Navegando Posts em Cotidiano

Sempre por Perto

Bom dia, pássaros ouvintes!
Cá estou eu, Açor de Açores,
com o programa “Requintes”…
Já estão acordados?
Bem acordados?…
Hoje falaremos dos cuidados a ter com as penas,
as grandes e as pequenas.

Para manter bela plumagem
o melhor é banho frio
de manhã cedo no rio
e escovadela de areia
entre o almoço e a ceia.
Sumo de ameixas maduras
faz fantásticas madeixas
e evita muitas maleitas
futuras.
Violeta Figueiredo (“O Gato do pêlo em pé”)
(O arquipélago dos Açores deve seu nome ao açor, ave de rapina)

Desde o início da publicação do blog, pássaros sobrevoam meus textos. Tem sido uma constante. No primeiro, “Trochilidae” (14/03/2007), já descrevia um ninho de beija-flor no meio de uma primavera que floresce em vermelho, nos momentos em que galhardamente mantinha-se firme sob forte aguaceiro. Outros tantos temas sobre aves têm sido prazerosamente inseridos no blog e um em especial mereceu quantidade expressiva de e-mails, “Adeus, Coleirinha” (10/05/2008).

O epicentro de minha cidade-bairro assiste diariamente a um festival de pássaros que sobrevoam os espaços, pousam nas muitas árvores existentes e entoam seus maviosos cantos. A janela em frente ao computador está frequentemente aberta e posso assistir ao espetáculo in loco e ao vivo-sonoro a todo instante, com os personagens alados se revezando. Pousam sobre as árvores e são como bálsamo para os olhos, ouvidos e a alma dos humanos. Frise-se, para aqueles que sabem entendê-los.

Desde a infância tenho encanto pelas aves, mormente as canoras. Naquele período, algumas araras e papagaios, assim como canários belgas, eram mantidos por meu pai. Não faltavam cacarejos de tantas galinhas e o imponente e madrugador canto de um galo bravio. Uma alegria. Bem posteriormente, em período em que não havia restrições à manutenção de pássaros silvestres, tive em casa inúmeros pássaros cantores, a maioria deles vinda de mãos amigas espalhadas pelo país, após recitais de piano. Sabiam que era apreciador. Passava naturalmente pela alfândega, sem restrições, pois não havia nem controle, tampouco o Raio X, e alguns tiveram seus cantos retidos para sempre em minha memória. Estou a me lembrar de um extraordinário sabiá pardão da Bahia, com seu canto inconfundível. Ganhei do pai de um músico amigo na bela Salvador. Para mim, essa espécie tem o mais melodioso canto de nossas terras. Com a restrição justa e necessária, aparentemente os pássaros silvestres ficaram livres das gaiolas. Contudo, de maneira criminosa, nossas florestas estão sendo dizimadas e correntes poderosíssimas, puxadas por tratores que “marcham” em paralelo, destroem milhares de árvores diariamente. Em cada uma delas, dezenas, centenas de ninhos são abatidos e animais de tantas espécies sucumbem. Isso é um verdadeiro “holocausto”!!! O Planalto não se pronuncia. É o descaso pleno.

Tenho dois bons canários belgas (permitido por lei, pois ave não nativa) que preenchem durante o dia meus ouvidos. Quando da proibição, soltei todos os meus pássaros silvestres cantores, mantidos cuidadosamente em gaiolas, no bosque da Rua do Matão, na USP. Há várias décadas. Se não mais tenho pássaros “proibidos”, ficaram retidos na memória para sempre o canto de tantos deles: azulão, azulinho, bicudo, bigodinho, caboclinho, canário da terra, canário-tipio, cardeal, coleira do brejo, coleirinha, corrupião ou sofré, curió ou avinhado, curió do norte (um pouco menor do que o anterior), encontro, galo de campina, gralha, gurundi, pássaro-preto (não confundir com o chopim, pois o pássaro-preto é maior, e se criado desde filhote aprende outros cantos, sai da gaiola e aceita agrado), patativa, patativa chorona, pintassilgo, pintão, pixoxó (papa-arroz), pixoxó-estrela (tem canto estridente e em altos decibéis), sabiá-branco, sabiá-coleira (canto muito suave e melodioso), sabiá-laranjeira (seu canto é extremamente diversificado, a depender de “territórios” demarcados), sabiá-pardão (do sul), sabiá-poca, sabiá-una (sua aparência lembra muito o melro europeu), saíra, sanhaço, tié-sangue ou sangue de boi, tico-tico rei, trinca-ferro (pixarro, ou também eu-sou-saci-boi),… Muitos deles com inúmeras denominações  espalhadas pelo Brasil. Ainda hoje consigo distinguir bem a grande maioria de seus cantos, quando os ouço in natura ou através de vídeos ou CDs.

