Navegando Posts em Cotidiano

Não Deixar se Perderem nas Calendas

Não pretendo destruir-lhes a autoridade
para afirmar o valor único do raciocínio 
mesmo que se pretenda impor essa autoridade
em detrimento da razão…
Blaise Pascal (1647)

Passadas as semanas com maior turbulência e impregnadas de euforia, tanto pelas manifestações de rua como pela conquista, pela quarta vez, da Copa das Confederações, várias lições deveriam ser atentamente conservadas. Esquecê-las poderia redundar em tristes consequências, tanto para um eventual plebiscito como para a Copa do Mundo de Futebol em 2014.

Primeiramente, o “hipotético” plebiscito. Os meios de comunicação apresentam várias sugestões captadas através da oitiva de políticos, empresários, operários, professores  e segmentos da sociedade. Sob outro aspecto, colocam ponderações do Governo no que concerne à pauta que deverá nortear o “provável” plebiscito. Em nenhum instante ouvi ou li algo palaciano que não fosse a prioridade da Reforma Política. Não estaria o Governo a tentar “driblar” problemas cruciais? A Reforma é mais do que necessária, mas o povo que saiu às ruas clamou por temas bem mais incisivos e imediatos. Os cinco itens apresentados pela presidente têm relação com a Reforma Política e, diria, são paliativos e até periféricos à realidade que se vive presentemente… Verifica-se que é novamente a classe política a se resguardar e a pensar na sua sobrevivência. Qual a razão de um imediatismo da presidente quanto à Reforma Política e à Constituinte, essa última “temporariamente” descartada? A presidente já lá está no Planalto há dois anos e meio e o ex-presidente do mesmo partido lá permaneceu durante oito. Não foi a pauta de cinco pontos enviada ao Congresso aquela que, minimamente, o povo pediu nas avenidas, ruas e praças do Brasil. Essa assertiva é facilmente comprovada. A possível Reforma Política tenta distrair a opinião pública e, se fosse para valer, haveria entre os itens a substancial diminuição de senadores, deputados e vereadores; de ministérios; de municípios; de cabides de emprego que infestam o orçamento do Estado; da carga tributária excessiva;  de benesses como a utilização de jatos da FAB para fins pessoais de congressistas, ministros e outros políticos, mesmo durante as gigantescas manifestações, o que é evidência do descaso de políticos com a realidade; das viagens dispendiosas da Nomenklatura ao Exterior e tantos mais desacertos. Brasília oficial esteve surda ao ruído das ruas! Continua a não ouvir. Retarda-se o óbvio: solução para incontáveis problemas por que passa o país, entre eles, a inflação e o desemprego. O povo quer solução imediata para temas que o afligem: Segurança (minoridade penal já, policiamento efetivo, penas bem mais severas para crimes como latrocínio, estupro, sequestro, tráfico de drogas, invasões indiscriminadas no campo e nas urbes…); Saúde (atendimento – ao menos potável –  para todo o cidadão do país); Educação (o abandono de nossa educação básica representada por professores mal remunerados, escolas deterioradas, a droga à espreita nas cercanias, o ensino superior infestado por inúmeras faculdades privadas de baixíssima qualidade); Saneamento Básico (não interessa aos governantes o que corre no subsolo, e detritos a céu aberto proliferam pelo país); Transporte Público (vergonha hoje que deverá se perpetuar, pois político não utiliza esse meio, como  fazem seus “colegas” da Europa, Japão, U.S.A.); Justiça (o que realmente estarrece a população é a impunidade e a lentidão da nossa Justiça). Qual a razão de só se pensar na possível Reforma Política, que poderá ter eventuais efeitos para as eleições de 2014, e não nos gravíssimos problemas que precisam de respostas urgentíssimas?

