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Quando Interesses Fazem Esquecer a Essência do Homem

Manoel Martins. Crianças brincando, guache, 1967. Clique para ampliar.

Cá-que-rá-cá!…
Acordou tudo.
Foi como se de repente caísse um raio no galinheiro
e despertasse a mãe, os irmãos e as primas.
Ele próprio, mal a voz lhe voou da boca, se pôs frio.
E, à semelhança dos outros,
ficou reduzido a uma pergunta e a um pasmo.
Mas não acabara sequer de entender o que se passava,
e já novo brado a sair-lhe do bico:

Cá-que-rá-cá!…
Miguel Torga – Bichos

Um bem antigo ditado reza que a primeira impressão é a que fica. Quantas não foram as vezes em que o impacto inicial tornar-se-ia decisivo. É claro, igualmente, que nem sempre isso ocorre, mas se a máxima perpetuou-se, é porque repetições sedimentaram conceitos.
Pelos anos 70, caminhava pelas ruas do centro velho de São Paulo, quando pela primeira vez tive a sensação auditiva, verdadeira analogia, de estar próximo de uma granja. Desde criança habituara-me ao cacarejar das galinhas e ao portentoso canto de um galo soberano, pois meus pais mantinham no quintal de nossa casa um bem cuidado galinheiro e incubadeiras. Conhecíamos bem sons e ruídos emitidos por galinhas, galos, frangos e pintinhos. Naquele dia, ao me aproximar mais do foco de uma desordenada gritaria, vi por uma janela, quase à altura do piso, em um plano interno que me pareceu um subsolo, quantidade de homens gesticulando e desafiando a possibilidade auditiva normal. Os decibéis eram altíssimos. Aos berros, esses operadores empunhavam papeletas e sempre numa agitação generalizada, deslocavam-se e buscavam sobrepujar no grito concorrentes, colegas de trabalho e sabe-se lá quem mais. Logicamente permaneci na espreita por pouco tempo e fui à escuta de outros sons ou ruídos menos perturbadores. Presenciara instantes do andamento de pregão da bolsa de valores.
Hoje informatizadas, as bolsas passaram por grandes transformações, inclusive a BOVESPA, que extinguiu os gritadores, mas que aquela primeira impressão permaneceu, permaneceu. A tal ponto que, ao assistir nos nossos dias, pela televisão, a flashes desse mercado “diferenciado”, a agitação frenética dos operadores trouxe-me à lembrança a antiga imagem. Neste ano a Bolsa uniu-se à BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros) sob nova sigla – BM&FBOVESPA – e muitos ainda continuam a vociferar no segmento do Mercado Futuro.
Nestes últimos meses, assistimos ao absoluto desnorteamento das bolsas, com oscilações que beiram o desvario, pois a globalização faz com que todas, pelo mundo inteiro, sofram impactos. Voltei a pensar no que ocorre igualmente numa granja. Um amigo do interior, criador de frangos, certa vez contou-me algo que jamais esqueci. Quando uma raposa ou um gambá se avizinham de uma granja, as aves enlouquecidas dirigem-se todas para um canto do retângulo e amontoam-se. A tragédia é conhecida pelos responsáveis quando de manhã verificam um grande número de galináceas mortas, aquelas que ficaram por baixo. Não é bem parecida a cena com aquilo que presenciamos presentemente? Todos na bolsa “correm” para determinadas posições, ações despencam e quão mais caem, mais parecem se dirigir ao abismo. No caso da bolsa, basta uma notícia, um boato, a fala de uma autoridade de plantão e as recuperações das posições acontecem, para logo a seguir, dependendo de outros pronunciamentos, outros boatos, tudo voltar a descer. É impressionante como o homem repete essa triste sina. E como não lembrar, tecendo outra analogia, do estouro de uma boiada nos antigos filmes de faroeste que encantaram minha adolescência? Bastava um tiro, geralmente do bandido, e toda a manada saía em desabalada corrida, tudo destruindo em sua passagem.