Com a primavera há o acasalamento e o motivo deste post está relacionado a essa diversificação que fascina, verdadeiro milagre na natureza, pois a cidade da minha infância-adolescência-juventude, tão acostumada aos pardais, assiste, através dessas últimas décadas assustadoramente poluídas de maneira crescente, a presença de pássaros os mais variados,  que cruzam os ares e nidificam nas árvores da nossa rua. Quantos não foram aqueles que pousaram no jasmin-manga em frente à janela, “extensão” da tela de meu computador? Sanhaço, sanhaço-do-coqueiro, sabiá-laranjeira, corruíra, pica-pau-joão-ferro, rolinha (caldo-de-feijão), caga-sebo, bem-te-vi, periquitos (maritacas) em bandos e provocando verdadeira algazarra, beija-flor, tico-tico…

Um apenas não gosta de ser visto. Não é nativo do Brasil, tendo emigrado do hemisfério norte. Talvez a razão de um certo “recato”. Tem um canto forte e repete aproximadamente o intervalo de terça menor (uma primeira nota e outra a seguir) durante duas ou três vezes. Canto incisivo, forte e penetrante. Há anos que tento vê-lo e identificá-lo, mas está sempre na copa das árvores. Frustrei-me, até que em um desses dias primaveris ouvi-o cantar em nossa casa, mas a repetir, excepcionalmente, por cinco vezes o tal intervalo de terça. Sorrateiramente subi os degraus que levam ao terraço ao fundo e, no alto da pitangueira, que neste ano foi muito dadivosa, vi-o entre galhos; portanto, numa “penumbra”. Um pássaro de 13 a 17cm, presumi. Não sabia sequer seu nome, mas  dias após, ao ouvir o canto em outro local, perguntei ao Julinho, motorista de táxi e amante de pássaros, se sabia  qual era esse misterioso passarinho. De bate pronto disse-me, pitiguari (também denominado gente-de-fora-vem). Busquei informações no “Dicionário dos Animais do Brasil”, do notável Rodolpho von Ihering (São Paulo, Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, 1940). Nada encontrei, por  tratar-se de animal alienígena. Fui descobrir as origens através de minucioso livro (Elizabeth Höfling e Hélio F. de Almeida Camargo. “Aves no Campus”. São Paulo, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, 1993). Ratificam os autores que o pitiguari “vive escondido na folhagem das árvores”. Após, ao consultar o Google, encontrei inúmeras imagens do pitiguari, sempre entre folhagens, e no YouTube, ouvi o característico canto. Segredo revelado, pois, o que me levará a ouvir seu canto de maneira mais familiar. 

Num outro contexto, não canoro, gaviões-pombo continuam a sobrevoar o entorno acima dos prédios no aguardo da distração de passarinhos menores (vide  A Vingança do Gavião, 11/04/2009) e pombos-domésticos têm invadido muitos espaços, nidificando em beirais e tantos mais lugares. Um problema ambiental,  pois carregam determinadas parasitas prejudiciais à saúde dos humanos.  Há quem goste desses pássaros urbanos da família Columbidae.

A primavera deste ano está sendo responsável por inusitada presença de ninhos. No arbusto denominado primavera, onde outrora beija-flor e rolinha fizeram seus ninhos, sabiá laranjeira construiu o berço de seus filhotes (ilustração) e na pitangueira há ninhos de sanhaço, rolinha e sabiá. Da primeira ninhada dessas aves, as crias já ganharam os ares. Uma sensação agradável se dá ao ouvir filhotes implorando alimentos e o pio das mães, seco, incisivo, demonstrando que suas presenças são a certeza de segurança, frutas e insetos.