Quanto à Saúde, a presidente, no auge da crise, falou em “importar” médicos, mormente cubanos. Ouvi, no programa São Paulo Gente – Rádio Bandeirantes AM – do dia 29 de Junho, entrevista do Dr. Geraldo Ferreira, presidente da Federação Nacional dos Médicos. Fiquei estarrecido quando ele disse que para parcela cubana dos 6.000 médicos que aqui chegassem, uma parte do salário ficaria com esses profissionais, mas que fatia substancial desse provento seria entregue a Cuba, que sempre viveu em crise financeira endêmica, entre outras mais. Salientou o ilustre médico o ingrediente ideológico a nortear as intenções do Planalto. É algo inadmissível e as associações médicas têm, sim, de vir às ruas protestar – já o fazem – contra essa postura contra natura do Estado brasileiro, pois profissional há no país que aceitaria plenamente receber menor importância que seria paga, no seu todo, ao possível profissional caribenho. Na mesma orientação, esclarecedor artigo do professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharias de Alimentos (FZEA) da USP, Juan López Linares, cubano naturalizado brasileiro, apresenta pontos fulcrais: “A proposta de importação de médicos de Cuba faz com que 50% do salário dos médicos pago pelo Brasil sirva para alimentar a ditadura cubana”, e prossegue: “Sou a favor da vinda de médicos estrangeiros, mas não na forma de ‘pacote’ firmado entre governos com interesses espúrios e que limitam as liberdades individuais”. Observa ainda que “a ‘escola latino-americana’ de medicina em Cuba somente aceita, sem pagar os custos do curso, candidatos indicados pelos partidos políticos favoráveis ao regime dos Castros” (“Sobre a importação de médicos cubanos”. In: Jornal da USP, 1º a 7 de Julho de 2013, p. 2). Na realidade, seriam contratados médicos que não necessitariam ter seus diplomas revalidados no Brasil. Um escárnio! Em todas as áreas, para atuar como professor em Universidade Pública, o portador do título de Mestre ou Doutor – não o certificado de bacharel - que fez mestrado e doutorado no Exterior, precisa revalidar o diploma no Brasil, mesmo que essa titulação tenha sido obtida em universidade de ponta! Qual o motivo essencial de descartarem a revalidação de bacharel e silenciarem sobre a divisão desse salário médico-Cuba? Por que a presidente não se pronuncia claramente em cadeia nacional sobre essa “divisão” estranha de salário de eventual médico cubano? O povo concordaria com essa intenção vinda do Planalto se a verdade sobre essa “importação” fosse revelada? Certamente sairia novamente às ruas em protesto à malversação de verbas, pois parte considerável será destinada a Cuba, friso, e não ao precaríssimo sistema de saúde pública brasileiro. No clímax das manifestações, a presidente em pronunciamento à Nação disse que a contratação dos médicos do Exterior seria imediata. O tema tem sido amplamente debatido, mas as Associações Médicas estão a apresentar dados insofismáveis contrários à ação do Planalto. Sob outra égide, estivéssemos a falar em medicina de excelência, qual a razão do político palaciano e de outros rincões virem a São Paulo para fazer tratamento, a exemplo do último ex-presidente e da atual? Se a medicina é de excelência no país caribenho, qual o motivo de apenas dois hospitais paulistanos serem aqueles merecedores da total confiança do Planalto? Que nos expliquem com clareza, sem subterfúgios.

Sobre os circa 50.000 mortos assassinados todos os anos, pouco se fala nas áreas do Governo, e pronunciamentos são econômicos quanto à Segurança que está realmente lastimável em todo o território brasileiro. No que respeita à Justiça, o povo quer respostas rápidas concernentes ao Mensalão. Recursos interpostos pelos advogados dos réus estão a levar o tema para quando? Já em 2012, meu saudoso amigo Luca Vitali realizava sugestiva charge sobre o Mensalão. Era fim de ano, fomos tomar um curto como  fazíamos regularmente, e acreditava ele que o processo todo, já àquela altura em mãos do relator no Supremo Tribunal Federal, seria enterrado. No momento,  embora os réus  tenham sido  condenados, a decisão do STF pende de revisão por meio dos recursos interpostos por seus advogados, que, quando julgados,  poderão ou não alterar aquela decisão.  Na charge de Luca Vitali, as inquietantes palavras:  “Aqui Jaz o Mensalão e os caras de pau”. 

Contrariando os versos do poeta açoriano Almeida Firmino, “falta-nos a voz com que protestar” (vide “Anestesiados – Há solução para nossa índole?” 18/05/2013), o povo que saiu às ruas protestou, mas está a clamar por itens muito mais prementes. Que a presidente venha a público dizer quais as medidas para o que tão insistentemente foi cobrado pela imensa massa humana. É isso o que todo brasileiro consciente quer ouvir. Microfone não lhe falta.

This post resumes the subject of the nationwide protests that still sweep our streets and the government’s response: a package of proposals that seems intended to gain time and distract people’s attention from the serious issues of poor transport, healthcare and education.

