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A partir do “trailer” de “O Labirinto da Saudade”

Em todo o caso, que se sinta só;
mas não vá supor que é muito grande;
da sua grandeza, se a tiver real,
fará parte o supor que os outros são pequenos.
Agostinho da Silva
(“Entrevistas”)

Recebi de dileto amigo português, o arquiteto António Menéres, “trailer” do filme de Manuel Gonçalves Mendes, “O Labirinto da Saudade”, a partir do livro homônimo do notável filósofo, ensaísta e professor Eduardo Lourenço (1923- ). Denominado “O Bar da Eternidade”, essa pequena e substanciosa cena de quatro minutos revela temas fulcrais da existência. Há um diálogo de extrema relevância entre Eduardo Lourenço e uma figura igualmente ilustre da cultura em Portugal, o arquiteto Álvaro Siza Vieira (1933- ).

Inicialmente Siza Vieira questiona: “O que ficará de nós, homens e mulheres, se é que alguma coisa fica, quando partirmos em férias?” a receber do filósofo: “Quem dera que a resposta à sua pergunta fosse essa tão lírica e tão futurante como o partir em férias. A nossa própria morte é-nos tão hostil que nós nem em sonhos morremos. A morte verdadeira é a do outro. A do outro que existiu para nós. Que foi tudo para nós, que foi o absoluto para nós. E essa que é a morte real. As outras mortes são ilusórias, mesmo a nossa, sobretudo a nossa”.

Segue-se um diálogo enriquecedor em torno da vida e da morte, das incertezas a envolver a complexa dialética em torno da passagem inexorável, mormente se considerada for a etariedade dos insignes envolvidos.

Siza Vieira observa nada sabermos sobre nascimento, vida e morte, mas sim sobre continuidade através das gerações que se sucedem, “continuidade da vida, e quando um de nós morre há filhos, netos, música para músicos, artes, escrita, literatura… Não desaparecemos completamente. O mundo continua. A História, no fundo, tem esse papel de sugerir ou de fazer real uma continuidade, agora a morte não”. A colocação de Siza provoca resposta essencial de Eduardo Lourenço: “O problema é que, consciente ou inconscientemente, escrevemos como se fôssemos eternos. Sem essa ilusão de eternidade como coisa nossa, nós não escreveríamos nada de realmente grandioso. O que os homens querem é que aquilo se transfigure numa espécie de estátua, que se pode tocar, viver e permanecer através dos séculos”. Após louvar Siza Vieira, dele recebe o testemunho: “Eu faço os meus projetos com a ideia de que… essa ideia de que é para ficar. Mas pensando friamente, não é bem assim. Também a construção, muitas vezes, não é durável. É vulnerável…”. Eduardo Lourenço de imediato afirma: “Hiroshima existia e foi destruída em nove segundos. É como se fossem feridas que a Humanidade faz a si mesma, não é? E essas sem reparação. Porque foram destruídas e não podem ser reconstruídas de nenhuma maneira. Aquilo que de mais belo há na humanidade é que nós somos submersos às mesmas forças que regem realmente o mundo. Porque é que nós escaparíamos, quando tudo o que foi criado está condenado a desaparecer?”, conceitos concluídos por Siza Vieira: “E se assim não fosse talvez se tornasse insuportável”.

Consideremos as observações sobre o legado, esperançosas inicialmente por parte de Siza Vieira, mas com a ressalva “… não é bem assim”. Por sua vez, Eduardo Lourenço, mais cético nesse item, diz “… tudo o que foi criado está condenado a desaparecer”.

