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Quando o Povo Saiu às Ruas

Nenhum político deve esperar que lhe agradeçam
ou sequer lhe reconheçam o que faz; no fim de contas,
era ele quem devia agradecer
pela ocasião que lhe ofereceram os outros homens de pôr em jogo
as suas qualidades e de eliminar, se puder, os seus defeitos.
Agostinho da Silva

Já não estamos anestesiados. Se o leitor consultar meu post de 18 de Maio último (“Anestesiados – Há solução para nossa índole?”), observará que os motivos que propiciaram as manifestações já lá estão embutidos. Quando mencionava essa “letargia”, mal podia prever que logo após haveria o despertar de um povo que acorreu às ruas das principais cidades brasileiras. Manifestações no Exterior fizeram-se sentir igualmente.

A ilustração de meu saudoso amigo Luca Vitali (1940-2013) sintetizava naquele post a inquietação. Não estaria a presente charge, no mesmo espírito, mostrando parte da realidade atual? Conversávamos, Luca e eu, sobre políticos e descasos. Revela o desenho ingredientes prenunciadores, e o megafone proclamaria desmandos que nos avassalam. O povo aguentou, aguentou, aguentou… mas há o infinitesimal instante da gota d’água.

Nessas últimas semanas conturbadas, plenas de manifestações de rua pacíficas, mas infiltradas por minoria absoluta de desequilibrados, baderneiros, bandidos de carteirinha, drogados, tantos deles menores,  o leitor deve estar a acompanhar todo o desenrolar pela mídia. Realidades não são mostradas por nenhum meio de comunicação, mercê das polpudas publicidades patrocinadas pelo Governo, o que impede a exibição de muitas faixas a condenar sobretudo a ação do partido majoritário. Elas estavam entre as muitas, algumas alusivas ao último ex-presidente. Estas não foram exibidas. Estranho. Só estamos a conhecer parcela da verdade, pois, tal tsunamis, as passeatas invadiram as cidades brasileiras, mesmo que sem líderes confessos. Preferencialmente, a mídia focou a exceção, a quebradeira realizada pela ínfima minoria. Um enorme desserviço. E foram imagens da exceção que inundaram a mídia internacional. A beleza das aglomerações pacíficas, a reunir quase todas as camadas da sociedade, pouco foi mostrada. Saques, quebradeiras, incêndios, barricadas eram escancarados nos noticiários televisivos. Infelizmente, e a mídia bem sabe tirar proveito, são os fatos deprimentes que conseguem altos índices de audiência. Uma de minhas netas esteve em uma das maiores manifestações da Av. Paulista e contou-me sentir-se segura, pois o povo na mais conhecida via pública paulistana estava a revindicar direitos dos cidadãos que foram abandonados pelo poder público. Pacificamente a multidão se deslocava, segundo ela.

Na passeata da quinta-feira (20 de Junho), deu-se a glorificação do apartidarismo. O Presidente Nacional do PT, ao solicitar aos simpatizantes o comparecimento na passeata do dia  citado empunhando bandeiras do partido, sofreu duro revés, acachapante diria, pois a manifestação não admitia esse tipo de oportunismo e estandartes foram rasgados ou retirados. Fiquei atento a uma frase pronunciada por um dos presentes a um jornalista da AFP para o “Le Point” da França, sob o título “Manifestations historiques au Brésil” (21/06), em que afirma que continuaria a votar em Dilma para que as reformas no país possam ser aceleradas. Preocupante. Há um partido desde 2002 a comandar o país.  Esse mesmo jornalista francês ouviu frases enfáticas dirigidas aos simpatizantes do PT no momento em que o povo não permitiu o agitar das bandeiras: “Opportunistes ! Partez à Cuba ! Partez au Venezuela !”  A situação é grave e pode prenunciar caminhos para radicalismos futuros sem precedentes. Tenta-se blindar de todas as maneiras a Nomenklatura, como se estivesse o governo de Brasília na oposição! Oposição essa, diga-se, pífia, pois polifacetada e com discursos críticos não cirúrgicos, mas evasivos. Quem protesta é a sociedade apartidária consciente, a contrariar palavras infelizes do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, ao dizer que sem partidos tem-se a ditadura, ou outras, não menos inquietantes, a culpar a mídia pelo o que está a ocorrer.  É a sociedade que está a clamar por condições, ao menos potáveis, nas áreas da Saúde, Educação e Segurança e contra a paquidérmica burocracia, que tanto suga do contribuinte, assim como a vociferar contra a endêmica corrupção. Esporadicamente, sem prazer algum,  comento rumos tortuosos de nossa política. Nenhuma novidade escrevi, apenas deduzi e ouvi pessoas de determinadas camadas sociais, mormente a popular e a média, pois preferencialmente, nos deslocamentos pela cidade, utilizo-me de ônibus públicos em horários com menor afluxo de passageiros. Basicamente não tenho ligações com as denominadas camadas abastadas ou elites. Tampouco tenho tendência para qualquer partido, não me relacionando, felizmente, com nenhum político. Contudo, reflexões surgem a partir de determinados inchaços da máquina pública que desafiam a lei física da ocupação de espaço: Qual não foi o aumento de comissionados na esfera pública nestes últimos anos? Se conclamados para se apresentarem para o desempenho de suas funções, esses e mais os apadrinhados não poderiam, no mesmo instante, friso, ocupar salas que lhe são destinadas. O número extravasa e muito e é o contribuinte que arca com todas as despesas, pois o governo não gera rendas, só arrecada e distribui parcamente. Como gostaria de ouvir a Presidente dizer que milhares não mais necessitam receber os 70 reais, essa esmola destinada aos desvalidos. Isso sim seria progresso. Contudo, os votos saem da massa desafortunada que recebe esses parcos reais.  

