Navegando Posts em Cotidiano

Quando o Destino é Implacável

Desenho de Luca Vitali. Julho 2009. Clique para ampliar.

Quando for tudo
servirei aos teus
quando for nada
servirei a Deus

Agostinho da Silva

Em toda atividade humana há extremos. Existem aqueles para quem circunstâncias muitas, somadas ao talento, fizeram com que tudo desse certo em suas carreiras. Torna-se evidente que nas trajetórias individuais há alguns que se sobressaem pelo valor inequívoco e, ao pontificarem, mantêm o status da realização plena e do sucesso, com ampla ventilação na mídia. Outros, que igualmente chegam ao destino, mantêm distância dos focos de divulgação. Estilos diferenciados.
Importa considerar que o caminho traçado pelo homem, mesmo que talento exista, pode ser obliterado por motivos os mais diversos e dramáticos. A história esquece os que não conseguem atingir objetivos acalentados no início da trajetória. Todavia, exemplos proliferam dessa permanente existência do talento que perde o sentido, mas que pode ser detectado, apesar de drama final. Nesse estágio, relaxa-se o manejo da atividade, abandona-se o rigor, e o profissional, cônscio da indiferença dos olhares e das opiniões, acaba perdendo a auto-estima. O mergulho que leva ao abismo estaria propenso a acontecer. É triste e lamentável, mas essa realidade é comum em todos os cantos do planeta, pois carreiras estiolam-se.

Tocador de gadulka. Sófia, 1996. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Das atividades humanas, duas ligadas às artes desde a antiguidade apresentam extremos a apontar para a plena realização de uns e para o infortúnio de outros, que perambulam por cidades, vilas e aldeias. Normalmente, esses artistas buscam unicamente a sobrevivência, pois todas as portas lhes foram fechadas. Nessa derrocada, longo caminhar em direção às calçadas, sonhos esfumaçaram-se, laços familiares romperam-se. Em tantos casos, o infortúnio veio da ausência de estrutura psíquica, assim como da mão solidária em momentos cruciais.
Pintores de rua, retratistas, muitos deles com real talento, ao chegarem ao derradeiro porto de sobrevivência demonstram o patético e, não raramente, traços que retratam transeuntes, paisagens perdidas ou o abstrato pelo abstrato trazem conteúdos que merecem interpretações. No campo da música, quantas não foram as vezes que em cidades brasileiras e em outras, espalhadas pelo mundo, deparei-me com talentos extraordinários, musicalidade à flor da pele, técnica apurada, se bem que possuidora de vícios absolutamente compatíveis com a realidade, já que o rigor há muito ficou à margem. Alguns registrados em meus olhos e, sobretudo, em meus ouvidos. Estou a me lembrar de um idoso tocador de gadulka – instrumento da Bulgária, espécie de violino popular – em Sófia, que no rigoroso inverno apresentava melodias da mais profunda nostalgia, dando grande ênfase às frases musicais. Nas ruas da cidade, intérpretes de kaval (flauta de madeira), de gaita de fole simples e de sanfona evidenciavam destreza. Há guitarristas em logradouros públicos de Lisboa, nem sempre tocando fados, mas conhecedores do instrumento. O metrô de Paris conhece bem músicos que interpretam em corredores e vagões. Alguns são jovens que estudam no Conservatório, compreendem essa prática como meio de angariar pequenas importâncias para complementar a sobrevivência. Diariamente, músicos de toda sorte entram nos trens. Muitas vezes são cegos e, nessa situação, tocam sem expressão melodias conhecidas, pois não estão estáticos, mas caminhando e preocupados com o barulho de parcas moedas que caem em suas caixas de metal. Em outra versão, respeitado violinista internacional disfarçou-se e ficou a interpretar obras do repertório de concerto em corredor de metrô, enquanto a grande maioria dos transeuntes passava indiferente.
Em San Juan, na Argentina, passei por dois músicos que estavam a tocar muitíssimo bem em uma praça. Violão e flauta andina formavam um belo duo na execução de canções folclóricas. Aplaudi-os num intervalo que fizeram e, ao falar com os intérpretes, soube que eram irmãos. Contaram-me vicissitudes, os vários conjuntos que integraram pela América andina e que se desfaziam continuamente. Sem trabalho, buscavam o sustento tocando nas ruas e logradouros públicos. Eram peruanos, estudaram em conservatório, mas, com a morte dos pais em conflitos com o Sendero Luminoso, saíram pelas montanhas. Hoje na planície, estão a angariar sustento.
Em Sergipe, na bela cidade de São Cristóvão – a quarta mais antiga do país -, conheci um tocador de pífano extraordinário. Estávamos em Outubro de 1982. O jovem não tinha mais de vinte anos, mas uma descomunal virtuosidade. Com seu chapéu de couro, característico da região, mostrava igualmente musicalidade invulgar, e seu corpo contorcia-se todo para a alegria dos que estavam a ouvi-lo. Ao final, perguntei-lhe a respeito de sua formação, de seu instrumento, de sua vida. Aprendera desde tenra idade com um mestre da região. Fazia seus próprios instrumentos. Utilizava taquara, cano de plástico, osso e qualquer outro material “tocável”. Com a seca sempre a grassar pela região, preferiu tocar nas cidades e vilas do entorno a migrar para o sul. Disse-lhe para persistir em suas belas execuções, pois um dia poderia se integrar a um conjunto. Ao deixar a praça, pois tinha de me preparar para recital à noite na bonita Igreja Matriz, fiquei com as melodias encantadoras daquele jovem músico. Liszt, em carta à Madame d’Agoult, não escreveria que há almas que amam os sons? Esse tocador de pífano mostrou-se exemplo típico, tão expressivo seu envolvimento.