O legado de obra física sempre foi mais vulnerável ao desaparecimento através dos séculos. São incontáveis os monumentos, obras de arte, pinturas, bibliotecas que sucumbiram ao tempo por causas naturais, intencionais ou imprevistas. Alguns exemplos são implacáveis: Biblioteca de Alexandria, no período helenístico, teria sido destruída pelo fogo; Biblioteca Real de Lisboa arrasada durante o terremoto de 1755, assim como inúmeros monumentos históricos da cidade; Catedral Notre-Dame de Reims semidestruída pelos bombardeios alemães na guerra 1914-1918; pinturas de Manabu Mabe, que seriam expostas em grande retrospectiva no Japão, perderam-e em acidente aéreo em 1978; O Templo de Baalshamin, edificado no início do primeiro milênio, explodido pelos integrantes do então denominado EI em 2015; Museu Nacional do Rio de Janeiro e seu extraordinário acervo consumido pelo fogo em 2018, assim como parte considerável da Catedral de Notre-Dame de Paris bem recentemente. O tempo inexorável corroeu tantas obras arquitetônicas na Grécia e na Roma Antigas, assim como na Península Ibérica e em muitos outros pontos geográficos. Considere-se ainda a ação de descaso de tantas autoridades espalhadas pelo mundo, que pouco fazem para a conservação de obras de arte expostas às intempéries.

Esses poucos, mas significativos exemplos, ratificam o posicionamento de Eduardo Lourenço. Contudo, exceções ou exceção há nesse legado. Pensando-se na literatura e na música, verifica-se que a herança não se atém à obra de arte material inerte que habita galerias e museus e é vista por legiões de frequentadores. Walter Benjamin, no ensaio publicado em 1936, “A obra de arte na era da sua reprodutividade técnica”, já argumentava que a reprodução em tantos formatos de uma obra de arte causou a perda da “aura”, depreendendo dessa constatação, a autenticidade. O hic et nunc desapareceria para sempre. Considere-se que a obra de arte material, única e autêntica, nessa categoria incluindo-se a pintura, a escultura e a arquitetura, tem sofrido constantemente o lento e inexorável desaparecimento.

Quanto à literatura, ela independe da presença física dos manuscritos, pois obviamente subsiste sem contestação através da reprodução. Os museus, arquivos e bibliotecas dão a guarida necessária aos textos originais, majoritariamente distantes do público leigo e consultados por especialistas quando se faz necessário. Portanto, perdurarão em edições divulgadas em versões para tantas línguas. O teatro, que traduz em cena o que reza segmento literário, vive do intérprete, ou seja, do ator. Este é geograficamente regionalizado, pois sua atuação é realizada frente àqueles que compartilham o mesmo idioma. Sua internacionalização é basicamente exígua, sendo que o texto teatral não o é, pois vertido para outros idiomas encontrará atores de outros países para divulgá-lo e o legado estaria garantido.

Seria a música a única área em que o legado estaria salvaguardado geograficamente em sua abrangência territorial plena. Os sons são compreendidos em todos os rincões e o amálgama compositor-intérprete não tem fronteiras. Todos os povos compreendem a unicidade da Música.

Partituras, assim como textos literários, podem subsistir sob a proteção de entidades que os abrigam. Se essas desaparecerem por múltiplas razões, a reprodução ad infinitum garante parte essencial de acervos, perenidade pois. Para a interpretação o legado teria tempo finito, pois mesmo a saber que processos tecnológicos estariam sempre in progress, haverá um momento, acredita-se, que distorções sonoras quanto às centenárias gravações ocorrerão, como já acontece com muitos registros fonográficos das primeiras décadas do século XX. Saliente-se que extraordinários avanços tecnológicos têm conseguido resultados surpreendentes quanto às antigas gravações.

Num outro patamar, a arte cinematográfica seria aquela, talvez, que mais tem sofrido a ação do tempo. Quão mais antigos os filmes de qualidade, mais ficam restritos a públicos especializados, admiradores da arte específica. Para o grande público, ávido do novo, mais acentuadamente se processa o distanciamento com o passado cinematográfico. Contudo, igualmente no caso, o legado estaria garantido mercê de processos novos, que têm conseguido êxito na restauração de originais. Sob outra égide, o filme se internacionaliza através das legendas ou das dublagens, estas sempre lamentáveis.