             

Quando o Povo Saiu às Ruas

Nenhum político deve esperar que lhe agradeçam
ou sequer lhe reconheçam o que faz; no fim de contas,
era ele quem devia agradecer
pela ocasião que lhe ofereceram os outros homens de pôr em jogo
as suas qualidades e de eliminar, se puder, os seus defeitos.
Agostinho da Silva

Já não estamos anestesiados. Se o leitor consultar meu post de 18 de Maio último (“Anestesiados – Há solução para nossa índole?”), observará que os motivos que propiciaram as manifestações já lá estão embutidos. Quando mencionava essa “letargia”, mal podia prever que logo após haveria o despertar de um povo que acorreu às ruas das principais cidades brasileiras. Manifestações no Exterior fizeram-se sentir igualmente.

A ilustração de meu saudoso amigo Luca Vitali (1940-2013) sintetizava naquele post a inquietação. Não estaria a presente charge, no mesmo espírito, mostrando parte da realidade atual? Conversávamos, Luca e eu, sobre políticos e descasos. Revela o desenho ingredientes prenunciadores, e o megafone proclamaria desmandos que nos avassalam. O povo aguentou, aguentou, aguentou… mas há o infinitesimal instante da gota d’água.

Nessas últimas semanas conturbadas, plenas de manifestações de rua pacíficas, mas infiltradas por minoria absoluta de desequilibrados, baderneiros, bandidos de carteirinha, drogados, tantos deles menores,  o leitor deve estar a acompanhar todo o desenrolar pela mídia. Realidades não são mostradas por nenhum meio de comunicação, mercê das polpudas publicidades patrocinadas pelo Governo, o que impede a exibição de muitas faixas a condenar sobretudo a ação do partido majoritário. Elas estavam entre as muitas, algumas alusivas ao último ex-presidente. Estas não foram exibidas. Estranho. Só estamos a conhecer parcela da verdade, pois, tal tsunamis, as passeatas invadiram as cidades brasileiras, mesmo que sem líderes confessos. Preferencialmente, a mídia focou a exceção, a quebradeira realizada pela ínfima minoria. Um enorme desserviço. E foram imagens da exceção que inundaram a mídia internacional. A beleza das aglomerações pacíficas, a reunir quase todas as camadas da sociedade, pouco foi mostrada. Saques, quebradeiras, incêndios, barricadas eram escancarados nos noticiários televisivos. Infelizmente, e a mídia bem sabe tirar proveito, são os fatos deprimentes que conseguem altos índices de audiência. Uma de minhas netas esteve em uma das maiores manifestações da Av. Paulista e contou-me sentir-se segura, pois o povo na mais conhecida via pública paulistana estava a revindicar direitos dos cidadãos que foram abandonados pelo poder público. Pacificamente a multidão se deslocava, segundo ela.

