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Romance de Época – Variantes

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
Eugénio de Andrade

Luiz Gonzaga é bom amigo e vizinho. Encontramo-nos sempre pelas calçadas mal tratadas de nossa cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, pouco a pouco sendo frequentado pelos sem teto, pessoas a quem a Prefeitura de São Paulo prefere não dar destino claro, a escolher, à maneira do avestruz, mergulhar a cabeça do “poder” sob a terra, quando de decisões que possam provocar incômodos à administração pública. Num desses dias fomos tomar um curto no Natural da Terra. Bom momento para descontração. Política, futebol, cotidiano e o descaso das gestões da Prefeitura, mormente a atual, pelos problemas cruciais da cidade-bairro e da urbe como um todo.

A certa altura, Luiz Gonzaga disse-me que encontrou em um alfarrabista o romance de João Silvério Trevisan, “Ana em Veneza”. Folheou-o e prontamente comprou-o. Gostou imenso da leitura, apesar de ter ficado desorientado com o final, que lhe causou uma sensação de desequilíbrio devido à situação delirante do personagem central, “transmigrado” para a modernidade. Disse-lhe que li o romance, gostei, mas tive sensação muito próxima à sua.

Conversamos sobre a obra, que teve publicação em 1994 (São Paulo, Best Seller), e lá pelas tantas Luiz Gonzaga indagou-me sobre a menção, no romance, ao compositor romântico brasileiro Henrique Oswald (1852-1931). A fim de esclarecimento para o leitor que porventura desconheça a obra, mencionaria o enredo básico de “Ana em Veneza”. Estamos diante de romance de época, que permeia a segunda metade do século XIX e adentra o XX. Ficção e realidade se amalgamam, abordando personagens como Júlia da Silva Bruhns Mann (1851-1923), nascida em Parati e mãe do escritor alemão Thomas Mann (1875-1955); a mucama de Júlia, a negra Ana; o ilustre compositor Alberto Nepomuceno (1864-1920) e tantos outros mais. Tem-se desde a apresentação do bucólico vivido em Parati às infiltrações, na Europa, de conteúdos  culturais outros,  que tenderiam a modificar posturas dos figurantes.

Toda essa premissa para louvar a seriedade de João Silvério Trevisan na “fixação” histórica que leva a um hipotético encontro de Nepomuceno com Henrique Oswald, em Florença, onde este último vivia com sua família constituída na Península. Sabedor de minha tese de doutorado sobre Oswald, a primeira realizada sobre o compositor, quis saber pormenores. Conversamos e emprestei-lhe o volume que correspondia ao compartimento biográfico. Trevisan inteirou-se do tema e, com raríssima acuidade, realizou o “encontro” entre os dois mestres. Inicialmente fixa o autor a data de 12 de Agosto de 1890, e Nepomuceno relataria nesse imaginário criado: “Já estou em casa do Henrique Oswald, o compositor amigo do Miguez. Fui muito bem recebido. O Oswald mora com a mulher, Signora Laudomia, e os filhos numa villa modesta mas muito agradável, com um jardinzinho cheio de rosas, hortências e gerânios. A quinta chama-se Villino San Paolo e fica no alto da colina de Fiesole, em meio a vilas luxuosas onde moram muitos estrangeiros abastados”. Trevisan menciona os quatro filhos, mas ressalva que “a mais nova, Nini, é ainda de colo e tem saúde bem fraca”. Há sutileza, pois Nini morreria logo após. Na ficção, Nepomuceno mencionaria que “À noite, o Oswald tocou algumas de suas peças para piano. São obras cheias de elegância e colorido, esplendidamente elaboradas”. A exacerbação quanto à feitura tem procedência, pois realmente elas excedem na escritura, como argumentei na tese. Arguta a afirmação, “atribuída” a Nepomuceno, que “tocou também trechos de um concerto para piano e orquestra, que está terminando de escrever”. A essa altura, Oswald estava em plena elaboração do Concerto para piano e orquestra op. 10. Como curiosidade, a neta do compositor, minha saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, presenteou-me com o manuscrito autógrafo da versão para quinteto de cordas e piano que o autor fez do Concerto em menção. A gravação na íntegra, a partir desse manuscrito, está no YouTube (Quarteto Rubio, contrabaixo, e JEM ao  piano). Importa considerar, entre tantas outras situações de “Ana em Veneza”, a consciência de Trevisan em saber encontrar a fórmula que permitisse a fusão do fato real com a sua imaginação criativa. Luiz Gonzaga e eu ainda trocamos considerações sobre outras situações propostas por Trevisan, mormente a sócio-econômica de Parati nos anos 1860.

