de júri de doutorado, recitais e Simpósio, respectivamente. As três pela TAP. Nas duas primeiras, tive direito a duas bagagens de 32ks gratuitas, aliás, como nos anos precedentes. Na terceira, apenas uma até 23ks e para esse exemplar único foi cobrado E$ 75,00 (sic)!!! Paguei cerca de R$ 290,00. No regresso também tive de pagar a mesma quantia. O leitor nem precisa realizar elucubrações a respeito. É algo rigorosamente desproporcional. Os preços das passagens diminuíram, o serviço de bordo tornou-se mais generoso? Não, apenas não. Igualmente no presente cobram para os voos pelo país tarifa por bagagem sem que as passagens tenham sofrido redução, como alardearam as companhias aéreas.

Quanto às viagens mais longas pelo interior do Brasil, serviam, décadas atrás, a refeição. Em muitas delas o passageiro recebe hoje um pequeno invólucro com algumas sementes e um copo de água!!! Se quiser um café, tem de pagar. Passagem cara, café de garrafa!!! É algo inadmissível!!! Entendo como miserabilidade. Quanto ao preço da Ponte Aérea São Paulo – Rio, afirmam ser a mais cara do planeta, considerando-se os quase 40 minutos de voo.

Os tempos românticos se foram. Estou a me lembrar de ter solicitado em três viagens as mantinhas de lã pura de companhias aéreas transoceânicas. Apesar de propriedade da empresa, as aeromoças me ofereceram gentilmente. Àquela altura, minhas filhas ainda pequenas e minha mãe agradeceram essas prendas vindas do ar. Em outra oportunidade, ao preencher uma ficha que me foi entregue durante voo pela Air France, solicitei auxílio à aeromoça, pois tinha uma dúvida. Após dirimir minha hesitação, verificou, sem nada dizer a respeito, que aquele era o dia de meu aniversário, pois fixei-o na papeleta que exigia tal referência. Minutos depois voltou com um pacote fechado, desejando-me feliz aniversário. Havia seis pequenas garrafas de champagne que compartilhei, bebendo com velhos amigos parisienses!!! Outros tempos.

Poderei parecer demasiadamente conservador. A viagem aérea no passado revestia-se de certa magia. Na verdade existia um quase ritual. Os passageiros trajavam-se bem e, essa tradição mantida, influía certamente no serviço de bordo. Com a “democratização” dos voos na classe econômica, certamente um avanço social, esse ritual, que também poderia ser visto pelas ruas da cidade de São Paulo, perdeu completamente sua aura. Presentemente não mais existem “normas” para se trajar, exceções às tradições que permanecem nas classes empresarial e política, no judiciário e em tantas profissões. Contudo, nos voos que cruzam os oceanos, vê-se de tudo. Opções discretas ou berrantes são aceitas ou ao menos toleradas. A quebra absoluta daquelas condutas que existiam, mas não eram impostas, pois faziam parte de uma natural observância, não resultaria, sob alguma forma, nessa decadência do atendimento? Toda aquele esforço em manter um certo requinte no serviço de bordo não era assim pensado pelo fato de que as empresas sabiam que os que mantinham a tradição opinavam se algo não estivesse à altura? Nesses últimos anos durante os voos há aqueles que esticam as pernas pelos corredores, outros que não endireitam as poltronas quando do serviço de bordo, assim fazendo quando alertados pelo passageiro que se encontra na fila logo atrás. Nem comentemos os que falam alto durante horas. Jamais viajo sem proteção auditiva ou earplugs. Observo as muitas transformações que, apesar do “progresso”, remetem-me às recordações. No passado tinha verdadeiro prazer em estar num voo. Hoje, ao entrar na aeronave, só penso em chegar bem ao destino, desiderato final.