Na passeata da quinta-feira (20 de Junho), deu-se a glorificação do apartidarismo. O Presidente Nacional do PT, ao solicitar aos simpatizantes o comparecimento na passeata do dia  citado empunhando bandeiras do partido, sofreu duro revés, acachapante diria, pois a manifestação não admitia esse tipo de oportunismo e estandartes foram rasgados ou retirados. Fiquei atento a uma frase pronunciada por um dos presentes a um jornalista da AFP para o “Le Point” da França, sob o título “Manifestations historiques au Brésil” (21/06), em que afirma que continuaria a votar em Dilma para que as reformas no país possam ser aceleradas. Preocupante. Há um partido desde 2002 a comandar o país.  Esse mesmo jornalista francês ouviu frases enfáticas dirigidas aos simpatizantes do PT no momento em que o povo não permitiu o agitar das bandeiras: “Opportunistes ! Partez à Cuba ! Partez au Venezuela !”  A situação é grave e pode prenunciar caminhos para radicalismos futuros sem precedentes. Tenta-se blindar de todas as maneiras a Nomenklatura, como se estivesse o governo de Brasília na oposição! Oposição essa, diga-se, pífia, pois polifacetada e com discursos críticos não cirúrgicos, mas evasivos. Quem protesta é a sociedade apartidária consciente, a contrariar palavras infelizes do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, ao dizer que sem partidos tem-se a ditadura, ou outras, não menos inquietantes, a culpar a mídia pelo o que está a ocorrer.  É a sociedade que está a clamar por condições, ao menos potáveis, nas áreas da Saúde, Educação e Segurança e contra a paquidérmica burocracia, que tanto suga do contribuinte, assim como a vociferar contra a endêmica corrupção. Esporadicamente, sem prazer algum,  comento rumos tortuosos de nossa política. Nenhuma novidade escrevi, apenas deduzi e ouvi pessoas de determinadas camadas sociais, mormente a popular e a média, pois preferencialmente, nos deslocamentos pela cidade, utilizo-me de ônibus públicos em horários com menor afluxo de passageiros. Basicamente não tenho ligações com as denominadas camadas abastadas ou elites. Tampouco tenho tendência para qualquer partido, não me relacionando, felizmente, com nenhum político. Contudo, reflexões surgem a partir de determinados inchaços da máquina pública que desafiam a lei física da ocupação de espaço: Qual não foi o aumento de comissionados na esfera pública nestes últimos anos? Se conclamados para se apresentarem para o desempenho de suas funções, esses e mais os apadrinhados não poderiam, no mesmo instante, friso, ocupar salas que lhe são destinadas. O número extravasa e muito e é o contribuinte que arca com todas as despesas, pois o governo não gera rendas, só arrecada e distribui parcamente. Como gostaria de ouvir a Presidente dizer que milhares não mais necessitam receber os 70 reais, essa esmola destinada aos desvalidos. Isso sim seria progresso. Contudo, os votos saem da massa desafortunada que recebe esses parcos reais.  

As causas de muitas revoluções são por vezes periféricas. Que nos ensine a Revolução Francesa de 1789, que teve manifestantes invadindo uma Bastilha com pouquíssimos prisioneiros. O jornal francês “Le Monde” de 26 de Junho aponta nossas manifestações tendo como estopim a mínima parcela de um euro e os vinte centavos foram, na realidade, pretexto para um basta generalizado. Apesar de não gostar do tema, como expressei em tantos posts, tudo o que está a ocorrer já estava anunciado através dos desmandos: corrupção generalizada, gastos exacerbados dos que detêm o poder, pródigos cartões corporativos, viagens da cúpula ao Exterior com gastos nababescos, segurança basicamente nula, minoridade assassina, droga a infestar a sociedade, conluio governo-empreiteiras-construtoras, obras faraônicas abandonadas, estradas semidestruídas, ausência quase que total de vias férreas, portos ultrapassados que enriquecem com o acúmulo de containers e com a imensa lentidão do embarque e desembarque dos navios, Mensalão que caminha para as calendas com figuras proeminentes do PT, Mensalinho que nem sequer teve início, a envolver figuras do PSDB, personagens republicanos que se perpetuam apesar de fichas imundas e tantas mais mazelas, guetos impenetráveis nas grandes cidades controlados pelos chefes do tráfico, movimentos como o MST, que obtém polpudas verbas e destrói o campo produtor com invasões insanas e violentas, os três Poderes caindo no descrédito. Somatória de governos em que a corrupção esteve presente, mormente nestes últimos dez anos, com escândalos que estiveram sempre estourando, e a Justiça extremamente morosa a beneficiar com essa situação decisões que certamente levariam colarinhos brancos para trás das grades. Por fim, toda essa discussão em torno da PEC 37 que, devido à pressão da sociedade, certamente fez o Legislativo recuar. Se aprovada, tiraria o direito e o dever do Ministério Público de apurar delitos praticados por figuras poderosas.

Sob outra égide, desde o início sabia-se que abrigar três eventos, como as futebolísticas Copas das Confederações e do Mundo e mais as Olimpíadas, iria acarretar desvios incomensuráveis de verbas que deveriam ser destinadas às tantas áreas carentes do Brasil. O grito de satisfação dos políticos brasileiros no Exterior, ao serem anunciados os eventos em nosso país, traduzia o prenúncio de espúria festança com a associação governo, empreiteiras e construtoras. O que se apreendeu pela mídia é a realidade, os gastos foram fabulosamente superiores ao previsto. Enorme verba pública está sendo destinada para as realizações esportivas que, diga-se, são passageiras e voláteis, mas que, mercê da farta gastança, deixará espalhados pelo país muitos Mamutes Albinos. Mais um ingrediente para essa gota transbordar.

