Navegando Posts em Cotidiano

Interpretação de uma Charge

A Justiça. Charge de Luca Vitali. Setembro 2009. Clique para ampliar.

Se o acaso te fizer conhecer três homens das ruas,
certamente eles terão algo a te ensinar.

Confúcio

Luca Vitali é ouvinte paciente. Quando entendo determinado tema do interesse do amigo, comunicamo-nos e vamos ao Natural da Terra tomar um curto. Leio pausadamente o post da semana. Luca, atento, pensa por vezes em imagens e a criação vem, sem eu nada pedir, via e-mail. É uma alegria ter seus desenhos a ilustrar meus textos.
Desta vez, deu-se o contrário. Instigado por outro apelo, sugestão de uma nossa amiga virtual para possível ilustração de um livro, realizou um desenho daquilo que ele entende por Justiça. Vi seus traços firmes e disse-lhe apenas que se tratava de forte e irreverente interpretação. Poderia pensar num futuro post? Achou graça e concordou, pois generosidade faz parte de seu cotidiano. São tantos os deficientes físicos que se realizaram a partir de seus ensinamentos artísticos ! Tema futuro, sem dúvida.
Várias corridas pelas ruas levaram-me a pensar. O desenho não saía de minha mente. Escrevia posts após reflexões, mas a charge de Luca continuava acesa em meus pensamentos. Traduzia aquilo que também passei a aceitar como integrante de surdo clamor existente no cidadão comum, longe das pesquisas, tantas vezes comprovadamente falhas. Sob aspecto outro, refletiria o desenho uma quimera, pois o acesso à Justiça mostra-se para o homem do povo, aquele dos transportes coletivos abarrotados, das longas jornadas de trabalho, da ausência de assistência médica, da absoluta impossibilidade de ter segurança, uma lâmpada apagada num túnel sem fim. Comprovadamente sabe esse cidadão que transita pela cidade que, se cometer algum delito, ou buscar reivindicar direitos, terá não apenas imensas dificuldades para inteirar-se das tramitações pertinentes, como estará à mercê de advogados, nem sempre com méritos, e sem o prestígio de alguns luminares que conseguem, através de argumentações mais embasadas ou da aura imbatível, defesas sustentáveis para casos complexos.
Nos dias que se seguiram ao curto com Luca, indaguei a várias pessoas se acreditavam na Justiça brasileira. Diria que, de vinte e tantos questionamentos para uma classe média a obedecer nuances, a resposta veio sempre instantânea, o não sem titubeio. Apenas uma exceção, um a se dizer advogado que se limitou a sorrir ironicamente. O mais contundente entre os negativistas, rosto entre milhões d’outros, disse que o santo caíra do altar. Quis saber o que queria dizer. Respondeu-me que meses atrás assistira pela televisão a uma sessão do Supremo Tribunal Federal. Houve discussão de tão baixo nível entre ilustres Ministros da Suprema Corte que sentiu vergonha. Um filho seu que se preparava para vestibular de Direito, ao ver a cena disse ao pai que estava a desistir naquele instante e que buscaria outra opção. Perguntei-lhe se realmente desistira. Com sorriso que transparecia resignação, retrucou “Ele e eu. Fará Economia e eu desisti de acreditar na Justiça que chega a esse nível em nosso país”. Emudeci. Mais do que o lamentável episódio ocorrido entre dois respeitados representantes de nossa Corte Suprema, calou-me o fato de que possível vocação de um jovem lhano – a tudo indicar pela atitude – tenha sucumbido ao vislumbre de um destempero. Decisão sem retorno, pois a partir de exemplo extremo. Mais ainda apreendi a mensagem de meu dileto amigo desenhista e pintor.
Luca teria captado algo patétito. Compreendeu, como artista, a realidade que parece ser sedimentada, sem condições de melhora. Creio que a mídia, a denunciar tantos escândalos quase que todos os dias, sem a menor possibilidade de resultados que incriminem culpados, tenha propiciado àqueles com o mínimo de esclarecimento o descrédito pelo nosso Poder Judiciário. Escândalos do Congresso Nacional e crimes de toda ordem, amplamente divulgados, repercutem em todo o país, sem punições para as figuras conhecidas envolvidas. Se elas acontecem, são quase sempre tênues, ou a paliativa prisão domiciliar. Ratificam para o homem que transita pelas ruas a desconfiança e o desalento. A impunidade proclamada pelos meios de comunicação mostra-se acentuada para aqueles que têm recursos para pagar honorários a causídicos renomados e convincentes. Fiquei entristecido com o resultado da minha simples pergunta. E nossas doutas cortes, em todas as instâncias, têm muitos dos mais brilhantes cérebros jurídicos do país, que lá chegaram através de méritos, seja por difíceis concursos, ou indicações políticas a partir de serviços prestados ao país.
