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Glosas nº 13 homenageia Gilberto Mendes

A música é uma actividade do intelecto.
Não foi inventada pelo Homem,
foi criada com o Homem.
Fernando Corrêa de Oliveira

Não poucas vezes dediquei posts à Revista Glosas, publicação do Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa (mpmp), que, ao pormenorizar-se sobre a criação em Portugal através dos séculos, reserva sempre espaços à produção da música brasileira desde o período colonial. Infelizmente não há minimamente recíproca por parte das raríssimas publicações brasileiras, o que é motivo de louvação especial aos esforços de Glosas.

O núcleo temático de Glosas (nº 11) foi reservado ao nosso grande compositor romântico Henrique Oswald. Artigos e ilustrações enriqueceram a publicação. Em 2014, Edward Luiz Ayres de Andrade, dinâmico presidente do mpmp, disse-me que pretendiam homenagear o mais importante compositor vivo brasileiro, Gilberto Mendes. Estivemos em Santos para longa entrevista do músico ao Edward Luiz e simpático almoço no tradicional restaurante Almeida, um dos preferidos do compositor. A entrevista e outros artigos sobre Gilberto Mendes foram publicados no número que saiu em Novembro último. Infelizmente, a bela edição não chegou a ser apreciada pelo compositor, que nos deixou no primeiro dia deste ano, aos 93 anos de idade.

A entrevista concedida a Glosas revela muitas das facetas marcantes de Gilberto Mendes. Edward Luiz soube extrair conteúdos essenciais da personalidade tão encantadora do grande compositor e humanista. Têm interesse algumas respostas pontuais, que, tratadas sob outra égide em seus livros, dão a entender as amarras libertas de determinadas tendências vanguardistas. A uma pergunta de Edward Luiz “E o que significou Darmstadt em sua carreira?” (as ideias da neue musik, professadas no Festival de música da cidade alemã, influenciaram tendências da vanguarda no Brasil, mormente nos anos 1960), responde Gilberto: “Na verdade nada, porque tudo aquilo eu já sabia. Fomos atrás do que os jornais diziam, de Boulez, de Stockhausen, Berio, Nono, Ligeti… Mas, na verdade, em Darmstadt não havia aulas, eram apenas conferências. E era muito num jogo assim: Ligeti fala sobre Boulez, Boulez fala sobre Berio… – uma panelinha muito bem urdida”. A uma outra pergunta de Edward Luiz sobre transformações de sua linguagem musical, Mendes historia seus caminhos criativos, que foram vários. Em questão sobre a Bossa Nova, Gilberto observa que não há nada de novo na harmonia da Bossa Nova, pois ela “é Debussy”, mas considera “gostosinha a batidinha rítmica” daquilo que denomina “coisa essencialmente carioca, de praia, e eu também sou de praia”.

Em Glosas 13, artigos são dedicados ao notável compositor nascido em Santos: José Lopes e Silva, “No som das vibrações ultra-sónicas…”; Antônio Eduardo Santos, “Veios de uma transmodernidade” e “Um outro gesto sonoro – o teatro musical na obra de Gilberto Mendes”; Luís Salgueiro, “Gilberto Mendes – Alegres Trópicos” e, a fazer parte de minha coluna permanente em Glosas, “Ecos d’Além Mar”, “A mente aberta de Gilberto Mendes”, em que enumero todas as obras que apresentei durante trinta anos de um relacionamento intenso com o compositor.

Ascent, título de matéria substanciosa, destaca o músico polivalente português Bernardo Sasseti (1970-2012), talentoso em todas as áreas em que atuou. Glosas bem fez reservando-lhe espaço, inicialmente a reproduzir texto de Sasseti, que implica considerações sobre seus almejos. “Posso também referir que o cinema, a fotografia e a pintura, assim como a actividade de composição original para piano – a qual me dedico com assiduidade – se manifestam, directa ou indirectamente, tanto em Ascent como nas gravações que a antecedem, desde 2002 com o CD Nocturno”. Biografia bem documentada, mas não assinada, revela-nos um compositor que também se interessou pelo teatro e apresenta extensa discografia de Bernardo Sasseti. O artigo de Maria João Neves, “O sonho dos outros – A fenomenologia do sonho de María Zambrano na música de Bernardo Sasseti”, tem interesse pela inserção do pensamento da escritora e filósofa espanhola (1904-1991) e a habilidade com que a autora do texto trabalha com essa aspiração de Sasseti, para quem a música “faz-me sempre sonhar”.