Sob outra égide, o poder das grandes empresas beneficiadas por agências reguladoras de toda ordem, é causador de distorções enormes, não mais se preocupando com o interesse do passageiro, do consumidor, do doente e de tantos outros cidadãos. Sempre afirmo que uma das chagas da atualidade é o lobista, figura que entendo sinistra. Haveria exceções? Esse personagem pode sempre ser encontrado junto aos três poderes e às agências reguladoras. A Lava-Jato e outras investigações sob diversos rótulos já retiraram do “mercado” muitas dessas figuras nocivas à sociedade. Mas, à maneira da erva daninha, extirpá-las é tarefa hercúlea nesse nosso país tão dilapidado e com a Justiça rigorosamente morosa, mercê dos recursos quase intermináveis apresentados pelos advogados das “vítimas”. Rigorosamente nada a fazer, a não ser mudar mentalidades. Será possível que isso aconteça? A decadência cultural, dos costumes, da moralidade, da ética é velocíssima. Quem não a sente? Será que a palavra esperança ainda persiste nos dicionários? Vou verificar.

This post deals with flying in economy class, comparing international flights onboard services of the past with those we have today, in the era of mass travel. Not only air companies seem to be engaged in a race downhill but now they also charge high prices for passengers to check their baggage, with no reduction on flight ticket cost.

 

E outras considerações mais

“- Você vê, eu fui filho e depois pai de um ruralista”, diz o velho.
Entre os dois o parêntese de uma vida.
“Na minha infância, vivia-se com quatro ou cinco vacas.
Fazíamos três saint-nectaire por dia. Eles fazem hoje cento e cincoenta”.
Eu não tinha estudos necessários para compreender
a mecânica desses fenômenos,
nem dispunha da pujança intelectual para analisá-los.
Mas pressentia que nosso hóspede levantava um ponto crucial.
O sentimento de não mais habitar o barco terrestre
com a mesma graça proveniente de uma trepidação geral
embasada sobre o crescimento.
Repentinamente ele teve muito de tudo.
Muita produção, muito movimento, energia demasiada.
Em um cérebro, isso provoca a epilepsia.
Na História, denomina-se massificação.
Em uma sociedade, isso conduz à crise.
Sylvain Tesson
(“Sur les Chemins Noirs”)

Não foi exceção. “Sur les Chemins Noirs” despertou atenção por parte de leitores que apreciam o gênero professado pelo escritor-aventureiro francês Sylvain Tesson. Mensagens curtas, mas incisivas, demonstrando interesse por sua vida e obra.

Após confessar que se sentia “imortal” antes do grave acidente que sofreu, há nítida  “guinada” no pensamento de Sylvain Tesson em “Sur les Chemins Noirs”, pois o tratamento literário torna-se mais cáustico, cético e resignado, por vezes com pitadas de humor. Talvez esse ceticismo tessoniano esteja mais voltado àquilo que ele captou na Rússia, pois, “para sinalizar que ninguém se importa com o que acontece, diz-se ‘mnie po figou‘, a acolhida resignada de tudo”.  O pofiguisme (tradução francesa), presenciado em suas andanças pelos solos da Rússia (vide blog “Dans les Forêts de Sibérie”, 01/03/2014), ficaria infiltrado em seus textos anteriores decorrentes das caminhadas ou de estágio prolongado pelo solo russo. O termo, não presente em “Sur les Chemins Noirs”, está contudo impregnado em tantas páginas!

Novamente neste espaço, para meu gáudio, o compositor e pensador francês François Servenière tece comentários de interesse sobre o blog precedente.

“Li com muito interesse seu artigo sobre Sylvain Tesson. A tal ponto que decidi comprar a coleção completa do autor através da Amazon, apesar de já ter lido quatro de suas andanças pelo mundo. A par do talento incomensurável de Sylvain Tesson, deve-se salientar ser ele filho de Philippe Tesson, grande escritor-jornalista, que certamente o apoiou quando do primeiro livro, que obteve muito sucesso. Esse primeiro passo teria sido fundamental. Apesar da juventude da idade madura, Tesson atualmente tem o físico de uma senhora idosa, tão grandes as sequelas do acidente.

Minha admiração por Tesson é enorme. Conseguiu explorações sem paralelo sobre a Terra. A leitura de seu livros é um bálsamo para o coração, frequentemente desencantado, quando em nosso país muitas coisas relevantes são deletadas, como a coragem e o heroísmo, valores profundamente ancorados no meu DNA. Sylvain é um viandante que tem densidade, humor, verdade e uma visão de longo alcance, tão longa quanto as estepes da Sibéria que ele percorreu com a lentidão de suas passadas”.