Nada sabemos sobre a duração do planeta. Incógnita. A destruição sistemática das reservas naturais, os conflitos os mais generalizados movidos por motivos de várias ordens: religioso, ideológico, racismo; guerras intestinas e terrorismo; descaso; a decadência dos costumes, tudo não estaria tornando a terra uma gigantesca panela de pressão com mínimo escape? Para os mais pessimistas, toda discussão em torno do legado esbarraria nessa desesperança. Todavia, a presença constante da morte, mors certa hora incerta, assim como a necessidade de se pensar em legados, ainda movem a humanidade, apesar da sábia advertência de Eduardo Lourenço: “Porque é que nós escaparíamos quando tudo o que foi criado está condenado a desaparecer?”.

This post discusses views about life, death and human legacy to History. It was inspired by a conversation between philosopher Eduardo Lourenço and architect Álvaro Siza Vieira, two of the most influential Portuguese intellectuals of the 20th and early 21st centuries.


Dois momentos de Willy Corrêa de Oliveira

Pés acostumados a andar
Não podem parar.
Adágio Popular Açoriano
(Ilha do Pico)

Em blogs recentes sobre o livro “Passagens”, de Willy Corrêa de Oliveira, observei que décadas compartilhando o mesmo Departamento da USP não foram suficientes para uma aproximação efetiva. Sim, tivemos um relacionamento de colegas, mormente em torno de uma gravação que realizei em 1989 no Rio de Janeiro para LP integralmente dedicado ao compositor. Acompanhou-me durante os registros fonográficos, mas a gravação não vingou, mercê da desvairada atitude do Presidente Collor de Mello, que desativaria parte da estrutura da FUNARTE.

O reencontro recente, mais do que uma simples “passagem”, estreitou vínculos que desconhecíamos. Temos nos encontrado com frequência e temas retesados durante decênios emergem. Gravações históricas, literatura, arte… Não poderia imaginar que esse estreitamento fosse possível e tem sido singularmente benéfico para ambos. Nessa decadência progressiva da cultura erudita como um todo e da musical em particular, esses longos encontros têm sido extremamente prazerosos.

Transmitirei ao leitor dois curtos textos de Willy: o primeiro, uma  pitoresca narrativa da visita com sua esposa Marta à ponte levadiça de Langlois, em Arles, França, que mereceu cerca de dez obras pintadas por Van Gogh em 1888. O texto dedicado a Marta data de 2018:

“O trem para Arles teria um pequeno retardo, por problemas técnicos, dizia o alto-falante da estação. Aguardamos, com o tempo nublado, a espera ardente. Em Arles, já descemos com o céu azul estático da Provença inspirando uma caminhada de alguns quilômetros até à Pont de L’Anglois, com vento ao rosto, ao longo da margem do canal, margeado, do lado direito, por carroças e trailers de ciganos, a Marta aflita: o ermo nos envolvia, e a passos largos, vencendo o trajeto, sem viva alma outra, nem ciganos à vista, só o vento mais tenso, um pesadelo a que, a custo, ela sobrevivia, célere; enfim, próximos à ponte, divisamos turistas cobrindo-se o rosto com suas máquinas fotográficas, e ela acalmou-se como se emersa de um mau sonho, o contentamento pela aura suave, a ponte bem a passos adiante. Chegamos a um atril, gentes em torno, exibia uma cópia do quadro do Rijiksmuseum (de Otterlo), ali onde – exatamente – ele se encontrava, Van Gogh, quando a eternizou.

Solavanco na alma me estremeceu – a ponto de quase cair. O coração espoucando febril eu ia e vinha ao atril e via a ponte, sua ossaria no ar – o azul por trás – azul. Lance de pura exaltação, impetuoso delírio, precipitações. E voltava até à ponte e tornava ao atril e completava o quadro – visionária vertigem – auspiciando as lavadeiras, o torvelinho de água. Vivi Van Gogh, a ponte mais viva em mim, ali, de que naquela manhã em que ele transpirara.