As causas de muitas revoluções são por vezes periféricas. Que nos ensine a Revolução Francesa de 1789, que teve manifestantes invadindo uma Bastilha com pouquíssimos prisioneiros. O jornal francês “Le Monde” de 26 de Junho aponta nossas manifestações tendo como estopim a mínima parcela de um euro e os vinte centavos foram, na realidade, pretexto para um basta generalizado. Apesar de não gostar do tema, como expressei em tantos posts, tudo o que está a ocorrer já estava anunciado através dos desmandos: corrupção generalizada, gastos exacerbados dos que detêm o poder, pródigos cartões corporativos, viagens da cúpula ao Exterior com gastos nababescos, segurança basicamente nula, minoridade assassina, droga a infestar a sociedade, conluio governo-empreiteiras-construtoras, obras faraônicas abandonadas, estradas semidestruídas, ausência quase que total de vias férreas, portos ultrapassados que enriquecem com o acúmulo de containers e com a imensa lentidão do embarque e desembarque dos navios, Mensalão que caminha para as calendas com figuras proeminentes do PT, Mensalinho que nem sequer teve início, a envolver figuras do PSDB, personagens republicanos que se perpetuam apesar de fichas imundas e tantas mais mazelas, guetos impenetráveis nas grandes cidades controlados pelos chefes do tráfico, movimentos como o MST, que obtém polpudas verbas e destrói o campo produtor com invasões insanas e violentas, os três Poderes caindo no descrédito. Somatória de governos em que a corrupção esteve presente, mormente nestes últimos dez anos, com escândalos que estiveram sempre estourando, e a Justiça extremamente morosa a beneficiar com essa situação decisões que certamente levariam colarinhos brancos para trás das grades. Por fim, toda essa discussão em torno da PEC 37 que, devido à pressão da sociedade, certamente fez o Legislativo recuar. Se aprovada, tiraria o direito e o dever do Ministério Público de apurar delitos praticados por figuras poderosas.

Sob outra égide, desde o início sabia-se que abrigar três eventos, como as futebolísticas Copas das Confederações e do Mundo e mais as Olimpíadas, iria acarretar desvios incomensuráveis de verbas que deveriam ser destinadas às tantas áreas carentes do Brasil. O grito de satisfação dos políticos brasileiros no Exterior, ao serem anunciados os eventos em nosso país, traduzia o prenúncio de espúria festança com a associação governo, empreiteiras e construtoras. O que se apreendeu pela mídia é a realidade, os gastos foram fabulosamente superiores ao previsto. Enorme verba pública está sendo destinada para as realizações esportivas que, diga-se, são passageiras e voláteis, mas que, mercê da farta gastança, deixará espalhados pelo país muitos Mamutes Albinos. Mais um ingrediente para essa gota transbordar.

