Navegando Posts em Cotidiano

Quando as Mensagens Têm Guarida

O melro, eu conheci-o:
Era negro, vibrante, luzidio,
Madrugador, jovial;
Logo de manhã cedo
Começava a soltar, d’entre o arvoredo,
Verdadeiras risadas de cristal.
Guerra Junqueiro

Habitualmente insiro opinião de leitores. Alguns, “dissertadores” por vocação, colocam reflexões mais expandidas, o que me leva a considerá-las de interesse para demais leitores pelo desenvolvimento das ideias. Quatro expressivos músicos, todos do Exterior, e um referencial ex-locutor esportivo pátrio, hoje brilhante colunista, captaram a essência essencial do post e tiveram a sintonia plena com a infinidade de cantos e timbres que povoam nosso céu, nossas árvores, arbustos e beirais.

O ilustre compositor-pensador francês François Servenière enviou-me quantidade de cantos de pássaros franceses que maravilharam seu amigo. Ouvio-os todos. Extraordinário, mormente o meu preferido, o melro. Influência na adolescência? Talvez. Meu pai recitava na íntegra “O Melro”, do notável poeta Guerra Junqueiro. “Após a leitura de seu apaixonante artigo nesta manhã de sábado sobre os pássaros e seus cantos, diria que os ‘Grandes espíritos se reencontram’ uma vez mais. Meus únicos comentários são sonoros e estão anexados nos vários cantos que lhe envio. É necessário que você os ouça e, como bem diz José Eduardo, que música, que solistas incríveis”!!!

Devo ter tocado umas dez vezes em Évora, sempre conduzido pela diletíssima amiga e ilustre gregorianista portuguesa, Idalete Giga. Já comentei sobre sua paixão pelas cegonhas e, a cada viagem, Idalete se encanta ao vê-las em seus imensos ninhos colocados “cientificamente” no alto das torres de transmissão de energia ou de igrejas. É de Idalete o belo e-mail, seguido de expressivo poema de sua lavra:

“Desejo sinceramente que continue a escrever por muitos anos e a deliciar-nos com os seus textos sempre actuais, sempre lúcidos, sempre interessantes, independentemente dos temas. É curioso que as ideias lhe surjam enquanto percorre as ruas nas suas pequenas ‘maratonas’. A mim acontece-me algo semelhante, enquanto conduzo em pequenas ou longas viagens.

Sobre os ‘Pássaros que encantam’, adorei conhecer os seus nomes. O pitiguari é lindo! Também há pássaros tímidos, que não gostam de se mostrar. Como nasci no campo, conheço o canto de grande número de aves. Também me encantam. Tenho vários poemas sobre esses seres maravilhosos. Nos ‘Contos’ da escritora sueca Selma Lagerlof há alguns lindíssimos sobre aves canoras. Ela tem uma imaginação prodigiosa. O pintassilgo, por exemplo, tem as penas de várias cores porque foi o último a ser pintado por Deus com os restos de tintas que ficaram nos pincéis. O pintaroxo tem uma mancha avermelhada no peito porque, ao pousar na cruz para retirar um espinho da coroa de espinhos sobre a cabeça de Cristo, caiu-lhe no peito uma gota de sangue que lá ficou para sempre. Não acha lindo?

Creio que lhe ofereci um dos últimos poemas que escrevi. Aqui vai de novo:

Aves canoras
Pequeninos
deuses alados
vestidos
de graciosidade
e de leveza
Dádiva Divina
do Criador
à Amada Mãe-Natureza
Sábios
Mestres cantores
Excelsos improvisadores
de ritmos incontáveis
e sons encantatórios
Músicos do céu
Símbolos vivos
do Espirito liberto
do peso da Terra

Vou inserir este poema no livro que tenho já pronto para editar este ano. É um poema em memória de Olivier Messiaen. Não o conheci pessoalmente, mas conheci a viúva, Ivonne Loriot, numa tournée em França já nos anos 90. Cantámos La Transfiguration de Notre Seigneur Jésu Christ em várias cidades . Recordo-me bem dos intrincados ritmos desta obra, inspirados no canto dos pássaros. Ao piano estava Ivonne, que tocou tudo de cor!!!”