Outras ninhadas virão. Esse constante renovar dimensiona nosso ânimo. Faz bem para a alma, mormente para o músico, pois a riqueza de timbres (verdadeira orquestra) nos leva a considerar a Criação. Não sem propósito, o grande compositor francês Olivier Messiaen (1908-1992) compôs o “Catalogue d’Oiseaux”, obra prima constituída de treze peças para piano. Tantos outros compositores se inspiraram no canto dos pássaros: Jean-Philippe Rameau (1783-1764) com suas célebres “Le Rappel des Oiseaux” et “La Poule”; Robert Schumann (1810-1856), “O pássaro profeta”; Tchaikowsky (1840-1893) “Le chant de l’alouette”; Maurice Ravel (1875-1937), “L’oiseau triste”; Igor Stravinsky (1882-1971), “O Pássaro de Fogo” e quantos mais… E nem mencionamos a infinidade de textos literários que reverenciam o canto das aves, assim como o pássaro na pintura desde os primórdios da civilização. As Artes têm a dádiva da empatia. Saber entender a mensagem dos pássaros é princípio de fusão…

This post is about the birds of the city of São Paulo. Since the ban on caging wild birds came into force, they have grown in number and variety. This spring I had the joy of watching three different birds make their nests and raise their young in my backyard. By now they have already fled the nests, but with their wide range of timbres and colors they were a present for a musician and a balm for anyone’s soul.

Esperanças e Incertezas

…sei que só o espírito governa os homens e de maneira absoluta.
Se o homem imaginou uma estrutura, escreveu o poema,
e colocou a semente no coração dos seus semelhantes,
aí então se submetem como servidores, não apenas
interesse, mas também alegria ou razão
que serão doravante expressões no coração
ou sombra sobre o muro das realidades,
da transformação em árvore de tua semente.
Antoine de Saint-Exupéry (“Citadelle”)

Após mais de seis anos e meio de posts, inseridos semanalmente de maneira ininterrupta, chegamos aos 400.000 acessos. Cifra ínfima nessa “civilização do espetáculo”, como bem afirma Mario Vargas Llosa, nível impensável para este músico-escriba que assiste ao lento e progressivo aumento de generosos leitores. Se pensarmos no número de acessos diários de determinados blogs voltados à política, ao futebol, à violência, à moda, à música pop, como alguns exemplos, a cifra acima pareceria um simples pedregulho. De Saint-Exupéry  emerge a amplidão hermenêutica da reunião das pedras para a edificação do Templo.

Os temas do blog praticamente não mudaram. Música, cotidiano, impressões de viagens, personalidades, literatura. Ao acessar o menu à direita (resenhas e comentários), o leitor terá a lista completa de livros resenhados ou comentados desde o primeiro post. A data ao final da indicação facilita a consulta.

Alguns aspectos gostaria de frisar, pois aquele que escreve regularmente sofre os impactos de tudo que o cerca. Trabalhando em casa, raríssimas vezes saio para compromissos sociais, mas sim para tarefas do cotidiano ou para treinos de corrida nas ruas de minha cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo. Quanto aos compromissos musicais, não os tenho no Brasil, e a apresentação em Botucatu foi de grande alegria para o velho intérprete, mas exceção. Contudo, os paradoxos de nossa atualidade chegam-me através da internet ou de algum programa especial da TV a cabo, pois é quase impossível assistir à TV aberta, dado seu nível sempre descendente.

Nos treinos, as passadas da corrida estimulam o pensar e os temas dos posts brotam naturalmente. Mesmo as resenhas ou comentários de livros amadurecem durante os treinamentos. À noite, as horas da madrugada são propícias para a decantação dos textos que fluem. Se há beleza, e assim deveria ser sempre em tantas coisas que presenciamos, impossível não ficar indiferente ao que se passa ao nosso entorno. Em muitos posts, contrariando a minha vontade interior, abordo fatos que certamente estão a afetar o equilíbrio mental do cidadão brasileiro. Nesse preciso momento em que escrevo ouço três tiros na rua. Uma hora da manhã. Nem ouso abrir a janela. É essa parte de nossa realidade que se acentua aceleradamente e com a qual somos obrigados a conviver.