Le coq et la poule. Notions de Sciences, Paris, 1907.

Sob outra égide, que qualidade de vida pode ter um operador diante desse massacre? Onde ficam a serenidade, a família, o desenvolvimento espiritual frente à tresloucada movimentação especulativa que move o mundo? Poderíamos acreditar que nesse mercado um operador de viva-voz ou aquele preso à tela do computador deixam de vislumbrar seu mundo interior, pois suas aspirações naturais ficam sufocadas pelo coletivo neurótico e descalibrado. Parece muito difícil que alguém possa manter a tranqüilidade nessa situação de permanente stress. Muitos fazem ginástica em horários (im)possíveis, “malham” a fim de diminuir tensões, mas é difícil entendê-los vivendo a possível normalidade. Sabe-se de operadores que no passado tiveram sérios problemas nas cordas vocais, muitas vezes de maneira definitiva, o que possibilitou até ações trabalhistas contra corretoras ou bancos. E de pensar que eles basicamente executam ordens de superiores igualmente estressados, que sonham diuturnamente com cifrões, senhores “aparentes” da moeda real e virtual.
A televisão mostra o interior do Prédio da antiga Bovespa não mais com os operadores a gritar, pois o pátio virou quase um museu, dando a impressão de serenidade. Hoje, muitos dos operadores, economistas, gestores e traders trabalham em corretoras e bancos, em ligação permanente com as bolsas daqui e de outros países. Internet e telefonia são seus meios de comunicação. A tensão é absoluta e muitos tornam-se insones, pois com o mercado globalizado há a necessidade do acompanhamento das bolsas asiáticas. Ações, juros, moedas, commodities, papéis de renda fixa e tantas outras funções podem levar o novo operador ao quase desligamento de uma vida normal. Se acertar, será incensado durante o período que durar a boa dica; se cometer um erro, o seu destino em direção ao infortúnio estará traçado. Uma constante gangorra à mercê dos acontecimentos reais ou fictícios.
Devido ao desaparecimento progressivo da gritaria, o operador “moderno” tenderia a sentir “aparente” melhoria ditada pela tecnologia. Ledo engano. O especialista atual fica frente a computadores, tendo de ser ágil a fim de responder às demandas do mercado e dos clientes, permanecendo sentado, o que é gravíssimo, sob o mais massacrante stress. Sedentarismo sob tensão.
O triste é que, mais os interesses se tornam poderosos; mais aqueles poucos controladores do mundo financeiro realizam estranhas negociações; mais o dinheiro compra dinheiro; mais os que vivem como operadores de bolsas e corretoras, exercendo tantas outras funções ligadas ao mercado de ações, estarão naquela infausta posição mencionada, por baixo dos mais fortes, mesmo que sem gritarias como n’outros tempos. Na realidade, o mundo de hoje não pode prescindir das bolsas. Inimaginável. Mas, assim como governos se aglutinaram para tentar resolver a grave crise financeira do momento, não poderiam também os “donos do dinheiro” buscar lucros menos exorbitantes e, sobretudo, propiciar qualidade de vida mais saudável a essa legião de operadores que, na realidade, apenas executa ordens? Saliente-se que o operador da bolsa é um trabalhador infatigável, figura fulcral para o bom andamento de todo esse segmento da economia. Mas, seria o homem em sua essência uma preocupação para os que mantêm o Sistema? Preso a este, o ansioso operador – nem sempre ele assim entende – segue o seu destino e, se praticamente não vocifera mais, o que é bom para a paz auditiva dele e de todos que o circundam, exacerba sua mente e sua visão nas telas do computador em constantes mutações. Eleger a dignidade do ser humano seria pois uma utopia, se considerado for o status quo atual que beira a irracionalidade. Creio que nada a fazer nessa tão absurda realidade materialista e…monetarista.