Entre incontáveis exemplos de romances de época, tantas vezes biográficos, mencionaria um pequeno e delicioso livro de Jean Echenoz sobre o compositor francês Maurice Ravel (Ravel. Paris, Minuit, 2006). O autor realizou extenso aprofundamento sobre a vida do músico, mormente os dez últimos anos. Pormenoriza os gostos voltados ao dandismo, possivelmente para atenuar a sua estatura bem pequena; atenta aos estados de ânimo do compositor; descreve os cuidadosos ambientes em que morava; relata, nesse “imaginário”, a célebre desavença real que teve em Nova York com o afamado regente italiano Arturo Toscanini em torno do célebre Bolero: “Quando Toscanini regeu à sua maneira, duas vezes mais rápido e accelerando, Ravel, aborrecido, foi vê-lo no camarim. Este não é o meu movimento, observou o compositor. Quando eu toco no movimento indicado, respondeu Toscanini, nenhum efeito se dá. Bem, retruca Ravel, então não mais conduza minha obra. Mas o senhor não conhece nada de sua música, continuou Toscanini, essa foi a única maneira que encontrei de agradar ao público. Ravel escreveria a Toscanini e o teor da carta é desconhecido”. O compositor, tendo sofrido problema degenerativo de origem neurológica, que o fez  afastar-se progressivamente do contato social, sofreria delicada intervenção cirúrgica que constataria a nítida diminuição de seu cérebro (não teria sido o que mais tarde ficaria conhecido como Mal de Alzheimer?). Echenoz, certamente após pesquisas na área, pormenoriza os lances do procedimento cirúrgico.   

Se a “fidelidade” ao real depende da intenção do autor em sua narrativa, há que se entender que o desvio da veracidade de maneira até acintosa é geralmente a norma em um romance ou filme. Neste, fatos até hilariantes e distorcidos podem influenciar incautos que entendem, falta de outra opção, a fantasia plena como autenticidade absoluta. O romance de época, ao centralizar figura relevante, pode desenvolver o simulacro, o caricato ou a busca do real. Nos dois romances mencionados, essa última via teria sido a intenção dos autores, fator meritório. Ao longo da trajetória da narrativa, desde a antiga Grécia deparamo-nos com o real e o imaginário. A mitologia está plena dessa mescla e os relatos sacros também. Creio que o leitor, munido das ferramentas para separar as opções propostas por um autor, estará apto a distinguir, no desenrolar do relato, o real e o ficcional. 

The idea for this week’s post came after a chat with a friend about characters in historical novels: authors may mix historical characters and settings with sheer fantasy. It is for the reader to find out, as the story unfolds, what is history and what is fiction.

        

Quando as Mensagens Têm Guarida

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, d’entre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
Guerra Junqueiro

Habitualmente insiro opinião de leitores. Alguns, “dissertadores” por vocação, colocam reflexões mais expandidas, o que me leva a considerá-las de interesse para demais leitores pelo desenvolvimento das ideias. Quatro expressivos músicos, todos do Exterior, e um referencial ex-locutor esportivo pátrio, hoje brilhante colunista, captaram a essência essencial do post e tiveram a sintonia plena com a infinidade de cantos e timbres que povoam nosso céu, nossas árvores, arbustos e beirais.

O ilustre compositor-pensador francês François Servenière enviou-me quantidade de cantos de pássaros franceses que maravilharam seu amigo. Ouvio-os todos. Extraordinário, mormente o meu preferido, o melro. Influência na adolescência? Talvez. Meu pai recitava na íntegra “O Melro”, do notável poeta Guerra Junqueiro. “Após a leitura de seu apaixonante artigo nesta manhã de sábado sobre os pássaros e seus cantos, diria que os ‘Grandes espíritos se reencontram’ uma vez mais. Meus únicos comentários são sonoros e estão anexados nos vários cantos que lhe envio. É necessário que você os ouça e, como bem diz José Eduardo, que música, que solistas incríveis”!!!