Numa outra visão, aquela de um pobre sentenciado que conheci em Prados, Minas Gerais, está a apontar a absoluta diferença quanto aos julgamentos. Participei, entre os anos 80-90, de alguns Festivais de Música nessa pequena e bonita cidade, perto de Tiradentes. Ao lado da casa onde fiquei hospedado há a prisão e um só preso ocupava a cela. Conheci-o, pois durante o dia deixavam-no lavar um ou outro carro, e o sentenciado angariava alguns trocados. Moradores diziam que o rapaz, realmente bem simples, tinha boa índole, daí esse afrouxamento durante algumas horas. Quando em um bar bem típico, onde fui tomar café requentado, perguntei a um pradense qual a causa da punição e qual a pena a ele infringida, recebi como respostas: “roubou um saco de batatas e foi condenado a cinco anos de reclusão”.
A ilustração de Luca Vitali alusiva à Justiça, uma charge a considerar diversos aspectos por ele interpretados em traços que fazem parte de seu idiomático, traduz muito do que se ouve nas ruas a respeito do Poder Judiciário. Luca auscultou-se. Esse ouvir interior não seriam seus acúmulos silenciosos frente ao que todo cidadão também ouve, lê e vê diariamente?
A Justiça é representada com venda nos olhos em estátua grega. Essa venda teria origem no século XVI e representaria a isenção necessária nos julgamentos. Simboliza a Justiça “cega”, sem mácula, imparcial. Contudo, venda nos olhos pode pressupor sua retirada, o que tornaria injusto qualquer juízo, pois doravante a pender para uma das partes. A interpretação da charge de Luca mostra-se transparente. Ele idealizou a Justiça realmente cega e a sua balança só teria um prato para aferição e a suportar um Código, daí ter utilizado velho medidor tão comum nas feiras de antigamente. Sequer pensou na balança de dois pratos, equilibrada, isenta. Cego tem geralmente a guiá-lo cão fiel, mas Luca preferiu pensar numa raposa também sem a visão como guia e um gato como “observador”. A cegueira conduzida pelo estranho instinto da raposa. A espada a simbolizar o poder da Justiça, que sem bainha pressupõe a presteza decisória na tradicional representação, estaria substituída pelo guia, a manter junto a si a raposa. Notório entender que o preceito latino suum cuique tribuere (dar a cada um o que é seu) estaria a sofrer tendências tergiversantes.
Os Poderes Executivo e Legislativo têm dado exemplos não dignificantes, mercê em parte da enorme diversidade de formação de seus integrantes eleitos pelo povo. Alguns bons governantes existem, assim como bons legisladores. Há quantidade deles que servem aos Municípios, Estados, União. Porém, quantos não são aqueles que, a exemplo das ervas daninhas, têm permanentemente escândalos divulgados? Tendem a macular nossas Instituições e, entre elas, o Poder Judiciário. Salvaguarda fundamental deste país, graças, inclusive às biografias de seus membros, o Poder Judiciário deveria, sine qua non, ser o baluarte da credibilidade para o cidadão. É o descrédito pela Justiça, assinalado nesse minúsculo questionamento que realizei, motivo de preocupação? É-o, na necessidade absoluta e imprescindível do respeito que todos nós deveríamos ter pelo Poder Judiciário em sua abrangência, a reforçar, inclusive, a auto-estima do brasileiro. Não podemos, sob qualquer pretexto, perder a confiança na Justiça, mas ela tem de apresentar resultados que levem o cidadão a acreditar.
Certamente, o polêmico desenho de Luca Vitali tenderá a suscitar as mais variadas interpretações em todas as direções. A charge do amigo tem a força expressiva e criativa do artista e seus mistérios insondáveis. Por mais que haja objetividade na ilustração, um conteúdo oculto está por trás. Não seria a forte diminuição da credibilidade de nossa Justiça junto ao cidadão comum fato para a mídia dimensionar, o povo criticar, o artista idealizar, e eu abordar neste post? Houvesse a total imparcialidade a considerar o preceito constitucional de que todos deveriam ser iguais perante a lei, existisse a presteza nos julgamentos, e certamente a charge poderia ser outra e o presente post não teria razão de ser escrito. Arte, Luca a tem nas veias e acredito eu, não fosse o seu desalento, que é o de parcela majoritária esclarecida da população do país frente à Justiça, haveria tantos outros caminhos criativos para a sua pena percorrer.