Tocador de viola caipira. autor: Guilherme, barro cozido, 25 cm. Clique para ampliar.

Foi no final da década de 70 que, percorrendo o Mercado da “breganha” na cidade de Taubaté – evento popular aos domingos onde se vende toda espécie de quinquilharia, de objeto antigo a dentadura usada -, encontrei uma escultura em terracota que me impressionou pela força expressiva da figura de um músico das calçadas. Carrega sua fisionomia toda a dor do mundo, e o artista com traços fortes soube traduzir o peso da trajetória. A viola caipira dimensiona a raiz do tocador, sua desventura, seu destino. Capta também a dignidade não perdida, apesar da pena a que foi submetido. Tenho sobre meu piano de estudo a expressiva peça em barro queimado. Meu respeito absoluto a esses músicos do infortúnio leva-me a jamais passar indiferente por colegas nessa situação. Suas presenças pelas calçadas desse mundo estão perenemente a revelar o drama soturno. Abandonados, permanecem como a sonoridade tristonha a procura da escuta solidária e da migalha de afeto.

On street musicians of varying talent levels playing their instruments in public places for pocket change and the indifference of passers-by.

Lembrá-lo Eternamente

Desenho a lápis. Carlos Oswald (1882-1971). Clique para ampliar.

E não me chamem de Mestre
sou apenas aprendiz
daquilo que me é o mundo
e do que sendo me diz

Agostinho da Silva

Professor é alguém que ajuda os outros a aprender;
Mestre é, sobretudo, aquele que ajuda os outros a “desaprender”:
a desaprender conceitos errados de vida, de verdade, de sabedoria, de Amor…