É do notável compositor português Eurico Carrapatoso o texto tão tipícamente transmontano e plenamente identificado com a passarada de sua aldeia:

“TAMBÉM EU ADORO PASSARADA, QUERIDO AMIGO.

Têm a agilidade dos corpos celestes, epifania da presença divina. Ritmadores imparáveis, cheios de rubato. Inspiração perene nas nossas vidas, verdadeiros poemas alados. Como gostei das denominações que desfilaste! Não conhecia a maioria delas. Toma lá algumas denominações da fauna transmontana (usadas na minha aldeia; às vezes mudam no concelho vizinho; e às vezes mudam mesmo na aldeia vizinha):

Xedre da cabeça preta
Milharenga,
Picanço
Boieira
Amarelante
Papa-figos
Noitibó
Boubela
Tordela
Cavalinho rinchão
Pisco
Tralhão
Mosqueiro
Moreiro
Pinta-ruivo
Abelharuco
Pica-peixe
Zirne
Chasco
Cínchala-raiz

Enfim, só para nomear alguns. Os próprios nomes são lindos como eles: os nossos pássaros.
Mais uma extrema afinidade, querido amigo”.

O último post foi dedicado ao “Passionário Polifónico de Guimarães”, extraordinária obra revelada na íntegra, a partir de profundo estudo do ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso. Escreveu-me neste 25 de Novembro a opinar sobre os pássaros: ” Acabo de ler também o seu blog dos pássaros. Trata-se de uma demonstração clara de um saber enciclopédico, que eu desconhecia e que enriquece a galeria dos músicos que souberam e sabem ouvir os cantos misteriosos dos pássaros. Sabe que, todas as manhãs, quando passeio não pelo paredão de Oeiras, e me cinjo à grande rotunda do jardim em frente da minha casa, também presto atenção aos pássaros que habitam nas árvores das alamedas. São certamente poucos e muito limitados nas espécies representadas, nada que se pareça com o seu léxico ornitológico, mas sempre vou prestando atenção ao diálogo que percebo travar-se entre os pares de pássaros, provavelmente comentando entre si coisas de amor ou, quem sabe, defesas contra a intempérie ou ridiculez dos homens.

Flávio Araújo, a memória do futebol, observa com a sensibilidade de quem sabe ouvir e entender:

“Maravilhado, encantado … que mais? O certo, amigo José Eduardo, é que não sei como qualificar a emoção que seu post me causou. Extraordinário. Chamei Yvette, minha mulher, para que também usufruísse desse privilégio. E fomos após a leitura ouvir os pássaros que nos cercam a cantar durante todos os momentos do dia. Só se aquietam quando a noite chega. Notadamente os sabiás. Aqui na cidadezinha onde vivemos é possivel uma caminhada do norte ao sul da mesma emendando o canto dessas maravilhas que são os sabiás. Ou as sabiás, não importa o gênero. Também não sabemos distinguir a que tipo pertencem, como faz o querido amigo. Mas o canto penetrante, persistente, nos encanta e serve de moldura para a leitura que acabamos de completar em conjunto. E pensar que acabara de escrever sobre a escolha do porto-riquenho Ricky qualquer coisa para ser o cantor oficial da Copa aqui no Brasil. Que discrepância. Onde estão os pássaros canoros do cancioneiro pátrio? O rock os matou a todos? Consolemo-nos, pois, com o canto de nossas aves”.

A ilustração do post é a dedicatória de meu livro “Encontros sob Música” (Belém, Cejup, 1990). A gaiola do sabiá-pardão-da-Bahia ficava abaixo da janela de meu quarto. Como esquecer seu canto? Registrei-o na memória. Sua melodia visitava o 1/4 de tom. Maravilhamento.