Looking at an illustration made by my friend and graphic designer Luca Vitali, portraying the symbol of Justice as he sees it, I was led to reflect on the issue of dispensation of justice in Brazil and on the reasons why the common man has always had a distrust of our judiciary, tending to regard it as an exclusive reserve of the elites.

A Negação como Defesa

A Máscara. Desenho de Luca Vitali. Setembro, 2009. Clique para ampliar.

Rien ne naît ni ne périt, mais des choses
déjà existantes se combinent, puis se séparent de nouveau.

Anaxágoras de Clazômenas (500 a.C – 428)

Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme.
Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794)

Estava a aguardar consulta e fui até a janela do consultório que dava para um estacionamento. Carros chegavam e saíam, e os funcionários colocavam os cubos numerados que fazem parte do cotidiano nesses incontáveis estabelecimentos guarda-carros da megalópole. Modelos diferentes de montadoras fixadas no país. Dei-me conta, mais pormenorizadamente, da mesmice dos veículos e pensei nas propagandas que inundam televisores, rádios, jornais e revistas, a glorificar o arrojo e originalidade das linhas de tal novo carro lançado. Contudo, para um leigo, são todos os modelos muito parecidos, diferenciando-se através dos detalhes. Se dirigentes dessas montadoras forem entrevistados, tomarão como injúria a palavra imitação, mas que ela existe é evidente, mesmo que camuflada por “inspirado em vaga ideia”. Mutatis mutandi, o mesmo ocorre com todo tipo de mercadoria à disposição do consumidor. Fabricantes recusam-se a admitir que partiram de modelos concorrentes que ditaram inovações. Estes, por sua vez, foram desenhados a partir de protótipos de toda espécie de firmas. Essas observações levaram-me a reflexões.
Já na Grécia antiga, mímese designaria imitação – imitatio, em latim -, e os filósofos gregos debruçaram-se sobre o conceito, mormente Platão e Aristóteles. No século XV, sob outra égide, o célebre Imitação de Cristo, atribuído a Tomas à Kempis (1380-1471), dava ao homem a prerrogativa de seguir os passos de Jesus na aplicação de conduta ditada pelos Evangelhos. Livro de cunho devocional, proporcionava ao fiel o modelo de virtude. Teve enorme guarida durante séculos. Santo Inácio de Loyola teria se inspirado na obra, a fim de estabelecer princípios espirituais.
O termo imitação tem sido compreendido como pejorativo. Dificilmente alguém aprecia essa palavra quando a si aplicada, mas a história tem evidenciado que os acúmulos do conhecimento se baseiam em algo já pensado. Dir-se-ia que um degrau a mais no longo caminho em direção ao desvelamento.
Se observarmos os movimentos artísticos – pintura, escultura, música, teatro, literatura – e, mais recentemente, o cinema, poderemos sentir com clareza, através dos séculos, aquisições que paulatinamente estariam a configurar novas técnicas relacionadas às artes, mas que sofreram influências do passado.
Parte-se sempre da aquisição daqueles que permaneceram pela qualidade, referências paradigmáticas, estabelecendo-se então princípios orientativos para o aprimoramento. Legião de aprendizes dirigem-se diariamente aos museus ou às escolas especializadas e retratam o que foi realizado e que perdurou, assim como modelos ao vivo. Escultura, pintura e desenho estimulam essa possibilidade do vir a ser. Busca-se, através da imitação, chegar ao conhecimento das técnicas elementares às apuradas, que servirão no futuro, se qualidade houver, à própria criatividade daquele que está, de certa forma, a imitar ou a reproduzir gestos e traços.
Na Música, o termo Imitação é utilizado quando frase anteriormente exposta é novamente apresentada, alterada ou não, em outro segmento da textura musical. Essa característica repetitiva poderá obedecer a inúmeros critérios na organização da obra. Sob outra égide, as técnicas das escolas de composição não estariam a estabecer a constante presença de alicerces seguros que demonstram origens? Para a interpretação, que maior modelo para um estudante do que ouvir os grandes mestres?
