Navegando Posts em Cotidiano

A Intensidade a Tornar-se Pulsação

Desenho de Luca Vitali, após a leitura do presente post. 2009. Clique para ampliar.

Quand la foi s’éteint c’est Dieu qui meurt
et qui se montre désormais inutile.

Antoine de Saint-Exupéry

Márcia é amiga muito querida. Escreveu-me que em uma palestra encontrou professora da USP por quem nutro profunda amizade, mas com quem não tenho contato há muito tempo. Nossa cidade descomunalmente difícil. Márcia comenta sobre a colega uspiana: “Ficou absolutamente surpresa, aliás, quando contei sobre sua chegada na corrida de São Silvestre. Depois de alguns minutos, contudo, refletiu e disse que você era capaz de fazer qualquer coisa a que se propusesse…”. Confesso ter achado graça no e-mail da amiga. Mas, como ocorre habitualmente, logo após fiquei a pensar sobre o assunto. O que nos leva a enfrentar desafios, vencê-los ou não, mas nunca desistir por desânimo ou receio de ver uma obra complexa não chegar a termo? Meu saudoso pai tinha algumas normas de conduta. Conceitos sobre disciplina, perseverança, entusiasmo, concentração foram, ao longo de nossas formações, insistentemente repetidos. Creio que parcela desses ensinamentos ficou gravada. O homem tendendo à síntese, devido às décadas acumuladas, encontra no amálgama das captações o seu norte, o traço que identifica o seu caminhar pela vida em direção harmoniosa ao seu término, ou recomeço, representado pela morte. As palavras da colega permaneceram gravadas à espera de um motivo para eclodirem em texto semanal. Meses após encontrei Laerte, que não via há umas boas duas décadas. Casualmente nos reconhecemos quando fui às compras na feira-livre do Campo Belo. Estava o ex-colega de escola de passagem, a visitar filhos e netos. Marcamos de imediato um café nas cercanias e, junto às recordações que se fazem necessárias nessas oportunidades, disse-me ele acessar meu blog com certa regularidade, graças a um companheiro de trabalho.
Tem acompanhado de longe a trajetória do amigo. A certa altura, perguntou-me: “há alguma norma ou explicação para o fervor?” Entenderia Laerte que o longo caminho tenha sido resultado do fervor. Não apenas considerei perspicaz a questão como, no que lhe disse naqueles breves momentos, ficaria plantada a semente da reflexão. Os amigos possibilitaram a germinação do tema para o presente post.

>Antoine de Saint-Exupéry. Clique para ampliar.