Clique para ouvir no YouTube, com J.E.M. ao piano, Le Rappel des Oiseaux, de J-P. Rameau.

This week’s post is a selection of messages from readers with comments on the post about birds. From Portugal, France and Brazil, people that, just like me, are fascinated by our feathered friends, wrote about the birds of their regions: their beautiful and diverse songs, their curious names, their role in poetry and visual arts.

 

Sempre por Perto

Bom dia, pássaros ouvintes!
Cá estou eu, Açor de Açores,
com o programa “Requintes”…
Já estão acordados?
Bem acordados?…
Hoje falaremos dos cuidados a ter com as penas,
as grandes e as pequenas.

Para manter bela plumagem
o melhor é banho frio
de manhã cedo no rio
e escovadela de areia
entre o almoço e a ceia.
Sumo de ameixas maduras
faz fantásticas madeixas
e evita muitas maleitas
futuras.
Violeta Figueiredo (“O Gato do pêlo em pé”)
(O arquipélago dos Açores deve seu nome ao açor, ave de rapina)

Desde o início da publicação do blog, pássaros sobrevoam meus textos. Tem sido uma constante. No primeiro, “Trochilidae” (14/03/2007), já descrevia um ninho de beija-flor no meio de uma primavera que floresce em vermelho, nos momentos em que galhardamente mantinha-se firme sob forte aguaceiro. Outros tantos temas sobre aves têm sido prazerosamente inseridos no blog e um em especial mereceu quantidade expressiva de e-mails, “Adeus, Coleirinha” (10/05/2008).

O epicentro de minha cidade-bairro assiste diariamente a um festival de pássaros que sobrevoam os espaços, pousam nas muitas árvores existentes e entoam seus maviosos cantos. A janela em frente ao computador está frequentemente aberta e posso assistir ao espetáculo in loco e ao vivo-sonoro a todo instante, com os personagens alados se revezando. Pousam sobre as árvores e são como bálsamo para os olhos, ouvidos e a alma dos humanos. Frise-se, para aqueles que sabem entendê-los.

Desde a infância tenho encanto pelas aves, mormente as canoras. Naquele período, algumas araras e papagaios, assim como canários belgas, eram mantidos por meu pai. Não faltavam cacarejos de tantas galinhas e o imponente e madrugador canto de um galo bravio. Uma alegria. Bem posteriormente, em período em que não havia restrições à manutenção de pássaros silvestres, tive em casa inúmeros pássaros cantores, a maioria deles vinda de mãos amigas espalhadas pelo país, após recitais de piano. Sabiam que era apreciador. Passava naturalmente pela alfândega, sem restrições, pois não havia nem controle, tampouco o Raio X, e alguns tiveram seus cantos retidos para sempre em minha memória. Estou a me lembrar de um extraordinário sabiá pardão da Bahia, com seu canto inconfundível. Ganhei do pai de um músico amigo na bela Salvador. Para mim, essa espécie tem o mais melodioso canto de nossas terras. Com a restrição justa e necessária, aparentemente os pássaros silvestres ficaram livres das gaiolas. Contudo, de maneira criminosa, nossas florestas estão sendo dizimadas e correntes poderosíssimas, puxadas por tratores que “marcham” em paralelo, destroem milhares de árvores diariamente. Em cada uma delas, dezenas, centenas de ninhos são abatidos e animais de tantas espécies sucumbem. Isso é um verdadeiro “holocausto”!!! O Planalto não se pronuncia. É o descaso pleno.