Não reconhecer que ideias foram extraídas de acertos seria falta de modéstia. Quando o ilustre compositor Francisco Mignone (1897-1986) escreveu A Parte do Anjo – Autocrítica de um Cinquentenário (São Paulo, E.S.Mangione,1947), teceria considerações sinceras e sem preconceitos a respeito do plágio. Em sendo o aproveitamento de “elementos fecundos da criação alheia”, considera que “Ninguém é inteiramente pessoal. O que devo é organizar essa faculdade de maneira a me aproveitar do alheio”. Observa: “Todos os grandes artistas de todas as artes foram enormes plagiários. O plágio só é condenável quando feito com a intenção de roubar o sucesso alheio”. Menciona poeta paulista: “Guilherme de Almeida plagiou descaradamente Pierre Loüys, mas conseguiu fazer as admiráveis Canções Gregas”. A acompanhar a História: “Foi a tempestade de Ulisses, em Homero, que deu a tempestade de Virgílio, e esta deu a tempestade de Camões. São tempestades idênticas, e no entanto… são três tempestades!” Enumera compositores que permaneceram na história como tendo recorrido às aquisições de seus ascendentes: “deixar de bobagens e de pruridos de ser original. Originalidade está na lógica da criação e si Debussy é feito de uma parte de franceses (até de Massenet!), e uma terça parte de Moussorgsky, lhe bastou botar uma terça parte de Debussy na sua criação para ser original e chefe de escola!” Explicaria essa atitude a adesão a preceitos europeus no quesito composição. Fá-lo conscientemente, mas se fosse criticado e “si os outros disserem que estou imitando, si disserem que a minha invenção melódica é banal, que estou mostrando o meu rabinho italiano em meu brilho e violência apaixonadas, mandarei todos àquela parte”. As convicções de Francisco Mignone permaneceram ao longo das décadas. Cerca de um ano antes de sua morte, ocorrida em 1986, escreveu-me carta a ratificar convicções: “Junto vai a ‘Parte do Anjo’. Você vai encontrar a minha maneira de ser como artista. Continuo e permaneço sempre o mesmo!”
O notável escritor português Miguel Torga (1907-1995) teria compreendido a proximidade entre imitação e acúmulo, a resultar no próprio estilo de um autor. Em palestra, explicaria: “Acham que é possível ser um espontâneo, saltar para dentro da arena literária e fazer uma obra assim de qualquer maneira? Quando um escritor escreve uma coisa significativa, fá-lo tendo em conta toda uma legião de escritores que o precederam. Numa literatura como a portuguesa, que tem 700 anos de idade, não acham que essa herança é uma carga muito pesada? Acham que é possível escrever sem saber o que escreveram todos os antepassados da língua? Sem fazer um esforço prévio?” Em termos literários, como musicais, ter conhecimento intenso do que foi escrito ou composto, apenas dará consistência à obra. Desse entendimento poderão eventualmente advir proximidades que levem à imitação, realizada conscientemente ou não.
Mario Lavista (1943- ), notável compositor mexicano, tem precisão quanto às influências sobre sua obra. Em entrevista a mim concedida em Julho de 1989 e publicada um ano após na Revista Música da USP, observou: “Eu estou convencido de que elegemos nossos antecessores e quais são nossos avós. Eu elegi Mozart e Debussy como meus antepassados, mas essa escolha não foi sempre imutável. Há muitos anos, Webern foi meu antecessor; num futuro próximo, poderei eleger um outro”.
Influências notórias encontramos em basicamente a totalidade da criação humana. Faz parte da trajetória do homem. Desde os genes contidos no útero materno até a morte, estamos sempre a receber impactos que têm peso decisivo em nossa conduta. A imitação bem administrada e “autêntica” também integra esses acervos. Não seria a tradição dos povos Culturas sobrepostas? Religião, costume, língua não subsistem pela traditio e pela repetição? Quando os cravistas em França nos séculos XVII e XVIII e Olivier Messiaen (1908-1992) evocam o onomatopaico, não buscam, através da douta escrita musical, reproduzir o canto dos pássaros e das aves? Em La Poule (1728), Jean-Philippe Rameau (1683-1764) chega a escrever na partitura as hipotéticas sílabas da galinha. Em toda a história da música há exemplos desse emprestar da natureza sons e ruídos que lhe são característicos. Cachoeiras, relâmpagos, trovões, sem contar os emitidos em batalhas, evocação de instrumentos vários, até a eclosão do romantismo, sob égide outra, a clamar o sentimento humano como expressão maior.

