Navegando Posts em Artes

Poder-se-ia transplantá-las para a atualidade

Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo.
Infalível e insubornável.
As grandes obras são como as grandes montanhas.
De longe veem-se melhor.
E as obras secundárias,
essas quanto maior for sendo a distância,
mais imperceptíveis se irão tornando.
Guerra Junqueiro
(Prefácio à segunda edição de “A Velhice do Padre Eterno”, 1887)

Em reiterados posts ao longo de quase 10 anos ininterruptos de blog, a crítica musical brasileira é abordada nos aspectos fulcrais, concernentes à raridade e à falta de competência específica daqueles que a ela se dedicam, salvo alguma exceção. Como causas desse desmonte, a derrocada dos suplementos culturais livres de quaisquer posições ideológicas, a massificação ascendente, que está a levar a cultura dita clássica ou erudita à situação limítrofe e, consequentemente, ao nivelamento por baixo daqueles que se dedicam à crítica musical, alguns deles sem formação na área e oriundos de outros compartimentos da comunicação.

Estou a ler uma obra com seleção de textos de Fernando Pessoa (1988-1935) e que integra a Coleção “Citações e Pensamentos”, organizada por Paulo Neves da Silva (Alfragide, 12ª edição, 2016). Foi-me oferecido pela dileta amiga e competente gregorianista portuguesa Idalete Giga, que anteriormente me presenteara com outro livro da coleção, a privilegiar escritos do grande pensador de Portugal, Agostinho da Silva.

Não deverei fazer resenha do livro em apreço, mas pontuar, ao longo da profícua leitura, tópicos que me parecem relevantes sobre artes em geral e literatura, obviamente. No compartimento “Reflexões e Pensamentos”, há segmento intrigante no qual Fernando Pessoa se posiciona sobre a crítica: “A inutilidade da crítica”, que integra “Ideias Estéticas – da Literatura”. Algumas frases merecem um pormenorizar, pois precedem em quase um século posições defendidas em inúmeros posts inseridos neste espaço e que se têm agravado. Escreve Fernando Pessoa: “Que a obra de boa qualidade sempre se destaca é uma afirmação sem valor, se aplicada a uma obra de qualidade realmente boa e se por ‘destaca’ quer-se fazer referência à aceitação na sua própria época. Que a obra de boa qualidade sempre se destaca, no curso de sua futuridade, é verdadeiro; que a obra de boa qualidade, mas de segunda ordem, sempre se destaca na sua própria época é também verdadeiro”. O poeta caracteriza bem “na sua época”, pois a perenidade, pressupõe-se, não estaria garantida. Sutileza.  Continua: “Pois como há-de um crítico julgar? Quais as qualidades que formam, não o incidental, mas o crítico competente?”.  O escritor penetra num campo espinhoso da avaliação. São tantos os fatores que levam jornais e revistas a aceitar determinado crítico. Influência, relações, acolhida por parte de leitores, que nem sempre distinguem o que poderá ser um simulacro. Fernando Pessoa apreende o cerne: “Quão competente é, porém, o crítico competente? Suponhamos que uma obra de arte profundamente original surja diante dos seus olhos. Como a julga ele? Comparando-a com as obras de arte do passado. Se for original, porém, afastar-se-á em alguma coisa – e quanto mais original mais se afastará – das obras de arte do passado”. O escritor está a tratar da competência em graus de intensidade. Seria plausível imaginar a não competência, e ela existe. Neste caso, fugirá o crítico da avaliação de obra original pela ausência do embasamento na área específica, e muitos recorrem, como salvação momentânea à incompetência, ao outro, visitante de mostra, ouvinte de concerto, leitor do poema, no desiderato precípuo de obter informações que o ajudem à elaboração de seu texto, que pode até conter  fluência sedutora.

Fernando Pessoa expõe: “Persuadir-se-ia alguém de que, se fossem publicados hoje o Paraíso Perdido, ou Hamlet, ou os sonetos de Shakespeare e de Milton, lograriam eles cotação acima da poesia de Kipling ou de Noyes, ou a de qualquer outro cavalheiro semelhantemente quotidiano? Se alguém se persuadisse disso, seria um louco. A expressão é curta (?), não doce, mas pretende-se que seja verdadeira”. Observe o leitor que Pessoa dá à palavra “época”, empregada anteriormente, uma outra roupagem, “quotidiano”. A recepção crítica obedece a leis de mercado e, desde que o crítico seja aceito por seus leitores, importaria menos a qualidade de determinados autores ou artistas, mas aquilo que lhes é transmitido. O mediático quase sempre se impõe, independentemente de valor ou não.