Devo ter tocado umas dez vezes em Évora, sempre conduzido pela diletíssima amiga e ilustre gregorianista portuguesa, Idalete Giga. Já comentei sobre sua paixão pelas cegonhas e, a cada viagem, Idalete se encanta ao vê-las em seus imensos ninhos colocados “cientificamente” no alto das torres de transmissão de energia ou de igrejas. É de Idalete o belo e-mail, seguido de expressivo poema de sua lavra:

“Desejo sinceramente que continue a escrever por muitos anos e a deliciar-nos com os seus textos sempre actuais, sempre lúcidos, sempre interessantes, independentemente dos temas. É curioso que as ideias lhe surjam enquanto percorre as ruas nas suas pequenas ‘maratonas’. A mim acontece-me algo semelhante, enquanto conduzo em pequenas ou longas viagens.

Sobre os ‘Pássaros que encantam’, adorei conhecer os seus nomes. O pitiguari é lindo! Também há pássaros tímidos, que não gostam de se mostrar. Como nasci no campo, conheço o canto de grande número de aves. Também me encantam. Tenho vários poemas sobre esses seres maravilhosos. Nos ‘Contos’ da escritora sueca Selma Lagerlof há alguns lindíssimos sobre aves canoras. Ela tem uma imaginação prodigiosa. O pintassilgo, por exemplo, tem as penas de várias cores porque foi o último a ser pintado por Deus com os restos de tintas que ficaram nos pincéis. O pintaroxo tem uma mancha avermelhada no peito porque, ao pousar na cruz para retirar um espinho da coroa de espinhos sobre a cabeça de Cristo, caiu-lhe no peito uma gota de sangue que lá ficou para sempre. Não acha lindo?

Creio que lhe ofereci um dos últimos poemas que escrevi. Aqui vai de novo:

Aves canoras
Pequeninos
deuses alados
vestidos
de graciosidade
e de leveza
Dádiva Divina
do Criador
à Amada Mãe-Natureza
Sábios
Mestres cantores
Excelsos improvisadores
de ritmos incontáveis
e sons encantatórios
Músicos do céu
Símbolos vivos
do Espirito liberto
do peso da Terra

Vou inserir este poema no livro que tenho já pronto para editar este ano. É um poema em memória de Olivier Messiaen. Não o conheci pessoalmente, mas conheci a viúva, Ivonne Loriot, numa tournée em França já nos anos 90. Cantámos La Transfiguration de Notre Seigneur Jésu Christ em várias cidades . Recordo-me bem dos intrincados ritmos desta obra, inspirados no canto dos pássaros. Ao piano estava Ivonne, que tocou tudo de cor!!!”

É do notável compositor português Eurico Carrapatoso o texto tão tipícamente transmontano e plenamente identificado com a passarada de sua aldeia:

“TAMBÉM EU ADORO PASSARADA, QUERIDO AMIGO.

Têm a agilidade dos corpos celestes, epifania da presença divina. Ritmadores imparáveis, cheios de rubato. Inspiração perene nas nossas vidas, verdadeiros poemas alados. Como gostei das denominações que desfilaste! Não conhecia a maioria delas. Toma lá algumas denominações da fauna transmontana (usadas na minha aldeia; às vezes mudam no concelho vizinho; e às vezes mudam mesmo na aldeia vizinha):

Xedre da cabeça preta
Milharenga,
Picanço
Boieira
Amarelante
Papa-figos
Noitibó
Boubela
Tordela
Cavalinho rinchão
Pisco
Tralhão
Mosqueiro
Moreiro
Pinta-ruivo
Abelharuco
Pica-peixe
Zirne
Chasco
Cínchala-raiz

Enfim, só para nomear alguns. Os próprios nomes são lindos como eles: os nossos pássaros.
Mais uma extrema afinidade, querido amigo”.

