Navegando Posts publicados em abril, 2019

“A execução e a obra”

Realizar uma obra musical é, para o intérprete,
encarnar a forma temporal,
que não é ainda que ideal, na realidade da duração.
A obra escrita, diríamos, não é senão essência, não existência.
Gisèle Brelet

Na década de 1980 tive a oportunidade de ler alguns capítulos de “L’interprétation Créatrice”, da musicóloga francesa Gisèle Brelet (1915-1976). Um colega me emprestou um dos compêndios, mas, apesar do grande interesse, devolvi-o no momento oportuno, pois tenho o hábito de assinalar conceitos que me atraem e marcar nas páginas finais de um livro nº da página e mínima referência que me facilite acessar novamente o tema quando se fizer necessário. O reencontro definitivo ocorrido ultimamente com o compositor Willy Corrêa de Oliveira tem sido extremamente prazeroso. Temos trocado cópias de CDs históricos e filmes, partituras, assim como livros que mantemos em duplicata. Recentemente ofereceu-me os dois volumes de Gisèle Brelet, “L’interprétation créatrice” (Paris, Presses Universitaires de France, 1951).

A abrangência dessa magnífica obra estende-se a todas as possibilidades da interpretação de uma composição, ao menos até a metade do século XX. Aspectos subjetivos, filosóficos, temporais e práticos desse entendimento, obra composta e sua execução são explorados com absoluta competência pela autora. É admirável a fluência do texto, rigorosamente acessível a qualquer leitor, apesar da densidade temática, fluência essa que praticamente esvaiu-se nas penas de tantos musicólogos a partir das últimas décadas.

Dividirei em dois blogs alguns dos temas centrais do primeiro volume, fazendo o mesmo com o segundo tomo no próximo semestre. No espaço a que me proponho seria impensável tratar de todos os posicionamentos abordados nesse amplo leque aberto pela autora. Selecionei alguns tópicos desse primeiro volume, que possibilitam entender a relação intrínseca, umbilical, indispensável e única entre compositor e intérprete. Obviamente Gisèle Brelet pensa sempre no alto nível qualitativo dessa relação.

Como premissa, Gisèle Brelet diferencia as artes, situando a música e a dança como artes do tempo e as outras, entendendo-as como inertes, e “cujo objeto criado faz facilmente esquecer a ação criativa”. Apreende a essência do entrosamento criação-interpretação, tida como harmonia preestabelecida. A obra escrita estaria abstratamente qualificada, estando reservado ao intérprete dar a ela a existência mais adequada. “Nas artes do espaço, a realidade qualitativa da obra já está exposta: a obra é um objeto completo, um espetáculo por si mesmo acabado”, segundo a autora.

Numa das muitas abordagens sobre a extensão do intérprete, Brelet afirma: “O que é necessário reter de toda execução particular é o ensinamento universal que dela se depreende, a ligação necessária entre subjetividade e realização. A obra musical não pode viver sem ser adotada interiormente pela personalidade profunda do intérprete”.

Brelet tem posição firme a respeito da execução da música antiga. Ao citar Jacques Handschin (1886-1995), musicólogo suíço para o qual “cada tipo de música se relaciona com um certo tipo de homem”, a autora observa: “Que a música antiga seja exatamente reconstituída na realidade acústica, que ela soe acusticamente como em outros tempos, ela soará emocionalmente de maneira diferente para nós. Mais precisamente, se admitimos que a cada estilo musical corresponde um estilo de execução, este, mesmo reconstituído, nos distanciará mais do que nos aproximará do estilo musical ao qual ele foi primitivamente atrelado”. Faz-me lembrar o texto que escrevi para o encarte de minha gravação ao piano da integral para cravo de Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Dizia que a única interpretação a seguir a tradição através da oitiva vem da transmissão professor-aluno ao longo do século XIX, pois, desativado o cravo durante mais de dez décadas, todo o repertório para o instrumento automaticamente foi estudado e praticado por pianistas. O silêncio de mais de um século teria fatalmente cortado para os cravistas o elo dessa transmissão oral e sonora. Tiveram que buscar nos tratados a “possível” interpretação de um repertório que se transferira para o piano. Gisèle Brelet, ao se referir aos estudiosos dos vários períodos históricos, afirma: “O musicólogo não tem o direito de exigir do intérprete que ele se conforme, na execução da música antiga, com os dados da história musical. O executante deve, sim, não negligenciar esses dados; mas é a partir de seu sentimento musical que ele deve fundamentar-se para construir uma interpretação moderna e nova, utilizando livremente os dados históricos”. No mesmo contexto, observo que inexiste absolutamente aquilo que adeptos da interpretação da música antiga denominam “autêntica”. Como assinalamos, perdida a oitiva da música de cravo durante mais de um século, ela tem sido dignamente executada por magníficos intérpretes cravistas, mas, frise-se, reconstituída. Imperativo se torna a observância da mensagem contida na partitura.