Fernando Pessoa, nesse precioso texto, compara a obra de boa qualidade com outra secundária de boa qualidade, mas a simples leitura da palavra “secundária” já a situa em patamar tão bem explicitado por Guerra Junqueiro na epígrafe. Situação dramática estaria reservada à obra de qualidade, mas secundária que, por falta de competência real de um crítico, não é revelada por motivo da possível exposição plena de quem escreve. Teria ele convicção ao opinar? E se estiver absolutamente equivocado? Seria função do crítico musical entender que um jovem talento é realmente bom, do crítico literário apreender da pena de um novel poeta o significado que está além dos versos, de um crítico de artes visuais entender o valor intrínseco de um artista, independentemente da pressão de marchands que têm seus preferidos, tantas vezes secundários, terciários… Esses são aspectos fundamentais dos quais o crítico, sem a formação estruturada da área da qual escreve, esquiva-se ou busca suporte, postura que inviabiliza qualquer avaliação séria, imparcial, embasada na competência. Pode agradar a maioria dos leitores guiados pela máquina da comunicação, mas perguntaria, e a consciência frente ao voluntário equívoco? O mercado e a mídia evidenciariam preferências àqueles artistas plásticos que se dedicam a gamas temáticas reduzidas, com tênues variações, para gáudio de marchands e colecionadores. Quanto à crítica, esta passaria a “descobrir” a grande originalidade na “repetição” temática, apesar da variação de cores na pintura ou, no caso das esculturas, de formas. A crítica musical não insiste em elogios aos intérpretes bem ventilados, que repetem repertórios ad eternum sem o mínimo rubor?

Fernando Pessoa atinge o cerne de um posicionamento que se eterniza na cultura ocidental no que tange à crítica: “De todos os lados, ouvimos o clamor de que o nosso tempo necessita de um grande poeta. O vazio central de todas as modernas realizações é uma coisa mais para se sentir do que para ser falada. Se o grande poeta tivesse de aparecer, quem estaria presente para descobri-lo? Quem pode dizer que ele já não apareceu? O público leitor vê nos jornais as notícias das obras daqueles homens cuja influência e camaradagens tornaram-nos conhecidos, ou cuja secundariedade fez que fossem aceitos pela multidão. O grande poeta pode ter aparecido; a sua obra teria sido noticiada nalgumas poucas palavras de vient-de-paraître em algum sumário bibliográfico de um jornal de crítica”.

Não há a necessidade de mais dizer.

My comments on the views expressed by the Portuguese poet Fernando Pessoa (1888-1935) in the book “Citações e Pensamentos” (Quotes and Thoughts), a compilation of some of his writings by Paulo Neves da Silva. My focus are Pessoa’s considerations about the role of critics in his time and their capacity to evaluating art. How competent is an art critic accepted as competent? Is he really equipped to fulfill his role or just someone pampered by the media? So similar – though written at the beginning of the 20th century – to my own views on the subject expressed time and again over the years in this blog.

 

 

 

Glosas nº 13 homenageia Gilberto Mendes

A música é uma actividade do intelecto.
Não foi inventada pelo Homem,
foi criada com o Homem.
Fernando Corrêa de Oliveira

Não poucas vezes dediquei posts à Revista Glosas, publicação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (mpmp), que, ao pormenorizar-se sobre a criação em Portugal através dos séculos, reserva sempre espaços à produção da música brasileira desde o período colonial. Infelizmente não há minimamente recíproca por parte das raríssimas publicações brasileiras, o que é motivo de louvação especial aos esforços de Glosas.

O núcleo temático de Glosas (nº 11) foi reservado ao nosso grande compositor romântico Henrique Oswald. Artigos e ilustrações enriqueceram a publicação. Em 2014, Edward Luiz Ayres de Andrade, dinâmico presidente do mpmp, disse-me que pretendiam homenagear o mais importante compositor vivo brasileiro, Gilberto Mendes. Estivemos em Santos para longa entrevista do músico ao Edward Luiz e simpático almoço no tradicional restaurante Almeida, um dos preferidos do compositor. A entrevista e outros artigos sobre Gilberto Mendes foram publicados no número que saiu em Novembro último. Infelizmente, a bela edição não chegou a ser apreciada pelo compositor, que nos deixou no primeiro dia deste ano, aos 93 anos de idade.

