Navegando Posts em Cotidiano

Temas que Fazem Pensar

 A inflação é o mais poderoso instrumento de transferência de renda
dos que trabalham para os que exploram o capital.
Tancredo Neves

Então, como em surdina,
se ouviu um grande coral
que parecia do céu:
os que ensinarem a muitos,
ou a um só,
os caminhos da justiça, da ciência
e caridade,
Brincarão como estrelas em perpétua
Eternidade…
Dom Fr. Henrique Golland Trindade, O.F.M. (1997-1974)

Luca sempre surpreende. Estávamos a tomar café em tarde chuvosa quando vem a pergunta sobre diferenças de custo de vida entre Brasil e França. Lera sobre a grave crise que assola a país europeu e a queda vertiginosa da popularidade do Presidente francês François Hollande. Curiosamente, ao regressar à minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, em meados de Fevereiro, pensei  no tema, pois apesar do momento atual em França, diferenças há nos custos nos dois países que nos devem preocupar sensivelmente. O temor maior vem de uma espiral  ascendente nos preços do cotidiano aqui nos trópicos, que no mínimo deveria servir de alerta. Sob outro aspecto, alguns desses preços estão em patamar completamente fora da realidade, hoje, de França e Bélgica, como exemplos.

Como estivemos hospedados em Paris no apartamento independente de diletos amigos, minha mulher e eu em várias oportunidades íamos a um supermercado bem parecido com os de São Paulo. Produtos expostos de maneira organizada e certamente uma variedade maior de alimentos e bebidas. A impressão nítida que tínhamos era a de entrar em um estabelecimento com os preços 20, 30 ou mais %  em conta daqueles encontráveis em nossa cidade. Leite, pão, manteiga, bem abaixo dos nossos. Um pacote a conter 10 salsichas ao preço do equivalente a três reais, quando aqui chega aos sete; 30 ovos a nove reais, quando uma dúzia em São Paulo está a sete em supermercado bem conhecido.  Alguns exemplos chegam a ser chocantes. Na seção de vinhos estavam expostos alguns chilenos bem conhecidos entre nós ao preço de seis a sete euros (R$ 16 ou 18), quando nos nossos estabelecimentos eles atingem  cifras que variam de 34 a 45 reais!!! Verdadeira e preocupante distorção!!! Todo um continente e mais o Atlântico a serem transpostos e a diferença absurda de preços faz-nos pensar em algo que não está a funcionar bem em nosso país. No compartimento de queijos, alguns dos mais conhecidos entre as centenas deles, como Camembert, Roquefort, Saint-Nectaire, Pont l’Evêque, Chèvre, Bleu d’Auvergne e tantos outros, muitíssimo mais baratos do que as poucas variedades, de qualidade bem inferior, produzidas no Brasil. O mesmo em relação às massas já prontas para microondas. Nesse caso também, relação abissal. No caminho das diferenças, outdoors anunciavam carros que se vendem também no Brasil. Sem comentários. Uma rede de hotéis mundialmente conhecida oferece preço de diária para duas pessoas na região da Ópera de Paris – um dos centros mais conhecidos da Europa -, mais acessível daquele apresentado em São Paulo. O leitor atento deve-se lembrar que, durante a Rio20, muitos executivos e figuras ligadas aos governos desistiram de vir à “cidade maravilhosa” mercê dessas diferenças que, àquela altura, eram astronômicas. Disparidades constrangedoras, evidenciando que algo soturno está a acontecer no Brasil e assistido passivamente. Se considerado for que o salário mínimo em França é cerca de cinco vezes o nosso, algo está a acontecer. Corrobora a condição da oferta e da procura sem que o fator humano essencial seja considerado. Estou a me lembrar de conversa que mantive com amigo, dono de restaurante de minha cidade bairro que costumávamos frequentar. Em poucos meses os preços galoparam. Encontrei-o e, a sorrir, suas palavras esclarecem muito. Perguntou-me a razão de nosso afastamento. Cordialmente respondi que os preços de seu bom restaurante deslancharam. Afirmou-me que nada podia fazer, pois todos os seus concorrentes estavam procedendo a aumentos que ele mesmo considerava exagerados, mas que a afluência de clientes não diminuiu. Nada a fazer, pois essa escalada em quase todas as áreas, inclusive a de serviços e as praticadas por profissionais liberais, aponta para perigoso caminho inflacionário. Há falta de bom senso, certamente. Economistas salientam diariamente pelos meios de comunicação que o custo Brasil é preocupante. É-o na realidade e devemos estar atentos, pois o discurso oficial caminha num sentido totalmente oposto. Conseguiremos suportar tais diferenças durante quanto tempo? Não por outro motivo milhares de brasileiros preferem passar as férias no Exterior, onde os preços estão bem abaixo dos nossos. Há a preocupação em desburocratizar o país? A corrupção continuará endêmica nessa relação tantas vezes estranha entre Estado e empresas privadas? Nossos três Poderes continuarão a aumentar bem acima da inflação seus polpudos salários? A real diminuição de impostos e de servidores se concretizará?  Somente através de um saneamento drástico poderemos ter alguma esperança. Realmente, continuo pessimista e nenhum sinal é apresentado para que possa – é sempre um almejo – alterar minha posição.