É bem difícil permanecer leitor de apenas um livro de Sylvain Tesson. Ressaltaria que um dos motivos para que esse fenômeno ocorra é justamente essa noção sincera de uma verdade que ultrapassa o campo ideológico em que legião está mergulhada. O horror à injustiça não surge em seus textos como mensagem panfletária. Nos seus 46 anos, o escritor aventureiro já viveu quantas vidas? Sob outra égide, a admiração pelas suas perfomances não viria dessa nossa impossibilidade física e mental de realizá-las? O paraíso ideal de que me falava décadas atrás o meu saudoso mestre e psicanalista Eduardo Etzel, lugar em que podemos nos refugiar mentalmente em momentos difíceis, não teria paralelo com esses espaços distantes por nós admirados através da façanha do outro, mas que sabemos não poder imitar por tantas circunstâncias físicas, mentais e culturais? Servenière considera que “atingimos nossos objetivos, mas os anos dessa juventude na idade madura estão passando, Fast and Furious, e são eles os mais profícuos da existência. Alguns sonhos de evasão ainda não terminaram pelo fato de ainda estarmos concentrados na direção de nossas vidas. Um dia olhamos para o passado e lá se foram mais de 50 anos… (Servenière completará 57). Menos energia nas pernas, no coração e nos pulmões… Os anos passaram como uma torrente que desce das montanhas. Paradoxalmente, constatamos que Tesson, percorrendo anteriormente todas as grandes distâncias, queimou a vela pelas duas extremidades. Ele mesmo confessaria esse infortúnio após queda  rocambolesca dessa parede de uma casa em Chamonix, justo ele, que na primeira juventude escalou as altas catedrais e subiu frondosas árvores apenas com o auxílio das mãos”.

Antolha-se-me que um futuro incerto, a partir de metas mais econômicas para o combalido físico de Tesson, o fará priorizar o projeto humanitário por ele proclamado nas primeiras entrevistas tempos após o acidente. Resta saber o que pode ser apreendido por humanitário. Se a extensão do termo, mesmo por linhas indiretas, estiver estruturada na denúncia ao descaso não apenas do Estado, mas das empresas e até do comum mortal em tantas ações equivocadas e até predatórias, estará Tesson prestando incomensurável serviço para o bem do homem nessa sua caminhada pela História, na procura incessante de sua humanidade, mormente se considerarmos a penetração ampla do autor junto aos meios de comunicação. É absolutamente plausível que entender a limitação física modifique planos que vão sendo acalentados ao longo da existência. Teria Tesson projetos que foram definitivamente abortados? “Sur les Chemins Noirs” não representará em sua obra o início de um outro olhar, mais interiorizado, mas profundamente enriquecido pelas extraordinárias experiências inseridas em sua já vasta literatura? A observação, dom precioso que é indelével basicamente em todos os parágrafos de seus livros, onde não faltam inúmeras metáforas que levam à reflexão, e que é umas das qualidades de notáveis mestres russos como Dostoievsky e Moussorgsky, na literatura e na música, respectivamente, não é uma das características essenciais de tantos outros luminares russos pertencentes a uma cultura que Tesson tanto admira?

A atração que desperta sua literatura não atenderia ao leitor que tem consciência de uma decadência social, cultural, reflexiva e moral da sociedade atual, prenhe de fanatismos ideológicos, religiosos e de outras mais ordens? A corrupção e o descaso no mundo ocidental tornaram-se rotineiros e seus praticantes pertencem à parcela dirigente do planeta, que contamina tantas áreas da sociedade. O leitor das obras de Tesson bem entende que, nesses longos silêncios e solidão com os quais o autor se viu obrigado a conviver graças às suas escolhas, os  conceitos maturados pelas circunstâncias o conduziram à descrença nas ações das autoridades, tantas vezes agindo com intenções estranhas. Não em “Chemins Noirs”, mas em outras plagas planetárias, como nas fronteiras da Índia ou do Irã e em outras barreiras impostas pelos países, Tesson sofreu por vezes cerceamento e até prisões como viandante ao atravessar marcos divisórios. A visão que depreende do autoritarismo elementar, multum in minimo, estendendo-se aos dirigentes de países, tem uma mesma frequência em seu pensar. O grito, nesses “caminhos negros” basicamente abandonados, é escutado por todos nós. Lembramo-nos de imediato do descaso do Estado pelas terras desassistidas percorridas por Tesson, aplicável também em nossas plagas em maiores proporções, neste caso a atingir frontalmente a desassistência ao povo negligenciado.