Tenho dois bons canários belgas (permitido por lei, pois ave não nativa) que preenchem durante o dia meus ouvidos. Quando da proibição, soltei todos os meus pássaros silvestres cantores, mantidos cuidadosamente em gaiolas, no bosque da Rua do Matão, na USP. Há várias décadas. Se não mais tenho pássaros “proibidos”, ficaram retidos na memória para sempre o canto de tantos deles: azulão, azulinho, bicudo, bigodinho, caboclinho, canário da terra, canário-tipio, cardeal, coleira do brejo, coleirinha, corrupião ou sofré, curió ou avinhado, curió do norte (um pouco menor do que o anterior), encontro, galo de campina, gralha, gurundi, pássaro-preto (não confundir com o chopim, pois o pássaro-preto é maior, e se criado desde filhote aprende outros cantos, sai da gaiola e aceita agrado), patativa, patativa chorona, pintassilgo, pintão, pixoxó (papa-arroz), pixoxó-estrela (tem canto estridente e em altos decibéis), sabiá-branco, sabiá-coleira (canto muito suave e melodioso), sabiá-laranjeira (seu canto é extremamente diversificado, a depender de “territórios” demarcados), sabiá-pardão (do sul), sabiá-poca, sabiá-una (sua aparência lembra muito o melro europeu), saíra, sanhaço, tié-sangue ou sangue de boi, tico-tico rei, trinca-ferro (pixarro, ou também eu-sou-saci-boi),… Muitos deles com inúmeras denominações  espalhadas pelo Brasil. Ainda hoje consigo distinguir bem a grande maioria de seus cantos, quando os ouço in natura ou através de vídeos ou CDs.

Com a primavera há o acasalamento e o motivo deste post está relacionado a essa diversificação que fascina, verdadeiro milagre na natureza, pois a cidade da minha infância-adolescência-juventude, tão acostumada aos pardais, assiste, através dessas últimas décadas assustadoramente poluídas de maneira crescente, a presença de pássaros os mais variados,  que cruzam os ares e nidificam nas árvores da nossa rua. Quantos não foram aqueles que pousaram no jasmin-manga em frente à janela, “extensão” da tela de meu computador? Sanhaço, sanhaço-do-coqueiro, sabiá-laranjeira, corruíra, pica-pau-joão-ferro, rolinha (caldo-de-feijão), caga-sebo, bem-te-vi, periquitos (maritacas) em bandos e provocando verdadeira algazarra, beija-flor, tico-tico…

Um apenas não gosta de ser visto. Não é nativo do Brasil, tendo emigrado do hemisfério norte. Talvez a razão de um certo “recato”. Tem um canto forte e repete aproximadamente o intervalo de terça menor (uma primeira nota e outra a seguir) durante duas ou três vezes. Canto incisivo, forte e penetrante. Há anos que tento vê-lo e identificá-lo, mas está sempre na copa das árvores. Frustrei-me, até que em um desses dias primaveris ouvi-o cantar em nossa casa, mas a repetir, excepcionalmente, por cinco vezes o tal intervalo de terça. Sorrateiramente subi os degraus que levam ao terraço ao fundo e, no alto da pitangueira, que neste ano foi muito dadivosa, vi-o entre galhos; portanto, numa “penumbra”. Um pássaro de 13 a 17cm, presumi. Não sabia sequer seu nome, mas  dias após, ao ouvir o canto em outro local, perguntei ao Julinho, motorista de táxi e amante de pássaros, se sabia  qual era esse misterioso passarinho. De bate pronto disse-me, pitiguari (também denominado gente-de-fora-vem). Busquei informações no “Dicionário dos Animais do Brasil”, do notável Rodolpho von Ihering (São Paulo, Secretaria da Agricultura, Indústria e Comércio do Estado de São Paulo, 1940). Nada encontrei, por  tratar-se de animal alienígena. Fui descobrir as origens através de minucioso livro (Elizabeth Höfling e Hélio F. de Almeida Camargo. “Aves no Campus”. São Paulo, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, 1993). Ratificam os autores que o pitiguari “vive escondido na folhagem das árvores”. Após, ao consultar o Google, encontrei inúmeras imagens do pitiguari, sempre entre folhagens, e no YouTube, ouvi o característico canto. Segredo revelado, pois, o que me levará a ouvir seu canto de maneira mais familiar. 