O último post foi dedicado ao “Passionário Polifónico de Guimarães”, extraordinária obra revelada na íntegra, a partir de profundo estudo do ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso. Escreveu-me neste 25 de Novembro a opinar sobre os pássaros: ” Acabo de ler também o seu blog dos pássaros. Trata-se de uma demonstração clara de um saber enciclopédico, que eu desconhecia e que enriquece a galeria dos músicos que souberam e sabem ouvir os cantos misteriosos dos pássaros. Sabe que, todas as manhãs, quando passeio não pelo paredão de Oeiras, e me cinjo à grande rotunda do jardim em frente da minha casa, também presto atenção aos pássaros que habitam nas árvores das alamedas. São certamente poucos e muito limitados nas espécies representadas, nada que se pareça com o seu léxico ornitológico, mas sempre vou prestando atenção ao diálogo que percebo travar-se entre os pares de pássaros, provavelmente comentando entre si coisas de amor ou, quem sabe, defesas contra a intempérie ou ridiculez dos homens.

Flávio Araújo, a memória do futebol, observa com a sensibilidade de quem sabe ouvir e entender:

“Maravilhado, encantado … que mais? O certo, amigo José Eduardo, é que não sei como qualificar a emoção que seu post me causou. Extraordinário. Chamei Yvette, minha mulher, para que também usufruísse desse privilégio. E fomos após a leitura ouvir os pássaros que nos cercam a cantar durante todos os momentos do dia. Só se aquietam quando a noite chega. Notadamente os sabiás. Aqui na cidadezinha onde vivemos é possivel uma caminhada do norte ao sul da mesma emendando o canto dessas maravilhas que são os sabiás. Ou as sabiás, não importa o gênero. Também não sabemos distinguir a que tipo pertencem, como faz o querido amigo. Mas o canto penetrante, persistente, nos encanta e serve de moldura para a leitura que acabamos de completar em conjunto. E pensar que acabara de escrever sobre a escolha do porto-riquenho Ricky qualquer coisa para ser o cantor oficial da Copa aqui no Brasil. Que discrepância. Onde estão os pássaros canoros do cancioneiro pátrio? O rock os matou a todos? Consolemo-nos, pois, com o canto de nossas aves”.

A ilustração do post é a dedicatória de meu livro “Encontros sob Música” (Belém, Cejup, 1990). A gaiola do sabiá-pardão-da-Bahia ficava abaixo da janela de meu quarto. Como esquecer seu canto? Registrei-o na memória. Sua melodia visitava o 1/4 de tom. Maravilhamento.

Clique para ouvir no YouTube, com J.E.M. ao piano, Le Rappel des Oiseaux, de J-P. Rameau.

This week’s post is a selection of messages from readers with comments on the post about birds. From Portugal, France and Brazil, people that, just like me, are fascinated by our feathered friends, wrote about the birds of their regions: their beautiful and diverse songs, their curious names, their role in poetry and visual arts.

 

Sempre por Perto

Bom dia, pássaros ouvintes!
Cá estou eu, Açor de Açores,
com o programa “Requintes”…
Já estão acordados?
Bem acordados?…
Hoje falaremos dos cuidados a ter com as penas,
as grandes e as pequenas.

Para manter bela plumagem
o melhor é banho frio
de manhã cedo no rio
e escovadela de areia
entre o almoço e a ceia.
Sumo de ameixas maduras
faz fantásticas madeixas
e evita muitas maleitas
futuras.
Violeta Figueiredo (“O Gato do pêlo em pé”)
(O arquipélago dos Açores deve seu nome ao açor, ave de rapina)

Desde o início da publicação do blog, pássaros sobrevoam meus textos. Tem sido uma constante. No primeiro, “Trochilidae” (14/03/2007), já descrevia um ninho de beija-flor no meio de uma primavera que floresce em vermelho, nos momentos em que galhardamente mantinha-se firme sob forte aguaceiro. Outros tantos temas sobre aves têm sido prazerosamente inseridos no blog e um em especial mereceu quantidade expressiva de e-mails, “Adeus, Coleirinha” (10/05/2008).

O epicentro de minha cidade-bairro assiste diariamente a um festival de pássaros que sobrevoam os espaços, pousam nas muitas árvores existentes e entoam seus maviosos cantos. A janela em frente ao computador está frequentemente aberta e posso assistir ao espetáculo in loco e ao vivo-sonoro a todo instante, com os personagens alados se revezando. Pousam sobre as árvores e são como bálsamo para os olhos, ouvidos e a alma dos humanos. Frise-se, para aqueles que sabem entendê-los.