Como não ficar alheio às reivindicações de centenas de milhares de pessoas que foram às ruas ultimamente? Como esquecer o descaso matreiro dos políticos pelos pacíficos protestos, mercê do tempo que corrobora esse olvidar? Como entender a arbitrariedade e despreparo de um alcáide que eleva o IPTU de maneira desastrosa para cidadãos que têm seus salários e aposentadorias constantemente achatados e que prometeu, em campanha, mudanças devido à sua capacidade de “renovação”? Pensou o atual burgomestre na real situação de tradicionais moradores que nada têm a ver com a especulação imobiliária e que já pagariam alto imposto se vendessem seus imóveis, através do ITBI (imposto sobre a transmissão de bens imóveis e de direitos a eles relativos), de competência do município, e, no caso da transmissão ser por herança (“Causa mortis”), do ITCMD, imposto estadual? Um acinte absoluto o estratosférico IPTU, pois várias vezes acima da inflação. A votação favorável na Câmara foi um dos episódios dantescos daquela Casa. O Ministério Público Estadual está atento. Como não desconfiar da vontade do partido majoritário de tudo conquistar, com o absoluto, ferrenho e irrestrito “desejo” de seus dirigentes e militantes? Como exemplo de arrogância, o termo presidente só é pronunciado com o “a” final, ao invés do “e”, graças à aceitação plena dos adeptos. Basicamente só estes são rigorosamente fiéis ao emprego da palavra num feminino inexistente. Ante tamanho ataque à língua portuguesa, como reagiriam Eça, Machado e outros luminares do passado? Como não se preocupar com um Supremo Tribunal Federal, majoritariamente constituído por ministros indicados, nestes últimos 10 anos, por mandatários de um mesmo partido? E o “Mensalão” e seus personagens maiores, que pouco a pouco estão a sair do noticiário por conta de intermináveis recursos – hélas – e julgados pelo atual STF? Calendas gregas? Jorge Hage, ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, em entrevista a jornalistas após o 1º Fórum Regulatório da América Latina, realizado em São Paulo, observou: “Eu sempre disse que um processo no Brasil contra um criminoso de colarinho branco endinheirado só termina em menos de 20 anos se ele quiser. Se ele não quiser, não termina”. Continua: “O problema é a legislação processual brasileira, que não tem paralelo no mundo em matéria das possibilidades infinitas de recursos que ela oferece aos réus, sobretudo aos réus endinheirados, que podem contratar os melhores escritórios de advocacia do País para encontrar as brechas nas leis, não só de possibilidades de recursos quanto de outros incidentes protelatórios” (Portal Terra, 04/11/2013, 18:45). Como não se estarrecer com a leva de milhares de médicos cubanos, “espécie de escravos da medicina familiar e comunitária”, segundo o comentarista das Organizações Globo Alexandre Garcia, para abastecer com seu trabalho os cofres da hedionda ditadura cubana, onde habita o mais antigo ditador do planeta?  Contraria o Planalto a legislação concernente ao contrato de trabalho vigente no Brasil em nome de uma ideologia que “gostaria” de ver implantada no país. Como ficar indiferente ao vandalismo que destrói diariamente bens públicos e privados, sem que as autoridades penalizem com rigor bandos de celerados? Como não se entristecer ao ler notícias sobre a Universidade de São Paulo, que, em ranking estabelecido por relevante entidade internacional, é rebaixada bem além do nº 200? Falta de autoridade intra e extra-muros, incontroláveis e irracionais manifestações provocadas por minoria de alunos e funcionários, que ocuparam a reitoria e fecharam portões em nome de ideologia retrógrada. Melhores alunos, mais eficientes funcionários? Ledo engano. Estou a me lembrar de que jamais participei de greves quando docente. Em uma oportunidade, quando chefe de Departamento, só, em minha sala, ouvi gritos de alunos grevistas que queriam forçar a porta de entrada, pois sabiam que eu lá estava. Abri a porta e uma das alunas, completamente transtornada, dirigiu-se a mim e, com dedo em riste que quase me tocou, proferiu palavras de ordem, injuriosas. Tinha as iniciais de um partido político de ultra esquerda gravadas na testa. Disse-lhe que se ela encostasse o dedo em mim prontamente deixaria o prédio, pois estaríamos voltando à barbárie. Após xingamentos e palavras impublicáveis de alguns alunos, retiraram-se. Jamais em nossa terra a “civilização do espetáculo” esteve a mostrar tão abertamente suas chagas. Se tantas distorções existem, se nossos canais de televisão aberta ou o rádio divulgam aproximadamente 90% de notícias relacionadas ao crime e à violência em todos os níveis, assim como escândalos relacionados à corrupção, que pululam todos os dias, há que se pensar que, nesse caso específico de corruptores (quase sempre na sombra) e corruptos, algo positivo e bom ainda teima em sobreviver. E, ao que parece, nossos meios de comunicação ainda têm autonomia, apesar da permanente tentativa do Poder Central de silenciá-los.