Por insistência da Marta, retornamos a pé, pelo mesmo caminho, ela tranquila trazendo sua ponte (bem no coração) e ritardando a tarde um quanto que, ao anoitecer, pudéssemos chegar ao Grand Café du Forum com a luz mais pactuada com a do ‘Café, le soir’. A realidade como um sonho de cristal.

De volta a Aubagne, noite andada, a insônia completou o dia de Arles. Mais não escrevo aqui por inútil, não diria da vigília brava, da exaltação alucinada, extravasada, extravagada. Dias passados, encontrei num sebo o volume ‘La Provence de Van Gogh’, de Jean Paul Clebat e Pierre Richard. Mencionavam que a ponte de L’Anglois não era a que eu havia experimentado. Outra tinha sido, distante, em local – hoje desfigurado – à margem da atual Grand Avenue, cerca de dois quilômetros da versão mentida pela indústria de turismo.

Nunca mais volto lá.

Envoi: Walter Benjamin, valha-nos!”.

Extraio do livro “Voragem” (São Paulo, Luzes no Asfalto, 2010) – resultado de curso de cinco palestras que Willy Corrêa de Oliveira apresentou no Departamento de História da USP – parágrafos que apreendem na essência aquilo que também penso sobre o momento cultural que vivemos. Willy, ao falar sobre a composição – no meu caso, bem similar, acrescente-se, sobre a interpretação –, revela seu estágio atual como criador e pensador, a dizer: “Escrever música, para mim, tornou-se algo semelhante a um louco que aplacasse sua loucura escrevendo cartas; como não dispõe de destinatário, não tem para quem escrever, com quem se corresponder, escreve para si mesmo. Vai ao Correio, como todo mundo que tem cartas para enviar, sela, e manda para seu próprio endereço. E aguarda. E continua a escrever outras. O fato é que meu espírito claudicava, andava com dificuldade. Mas, consciente de que buscava arte, agora, em outra clave.

Mas eu sabia que agora eu escrevia pra satisfazer… tudo isso que eu tinha vontade, sob a tensão do instante. A arte como uma muleta, a arte como uma consolação, como um meio de escapar da morte. Isso! Escrever músicas tornou-se para mim, ao mesmo tempo que um lenitivo, um diálogo de vida ou morte com a criação: com a invenção de matérias do espírito, de dar forma a uma ideia, de dar a uma estrutura sua substância apropriada. E também, o fato de não encontrar na música de meu tempo uma satisfação contundente, conclusiva, como teria acontecido se eu tivesse nascido no século XIX, e conhecido Chopin… Acho que a música que ele fez teria me bastado. De verdade. Hoje, no auge do capitalismo (e por causa disso, da inexistência de uma linguagem musical e erudita comum, falada por todo mundo), tudo o que eu ouço não responde às indagações e necessidades que reclamo e necessito da arte”.

O notável poeta e escritor português Guerra Junqueiro (1850-1923) já observava: “Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, pêras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim”. Continua: “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe, veem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for sendo a distância, mais imperceptíveis se irão tornando”.

A irreversibilidade da queda cultural, a ser sentida abertamente, como exemplos claros, nas revistas, na TV aberta e nos provedores internéticos, que apresentam sempre em maior destaque a futilidade extrema das famigeradas “celebridades”, em detrimento de temas infinitamente mais relevantes, ratifica o que há de mais desprezível no homem. A morte de um dos maiores pianistas brasileiros, Fernando Lopes (1935-2019), ocorrida aos oito de Março, não mereceu uma coluna nos portais mais divulgados. Ignorância dos articulistas, mentalidade dos mandantes, resultado de estruturas há décadas falidas. Há que se lamentar. Fernando Lopes será tema do próximo blog.