Um outro tema que Luca e eu discutimos tem a ver com a eleição do Papa Francisco. Luca comentou a situação sombria do mundo atual e a tarefa gigantesca que o Papa eleito terá pela frente. O cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, escolhido no conclave, tem currículo que o recomenda. Para a América Latina a escolha reveste-se de significado transcendente, apesar de o Papa, na essência, pairar acima de países e continentes. Será possível supor que a Igreja Católica Apostólica Romana, no conclave a reunir bem mais de uma centena de cardeais tenha optado, salvo melhor juízo, por um Papa mais idoso, a fim de que um longo pontificado, como os de Leão XIII (25), Pio XI (17), Pio XII (19), Paulo VI (15) e João Paulo II (26), não se repita. Nesse mundo de tão imensa e rápida mutação em quase todas as áreas, de crescimento de seitas de toda procedência, de embates em nome de religiões  que atingem, por vezes, o limite da intolerância, e na aceleração também da descrença no poder divino, um papado mais curto poderá representar uma possibilidade maior por parte da Igreja de seguir os passos da humanidade em crise pandêmica e de renovar as equipes internas que a administram. Se considerado for que o carisma e a exposição mediática do Papa João Paulo II, em seu longuíssimo papado, não propiciaram a Sua Santidade a transcendência renovadora de João XXIII em seu curto período de cinco anos como pontífice, há o que se pensar. Aos 76 anos e com um só pulmão, as qualidades do Papa Francisco estariam a apontar – sempre no campo das hipóteses – para um pontificado não tão longo. Que o Papa Francisco tenha uma longa existência, esse é o desejo de centenas de milhões de católicos espalhados pelos quadrantes do planeta e que presentemente oram pelo eleito, que terá pela frente desafios incomensuráveis!  A trajetória do ungido, com nítida vocação voltada aos menos favorecidos, só nos faz ter esperanças em uma ação menos hermética em prol dos problemas cruciais da atualidade por parte do Vaticano. Toda a história papal mostra pontífices que tiveram comportamento não à altura, mas tantos outros mais que primaram pela direção segura da Igreja. Sob outra égide, impressionam a capacidade e a formação sólida dos que estiveram no conclave para a escolha do novo papa. Presente na Capela Sistina o resultado de decênios de estudos teológicos aprofundados e de sacerdócios, tantos deles extraordinários, em prol da escolha mais precisa. É admirável todo esse processo. Há que se convir.

Sincera e significativa a resposta do Papa Francisco aos jornalistas no último dia 16. Disse ele que a escolha do nome tem, sim, referência a São Francisco de Assis. A lembrança teria vindo logo após a eleição, quando, abraçado e beijado por seu dileto amigo, o franciscano D. Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo, ouviu deste a frase: “não se esqueça dos pobres”. As palavras penetraram seu coração e a lembrança imediata foi a do Santo venerado: “Francisco é um homem da pobreza, da paz, que ama e protege a criatura”, afirmaria o novo Papa. Um jesuíta a entender e assimilar a mensagem fraterna de um franciscano. Esse olhar voltado aos mais humildes é um bom prenúncio.

On Brazil’s outrageous cost of living compared with that of France – not forgetting the country’s low minimum wage rates and unfair income distribution – and on the election of the new Pope, maybe a good choice at a difficult moment for the Roman Catholic church that is losing members in droves in part due to Vatican’s traditionalism and finantial and sexual scandals.