José Flórido

Tenho o maior apreço pela etimologia da palavra mestre. Vem o termo do latim magister. A designação de mestre era uma referência extraordinária àqueles que mereciam ostentar o título, mesmo que simbólico. No coletivo, tem-se Mestres Espirituais, da Pintura, da Música, da Ourivesaria. Em França, o termo maître, seja ele aplicado, como exemplos, a um grande músico ou a um especialista em culinária, tem sua carga competente. Ainda hoje, particularizado em tantas funções, Mestre do desenho, do teclado, de obras, de carpintaria. Qual a razão? Pelo fato de que se tem alguém a ensinar ciência, arte ou qualquer outro ofício. Seria o mestre a figura fulcral em sua especialidade, aquele a dominar o seu métier no sentido amplo. Não por outro motivo, a chave-mestra designa aquela que abre todas as portas. Em qualquer atividade, as portas da mente serão abertas quando influências de mestres competentes tiverem sido assimiladas, filtradas e até dimensionadas.
As gerações atuais pouco a pouco esquecem-se de honrar os verdadeiros mestres. Ao perguntar sobre a relação com os mestres a muitos colegas e alunos, nem sempre há a recordação precisa dos ensinamentos recebidos, mormente se foram inúmeros a ensinar e, tantas vezes, em salas coletivas. Ficam vagas lembranças, mas quando alguns mencionam com respeito determinado mestre, tem-se a fixação. Mensagens foram assimiladas. Num aspecto outro, vive-se a era em que superficialidade e interesse têm mais peso do que ensinamentos que penetrem inteiramente no de profundis. Torna-se necessário, para aferições curriculares, a quantidade de cursos realizados. Questionários não solicitam o que foi efetivamente aprendido. Sob outra égide, acentuam-se cursos realizados via internet. Telões apresentam um professor transmitindo para uma câmera o que deve ser passado. Um dileto amigo, que frequentemente visita a China, disse-me que essa prática atinge, inclusive, as classes de ensino de piano, pois naquele país há cerca de 30 milhões de praticantes! O que esperar de geração formada sem elos para a amarra de uma cadeia? A realidade tem sido cruel frente ao verdadeiro significado de mestre. Se mestres existem no Ocidente em todas as áreas, não estão a ser devorados pelo Leviatã da globalização?
O mestre autêntico é aquele que aprende todos os dias e, assim sendo, permanece sempre um aprendiz, o maior deles. Se ele tem essa consciência, fruto de mundo interior singular, certamente não terá empáfia, e os holofotes, se houver, serão entendidos apenas como luzes que precisam de uma tomada de eletricidade para que se acendam e não como meta final. Seu objetivo maior, o culto à qualidade exemplar. O mestre responsável entende como dádiva o que assimilou de outros mestres, não se achando acima de seus ascendentes, mesmo que os supere. Há nele, sempre, a compreensão quanto aos passos do discípulo, em qual estágio estiver, e felicidade ao ver horizontes mais extensos que o seu, se este o ultrapassa na trajetória. Difere visceralmente do pseudo-mestre, cuja intenção é tornar o aluno um eterno dependente. Ponderaria que são poucos os mestres autênticos que permanecem perenemente no pensamento de um discípulo autêntico, pois o amálgama se dá de mente para mente, e nem sempre a transmissão encontra campos propícios. Na acepção, evita delegar seu dever àqueles ainda não preparados para o mister, mas está sempre disposto a guiá-los. Pode ter “candidatos” a mestre bem próximos, mas permanece inteiro no ensino, diante dos aprendizes. Sente-se merecedor. Verdadeira missão.