Today I publish excerpts from writings by composer Willy Correa de Oliveira. In the first, he tells us of his disappointment after finding out he had been fooled by the French tourism industry in Arles; in the second passage, extracted from his book “Voragens”, the author talks about his visceral need to compose and his frustration with the classical music language of today, unable to provide an appropriate response for his perplexities and anxieties, something he believes wouldn’t happen had he lived, for example, in Chopin’s time.

 

 

 




Quando a recepção aos textos precedentes ganha potencial relevo

É o insatisfeito, como era natural,
que junta alguma coisa à realidade;
desde que o homem se encontre bem de vida,
a força que o levava a criar,
seja qual for o domínio,
afrouxa e estaca.

Agostinho da Silva
(“Sete cartas a um jovem filósofo”)

O blog sobre a criação na juventude da idade adulta e na maturidade da idade adulta provocou inúmeras mensagens, sendo que a do compositor e pensador francês François Servenière foi de tal abrangência e dimensão que mereceria ser exposta ao leitor. Aguardei o término das festividades do Natal e do Ano Novo para publicá-la. Servenière tece comentários sobre o texto do médico e especialista Elliot Jaques, tema do blog de 15 de Dezembro, acrescentando dados que certamente despertarão atenção especial dos seguidores de meu blog semanal. O pensamento de Servenière leva sempre a um amplo campo reflexivo, passível de ser polemizado. Essa postura é um dos fatores de interesse de suas mensagens. Um privilégio para mim tê-lo tantas vezes como partner de meus blogs. Abrimos pois 2019 com tema relevante. François Servenière expõe:

“Fiquei interessado pelo artigo que encerrou a série sobre o jovem compositor português António Fragoso, morto precocemente vítima da gripe espanhola em 1918, na idade de 21 anos. Seu post abordou temas profundos e, como sempre acontece com seus textos, parte-se de um tema particular para se chegar à reflexão geral.

Primeiramente, entendo de interesse todos os comentários efetuados pelo médico canadense Elliot Jaques sobre a crise do meio da existência.

Concernente à criatividade e às idades mais favoráveis, tinha opiniões de certa forma estanques quando via todos esses gênios da música, da pintura e da literatura atingidos por alguma moléstia e abatidos pela morte antes dos quarenta anos. Estavam eles, como todos os criadores, aliás, imersos ainda jovens no efeito turbo dos hormônios do crescimento. Sabemos que a produção desses hormônios, verdadeiras anfetaminas destinadas ao crescimento e à reprodução da espécie no período em que os gametas têm mais potencial, diminui no sangue nas fronteiras dos trinta anos. Seria imaginar que os hormônios fizeram seu trabalho de transmissão do que há de melhor do DNA e que, passado esse período, o corpo humano não tivesse mais nenhuma utilidade para a continuação da espécie. Essa situação hormonal leva-me a pensar nos salmões subindo com energia delirante os rios e cachoeiras mais difíceis do Grande Norte – após um a três anos nos oceanos – até o lugar onde nasceram, a fim de desovar e, após, deixarem-se morrer no local, esgotados e não mais servindo para qualquer outra atividade, tendo pois completado o ciclo das gerações.

Essa metáfora tem relevo quando estudamos a vida de dois dos maiores gênios da musica em quantidade e em qualidade, Mozart (35 anos) e Schubert (31 anos). Morreram, cérebros e corpos esgotados pela vida criativa alucinante. Em ambos os casos, 626 e quase 1000 opus, respectivamente, existências abreviadas que ensejam algumas estatísticas musicologicamente comprovadas sobre os dois e outros criadores de grande talento que morreram precocemente:

- começaram a compor muito jovens;
- escreveram delirantemente, arruinando suas saúdes;
- repetiram-se inúmeras vezes, sendo que algumas obras ‘intermediárias’ serviram de rascunhos e de maquetes para as obras-primas que viriam a seguir, as cumeeiras criativas;
- viveram em períodos onde a esperança de vida era frágil (30-40 anos) e tinham consciência aguda da brevidade da existência.