Quem sabe essa manifestação, rigorosamente inédita no Brasil, sensibilize governantes. Precisamos de líderes verdadeiros, que não se comprometam com conluios estranhos para a perpetuação no poder. A aproximação, para fins inconfessáveis, de partidos  antagônicos, de políticos – antes ferrenhos inimigos e ideologicamente distantes – com pactos de “eterna” amizade através de sorrisos e afagos, a prodigalização de verbas para emendas parlamentares, a acomodação de figuras sem quaisquer experiências anteriores em Ministérios e Secretarias fundamentais, fazem parte dessa substancial gota d’água que ora escorre. Como confiar num governo que entrega um Ministério importante a um apaniguado, sem a menor experiência na área? Quantos são os Ministérios em Brasília ou Secretarias de Estado ou de Município pelo país que têm profissionais verdadeiros e apartidários? Isso tudo é amar o país, querer servi-lo para o bem de todos, ou é apenas aguardar apoio que reconduza governante e partido novamente ao Poder? Como esta palavra tem feitiço!    

Governantes têm de ouvir o povo que esteve presente maciçamente nas ruas e praças. Sem essa atitude, poderemos estar a caminho de recrudescimento das ações de multidões insatisfeitas ou entrando numa sinistra senda totalitária. O certo é que não mais estamos anestesiados. Contudo, evitemos a conturbação. Mensagens, o povo soube transmiti-las. A persistência das manifestações poderá não ser benéfica ao país. Há necessidade da decantação, única possibilidade para que ânimos voltem a serenar.

A presidente se pronunciou no dia de São João a favor do Plebiscito e de uma Constituinte. Que a sociedade esteja atenta às intenções! A Constituinte já estaria descartadas, mas… Que o Santo nos guarde!

This post discusses the recent protests that swept the country. The tipping point of the demonstrations was the bus fare increase, but the focus soon changed to other issues: corruption, high taxes in exchange for poor public services, vast sums spent on hosting the Confederatin Cup and the 2014 World Cup. The outcome of the riots is uncertain: maybe manifestations won’t achieve anything, political parties may capitalize on social unrest and return to totalitarianism is always lurking around. Let’s hope for the best.

Há solução para nossa índole?

Falta-nos a voz com que protestar
Almeida Firmino (poeta açoriano)

O cotidiano muitas vezes faz com que temas relevantes não sejam observados com acuidade. Em nosso país raramente tivemos o impulso do protesto coletivo. Atitude que é parte da índole do povo. Alhures, manifestações grandiosas abortam qualquer situação que esteja a inquietar o cidadão comum, por vezes reformas que políticos tentam introduzir. Quando não, protestos adquirem dimensões conflitantes.

Se nossos governantes saíssem às ruas, frequentassem, sem cartões polpudos, shoppings, restaurantes, supermercados e outros estabelecimentos em que há necessidade de utilização da moeda, facilmente veriam preços que dispararam, contrariando discursos e estatísticas do governo. Inclusive, amparados por legislação, salários oficiais também têm aumentado, sempre bem acima da inflação. Quantos de nossos políticos e legisladores, sem legião de seguranças, teriam a coragem de percorrer “territórios” das capitais brasileiras mais populosas? Sabem da  existência desses enclaves urbanos e na essência foram parte da causa, pela negligência que tiveram frente à Educação, princípio único para o desenvolvimento de uma nação.  

Assistimos alarmados à segurança cada vez mais à deriva. Ministro da Justiça abertamente, sem o menor constrangimento, apregoa que preferiria a morte a estar em prisão pátria, assim como, poucas semanas após, defende a não redução da maioridade penal para menores, que estão a aterrorizar cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, quando 93% dos entrevistados na megalópole paulistana clamam em enquete por essa redução. A cada minuto, friso bem, algum menor comete algum delito de teor a variar entre pequeno e hediondo. Minimamente, oposicionistas  têm a intenção de reduzir a maioridade penal, sendo que o partido situacionista, a nível federal, propaga em coro as palavras do aludido Ministro. Paulatinamente, cidadãos honrados, chefes de família, mulheres trabalhadoras, jovens, crianças são ceifados insanamente por menores a troco de um celular, de um cartão de crédito ou até por nada. Sabe esse menor que em pouco tempo estará às ruas para prosseguir seu aprendizado na busca aleatória de vítimas indefesas. Estupros são cometidos à luz do dia! Está-se a viver num país difícil de compreensão. Sob outra égide, suspeitos endinheirados, voltados à corrupção endêmica, têm como se proteger, pagando polpudos honorários a advogados renomados de sempre…  Morosamente, a Justiça obedece a outro infindável festival de recursos e o que se vê ou é a prescrição do direito ou, quando muito, em outro contexto, penas abrandadas. Essa situação, a privilegiar quem pode, deixa pasmos cidadãos mais esclarecidos, pois sabem que as grades não farão parte do “condenado” abastado. Diria, vive-se próximo ao absurdo pleno. E nada acontece!!! Seria necessária a modernização do Poder Judiciário com maior celeridade na prestação jurisdicional ao cidadão.