 

O Leitor como Destino

Só existem dois dias do ano que nada pode ser feito.
Um se chama ontem e o outro amanhã,
portanto hoje é o dia certo para amar,
acreditar, fazer e principalmente viver.
Dalai Lama

E chegamos novamente a uma cifra redonda. O contador é inflexível e apresenta uma realidade interessante. A curva lembra a de um cardiograma, sobe e desce, mas temporariamente atinge um pico não alcançado, para declinar a seguir. Essa cumeeira de tempos em tempos é superada e assim o blog caminha nessa flutuação ascendente, nas asas da imaginação.  

O fato dos temas serem diversos – abrangendo música, artes, cotidiano, política, resenhas e comentários, impressões de viagem, esportes – poderia indicar que giramos em torno de um núcleo. Contudo, a riqueza desses tópicos é tal que, como um leque, um universo de novas ideias está sempre a se abrir.

Madalena, colega dos anos 1950, perguntou-me há dois anos algo que me levou à reflexão. A mídia divulga resenha de livros que estão a ter vendagem expressiva e, tão mais comenta, maior notoriedade autor e obra passam a ter junto ao público. Há quase uma “histeria” quando se trata de obra super ventilada, não importando o seu valor intrínseco, desde que venha acompanhada de farta ação mediática. Disse-me ela, em tom quase nostálgico, que eu resenho livros novos, outros relativamente recentes e outros mais, segundo ela, “jurássicos”, mas não desprovidos de forte interesse. Respondi-lhe àquela altura que estamos diante de duas situações distintas. O livro recente é resenhado, um bem mais antigo, mesmo sob o olhar do observador, é comentado, pois já merecera ao longo dos anos, ou dos séculos, muitas resenhas e comentários, por vezes tratados e teses. Curiosamente, o tema levou-me a considerar leituras anteriores a partir de uma certa idade, pois tenho o prazer de reler obra que me agradou décadas atrás. Nossa finitude infalível dá-nos essa oportunidade da revisita, tantas vezes inesperada, a um determinado livro. Isso ocorre após observar a lombada de um volume em uma estante. Lembro-me dos momentos vividos a sorver a leitura, retiro o livro e uma surda alegria retoma seu curso. Anos atrás criamos a página Resenhas e Comentários (lista). Encontra-se ao alto, à direita do menu. Todas as obras lidas lá estão, com a data em que o post lhes foi dedicado desde que iniciei, em Março de 2007, a trajetória compartilhada. Sob outra égide, essa relação com o passado, sensorial, só pode existir com a obra impressa, uma das razões da salvaguarda do livro. Não saberia dizer se sob efeito do saudosismo, mas, quanto mais releio obras que me foram sensíveis, vivo uma sensação de visitação emotiva, à la manière do encontro com alguém de que gostamos e que o tempo distanciou. Continuarei atento ao presente, mas farei incursões periódicas ao passado. Não é essa metodologia que sempre apliquei à música, do barroco à contemporaneidade? Tanto na leitura, como na interpretação pianística, o amálgama realiza-se.

As Impressões de Viagens por vezes se confundem com o cotidiano, pois o olhar está a percorrer paisagens da natureza e humanas. Ficaria transparente que todos os meus deslocamentos geográficos têm finalidade musical. Não obstante, contemplar além do sonoro torna-se imprescindível.

Num momento de angústia notória, Zeca Pagodinho, famoso por sua popularidade musical, falou recentemente em Xerém, no Rio de Janeiro, o que milhões de brasileiros pensam dos políticos. Ao ver a destruição da região onde mora e o descaso das autoridades, disse, visivelmente emocionado: “Tenho nojo dos políticos”. Se por vezes, sem ser minha vontade, escrevo sobre a nossa triste realidade política nos vários níveis, na extrema morosidade de uma Justiça atolada em milhões de processos a serem julgados, na impunidade que destrói a ética, a moral, o respeito, na insegurança plena em que vivemos, no desprezo que governantes têm pela Educação e pela Saúde e, sob outra égide, no capitalismo irracional de nosso Brasil, é por imperiosa necessidade de fazê-lo. Princípio da panela de pressão. Em determinado momento…

A Música. Dedico-me quase que inteiramente a ela e não passo um só dia sem meu coloquial estudo pianístico. Este me leva ao aprofundamento além da partitura.