Havia a percepção clara e generalizada de que o corpo humano não estava preparado face às grandes pandemias que assolavam a Europa periodicamente, a aumentar paradoxalmente a pujança criativa, pois sabiam que o fluxo da ampulheta seria rápido e desfavorável. Acredito com convicção que a vida criativa desses compositores, prematuramente desaparecidos, assemelhar-se-ia a um gigantesco tornado e que o término do fenômeno estaria por volta dos 30 anos.

Uma certa geração de extremistas e radicais do século XX acreditava que, ao encurtar a existência por conduta desregrada, haveria acesso mais rápido à consagração universal e à elevação ao panteão dos séculos… Nada é menos exato, se falarmos unicamente da técnica e da semântica, da organização, da conceitualização, da elevação da alma, do gênio artístico, tendo-se como referencial absoluto os mestres excelsos dos séculos passados. Para esses arrivistas suicidas em busca de um sucesso rápido e retumbante a partir do escândalo (droga, a vida outlaw, hoje o pomo chic), constata-se claramente a flagrante decadência ou hecatombe criativa em comparação aos gênios que permaneceram.

Trata-se de um eufemismo de época, pois o show business mui raramente apresenta o talento encontrável em tempos idos na Idade Média, na Renascença, no período clássico e mesmo na contemporaneidade, naquilo que denominamos arte séria (sob o aspecto da linguagem). Há outra realidade igualmente exemplar: a facilidade econômica das sociedades modernas afunda o talento artístico, assim como deteriora os comportamentos. Esse fenômeno ocorre, de preferência, quando as gerações pertencentes às sociedades ocidentais atingem a idade adulta.

Na verdade, entre os contemporâneos de Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828), um século antes da profilaxia das vacinas, o stress vital devia estar no seu máximo. Pouco se fala das catedrais, construídas num período de um optimum medieval, época provavelmente mais calorosa do que a nossa, pois construídas nesse fervor artístico sob a égide do empenho coletivo de várias gerações de artesãos-artistas, poupados que foram do egoísmo contemporâneo das sociedades de super consumo. Criatividade, vida curta ou longa? Debate um pouco defasado quando relatamos as obras primas da antiguidade. No caso dos dois compositores mencionados, os últimos retratos de Mozart evidenciam traços de uma pessoa com mais de 70 anos, a se pensar nas fisionomias da atualidade. Estafado ao extremo, pai de oito filhos, dos quais apenas dois chegaram à idade adulta.

Fala-se da Pequena Idade Glacial para o período entre 1350 a 1900. Durante esse espaço de tempo, a mortalidade infantil foi enorme, assim como a fertilidade para assegurar a sobrevida da espécie, sendo que a esperança de vida se restringiu ao seu nível mais baixo, comparável àquele dos homens da pré-história. As pinturas de Hieronymus Bosch (1450-1516) evocam um período muito frio, quase glacial. Poder-se-ia pensar que o gênio criativo tenha sido correlativamente fraco. Pois o que aconteceu foi o contrário. Incontáveis os gênios artísticos e filosóficos que surgiram nessa Pequena Idade Glacial. Precariedade de vida pareceria associada a uma energia vital pujante do gênio criativo levado ao extremo…