A entrevista concedida a Glosas revela muitas das facetas marcantes de Gilberto Mendes. Edward Luiz soube extrair conteúdos essenciais da personalidade tão encantadora do grande compositor e humanista. Têm interesse algumas respostas pontuais, que, tratadas sob outra égide em seus livros, dão a entender as amarras libertas de determinadas tendências vanguardistas. A uma pergunta de Edward Luiz “E o que significou Darmstadt em sua carreira?” (as ideias da neue musik, professadas no Festival de música da cidade alemã, influenciaram tendências da vanguarda no Brasil, mormente nos anos 1960), responde Gilberto: “Na verdade nada, porque tudo aquilo eu já sabia. Fomos atrás do que os jornais diziam, de Boulez, de Stockhausen, Berio, Nono, Ligeti… Mas, na verdade, em Darmstadt não havia aulas, eram apenas conferências. E era muito num jogo assim: Ligeti fala sobre Boulez, Boulez fala sobre Berio… – uma panelinha muito bem urdida”. A uma outra pergunta de Edward Luiz sobre transformações de sua linguagem musical, Mendes historia seus caminhos criativos, que foram vários. Em questão sobre a Bossa Nova, Gilberto observa que não há nada de novo na harmonia da Bossa Nova, pois ela “é Debussy”, mas considera “gostosinha a batidinha rítmica” daquilo que denomina “coisa essencialmente carioca, de praia, e eu também sou de praia”.

Em Glosas 13, artigos são dedicados ao notável compositor nascido em Santos: José Lopes e Silva, “No som das vibrações ultra-sónicas…”; Antônio Eduardo Santos, “Veios de uma transmodernidade” e “Um outro gesto sonoro – o teatro musical na obra de Gilberto Mendes”; Luís Salgueiro, “Gilberto Mendes – Alegres Trópicos” e, a fazer parte de minha coluna permanente em Glosas, “Ecos d’Além Mar”, “A mente aberta de Gilberto Mendes”, em que enumero todas as obras que apresentei durante trinta anos de um relacionamento intenso com o compositor.

Ascent, título de matéria substanciosa, destaca o músico polivalente português Bernardo Sasseti (1970-2012), talentoso em todas as áreas em que atuou. Glosas bem fez reservando-lhe espaço, inicialmente a reproduzir texto de Sasseti, que implica considerações sobre seus almejos. “Posso também referir que o cinema, a fotografia e a pintura, assim como a actividade de composição original para piano – a qual me dedico com assiduidade – se manifestam, directa ou indirectamente, tanto em Ascent como nas gravações que a antecedem, desde 2002 com o CD Nocturno”. Biografia bem documentada, mas não assinada, revela-nos um compositor que também se interessou pelo teatro e apresenta extensa discografia de Bernardo Sasseti. O artigo de Maria João Neves, “O sonho dos outros – A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sasseti”, tem interesse pela inserção do pensamento da escritora e filósofa espanhola (1904-1991) e a habilidade com que a autora do texto trabalha com essa aspiração de Sasseti, para quem a música “faz-me sempre sonhar”.

Comovente tributo é prestado à ilustre violoncelista portuguesa Madalena Moreira de Sá e Costa (1915-  ), a comemorar seu centenário. Um texto da homenageada discorre sobre o célebre Fado Burnay, de Eduardo Burnay, precedido por revelações artísticas da violoncelista. Madalena, irmã da ilustre pianista e professora Helena de Sá e Costa (1913-2006) e filha do renomado compositor Luís Costa (1879-1960), teve oportunidade de responder às competentes perguntas de Nuno M. Cardoso e José Carlos Araújo sobre sua longa atividade musical. Entrevista referencial. Substanciosos depoimentos de músicos, ex-alunos e amigos enriquecem ainda mais esse outro núcleo temático de Glosas, privilegiando a violoncelista portuense. Os textos têm as assinaturas de Vasco Barbosa, Isabel Delerue, Paulo Gaia Lima, Gisela Neves, Luiza Gama Santos, Jed Barahal, Jorge Rodrigues, Manuela Gouveia, Maria José Figueiredo, Elvira Archer, Piñeiro Nagy, Bruno Borralhinho, Bruno Caseirão, Ana Filomena Silva, Valter Mateus, Sofia Novo, Fernando Costa, Alberto Campos, Guilherme Cancujo.