Vieram-me ensinamentos contidos em Citadelle, de Saint-Exupéry, sobre o fervor, uma das palavras-chave na construção de seu pensar. Não obstante a existência de conceituações diversas para o termo, referimo-nos ao fervor da convicção nobre, conditio sine qua non para se alcançar algo que almejamos. Sem ele, toda a realização apresentará uma falha que seja, a determinar que faltou a chama a ratificar a identidade de um feito, por pequeno que possa parecer. É o fervor que faz emergir a condição para que objetivo seja alcançado, que o torna real, harmonioso. Através dele, o trajeto, mesmo difícil, torna-se meta amorosa.
Fervor inequívoco, a ser entendido como espiritual, artístico, profissional, tem pujança a não corromper a palavra. Para os que vivem a intensidade da fé, fervor é sinônimo inalienável, convicção profunda a não permitir subterfúgios. Fervor não pode ser confundido com ganância, existente em todos os segmentos da atividade humana. Nessa categoria, denominada por Sogyal Rinpoche como aquela de “fantasmas famintos”, encontra-se o desejo do poder, o amealhar fortuna pela fortuna e todos os vícios decorrentes da compulsão pelo dinheiro, aparência do crescimento interior. Fervor não é ambição, mas flama que impulsiona a criação, o espírito. Nos longos voos noturnos, Saint-Exupéry era movido pelo fervor, a estender princípios de fraternidade, solidariedade e justiça à humanidade toda. Voz nas alturas, mas pregação tantas vezes não ouvida em outro deserto – não aquele por tantas vezes sobrevoado pelo autor -, o da esterilidade do sentir, pois o homem continua a perpetrar as mesmas distorções de sempre. Felizmente, a mensagem de Saint-Exupéry é atemporal e remete-nos a conceitos que podem ser encontrados através da história, sob égide outra, nos denominados livros sagrados. Na acepção, entendidos por poucos.
Fervor independe do talento. Se este existe, evidenciará a vontade férrea que frutifica e permanece. Todavia, fervor não é sinônimo de talento e a ausência deste deve expor resultado menor, mas não desprovido de empenho. Saint-Exupéry considera que “o grande escultor nasce do húmus dos maus escultores. Servem-lhe de degrau e são eles que o elevam”. E na concepção de Império que domina Citadelle: “…se você salva somente os grandes escultores, ficará privado dos grandes escultores”. Mas, há salvaguarda: “ O fervor da dança exige que todos dancem, mesmo aqueles que dançam mal. A não ser assim, deixa de haver fervor e passa a haver apenas academia petrificada e espetáculo sem significação”. Continua Saint-Exupéry: “Não invente um império onde tudo seja perfeito. O bom gosto é virtude de guardião de museu. Se você despreza o mal gosto, não terá nem pintura, nem dança, nem palácio, nem jardins. O trabalho da terra, que não é propriamente assético, causar-lhe-á repugnância. Dele você ficará privado, mercê do seu vazio desejo de perfeição. Invente um império onde simplesmente tudo seja fervoroso”.
Saint-Exupéry explica-nos a impermanência do fervor. Impossível manter a chama fervorosa noite e dia: “Aqueles que desfalecem e tencionam fazer crer que estiveram a agir sem interrupção, mentem. Mente o sentinela das muralhas que dia e noite proclama o seu amor pela cidade. Contudo, ele prefere a sopa”. Esse fervor que persiste é cantado, mas pode ser trocado ou interrompido pelo cotidiano, sempre negado pelos que professam a presença dessa vontade férrea. Poetas, amantes, viajantes e até santos não seriam avessos a essas interrupções. “Mente o santo que confessa dia e noite contemplar Deus. Às vezes, Ele o abandona à semelhança do mar. E ei-lo mais seco do que uma praia de seixos”. As obras de artista em qualquer das áreas não estariam sujeitas, num outro contexto, à ineroxabilidade de as entendermos realizadas com maior ou menor fervor? Não necessariamente, mas todos os que permaneceram pela qualidade nem sempre atingiram em seus trabalhos o patamar da obra-prima. Falta de inspiração, de fervor? A impermanência na perfeição também atinge os grandes criadores.
Sob outro aspecto, o fervor que permanece, intermediado por tantas outras circunstâncias, lembra o que pensava o compositor russo Alexandre Scriabine. Sentado em um café frente a lago suíço, escreveria, ao ver uma carruagem passar que o grande Eu existia no ato de compor, enquanto o pequeno eu estava atuante a contemplar a carruagem e a tomar chá. Grande Eu do fervor, da criação, condição essencial para que quaisquer metas sejam atingidas amorosamente. Se o fervor, por tantas razões naturais, como adversidades, tragédias, desinteresses outros, fenece, o princípio gerador que leva à realização transfigura-se, a se tornar perceptível a ausência da flama. É ainda Saint-Exupéry que escreve: “Digo que minha obra acabou quando o meu fervor desaparece”. Eu acrescentaria, a independer da faixa etária, pois inúmeras obras que a história preservou foram realizadas no ocaso da existência de seus criadores. Quando a chama intrínseca se apaga, em circunstâncias tantas vezes misteriosas, o homem deixa tombar seu estandarte.
Citadelle contém sabedoria. É a síntese de um pensador que entenderia o fervor, a responsabilidade, o amor, a compreensão do homem com seus defeitos e qualidades, numa ampla acepção. Não há panfletarismo, tão em evidência nos dias de hoje. O fervor ou fé, em contexto próximo e amalgamado, seria a salvaguarda do ser humano sincero, espiritual, a buscar a verdadeira integração fraterna da humanidade. Ainda há tempo para esperanças.

This post is a reflection on the meaning of the word “fervour” as Saint-Exupéry understood it in his book Citadelle (The Wisdom of the Sands): an inner flame essential in the process of man’s full growth.