Por vezes há temas sobre as corridas de rua. Desde 2006 os três treinos semanais e as 57 corridas de rua trouxeram-me outra razão para o aprimoramento. Não há maldade entre corredores em atividade. As corridas de rua conseguem reunir nos trajetos legião de pessoas com o mesmo ideal. Jamais vi um corredor de rua mal humorado. O equívoco pode vir dos organizadores, como acentuei no caso da última São Silvestre, não dos atletas amadores. Nestes, um só sentimento. Bom, certamente. E é nas passadas ritmadas dos treinos que a inspiração dos posts surge. De madrugada, frente ao computador, é só vertê-la para o teclado.

Meus agradecimentos profundos a sete figuras exemplares em toda essa trajetória do blog: Regina Pitta, que revisa o post e escreve o resumo em inglês; Magnus Bardela, meu ex-aluno, amigo fidelíssimo e o sempre guru informático; Luca Vitali, o extraordinário designer, que capta determinadas leituras que a ele faço de pré-posts, criando desenhos que me surprendem; François Servenière que, diretamente de Blangy-le-Château, na França, em e-mails de rara densidade, disseca o blog da semana com sua fina percepção de compositor e pensador; Jenny Aisenberg, que pacientemente ouve minhas ideias para o post e transmite, via telefone, suas sensíveis impressões; Mônica Sette Lopes que, de Belo Horizonte, com regularidade desde os primórdios do blog, observa o conteúdo com o olhar de professora e juíza;  Elson Otake, amigo maratonista,  responsável pela minhas gravações introduzidas no YouTube e tantas vezes mencionadas nos textos.

Continuarei a digitar. A família me dá alento. Estimula-me sempre. Minha âncora profunda. Amigos escrevem me apoiando e até sugerindo temas que sabem que poderei acolher. O  fato é que não estou ligado a nenhum veículo de comunicação e isto, à maneira de um pássaro, dá-me a liberdade de pensar sem quaisquer pressões. Continuemos cúmplices. 

Last week my blog reached 300.000 visitors, leading me to reflect on the pleasure of posting an entry every week – a way to ponder upon life – and on how proud I am of such a large following – thanks in part to positive word-of-mouth from readers. In this post I recall the subjects that are dear to me, thanking visitors for sending me stimulating messages and expressing gratitude for the services of those who, behind the scenes, help me in this endeavor. 

In Memoriam do Cadeirante Israel Cruz Jackson de Barros

Se me apontares ao impossível,
te sairá baixo o tiro ao possível.
Agostinho da Silva

O percurso da corrida de São Silvestre de 2011 foi dramático (vide Corrida de São Silvestre e Equívocos – Quando Interesses Estranhos Sobrepõem-se à Alegria de Muitos. 07/01/2011). A Yescom, ao inserir a descida da Avenida Brigadeiro Luiz Antônio em direção ao Ibirapuera, após a difícil subida da mesma avenida desde o centro da cidade, sujeitou milhares de atletas amadores a um desgaste físico, mormente das articulações dos joelhos, de maneira, poder-se-ia dizer, irresponsável. A dispersão após a chegada teve lances tragicômicos, com milhares de atletas enlameados devido ao forte aguaceiro durante todo o trajeto e à total falta de infraestrutura, pois inexiste meio de transporte à altura naquela região para atender uma malta imensa. Logo a seguir à corrida, dirigente vangloriava a organização pelo sucesso do “novo” roteiro. Sabedores das lesões a que foram acometidos centenas e centenas de amadores, a Yescom ficou silenciosa, nem enviou questionário prometido aos participantes a solicitar opinião sobre o trajeto de 2011. Fiquei com edema nos joelhos durante bom tempo, tive de fazer ressonância magnética e fisioterapia. Curei-me. Outros corredores com quem converso antes de cada prova sofreram mais, pois meniscos e patelas ficaram bem avariados.

