A partir de substancial diálogo
Enquanto Rameau, entre os maiores, não ocupar todo o espaço a que tem direito,
a História da Música do século XVIII e através dos tempos não terá a sua total orientação.
Georges Migot (1891-1976)
O ilustre pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), após se “aposentar” da atividade frente ao público aos 89 anos, manteve em seu repertório algumas obras que lhe foram caras durante a existência. Mutatis mutandis, sem quaisquer intuitos comparativos, após encerrar minhas atividades pianísticas públicas em 2023, diariamente me dedico umas poucas horas aos estudos de piano, relendo criações que me impactaram e apresentando-as periodicamente em petit comité com propósitos precisos: preservar a vocação iniciada aos 9 anos de idade, ter contato com amigos ouvintes possuidores da apreciação crítica e, finalmente, manter-me em atividade aos 88 anos, verdadeira dádiva. Minha mulher Regina realiza o mesmo caminho. Há um compositor que diariamente revisito, interpretando uma ou duas peças ao piano: Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Há anos, um belo dia caminhava com meu caro amigo, pensador e compositor meritoso, Willy Corrêa de Oliveira (1938-). Repentinamente, ele para e me pergunta à “queima roupa” qual era meu compositor preferido e instantaneamente, sem pensar, respondo: Rameau. Retribuí a pergunta e a resposta de Willy foi também precisa, Chopin. Logicamente outras figuras essenciais da composição fazem parte das minhas preferências. A admiração pela obra de Rameau vem da juventude, quando aos 16 anos, após ouvir a integral para cravo interpretada ao piano (2 LPs) pela excelsa pianista francesa Marcelle Meyer (1887-1958), fiquei fascinado pelas obras, que desconhecia por completo. Meu Pai, ao sentir o meu entusiasmo, presenteou-me com o álbum.
De uma conversa fundamental entre duas figuras marcantes em França, o musicólogo Roland-Manuel (1891-1966) e a pianista franco-russa Nadia Tagrine (1917-2003), parte de um dos programas da série radiofônica e literária Plaisir de la Musique, na qual as duas relevantes personalidades dialogavam a respeito de aspectos fulcrais da música e das criações concebidas por luminares da composição, extraí as considerações sobre Jean-Philippe Rameau. Bem anteriormente, escrevera dois posts sobre temas contidos em Plaisir de la Musique (25/08/2018 e 1/9/2018), abordando figuras fulcrais da história da música. Sobre Rameau foram vários blogs ao longo de mais de 19 anos de posts publicados sem interrupção.
Roland-Manuel insere no diálogo alguns dados pouco ventilados pelos biógrafos e que evidenciam traços da personalidade de Rameau:
“Áspero, tanto no estado de espírito como fisicamente, fechado, triste, solitário. Dizia-se que o vazio que ele encontrava na sociedade o levava a afastar-se dela. Quanto à sua arte e aos interesses dela estava, pelo contrário, preocupado em não negligenciar nada, segundo as suas próprias palavras; a avareza era o reverso dessa moeda dura. Incapaz de fazer concessões e particularmente inexorável em matéria de música, pois esta estivera presente em toda a sua vida. O escritor Louis Petit Bachaumont (1690-1771) conta que, à beira da morte, quando o pároco de Saint-Eustache foi dar-lhe a extrema-unção, Rameau encontrou forças para interrompê-lo, dizendo-lhe: «Mas que raio vem cá cantar-me isso, Senhor Pároco? A sua voz está desafinada…».
Rolland-Manuel enfatiza conceito que se tornaria uma constante nas avaliações feitas a posteriori sobre Rameau. A sua grandeza não apenas se fixou nas composições, exemplificada pelas suas magníficas óperas, que têm sido progressivamente apresentadas, como na profundidade dos seus tratados teóricos. Comenta: “«Não é tanto fruto do acaso, mas sim da Providência, que o maior teórico da música e o maior compositor francês do século XVIII se encontrem reunidos na mesma pessoa: a ciência e a experiência, a razão e a intuição apoiam-se e esclarecem-se mutuamente em Jean-Philippe Rameau».
Através das décadas mais se consolidou a minha admiração pela obra de Rameau. Em suas inúmeras óperas, Rameau revela todo o seu domínio escritural, assim como o domínio dos endereçamentos no que concerne à ópera-balé ou à tragédia lírica. Roland-Manuel observa: “O que há de admirável em Rameau é que ele efetivamente não apenas estabelece a razão demonstrativa e a sensibilidade mais profunda, como também a sabedoria a mais rigorosa, sem deixar de ser o poeta mais afinado às solicitações do sonho”.
Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Tendre Amour, da ópera-balé Les Indes Galantes, na interpretação do conjunto Les Arts Florissants sob a regência de William Christie:
https://www.youtube.com/watch?v=MvRMfR2c1hY
Em contraste ao Tendre Amour, clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, a Abertura da Tragédia Lírica Zoroastre, na interpretação do conjunto Le Concert des Nations sob a regência de Jordi Savall:
https://www.youtube.com/watch?v=9br3o8MfUvI&t=23s
Quanto à obra para cravo interpretada ao piano, a criação de Rameau quantitativamente é menor às de François Couperin J.S.Bach e Domenico Scarlatti. Todavia, tem-se o multum in mínimo e a excelência de suas composições comprova a assertiva.
Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Les Cyclopes, na interpretação de J.E.M.:
https://www.youtube.com/watch?v=c7lyY0pBRkU&t=4s
A fruitful dialogue between the French-Russian pianist Nadia Tagrine and the musicologist Roland-Manuel about Jean-Philippe Rameau is of interest because, although it took place in the mid-20th century, it remains highly relevant today.