Quem sabe essa manifestação, rigorosamente inédita no Brasil, sensibilize governantes. Precisamos de líderes verdadeiros, que não se comprometam com conluios estranhos para a perpetuação no poder. A aproximação, para fins inconfessáveis, de partidos  antagônicos, de políticos – antes ferrenhos inimigos e ideologicamente distantes – com pactos de “eterna” amizade através de sorrisos e afagos, a prodigalização de verbas para emendas parlamentares, a acomodação de figuras sem quaisquer experiências anteriores em Ministérios e Secretarias fundamentais, fazem parte dessa substancial gota d’água que ora escorre. Como confiar num governo que entrega um Ministério importante a um apaniguado, sem a menor experiência na área? Quantos são os Ministérios em Brasília ou Secretarias de Estado ou de Município pelo país que têm profissionais verdadeiros e apartidários? Isso tudo é amar o país, querer servi-lo para o bem de todos, ou é apenas aguardar apoio que reconduza governante e partido novamente ao Poder? Como esta palavra tem feitiço!    

Governantes têm de ouvir o povo que esteve presente maciçamente nas ruas e praças. Sem essa atitude, poderemos estar a caminho de recrudescimento das ações de multidões insatisfeitas ou entrando numa sinistra senda totalitária. O certo é que não mais estamos anestesiados. Contudo, evitemos a conturbação. Mensagens, o povo soube transmiti-las. A persistência das manifestações poderá não ser benéfica ao país. Há necessidade da decantação, única possibilidade para que ânimos voltem a serenar.

A presidente se pronunciou no dia de São João a favor do Plebiscito e de uma Constituinte. Que a sociedade esteja atenta às intenções! A Constituinte já estaria descartadas, mas… Que o Santo nos guarde!

This post discusses the recent protests that swept the country. The tipping point of the demonstrations was the bus fare increase, but the focus soon changed to other issues: corruption, high taxes in exchange for poor public services, vast sums spent on hosting the Confederatin Cup and the 2014 World Cup. The outcome of the riots is uncertain: maybe manifestations won’t achieve anything, political parties may capitalize on social unrest and return to totalitarianism is always lurking around. Let’s hope for the best.

Há solução para nossa índole?

Falta-nos a voz com que protestar
Almeida Firmino (poeta açoriano)

O cotidiano muitas vezes faz com que temas relevantes não sejam observados com acuidade. Em nosso país raramente tivemos o impulso do protesto coletivo. Atitude que é parte da índole do povo. Alhures, manifestações grandiosas abortam qualquer situação que esteja a inquietar o cidadão comum, por vezes reformas que políticos tentam introduzir. Quando não, protestos adquirem dimensões conflitantes.

Se nossos governantes saíssem às ruas, frequentassem, sem cartões polpudos, shoppings, restaurantes, supermercados e outros estabelecimentos em que há necessidade de utilização da moeda, facilmente veriam preços que dispararam, contrariando discursos e estatísticas do governo. Inclusive, amparados por legislação, salários oficiais também têm aumentado, sempre bem acima da inflação. Quantos de nossos políticos e legisladores, sem legião de seguranças, teriam a coragem de percorrer “territórios” das capitais brasileiras mais populosas? Sabem da  existência desses enclaves urbanos e na essência foram parte da causa, pela negligência que tiveram frente à Educação, princípio único para o desenvolvimento de uma nação.  

Assistimos alarmados à segurança cada vez mais à deriva. Ministro da Justiça abertamente, sem o menor constrangimento, apregoa que preferiria a morte a estar em prisão pátria, assim como, poucas semanas após, defende a não redução da maioridade penal para menores, que estão a aterrorizar cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, quando 93% dos entrevistados na megalópole paulistana clamam em enquete por essa redução. A cada minuto, friso bem, algum menor comete algum delito de teor a variar entre pequeno e hediondo. Minimamente, oposicionistas  têm a intenção de reduzir a maioridade penal, sendo que o partido situacionista, a nível federal, propaga em coro as palavras do aludido Ministro. Paulatinamente, cidadãos honrados, chefes de família, mulheres trabalhadoras, jovens, crianças são ceifados insanamente por menores a troco de um celular, de um cartão de crédito ou até por nada. Sabe esse menor que em pouco tempo estará às ruas para prosseguir seu aprendizado na busca aleatória de vítimas indefesas. Estupros são cometidos à luz do dia! Está-se a viver num país difícil de compreensão. Sob outra égide, suspeitos endinheirados, voltados à corrupção endêmica, têm como se proteger, pagando polpudos honorários a advogados renomados de sempre…  Morosamente, a Justiça obedece a outro infindável festival de recursos e o que se vê ou é a prescrição do direito ou, quando muito, em outro contexto, penas abrandadas. Essa situação, a privilegiar quem pode, deixa pasmos cidadãos mais esclarecidos, pois sabem que as grades não farão parte do “condenado” abastado. Diria, vive-se próximo ao absurdo pleno. E nada acontece!!! Seria necessária a modernização do Poder Judiciário com maior celeridade na prestação jurisdicional ao cidadão.