Recital na Capela do Convento Nossa Senhora dos Remédios em Évora

Retornar a Évora é rever a planura alentejana em seu esplendor. A esta altura está a verdejar, e sobreiros, oliveiras, chaparros e avinheiras, esparsamente distribuídos, imprimem à paisagem identidade singular. O amarelo das giestas, a escorregar por caminhos precisos, mas não homogêneos, contrasta com o lilás das flores do campo. Há unidade e beleza nesses verdadeiros quadros, que se vão afastando à medida que o carro desliza pela estrada. Sobre as torres de eletricidade, imensos ninhos de cegonhas evidenciam que elas escolheram, não sem razão, o Alentejo para a nidificação.
O recital na Capela do Convento de Nossa Senhora dos Remédios é a lembrança de apresentações anteriores no belo templo. É-me familiar. A Instituição de Ensino Eborae Musica, sob a direção da competentíssima Professora Helena Zuber, organiza incontáveis apresentações diversificadas durante a temporada. O piano em frente ao altar de talha magnífica estimula a interpretação e eleva o espírito, mormente a se considerar o repertório de música portuguesa voluntariamente escolhido. A amiga e ilustre colega Idalete Giga emociona-se com o monumental Estudo V Die Reihe Courante, de Jorge Peixinho. Confessou-me, no regresso a Lisboa, que custou a dormir, pensando na composição interpretada. Escreverá um texto evidenciando impactos causados em alma sensível. Durante a digressão, ou após, quando ecos certamente fluirão, revelarei o texto que surgirá do pensar e do sentir de Idalete.

Capela onde meu pai foi batizado, situada em uma das inúmeras freguezias da linda região do Minho. Foto J.E.M.

Qual o motivo dessa crescente atração por Braga? A cada ano, mais se dimensiona a admiração por meu pai, nascido em uma das freguesias de Vila Verde, tão próxima da antiga Bracara Augusta. É que mais e mais as referências levam-me à epopéia de um homem que teve tudo para se apagar no anonimato, mesmo que na maior dignidade, mas soube revestir sua saga com a aura do herói. Braga de amigos eternos: Teotónio, Maria Teresa, Ricardo, Luís, Ana Maria, Tiago, Arminda, José e tantos outros que independeram do tempo, apenas encontraram o momento da história para que o congraçamento se desse. Regina e eu os conhecemos num espaço de nossas vidas, sob o signo daquele herói que deixou Portugal ainda na mocidade e de outros que por cá ficaram, edificando seus futuros no labor amoroso constante.
No plano musical, Elisa Maria Lessa, ilustre professora da Universidade do Minho, apresentou-me manuscritos do compositor e pianista Eurico Thomaz de Lima. Obras que desconhecia e que me fascinaram pela qualidade da escrita. A ela, o mérito do redescobrimento do músico açoriano. Ao intérprete, a certeza de incorporar algumas obras ao seu repertório.
Ter convivido durante horas com o notável Professor de Direito da Universidade do Minho, Dr. António Cândido de Oliveira, apenas consolidou o maravilhamento que foi para mim apresentar o recital no Salão Nobre da Sala dos Congregados da Universidade do Minho. Semanas antes ele estivera com meu irmão Ives, que durante uma semana coordenou um curso de Direito na Universidade.
Uma das características de Braga é o congraçamento. Nas praças e nos cafés, as pessoas confraternizam-se de maneira coloquial. As atitudes de meu grande amigo Teotónio dos Santos lembram muito as que sinto na minha cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo. Conhece todos pelo nome e sua amabilidade é proverbial. A diferença está nos ambientes urbanos, pois a limpeza dos espaços históricos e de extraordinária beleza, a cortesia do povo e a segurança nas ruas divergem totalmente daquilo que presenciamos em nossas grandes cidades tropicais. Já me referira a essa segurança que o cidadão tem ao andar pelas ruas na Bélgica. Não é emocionante ver a história de Bracara Augusta amorosamente preservada? Faz bem ao bracarense saber que seus espaços urbanos ainda são respeitados.
Braga, terra que faz parte da minha respiração, pois a cada passo sinto a alma de meu pai a acompanhar-me.

