Navegando Posts publicados em abril, 2026

Da permanência ao efêmero, um caminho sem volta?

Um mundo arrumado é apenas o palco para o grande espetáculo,
de que até hoje tivemos apenas um ou outro raro exemplo,
da plena criação em todos os domínios,
arte, ciência, filosofia, porventura vida também.
Agostinho da Silva (1906-1994)
“Só Ajustamentos”

Ao longo das décadas realizei a leitura parcial da atividade epistolar de alguns dos mais conceituados compositores, apreendendo essencialidades que vão além da própria composição, abrangendo igualmente o cotidiano, os afetos e as dificuldades frente à vida e seus desdobramentos, saúde, finanças, esperanças ou desalento. Graças à carta manuscrita, preservou-se o pensar do compositor, essa interioridade não revelada em escritos teóricos no caso específico de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), compositor e teórico, magistral nas duas atividades.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Air pour Borée et la Rose”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=kYHMbUAw8sUA

O vastíssimo patrimônio da música com várias designações, clássica, erudita ou de concerto, permanece através dos séculos, é executado pelas gerações de intérpretes e integra o vasto universo da Cultura Humanística. Tardiamente penetrou no Extremo-Oriente e hoje alguns dos mais relevantes pianistas são oriundos dos Conservatórios do Japão, China, Coréia do Sul…, evidência clara, apesar de culturas distantes das ocidentais sob tantos aspectos, da aceitação da música clássica em seus múltiplos modelos. No 19º Concurso Internacional Frederic Chopin (2025), em Varsóvia, os três primeiros  colocados eram orientais ou descendentes e os dois outros prêmios foram outorgados ex-aequo (empatados), tendo igualmente orientais.

Mormente neste século, de maneira mais acentuada verifica-se uma diminuição sensível da divulgação mais exequível da atividade musical erudita em nossas terras. Observei em blogs, anos atrás, o papel da imprensa relacionada à música de concerto. Rememoro que São Paulo, na década de 1950, tinha uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes. Os concertos nos vários teatros, máxime o Teatro Municipal, tinham frequência quase sempre plena.  Quando nos visitavam nomes referenciais do piano, violino, violoncelo ou canto, filas de jovens aguardavam a abertura das galerias – preços irrisórios – para não perderem os eventos. Após uma determinada apresentação, leitores tomavam conhecimento de críticas em vários jornais. Mencionaria O Estado de São Paulo, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite, Diário de São Paulo, Diário da Noite, A Gazeta, O Tempo, Correio Paulistano, Jornal Alemão, Fanfulla, Giornali degli italiani, Shopping News. Todos esses periódicos tinham críticos, a maioria deles com pleno conhecimento musical.

Apesar das muitas diferenças entre a música clássica e a música não compromissada com a forma e destinada às multidões, máxime na atualidade, considerações podem ser feitas a partir da efemeridade da música voltada aos shows e pertencente a várias modalidades, megashows vindos do Exterior, eventos outros no Brasil direcionados ao axé, funk e ao sertanejo, totalmente descaracterizado se comparado às duplas que se apresentavam muitas décadas atrás – Tonico e Tinoco, Cascatinha e Inhana e alguns outros, sem esquecer Inezita Barroso -, que buscavam traduzir autênticos sentimentos e anseios do homem do campo. Mercê do marketing bem estruturado, hodiernamente não mais é a qualidade que importa, mas a popularidade dos eleitos por n razões.

Menções da imprensa testemunham somas rigorosamente elevadas repassadas pelos governos a personagens bem conhecidos da denominada música de cunho popular. É um fato que se repete nas várias esferas oficiais, do poder central às prefeituras de cidades pequenas, que inúmeras vezes dão maior atenção à essas apresentações do que àquela destinada aos serviços básicos das cidades ou, então, à segurança e à educação. Mormente nos megashows, a mudança de repertório se dá virtualmente a cada temporada e as músicas antes apresentadas estiolam-se em pouco tempo, basicamente esquecidas para sempre nas turnês vindouras. Os meios de comunicação, quase como um todo, divulgam ad extremum essas apresentações, amparadas por publicidade de peso.

Nesses posts dedicados às cartas de compositores que se eternizaram através dos séculos, veio-me à mente a perenidade frente ao efêmero. Numa elucubração, se considerarmos compositores que morreram pobres ou com problemas financeiros graves, mas que tiveram suas obras glorificadas, e atentando, sob outra égide, ao que um pop star recebe num único megashow, cantando músicas de valor bem discutível, não estaria distante da realidade afirmar que o cachê desse pop star internacional para uma única apresentação, frise-se, é infinitamente superior ao que compositores sacralizados sequer puderam amealhar durante toda a existência, guardando-se as proporções monetárias históricas. Antônio Vivaldi (1678-1741) morreu pobre, assim como Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828).