De interesse a diferenciação que Gisèle Brelet faz de duas categorias de executantes, o músico e o virtuose. Para o primeiro, a autora considera que “há intérpretes que buscam, durante a atuação, salvaguardar a riqueza potencial da obra em si; sabem a contingência de toda execução particular e procuram uma espécie de interpretação universal, onde a personalidade do executante se apaga diante da obra; e a execução é para eles um ato de respeito, devendo limitar-se a encontrar o pensamento do compositor, ou seja, essa pluralidade de realizações possíveis que cercam a criação: são os músicos por oposição aos virtuoses que são executantes em toda a força do termo, entenda-se realizadores”. Nota-se uma preferência de Brelet pelo virtuose: “Há uma qualidade particular no virtuose e independente dos dons propriamente musicais: a necessidade e o gosto pela exteriorização. Parece-me que a obra, uma vez compreendida musicalmente, possa ser executada pelo músico ou pelo virtuose. Para o músico bastam a estrutura apreendida da obra e a sonoridade ideal possível… o virtuose, munido de autoridade e doçura, convence a todos que o escutam levando-os a essa realização infinitamente concreta que ele oferece de uma obra, fruto e recompensa de seu consentimento de exprimir em sua execução”. Implica essa ideia na explicação de seu opposite, pois para a autora o músico basicamente “não se preocupa com o público”. Gisèle Brelet tece muitos outros comentários pertinentes sobre as duas categorias de intérpretes.

“L’Interprétation Créatrice” foi publicada em 1951. Era nítido nesse período, por muitos estudiosos considerado como a “geração de ouro”, a diferenciação que se fazia entre o músico e o virtuose. Consideremos as filmagens de pianistas em apresentações solo. Praticamente havia uma só tomada fixa da imagem, e a execução transcorria a apresentá-los com poucos gestos.

A indústria cultural tem estimulado a “venda” da imagem. Câmeras tudo focalizam, fixando-se prioritariamente no rosto e no gestual do intérprete. Essa concepção, em constante aprimoramento, privilegia executantes que, sabendo-se filmados, exacerbam nas contrações faciais e gestuais e nos excessos da virtuosidade. Nas últimas décadas, pianistas filmados em grandes concursos pianísticos mostram-se reservados no gestual. Se a notoriedade advém, mercê das qualidades inalienáveis dos vencedores, muitos deles, virtuoses, sabedores dessas câmeras que tudo fixam, exageram in extremis os vários componentes de uma apresentação, privilegiando a imagem e buscando a transferência para o ouvinte de emoções sentidas. Há nesse posicionamento uma nítida concorrência, pois muitos assim procedem e o gestual tem-se acentuado. Essa postura mais se pronuncia entre pianistas do Leste Europeu ou do Extremo Oriente. No caso dos virtuoses, tantas vezes elementos intrínsecos de uma partitura poderão sofrer alterações ad libitum que agradarão o público, mas que representam um equívoco grave. Contudo, da geração intermediária, temos intérpretes músicos extraordinários. Seria possível acreditar que, estivesse a viver nos dias atuais, Gisèle Brelet tivesse uma outra apreciação dos virtuoses.

No próximo blog complementarei algumas observações sobre o primeiro volume de “L’Interprétation Créative”, de Gisèle Brelet.