Comovente tributo é prestado à ilustre violoncelista portuguesa Madalena Moreira de Sá e Costa (1915-  ), a comemorar seu centenário. Um texto da homenageada discorre sobre o célebre Fado Burnay, de Eduardo Burnay, precedido por revelações artísticas da violoncelista. Madalena, irmã da ilustre pianista e professora Helena de Sá e Costa (1913-2006) e filha do renomado compositor Luís Costa (1879-1960), teve oportunidade de responder às competentes perguntas de Nuno M. Cardoso e José Carlos Araújo sobre sua longa atividade musical. Entrevista referencial. Substanciosos depoimentos de músicos, ex-alunos e amigos enriquecem ainda mais esse outro núcleo temático de Glosas, privilegiando a violoncelista portuense. Os textos têm as assinaturas de Vasco Barbosa, Isabel Delerue, Paulo Gaia Lima, Gisela Neves, Luiza Gama Santos, Jed Barahal, Jorge Rodrigues, Manuela Gouveia, Maria José Figueiredo, Elvira Archer, Piñeiro Nagy, Bruno Borralhinho, Bruno Caseirão, Ana Filomena Silva, Valter Mateus, Sofia Novo, Fernando Costa, Alberto Campos, Guilherme Cancujo.

Como adendo extra Glosas, Madalena de Sá e Costa e eu demos recital no Porto (Delegacia Regional do Norte, 7 de Janeiro de 1986), apresentando obras de Oswald, Beethoven, Debussy e Filipe Pires. Grande senhora e com memória privilegiada, pois compareceu a um recital que realizei em Braga (2011), conduzida por seu filho, a lembrar-se perfeitamente de nosso evento, que foi prestigiado pela presença de sua irmã, Helena de Sá e Costa.

O espaço a que me proponho impede-me de abordar pormenorizadamente todos os ricos temas assinados por especialistas. Nomeá-los, contudo, faz-se necessário: Luís Salgueiro entrevista o compositor Nuno da Rocha, pleno de ideias inovadoras; as “Irmandades e Ritual em Minas Gerais durante o Período Colonial” são estudadas por Maria Alice Volpi; “Lembrança(s) Suggia: Notas sobre um Espólio” remete-nos à grande violoncelista portuguesa Guilhermina Suggia, mercê do arguto olhar de Luís Cabral; “Em torno do Festival de la Canción Gallega”, José Luís do Pico Orjais elabora um breve apanhado da participação portuguesa nesse importante Festival, mormente a de obras de Frederico de Freitas; “Evocação de Santo Pinto no Bicentenário de seu nascimento”, na qual Maria José Borges evidencia atributos de compositor do século XIX de música dramática e orquestral, que mereceria maior atenção; “Os Cantos Sefardins para voz e piano de Fernando Lopes-Graça” é um texto abreviado de longo estudo analítico a ser publicado por José Maria Pedrosa Cardoso. Foi o ilustre professor vimaranense que nos sugeriu os 12 Cantos Sefardins, apresentados em primeira audição mundial em São Paulo (Unibes, 15/10/2015), tendo Rita Morão Tavares (mezzo-soprano portuguesa) e eu como intérpretes.

O substancioso artigo de J.A. Gonçalves Guimarães, “Os quatro músicos Napoleão”, tem muito interesse. O estudioso apresenta sucintamente a saga dos Napoleões, do pai Alexandre, nascido em Bergamo, na Itália (1808-1886), e dos filhos portugueses Artur (1843-1925), Aníbal (1845-1880) e Alfredo (1852-1917). O segundo e o terceiro se notabilizariam como intérpretes e compositores, sendo que Gonçalves Guimarães se pormenoriza em Artur, menino prodígio, verdadeiro globetrotter em sua época, pois a viajar pela Europa e Américas, apresentando-se diante da nobreza e de músicos afamados que lhe rendem altos elogios. Estabelecer-se-ia no Rio de Janeiro, onde continuaria sua atividade de pianista, professor e proprietário de editora de música, obtendo grande repercussão nas várias atividades. Deve-se à editora a publicação de inúmeras obras do repertório pátrio, de Portugal e de alhures e de suas próprias composições, que mereceriam ser frequentadas pelos intérpretes. Gonçalves Guimarães, ao tratar dos irmãos, fá-lo de maneira a estabelecer um elo que sempre existiu entre eles, apesar de apenas Artur ter ficado sob a guarda do pai, que o acompanhou pelo mundo até a maioridade. Na discografia dos Napoleões menciona, entre outras gravações, peças para piano de Artur gravadas por Sylvia Maltese e Clélia Ognibene (duo), Waldelly Mendonça e Philip Martin para selos diversos. De Alfredo, cita o Concerto para piano e orquestra nº 2, pela Orquestra Nacional da BBC de Gales, conduzida por Martyn Brubbins, tendo Artur Pizarro ao piano ((Hyperion).

Rubricas de interesse e assinadas por Luzia Rocha, Pedro Cravinho, Tiago Hora, Sílvia Sequeira e pela equipe do Museu Nacional da Música completam Glosas 13.