Hodiernamente no Ocidente, mormente na vida acadêmica, mestre é títulação inicial, preferenciando a Academia os subsequentes, como doutor e outros mais. Há quase que o olhar benevolente daqueles que se encontram acima na carreira universitária para o que se tornou mestre. Isso é fato. Banalizou-se a palavra, extinguindo-se-lhe a força intrínseca, espiritual e a essência essencial, pois legiões obtêm o título de mestre anualmente. Paradoxalmente, muitos daqueles que concluem o mestrado, motivados pela necessidade acadêmica, já o são de fato pela experiência. Nesses casos, o papel apenas indicaria a “oficialização” da Academia para possível ascensão na carreira. Contudo, em muitas universidades públicas brasileiras o mestrado não serve sequer para que esse recém-titulado concorra a uma vaga acadêmica quando concurso é aberto. Menos mal que o título fique restrito intramuros, a permanecer, para a grande maioria, a palavra com seu real e abrangente significado fora da Academia. Destruiu a universidade a magia do termo. Não seria a minimização da palavra mestre, no caso, um desvirtuamento terminológico?
O tema surgiu a propósito de sub-capítulo de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer de Sogyal Rinpoche (São Paulo, Talento-Palas Athena, 2008, 11º edição, 530 págs.). A reverência, amor mesmo, respeito, admiração que se depreende da leitura da bela apologia levou-me a considerar a posição que um autêntico mestre exerce sobre nós. Um mestre budista é muitas vezes um ser iluminado.
Escreve Sogyal Rinpoche: “No nível mais profundo e mais elevado, o mestre e o discípulo não são nem podem ser em caso algum separados, porque a tarefa do mestre é nos ensinar a receber, sem obscurecimento de qualquer tipo, a mensagem clara de nosso próprio mestre interior, e levar-nos a perceber a contínua presença desse mestre máximo dentro de nós”. Aplicado à categoria dos mestres do budismo, a analogia com aquilo que deveríamos entender por mestre no Ocidente pode ser aventada. Quem cultua o mestre permanente entende a sua importância fundamental, principalmente quando, ao ensinamento na área, soma-se a compreensão da cultura humanística como um todo. Num sentido amplo, o mestre permanecerá como um farol. A cada flash de luz, como em noites sombrias no mar, lições aprendidas permanecerão pela existência afora, consubstanciando mensagens que são passadas às nova gerações pelo agora discípulo mestre.
Ficaria implícito que reverência seria sinal de gratidão por parte do aluno que soube assimilar as palavras do mestre, mais intensamente gravadas na mente do discípulo se houver abrangência por parte do magister. Competência e sensibilidade do mestre, receptividade e gratidão por parte do aluno. O ser grato ao mestre é uma consequência? É-o, mesmo que com gradações, no cerne do relacionamento entre quem transmite e aquele que absorve; é-o, se considerarmos a metáfora, proposta por Sogyal Rinpoche, de que o discípulo é aquele que jamais viu seu próprio rosto, mas que só dele tomou conhecimento quando o mestre apresentou-lhe um espelho capaz de revelar traços apenas imaginados. Mestres cultuados e discípulos a entenderem a continuidade do pensar não seriam formas de se atenuar a crescente vaga de desinteresse, desrespeito e irresponsabilidade existente no triste panorama que vemos diariamente nos noticiários? Demole-se pouco a pouco a relação elevada que deveria existir. O homem a caminho do esquecimento das tradições. Contudo, não podemos deixar de acreditar, e os exemplos vivos da perfeita harmonia mestre-aluno representam a luz que ainda não se apagou.
Se, ao longo destes quase dois anos e meio, posts têm sido publicados ininterruptamente, em muitos deles meus saudosos mestres foram e serão lembrados. A trajetória se tornou mais harmoniosa, mercê da dádiva de com eles poder ter apreendido ensinamentos. No turbilhão do viver, a tentativa de compreensão do mistério da vida passa inexoravelmente pelo culto àqueles que nos guiaram. A partir deste, há a possibilidade de entendermos partícula mínima, infinitesimal da existência e colaborar, como um grão de areia, na edificação de um mundo melhor.

