Um repertório diferenciado

É preciso ter, em relação à obra que se ouve, que se interpreta ou que se compõe,
um profundo respeito, como se estivéssemos diante da própria existência.
Como se fosse uma questão de vida ou morte.
Pierre Boulez (1925-2016)

E mar vai em voo aberto,  já pássaro aventureiro para as descobertas.
Maria Isabel Oswald Monteiro (1919-2012)

Após o encerramento da minha atividade pianística pública em 2023, os Encontros Musicais Privados possibilitam a continuação dos estudos, uma das razões essenciais da devoção à literatura composta para piano e da ininterrupta frequência amorosa a ela dedicada. Minha mulher Regina, pianista igualmente, enriquece a programação com autores que lhe são caros desde a infância.

O Oitavo Encontro Privado destaca inicialmente Valsas de Francisco Mignone (1897-1986), compositor que compõe, juntamente com Villa-Lobos (1887-1959) e Camargo Guarnieri (1907-1993), a tríade nos nossos mais relevantes compositores nacionalistas. As Valsas de Mignone, muitas delas designadas Valsas de Esquina, referência à criação mais urbana, são encantadoras, plenas de naturalidade e lirismo. Regina mantém em seu repertório inúmeras criações de Mignone e era uma de suas intérpretes eleitas. Interpretará nos Encontros cinco Valsas do ilustre compositor.

Clique para ouvir, de Francisco Mignone, Valse élégante, na interpretação do saudoso pianista Nelson Freire (1944-2021):

https://www.youtube.com/watch?v=54p8zHIhPtM

Do Grupo dos Cinco, formado pelos compositores russos Alexandre Borodine (1833-1887), Modest Mussorgsky (1839-1881), Rimsky-Korsakov (1844-1908), Mily Balakirev (1837-1910) e Cesar Cui (1835-1918), escolhi criações dos três primeiros.

Recentemente estudei as criações de Borodine e de Rimsky Korsakov, estreando-as neste Oitavo Encontro entre amigos. Quanto aos “Quadros de uma Exposição”, de Mussorgsky, a magnífica obra faz parte do meu repertório há décadas, tendo-os gravado para o selo belga De Rode Pomp.

A “Pequena Suíte”, de Alexandre Borodine, compositor, médico e químico, foi composta em 1870, sendo constituída de sete peças intimistas de sensível lirismo. Borodine organiza engenhosamente as criações, contrastando-as, e as duas mazurcas inseridas disso dão provas. O compositor Alexandre Glausonov (1865-1936) orquestrou a “Pequena Suíte”.

Clique para ouvir, de Alexandre Borodine, a “Petite Suite”, na interpretação da notável pianista russa Tatiana Nicolaïeva (1824-1993):

https://www.youtube.com/watch?v=MTkq4QoTNI0

“O voo do besouro”, de Rimsky-Korsakov, é um interlúdio orquestral da ópera “O conto do tsar Saltan” e há as mais variadas versões para outros instrumentos, sobremaneira o piano.

Foram diversos posts dedicados aos “Quadros de uma Exposição” ao longo desses 19 anos de blogs ininterruptos. Uma das composições que mais aprecio, não apenas pela circunstância que motivou a criação, como pela originalidade da concepção da obra. Após forte impacto sofrido por Mussorgsky ao visitar a exposição de aquarelas de um dileto amigo recentemente falecido, o pintor e arquiteto Victor Hartmann (1834-1873), o compositor, tendo memorizado algumas das pinturas, compõe sobre forte impacto os magníficos “Quadros…”. Em autorreclusão, concentrou-se e, em cerca de duas semanas, completou a criação. Escreveria que os “Quadros…” ferviam como anteriormente ocorrera com a ópera “Boris Godounov”. Se Hartmann está presente através da “interpretação musical” das aquarelas, o compositor também se instala nos episódios da obra e o tema da “Promenade”, alterado durante a sua caminhada pela significativa mostra, poderia indicar um derradeiro tributo. Nesse transcurso, Mussorgsky se funde ao homenageado. Das dezesseis seções do “Quadros…”, dez referem-se às aquarelas e seis outras às “Promenades”. Na “Porta de Kiev”, há uma derradeira menção à “Promenade”. Das pinturas de Hartmann que inspiraram o compositor, apenas seis subsistem, pois na exposição dedicada ao pranteado muitos dos trabalhos foram vendidos. Diversos compositores transcreveram para orquestra os “Quadros de uma Exposição”, destacando-se Maurice Ravel (1875-1937) – a versão mais largamente difundida –, Dmitri Shostakovich (1906-1975) e Francisco Mignone, fidelíssimo ao texto de Mussorgsky. Transcrições outras foram realizadas para instrumentos solo.

Sob a égide da interpretação, algo tem se afigurado de maneira acentuada com relação aos andamentos. Nesta “Civilização do Espetáculo” em que infelizmente vivemos, como bem definiu Mario Vargas Llosa, em determinadas obras interpretadas por pianistas, indicações de andamentos propostas pelos autores têm sido progressivamente aceleradas para gáudio da maioria dos ouvintes. Essa descaracterização das recomendações dos compositores provoca a sedimentação temporária da escuta e haverá fatalmente uma outra percepção do conteúdo intrínseco de uma obra. Uma pianista superventilada mundialmente não teria dito que, em determinada composição rápida que apresenta extraprograma, o público pede sempre que a execução seja ainda mais acelerada para o deslumbramento da plateia e a “pirotecnia” da intérprete?

Os três compositores do “Grupo dos Cinco”, tendo como fundamento o culto às raízes da música russa, legaram criações que perduram pela originalidade e claros objetivos.

Clique para ouvir, de Modest Mussorgsky, “Quadros de uma Exposição”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=dDr75RcRNDw

The Eighth Private Recital, following five beautiful waltzes by Francisco Mignone performed by Regina, features three composers that I have selected  from the Group of Five: Borodine, Rimsky-Korsakov, and Mussorgsky.