Clique para ouvir, de Franz Schubert, Fantasia em fá menor, na interpretação de Paul Badura-Skoda (1927-2019) e Jörg Demus (1928-2019). Infezimente essa gravação realizada na Sala Gaveau, em Paris, é interrompida no minuto 8:56:

Paul Badura-Skoda et Jörg Demus, pianos | Fantaisie en fa mineur, D.940 de Franz Schubert

Richard Wagner (1813-1883) teria falido não fosse o apoio incondicional de Luís II da Baviera (1845-1886). Modest Mussorgsky (1839-1881) é o exemplo tipificado do compositor que faleceria no completo infortúnio. O robe de chambre que Mussorgsky veste poucos dias antes da morte, na magnífica pintura de Ilia Répine, foi-lhe dado por Rimsky Korsakov (1844-1908) para a famosa tela.  Claude Debussy (1862-1918) morreu em situação financeira difícil, mercê sobretudo causada por câncer que o acometera anos antes. Outros tantos faleceram beirando a pobreza.

Creio que a comparação estabelecida poderia parecer dicotômica quanto aos gêneros. Não obstante, transcende uma simples apreciação. As transformações tecnológicas necessárias, mas, sob outra égide, verdadeiros tsunamis, têm acarretado uma série de desvirtuamentos dos princípios “outrora” consagrados: costumes, moralidade, lhaneza, honestidade, gostos e educação. Inversamente à perenidade mencionada acima, mercê da qualidade insofismável das obras de compositores perenizados, os montantes aferidos nas hodiernas apresentações para multidões, com astros superventilados pela mídia, evidenciam, na área musical, a aparência da verdade, pelo sentido efêmero do que é revelado. Mencionei recentemente que, ao auscultar jovens frequentadores dos megashows com personagens estrangeiros ou nacionais a respeito de músicas apresentadas um ou dois anos antes, não mais se lembravam, mas sim as do último show a que assistiram.

As transformações sociais têm sido avassaladoras. Certamente, dentro de algumas décadas os compositores mencionados acima estarão presentes nas programações musicais pelo mundo, com público específico, é certo, se comparado aos gêneros outros mencionados. Para estes, a efemeridade é dramática. Quem será lembrado futuramente dessa plêiade de pop stars que são glorificados por multidões? Que músicas ficarão na memória dos que frequentam esses megashows? O legado só acolhe a criação musical qualitativa.

Just some reflections on the legacy left by the great composers of the past, and the overwhelming presence today of mega-concerts that draw crowds to glorify names that are hyped up by the media.

 

 

 

Missiva manuscrita vinda dos Países Baixos

Qual não foi minha surpresa ao receber do dileto amigo Joep Huiskamp, professor jubilado da Universidade de Eindhoven, na Holanda, e artista plástico com inúmeras exposições em seu país, uma resposta, pelos Correios, aos blogs que têm sido direcionados à temática das cartas manuscritas, hoje em acentuado processo de extinção. Nossa amizade data do ano 2000, quando em Gent, na Bélgica, estivemos durante alguns dias hospedados em casa do dileto casal Tony e Tânia Herbert. Nos anos vindouros, Joep e sua esposa Jonneke compareceram aos meus recitais de piano em várias cidades da Bélgica e estiveram, inclusive, em uma apresentação que realizei em Lisboa. Nosso relacionamento, iniciado no início do século, prolongou-se. Amante incondicional do arquipélago português dos Açores e da cultura de Portugal, tendo, entre outras contribuições, traduzido para a língua holandesa “O Mandarim”, de Eça de Queirós, Joep tem, ao longo dos anos, viajado constantemente ao belíssimo arquipélago constituído por nove ilhas. Realizei em 1992 turnê por três ilhas açorianas, Terceira, Faial e São Miguel, e sendo admirador inconteste das obras para piano do compositor português Francisco de Lacerda (1869-1934), acabei interpretando a integral para piano e gravado muitas de suas criações, motivos determinantes para o estreitamente da amizade com Joep Huiskamp, igualmente um apreciador das criações do músico nascido nos Açores.