This post addresses the book “L’Interprétation Créatice”, written by the French musicologist and pianist Gisèle Brelet (1915-1973). All aspects of the musical performance – subjective, philosophic, temporal and practical – are covered in two volumes with full competence. The book is totally accessible to any reader despite the complexity of the subject, something hard to say of musicological studies published from the second half of the twentieth century on. For this post I’ve chosen to comment on some topics from the first volume, covering the unique and complex dialogue between composer and interpreter.

A partir de silêncios mediáticos

É-nos dado constatar que a indústria cultural moderna,
tendo hoje a regência-mor da comunicação audiovisual que equaliza,
em todo o território nacional, gostos e costumes; práticas e modismos;
aceitação ou rejeição; o que se deve ouvir, ver e ler,
estabelecerá cada vez mais acentuadamente
os seus tentáculos ditatoriais de padrões normativos.
(Extraído de uma Aula Magna – 1993)

Recebi muitas mensagens mencionando o desconhecimento da morte do notável pianista Fernando Lopes. Uns poucos sabiam do falecimento, mas pela transmissão de amigos e colegas. Assim como alguns luminares da interpretação que se foram são lembrados até calorosamente por apreciadores da música erudita através das gravações, Fernando se incorpora a esse grupo seleto, pois legou execuções que já se tornaram históricas, como as Cartas Celestes de Almeida Prado e a integral dos Concertos para piano e orquestra de Villa-Lobos.

Meu amigo Gustavo, engenheiro e violinista amador, após elogios a Fernando Lopes, fixou perguntas que ouvi em café próximo de minha casa, local em que ficamos por bons momentos. A beirar os 40 anos de idade, diz não mais suportar os principais provedores, espaço que antes apreciava, depois de ter abandonado noticiários e programação da TV aberta. Lamenta profundamente o descaso de provedores e da TV aberta que abandonaram a divulgação de entrevistas e programação da música erudita. Curiosamente, em determinado momento disse-me que da TV Globo apenas se salvava o Globo Rural aos domingos. Fiquei surpreso, pois é o único programa a que assisto da Rede Globo, durante o café da manhã e antes dos treinos para as corridas, apesar de jamais ter tido uma denominada “vida rural”. Muito bem produzido, abrangendo entrevistas no Brasil inteiro, focaliza todos os aspectos de nosso universo rural de maneira bem agradável e instrutiva, com ótimos apresentadores que não buscam holofotes. Dessa Rede não consigo mais assistir a nenhum outro programa. Entre aqueles oferecidos pela TV por assinatura ainda vejo uns poucos, alguns com raro prazer, mormente documentários.

Gustavo entende tudo de computação, enquanto eu sou uma verdadeira toupeira, conseguindo apenas publicar meus blogs semanais, ler e responder aos e-mails recebidos e, após visitação a alguns provedores com o cuidado necessário, filtrar o noticiário que me interessa que, infelizmente, está sempre misturado à lama que cito no blog anterior. Sites de jornais da França e da Inglaterra são lidos mais naturalmente, pois não há esse amálgama indigesto.

Tendo também apreciado o final do texto precedente, Gustavo não mais acredita em uma reviravolta a trazer a Cultura erudita novamente à divulgação ampla.

Sob outra égide, entendo igualmente que não mais há retorno, pois  a engrenagem empresarial voltada aos grandes eventos de entretenimento e à internet, a cada momento mais devoradora, leva a juventude, preferencialmente, a não mais refletir, a distanciar-se da decantação que conduz à dedução e a resultados, a entender a língua escrita como um código mediocremente reduzido, pois esses jovens se adequam às abreviações das palavras quando em comunicação através dos antigos celulares que, hoje, adquiriram denominações mais complexas. A abreviação carrega consigo a voluntária falta de interesse pela escrita correta e o que se vê é uma verdadeira barbaridade. Twitter, Whatsapp, Instagran e outros mais aplicativos são reducionistas e agem na mente de jovens despreparados culturalmente de maneira devastadora. Essa abreviação voluntária elimina a reflexão e estimula a comunicação de um cotidiano banal.