Reitero o esforço do mpmp que faz publicar a Revista Glosas, a valorizar a música portuguesa e dando substancial espaço para a música brasileira. Ratifico que não há recíproca concernente a essa literatura específica no Brasil. Inúmeras vezes já escrevi que nosso país insiste em ignorar a música portuguesa. Intérpretes minimamente conhecem ou sequer ouviram criações de compositores portugueses e nossas publicações acadêmicas, seguindo caminho similar, passam ao largo. Estou a me lembrar de que, durante muitos anos (1990-2007), fui o redator chefe da Revista Música da Universidade de São Paulo. Reservei, desde o primeiro número, cerca de 30% dos espaços para artigos de ilustres compositores, intérpretes e musicólogos em contribuições originais. Despertava e instigava a comparação. Foram mais de trinta artigos!!! Creiam os leitores, havia aqueles que me questionavam, pois gostariam de vê-la a proporcionar colaborações em “quantidade maior”, friso, de docentes e pesquisadores das muitas universidades brasileiras (sic). Nomes internacionais da maior respeitabilidade estão inseridos nos muitos números publicados até minha aposentadoria. No que concerne a Portugal, Elisa Lessa, Humberto d’Ávila, Jorge Peixinho, José Manuel Bettencourt da Câmara, José Maria Pedrosa Cardoso, Nancy Lee Harper, Ruy Vieira Nery e Sérgio Azevedo fazem-se presentes ao longo dos anos.

O ato efetivo de Glosas ao estender a mão, dando espaços sensíveis à música brasileira, não deveria ser incentivo para que façamos o mesmo, mormente se considerarmos a riqueza da composição portuguesa? No mínimo, Glosas, nessa abertura generosa, mostra o caminho a ser novamente seguido. Doravante haveria terra fértil?

This post is about issue nº 13 of Glosas, the voice of classical music that is the only one to cover all the countries that share the Portuguese language. This issue is very special, since a large segment is dedicated to the Brazilian composer Gilberto Mendes, who recently passed away. I also comment briefly on the remaining wide variety of topics addressed by the music magazine, in special the tribute paid to the great cellist Madalena Moreira de Sá e Costa celebrating the centennial of her birth.

 

 

Idalete Giga Interpreta Pintura Cósmica de Luca Vitali

Na terra das estrelas,
não há brilho menor.
P’ra que ser melhor?
Viva a luz da vida,
multiplique-se, divida:
viva a vida.
Sendo o senhor, só Amor.
Seja, plante que o sol,
garante.
Sofra a safra, seja
amante!
Luca Vitali
(Amo-te-me)

O post de 26 de Dezembro (“Mais um Ano se Esvai”) suscitou, por parte da dileta amiga Idalete Giga, várias considerações. Chamou-me a atenção a leitura que a ilustre especialista portuguesa em Canto Gregoriano realiza da tela Níquel, do saudoso amigo e notável artista plástico Luca Vitali. Antes de inserir a interpretação de Idalete, precisaria circunstâncias que me levaram, em duas gratas oportunidades, a ouvir a palavra “guardião”, termo que adquire transcendência a partir do instante do acontecido, momento único a ser retido e a implicar responsabilidade.

Ser guardião não é ter a posse de um bem, posse esta que, segundo o ilustre jurista alemão Rudolf von Ihering (1818-1892), é a aparência da propriedade. Ser guardião apreende condições ético-morais. Compete a ele guardar com o maior zelo o que lhe foi confiado.

Estou a me lembrar que em 1980 apresentei, em quatro recitais no MASP, a integral para piano de Claude Debussy. Ao ler noticiário nos jornais, Gerard Killick, empresário na área de turismo, ligou-me a dizer que tinha uma surpresa para mim. Desconhecia o senhor, mas compareci ao seu escritório. Após amenidades, disse-me que sua mãe, a francesa  Ada Killick (1898-1978), fora a última professora de piano de Chouchou Debussy (1905-1919), única filha do grande compositor, morta precocemente vítima de difteria. Com carinho Ada guardara as três últimas cartas de Chouchou escritas após a morte do pai, desobrigando-a das aulas. Cartas muito bem redigidas, que revelavam o talento singular de Chouchou. Gerard abre uma gaveta e entrega-me um rolo de papelão bem manuseado, a conter as três cartas e respectivos envelopes. Comovido, disse-me que doravante seria eu o guardião dessas sensíveis missivas. Alguns anos depois, conversando sobre as cartas em questão com o saudoso e ilustre musicólogo francês François Lesure Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale em Paris e maior especialista em Debussy na segunda metade do século XX, mostrei minha intenção de doá-las ao Centre de Documentation Claude Debussy, instalado no mesmo prédio, à Rue Louvois, 2. Um ano após, concretizei a doação. As cartas foram publicadas no apêndice de meu livro “O Som Pianístico de Claude Debussy” (São Paulo: Novas Metas, 1982) e, bem tardiamente, nos “Cahiers Debussy” (Paris: Centre de Documentation Claude Debussy, nº 31 / 2007).