Num outro contexto, não canoro, gaviões-pombo continuam a sobrevoar o entorno acima dos prédios no aguardo da distração de passarinhos menores (vide  A Vingança do Gavião, 11/04/2009) e pombos-domésticos têm invadido muitos espaços, nidificando em beirais e tantos mais lugares. Um problema ambiental,  pois carregam determinadas parasitas prejudiciais à saúde dos humanos.  Há quem goste desses pássaros urbanos da família Columbidae.

A primavera deste ano está sendo responsável por inusitada presença de ninhos. No arbusto denominado primavera, onde outrora beija-flor e rolinha fizeram seus ninhos, sabiá laranjeira construiu o berço de seus filhotes (ilustração) e na pitangueira há ninhos de sanhaço, rolinha e sabiá. Da primeira ninhada dessas aves, as crias já ganharam os ares. Uma sensação agradável se dá ao ouvir filhotes implorando alimentos e o pio das mães, seco, incisivo, demonstrando que suas presenças são a certeza de segurança, frutas e insetos.

Outras ninhadas virão. Esse constante renovar dimensiona nosso ânimo. Faz bem para a alma, mormente para o músico, pois a riqueza de timbres (verdadeira orquestra) nos leva a considerar a Criação. Não sem propósito, o grande compositor francês Olivier Messiaen (1908-1992) compôs o “Catalogue d’Oiseaux”, obra prima constituída de treze peças para piano. Tantos outros compositores se inspiraram no canto dos pássaros: Jean-Philippe Rameau (1783-1764) com suas célebres “Le Rappel des Oiseaux” et “La Poule”; Robert Schumann (1810-1856), “O pássaro profeta”; Tchaikowsky (1840-1893) “Le chant de l’alouette”; Maurice Ravel (1875-1937), “L’oiseau triste”; Igor Stravinsky (1882-1971), “O Pássaro de Fogo” e quantos mais… E nem mencionamos a infinidade de textos literários que reverenciam o canto das aves, assim como o pássaro na pintura desde os primórdios da civilização. As Artes têm a dádiva da empatia. Saber entender a mensagem dos pássaros é princípio de fusão…

This post is about the birds of the city of São Paulo. Since the ban on caging wild birds came into force, they have grown in number and variety. This spring I had the joy of watching three different birds make their nests and raise their young in my backyard. By now they have already fled the nests, but with their wide range of timbres and colors they were a present for a musician and a balm for anyone’s soul.

Esperanças e Incertezas

…sei que só o espírito governa os homens e de maneira absoluta.
Se o homem imaginou uma estrutura, escreveu o poema,
e colocou a semente no coração dos seus semelhantes,
aí então se submetem como servidores, não apenas
interesse, mas também alegria ou razão
que serão doravante expressões no coração
ou sombra sobre o muro das realidades,
da transformação em árvore de tua semente.
Antoine de Saint-Exupéry (“Citadelle”)

Após mais de seis anos e meio de posts, inseridos semanalmente de maneira ininterrupta, chegamos aos 400.000 acessos. Cifra ínfima nessa “civilização do espetáculo”, como bem afirma Mario Vargas Llosa, nível impensável para este músico-escriba que assiste ao lento e progressivo aumento de generosos leitores. Se pensarmos no número de acessos diários de determinados blogs voltados à política, ao futebol, à violência, à moda, à música pop, como alguns exemplos, a cifra acima pareceria um simples pedregulho. De Saint-Exupéry  emerge a amplidão hermenêutica da reunião das pedras para a edificação do Templo.

Os temas do blog praticamente não mudaram. Música, cotidiano, impressões de viagens, personalidades, literatura. Ao acessar o menu à direita (resenhas e comentários), o leitor terá a lista completa de livros resenhados ou comentados desde o primeiro post. A data ao final da indicação facilita a consulta.