Como adendo extra Glosas, Madalena de Sá e Costa e eu demos recital no Porto (Delegacia Regional do Norte, 7 de Janeiro de 1986), apresentando obras de Oswald, Beethoven, Debussy e Filipe Pires. Grande senhora e com memória privilegiada, pois compareceu a um recital que realizei em Braga (2011), conduzida por seu filho, a lembrar-se perfeitamente de nosso evento, que foi prestigiado pela presença de sua irmã, Helena de Sá e Costa.

O espaço a que me proponho impede-me de abordar pormenorizadamente todos os ricos temas assinados por especialistas. Nomeá-los, contudo, faz-se necessário: Luís Salgueiro entrevista o compositor Nuno da Rocha, pleno de ideias inovadoras; as “Irmandades e Ritual em Minas Gerais durante o Período Colonial” são estudadas por Maria Alice Volpi; “Lembrança(s) Suggia: Notas sobre um Espólio” remete-nos à grande violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, mercê do arguto olhar de Luís Cabral; “Em torno do Festival de la Canción Gallega”, José Luís do Pico Orjais elabora um breve apanhado da participação portuguesa nesse importante Festival, mormente a de obras de Frederico de Freitas; “Evocação de Santo Pinto no Bicentenário de seu nascimento”, na qual Maria José Borges evidencia atributos de compositor do século XIX de música dramática e orquestral, que mereceria maior atenção; “Os Cantos Sefardins para voz e piano de Fernando Lopes-Graça” é um texto abreviado de longo estudo analítico a ser publicado por José Maria Pedrosa Cardoso. Foi o ilustre professor vimaranense que nos sugeriu os 12 Cantos Sefardins, apresentados em primeira audição mundial em São Paulo (Unibes, 15/10/2015), tendo Rita Morão Tavares (mezzo-soprano portuguesa) e eu como intérpretes.

O substancioso artigo de J.A. Gonçalves Guimarães, “Os quatro músicos Napoleão”, tem muito interesse. O estudioso apresenta sucintamente a saga dos Napoleões, do pai Alexandre, nascido em Bergamo, na Itália (1808-1886), e dos filhos portugueses Artur (1843-1925), Aníbal (1845-1880) e Alfredo (1852-1917). O segundo e o terceiro se notabilizariam como intérpretes e compositores, sendo que Gonçalves Guimarães se pormenoriza em Artur, menino prodígio, verdadeiro globetrotter em sua época, pois a viajar pela Europa e Américas, apresentando-se diante da nobreza e de músicos afamados que lhe rendem altos elogios. Estabelecer-se-ia no Rio de Janeiro, onde continuaria sua atividade de pianista, professor e proprietário de editora de música, obtendo grande repercussão nas várias atividades. Deve-se à editora a publicação de inúmeras obras do repertório pátrio, de Portugal e de alhures e de suas próprias composições, que mereceriam ser frequentadas pelos intérpretes. Gonçalves Guimarães, ao tratar dos irmãos, fá-lo de maneira a estabelecer um elo que sempre existiu entre eles, apesar de apenas Artur ter ficado sob a guarda do pai, que o acompanhou pelo mundo até a maioridade. Na discografia dos Napoleões menciona, entre outras gravações, peças para piano de Artur gravadas por Sylvia Maltese e Clélia Ognibene (duo), Waldelly Mendonça e Philip Martin para selos diversos. De Alfredo, cita o Concerto para piano e orquestra nº 2, pela Orquestra Nacional da BBC de Gales, conduzida por Martyn Brubbins, tendo Artur Pizarro ao piano ((Hyperion).

Rubricas de interesse e assinadas por Luzia Rocha, Pedro Cravinho, Tiago Hora, Sílvia Sequeira e pela equipe do Museu Nacional da Música completam Glosas 13.

Reitero o esforço do mpmp que faz publicar a Revista Glosas, a valorizar a música portuguesa e dando substancial espaço para a música brasileira. Ratifico que não há recíproca concernente a essa literatura específica no Brasil. Inúmeras vezes já escrevi que nosso país insiste em ignorar a música portuguesa. Intérpretes minimamente conhecem ou sequer ouviram criações de compositores portugueses e nossas publicações acadêmicas, seguindo caminho similar, passam ao largo. Estou a me lembrar de que, durante muitos anos (1990-2007), fui o redator chefe da Revista Música da Universidade de São Paulo. Reservei, desde o primeiro número, cerca de 30% dos espaços para artigos de ilustres compositores, intérpretes e musicólogos em contribuições originais. Despertava e instigava a comparação. Foram mais de trinta artigos!!! Creiam os leitores, havia aqueles que me questionavam, pois gostariam de vê-la a proporcionar colaborações em “quantidade maior”, friso, de docentes e pesquisadores das muitas universidades brasileiras (sic). Nomes internacionais da maior respeitabilidade estão inseridos nos muitos números publicados até minha aposentadoria. No que concerne a Portugal, Elisa Lessa, Humberto d’Ávila, Jorge Peixinho, José Manuel Bettencourt da Câmara, José Maria Pedrosa Cardoso, Nancy Lee Harper, Ruy Vieira Nery e Sérgio Azevedo fazem-se presentes ao longo dos anos.