A reflection on the qualities that make a good teacher, a master in the true sense of the word. Unfortunately, universities in the West do not understand the real meaning of the word with its spiritual implications. The new generations often show little or no reverence for their masters. Only Oriental religions and the great artistic movements of the West are aware of the traditional values that dictate the master-disciple bond.

Caminho para Varna

Estação rodoviária de Sófia. Foto J.E.M. 1996. Clique para ampliar.

Felicidade é a certeza de que a nossa vida
não está se passando inutilmente.

Érico Veríssimo

Quantas não são as viagens esquecidas? Aéreas, por vias férreas ou rodovias, parte considerável dos deslocamentos não é lembrada. A memória, com as sucessivas viagens, não pode reter todas elas. Permanecem aquelas em que algo inusitado acontece. Uma primeira vez, visita diferenciada a determinado lugar, relacionamentos novos, transportes os mais diversos, tudo torna indelével uma jornada, ainda mais se fatos quebram a normalidade que se espera.
As décadas acumuladas fizeram-me sentir sensível diferença entre os deslocamentos aéreos e os terrestres. Aeroportos ocidentais de maior porte têm quase sempre características muito próximas. Cosmopolitas, alguns bem mais equipados que outros, todos ostentam certas semelhanças. As pessoas, tanto no check-in como na sala de embarque, mostram-se sérias, geralmente incomunicáveis, algumas até arrogantes, por função profissional que buscam evidenciar através de gestos, trajes, utilização ostensiva de celulares e parafernália outra. Para aqueles que não pertencem à classe econômica, esse distanciamento em relação à categoria “social inferior” fica mais evidente no momento do embarque. Essa atitude pode ser observada também nos comboios no Exterior, mormente nos ótimos e rápidos TGVs, bem mais caros, ainda mais na primeira classe. Mas, nos trens comuns, uma maior interação entre as pessoas fica evidente. São fatos que a simples observação constata. Quanto à viagem coletiva por rodovia, mais abertamente social, chega a haver até congraçamento, a depender das circunstâncias.
Estava a percorrer álbuns de fotografias quando encontro algumas tiradas em 1996, durante viagem de ônibus de Sófia a Varna, na Bulgária. Convidado para um recital nessa cidade às margens do Mar Negro, foi-me oferecida passagem de avião, em percurso de curta duração. Pedi aos organizadores que providenciassem uma por rodovia, jornada que leva sete horas em média, pois tencionava pelo menos ver terras outras, cidades, vilas, aldeias, paisagens e captar uma mínima parcela da índole do povo búlgaro.
A estação rodoviária, simples e um pouco desorganizada, chamou-me a atenção pelas destinações as mais diversas de tantos veículos, assim como a presença desse povo humilde, muitos camponeses, pequenos comerciantes, mulheres com crianças, idosos. Cristãos e muçulmanos entravam nos vários autocars. Liam-se as localidades fixadas em cada um: Atenas, Istambul, cidades da antiga Iugoslávia – havia ainda litígios fratricidas grassando nos países recém-constituídos – e outras mais da região, ilegíveis para um leigo na escrita cirílica.

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O ônibus para Varna saiu lotado. Os passageiros, muitos com traços ciganos, conversavam com certa desenvoltura e em voz alta. A visão do cerne de um país, pois a estrada corta a Bulgária de oeste a leste, ficou marcada pela presença de pequenas florestas nas encostas de montanhas, onde se destacavam pinheiros, plantações de legumináceas, rebanhos esparsos de carneiros, minas ou pedreiras, muitas serras, pequenas cidades e aldeias, campesinos a trabalhar a terra ou a andar pelas margens da rodovia e muitas carroças bem típicas, puxadas por dois animais. Percebia-se em todas as moradias, mesmo as mais singelas, uma certa estrutura, a fim de suportar invernos rigorosos. Tornovo, parada obrigatória no meio do percurso, é a maior delas até chegar-se a Varna. Duas ou três outras paradas mínimas serviram para que eu descesse do veículo, a fim de fotografar camponeses em suas andanças.
A Bulgária abandonara há pouco o regime comunista, com o esfacelamento da antiga União Soviética. Sete anos é tempo curto para a recuperação, e nesse belíssimo país podia-se sentir a dificuldade financeira, pois tudo estava imensamente barato para um ocidental. A moeda era a leva, e refeições e o cotidiano mostravam-se a preços irrisórios.
Algo bem curioso ocorreu durante a ida e o retorno. Dois filmes foram exibidos em cada trajeto, fato normal numa longa viagem. Contudo, sem legendas, todos estavam dublados em búlgaro por uma voz única masculina. Como o sonoro idioma búlgaro é pleno de consoantes, há uma tendência natural às vozes mais graves. Estava eu preferencialmente a observar a paisagem ou a repousar, mas ocasionalmente via alguns segmentos do filme em exibição. Em um deles, a escultural Kim Bessinger estava em cena idílica, possivelmente a declarar amor ao parceiro, mas dublada por voz masculina grave sem nenhuma expressão. Dei boas risadas. Controlei-me ao observar o espanto dos outros passageiros. Em um outro filme, uma criança de cinco ou seis anos entra no quarto dos pais e diz “papa, papa” com voz de adulto. Novamente não me contive, e os olhares dos companheiros de viagem bem evidenciaram que eu não apenas nada estava a entender, como desconhecia essa prática, normal em tempo de transição política. E de pensar que os barítonos búlgaros são excepcionais, assim como as vozes femininas, existindo na Bulgária alguns dos mais perfeitos conjuntos vocais do planeta.