“Sur les Chemins Noirs” representaria para Tesson motivo de reorganização quanto ao rumo a seguir doravante, assim como uma possível reconstrução de um sem número de conceitos físicos e mentais, aqueles a limitar o esforço e a considerar a abstinência alcoólica, estes a entender que a lentidão pode ser, paradoxalmente, um veículo para a eclosão de tantas outras observações. “Sur les Chemins Noirs” não deixa de ser um apelo que não será escutado pelos poderosos, mas pelo leitor atento. O livro é quase um culto à nostalgia e uma crítica à modernidade em aceleração desenfreada. Um fato, contudo, traz para o leitor uma surda alegria, pois Sylvain Tesson não desaprendeu a gostar das longas caminhadas. Outras virão, esperamos.

Further thoughts on the book “Sur les Chemins Noirs” by Sylvain Tesson, this time including comments received from the French composer François Servenière, like me a great admirer of Tesson’s writings.

 

 

Sylvain Tesson e os caminhos esquecidos da França

Atravessar vilarejos dava a impressão de passar em revista fachadas a meio mastro.
O que não estava fechado estava à venda,
o que estava à venda não encontrava comprador.
Os monumentos aos mortos levavam nomes gloriosos e
até os habitantes vivos vagando pelas ruas
bem poderiam se juntar à lista.

Sylvain Tesson
(“Sur les Chemins Noirs”)

Ao longo de treze livros resenhados neste espaço desde Maio de 2011 (vide menu “Resenhas e comentários – Lista”), a leitura de “Sur les Chemins Noirs” acentua determinadas constantes no pensamento de Sylvain Tesson, agregando outras, tangíveis após o grave acidente que sofreu em Agosto de 2014, ao cair de uma altura de 8-10 metros escalando as paredes da casa de um amigo em Chamonix. Esteve em coma durante bom tempo, sofreu várias fraturas, permanecendo indeléveis resquícios, sobretudo em seu rosto. Confessaria que “foi um acidente estúpido, sentia-me imortal”. Bem ele, que percorreu o mundo a pé, de bicicleta ou de moto, viveu tantas peripécias “no fio de uma lâmina” e viria a sofrer acidente prosaico nessa queda que deixou tantas sequelas.

“Sur les Chemins Noirs” (Paris, Gallimard, 2016) apresenta um caminho mais “modesto” de Sylvain Tesson, naquilo que ele mesmo confessaria nas primeiras entrevistas após o grave acidente, ao propor direcionamento mais humanitário a partir da queda brutal. O escritor aventureiro se propôs atravessar a França, percorrendo-a em linha diagonal sinuosa, no sentido sudeste-noroeste, não através das auto estradas ou de outras vias pavimentadas, mas orientando-se pelos caminhos negros, também chamados de routes jaunes, em terra batida, de pedras ou apenas trilhas. Descreve-os como “caminhos banhados de puro silêncio, miraculosamente vazios”. Durante o longo trajeto não negligencia ferrovias desativadas. Distanciou-se durante todo o percurso das cidades maiores, pois interessava-o aprofundar-se nesses espaços ruralistas, tantos deles ainda vivendo à la manière dos séculos anteriores.

A longa viagem pelos caminhos negros o faz inteirar-se dos costumes, hábitos, desconfianças e mutismo desses personagens rurais perdidos em seus rincões e tendo acesso ao pequeno povoado, onde não faltam os ingredientes atávicos, o café, a barbearia, a quitanda e os prestadores de serviços. Quando dialoga com o homem rural, fá-lo sempre de maneira curta, sem qualquer ligação de mínima intimidade. Para o leitor que acompanhou as longas viagens de Tesson pelo planeta, sente-se que o contato com outros povos, da Rússia e da Ásia Central, como exemplos, são bem mais humanos. Seria possível entender que nessa empreitada – possivelmente devido aos problemas faciais – a inseparável flauta, tão presente em vários livros como elemento primeiro comunicante com o próximo, estivesse ausente. Ficaria a impressão, pode parecer paradoxal, de que Tesson teria maior prazer no contato com essas etnias tão distantes do nosso conhecimento. Esse “cartão de visitas” sonoro, tantas vezes mencionado em narrativas anteriores, que encantava os moradores dos yurts (tenda redonda mongol) espalhados pela vasta planura da Mongólia, assim como habitantes de outras regiões longínquas,  desaparece em “Sur les Chemins Noirs”. Estou a me lembrar de dedicatória de Sylvain Tesson a uma pergunta que lhe formulei em manhã de autógrafos em Paris aos 12 de Janeiro de 2014: “O único momento em que não sou melancólico é quando escuto música triste, que se encarrega do fardo de minha pena”. Sete meses após, sofreria o acidente. O sonoro flautado inexiste como elo durante toda a travessia pelos caminhos negros, assim como qualquer traço de entusiasmo, mesmo quando amigos, isoladamente, com ele se encontravam para caminhadas durante poucos dias.