Socialmente poderemos fazer um paralelo com a soma imensa das grandes obras produzida sob regimes totalitários. A restrição pareceria ser parâmetro importante. Mas, e a liberdade? É bem difícil responder abruptamente. A se considerar conjunturas históricas com tais diferenciais de saúde pública, de sistemas políticos, poder-se-ia considerar uma idade ideal para a criatividade? O que é certo é que, atualmente, o gênio é inversamente proporcional ao conforto a beneficiar criadores. Mais eles são inflados, incensados, menores esforços eles fazem para sair da rotina, do comum, das banalidades”. Em blog bem anterior (vide O Criativo – Quando apropriações estranhas criam distorções. 25/04/2009), considerava a apropriação indevida da palavra criativo, há tempos tão a gosto do profissional de propaganda e marketing. Vulgarizaram o termo. A publicidade atual evidencia tantas e tantas vezes o caminho da repetição em todas as áreas, pois se uma publicidade ganha grande visualização, outros “criadores” das muitas empresas, para produtos da mesma área, seguem o abominável caminho da repetição. As empresas a abrigarem “criadores” não estariam nessa zona “inflada, incensada, rotineira, banalizada, de conforto”, como expõe, sobre outra égide, Servenière?

O pensador francês prossegue: “O show business é o enterro da arte excepcional do passado. Quando se fundem na mesma expressão social, negócios e criação, o resultado é uma linguagem empobrecida no limite da precariedade, do sucesso fácil. A frase imbecil ‘todo mundo é um artista’ simboliza a triste realidade”. O funk não representa o que de mais desprezível existe sob o rótulo inapropriado de manifestação musical?

Servenière continua: “Uma conclusão rápida deve, pois, nos induzir à ideia de que as piores condições de vida aumentam consideravelmente o instinto criativo, que é integralmente relacionado ao instinto vital. Esse instinto pode atingir seu ápice aos 20, 40, 60, 80 anos. É evidente que a juventude transmite uma energia eruptiva em suas obras. Mas seriam elas profundamente pensadas, organizadas, arquitetadas, perenizadas? Enfim, a ciência e o saber acumulados durante a senectude verão nascer produções raras, que terão certamente maior pertinência. Não obstante, haveria a necessidade de o artista ter uma longa existência e saber organizar socialmente seu viático (sucesso, ensino, negócios, outro métier…) para ainda persistir a vontade de criar aos 80 anos. Os insucessos potenciais e recorrentes da vida podem reduzir toda vontade criativa a zero muitíssimo antes da chegada à idade avançada. Quantos não são os artistas que param toda a atividade bem rapidamente diante de um fracasso e partem para outra ocupação? Uma imensa maioria. Nem o talento, nem a força do talento, nem a pujança criativa renovada são ofertados a todo mundo. Na idade de 60 anos, os resistentes às vicissitudes da vida de artista são exceções em suas gerações.

Basicamente não se pode sinceramente criar grandes obras sem que se seja um faminto pela vida. Pareceria evidente. Sob outro aspecto, a depressão destrói tanto o instinto criativo como a vitalidade.

Numa outra apreensão, a luz do sol tem papel fundamental no humor das pessoas, terapia para as depressões sazonais, segundo confirmações da medicina desde o fim do século XX. O outono e o inverno nos deixam sombrios, enquanto a primavera é a fonte da juventude, de criatividade, de fluxo de hormônios, mercê do aproveitamento pleno da seiva. Quantos não foram os artistas do passado que, em carruagens, desceram às terras do Mediterrâneo ou realizaram a curta travessia do Mare Nostrum rumo ao Norte da África, ou mesmo atravessaram oceanos em busca de outros hemisférios, simplesmente para evitar que o ato criativo tivesse uma queda? Legiões. Não por acaso, a Califórnia tornou-se um dos centros mais criativos do planeta nas últimas décadas… Cria-se mais em espaços de bom humor e energia, geografias essas onde o sol nos invade com excesso de Vitamina D. No passado há exemplos dessas cidades florescentes, plenas de sol benfazejo: Roma, Florença, Atenas.

Se essa apologia ao sol é válida, consideremos que o Astro Rei representa o exemplo da superficialidade, do descompromisso, enquanto a pouca luz existente nas estações frias da nossa Europa favorece a introspecção e o aprofundamento. O hedonismo se opondo naturalmente à austeridade. A metáfora é possível e contraditória, praias e mosteiros. Ambos favorecem, à sa manière, a criatividade, embora por caminhos rigorosamente diferentes.