Cartaz do recital de piano de J.E.M. em Varna. 1º de Setembro de 1996. Clique para ampliar.

Ao chegar a Varna, um deslumbramento e a sensação de estar em uma cidade às margens do Mar Negro de tantas lendas, guerras e histórias outras. Mar interior, entre o Sudeste da Europa e a Ásia Menor, banha várias costas: Géorgia, Rússia, Ucrânia, Romênia, Bulgária e Turquia. Sua área total é de 422.000 km2, tendo profundidades bem acentuadas. Saber que esse mar interior apresenta-se frente às cidades como Sebastopol (palco de violentos combates históricos, mormente no famoso cerco durante a Guerra da Criméia -1854-1855, e em episódios épicos em plena Segunda Grande Guerra); Odessa (lá nasceu meu saudoso professor José Kliass); Ialta (cenário da célebre conferência – conjunto de reuniões – em Fevereiro de 1945, com a presença de Churchill, Roosevelt e Stalin, meses antes do término da Segunda Grande Guerra), Constança, antiga Tomis (para onde Ovídio – 43 a.C-17 d.C, o autor de Metamorfoses, foi desterrado); Varna; Istambul (outrora Constantinopla e Bizâncio de fantástica história), causa impacto.

De belo jardim em Varna, pormenor do Mar Negro. Foto J.E.M. 1996. Clique para ampliar.

Como estávamos nos estertores do verão, após o recital, que se deu no fim da manhã, fui até o jardim bem cuidado a proporcionar uma visão única do mar em momento ensolarado. Dele, descendo por escadaria bem antiga, tem-se acesso a uma das praias. Tirei sapatos e meias e caminhei cerca de vinte minutos, a sonhar com lendas e tradições do Mar Negro. Uma sensação de alegria e de emoção ao pisar aquelas águas que povoaram meu imaginário juvenil, quando leituras dimensionavam o misterioso Mar. Lembro-me, ainda miúdo, de um conto russo que minha mãe me leu, e aquele Mar pareceu-me ter uma importância descomunal, pois envolvia barcos tragados misteriosamente pelas águas. Era a primeira revelação. Meu grande amigo Gilberto Mendes pediu-me que incluísse no programa uma peça sua, pois Varna tem para ele uma aura especial, a povoar há muito tempo o seu rico imaginário. Esqueceram-se de colocar o nome impresso, mas toquei Viva-Villa a anteceder obras de Villa-Lobos. Ficou feliz, mas gostaria de ver seu nome no programa. Grande Gilberto.
O regresso deu-se tranquilamente. Os mesmos filmes foram reprisados, mas as paisagens eram diferenciadas, pois apreendidas em sentido contrário. Havia a certeza de que valera a pena ter trocado o meio de transporte, pois, se aéreo, poderia perder-se no esquecimento. O inusitado a ficar gravado. Perenemente.

On my way to Varna:
Unexpected events are hardly forgotten, specially when one is travelling. Flipping through an old photo album brought back memories of singular moments lived in Bulgaria in 1996: embarking on a seven hour trip by bus from Sofia to Varna among locals; strolling barefoot on the shores of the mythical Black Sea.