O ruralismo francês, cortado por esses chemins noirs, põe à mostra o descaso do Estado e a volúpia das empresas que, ao se interessarem por algum rincão, trazem o “progresso”, destroem tradições e têm interesses tantas vezes estranhos. Como arguto observador, não deixa de notar os animais domésticos, basicamente familiarizando-se à distância. Essas observações, paradoxalmente, excluem o pormenorizar lugares percorridos, não havendo qualquer vestígio de uma interpretação turística. Se tantas vezes a natureza o impacta, essa é anônima, perdida em um desses chemins noirs. Sob outro aspecto, fica mais evidente, nesse corte dos extremos do território francês, sudeste-noroeste num sentido longitudinal, um possível menor envolvimento com a geografia em comparação com as narrativas anteriores. Seria possível supor que atravessar sua França, país do chamado primeiro mundo, a observar a precariedade dos caminhos, das casas esparsas, da desassistência do Estado, do mutismo do homem rural desesperançado frente ao “progresso”, tenha provocado em sua mente um recrudescimento de aversão aos avanços em quase todas as áreas e o desprezo pelas elites. O pensamento de Tesson, nesse caminhar, mergulha nos tempos da idade da pedra até os feudais, tempos imóveis, segundo ele. O progresso sem controle fá-lo refletir sobre a velocidade dos acontecimentos, pois “a ode à ‘diversidade’, à ‘troca’, à ‘comunicação do universo’ surgia como o novo catecismo dos profissionais da produção cultural na Europa”. O observador verifica as consequências em torno dessa volúpia para que as coisas aconteçam: “os vales se viram afligir pelas grandes auto-estradas, as montanhas pelos túneis, o azul do céu pelas linhas brancas dos longos voos. A paisagem tornou-se uma decoração de passagem”. Verifica, ao percorrer vilarejos, “a presença de frutos e legumes tropicais na mais modesta quitanda”. Coloca uma questão nessas elucubrações sobre a mundialização: “por que não aceitamos que um ladrão de maçãs se introduza num pomar e por que permitimos que uma manga do Brasil reine numa quitanda d’Ardèche? Onde começa a infração?”. Comenta com certa dose de humor: “E interessei-me por uma inovação instalada em frente à Igreja: uma ‘máquina distribuidora de pães’ substituía a padaria. Um euro depositado na fenda e lá vinha a baguete. A máquina foi vandalizada. Moralidade à francesa: quando falta pão, o povo se revolta; quando faltam padeiros, ele quebra as máquinas”. Com quase resignação: “A ruralidade instituiu-se como princípio de resistência a toda empolgação. Escolhendo o sedentarismo, criou-se uma ilha no fluxo. Aprofundando-se nos caminhos negros, navegamos de ilha em ilha. Há um mês eu abro caminho no arquipélago”.