Ao longo dos anos, sem prazer algum, engrosso a legião dos que lamentam o descaso pelo trinômio  Saúde, Segurança e Educação. Não se vê a mandatária mor vir a público dizer abertamente: Educação, Saúde, Segurança e Saneamento Básico são, a partir de agora, as bandeiras prioritárias, friso prioritárias, sem camuflagens. Ações sem tréguas, imediatas, sem promessas que se volatilizam. Temas que importunam profundamente os sucessivos chefes da nação.

Até quando assistiremos a desmandos de toda a ordem que contrariam fantasias verbais que são derramadas diariamente de Brasília e de microfones abertos pelo Brasil que recebem discursos e falas oficiais de governantes estaduais e municipais? Se aqui aportasse um alienígena e ouvisse apenas as palavras do governo central, certamente acreditaria que vivemos no paraíso.

Sob outra égide, a anestesia generalizada atinge pormenores que passam desapercebidos. Como exemplo, citaria algo que seria incompreensível décadas atrás, logicamente a obedecer contexto outro. Como educação, reza o código de boas maneiras que não se deve interromper um interlocutor numa fala, mesmo que banal. Aprendemos desde a infância a assim proceder. Ainda hoje, em reuniões civilizadas, aquele que tem a palavra não deve ser interrompido. Esse ato de interromper virou contudo, na internética, algo rigorosamente banalizado. Mencionaria como exemplo o provedor Terra, o YouTube e tantos mais. Ao abri-los, a tela principal  imediatamente é invadida por outra da mesma dimensão com uma publicidade qualquer. É realmente absurda essa invasão. Será que algum dirigente lembrar-se-ia dessa não interrupção de diálogo, princípio fundamental da boa educação. Será que esses profissionais da mídia aprenderam em casa, durante suas “formações”, que o princípio da não intromissão é preceito elementar?   Sempre que essa tela indesejável surge, deleto-a imediatamente, sem mesmo me ater a que se refere. Contudo, se o navegante partir para uma janela em especial, ao regressar o invasor retorna com o mesmo ímpeto. Tempos atrás, essas publicidades aos montes ficavam a pulular pelas laterais. Continuam, em movimento ou estáticas, mas poluidoras. O poderio do vil metal é tanto que agora, sem pejo, somos atacados frontalmente por propagandas avassaladoras, certamente mais dispendiosas para o anunciante. Este e os provedores têm consciência dessa intromissão. Perderam o espírito da educação. Sim, publicidade é essencial, mas e o elementar princípio ético? Nada a fazer, pois não há regulamentação, creio eu, para esse tipo de procedimento. E a “quem” interessaria regulamentar, se considerarmos que se  generalizou o fato indesejável?

Permanecemos anestesiados. Para as menções primeiras ligadas ao governo ou para atitude praticada por empresas privadas, não temos como reagir, pois nossa índole, hélas, trois fois hélas, aceita até aberrações. E se protestos chegarem um dia à Justiça, recursos sequenciais anestesiarão aquele que porventura tentar revindicações. A vergonha dos precatórios aí está, a evidenciar a chaga aberta.  As benesses prodigalizadas pelo governo aos menos favorecidos, migalhas que prevalecem sobre o aprendizado do fazer construtivo, dá garantias às mãos abertas de políticos para que  votos necessários cheguem na hora oportuna. Anestesiados somos, sem dúvida. Nossas praças continuarão vazias e silenciosas. Índole? 

On the passivity of Brazilian citizens in face of serious social issues and its consequences. Unable to think critically, we do not engage in partnership activities that would benefit society at large. As a result, education, health and safety (both physical and juridical), basic rights taken for granted in developed countries, are a luxury we cannot afford.