Alguns aspectos gostaria de frisar, pois aquele que escreve regularmente sofre os impactos de tudo que o cerca. Trabalhando em casa, raríssimas vezes saio para compromissos sociais, mas sim para tarefas do cotidiano ou para treinos de corrida nas ruas de minha cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo. Quanto aos compromissos musicais, não os tenho no Brasil, e a apresentação em Botucatu foi de grande alegria para o velho intérprete, mas exceção. Contudo, os paradoxos de nossa atualidade chegam-me através da internet ou de algum programa especial da TV a cabo, pois é quase impossível assistir à TV aberta, dado seu nível sempre descendente.

Nos treinos, as passadas da corrida estimulam o pensar e os temas dos posts brotam naturalmente. Mesmo as resenhas ou comentários de livros amadurecem durante os treinamentos. À noite, as horas da madrugada são propícias para a decantação dos textos que fluem. Se há beleza, e assim deveria ser sempre em tantas coisas que presenciamos, impossível não ficar indiferente ao que se passa ao nosso entorno. Em muitos posts, contrariando a minha vontade interior, abordo fatos que certamente estão a afetar o equilíbrio mental do cidadão brasileiro. Nesse preciso momento em que escrevo ouço três tiros na rua. Uma hora da manhã. Nem ouso abrir a janela. É essa parte de nossa realidade que se acentua aceleradamente e com a qual somos obrigados a conviver.

Como não ficar alheio às reivindicações de centenas de milhares de pessoas que foram às ruas ultimamente? Como esquecer o descaso matreiro dos políticos pelos pacíficos protestos, mercê do tempo que corrobora esse olvidar? Como entender a arbitrariedade e despreparo de um alcáide que eleva o IPTU de maneira desastrosa para cidadãos que têm seus salários e aposentadorias constantemente achatados e que prometeu, em campanha, mudanças devido à sua capacidade de “renovação”? Pensou o atual burgomestre na real situação de tradicionais moradores que nada têm a ver com a especulação imobiliária e que já pagariam alto imposto se vendessem seus imóveis, através do ITBI (imposto sobre a transmissão de bens imóveis e de direitos a eles relativos), de competência do município, e, no caso da transmissão ser por herança (“Causa mortis”), do ITCMD, imposto estadual? Um acinte absoluto o estratosférico IPTU, pois várias vezes acima da inflação. A votação favorável na Câmara foi um dos episódios dantescos daquela Casa. O Ministério Público Estadual está atento. Como não desconfiar da vontade do partido majoritário de tudo conquistar, com o absoluto, ferrenho e irrestrito “desejo” de seus dirigentes e militantes? Como exemplo de arrogância, o termo presidente só é pronunciado com o “a” final, ao invés do “e”, graças à aceitação plena dos adeptos. Basicamente só estes são rigorosamente fiéis ao emprego da palavra num feminino inexistente. Ante tamanho ataque à língua portuguesa, como reagiriam Eça, Machado e outros luminares do passado? Como não se preocupar com um Supremo Tribunal Federal, majoritariamente constituído por ministros indicados, nestes últimos 10 anos, por mandatários de um mesmo partido? E o “Mensalão” e seus personagens maiores, que pouco a pouco estão a sair do noticiário por conta de intermináveis recursos – hélas – e julgados pelo atual STF? Calendas gregas? Jorge Hage, ministro-chefe da Controladoria-Geral da União, em entrevista a jornalistas após o 1º Fórum Regulatório da América Latina, realizado em São Paulo, observou: “Eu sempre disse que um processo no Brasil contra um criminoso de colarinho branco endinheirado só termina em menos de 20 anos se ele quiser. Se ele não quiser, não termina”. Continua: “O problema é a legislação processual brasileira, que não tem paralelo no mundo em matéria das possibilidades infinitas de recursos que ela oferece aos réus, sobretudo aos réus endinheirados, que podem contratar os melhores escritórios de advocacia do País para encontrar as brechas nas leis, não só de possibilidades de recursos quanto de outros incidentes protelatórios” (Portal Terra, 04/11/2013, 18:45). Como não se estarrecer com a leva de milhares de médicos cubanos, “espécie de escravos da medicina familiar e comunitária”, segundo o comentarista das Organizações Globo Alexandre Garcia, para abastecer com seu trabalho os cofres da hedionda ditadura cubana, onde habita o mais antigo ditador do planeta?  Contraria o Planalto a legislação concernente ao contrato de trabalho vigente no Brasil em nome de uma ideologia que “gostaria” de ver implantada no país. Como ficar indiferente ao vandalismo que destrói diariamente bens públicos e privados, sem que as autoridades penalizem com rigor bandos de celerados? Como não se entristecer ao ler notícias sobre a Universidade de São Paulo, que, em ranking estabelecido por relevante entidade internacional, é rebaixada bem além do nº 200? Falta de autoridade intra e extra-muros, incontroláveis e irracionais manifestações provocadas por minoria de alunos e funcionários, que ocuparam a reitoria e fecharam portões em nome de ideologia retrógrada. Melhores alunos, mais eficientes funcionários? Ledo engano. Estou a me lembrar de que jamais participei de greves quando docente. Em uma oportunidade, quando chefe de Departamento, só, em minha sala, ouvi gritos de alunos grevistas que queriam forçar a porta de entrada, pois sabiam que eu lá estava. Abri a porta e uma das alunas, completamente transtornada, dirigiu-se a mim e, com dedo em riste que quase me tocou, proferiu palavras de ordem, injuriosas. Tinha as iniciais de um partido político de ultra esquerda gravadas na testa. Disse-lhe que se ela encostasse o dedo em mim prontamente deixaria o prédio, pois estaríamos voltando à barbárie. Após xingamentos e palavras impublicáveis de alguns alunos, retiraram-se. Jamais em nossa terra a “civilização do espetáculo” esteve a mostrar tão abertamente suas chagas. Se tantas distorções existem, se nossos canais de televisão aberta ou o rádio divulgam aproximadamente 90% de notícias relacionadas ao crime e à violência em todos os níveis, assim como escândalos relacionados à corrupção, que pululam todos os dias, há que se pensar que, nesse caso específico de corruptores (quase sempre na sombra) e corruptos, algo positivo e bom ainda teima em sobreviver. E, ao que parece, nossos meios de comunicação ainda têm autonomia, apesar da permanente tentativa do Poder Central de silenciá-los.

