Testemunho precioso do músico franco-suíço
Na estrada por que vou
Não fujo do meu norte.
Edmundo Bettencourt (1899-1973)
Leitores se interessaram pelas posições do compositor franco-suíço Arthur Honneger (1892-1955) colocadas nos posts sobre o Grupo dos Seis em França. Nem todos os músicos revelam as suas opiniões sobre música e outras artes em suas missivas ou em textos diversos. Importa considerar que Honneger teve por vezes colocações distintas de seus pares. Três leitores perguntaram se haveria tradução do livro “Je suis compositeur” para o portuguêss. Infelizmente não.
O mesmo título afirmativo foi aplicado à série de depoimentos de figuras ilustres e proposto pelo organista, escritor e crítico musical francês Bernard Gavoty (1908-1981), também conhecido pelo pseudônimo Clarendon, para a “Collection “Mon Métier”. Assim surgiram depoimentos vários: “Je suis Couturier”, Christian Dior, “Je suis homme de théatre”, Jean-Louis Barrault, “Je suis peintre”, Van Dongen, “Je suis chef d’orchestre”, Charles Munch. Gavoty conferiu aos depoentes, através de suas sábias perguntas, a liberdade plena para que a narração de suas vidas fosse a mais autêntica possível e que o leque aberto plenamente estimulasse posicionamentos das relevantes figuras sobre os mais diversos temas: biografia, atividade profissional, reflexão, método e preferências. No caso de Honneger, todos os questionamentos de Gavoty, até os mais instigantes, foram respondidos sem barreiras, resultando num riquíssimo documento não apenas pessoal, mas amplo em seu conteúdo.
Em “Je suis compositeur” (Paris, Éditions du Conquistador”, 1951), Honneger se mostra, quase trinta anos após a dissolução do Grupo dos Seis, convicto em suas considerações sobre música, não hesitando em divergir do status quo da sua época, mostrando-se cético, pessimista, mordaz e profético, pois muitas de suas afirmações se encaixariam perfeitamente na atualidade, setenta e cinco anos após. Às argutas perguntas e provocações formuladas por Gavoty, Honneger não hesita por vezes em desagradar o establishment. Essas posturas evidenciam o pensador, pois “coloca o dedo na ferida”, como se diz no jargão, certamente a causar controvérsias diante de posições que o tempo só transformaria em realidades. Faz a crítica ao público que sempre quer ouvir as repetidas obras consagradas, sinfônicas e aquelas destinadas à ópera. Tem humor uma observação sobre o gênero operístico: “O público é composto de idosos; ele não quer ouvir outra coisa senão as criações de sucesso. Vai ouvir a ópera Manon de Massenet para reencontrar as emoções da juventude”. A crítica de Honneger se estende ao repertório pianístico: “O tema é ainda mais sensível. Em 1949, a fim da celebração do centenário de Chopin, houve uma centena de Festivais Chopin. Sempre a competição esportiva, ‘os campeões internacionais’, os ‘challengers’. Recebi uma carta de um amador de música que lamentava o fato de que na mesma temporada pianistas tocaram quinze vezes a Sonata da marcha fúnebre de Chopin e aproximadamente na mesma proporção as Sonatas Appassionata e a Aurora, de Beethoven assim como os Estudos Sinfônicos, de Schumann”.