Alguns aspectos extraliterários devem ser abordados. Após o trauma sofrido, a lenta recuperação o obrigaria a uma intensa fisioterapia. Contrariando recomendações, o escritor aventureiro preferiu andar e atravessar o território francês. Diversamente dos livros anteriores, são inúmeras as menções de Tesson ao cansaço, às longas caminhadas. Constantes as lembranças do trauma sofrido. A narrativa não o esquece e praticamente todas as sequelas são homeopaticamente distribuídas em “Sur les Chemins Noirs”, de maneira por vezes pungente. O inveterado amante da vodka e das longas caminhadas, com estágio como “eremita” no lago Baikal, confessa: “Bebi para toda a vida nesses últimos anos, afogado nas caravanas de lembranças dos rios de vodka. Presentemente, acabou! A torneira mágica fechou”. Em outra menção, tem-se: “Foi-me proibido o vinho, mas eu podia ainda embebedar-me do vazio”. Rememora as décadas como viandante: “vinte anos nesse jogo sobre cumeeiras para, hoje, caminhar como uma idosa”. Durante o longo percurso, uma irônica observação, após ter dormido em um mosteiro: “Enriqueci-me com os 20 euros que recebi no mosteiro, pois uma velha senhora teve piedade ao ver meu rosto desfigurado: ‘Reze uma missa, para quem você quiser’, e lembrei-me de minha mãe, que jamais me teria feito tal pedido”. Encharca-se de medicamentos que o afligiam: “Acrescentaria as doses de colchicine para as complicações cardíacas e os produtos para atenuar as dores nas pernas. Incendiei minha vida, queimei as veias, dei um salto para escapar do incêndio e agora arrasto-me sobre os caminhos com uma inflamação geral que a medicina controla”. Jocosamente comenta: “tentemos não cair no rio, pensava eu passando por uma ponte, isso evitará à região uma poluição química”. Praticamente todas as partes do corpo afetadas pela queda em Chamonix são contempladas. A audição diminuiu e comenta noite em pequeno hotel onde, durante o jantar, a televisão estava em alto volume: “A vantagem da meia surdez está no fato de já termos o volume reduzido”.

O ataque epilético, nunca tratado em livros anteriores, pode ter sido provocado pelo traumatismo crânio-encefálico (TCE). Se o mal fosse anterior, creio que Tesson não teria permanecido meses, em pleno inverno, sozinho numa cabana siberiana (vide blog: “Dans les Forêts de Sibérie- Reflexões em cabana isolada na margem ocidental do lago Baikal”, 01/03/2014). Refere-se com naturalidade ao episódio. Estava Tesson a almoçar com amigo no alto de uma montanha quando lhe veio à mente a vontade de morrer: “era uma mancha negra que invadia o ser como a tinta de um choco escurece a água do mar”. Lembrar-se-ia, ao voltar a si, “era a epilepsia, o mal negro, e as fraturas de meu crânio favoreciam essas crises”.

À guisa de conclusão, Sylvain Tesson se posiciona: “Toda longa marcha tem lá seus ares de salvação. Colocamo-nos a caminhar, avançamos a buscar perspectivas nas dificuldades, evitamos os vilarejos. Encontramos abrigo para a noite, recompensamos em sonhos as tristezas do dia. Elegemos a floresta como domicílio, dormimos embalados pelas corujas, partimos pela manhã eletrizados pela empolgação da mata crescida, vislumbramos cavalos. Encontramos homens rurais mudos”. (tradução: J.E.M.).

Se, sob um aspecto, “Sur les Chemins Noirs” mais profundamente revela que os efeitos traumáticos tiveram influência na narrativa, sob outra égide o autor revela seu de profundis -  não falta um  sentido poético na narrativa -, justamente a percorrer seu território natal. Se desaparece o surdo prazer, palpável nas viagens anteriores, possivelmente a decepção ao verificar precariedades e o desinteresse do Estado, nessas bucólicas mas desprezadas terras, tenha aflorado “sentimentos” ocultos em tantas obras anteriores. Faz-me pensar no extraordinário ciclo de melodias de Modest Moussorgsky, “Sans Soleil”.

Sylvain Tesson iniciou o percurso pelos “Chemins Noirs” aos 24 de Agosto, chegando a termo aos 08 de Novembro de 2015.

In his book “Sur les Chemins Noirs” French adventurer, writer and geographer Sylvain Tesson walks across France from Southwest to Northwest  following the Chemins Noirs (black paths), the unmarked ancient routes of men and animals or abandoned railways, reflecting on government’s disregard for citizens’ needs, the greed of large corporations under the pretext that rural areas need to be “incorporated into modern France” and repeated mentions of the accident he suffered in 2014 (a ten-meter fall during roof-climbing) that took a heavy physical and mental toll on him. Also a philosopher, the 76-day adventure is a chance for Tesson to muse over issues such as nature, modern society and his impulse to challenge death.