O ato efetivo de Glosas ao estender a mão, dando espaços sensíveis à música brasileira, não deveria ser incentivo para que façamos o mesmo, mormente se considerarmos a riqueza da composição portuguesa? No mínimo, Glosas, nessa abertura generosa, mostra o caminho a ser novamente seguido. Doravante haveria terra fértil?

This post is about issue nº 13 of Glosas, the voice of classical music that is the only one to cover all the countries that share the Portuguese language. This issue is very special, since a large segment is dedicated to the Brazilian composer Gilberto Mendes, who recently passed away. I also comment briefly on the remaining wide variety of topics addressed by the music magazine, in special the tribute paid to the great cellist Madalena Moreira de Sá e Costa celebrating the centennial of her birth.

 

 

Idalete Giga Interpreta Pintura Cósmica de Luca Vitali

Na terra das estrelas,
não há brilho menor.
P’ra que ser melhor?
Viva a luz da vida,
multiplique-se, divida:
viva a vida.
Sendo o senhor, só Amor.
Seja, plante que o sol,
garante.
Sofra a safra, seja
amante!
Luca Vitali
(Amo-te-me)

O post de 26 de Dezembro (“Mais um Ano se Esvai”) suscitou, por parte da dileta amiga Idalete Giga, várias considerações. Chamou-me a atenção a leitura que a ilustre especialista portuguesa em Canto Gregoriano realiza da tela Níquel, do saudoso amigo e notável artista plástico Luca Vitali. Antes de inserir a interpretação de Idalete, precisaria circunstâncias que me levaram, em duas gratas oportunidades, a ouvir a palavra “guardião”, termo que adquire transcendência a partir do instante do acontecido, momento único a ser retido e a implicar responsabilidade.

Ser guardião não é ter a posse de um bem, posse esta que, segundo o ilustre jurista alemão Rudolf von Ihering (1818-1892), é a aparência da propriedade. Ser guardião apreende condições ético-morais. Compete a ele guardar com o maior zelo o que lhe foi confiado.

Estou a me lembrar que em 1980 apresentei, em quatro recitais no MASP, a integral para piano de Claude Debussy. Ao ler noticiário nos jornais, Gerard Killick, empresário na área de turismo, ligou-me a dizer que tinha uma surpresa para mim. Desconhecia o senhor, mas compareci ao seu escritório. Após amenidades, disse-me que sua mãe, a francesa  Ada Killick (1898-1978), fora a última professora de piano de Chouchou Debussy (1905-1919), única filha do grande compositor, morta precocemente vítima de difteria. Com carinho Ada guardara as três últimas cartas de Chouchou escritas após a morte do pai, desobrigando-a das aulas. Cartas muito bem redigidas, que revelavam o talento singular de Chouchou. Gerard abre uma gaveta e entrega-me um rolo de papelão bem manuseado, a conter as três cartas e respectivos envelopes. Comovido, disse-me que doravante seria eu o guardião dessas sensíveis missivas. Alguns anos depois, conversando sobre as cartas em questão com o saudoso e ilustre musicólogo francês François Lesure Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale em Paris e maior especialista em Debussy na segunda metade do século XX, mostrei minha intenção de doá-las ao Centre de Documentation Claude Debussy, instalado no mesmo prédio, à Rue Louvois, 2. Um ano após, concretizei a doação. As cartas foram publicadas no apêndice de meu livro “O Som Pianístico de Claude Debussy” (São Paulo: Novas Metas, 1982) e, bem tardiamente, nos “Cahiers Debussy” (Paris: Centre de Documentation Claude Debussy, nº 31 / 2007).