Para a corrida do fim de ano que passou alteraram o horário para o período da manhã, voltou-se ao percurso antigo, mas com uma agravante existente no percurso de 2011, a descida da Major Natanael, verdadeira pirambeira que desce da Dr. Arnaldo até o estádio do Pacaembu e após, sob o nome Desembargador Paulo Passalacqua - plana por algumas dezenas de metros -, apresentando outro declive menos acentuado até a praça Charles Miller. Inútil dizer, e tantos excelentes corredores com quem conversei ratificaram, que submeter o atleta amador a uma descida tão acentuada a pouco mais de 1km da largada é irresponsabilidade plena. O antigo trajeto da Consolação atendia a todas as exigências físicas, descida compatível com a temível subida da Brigadeiro Luís Antônio a cerca de 3km antes da chegada na Paulista. Percebe-se que se está diante de empresários amadores no que concerne ao esporte, pois sem a antevisão do possível erro, equívoco ou acidente.  As organizações de corrida Corpore, Circuito das Estações Adidas e JJS, apenas como exemplos, têm dado demonstrações constantes de boa organização. Por que não seguir o que está a dar certo? Qual a razão de constantes modificações e até descasos por parte da Organização? Jamais responderão; aliás, costume brasileiro enraizado nesse tergiversar realidades quando interesses estão em jogo.

E veio a Corrida de São Silvestre 2012 com percurso a apresentar outras alterações e horário modificado. Poder-se-ia dizer que o novo horário agradou. Houve, primeiramente, a corrida dos cadeirantes, após a das mulheres e por fim a geral, esta às 9:00. Toda a minha preocupação, já apontada em blog do início de 2012, quanto às descidas perigosas para atletas amadores, a da Major Natanael e a hoje felizmente esquecida da Brigadeiro Luís Antônio, teve enfim, para consternação de tantos corredores, que souberam tardiamente do fato, o mártir imolado. O experiente atleta cadeirante do Pará, Israel Cruz Jackson de Barros, 40 anos, morreu justamente na fatídica Major Natanael. Levado à Santa Casa, teve morte decretada às 8h50 por parada cardíaca. Pergunto aos organizadores, será que não houve uma só voz a dizer que aquela ladeira bem inclinada não se presta aos cadeirantes? Não pensaram que acidente grave e tragédia poderiam ocorrer? Igualmente no caso dos corredores amadores? Estariam a espoucar o champanhe do Réveillon com a consciência sombria ou a contabilizar o  lucro excessivo dessa tradicional corrida? Na entrevista publicada no Portal Terra, sob o título “Satisfeito, diretor geral pretende manter São Silvestre de manhã” (31 de Dezembro de 2012 – 13:45 – atualizado às 15:08), o senhor Júlio Deodoro louva aspectos da prova sem mencionar a tragédia ocorrida. No mesmo portal (01 de Janeiro de 2013 – 20:28), em matéria intitulada “Cadeirante temia a ladeira da São Silvestre”, tem-se “Os cadeirantes reclamam da inclusão da ladeira da Rua Major Natanael no percurso. Há diversos relatos da dificuldade de manter o controle da cadeira naquele trecho. Mesmo usando os freios, alguns chegam a 50km/h. Na prova anterior, já houve acidentes nessa descida, mas sem a mesma gravidade do episódio ocorrido na segunda-feira. Mesmo assim, a organização manteve o percurso, a despeito do risco que ele oferece aos participantes com cadeiras de rodas” e, friso, em outro grau para corredores de rua. Será um desrespeito à memória de Israel de Barros e um atentado ao bom senso se pensarem manter essa descida que margeia o Cemitério do Araçá. Teria ele morrido em vão? Le peuple a la memoire courte, diz frase proverbial. Estarão os organizadores a pensar nessa possibilidade do rápido esquecimento? O diretor técnico da prova, Manuel Garcia Arroyo, em entrevista à Folha de S.Paulo (02/01/2013), não classificaria de “fatalidade inexplicável” o chocante acontecimento? Afirmaria, ainda, que  “não faz sentido alterar o percurso”  e que avisara os cadeirantes  “não se esqueçam da descida da Major Natanael” (sic). A família do experiente paratleta tragicamente acidentado, mercê da insensatez da organização da São Silvestre, tem de buscar junto à Justiça o mínimo, a reparação cível pela tragédia que se fazia anunciar e que poderá se repetir, caso alteração sensível do trajeto em questão não prevaleça.