Mensagens que transcendem

Todas as grandes tradições do mundo,
inclusive, é claro, o cristianismo,
dizem explicitamente que a morte não é o fim.
Todas falam em algum tipo de vida futura,
o que infunde em nossa vida atual um sentido sagrado.
Mas, não obstante esses ensinamentos,
a sociedade moderna é em larga escala
um deserto espiritual
em que a maioria imagina que esta vida é tudo o que existe.
Sogyal Rinpoche (“O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”)

Todo artista verdadeiro é simples, modesto, generoso e sem vaidades.
Júlia d’Almendra

O post anterior gerou comoção entre os que tiveram o privilégio de conhecer o imenso artista que foi Luca Vitali. Para aqueles que periodicamente viam-no citado em meus textos em contextos sempre ligados à Arte, seja através de argumentos que trocávamos ou, então, graficamente visualizados pelas dezenas de desenhos e charges que ilustraram o blog semanal, ficaria a certeza de um silêncio dos diálogos e imagens que doravante deixarão de visitar este espaço semanal. Contudo, a reverenciar o amigo que nos deixou, inserirei outras obras pertencendo a contextos diversos. Essa vontade, que terá o apoio irrestrito de Marisa – esposa, companheira e colaboradora nessa complexa missão tecnológica, tão distante das preocupações de Luca -, garantirá a presença do artista. É um consolo e surda alegria. Salvaguarda.

Cinco e-mails não poderiam estar ausentes do presente post, o terceiro a conter hilariante ilustração. Revelam a intensidade de afeto que transcende o mero convívio das pessoas. Ainda existem os seres especiais. São cada vez mais raros e, quando há a possibilidade de um deles cruzar nossos caminhos, é porque realmente fomos tocados pela bem aventurança que nos conduz ao inefável. Luca Vitali…

Marisa enviou-nos um pungente ato de fé. Traduz a alma bondosa, paciente, estimuladora e que deu a Luca a possibilidade da criação livre, sem entraves. Tantas foram as vezes em que a vi, atônita e embevecida, a admirar a obra de Luca. Tinha a consciência plena de que estava a viver com um grande Mestre, basicamente desconhecido de um Sistema que vive em função de marchands ávidos de artistas mediáticos, tantos deles sem qualquer mérito.

Marisa confessa:   

“Por mais que procure, não encontro palavras para descrever o que senti ao ler seu blog. Linda homenagem ao amigo irmão que tanto amamos.

Tive o privilégio de testemunhar o encontro de vocês dois e acompanhar o desenrolar de uma amizade imediata e infinita. A verdadeira expressão do amor, no seu mais amplo sentido! Por diversas vezes participei dos encontros onde você lia em voz alta os escritos de seu próximo post para que o Luca o ilustrasse. Você lia lentamente seus magníficos textos e nós escutávamos, atentamente. Eu, como um simples ser humano mortal, prestava enorme atenção nas palavras, tentando compreendê-las e delas extrair o significado daquilo que estava sendo transmitido. Enquanto isso, o Luca, totalmente absorto, ‘sentia’ o que estava sendo lido. Sua compreensão ia muito além das palavras, ele captava todo o sentimento não só das palavras, mas do autor delas. Eram momentos sublimes, mágicos, que tive a dádiva de presenciar.

Luca sempre me falava que a essência de tudo era o triângulo, a trindade, pai, filho e espírito santo. Quando acontecia a trindade, invariavelmente vinha a transcendência. Pois é… hoje não só consigo compreender o que ele tentava me ensinar, como, mais uma vez, pude presenciar a trindade “Luca Vitali – José Eduardo Martins – François Servenière”. Meu Deus, tão simples e tão óbvio! Vocês três formaram a trindade que o Luca tanto procurava. E tudo aconteceu…

Hoje sinto-me muito triste, com uma saudade enorme do Luca, meu amor, companheiro e amigo. Agradeço muito por todo o carinho que você e a nossa querida Regina têm me dispensado. Estar com vocês é sentir o Luca mais perto de mim”.

Idalete Giga, que trocou e-mails com Luca Vitali, dele recebendo um belo desenho, escreve de Portugal:

“Foi com grande consternação que li no seu blog a notícia da morte do seu querido Amigo Luca Vitali. Compreendo e comungo da sua tristeza ao ver partir assim, inesperada e repentinamente, um amigo tão querido. Sem dúvida que Luca era um artista de grande talento e de uma imensa generosidade . Ele permanecerá vivo nas obras que amorosamente criou e na memória dos amigos e familiares. Fico com grande mágoa de não o ter conhecido pessoalmente. Contudo, já me era muito familiar através dos seus inúmeros desenhos que completaram, de forma sublime, muitos posts do José Eduardo. À medida que os nossos amigos partem, vamos também partindo e morrendo um pouco com eles. O Luca já se libertou do peso da terra. Já nada o perturbará. Já nada o fará sofrer. Que a sua alma descanse em Paz para sempre”.