Luca Vitali sempre soube que Níquel era meu quadro preferido da Série Cósmica, constituída de sete acrílicos sobre tela. Poucos dias antes de sua morte pintou o oitavo da série, Outono Cósmico, e dedicou-o ao compositor e pensador francês François Servenière. Fui o portador do grande tubo a conter a tela, entregando-o ao músico francês. Após a morte de Luca, seus filhos organizaram uma exposição onde estariam expostas telas e desenhos do pintor para vendas informais. No dia da inauguração, um aguaceiro derrubou árvores diante da casa onde se realizaria a exposição, na rua Surubim, no Brooklin, e a mostra foi adiada sine die. Um dos filhos de Luca, o bom músico improvisador Rodrigo, também sabia de meu interesse pela tela. Em meados de 2015, Rodrigo liga-me, a dizer que traria Níquel à minha casa. Emocionei-me quando Rodrigo afirmou que ele e o irmão Alexandre decidiram que eu seria o guardião da grande tela de seu pai (90,0 x 140,0). A pintura doravante, até o fim de meus dias, ficará sob minha guarda. Coloquei-a na parede que corresponde ao lance da escada. Não há como não contemplá-la e admirá-la várias vezes ao dia.

Voltemos à querida Idalete Giga. Após a leitura do mencionado post, a amiga pormenoriza-se na tela de Luca e sua interpretação sensível e onírica é tão expressiva que resolvi partilhá-la com os amigos neste ainda início de 2016. Idalete acompanha as mutações da cor. Entende os níveis, vê e sente beleza no todo e o resultado não só é expressivo, como unificador. Eis sua mensagem a descrever Níquel:

“Foi muito oportuno e também uma homenagem ao querido e saudoso Luca Vitali ter inserido no seu último post a sua pintura Níquel, da Série Cósmica. É uma das que mais me impressionam. Ele utilizou e combinou cores para simbolizar (na minha humilde opinião) tudo o que se relaciona de forma harmoniosa com a LUZ versus Trevas. Olhando a pintura, no fundo, à esquerda, aparece o esplendor do laranja, que simboliza a autoconfiança, o conhecimento prático, a prodigalidade, a coragem, a genialidade e a vitalidade. Mistura de forma sábia o laranja com o dourado. Este simboliza a iluminação espiritual. Na esfera maior, o azul e o violeta estão também quase fundidos. O azul simboliza o espírito da verdade, categoria mais elevada da inteligência. É a cor da contemplação, serenidade, santidade, reflexão, harmonia. A cor violeta é a cor do Mestre Espiritual, simboliza a perenidade, a nobreza, o espírito artístico, o misticismo. A esfera menor (satélite da esfera maior) aparece-nos em primeiro plano, mostrando o esplendor da cor prateada em sintonia com a cor azul. A cor prateada simboliza o fio de ligação à inteligência cósmica. Ilumina o caminho. É a pura contemplação….”.

A interpretação de Idalete calou-me fundo, pois diariamente a tela diz-me algo. A pintura de Luca Vitali, quando penetra no universo cósmico e abstrato, é de riqueza absoluta. Em nossos encontros semanais para os almoços às terças-feiras no Natural da Terra, em minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, sempre falava com fervor do Cosmos. Sob outra égide, estou a me lembrar de que, certo dia, Luca, Marisa, sua dedicada companheira de tantos anos, e eu fomos à uma exposição de pintura contemporânea. Confuso ao ver tantas tendências, indaguei-lhe “O que é realmente bom nessa mostra?”. Luca, com aquela maneira tranquila de dizer as coisas com sentido, respondeu-me: “De longe percebo o talento. A arte abstrata nunca poderia ser mistificação, e aqui há muitas”. O prêmio Nobel de literatura Mario Vargas Lhosa não mais frequenta mostras de arte contemporânea, mercê desses desvios na arte ( “La Civilizatión del Espectáculo”).

Ao olhar Níquel todos os dias, verifico a diversidade do gestual, o esmero com o acabamento, a inclinação de Luca sempre voltada à sinceridade e ao respeito íntegro relacionado à sua arte. Idalete apreendeu a essência essencial de Níquel, apesar de ter visto a pintura através da ilustração. Revela Idalete uma profunda sensibilidade e sua interpretação enriqueceu meu universo visual que terá, doravante, sempre um novo olhar, uma nova leitura…

After seeing my dear friend and late Luca Vitali’s painting “Níquel” in one of my posts, Idalete Giga ─ also a friend, teacher and choral conductor living in Portugal ─ gave me her own interpretation of Luca’s work, which grabbed her attention through the use of colors. Revealing great sensibility, her particular view enriched and deepened my own reading of the painting. In this post I transcribe Idalete’s message, so as to share with readers her meaningful relationship with “Níquel”.