Ao observarmos esse parâmetro climático para falar sobre criatividade e hedonismo, emergem dois polos essenciais da cultura humana, aquele do norte – países frios – outro do sul – países quentes. Considerando a concepção europeia de arte, há forma, estilo, ambiente que poderíamos considerar como mediterrâneos, tendo como centro a Itália, assim como outra, nórdica, centrada na Alemanha. Duas culturas extraordinárias, nascidas na Europa e espalhadas para o mundo. A Itália e a Alemanha resumiram as oposições de estilo e pensamento. J.S.Bach (1685-1750) e Antonio Vivaldi (1678-1741), Richard Wagner (1813-1883) e Giuseppe Verdi (1813-1901) não seriam exemplos nítidos?

A cultura mediterrânea pareceria mais superficial e hedonista, enquanto a nórdica mais cerebral e conceitual. Encontraremos grande quantidade de músicas muito sensíveis na Itália, berço histórico da ‘lacrimosa’, enquanto a Alemanha nos oferecerá as formas musicais mais científicas, pensadas, organizadas e com resultados surpreendentes. A ciência pareceria alemã, a sensibilidade, italiana. É claro que essa definição esquemática se torna simplista. Há o contraexemplo, pois gênios italianos serão considerados ‘alemães’ e esses, ‘italianos’. São incontáveis os ‘vazamentos’ culturais e assimilações mútuas.

Na arte, como na luz, há todas as cores do arco-íris, todas as gradações possíveis, todas as nuances regionais que nos induzem a pensar que não existem regras absolutas… Seria um erro se, ao contemplarmos o globo terrestre e a disposição dos países, nos dispuséssemos a acreditar que a influência do sol determinará a criação de tendências maiores ou menores. Dir-se-á que tal estilo, tal caráter é francês, alemão, russo, chinês, mexicano, brasileiro, português, espanhol, americano, africano, etc, etc. Muito sol provocaria a preguiça, a fadiga e a hedonismo, e muito frio congelaria o cérebro. Os países temperados são os privilegiados sob a esfera da criatividade: nem tão frio, nem tão quente. Não se trataria apenas de uma questão da personalidade individual, como se constata em todas as partes do mundo. Há inúmeros exemplos que estabelecem as exceções nas civilizações habituadas aos extremos…

Evidentemente, podemos analisar a personalidade individual, em todas as suas conjunturas, como integrante da vontade individual, mas que será duramente impactada pelo meio onde ela emergir. Seria um acaso o aparecimento de gênios e grandes artistas, durante séculos, em Paris, Roma, Moscou, Londres, Amsterdam? A política, a abertura de espírito e a sensibilidade dos príncipes, a riqueza do comércio, o limite das populações e as geografias climáticas favoráveis, a curiosidade das massas, a filosofia e o pensamento dominante do entorno (todos parâmetros interdependentes) tiveram papel fundamental na história da arte e não podem ser desprezados. O artista ex nihilo não existe, aquele que surge a partir no nada. Ele vem de longe, de alguma parte, de uma forja cósmica social e universal, potencializada pelo tempo e pelas gerações. É ele filho, produto de um ambiente propício, de um acúmulo de camadas, de uma predisposição mental certa, mas também de uma cultura. Ele passará ao lado de seu destino, ou não. O acaso e a necessidade farão sua obra no segmento biológico que constitui a sua vida” (tradução: JEM).

The posts about the Portuguese composer António Fragoso’s untimely death and about the Canadian psychoanalyst Elliot Jacques (creativity at different stages of life) has been given special attention by the French composer François Servenière, who sent his comments on the matter: effects of hormones on creativity, celebrity and success breeding repetition and superficiality, climatic cold and heat shaping creative thinking, the impossibility of separating an artist’s’ mental disposition from his environment. Sometimes controversial, always thought-provoking, Servenière’s views will for sure capture the readers’ attention.