A Cultura, palavra tão utilizada à maneira de uma chave mestra, está agonizando. Pelo menos aquela tradicionalmente aceita. Sentimos essa mutação a cada dia. Educação e Cultura são palavras tão próximas e tão desprezadas, mormente pela classe política. Todavia, a busca neste espaço de alguns ideais voltados à tradição ainda me norteiam. Um livro que me interessa a abordar os vários níveis do conhecimento; as experiências das viagens; o cotidiano renovado a cada dia e a música, companheira desde a infância, são temas constantes. Poucos e fiéis amigos e a família, essência essencial na minha vida. Continuarei ligado às temáticas. Creio que o grão de areia tem muito a contar a respeito da praia e do deserto. Enquanto o sopro persistir em meus pulmões, continuarei a tocar e a escrever. A sugestão de meu dileto amigo Magnus Bardela, num passado que já se faz longínquo, para que começasse a escrever outros textos, independentemente dos artigos e ensaios para revistas arbitradas internacionais, frutificou, e desde 2 de Março de 2007 convivo com meus leitores, sem jamais ter deixado de postar um texto por semana. Oxalá ainda persista por muitos anos nesta prazerosa atividade.

This week my blog reached 400.000 visitors. I’m still faithful to the subjects that are dear to me ─ music, travel, literature, people ─ though the world around me often forces me to address issues that I would rather forget. My thanks for all who helped me reach this milestone.