A carta, aparentemente heteróclita, testemunha não apenas um tributo expresso ao ato de escrever correspondência à mão, mas igualmente um senso criativo com boa dose de humor. Joep mescla francês e português, as duas línguas com as quais nos comunicávamos. Desenha na folha da missiva três retratos coloridos, homenageando luminares da cultura açoriana: o escritor e poeta Antero de Quental (1842-1991), nascido em Ponta Delgada, capital da Ilha de São Miguel; Vitorino Nemésio (1901-1978), originário de Santa Cruz – Praia da Vitória, na Ilha Terceira, autor de um dos mais importantes romances portugueses, “Mau Tempo no Canal”; e Francisco de Lacerda, natural da  Ribeira Seca, Ilha de São Jorge.

“Meu muito caro José Eduardo,

Naturalmente, tens razão! Escrever cartas à mão, com tinta, isso se vê cada vez menos nesses dias. E, como consequência, a caligrafia de muitas pessoas fica em frangalhos”.

Menciona o equívoco ortográfico na palavra frangalhos na sua missiva manuscrita, tendo corrigido a segunda letra a e a última sílaba. Após, narra aspectos da vida cotidiana do casal, a sua aposentadoria e brevemente a da esposa, assim como os projetos tão caros para aqueles que sabem planejar as décadas subsequentes e a vida em família, no caso. No roteiro, um regresso à Ilha de São Jorge, a fim de pintar e escrever.

A missiva do meu dileto amigo holandês tem algo que faz pensar, pois merece diversas interpretações. Se, sob determinado aspecto, há um humor fino, até sarcástico, o que muito me alegrou, revela a mensagem ilustrada a realidade sombria que aponta para o crepúsculo da  correspondência manuscrita, motivo determinante para a elaboração da carta. As três ilustres figuras açorianas que tão bem ilustram o envio de Joep, personagens que fazem parte igualmente dos meus eleitos entre aqueles da extraordinária cultura lusíada, não significariam a necessidade de evidenciar a presença dos três desenhos originais e não de reproduções impressas?

O vaticínio para a missiva escrita à mão já foi dado há poucas décadas atrás. Não obstante o fato irreversível, a simples lembrança das correspondências que subsistiram desde a Grécia Antiga leva-nos a deduzir que mais profundamente se está a penetrar na era da irreversibilidade do efêmero. Mutatis mutandi, se na música alguns compositores de mérito permanecem frequentados com dedicação pelos intérpretes, tendo a plena aceitação de um público bem menos vasto, mas fiel, a produção musical da atualidade, um leque de tendências composicionais com as mais variadas formas, estilos e destinações, tende a ser descartada em tempo exíguo, salvo exceções realmente meritórias.

Consultei inúmeras pessoas nesses últimos tempos a respeito dos pendrives, a diminuta peça onde armazenavam o que deveria ser preservado, missivas internéticas inclusas. A grande maioria nem mais os utiliza e a minha pergunta sobre a destinação desses dispositivos recebeu respostas contundentes: “não sei onde os guardei” ou “joguei-os fora”.

Retomarei oportunamente às cartas manuscritas de compositores que permaneceram na história, pois outros temas já estão a pedir passagem. Não obstante, a leitura através das décadas dessa literatura, essencial para o conhecimento mais aprofundado dos compositores pesquisados, levou-me a considerar oportuno o tema do próximo blog.

Clique para ouvir, de Francisco de Lacerda, “Papillons” e “Zara”, na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=rOa_dEmQg30&t=25s

My dear friend Joep Huiskamp, a retired professor from Eindhoven University in the Netherlands and also a painter, sent me a handwritten letter by post. A lover of the Azores, like myself, he included three of his own paintings depicting immortal figures born in the Azores archipelago.

 

 

O compositor frente à constante inspiração

Para mim, o homem e o músico sempre buscaram se expressar ao mesmo tempo.
Só dou um título às minhas composições quando elas estão concluídas.
Robert Schumann (1810-1856)

O compositor Robert Schumann, um dos músicos luminares do romantismo alemão, autor de composições abrangendo uma extensa gama de destinações ― piano solo, lieds (melodias acompanhadas pelo piano), sinfônico (quatro sinfonias) e camerístico ―, externaria em suas criações, mormente pianísticas, o seu amor àquela que seria desde a juventude a fonte de inspiração, Clara Wieck, futura Clara Schumann (1818-1896), notável pianista e compositora de mérito. Schumann estudou com Friedrich Wieck (1785-1873), pai de Clara, que se opôs durante anos à união de sua filha com Robert, fato que ocorreria em 1840, após o futuro casal ter entrado na Justiça contra o professor que alegava não ter Schumann estabilidade financeira.