 

 

 

 


In Memoriam

Melodia é fundamental.
Que me perdoem os compositores
que não conseguem compor uma melodia.
É o que se canta,
onde está toda a beleza e força de expressão da música.
O dom da melodia é o dom básico do compositor.
Gilberto Mendes
(Viver a Música)

A mais profunda tristeza tive-a no meio da manhã do dia 2 de Janeiro. Estava a tomar uma ducha quando ouvi pela Rádio Jovem Pan a notícia de falecimento de Gilberto Mendes, ocorrida na noite anterior. Lágrimas se misturaram à água do chuveiro e lembrei-me após, de meu telefonema ao Gilberto, em meados de Junho de 1995, comunicando-lhe a morte repentina de nosso grande amigo, o notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995). Gilberto teve de desligar seu aparelho, pois o pranto jorrou-lhe. Gilberto Mendes, o mais importante compositor brasileiro de música clássica ou de concerto destas últimas décadas. Também o criador em atividade mais divulgado pelo mundo.

Nosso relacionamento foi pleno por mais de trinta anos, sob a égide da música, mas onde não faltou a frequência às artes, à literatura e ao bem querer em sua acepção mais transparente. Caráter impoluto, generosidade para com todos os músicos que o procuravam para aconselhamento, amigo impecável, escritor de pena fácil e competente, crítico musical arguto, marido, pai, avô extremado e amante absoluto de sua geografia no planeta, sua Santos, porto seguro que o inspirou em muitas das mais importantes criações da música clássica ou de concerto que nosso país já conheceu.

N’um escrito In Memoriam a Gilberto Mendes sempre ficariam a faltar muitos elementos substanciais. Como não abordar o compositor irreverente e denunciador das mazelas e desleixos do governo? Vila Socó, meu amor é obra instigante, que faz o ouvinte não se esquecer da tragédia que se abateu sobre Cubatão aos 25 de Fevereiro de 1984, quando dezenas de pessoas morreram carbonizadas mercê da incúria administrativa. Outras tantas obras apontaram desacertos. Denunciava também, em sua coluna mantida durante décadas em “A Tribuna”, de Santos, a incultura de administradores quanto à Cultura, mas incentivava músicos que se apresentavam na cidade, mormente os jovens, faixa etária basicamente abandonada pela “crítica” de hoje em nossas cidades. Lutou também muitos decênios pela sobrevivência do “Festival Música Nova”, por ele criado. Assinou manifestos, polemizou, criou obras permanentes e tantas mais realizações que ampliam o significado da dignidade humana…

Preferi, nesta homenagem, a inserção de artigo publicado recentemente em Portugal na Revista Glosas (nº 13), em minha coluna “Ecos d’Além Mar”, pois o núcleo temático da revista, lançada em Novembro último, foi a ele dedicado. Lembro ao leitor que, no início de 2014, Edward Luiz Ayres de Abreu, Diretor de Glosas, e eu estivemos em Santos com o objetivo de entrevistar Gilberto Mendes para a publicação mencionada.

Transcrevo na íntegra meu texto publicado em “Ecos d’Além Mar”. Foi Gilberto que me aconselhou a escrever sobre nossa relação compositor intérprete, privilegiando as obras que apresento em público de 1985 ao presente. Nesse desiderato, escrevi o que segue, a ter como epígrafe frase precisa do grande Stravinsky, um dos eleitos de Gilberto Mendes, e que dimensiona essa absoluta simbiose entre o criador e aquele que traduzirá sonoramente a criação. Gostaria de frisar que já colocara minha posição sobre essa relação, sendo o intérprete o corredor de revezamento que passa o bastão para o próximo (nova geração) e o compositor de mérito o maratonista a correr percurso sem fim. A função do intérprete é transmitir a mensagem, mas a obra qualitativa, essa, permanece na história através dos séculos (“As Mortes do Intérprete”, Cultura de O Estado de São Paulo, 24/12,1988,pgs. 6 a 8).

“Ecos d’Além Mar” (Lisboa: Revista Glosas, 2015, nº 13):

“A entidade musical apresenta, pois,
essa estranha singularidade
de conter dois aspectos de existir simultânea e distintamente
sob duas formas, separadas uma da outra pelo silêncio do vazio.
Essa natureza particular da música comanda a sua vida própria
e suas repercussões na ordem social,
pois ela supõe duas espécies de músicos: o criador e o executante.
Igor Stravinsky

Um dos mistérios da criação seria a ideia que leva à composição e à provável divulgação. Qual a origem do pensamento primeiro que possibilita a elaboração? Estimulada ou autogerada, a ideia, à maneira de um leque, abre-se para a criação que é destinada à formatação pautada, manuscrita ou eletronicamente. O mistério em torno desse infinitesimal instante que precede a ideia teria basicamente três vertentes: o estímulo externo, o acervo cultural do compositor ou, ainda, o acaso.