On my recitals in the chapel of the Convent of Nossa Senhora dos Remédios in Évora – a chance to revisit the wide plains of the Alentejo – and in Braga, a city that I feel as part of myself, since it was my father’s birthplace.

Quando Apropriações Estranhas Criam Distorções

O Criativo. Desenho de Luca Vitali. Abril de 2009. Clique para ampliar.

O espaço e o tempo são formas da criação,
sensações – seu conteúdo…
Eu quero criar, e pela vontade, criar o múltiplo,
o múltiplo no múltiplo e o único no múltiplo (o não-eu e o eu)…
Eu desejo a ação, eu quero me saciar dessa ação.
A ação é criação – criação de novo – diferenciação – individualização…
Criar alguma coisa significa criar tudo.

Alexander Scriabine

Tem-se em nosso país o hábito, em certas camadas da sociedade, da apropriação de determinados termos pertencentes às mais variadas áreas, “institucionalizando-os”. Revela esse uso, por parte daqueles que utilizam vocábulos reinterpretados, a pobreza quanto ao conhecimento do vernáculo e a necessidade de evidenciar a apreensão dos modismos. Os integrantes dessas categorias reverenciam pares e outros personagens, a haver reciprocidade.
Palavras de áreas específicas são por analogia transplantadas para determinado contexto, e aqueles que as utilizam com outras roupagens exploram ad nauseam o vocábulo incorporado. O significado tradicional do termo, agora fantasiado com tantos panos estranhos, passa a ter doravante seu sentido original negligenciado. Outrora estaríamos diante de heresias, que apenas não ocorriam pelo devido respeito à linguagem de determinado povo. Substantivos tornam-se verbos, palavras características de outras áreas travestem-se em vestimentas multiaplicáveis. Nestas últimas semanas, os vocábulos tóxico (adjetivo) e toxidade ou toxidez (substantivos) passaram a ser empregados por um sem número de economistas repletos de “sabedoria”, no desiderato de explicar a crise que se alastra pelo mundo. Anteriormente, os mesmos senhores utilizaram “artigos podres” para designar outra anomalia. A aplicação é bem vista pelos pares, e entrevistadores e entrevistados não se cansam de repetir as “palavras-chave”. Todos falam com seriedade e o ouvinte menos atento concorda como se o oráculo lá estivesse. Os vocábulos ficam incorporadas ao léxico nessas novas interpretações que lhes são “outorgadas”. Também outros, como alavancar, inicializar, laborista, grade (para designar partitura, cerceando de fato o elevado significado original), assim como plugar e deletar servem para “enriquecer” textos e discursos nas mais distintas áreas. À maneira de um camaleão, as mais diversas colorações surgem a partir das palavras eleitas. O trinômio verbo-substantivo-adjetivo funde-se numa parafernália sem fim. Entrevistados tornam-se os arautos da língua-mãe em ebulição estranha. Sem esquecer de quantidade de termos em inglês, massacrantemente expostos no original, este pertencente ao universo globalizado. Se fizerem estatísticas quanto à utilização nos últimos meses, em todos os meios de comunicação, dos vocábulos commodities e spread, como meros exemplos, certamente ficaríamos estarrecidos.
Há cerca de um mês fui ao lançamento de um livro. Apresentaram-me a um cidadão, figura destacada em firma de publicidade e marketing. Após poucos segundos de amenidades próprias a essas circunstâncias, incorpora-se ao pequeno grupo um seu companheiro de trabalho, por ele introduzido na conversa como criativo da empresa. Perguntei-lhe: “criativo”? Sim, respondeu-me. Silenciei. Semanas após, ouvindo pelo rádio um dos noticiários matinais, exibiram trechos de longa entrevista com outro profissional de publicidade e marketing, anunciando-o como “O” criativo de determinada empresa. Reiteradas vezes o especialista focalizado referiu-se a si próprio, com ênfase e galhardia, como “criativo”.
Consultando o célebre Dicionário Moraes da Língua Portuguesa, de 1889, tem-se “Criador, a, substantivo. O que dá o ser tirando do nada. Deus, o criador do mundo. § (Por ext.) O inventor, o primeiro autor.” O Caldas Aulete (1968, 5º edição) completa: “Inventivo, um talento criador. Do latim Creator.” No termo “Criar”, o Moraes contempla “v. trans. verifica-se entre outras aplicações: criar um gênero literário”, e mais: “§ Criar um papel; diz-se do ator que dá a um papel que representa pela primeira vez uma interpretação original e feliz”.