Ao longo dos anos, sem prazer algum, engrosso a legião dos que lamentam o descaso pelo trinômio  Saúde, Segurança e Educação. Não se vê a mandatária mor vir a público dizer abertamente: Educação, Saúde, Segurança e Saneamento Básico são, a partir de agora, as bandeiras prioritárias, friso prioritárias, sem camuflagens. Ações sem tréguas, imediatas, sem promessas que se volatilizam. Temas que importunam profundamente os sucessivos chefes da nação.

Até quando assistiremos a desmandos de toda a ordem que contrariam fantasias verbais que são derramadas diariamente de Brasília e de microfones abertos pelo Brasil que recebem discursos e falas oficiais de governantes estaduais e municipais? Se aqui aportasse um alienígena e ouvisse apenas as palavras do governo central, certamente acreditaria que vivemos no paraíso.

Sob outra égide, a anestesia generalizada atinge pormenores que passam desapercebidos. Como exemplo, citaria algo que seria incompreensível décadas atrás, logicamente a obedecer contexto outro. Como educação, reza o código de boas maneiras que não se deve interromper um interlocutor numa fala, mesmo que banal. Aprendemos desde a infância a assim proceder. Ainda hoje, em reuniões civilizadas, aquele que tem a palavra não deve ser interrompido. Esse ato de interromper virou contudo, na internética, algo rigorosamente banalizado. Mencionaria como exemplo o provedor Terra, o YouTube e tantos mais. Ao abri-los, a tela principal  imediatamente é invadida por outra da mesma dimensão com uma publicidade qualquer. É realmente absurda essa invasão. Será que algum dirigente lembrar-se-ia dessa não interrupção de diálogo, princípio fundamental da boa educação. Será que esses profissionais da mídia aprenderam em casa, durante suas “formações”, que o princípio da não intromissão é preceito elementar?   Sempre que essa tela indesejável surge, deleto-a imediatamente, sem mesmo me ater a que se refere. Contudo, se o navegante partir para uma janela em especial, ao regressar o invasor retorna com o mesmo ímpeto. Tempos atrás, essas publicidades aos montes ficavam a pulular pelas laterais. Continuam, em movimento ou estáticas, mas poluidoras. O poderio do vil metal é tanto que agora, sem pejo, somos atacados frontalmente por propagandas avassaladoras, certamente mais dispendiosas para o anunciante. Este e os provedores têm consciência dessa intromissão. Perderam o espírito da educação. Sim, publicidade é essencial, mas e o elementar princípio ético? Nada a fazer, pois não há regulamentação, creio eu, para esse tipo de procedimento. E a “quem” interessaria regulamentar, se considerarmos que se  generalizou o fato indesejável?

Permanecemos anestesiados. Para as menções primeiras ligadas ao governo ou para atitude praticada por empresas privadas, não temos como reagir, pois nossa índole, hélas, trois fois hélas, aceita até aberrações. E se protestos chegarem um dia à Justiça, recursos sequenciais anestesiarão aquele que porventura tentar revindicações. A vergonha dos precatórios aí está, a evidenciar a chaga aberta.  As benesses prodigalizadas pelo governo aos menos favorecidos, migalhas que prevalecem sobre o aprendizado do fazer construtivo, dá garantias às mãos abertas de políticos para que  votos necessários cheguem na hora oportuna. Anestesiados somos, sem dúvida. Nossas praças continuarão vazias e silenciosas. Índole? 

On the passivity of Brazilian citizens in face of serious social issues and its consequences. Unable to think critically, we do not engage in partnership activities that would benefit society at large. As a result, education, health and safety (both physical and juridical), basic rights taken for granted in developed countries, are a luxury we cannot afford.