Desde a infância tenho encanto pelas aves, mormente as canoras. Naquele período, algumas araras e papagaios, assim como canários belgas, eram mantidos por meu pai. Não faltavam cacarejos de tantas galinhas e o imponente e madrugador canto de um galo bravio. Uma alegria. Bem posteriormente, em período em que não havia restrições à manutenção de pássaros silvestres, tive em casa inúmeros pássaros cantores, a maioria deles vinda de mãos amigas espalhadas pelo país, após recitais de piano. Sabiam que era apreciador. Passava naturalmente pela alfândega, sem restrições, pois não havia nem controle, tampouco o Raio X, e alguns tiveram seus cantos retidos para sempre em minha memória. Estou a me lembrar de um extraordinário sabiá pardão da Bahia, com seu canto inconfundível. Ganhei do pai de um músico amigo na bela Salvador. Para mim, essa espécie tem o mais melodioso canto de nossas terras. Com a restrição justa e necessária, aparentemente os pássaros silvestres ficaram livres das gaiolas. Contudo, de maneira criminosa, nossas florestas estão sendo dizimadas e correntes poderosíssimas, puxadas por tratores que “marcham” em paralelo, destroem milhares de árvores diariamente. Em cada uma delas, dezenas, centenas de ninhos são abatidos e animais de tantas espécies sucumbem. Isso é um verdadeiro “holocausto”!!! O Planalto não se pronuncia. É o descaso pleno.

Tenho dois bons canários belgas (permitido por lei, pois ave não nativa) que preenchem durante o dia meus ouvidos. Quando da proibição, soltei todos os meus pássaros silvestres cantores, mantidos cuidadosamente em gaiolas, no bosque da Rua do Matão, na USP. Há várias décadas. Se não mais tenho pássaros “proibidos”, ficaram retidos na memória para sempre o canto de tantos deles: azulão, azulinho, bicudo, bigodinho, caboclinho, canário da terra, canário-tipio, cardeal, coleira do brejo, coleirinha, corrupião ou sofré, curió ou avinhado, curió do norte (um pouco menor do que o anterior), encontro, galo de campina, gralha, gurundi, pássaro-preto (não confundir com o chopim, pois o pássaro-preto é maior, e se criado desde filhote aprende outros cantos, sai da gaiola e aceita agrado), patativa, patativa chorona, pintassilgo, pintão, pixoxó (papa-arroz), pixoxó-estrela (tem canto estridente e em altos decibéis), sabiá-branco, sabiá-coleira (canto muito suave e melodioso), sabiá-laranjeira (seu canto é extremamente diversificado, a depender de “territórios” demarcados), sabiá-pardão (do sul), sabiá-poca, sabiá-una (sua aparência lembra muito o melro europeu), saíra, sanhaço, tié-sangue ou sangue de boi, tico-tico rei, trinca-ferro (pixarro, ou também eu-sou-saci-boi),… Muitos deles com inúmeras denominações  espalhadas pelo Brasil. Ainda hoje consigo distinguir bem a grande maioria de seus cantos, quando os ouço in natura ou através de vídeos ou CDs.

Com a primavera há o acasalamento e o motivo deste post está relacionado a essa diversificação que fascina, verdadeiro milagre na natureza, pois a cidade da minha infância-adolescência-juventude, tão acostumada aos pardais, assiste, através dessas últimas décadas assustadoramente poluídas de maneira crescente, a presença de pássaros os mais variados,  que cruzam os ares e nidificam nas árvores da nossa rua. Quantos não foram aqueles que pousaram no jasmin-manga em frente à janela, “extensão” da tela de meu computador? Sanhaço, sanhaço-do-coqueiro, sabiá-laranjeira, corruíra, pica-pau-joão-ferro, rolinha (caldo-de-feijão), caga-sebo, bem-te-vi, periquitos (maritacas) em bandos e provocando verdadeira algazarra, beija-flor, tico-tico…

