Uma aventura que ficará na história

O maior desafio da minha carreira foi aceitar
minha filha fazer coisas piores do que eu fazia.
Amyr Klink
“documentário”

Para meu pai.
Quando eu era pequena,
você me contava histórias do seu inverno no mar gelado.
Eu tinha muitas perguntas. Essa viagem começou ali.
Tamara Klink
“Bom dia, inverno”

No dia dos pais, uma das filhas me presenteou com o relato personalíssimo de Tamara Klink, “Bom dia, Inverno” (São Paulo, Companhia das Letras, 2026), sabedora de que aprecio igualmente livros de aventura. Desde a adolescência, admiro as ousadias humanas que estimulavam a imaginação. Estou a me lembrar da leitura da “Expedição Kon-Tiki”, de Thor Heyerdahl (1914-2002), nos anos 50, a integral de Saint-Exupéry (1900-1944) durante o período em que estudei na França, e as bem posteriores sobre as incursões no Himalaia de vários autores, tanto sobre o Everest como o K2. Do aventureiro francês Sylvain Tesson (1972-), ao longo dos blogs, cerca de dez livros foram resenhados

Conheci Amyr Klink, pai da autora de “Bom dia, inverno”, em um restaurante árabe no Campo Belo, bairro da zona sul de São Paulo. Em uma segunda oportunidade entreguei-lhe um CD com composições do notável Francisco de Lacerda (1869-1934), pois Klink iria permanecer longo tempo na Antártida. As “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” focalizam a fauna terrestre e aquática. Toda a extraordinária coletânea está no Youtube divididas em três blocos. Na terceira, Lacerda focaliza vários animais que frequentam as águas e as terras, inclusive “Les Pingouins” (nº34), que vivem na Antártida. Meses após, reencontro Amyr Klink no mesmo restaurante e ele me afirmou que em momentos de absoluta solidão ouvia o referido CD, fato que me alegrou ao saber que as obras do ilustre compositor açoriano estavam a ser ouvidas em circunstâncias tão especiais.

“Bom dia, inverno”materializa um dos anseios da autora, que já havia anteriormente atravessado o Atlântico vinda do continente africano, mas almejava feito mais absoluto, que se tornou realidade após os oito meses passados no Ártico. Deslocou-se em seu pequeno veleiro, Sardinha2, até a Groenlândia e, durante longos 8 meses, permaneceu num fiorde, pois tinha como desiderato viver o pleno inverno ártico, a ausência da luz externa sem a presença do sol e no mais absoluto solilóquio, salvo a presença brevíssima de pescadores ou caçadores pela região que chegou a conhecer.

“Bom dia, inverno” distancia-se da grande maioria dos relatos de aventuras excepcionais. Dir-se-ia, uma absoluta confissão do de profundis de Tamara, mas igualmente a vivência em circunstâncias meteorológicas quase extremas, sem quaisquer barreiras, externando os mínimos pormenores do seu cotidiano, como alimentação, higiene, afazeres domésticos realizados na precariedade do seu veleiro Sardinha2, assim como incursões fora da embarcação, não apenas passeios solitários para conhecer entornos, a fauna, observar o firmamento e o fenômeno da aurora boreal. Naqueles oito meses deparou-se com as transformações das noites intermináveis à volta solar progressiva.

A necessidade imperiosa de vivenciar a solidão em seu veleiro, apesar de saber de todas as possibilidades reais e imponderáveis, atravessa a narrativa de maneira coloquial, sem pretensões outras a não ser transmitir o que sente. Em uma circunstância mais aguda quase morreu ao pisar no gelo frágil e ficar por instantes numa temperatura de 26º graus negativos. Lição aprendida. Compensa o isolamento humano com “fraterna” interação com pássaros, máxime raposas, nomeando algumas, apesar de nenhum contato físico. Inúmeras vezes seu barco recebeu a visita dessas raposas do Ártico.

Tem interesse desvelamentos de Tamara: “Quanto mais cansada, mais sonho e realidade se confundem”; “Os sonos curtos são eficazes, mas têm pequenos efeitos colaterais, como a perda da memória e de lucidez. Como desconfio da minha cabeça, sigo a lista de instruções que criei para não perder energia tomando decisões: a cada vinte minutos, verificar se há barcos ao redor e se as velas estão bem reguladas: a cada quatro horas, verificar se há algo estranho no cockpit, se tem água entrando debaixo do piso, comer, beber água, ir ao banheiro (ou ao balde azul), sempre pôr o colete e me amarrar do lado de fora, anotar todos os eventos no diário de bordo”. Um outro parágrafo tem efeito essencial para aqueles que realmente amam a solidão como Tamara: “Enquanto procurarmos o amor no outro, faremos da solidão nossa rival. Veremos apenas o que ela tem de escuro: silêncio, sombras, vazio, imensidão, segredos, medo. Tentaremos combatê-la nos cercando de gente estranha, de vozes intrometidas, de luzes que piscam. Tentaremos afogá-la com bebidas e poções, esquecê-la com distrações. Tentaremos explodi-la e explodiremos a nós mesmos. Porque somos feitos de solidão: enquanto procuramos o amor no outro, perdemos a chance de fazer da solidão nossa aliada, dando ao outro a chave do nosso prazer”. Não poucas vezes, e é necessário frisar, Tamara se sente imensamente feliz durante a longa solidão Ártica.

Na narrativa de Tamara a família não se ausenta. A avó é permanente interlocutora, mãe e pai são citados, e as citações a este são frequentes: “Criança, sonhei ser muitas coisas. Quando pedi para meu pai me ajudar a aprender a navegar como ele, ele responder que sua ajuda seria não me ajudar”. Sabedor de todas as adversidades possíveis nessas navegações solitárias, um pai responsável só poderia dar essa resposta precisa. Em outro segmento: “… se um dia eu for mãe, provavelmente não poderei fazer o que meu pai fez sendo pai. O pai que corre riscos recebe prêmios. A mãe que corre riscos recebe críticas”.

“Bom dia, inverno” é um diário pleno de alternativas centradas sempre num arguto senso de observação de Tamara. Majoritariamente, revela suas sensações frente à solidão e se, por vezes, tem contato com pescadores, caçadores e, quando ancorada em porto frequentado por outros barcos e veleiros, com personagens diversificados, esses encontros são fortuitos e desaparecem do relato.

Um feito absolutamente excepcional realizado por uma jovem aos 26-27 anos, nessa passagem para a idade madura, numa região inóspita sob tantos aspectos, mas com a certeza de que era um objetivo a ser alcançado.

Presentemente, Tamara empreende uma outra viagem admirável, a travessia solitária e plena de riscos, no seu Sardinha2, pela ligação dos Oceanos Pacífico e Atlântico, tendo já cruzado o icônico Mar de Bering. Nossos pensamentos positivos para a brava aventureira.

A recepção ao livro tem sido imensa e plena de merecimento.

The book “Good Morning, Winter”, by Tamara Klink, is a fascinating read that recounts the adventure of a young sailor who spent eight long months anchored in a fjord in Greenland aboard her sailboat “Sardinha2,” bravely weathering