Apesar de propagada a palavra entre publicitários, acredito estejamos diante de uma atitude a configurar apropriação indevida. À força da repetição continuada, mais e mais o termo “criativo” é atribuído a uma categoria de profissionais que não obstante o grande mérito de tantos deles, deveria ater-se aos vocábulos de suas reais qualificações, ou seja, especialistas em marketing e propaganda, ou ainda diretor de criação, editor de arte, gestor, redator, como alguns pouquíssimos exemplos. Digo apropriação indevida, pois entendo como um capitis diminutio interpretativo dessa palavra a sua aplicação como substantivo, o que pretensamente nivelaria os transformadores do termo criativo aos luminares da própria criação. Leonardo da Vinci, Beethoven, Goethe, Charles Chaplin, Picasso, Debussy, Auguste Rodin, apenas para situar poucas figuras paradigmáticas, foram absolutamente criativos.
O publicitário, ao atribuir-se o vocábulo, não estaria minimizando a própria qualidade de reflexão, ao considerar-se acima da conceituação sacralizada das palavras criação e criador?
Determinadas religiões têm Deus como Criador, e a natureza, o homem, a mulher teriam surgido como criações decorrentes. O extraordinário compositor russo Alexander Scriabine (1872-1915), ao se considerar um criador, imbuíra-se conscientemente do fato. Escreveria sobre o grande Eu (ato de compor) a contrapor-se ao pequeno eu do cotidiano que lhe era necessário. O idealismo fê-lo sentir-se um Messias. Nesse mister, foi caso isolado, mas suas concepções a respeito da criação influenciariam decididamente a evolução de sua escrita musical voltada à ascensão de toda a humanidade em direção à comunhão com o Cosmos.
Já estava a pensar no presente post, quando encontrei o dileto amigo Luca Vitali, excelente artista plástico ( www.lucavitali.com ). Trocamos idéias sobre o tema. No mesmo dia, Luca enviou-me espontaneamente o desenho que ilustra o texto. Se de um lado a figura revela a magia que vem de nosso imaginário lúdico, sob aspecto outro pode servir às mais variadas interpretações… Criativa lembrança.
O termo criativo teria de ser aplicado sempre àquele que descobre, inventa, cria. Nenhuma necessidade de torná-lo um substantivo particularizado a explicar uma atividade profissional específica e limitada. Deve integrar a ação, não ser a ação. Pessoas simples, mas talentosas, estão diuturnamente criando soluções as mais inusitadas. Criar é parte integrante do homem que pensa. Descartes afirmaria: je pense, donc je suis. A grandeza do pensar estabelece a fixação na história daqueles que ultrapassaram barreiras. Assim como todos pensam e a todos é permitido criar, uma das salvaguardas de perpetuação do ser pensante é traduzir, através dos milênios, incomensurável quantidade de idéias em inventos e descobertas. Contudo, há criação e criação em gama infinita de valor, e o respeito àqueles que em todos os domínios chegaram a criar e a permanecer na história impede-nos de vulgarizar a palavra. Valor intrínseco, não poucas vezes extraordinário, existe na propaganda e marketing, mas a mínima reflexão evidenciaria exagero no emprego de criativo como profissão especializada.
Se o nosso vernáculo é tão rico, se termos estão à disposição para as mais diversas atividades, a apropriação de palavra que especifica um ato tão nobre reduz inclusive a capacidade da verdadeira dimensão do homem de propaganda e marketing, banaliza a conceituação tão precisa do vocábulo, cerceando-o em compartimento estreito. Atribuir-se a primazia da criatividade é no mínimo entender mal palavra tão abrangente. Esperemos que, à força da repetição indevida, não nos esqueçamos do verdadeiro e autêntico significado da palavra criativo.

Old words, new meanings: a reflection on the appropriation of certain words by professionals of different areas, who grant them a new, “expanded” – but not always suitable – meaning, that soon finds its way into the idiom.