Conheci Gilberto Mendes na década de 1970, quando descia de São Paulo à sua cidade natal, Santos, para recitais de piano. Encontros apenas casuais, sem consequências maiores. Nosso relacionamento estreitou-se quando ingressei na Universidade de São Paulo em 1982, onde fomos colegas desse ano até a sua reforma em 1992. Período de grande riqueza de entendimento, pois éramos os únicos que trazíamos marmitas para o almoço às quintas-feiras, dia das aulas de Gilberto. À mesa estreitamos laços amistosos e musicais, temas recorrentes em todas nossas conversas. Durante o dia, em momentos de descontração, Gilberto ia à minha sala e continuávamos a falar sobre música. Gostava de me ouvir tocar Fauré, Scriabine, Debussy e Albeniz. ‘Daria toda minha obra para ser o autor do 4º Noturno de Gabriel Fauré’, confessou-me.

Composições nasceram de nosso congraçamento. À medida que nos aprofundávamos na enriquecedora relação, Gilberto, sempre atento aos meus pedidos, passado algum tempo trazia-me cópia de nova partitura. Apresentei-as em público e gravei diversas na Bulgária e na Bélgica. À guisa de registro, menciono a lista, toda ela originária desse entendimento compositor-intérprete: Il Neige… de nouveau! (1985), alusão à célebre Il Neige!, de Henrique Oswald (vide Glosas nº 9 – núcleo temático dedicado a Henrique Oswald); Viva-Villa, homenagem a Villa-Lobos (1987) no ano de seu centenário. Trata-se de peça minimalista e uma das mais festejadas criações de Mendes pelo mundo. Um Estudo? Eisler e Webern Caminham nos Mares do Sul… (1989), composta para apresentações que realizei em Potsdam e Berlim, na antiga DDR, seis meses antes da queda do muro; Outro Estudo? Ainda Ulysses (1990), versão para piano solo de Ulysses em Copacabana Surfing with James Joyce and Dorothy Lamour para dez instrumentos; Lenda do Caboclo. A Outra (1992), como lembrança de A Lenda do Caboclo, de Villa-Lobos; Estudo Magno (1993), criação apresentada em minha Aula Magna na Universidade de São Paulo. Escreve Gilberto Mendes: ‘José Eduardo, como sempre, queria um estudo para sua coleção de estudos. Compus então um Estudo Magno, procurando certa magnitude, como pedia o título, do mais simples ao mais complexo, do bem tonal para o totalmente atonal, sempre no mesmo andamento, mas aumentando gradativamente a velocidade pelo valor das notas’. A seguir compôs O Pente de Istanbul. Um Outro (Estudo?) (1995), versão para piano solo de O Pente de Istanbul para percussão. Esta e a de Ulysses em Copacabana… surgiram, pois entendi serem as duas propícias ao piano solo, sendo que o dileto amigo assim também entendeu. A seguir nasce Estudo, Ex-Tudo, Eis Tudo pois – In Memoriam Jorge Peixinho (1997), composição gerada a partir do Étude Die Reihe-Courante, de Peixinho (1992). Gilberto Mendes, ao mencionar gravações de suas obras que realizei na Bélgica e lançadas em CD pela Academia Brasileira de Música, comenta: ‘esse CD inclui ainda  Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois, também pedido por José Eduardo, com o qual homenageamos um grande amigo comum, o compositor português Jorge Peixinho’.  Ao leitor, diria que nesse Estudo Gilberto Mendes se utiliza de elementos a gosto de  Peixinho – reminiscências de Darmstadt? -, dialogando com os seus: coral a privilegiar acordes que fazem parte do idiomático do compositor santista, citações tão ao seu agrado, entre as quais  lembranças dos Funerais de Liszt – obra que apresentei em recital na cidade de Santos dias antes da criação do In memoriam ao músico nascido em Montijo – e determinadas nonchalances jazzísticas. Gilberto Mendes comporia ainda Étude de Synthèse (2004). Comenta o autor: ‘José Eduardo curte bastante o que ele chama de os seus acordes quando fala comigo e me pediu um estudo novo para tocar em concertos na Europa, mas queria que fosse feito só com os tais de meus acordes, uma sequência deles. Tive dificuldades, a princípio, pois os meus acordes, afinal, são aqueles de todas as músicas modernas, as sétimas, as nonas, da música francesa, do jazz. Mas, como sempre, obedeci, e o próprio José Eduardo deu o título, Étude de Synthèse. Uma síntese de meus acordes, pinçados das muitas músicas que lhe dediquei, equalizados numa sequência em que se ligam abruptamente, massacrados pelo implacável compasso 9 por 8, como se todos constituíssem uma só linha muito longa. Um passeio pelo meu mundo harmônico’. Largo do Chiado (2008) é uma pequena peça com citações temáticas do fado A Severa, escrita para comemoração do cinquentenário de meu primeiro recital em Portugal (14/07/1959), na Academia de Amadores de Música em Lisboa, a convite do insigne Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Apresentei Largo do Chiado na mesma sala da AAM no dia 26 de maio de 2009.