A look at the trading floor of the São Paulo Stock Exchange some years ago, with traders nervously shouting orders and flashing signals across the room, reminded me of the excited crackles coming from the chicken yard we had at home when I was a boy. Nowadays the open outcry system is being replaced by electronic networks, but the stress is the same. This episode came back to my mind after the recent stock market crash, leading me to reflections on gains and losses, on success measured by the amount of profit made, on the dignity of man.

Evidências Reveladoras da Sinceridade

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Os sonhos dividem-se em duas categorias.
Na primeira, aquele que cria o sonho torna-se mestre dos acontecimentos
que se desenvolvem em seu devaneio,
no qual ele é como um mágico, um demiurgo.
Na segunda, o sonhador não consegue controlar as coisas,
ele é passivo, impotente e incapaz
para se defender contra a sua visão.
Aquilo que lhe acontece é exatamente o que ele receia,
o que ocasiona terror e tortura.

Andreï Tarkovski

A trajetória do ser humano é marcada por impactos os mais variados. É possível que ela se mantenha serena durante o percurso completo, ou sofra maiores ou menores turbulências que afetarão a conduta, o vislumbre do caminho a ser percorrido, a relação com o próximo, as regras relativas à boa manutenção físico-psíquica, o entendimento espiritual. A qualidade do impacto poderá determinar as flexibilizações da existência, ou a ruptura absoluta com os padrões seguidos anteriormente. Seria possível compreender as palavras de Jiddu Krishnamurti, que asseverava que somos peregrinos sobre a Terra e que não nos devemos deter, mas sim continuar a senda trilhada. Fatos geradores de grandes transformações seriam, creio eu, passagens que podem afetar profundamente a nossa conduta. Seria o equilíbrio interpretativo que realizamos a nossa maior salvaguarda, a fim de que haja razão nesse permanente caminhar, e que o olhar, a partir da filtração que fazemos do fato que causa impacto, torne-se diferenciado.
Trocara idéias com uma vizinha no episódio Metrô – felizmente, decidiram-se pela Estação Águas Espraiadas, juntamente com o Terminal de Ônibus – quando Penha falou-me a respeito de seu filho, morador em Curitiba, que tivera um linfoma do tipo Hodkins, já extinto. Como aquele que me atingiu era mais agressivo, Tipo T de células pequenas, quis conhecê-lo. Sob aspecto outro, mudanças ocorridas em sua vida, mercê da doença, fizeram-no mudar sua visão de mundo. Uma guinada absoluta se daria e Vitor Caruso Jr. tornar-se-ia um outro homem. Tive o prazer de manter com ele longa e prazerosa conversa e realmente apreendi muito deste jovem voltado a empreendimentos ligados à Ciência Meditativa (www.cienciameditativa.com) e a ações voluntárias junto à APACN – Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia (www.apacn.org.br).
Vitor é hoje budista, praticante de Yoga e emana contagiante alegria. O nosso diálogo abordou desde a luta individual contra o câncer, como aspectos ligados à existência. Apesar do distanciamento etário, creio que enfrentamos o mal com ferramentas bem parecidas. Vitor Caruso teve a coragem de expor em livro todo o processo do mal que o afligiu, em seus mínimos pormenores, assim como os mecanismos que o levaram a enfrentar com determinação o mal de Hodkins. Jamais se submeteu aos diagnósticos plúmbeos. Toda essa epopéia está relatada em Com Qualquer Um de Nós (São Paulo, Rinacy, 2003, 66 págs.). A doença, que eu não quis revelar em seus pormenores, vejo através da pena do autor narrada de maneira direta e sincera, sem preocupações estilísticas, tampouco visando a agradar segmentos corporativos. Trata-se de um desabafo necessário, a servir de alento a todos os que lutam, vencem e não se submetem ao infortúnio. Mesmo àqueles que estão a sucumbir, há a palavra reconfortante de Vitor Caruso Jr. Um ponto chamou-nos a atenção. Em plena químio, contrariando os médicos, Vitor, hoje com 38 anos, disse ao oncologista que iria correr a São Silvestre, tradicional prova de 15 km que se realiza em São Paulo aos 31 de Dezembro. Este, pasmo pela notícia, desaconselhou vivamente o “irresponsável”. Vitor não apenas correu como bateu o seu recorde pessoal. Isso em pleno tratamento. Como não lembrar exemplo que vivi bem posteriormente (vide Sobreviver com Qualidade de Vida, 07/06/08)? Contei ao agora jovem amigo que eu também, desaconselhado pelos médicos, internado no Hospital Nove de Julho, com agulha a importunar minha mão esquerda – o que levou a um grande edema que durou 48 horas para ser absorvido -, estudei durante dez dias em um teclado mudo, pois havia um desafio a vencer: o recital comemorativo ao tri-centenário de nascimento do notável compositor português Carlos Seixas (1704-1742), conimbricense. O recital deu-se na Biblioteca Joanina – uma das Jóias da Humanidade – em Coimbra, na extraordinária Universidade do mesmo nome. Com uma bengala, pois as pernas fraquejavam, adentrei o mágico recinto e encarei o recital inteiramente dedicado ao compositor, retornando dois dias depois a São Paulo, a fim de continuar o tratamento. Durante a apresentação, passei por momentos dramáticos, pois nas peças mais rápidas por várias vezes tive cãimbras nas mãos, o que me obrigou a encontrar solução alternativa imediata – sem prejuízo ao todo – à execução. Um sufoco ! Conseqüências quimioterápicas.