A Cultura, palavra tão utilizada à maneira de uma chave mestra, está agonizando. Pelo menos aquela tradicionalmente aceita. Sentimos essa mutação a cada dia. Educação e Cultura são palavras tão próximas e tão desprezadas, mormente pela classe política. Todavia, a busca neste espaço de alguns ideais voltados à tradição ainda me norteiam. Um livro que me interessa a abordar os vários níveis do conhecimento; as experiências das viagens; o cotidiano renovado a cada dia e a música, companheira desde a infância, são temas constantes. Poucos e fiéis amigos e a família, essência essencial na minha vida. Continuarei ligado às temáticas. Creio que o grão de areia tem muito a contar a respeito da praia e do deserto. Enquanto o sopro persistir em meus pulmões, continuarei a tocar e a escrever. A sugestão de meu dileto amigo Magnus Bardela, num passado que já se faz longínquo, para que começasse a escrever outros textos, independentemente dos artigos e ensaios para revistas arbitradas internacionais, frutificou, e desde 2 de Março de 2007 convivo com meus leitores, sem jamais ter deixado de postar um texto por semana. Oxalá ainda persista por muitos anos nesta prazerosa atividade.

This week my blog reached 400.000 visitors. I’m still faithful to the subjects that are dear to me ─ music, travel, literature, people ─ though the world around me often forces me to address issues that I would rather forget. My thanks for all who helped me reach this milestone.

 


 

 

Considerações que Surgem

Como nada entenderam do passado,
nada podem sonhar para o futuro.
Agostinho da Silva

Minha mulher Regina e eu fomos ao consultório do Prof. Dr. Heitor Ulson. Nesses últimos anos o ilustre médico realizou as cirurgias em minhas mãos para sanar-me de mal, a “Rizartrose”, que é terrível para os pianistas, entre tantas outras ocupações em que a destreza faz parte do bom desempenho. Teve pleno êxito, e eu agradeço ad eternum ao competente cirurgião, primo irmão de Regina. Seu consultório fica em frente ao Hospital Samaritano, um dos mais respeitados da cidade.

O leitor poderá perguntar-se: “o que há de dramático nisso?” Um elemento  poderia estar na quantidade de pacientes que, em sites internacionais, lamentam ter realizado a cirurgia. Tiveram plena esperança e o resultado não foi bom. Uma segunda reflexão sobre nossa triste realidade deu-se quando de nosso regresso à cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo (c.13km),  que pode ser feito em 20 minutos durante um sábado à tarde ou domingo – não é garantia -, e durou duas horas e mais esses 20 minutos. Acidentes no percurso? Nenhum. Congestionamento extraordinário e, se de lá saímos às 17:30, cá chegamos às 19:50. No dia seguinte, meu caríssimo amigo Magnus e sua esposa Kátia (casaram-se em Julho) vieram até  nossa casa para jantar em um bom restaurante próximo que ainda mantém – raríssima exceção – preços razoáveis. Saíram da Vila Madalena (c.12km) e demoraram mais de duas horas nesse curto trajeto.

Vêm a propósito palavras recentes do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, que afirma com convicção – nesse momento difícil por que passa o país – entender bem positivamente o crescimento da produção de veículos automotores e a expansão da construção civil (sic). Essas palavras podem iludir a tantos incautos e, certamente, agradam aos empresários dessas “forças motrizes” do processo de “desenvolvimento”.

O leitor poderá perguntar com seus botões: “o que existe de dramático nesse crescimento”? Se pensarmos na cidade de São Paulo como megalópole desordenada,  entenderemos as sábias palavras de um dos mais notáveis prefeitos da cidade de São Paulo, o Engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz (1918-1994) – o outro foi certamente Prestes Maia (1896-1965) – que, no início da década de 1970, proferiu a célebre frase, a dizer que São Paulo “precisava parar de crescer”. Uma cidade utópica foi imaginada pelos que pensavam a urbe de maneira humanística. Ledo engano. Infelizmente, Figueiredo Ferraz ficou pouco tempo à frente da Prefeitura e suas palavras se volatizaram.