Aos 12 de Setembro de 1840, um dia após o aniversário de Clara, efetua-se o casamento e, nessa data, após as núpcias, Schumann escreve à “Minha jovem mulher bem-amada”, dando início a um diário mútuo que deveria doravante fazer parte das impressões na vida do casal. As anotações duraram três anos. Robert e Clara tiveram 8 filhos.

“Deixa-me, antes de mais nada, dar-te um beijo muito carinhoso neste dia, o primeiro da tua vida de mulher, o primeiro do teu vigésimo segundo ano. O livrinho que começo hoje tem um significado muito profundo. Ele deve se tornar um diário, falando de tudo o que temos em comum em nosso lar e em nossa união. Nossos desejos e esperanças serão registrados nele. Deve ser também um livro que contenha os pedidos que precisamos fazer um ao outro, quando as palavras não forem suficientes.

Se concordas comigo, querida esposa, prometa-me também que cumprirás rigorosamente o código deste vínculo conjugal, assim como eu mesmo te prometo aqui.

A cada oito dias, trocaremos a direção da correspondência. Todos os domingos (de preferência no café da manhã), ocorrerá a entrega do Diário, à qual não é proibido acrescentar um beijo. O que foi escrito será lido em seguida, em silêncio ou em voz alta, conforme as exigências do texto, acrescentando-se o que tiver sido esquecido.

Os votos expressos serão ouvidos, os pedidos apresentados e aprovados e, de maneira geral, nossa existência durante toda a semana cuidadosamente examinada, seja ela cheia de mérito e ação, seja por termos aumentado nosso bem-estar exterior ou interiormente, seja ainda por termos nos aperfeiçoado na arte que nos é tão cara.

As anotações de cada semana não devem ter menos de uma página. Quem descumprir essa regra receberá uma punição, ainda por definir.

Se algum membro de nossa Ordem Conjugal se atrevesse a passar uma semana sem escrever nada, a punição seria muito mais grave. Situação, no entanto, que mal podemos imaginar, dada nossa elevada estima mútua e nosso senso de dever. Todos esses estatutos e leis serão observados também em viagem, e o Diário deverá sempre nos acompanhar.

Um dos prazeres do nosso Diário será, como já foi dito, a crítica de nossa vida artística. Por exemplo, o que você gosta de estudar, o que você compõe e o que você pensa sobre isso. O mesmo se aplica a mim.

Outro ponto forte deste livro consistirá em descrições de personagens, por exemplo, de artistas de renome que tivermos conhecido, e em anedotas; os traços humorísticos serão muito bem-vindos. Mas o que há de mais belo e encantador neste livro, minha querida esposa, não quero chamá-lo pelo nome. Tuas belas esperanças e as minhas, que o Céu queira abençoar; teus cuidados e os meus, que o casamento traz consigo; enfim, todas as alegrias e todos os sofrimentos da vida em comum serão aqui fielmente descritos, o que nos reserva alegrias para nossa velhice.

Se concordas comigo em todos os pontos, minha querida esposa, escreve então teu nome abaixo do meu e pronuncia, como um talismã, as três palavras nas quais repousa a felicidade da vida:

Trabalho, economia, fidelidade”.

Uma das obras para piano mais inspiradas de Schumann é a Grande Humoresque op. 20 (1839), composição finda um ano e meio antes do casamento, assim definida pelo notável pianista francês Alfred Cortot (1977-1962): “A Humoresque constitui um dos exemplos mais marcantes do gênio inovador de Schumann e ao qual não se pode atribuir qualquer precedente em toda a história da literatura pianística”. Schumann, durante a gestação da Humoresque, obra constituída de duas dezenas de improvisações contínuas e sem quaisquer amarras formais, pensa em Clara e, se a dedicatória não é a ela destinada, a inspiração esteve sob a égide da sua futura esposa. Escreve à Clara: “Durante toda a semana estive ao piano e compus, ri e chorei ao mesmo tempo. Encontrarás a marca de tudo isso na minha Grande Humoresque” (11/03/1839).

Clique para ouvir, de Robert Schumann, a Humoresque op. 20, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=9QLA5sKqlrc

Robert Schumann’s letter to his wife Clara—a record preserved in a wedding journal and written on their wedding day—reveals a deep bond between them, as the two were to record their hopes, feelings, and daily lives in that marriage diary.