Jean-Philippe Rameau. La Poule (1728), primeiros compassos. Clique para ampliar.

Clique aqui para ouvir La Poule, de Jean-Philippe Rameau, com J.E.M. ao piano

Autores se inspiraram em temas consagrados como citação e tem-se uma profusão dessas menções. Possivelmente, o antológico Dies Irae tenha sido um dos mais citados na história. Mozart, Verdi, Berlioz, Liszt, Saint-Saëns, entre tantos, utilizaram-se desse tema em obras específicas. Imitação? Talvez não. Citação sim, e clima outro para estruturas reinventadas a partir desse hino medieval.
Volta-me a ideia de carros antigos fotografados. Nos primeiros registros do início do século XX, poucas marcas, mas formatos bem próximos, independentemente da soberana cor preta. Hoje, muitas marcas, uma certa tendência para o cinza e grande semelhança nas linhas. Ou seja, nada mudou quanto ao conceito. Aperfeiçoamentos de montadoras “copiados” para modelos de concorrentes. Contudo, nega-se sempre a origem a motivar o plágio, e a propaganda, como assaz acontece, ajuda a vender a “originalidade absoluta”, mesmo que seja a partir do pormenor. E todos parecem satisfeitos nessa parafernália. As diferentes emissoras de rádio insistem, cada uma à sua maneira, mas com incrível dose imitativa, que os seus comentaristas são os melhores do Brasil; antigripais de tantos fabricantes proclamam seus remédios como os únicos que liquidam a gripe. É só ler a bula e verificamos a identidade dos princípios ativos. Sob contexto próximo, igualdade absoluta nos propósitos, repetições flagrantes para o ouvinte. Anátema dos poderosos à palavra imitação, apesar de ser ela tão evidente. Aceitá-la com naturalidade seria prova de grandeza dessas empresas, impedidas de acatá-la por motivos unicamente voltados à necessidade de demonstrar primazia. Nas artes seria plausível acreditar que majoritariamente artistas e artesãos não negam ascendendências transparentes. Tornar-se-ia evidente que o curso do rio continua e que as águas que retornam às suas cabeceiras fazem parte do ciclo da natureza. Ciclo do homem, sempre a renovar a partir de ensinamentos do passado.

