A Academia Brasileira de Música como guardiã definitiva
O que impede de saber não são nem o tempo nem a inteligência,
mas somente a falta de curiosidade.
Agostinho da Silva (1906-1994)
Até 1978, meu conhecimento da obra de Henrique Oswald (1852-1931) era precário. A célebre “Il Neige”, duas peças do op. 14 (“Tarantela” e “Barcarola”), assim como a singela biografia do compositor escrita pela sua ex-aluna Leozinha F. de Magalhães de Almeida, “Henrique Oswald”, que recebi da autora após recital que apresentei em Teresópolis (8/2/1954). “Il Neige” obteria o primeiro prêmio num concurso organizado pelo jornal parisiense “Le Figaro” (1902), no qual foram inscritas 647 músicas vindas do mundo inteiro, tendo como jurados figuras luminares da França: os compositores Camille Saint-Saëns (1835-1921), Gabriel Fauré (1845-1924) e o pianista e professor Louis Dièmer (1843-1919).
Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige”, na interpretação de J.E.M.:
https://www.youtube.com/watch?v=n0RxYeQbBbo&t=6s
Foi naquele ano que, ao aceitar o convite do Sesi para um recital de composições exclusivamente nacionais, decidi consagrar a récita a um único autor. Preteri, assim, o repertório que já possuía de ilustres mestres brasileiros, no qual se destacavam Villa-Lobos (1887-1959) e Camargo Guarnieri (1907-1993). Fui ao centro da cidade e visitei a tradicional Casa Amadeus. Em uma das gavetas com a etiqueta Henrique Oswald havia inúmeras peças do compositor, algumas publicadas na Itália no final do século XIX e outras mais editadas no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Folheei diversas e apreendi o esmero daquelas excelsas obras. Adquiri uma boa quantidade de partituras e, para minha grata surpresa, fiquei encantado com as criações oswaldianas. Aos 17/10/1978, apresentei, no Teatro Sesi, o recital unicamente dedicado a Henrique Oswald. Repeti, a seguir, o programa em várias cidades paulistas.
Quis ampliar o conhecimento da obra de Oswald. Meu saudoso amigo e notável musicólogo, Régis Duprat (1930-2021), aconselhou-me a entrar em contato com Mozart de Araújo (1904-1988), igualmente musicólogo relevante. Este, via telefone, foi claro, a dizer que eu deveria contatar a neta do compositor, Maria Isabel Oswald Monteiro, detentora de um acervo documental valioso de seu ilustre avô. Filha de Carlos Oswald (1882-1971), pioneiro da gravura em metal no Brasil e autor dos desenhos preliminares do Cristo Redentor do Rio de Janeiro, Maria Isabel me recebeu carinhosamente (vide blog: Maria Isabel Oswald Monteiro – 1919-2012 – de 11/08/2012). Daquele primeiro encontro, ficou marcada uma lembrança inesquecível: ao entrar em sua residência e ver o piano aberto, toquei “Il Neige” no próprio instrumento que pertencera ao compositor. Era o início de uma amizade que eu já sabia eterna.
Durante anos, uma vez por mês frequentei o apartamento do casal Maria Isabel e do ilustre médico Mário Monteiro, que gentilmente me hospedavam. Diários do compositor, escritos em italiano, pois vivera em Firenze cerca de trinta anos, lá se casando e tendo quatro filhos, foram traduzidos oralmente por Maria Isabel, mercê da caligrafia complexa do seu avô, com a qual estava familiarizada. Quando de partituras manuscritas e assinadas pelo compositor, eu lia ao piano essas peças e a admiração apenas se acentuava. A generosidade da amiga era imensa. Presenteou-me, ao longo do tempo, com algumas preciosas partituras manuscritas e assinadas, algumas inéditas, que com o passar dos anos gravei no Brasil e, especialmente, na Bélgica. Uma em particular tem relevância ímpar: o Concerto para piano e quinteto de cordas, redução da orquestra realizada pelo compositor, cujo manuscrito igualmente único (119 páginas) é assinado pelo autor. Pertenceu à pianista Honorina Silva (1915-?), discípula de Oswald e sua intérprete. No final da vida cedeu a partitura à Maria Isabel. Tardiamente gravei esse Concerto na Bélgica com o excelente quarteto Rubio e mais um contrabaixo.
Clique para ouvir, de Henrique Oswald, Scherzo-Étude ( Florence 23 Janvier, 1902), dedicado à notável pianista Antonieta Rudge (São Paulo, Edição Novas Metas, início dos anos 1980), na interpretação de J.E.M. Doação do manuscrito à ABM.
https://www.youtube.com/watch?v=uV9YmNKH7CU
Dez anos após, em 1988, defendi minha tese de doutorado junto ao Departamento de História da FFLCH-USP. Era uma tese pioneira sobre Henrique Oswald. Hoje, temos cerca de dez teses defendidas em várias universidades, sendo que três no exterior. Para o concurso de professor titular na USP em 1992, escolhi como tema Henrique Oswald. Três anos após era publicado o meu livro “Henrique Oswald – Músico de uma saga romântica” (São Paulo, Edusp, 1995). Em 2001 a Edusp publicava a minha edição do Quarteto em sol Maior, op. 26, para piano, violino, viola e violoncelo.