Soube apenas à tarde da morte do paratleta.  Após a última São Silvestre comentei que tive joelhos lesionados. Lá pelo mês de Junho estava perfeitamente bem e participei de mais de dez corridas no segundo semestre. E foi bem a Major Natanael, apesar de todos os cuidados que tive ao descer, que está a fazer doer, agora, minhas articulações dos joelhos, episódio que esquecera. 

Se esse declive absurdo foi o ápice da irresponsabilidade, o que dizer da hidratação, quando o primeiro posto estava no km4? Corpore, Circuito das Estações Adidas e JJS pensam nesse item aproximadamente a cada 2km. Do km 4 ao final foram poucos os pontos de hidratação, o que fazia com que atletas amadores buscassem se garantir pegando duas garrafinhas. No início da temível subida da Brigadeiro, de mais de 2km, deveria haver um posto de hidratação. Qual a razão de lá não estar? E o atleta nesse longo aclive transpira bem mais. Isso é fato. Outras organizações geralmente servem água gelada aos participantes. O que tomamos chegava por vezes à temperatura tépida.

Ao chegar, outra falha gritante. Os possantes autofalantes vociferavam que as medalhas estavam sendo entregues no fim da Av. Paulista!!! Assim proclamavam. Pergunto, não é também um descaso para com o atleta que correu 15km, tendo de chegar uma ou mais horas antes da corrida, percorrer o trajeto da Gazeta ao fim da Paulista??? Consegui a minha num pequeno nicho perto da Rua Pamplona ao alegar ser da terceira idade, visível, diga-se.  

Quanto ao “resto” da corrida, não houve transtornos. 25.000 atletas amadores fazem com que quase toda ultrapassagem tenha de ser feita em ziguezague, pois são inúmeros duos, trios e quartetos que, mais lentos, obrigam-nos a desviar, sempre. Mas isso faz parte da festa e é algo até bonito. Contudo, se pensarmos bem, quem ultrapassa chega a correr de um a dois quilômetros a mais devido à sinuosidade. Chegaram a completar a prova 16.253 corredores pela listagem fornecidada até o momento. Cheguei em 12.712 lugar com o tempo líquido de 1:51:30, sempre a correr. Compatível com a idade.

Numa outra visão, saímos de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, Canova, Carlos (Batoré) e eu e pegamos o Terminal Bandeira. O coletivo pleno de corredores. Todos descemos na parada a anteceder o túnel 9 de Julho. Meus amigos se posicionaram conforme seus ritmos. A confraternização existe e essa é a grande qualidade de uma corrida de rua. Todos irmanados, sem a existência do “olhar” a classe social.  Encontrara, na Sargento Gonzaguinha, Ricardo, torcedor de nossa triste lusa, mas bravamente a vestir nossa gloriosa camisa. Conversamos um pouco na largada sobre o difícil ano que a Portuguesa deverá enfrentar.  Ao chegar, qual não foi minha surpresa ao ser cumprimentado por leitor de meu blog pelo post sobre a São Silvestre já mencionado. Tinha em conta meu relato daquelas infaustas descidas da Major Natanael e da Brigadeiro, esta em direção ao Ibirapuera. Maurício Jasa é o seu nome. Simpático e alegre, proporcionou-me o prazer de conhecer um leitor antes anônimo.

Que venham outras São Silvestres, mas que os organizadores pensem em primeiro lugar no homem que labuta o ano inteiro e que busca a confraternização de fim de ano no asfalto da cidade. Que interesses menores não maculem a essência essencial dessa corrida. Ela existe há 88 anos e foi idealizada por cidadãos heróicos e sensíveis. Que os 25.000 atletas inscritos não signifiquem apenas o lucro e o pormenor. Uma parcela considerável de atletas amadores aguarda decisões sensatas por parte dos organizadores. Não se deve perder a esperança.   

Luca Vitali, sensível artista, ao ouvir a leitura do presente post ficou bem emocionado. A expressiva figura cadeirante “Em direção à Luz” é uma homenagem a Israel Cruz Jackson de Barros. O artista a apreender a transcendência.     

Once again I ran the traditional Saint Silvester Road Race last 31 December in the hilly streets of São Paulo. In this post I give my impressions of the race, that this year unfortunately ended up in tragedy, in my view due to lack of professionalism of both organizers and sponsors, since the course of the race forced all runners, including those physically disabled, to run down a particularly dangerous steep slope.