Os peregrinos, pormenor do tímpano Cristo Ressuscitado. Catedral de Autun, França, Séc. XII. Clique para ampliar.

Com Qualquer Um de Nós é uma ode à vida. Seguir a tribulação de Vitor, preso anteriormente a uma multinacional, como tantas e tantas extraindo até a alma de seus funcionários; ser atingido pelo tumor de Hodkins e vencê-lo; entender a vida posterior como uma graça que o fez desligar-se de um tipo de morte à qualidade de vida, preocupação derradeira dessas empresas tentaculares; encarar tantos desafios; contrariar metodologias médicas ortodoxas após leituras insistentes sobre o mal; todos esses aspectos tornam a leitura da narrativa de Vitor Caruso Jr. uma extraordinária lição de vida. Os médicos acertam o diagnóstico, mas falham por não entender o ser humano em sua individualidade. Recomenda o autor a urgência da psicologia àqueles que “uniformizam” o paciente, não o vendo como uma pessoa, única e fragilizada em seu extremo limite físico-psíquico. Conversar com o doente, transmitir-lhe a verdade sem a frieza tão comum, eis o que muitos médicos deveriam aprender. Vitor passou por momentos estressantes frente aos doutores. Em acréscimo, considera as dificuldades que determinados Planos de Saúde impõem aos segurados portadores de câncer, doença muito dispendiosa. De maneira coloquial, os curtos capítulos servem de guia para cancerosos e para todos aqueles que queiram evitar a doença. Regime alimentar, exercícios, meditação são vários os temas abordados pelo autor na busca do encontro de uma vida saudável.
Outros livros mais foram escritos por Vitor, já sob a aura de visão espiritualista que o budismo lhe proporcionou. Conheceu Sua Santidade o Dalai Lama, freqüenta monastério ao norte da India e desempenha um humanitário trabalho junto às comunidades e às crianças em Curitiba. Curado fisicamente, e espiritualmente um outro homem, Vitor Caruso Jr. terá muito a transmitir neste nosso país tão carente de valores voluntários e desinteressados.
Saí substanciado após nosso diálogo e li com interesse seu livro. Continuarei com meus exames periódicos, mas a esperança que foi dele, e é minha também, leva-me sempre a acreditar. Nós temos forças que na realidade mal conhecemos. Caminho a ser percorrido, olhar confiante e a crença na ajuda de um Poder Maior. Nossa vida transforma-se. Quantas não são as coisas que entendíamos fundamentais que perdem completamente o significado. E quão importante são os laços de sangue, os entes solidários. Vitor tem a bela família e o aprofundamento espiritual; eu, igualmente a preciosa família, a música, que é meu descortino diário, e o convívio que tanto amo na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Somos peregrinos a entender que o tempo que nos é dado caminhar nada mais é do que uma grande dádiva.