Um apenas não gosta de ser visto. Não é nativo do Brasil, tendo emigrado do hemisfério norte. Talvez a razão de um certo “recato”. Tem um canto forte e repete aproximadamente o intervalo de terça menor (uma primeira nota e outra a seguir) durante duas ou três vezes. Canto incisivo, forte e penetrante. Há anos que tento vê-lo e identificá-lo, mas está sempre na copa das árvores. Frustrei-me, até que em um desses dias primaveris ouvi-o cantar em nossa casa, mas a repetir, excepcionalmente, por cinco vezes o tal intervalo de terça. Sorrateiramente subi os degraus que levam ao terraço ao fundo e, no alto da pitangueira, que neste ano foi muito dadivosa, vi-o entre galhos; portanto, numa “penumbra”. Um pássaro de 13 a 17cm, presumi. Não sabia sequer seu nome, mas  dias após, ao ouvir o canto em outro local, perguntei ao Julinho, motorista de táxi e amante de pássaros, se sabia  qual era esse misterioso passarinho. De bate pronto disse-me, pitiguari (também denominado gente-de-fora-vem). Busquei informações no “Dicionário dos Animais do Brasil”, do notável Rodolpho von Ihering (São Paulo, Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, 1940). Nada encontrei, por  tratar-se de animal alienígena. Fui descobrir as origens através de minucioso livro (Elizabeth Höfling e Hélio F. de Almeida Camargo. “Aves no Campus”. São Paulo, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, 1993). Ratificam os autores que o pitiguari “vive escondido na folhagem das árvores”. Após, ao consultar o Google, encontrei inúmeras imagens do pitiguari, sempre entre folhagens, e no YouTube, ouvi o característico canto. Segredo revelado, pois, o que me levará a ouvir seu canto de maneira mais familiar. 

Num outro contexto, não canoro, gaviões-pombo continuam a sobrevoar o entorno acima dos prédios no aguardo da distração de passarinhos menores (vide  A Vingança do Gavião, 11/04/2009) e pombos-domésticos têm invadido muitos espaços, nidificando em beirais e tantos mais lugares. Um problema ambiental,  pois carregam determinadas parasitas prejudiciais à saúde dos humanos.  Há quem goste desses pássaros urbanos da família Columbidae.

A primavera deste ano está sendo responsável por inusitada presença de ninhos. No arbusto denominado primavera, onde outrora beija-flor e rolinha fizeram seus ninhos, sabiá laranjeira construiu o berço de seus filhotes (ilustração) e na pitangueira há ninhos de sanhaço, rolinha e sabiá. Da primeira ninhada dessas aves, as crias já ganharam os ares. Uma sensação agradável se dá ao ouvir filhotes implorando alimentos e o pio das mães, seco, incisivo, demonstrando que suas presenças são a certeza de segurança, frutas e insetos.

Outras ninhadas virão. Esse constante renovar dimensiona nosso ânimo. Faz bem para a alma, mormente para o músico, pois a riqueza de timbres (verdadeira orquestra) nos leva a considerar a Criação. Não sem propósito, o grande compositor francês Olivier Messiaen (1908-1992) compôs o “Catalogue d’Oiseaux”, obra prima constituída de treze peças para piano. Tantos outros compositores se inspiraram no canto dos pássaros: Jean-Philippe Rameau (1783-1764) com suas célebres “Le Rappel des Oiseaux” et “La Poule”; Robert Schumann (1810-1856), “O pássaro profeta”; Tchaikowsky (1840-1893) “Le chant de l’alouette”; Maurice Ravel (1875-1937), “L’oiseau triste”; Igor Stravinsky (1882-1971), “O Pássaro de Fogo” e quantos mais… E nem mencionamos a infinidade de textos literários que reverenciam o canto das aves, assim como o pássaro na pintura desde os primórdios da civilização. As Artes têm a dádiva da empatia. Saber entender a mensagem dos pássaros é princípio de fusão…

This post is about the birds of the city of São Paulo. Since the ban on caging wild birds came into force, they have grown in number and variety. This spring I had the joy of watching three different birds make their nests and raise their young in my backyard. By now they have already fled the nests, but with their wide range of timbres and colors they were a present for a musician and a balm for anyone’s soul.