Estava em um coletivo dias atrás e, sentado, observava cidadãos ao meu redor. Contei, apenas num flash, dezesseis pessoas lendo ou vendo algo em seus “celulares”. Estavam na faixa que se estende dos 15 aos 40 anos. Como  sentara-me em cadeira isolada mais alta, de costas para o motorista e quase em frente ao cobrador, tinha uma visão panorâmica do ônibus tri-articulado. Daquilo que pude ver, apenas uma senhora sexagenária e um senhor mais ao fundo, esse septuagenário, não acessavam nada. Ninguém lia, nem que fosse um panfleto. Alguns desses passageiros não desgrudavam seus olhos da telinha e quando enviavam mensagens escritas o faziam com extrema agilidade digital. Dois conversaram com fone de ouvido ininterruptamente da Av. Paulista à minha cidade bairro Brooklin-Campo Belo (cerca de 35 minutos para o trajeto).

Num outro contexto, os meios de comunicação propagam com ênfase a visita de bandas que aportam em nossas terras para shows com “celebridades” de vários gêneros pretensamente musicais, mas certamente muito barulhentos, e meses antes os ingressos para as Arenas imensas já estão vendidos a preço de ouro. Filas se formam, acampamentos são montados meses, semanas, dias antes do ensurdecedor evento e essa juventude à deriva clama que se não conseguir assistir a esses megashows, prefere morrer!!! Uma reportagem televisiva colheu entrevistas nesse sentido. Fato. A tragédia não está estampada nessas pretensas mortes, mas na origem originária que propiciou chegarmos a esse ponto. Agregam-se a esta o descompromisso com os estudos, a alienação, o compartilhamento entre partícipes da mesma incultura e, tantas vezes, a mortífera droga. O Estado oculta-se. Sob outra égide, o exemplo vivo dos “astros” dessa modalidade pseudomusical teriam, assim como outros de áreas esportivas o fazem, influenciado a legião de jovens, a encontrar na tatuagem uma possibilidade de identidade, uma fuga do anonimato.

Escrevi ultimamente que pequenas salas ainda abrigam recitais de música erudita, contrastando com teatros maiores, que seguem a rotina das Sociedades de Concerto. Essas salas de resistência bem menores corroboram o pulsar cultural. São várias as causas do declínio da música erudita entre os jovens: familiar, social, proliferação da internet que, à mercê das corporações interessadas financeiramente nesse vasto universo juvenil, estão a destruir raízes que se mostravam firmes. Jovens e adultos minimamente frequentam salas de concerto e o público reduzido – comparado ao que vai a espetáculos pop – atesta o desalento.

Casal amigo que encontro por vezes nos supermercados apresentou-me o filho com pouco mais de 15 anos. Conversamos e perguntei-lhe a certa altura se gostava de leitura. Em dado momento, mencionei o livro “Cuore”, de Edmondo de Amicis, lido por muitas gerações. Mostrou-se discretamente interessado e prometi entregar-lhe meu exemplar no dia seguinte. Compareceu na hora marcada no mesmo estabelecimento. Ao entregar-lhe, imediatamente disse que não leria um livro tão velho, pois minha edição é antiga e as folhas estão bem amareladas. Desejei-lhe boa sorte em seus estudos e vi nessa atitude um sinal desse distanciamento irreversível da juventude atual com o antigo. Sessenta e cinco anos antes, ao receber um livro antigo interessava-me inicialmente o conteúdo e as velhas folhas, via-as até com simpatia.

O prezado leitor a essa altura julgar-me-ia cético, pessimista, inconformado. Diria a todos, apenas um observador, nada mais. Contudo, a corroborar esse possível posicionamento, mencionaria uma amiga que recentemente leu a Aula Magna que proferi na Universidade de São Paulo após me tornar Professor Titular, “A cultura musical erudita na universidade: refúgio, resistência, expectativas” (Anfiteatro de Convenções e Congressos da USP, 4 de Março de 1993). Disse-me ela: “Você tinha mais esperanças”. Talvez tenha razão.

A brief assessment of some aspects of the cultural industry impact on society: alienation, exaggerated consumerism, non-commitment to learning, despise for art forms that belong to tradition, here included the shrinking relevancy of classical music among the new generations. My pessimism about today’s society has only gotten worse with time and I have no hope the situation will turn around.