My chance meeting with Vitor Caruso who, after a Hodgkin’s lymphoma, left the constant strain of a job in a multinational corporation, becoming a Buddhist and a yogi with a high level of spiritual insight. He is the author of a number of books on philosophical and spiritual subjects, among them “Com Qualquer Um de Nós” (To Anyone of Us), a story of his successful struggle against the lymphoma. The book involved me completely because I have a non-Hodgkin’s lymphoma myself and drew a parallel between his experience and mine. Like Vitor Caruso, I believe that determination and faith are the weapons to carry us through this battle.

Entendimento Através das Entranhas

Casa de caboclo, periferia de Santa Isabel, 1979. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Quem procura boa árvore,
boa sombra colhe.

Adágio Açoriano

No post anterior, o tema central abordou as Paulistinhas, pequenas peças em terracota da imaginária do Vale do Paraíba e que prosperaram entre fins do século XVIII às primeiras décadas do século XX. A dissertação defendida por Ailton Alcântara levou-me a várias reflexões.
Fiquei a pensar a respeito da pesquisa de campo na área de nossa arte sacra. Eduardo Etzel (1906-2003), meu mestre, amigo e analista durante longo período, dizia sempre que nessa área em particular a pesquisa de campo é a única a levar à captação abrangente dos conteúdos essenciais da imaginária. Na realidade, o conhecimento pleno da origem da criação, seu destino primeiro nas mãos dos humildes habitantes de nossa roça ou das cidades pequenas , a visualização dos interiores das casas simples contendo oratórios e imagens para devoção, o conversar com esse povo absorvido nos pobres afazeres, na rotina, mas também nas festividades em homenagem a santos do dia, tudo faz com que melhor entendamos o cerne criativo e o porquê dessa imaginária tão peculiar entre tantas outras espalhadas por Portugal e pelo Brasil. Ao comentar com o amigo e vizinho Jorge, perguntou-me ele sobre fatos ocorridos durante minhas andanças pelo Vale do Paraíba. Lembranças surgiram, algumas pitorescas.
Durante 10 anos, todos os sábados percorria a região do Vale, sendo que mais intensamente fixei minha atenção na criação do extraordinário Benedito Amaro de Oliveira, o Dito Pituba (1848-1923), santeiro de Santa Isabel que proficuamente produziu imagens em madeira e terracota, assim como oratórios a partir de madeira de lei, inicialmente, e após, mercê da demanda, de madeira de caixas importadas contendo bacalhau, vinhos, ou latas de óleo. Parte da extensa região abrangendo Parateí, Santa Isabel, Igaratá, Nazaré Paulista, Itaquaquecetuba e outras localidades, assim como morros e campos foram percorridos juntamente com meu saudoso amigo Carlindo Pavan. Saíamos quase ao amanhecer de São Paulo e retornávamos felizes, empoeirados e cansados. Narrar fatos inesperados causa-me alegria.

Casa de caboclo no entorno de Nazaré Paulista, 1982. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Carlindo e eu adentramos um sem número de casas de campesinos. Éramos sempre bem recebidos. Chão de terra, muitas vezes casas de madeira e barro, telhados de muitos materiais diferentes, a simplicidade no seu limite, mas sempre presentes lá estavam oratório e algumas imagens, geralmente Paulistinhas. Muitas das peças totalmente enegrecidas pelo picumã, decorrente da fumaça do forno para a refeição escassa dentro da moradia. Quantas não foram as vezes que tomamos café fervido em água pouco confiável. Recusar, impossível, pois quebra de sinceridade. Para as quase sempre mesmas perguntas formuladas, recebia respostas bem semelhantes. A origem da imaginária tinham-na até duas gerações anteriores, não sabendo precisar períodos ou circunstâncias, pois a tendência era a passagem sem emoções das sucessivas gerações.