Watching cars going to and fro at a parking lot, I observed once more how similar to one another they all look, differing only in details. The industrial design of one is blatantly copied by another, though automakers vehemently deny it. This was the starting point of a reflection on mimesis or imitation, a word in general considered pejorative. However, history shows that in any field of knowledge – when talent exists – pre-existent models function simply as starting points for innovative ideas of one’s own making.

Generosidade dos Leitores

Generoso desenho de Luca Vitali após recital privado. Fevereiro 2009. Clique para ampliar.

O que ganhamos viajando até a Lua,
se não podemos cruzar o abismo que nos separa de nós mesmos?
Essa é a mais importante de todas as viagens de descobrimento,
e sem ela todo o resto é não apenas inútil, mas desastroso.

Thomas Merton

Uma mudança de significado é necessária
para transformar este mundo política, econômica e socialmente.
Mas essa mudança deve começar no indivíduo,
esse significado deve mudar para ele…
se o significado é uma parte vital da realidade,
então, uma vez que a sociedade,
o indivíduo e as relações sejam vistos
como alguma coisa diferente,
uma mudança fundamental ocorrerá.

David Bohm

Atingimos essa cifra após dois anos e meio de posts publicados semanalmente de maneira ininterrupta, sem qualquer publicidade, sem a menor ventilação fora do próprio veículo de comunicação de que disponho. Houve aproximações para abertura a determinadas propagandas, mas preferi manter-me fiel aos propósitos eleitos, pois poderia haver cobranças ou pressões mercê de patrocínio. A independência do pensar pode levar a equívocos, mas está a traduzir a nossa pulsação sem qualquer aparelho controlador. Dependerá de quem escreve essa auto-avaliação que tantas vezes é repartida, pré-blog, com amigos que comungam ideias afins. Em textos espalhados nesse período frisei que reflexões costumam aflorar a partir de fatos os mais variados. A temática surge sem qualquer esforço devido aos impactos de toda ordem. A simples observação do cotidiano, as impressões sempre enriquecedoras das viagens, as leituras permanentes e a música, que é a própria respiração, estão a me servir, perenemente, como fontes inspiradoras.
Meu saudoso pai dizia que, sem um método preciso, dificilmente o homem atinge objetivos. Dizia mais, a complementar que disciplina, concentração, vontade e, de preferência, amor ao que se faz derrubam barreiras. Quando Magnus, meu antigo aluno e amigo sincero, sugeriu a criação do blog, relutei com certa firmeza. Entendia Magnus que temas tratados através do diálogo deveriam ser repartidos com potenciais leitores. Montou tecnicamente o blog, sem o meu aval, a dizer “ele está à sua disposição, é só começar a escrever”. Foi aos 2 de Março de 2007 que surgiu o primeiro post inserido no blog. Não houve até o presente uma semana a falhar, e o texto entra durante todas as madrugadas dos sábados. Uma amiga perguntou-me se eu não me dava férias quanto aos posts. Disse-lhe que se textos acadêmicos para o Exterior fluem periodicamente, mas sem previsão, o post para o blog e a música são respirações. Sem eles, o coração deixaria de bater. Trégua para o respirar? É curioso que, a partir do post inicial, pouco a pouco, assim como acontece com a música, o blog integrou decididamente meu batimento cardíaco. Confesso ao leitor que em geral os temas e as ideias para os textos surgem durante as corridas que realizo pelas ruas de minha cidade-bairro três vezes por semana. Diria que as passadas e a cadência respiratória avivam ideias tantas vezes retidas e conservadas numa espécie de baú mental, sendo que tantas outras nascem das leituras, do olhar o cotidiano, das viagens que permanecem.