Estatisticamente, o crescimento do número de veículos produzidos pelas montadoras bate recordes constantes e, pela lógica, aumentou assustadoramente a quantidade deles em São Paulo. Temos bem mais de 7.000.000 de veículos emplacados na cidade, assim como um número acima de 800.000 motos. Sob o aspecto da construção civil, há o incentivo permanente do governo, possibilitando financiamentos que se estendem a perder de vista. Na contramão do mínimo espírito de bom senso e no intuito de assistir ao aumento da produção de veículos e da construção civil, o Ministro da Fazenda enaltece esse crescimento que, para as grandes cidades, já é tragédia em curso. Essas mais de duas horas que Magnus e eu, em dias diferentes, demoramos num curto trajeto serão certamente duplicadas em pouco tempo, mormente pelo fato de que a malha viária está saturada, não há praticamente espaço para alargamentos das vias, mas o volume de carros só aumenta. Transporte urbano? Que o cidadão ensaie entrar em metrô na hora do rush na Praça da Sé ou pegar um ônibus nesse horário na Av. Santo Amaro ou em outras incontáveis avenidas e praças da cidade! Numa divagação, o metrô teria um aumento “aritmético” de suas possibilidades, enquanto assistimos a um progresso “geométrico” de veículos, provocando o entupimento de nossas vias carroçáveis.  

A jornalista Míriam Leitão, em artigo de plena lucidez – “No meio do redemoinho” – publicado em seu blog de O Globo (14.08.2013), escreve:  “Tudo o que podia ser feito de errado foi feito, e tudo que podia dar errado, deu. E os problemas se juntaram em um nó cego. O governo incentivou a compra de carros com redução de IPI para aumentar o crescimento econômico. Não conseguiu o que queria, mas multiplicou os carros nas ruas, entupindo o trânsito e tornando a mobilidade urbana desesperadora”. A verdade é que realmente tudo está a apontar para a paralisação total das grandes urbes, sob os olhares anuviados do Planalto. O caos já é realidade, mas incentivam a produção e as grandes cidades, sem mais espaço nas vias públicas, agonizam.

Um outro caos está por vir. As construtoras, ávidas por lucro, concentram-se na região central da cidade. Edifícios com mais de trinta andares pipocam por todos os lados do centro expandido. Um ex-colega em comissões na Universidade de São Paulo, o ilustre Professor Ivanildo Hespanhol, especialista em engenharia sanitária e ambiental, já apontava, em conversa que tivemos numa das reuniões da Academia, para a crise dos recursos hídricos e a necessidade imperiosa da cidade pensar no reuso da água. O desmedido estímulo à construção civil, o consumo cada vez maior, faz com que o abastecimento da megalópole tenha de vir progressivamente de regiões mais distantes, pois basicamente parte do fornecimento depende de captação de água na vizinha Bacia Hidrográfica do Piracicaba-Capivari-Jundiaí.

Estão os dirigentes das montadoras ou os incorporadores de imóveis preocupados com os pósteros? É claro que não. Não é uma espécie de “crime” contra seus próprios descendentes, para não mais dizer, o legado que deixarão, ou seja, a cidade travada, os recursos hídricos a se estiolarem, a poluição a destruir a saúde, o que provoca desajuste social, violência, diminuição do convívio familiar, mercê do stress excessivo? Não estaria a palavra corrupção sempre a rondar conluios estranhos?

Longe estamos de sequer imaginar o conteúdo da “Utopia”, de Thomas More (1478-1535). Seria demais para os cidadãos habituados às contínuas mazelas de governantes e poderosos. Mas a essência que moveu São Thomas More teria certa semelhança com o que estamos a assistir, considerando-se o que o levou à sua obra imorredoura. Inglaterra e os camponeses na miséria, a realeza só a pensar no poder e na riqueza e uma Justiça extremamente cruel no período.

Sim, um mundo utópico a partir das palavras mencionadas do Prefeito Figueiredo Ferraz foi idealizado pela nossa geração naqueles anos 1970. Esvai-se ante a sanha desse Leviatã que tudo devora. Planalto, classe política, montadoras, empreiteiras, incorporadoras… Nada a fazer, a não ser esperar pelo pior, que já bate à porta.

Two key problems, among others, are affecting the mental and physical health of dwellers of large cities in Brazil: gigantic traffic jams due to our constantly growing automobile fleet and the irrational construction of skyscrapers within the expanded city centres. Authorities – unable to see beyond the immediate future – encourage both, which they see as two of the driving forces of the Brazilian “development”.