Sempre entendi as ofertas de Maria Isabel Oswald Monteiro como se, doravante, eu fosse o guardião do precioso material. Aos 88 anos, após pesquisas que se prolongaram por quase cinco décadas, doei-as ao lugar em que elas merecem estar, a Academia Brasileira de Música no Rio de Janeiro, da qual tenho a honra de ser membro honorário. Berço e morada definitiva de Henrique Oswald, o precioso material teve enfim o destino certo. No dia 11 de Novembro proferirei uma palestra e interpretarei algumas das composições doadas à ABM em sua sede no Rio de Janeiro.
Clique para ouvir, de Henrique Oswald, Polonaise (Florence, 5 Février, 1901) na interpretação de J.E.M. Doação do manuscrito à ABM.
https://www.youtube.com/watch?v=fY8suJqIHW0&t=5s
Sob sugestão de um dileto amigo, insiro no presente blog todas as obras de Henrique Oswald que tive a felicidade imensa de gravar ao longo das décadas.
1979 – LP: Il Neige; Valsa op. 25 nº 1; Noturno op. 14 nº 5; Berceuse (inédita 1886); Scherzo-Étude (inédito, 1902). Selo Studium, São Paulo.
1983 – Dois LPs: Integral para violoncelo e piano: Sonata em ré menor op. 21; Berceuse; Élegie; Sonata-Fantasia op, 44 (violoncelo Antônio del Claro, piano J.E.M). Obras para piano: Valsa lenta; Fogli d’album (oito peças); En Nacelle; Variações sobre um tema de Barroso Netto; Estudo para a mão esquerda; Estudo póstumo. Selo Funarte.
1984 – LP: Quinteto em dó maior op. 18. Elias Slon (1º violino), Jorge Salim (2º violino), Michel Verebes (Viola), Kim Cook (violoncelo) e J.E.M. (piano). Selo Basf.
1988 – LP: Trio para violino, violoncelo e piano em sol menor opus 9; Sonata para violino e piano em Mi Maior, opus 36. Elisa Fukuda (violino), Antônio del Claro (violoncelo), J.E.M. Selo Funarte.
1995 – CD: Integral para violino e piano: Berceuse; Romance op. 7 nº 2; Molto adagio; Romance; Canto Elegíaco; Berceuse op. 40 nº 2; Sonata op. 36. Il Neige (piano solo). Paul Klink (violino), piano J.E.M. Selo PKP, Bélgica.
2002 – CD: Quarteto em sol Maior op. 26 para piano, violino, viola e violoncelo; Sonata Fantasia em mi bemol Maior op.44 para piano e violoncelo; Concerto para piano e orquestra op. 10; em redução para piano e quinteto de cordas realizada pelo autor. Violinos: Dirk Van de Velde e Dirk Van den Hauwe, viola: Mark Sonnaert, violoncelo Peter Devos, contrabaixo: Pascal Smets. Gravado na Bélgica e lançamento da USP-Guia Concerto.
2010 – CD: “O piano intimista de Henrique Oswald”. Machiette op. 2 (12 peças); Variações sobre um tema de Barrozo Netto; Tre Piccoli Pezzi; Berceuse; Étude Scherzo; Étude pour la main gauche; Six morceaux op.6; Polonaise op. 34. Gravado na Bélgica. Selo ABM.
2015 – CD: “O romantismo de Henrique Oswald”. Sonata em Mi Maior op. 36 para violino e piano (reedição da gravação de 1995). Piano solo: Romance op. 7 nº 2; Nocturne; Bluettes (dix morceaux); Valses op 25 nºs 1 e 2; En Rêve; Nocturnes op. 6 nºs 1 e 2; Étude II e Valse-Caprice op. 11 nº1. Gravado na Bélgica. Selo Sesc.
Henrique Oswald, após “encontrá-lo” naquela gaveta da Casa Amadeus, tornou-se doravante um dos meus compositores eleitos. Se, após os anos 1980, incorporei uma série de relevantes criações de compositores contemporâneos brasileiros, entre eles Gilberto Mendes (1922-2016), Mário Ficarelli (1935-2014), Ricardo Taccuchian (1939-), Almeida Prado (1943-2010), Paulo Costa Lima (1954-) e outros relevantes músicos, manter as criações oswaldianas no meu repertório tornou-se um dos prazeres que a interpretação pianística proporciona.
Clique para ouvir de Henrique Oswald, Tre Piccoli Pezzi (1885), na interpretação de J.E.M. Doação do manuscrito à ABM.
Henrique Oswald – Tre Piccoli Pezzi – José Eduardo Martins – piano
I donated to the Brazilian Academy of Music (ABM) handwritten and signed sheet music by our greatest Romantic composer, Henrique Oswald, which had been given to me over the years during my research by the composer’s granddaughter, Maria Isabel Oswald Monteiro. On November 11, I will give a lecture on the composer at the ABM and perform some of the previously unpublished works included in the donation.