Luca Vitali sempre soube que Níquel era meu quadro preferido da Série Cósmica, constituída de sete acrílicos sobre tela. Poucos dias antes de sua morte pintou o oitavo da série, Outono Cósmico, e dedicou-o ao compositor e pensador francês François Servenière. Fui o portador do grande tubo a conter a tela, entregando-o ao músico francês. Após a morte de Luca, seus filhos organizaram uma exposição onde estariam expostas telas e desenhos do pintor para vendas informais. No dia da inauguração, um aguaceiro derrubou árvores diante da casa onde se realizaria a exposição, na rua Surubim, no Brooklin, e a mostra foi adiada sine die. Um dos filhos de Luca, o bom músico improvisador Rodrigo, também sabia de meu interesse pela tela. Em meados de 2015, Rodrigo liga-me, a dizer que traria Níquel à minha casa. Emocionei-me quando Rodrigo afirmou que ele e o irmão Alexandre decidiram que eu seria o guardião da grande tela de seu pai (90,0 x 140,0). A pintura doravante, até o fim de meus dias, ficará sob minha guarda. Coloquei-a na parede que corresponde ao lance da escada. Não há como não contemplá-la e admirá-la várias vezes ao dia.

Voltemos à querida Idalete Giga. Após a leitura do mencionado post, a amiga pormenoriza-se na tela de Luca e sua interpretação sensível e onírica é tão expressiva que resolvi partilhá-la com os amigos neste ainda início de 2016. Idalete acompanha as mutações da cor. Entende os níveis, vê e sente beleza no todo e o resultado não só é expressivo, como unificador. Eis sua mensagem a descrever Níquel:

“Foi muito oportuno e também uma homenagem ao querido e saudoso Luca Vitali ter inserido no seu último post a sua pintura Níquel, da Série Cósmica. É uma das que mais me impressionam. Ele utilizou e combinou cores para simbolizar (na minha humilde opinião) tudo o que se relaciona de forma harmoniosa com a LUZ versus Trevas. Olhando a pintura, no fundo, à esquerda, aparece o esplendor do laranja, que simboliza a autoconfiança, o conhecimento prático, a prodigalidade, a coragem, a genialidade e a vitalidade. Mistura de forma sábia o laranja com o dourado. Este simboliza a iluminação espiritual. Na esfera maior, o azul e o violeta estão também quase fundidos. O azul simboliza o espírito da verdade, categoria mais elevada da inteligência. É a cor da contemplação, serenidade, santidade, reflexão, harmonia. A cor violeta é a cor do Mestre Espiritual, simboliza a perenidade, a nobreza, o espírito artístico, o misticismo. A esfera menor (satélite da esfera maior) aparece-nos em primeiro plano, mostrando o esplendor da cor prateada em sintonia com a cor azul. A cor prateada simboliza o fio de ligação à inteligência cósmica. Ilumina o caminho. É a pura contemplação….”.

A interpretação de Idalete calou-me fundo, pois diariamente a tela diz-me algo. A pintura de Luca Vitali, quando penetra no universo cósmico e abstrato, é de riqueza absoluta. Em nossos encontros semanais para os almoços às terças-feiras no Natural da Terra, em minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, sempre falava com fervor do Cosmos. Sob outra égide, estou a me lembrar de que, certo dia, Luca, Marisa, sua dedicada companheira de tantos anos, e eu fomos à uma exposição de pintura contemporânea. Confuso ao ver tantas tendências, indaguei-lhe “O que é realmente bom nessa mostra?”. Luca, com aquela maneira tranquila de dizer as coisas com sentido, respondeu-me: “De longe percebo o talento. A arte abstrata nunca poderia ser mistificação, e aqui há muitas”. O prêmio Nobel de literatura Mario Vargas Lhosa não mais frequenta mostras de arte contemporânea, mercê desses desvios na arte ( “La Civilizatión del Espectáculo”).

Ao olhar Níquel todos os dias, verifico a diversidade do gestual, o esmero com o acabamento, a inclinação de Luca sempre voltada à sinceridade e ao respeito íntegro relacionado à sua arte. Idalete apreendeu a essência essencial de Níquel, apesar de ter visto a pintura através da ilustração. Revela Idalete uma profunda sensibilidade e sua interpretação enriqueceu meu universo visual que terá, doravante, sempre um novo olhar, uma nova leitura…

After seeing my dear friend and late Luca Vitali’s painting “Níquel” in one of my posts, Idalete Giga ─ also a friend, teacher and choral conductor living in Portugal ─ gave me her own interpretation of Luca’s work, which grabbed her attention through the use of colors. Revealing great sensibility, her particular view enriched and deepened my own reading of the painting. In this post I transcribe Idalete’s message, so as to share with readers her meaningful relationship with “Níquel”.