Clique para ouvir, de Arthur Honneger, Pastorale d’Été, com a Orquestra Boston Civic, sob a regência de Max Hobart:
https://www.youtube.com/watch?v=SAl6ZnIDwKE
Cético e profético, algumas de suas posições estabelecem quadro sombrio: “Acredito sinceramente que, dentro de pouco tempo, a arte musical tal como a conhecemos não existirá mais. Ela desaparecerá, assim como as outras artes, aliás, mas sem dúvida ainda mais rapidamente. Já vemos o que está acontecendo hoje: admitamos o óbvio. Não se ouve mais ‘a música’; vai-se assistir à apresentação de um ilustre maestro ou de um pianista famoso. Isso pertence mais ao âmbito do esporte do que ao da arte, como bem sabemos”. Essa realidade pode ser constatada através também da publicidade quase sempre movida por interesses precisos. Regentes ou solistas de renome são fartamente anunciados pela mídia. Instrumentistas realmente notáveis, mas pouco divulgados, dificilmente têm a assisti-los um grande público, fazendo jus à posição de Honneger, pois na sua opinião, a obra a ser apresentada estaria em segundo plano. Durante cerca de vinte anos fui à Bélgica regularmente para gravações dos meus CDs pelo selo De Rode Pomp. Tive a oportunidade de ouvir grandes intérpretes belgas, holandeses e russos que jamais foram ventilados entre nós e nos Estados Unidos, de acordo com os seus currículos inseridos nos programas.
Num outro contexto das artes, Honneger afirma: “Sem invadir o domínio das demais ‘Belas Artes’, podemos, por exemplo, considerar a pintura e constatar a que tipo de feiura ela está condenada se quiser chamar a atenção”. Estou a me lembrar da posição de Mario Vargas Llosa (1936-2025) em “La civilización del espectáculo”, a afirmar que não mais visitava bienais de artes plásticas, mercê de extravagâncias da pintura contemporânea. Honneger considera que “o público que pode avaliar um livro, uma pintura ou uma escultura só consegue fazer isso com uma obra musical depois de ouvi-la. Antes da audição, mesmo a maior obra-prima não passa de um caderno coberto de símbolos indecifráveis para a maioria dos amadores. Essa é a maldição que pesa sobre nossa arte”.
A respeito da música contemporânea do seu tempo, entende a sua pouca divulgação: “para o público, a arte musical se resume à execução das obras clássicas ou românticas. O compositor contemporâneo se torna uma espécie de intruso que deseja se impor à mesa onde ele não foi convidado. Com certeza, a primeira qualidade de um compositor, é ele estar morto. Há, na realidade, quantidade de concertos, de manifestações musicais, envolvendo um público muito mais numeroso em 1951 do que em 1900; mas, eu repito, toca-se na realidade bem menos música nova hoje que outrora. Ainda uma vez, nove décimos dessas manifestações têm um carácter esportivo”, referindo-se aos exageros durante a execução do repertório sacralizado pelos intérpretes. A posição realista de Honneger é ademais crítica no que concerne ao repertório tradicional a não abranger a opera omnia de um compositor, selecionando determinadas criações e “descartando” outras. Responde a uma pergunta de Gavoty: “Você reconheceu que, entre as sinfonias de Beethoven, já se começou há tempos selecioná-la. Se tal escolha ocorre na obra do compositor mais executado do mundo, como você acha que a situação vai melhorar para outros compositores do passado e, sobretudo, para os jovens que ainda não são conhecidos?”
Um grave problema da contemporaneidade é a multiplicidade de tendências, acentuadamente ampliada nessas últimas décadas. Hodiernamente cada compositor tem sua escrita baseada em seus modelos individuais. Muitos deles inclusive negligenciam o legado sedimentado há séculos. Em blog postado há mais de uma década, mencionei o jovem compositor inglês que, sabedor do meu projeto de Estudos Contemporâneos para piano, dedicou-me um Estudo, oferecendo-me em Londres onde eu participava de colóquio sobre a obra de Claude Debussy. Examinando a partitura, longe do piano, observei complexidade plena do Estudo que, em acréscimo, se afigurava como “intocável”. Perguntei-lhe se alguma vez estudara uma fuga de J.S.Bach. A sua resposta negativa foi imediata: “trata-se de uma forma ultrapassada” sic.
No próximo blog comentarei as posições de Arthur Honneger sobre a sua maneira de compor, seu julgamento pessoal e o convívio em certas criações com textos escolhidos e adaptados que lhe serviriam para a composição de outros gêneros musicais.
In “Je suis compositeur,” composer Arthur Honegger takes firm stances on musical composition, public reception, cultural decline, and other topics.