Parte considerável das obras foi destinada ao meu projeto de Estudos para piano iniciado em 1985 e que conta até o presente com mais de 80 criações específicas, vindas de todos os quadrantes. Jocosamente, Mendes escreve: ‘Já compus vários estudos para o José Eduardo Martins, que não me deixa em paz, é insaciável, sempre quer mais um”. Só não escreveu que a ideia original partiu dele, ao elogiar o projeto de seu amigo, pianista e compositor Yvar Mikhashoff (1941-1993), que solicitou e recebeu cerca de 100 Tangos provenientes de tantos países, entre os quais The Three Fathers (1984), de Gilberto. Sem esses meus apelos para que compusesse Estudos, a Música estaria certamente privada de algumas obras-primas que nasceram a partir de nosso convívio.

Certo dia, almoçando no apartamento de Gilberto Mendes, em Santos, indaguei-lhe sobre suas composições para piano escritas no passado. Disse-me que eram sem importância e que estavam todas em um baú, mas que por elas não mais se interessava. Após insistência, sua dedicada esposa Eliane abriu a grande caixa de madeira e retirou de seu fundo um pacote cuidadosamente embalado. A primeira obra que abri foi a Sonatina Mozartiana (1951). Sentei-me ao piano e toquei para Gilberto. Ao final, ele disse: “Não é que ela é bonita!”. Gilberto Mendes relata essa prospecção arqueológica: ‘…sou-lhe grato por haver tocado toda a minha obra inicial, do período de minha formação praticamente autodidata, que estava esquecida nas gavetas. Cheguei, muitas vezes, a pensar em jogá-la fora… Sempre pensei em fazer uma revisão de todas essas peças muito antigas antes que alguém pudesse tocá-las, mas acabei não tendo tempo e José Eduardo acabou tocando-as em seu estado primitivo. Para surpresa minha verifiquei que elas não precisam de nenhuma revisão’. Continua, com uma ponta de ironia: ‘Quando jovens e desconhecidos, podemos levar a maior obra-prima a um intérprete, que ele nem se dignará a olhá-la (a não ser que seja um do tipo do José Eduardo Martins). Na minha idade tenho que cuidar muito do que apresento, porque qualquer porcaria que compuser será tocada’. Todo esse passado compôs um recital inteiro, que apresentei em várias cidades: Pequeno Álbum para Crianças (1945-1952), Sonatina Mozartiana (1951), Sonata (1953), 5 Prelúdios (1945-1953), 16 Peças para piano (1949-1959). Há verdadeiras joias nessa primeira fase gilbertiana. Dessas obras apresentadas gravei a Sonatina Mozartiana em Sofia, na Bulgária, apresentando–a regularmente em recitais. Já há várias outras gravações dessa deliciosa Sonatina Mozartiana realizadas por outros pianistas nos Estados Unidos, Europa e Japão.

Nosso relacionamento estendeu-se pelo repertório camerístico e piano e orquestra, pois apresentaria em público ao longo dos anos: Saudades do Parque Balneário Hotel (piano e saxofone alto), Longhorn (piano, trompete e trombone), Ulysses em Copacabana Surfing with James Joyce and Dorothy Lamour (flauta, clarineta, trompete, sax alto, 2 violinos, viola, violão, contrabaixo e piano); Cinco canções para canto e piano; Concerto para piano e orquestra; Rimsky (quarteto de cordas e piano), obra apresentada em tournée por várias cidades da Bélgica em 2004 (Rubio strijkkwartet). Ótimos músicos participaram das apresentações no Brasil de todas as obras precedentes.

Nos estertores da vida acadêmica de Gilberto Mendes incentivei-o a fazer o doutorado direto, uma das possibilidades para a obtenção do título e que faz parte da legislação da USP. Hesitou por várias vezes, mas aquiesceu e realizou uma tese extraordinária, que foi saudada pelo júri que tive a honra de integrar. Logo após Gilberto completaria 70 anos e estaria reformado. Sua tese, modificada, foi publicada pela Editora da Universidade de São Paulo (Edusp / Giordano) em 1994 em primorosa formatação como livro, Uma Odisséia Musical – Dos Mares do Sul à Elegância Pop/Art Déco.