Corrida Corpore 10km, 23/08/09, tempo 1:11:26. Foto Daniel Martins da Treinoonline. Clique para ampliar.

A depender do tema, o vernáculo pode sofrer adaptações. O cotidiano é sempre mais informal, contrapondo-se às resenhas ou aos comentários de livros, que fazem parte de meu outro cotidiano. Cada livro eleito para a leitura representa a visita a um universo desconhecido. É uma das dádivas da civilização. Tecer considerações sobre esses caminhos que os olhos percorrem e a mente absorve dá-me profundo prazer.
A leitura que fazemos do cotidiano não frequentado pela mídia não seria uma outra forma de prospecção? A escrever sobre personagens que eclodem panfletariamente nos meios de comunicação, prefiro retratar com palavras experiências sensíveis que Pedro o andarilho, Sisuphos, os moços do supermercado e da feira-livre, o velho e atencioso amolador Constantino, Carlinhos da pequena loja de produtos de limpeza, os músicos da calçada, o jornaleiro proporcionam-me a cada momento. São eles parte de meu olhar que pulsa nessa comunhão com essa gente humilde, digna, trabalhadora ou, nos tristes casos de Pedro e Sisuphos, abandonados pela sociedade. Os retratos da escrita, quando nesse segmento ignoto para a mídia, despertam a sensibilidade de Luca Vitali, artista que pratica o ato de comunhão em arte, depois do olhar o cotidiano que a maioria teima em não ver, e espontaneamente, sem eu nada dizer, ouve a leitura que gosto de fazer de determinados textos – pré-edição no blog -, capta a mensagem, traduzindo-a em poesia do traço. Flui a criação com a naturalidade dos grandes. Quando o desenho tende à “fotografia” poética, é Maria Fernanda que traduz determinado contexto com rara sensibilidade. Minha mulher Regina e Magnus permanecem ouvintes sensíveis dos textos em fase final que, a seguir, generosamente têm o crivo de Regina Pitta, revisora atenta e autora dos abstracts. O compositor Henrique Oswald já dizia que o pior revisor é o autor e complementava que se incluía entre os piores. Se de um lado há esse pré-conhecimento dos posts por alguns, como não ficar sensibilizado com leitores assíduos, alguns deles escrevendo-me semanalmente sobre temas lidos e as inserções dos conteúdos em suas vidas. A partir dessa espontânea comunicação, exemplos têm-me enriquecido e estimulado a prosseguir. De Portugal e de vários rincões de nosso país escrevem-me e as experiências trocadas são outra categoria do pulsar irmanado.
As viagens têm sido o registro de outros cotidianos, das paisagens e construções que cá não temos e do convívio humano. No fundo somos todos iguais e os sentimentos de amor, de amizade permanecem semelhantes, aqui ou alhures. A visão frente à vida pode diferenciar-nos, pois sofremos de problemas endêmicos devido ao descaso do Estado nesse nosso país eternamente deitado. Em que berço?
A aposentadoria da USP permitiu-me a liberdade da escrita informal, longe do rigorismo tantas vezes inócuo ou dos malefícios da pseudo-erudição evidentes em inúmeros textos acadêmicos (vide “Os Últimos Intelectuais” – Realidades bem Próximas, 21/03/09). A crítica à universidade pública brasileira, contida nas entrelinhas de textos espalhados pelo blog, na realidade é a denúncia ao que de nocivo está a acontecer em nossa educação e nas benesses precisas a tantos projetos estranhos. Que desestimula o ensino público básico e médio e que repercute no ensino superior, não há dúvidas. O tempo evidenciará o capitis diminutio que está a ocorrer na área da educação em todos os níveis, mercê do quantitativo sem estrutura em detrimento da qualidade seletiva.
A Música tem sido tema constante. Basta uma ideia surgir, ou receber a sugestão de um leitor atencioso, para que pouco a pouco determinado assunto comece a germinar. Os e-mails recebidos vêm através do endereço contido no contact do site. Costumo respondê-los, e diálogos extremamente interessantes têm estimulado o pensar. Procuro contudo adaptar as indagações e interesses dos leitores àquilo que me é caro na Música, a sua própria essência a partir da interpretação. A busca eterna pela consideração ao estilo do compositor e todas as decorrências que dele advém.