Mônica Sette Lopes, juíza do Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais, encantara-se com as pinturas de Luca Vitali da série “Marias Brasileiras” e dele receberia  desenho sugestivo:

“Ele te mostrou a Maria da Lei que fez para mim? Para você rir um pouco, vai em attach. Brinquei com ele com aquelas Marias todas em como seria uma Maria que ficava no meio dos processos”

Franços Servenière nos envia de Blangy-le-Chatêau, na Normandia, texto inserido em seu site:

“No começo de Abril de 2013, enquanto Luca Vitali e José Eduardo projetavam para o outono no Brasil um recital do pianista em torno das sete telas da série cósmica e dos sete Études Cosmiques, o pintor enviou-me seu calendário mensal, ilustrado a cada mês por uma de suas obras. Esta está sob o título de’ Outono de Servenière’ , referência ao meu outono dedicado a compor a coletânea pianística, inspirada por e em honra de suas telas. Fiquei sem voz, pelo presente e pela qualidade da tela, uma verdadeira obra prima. Domingo, 14 de Abril, Luca enviou-me o certificado de autenticidade e mais três fotos ao lado de sua recém criação. Quarta-feira, logo a seguir, José Eduardo me contacta pelo skype e anuncia a chorar a horrível notícia: ‘Luca morreu’. Estou aterrado e incapaz de dizer qualquer palavra…

José Eduardo prestou no blog anterior uma vibrante homenagem ao amigo-irmão, repentinamente ceifado de nosso convívio. Estou arrasado. Perco uma amizade que nasceu profunda, cercada pela comunhão artística intensa, pois nós formamos e formaremos ainda simbolicamente um tríptico de artistas com concepções semelhantes, como tão bem escreve José Eduardo nesse post. Para nos consolar desse desaparecimento trágico, basta admirar pela internet ( http://vitaliluca.blogspot.com.br ) essa arte solar que me inspirou tanto. Resolvemos acrescentar no caderno de Études Cosmiques um oitavo estudo, que terá o título Automne Cosmique – In Memoriam de Luca Vitali“. (tradução JEM).

Eliana Bento, abnegada fonoaudióloga, transmite a sua e a opinião do artista Evilásio Cândido, discípulo de Luca Vitali e mencionado no blog anterior:

“Tivemos a graça de conviver com Luca Vitali!

O encontro de Evilásio e Luca tinha que ocorrer e eu, como um presente da vida, tive o privilégio de ver esse encontro de almas. Li emocionada tudo o que escreveu sobre Luca, sei da falta que ele nos faz. Tive o privilegio de conviver, semanalmente, com Luca por 18 anos, durante as aulas que ministrava ao Evilásio. Conversamos muito durante todo esse tempo e sei da beleza e da importância do deu trabalho artístico, sei também o quanto ele procurou e desejou o reconhecimento de todo o seu talento. Vejo esse reconhecimento na integração entre as artes, citada em seu blog, rara de ocorrer e privilégio das almas generosas, que só os artistas possuem. É como Evilásio afirmou quando soube de nossa grande perda: ‘Ele agora é nossa inspiração!’

Singelamente, Regina e eu, cercados de nosso pequeno clã, comemoramos neste sábado nossas Bodas de Ouro. Singelamente. Muitas alegrias, tristezas, compreensões e paciência por parte dela, esperanças sempre, todo o nosso universo sob o manto da Música e do Sagrado. Sob este, nossas filhas, genros – in memoriam José Rinaldo – e netas proporcionam ao casal a essência da dádiva. Cotidianamente. Logo após nosso almoço de 16 de Abril, menos de dois dias antes do infausto acontecimento, Luca enviou-me singela e expressiva lembrança. Espontaneamente nasciam os primeiros esboços desses pássaros da união feitos à mesa e testemunhados por José Eduardo Lonfranchi, amigo de longa data do artista, que naquele momento veio até nós para saudações. Último desenho a servir como  símbolo de afeto de uma amizade sem limites.

O desenho de Regina em seu piano imaginário, ecológico e voltado ao belo, foi outro desses exemplos da magia que brotavam da mente desse ser especial que sempre será Luca Vitali.

 Fica a nossa gratidão eterna ao artista, amigo e interlocutor arguto pelo estímulo, esperança, desprendimento e generosidade que em nenhum instante deixou de nos transmitir. Sua alma deve agora estar a conviver com o Universo Cósmico que tanto perscrutou em suas extraordinárias criações.