Em 2013 Gilberto Mendes, compositor que teve sempre em mente títulos curiosos, quiçá desconcertantes para suas criações, mas que levam à reflexão, escreveu uma novela curta e instigante: Danielle em surdina, langsam (São Paulo, Algol, 2013). Na rubrica Ecos d’Além Mar de Glosas nº 11 escolhi como tema o pequeno livro de Gilberto em que há a presença do autor, consciente ou inconscientemente, como observador sempre atento a reter lembranças…

Neste número dedicado ao notável Gilberto Mendes, grande compositor que sempre compôs pelo prazer de compor e que se libertaria a tempo de amarras esterilizantes, criando um estilo rigorosamente pessoal, diria, verdadeiras impressões digitais – a escuta de suas diversificadas obras leva facilmente ao autor -, crítico competente, degustador do momento presente da existência, escritor amoroso e diletíssimo amigo, fica nestes Ecos d’Além Mar meu tributo carinhoso”.

As frases de Gilberto Mendes no texto acima foram extraídas de seus livros resenhados em meus blogs semanais: Uma Odisseia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco (13/10/2007); Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevsky (04/04/2009). Quanto à mencionada Danielle em Surdina, Langsam, a curta novela mereceu também resenha em post (06/04/2013).

A menção de episódio ocorrido em Gent, Bélgica, aos 17 de Março de 2008, dá bem a medida da comunicação total de peça emblemática de Gilberto Mendes. André Posman, diretor da De Rode Pomp, pediu-me, dois dias antes de meu recital em sua sala de concertos, que fizesse na manhã seguinte da minha apresentação um recital com obras menos densas e mais curtas para colegas de escola de seus dois filhos. Aquiesci com o maior prazer. Ao executar Viva-Villa, minimalista e plena de rítmica contagiante, fez-se a magia, pois espontaneamente os miúdos subiram ao palco e a peça de Gilberto foi sendo repetida algumas vezes. No final, mais de 50 crianças dançavam com gestos os mais diversos. Alegria plena. Em blog de 2008 escrevi sobre o encantamento daquela manhã e, ao contar -lhe o acontecido, Gilberto deu boas risadas. A foto é testemunha.

Clique para ouvir com José Eduardo Martins ao piano:

À-propos, a morte de Pierre Boulez (1925-2016), quatro dias após o falecimento de Gilberto Mendes, evidencia carreiras distintas. Boulez, francês, compositor, regente e ensaísta, fundador do IRCAM e do “Ensemble Intercontemporain”, foi talvez o mais influente músico da segunda metade do século XX, homem da Instituição, como defendia. Mendes frequentou Darmstadt em seu período áureo e teve contatos com Boulez. Diferentemente do compositor português Jorge Peixinho, que seguiu voluntariamente em sua carreira aconselhamentos de Darmstadt, Gilberto, também voluntariamente, soube pouco a pouco romper amarras, e o exemplo de Viva-Villa é claro, assim como de dezenas de obras após o gesto natural. A descontração gilbertiana – não confundir com desconstrução – tornar-se-ia uma de suas características primordiais. Foi a atitude voluntária que levou a criançada ao palco.

Gilberto Mendes lega-nos um acervo composicional extraordinário. Frequentou muitos gêneros musicais, “experimentou” várias tendências, inclusive com a utilização de meios da eletroacústica. Quanto às técnicas de composição, conhecia-as, e da tradição seu passado é testemunha. Aberto às artes, apreendeu conteúdos de correntes poéticas mais hodiernas, amalgamando-as, com raro êxito, às suas estruturas musicais. Gilberto recebera das musas um fino humor, por vezes irônico, que transparecia em tantas criações a partir de titulações hilariantes. Após a aposentadoria continuamos contatos permanentes e visitei-o várias vezes para almoços que emanavam a amizade sincera. A dedicadíssima esposa Eliane viveu quarenta anos ao seu lado, “uma segunda mãe”, como escreveu Gilberto na dedicatória de Uma Odisseia Musical, com ele viajando – sempre – pelo mundo quando das apresentações de suas composições. Pude sempre testemunhar com admiração a atenção absoluta que dispensava a Gilberto, que exalaria o último suspiro em seus braços amorosos. Seus filhos do primeiro casamento notabilizaram-se em áreas artísticas. Odorico e Carlos estiveram sempre próximos do insigne compositor, prestigiando-o e promovendo-o. Sinto que perdi uma referência fundamental em minha vida. Friso, essencial. No caminho que porventura ainda terei de trilhar, sua companhia é certa, através das tantas obras que privilegiam minha trajetória e que continuarei a tocar, aqui e alhures. Conforto espiritual e estético. Gilberto, um dos meus compositores eleitos. Gratidão ad eternum

Clique para ouvir com José Eduardo Martins ao piano a peça in memoriam Jorge Peixinho:

Today’s post is dedicated to Gilberto Mendes (in memoriam), a dear friend for more than thirty years, witty music critic and writer and, in my view, one of the most important Brazilian composers ever. I am honored to have presented the world première of a great number of his works, many of them generously dedicated to me. In tribute to him, I transcribe my article published on last November’s issue of the Portuguese music magazine Glosas, largely dedicated to Gilberto Mendes.