Personalidades que me foram caras, mestres não esquecidos, amigos que passaram para a outra margem, deixando exemplos de afeto, são temas que, por vezes, abordamos contristados. Revelam que convívios permanecem e que a gratidão por tê-los conhecido deságua no mínimo em forma de tributo que jorra sincero.
A montanha. Os Himalaias que me levaram às leituras das aventuras e do pensamento místico da região. Católico, não dispenso penetrar minimamente nesse pensar puro e elevado de alguns iluminados mestres tibetanos. Há tantas concordâncias com o cristianismo. Leigo no budismo, os textos tibetanos, a revelar a inclinação do homem em direção ao aperfeiçoamento individual e dele à compaixão que pode advir, seriam uma visão bem próxima aos ensinamentos que me foram transmitidos durante a trajetória. Ajudam a melhor compreender o homem na procura da plena humanidade. Utopia, talvez, mas vale acreditar.
Dileto amigo ponderou que deveria escrever sobre o que acontece na política brasileira. Sou um a integrar muitos milhões de descontentes com o que acontece nos três poderes desse país. Contudo, há especialistas que diuturnamente proclamam a vergonhosa situação a que chegaram as classes políticas e empresariais, umbilicalmente ligadas em tantas escandalosas oportunidades, quando interesses estranhos se apresentam. Escrever sobre esses tristes episódios? Qual seria a razão, se tantos outros com autêntica competência o fazem? Portanto, não será esse pantanoso terreno aquele em que ousaria colocar opinião pessoal, um mínimo post sequer. Certo dia, conversando com respeitado cientista político, dizia-me ele que a cada artigo que fluía de sua mente a respeito da realidade político-empresarial do Brasil, e destinado a determinado veículo de comunicação, seu batimento cardíaco chegava às alturas e a sensação de fel que sentia após redigi-lo atestava o descontentamento. Não que me queira furtar, mas são tantos a denunciar, tão cristalina a verdade ! Contudo, a impunidade, mãe de tantos vícios, chaga a sol aberto nessas terras tropicais, está sempre a apontar para o desvario e o surrealismo absoluto dos quais somos observadores sem a menor possibilidade de reação, pois as máquinas dos compadrios estão instaladas. Se o fugir à verdade é soberano nessa triste realidade brasileira, com o beneplácito dos três poderes, nada a fazer, a não ser protestar, sabendo que ouvidos e olhos bem tampados – estes sim, definitivamente vendados à justiça – descartam por parte da “trindade” o encontro com a realidade gritante das ruas.
Persisto. Até quando, não sei. Os posts continuarão a fluir, livros vão sendo penetrados com prazer acentuado, o cotidiano é sempre surpreendente e a música permanece intacta. Entre suas dádivas, está a de me fazer conhecer repertórios sempre renovados, sons inefáveis, raças e regiões. A geografia e o contato humano no Exterior possibilitaram a extensão sonora, e cada centímetro percorrido e um novo encontro calam fundo em meu coração. As corridas pelas ruas e em provas que me são caras, pela proximidade com a gente saudável e feliz, têm-me, como acréscimo, melhorado o desempenho físico. E por fim, a família. Sem a compreensão dessa âncora, que atenua turbulências, não estaríamos possivelmente à deriva? Complementando meu post inicial de 2 de Março de 2007, continuemos cúmplices. A guarida do querido leitor é chama que não se apaga, e o seu contato, mesmo que distante, faz-me ainda mais refletir sobre o grande mistério, a existência.

This week the number of visitors to my blog reached 50.000. I would like to take this time for a few words of gratitude to those who, working behind the stage, help me keep the blog and also to recollect the subjects that are dearest to me: music, books, travels, family, friends, the man in the street.