Lázaro Pituba e Lazinho Lima. Santa Isabel, 1979. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Em fins da década de 70, conheci em Santa Isabel Lázaro Pituba, filho de Benedito Amaro de Oliveira. Cego, já com mais de 90 anos, mas absolutamente lúcido, tinha sempre histórias a contar. Em uma de minhas últimas visitas à cidade nos anos 80, Lázaro retirou de cordão que mantinha no pescoço diminuta imagem (3 cm.) confeccionada por Dito Pituba a partir de um chifre de veado e recebida pelo filho quando ainda miúdo. Ofereceu-ma com inusitada emoção. Um pequeno orifício na parte posterior servia para a passagem do cordão. Não distante de Santa Isabel, num percurso em terra batida que vai ao encontro da rodovia D. Pedro, encontrei em casa de campesino, no fundo de seu oratório – sempre havia o risco de se topar com uma aranha ou um escorpião – o corpo sem cabeça de um outro Santo Antônio, igualmente trabalhado em chifre (8 cm.). O morador ofereceu-me a peça, a dizer que sem a cabeça o Santo não mais protegia sua família. Levei a pequena imagem acéfala. No ano seguinte, ao passar pela mesma casa, visitei os moradores. Novamente percorrendo com os dedos a mesma parte do oratório, encontrei a cabeça perdida. Curiosidades.

Santo Antônio. Miniaturas em chifre de veado. Santa Isabel, 1980. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Mais contundente foi ter encontrado uma minúscula capela em pequena estrada de terra em Parateí. Servia como santa cruz, local demarcado após algum assassinato e onde moradores costumam colocar imagens quebradas. Observei que havia no interior um pequeno oratório de viagem. À porta da capelinha, uma colméia do chamado marimbondo caboclo ou de fogo, de coloração grená. Grandes e inamistosos, pareciam guardiães do espaço abandonado. Meu amigo Lazinho Lima, caipira da região, aconselhou-me a não entrar. Teimosamente curvei-me e bem devagar penetrei no diminuto recanto, retirando o oratório. Felizmente nada aconteceu, mas Lazinho afirmou-me que a picada de um desses marimbondos provoca dor e febre durante dias. Ao sair, o amigo mostrou-me uma jararaca que, lamentavelmente, acabara de matar, pois o réptil estava com o bote preparado. No interior do pequeno oratório de viagem – 22 cm de altura -, em lata e totalmente enferrujado, uma pequena imagem de São Lázaro em madeira confeccionada por Dito Pituba revelou mais essa criação do artista na feitura da mínima “casa” doméstica para os santos padroeiros.

Oratório de viagem feito por Dito Pituba. Santa Isabel. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Episódios individuais durante pesquisa de campo apenas dimensionam a inter-relação com o foco de estudo. A captação do todo, seja em qual circunstância se der, favorece o entendimento. Martin Heidegger (1889-1976), já escrevia que uma obra de arte deslocada de seu ambiente original, ao ser instalada em museu, perde sua aura. É bem possível que isso ocorra. Contudo, para aquele que realiza a pesquisa de campo, ficará sempre marcado o amálgama da obra de arte com o ambiente originário. Ainda mais considerando-se o contexto “provisório” e tênue da arte sacra popular de São Paulo, dificilmente ela permanece perenemente em seu ambiente primeiro. Fatores vários corroborariam esse ocaso. Entre estes, a pobreza dessa brava gente que mora nos campos; as intempéries; os vorazes cupins a tudo destruírem; a mudança de crença com a investida de um sem número de seitas anatematizando o culto aos santos, o que implica a destruição das imagens e oratórios; a presença de larápios a furtarem o pouco que resta. Felizmente, alguns museus e colecionadores preservam a extraordinária criação popular do Vale do Paraíba. As exposições, contudo, deveriam não somente mostrar as peças sacro-populares, como também exibir o que resta ainda do mobiliário simples do povo da região. A visão etnográfica enriquece. O freqüentador teria possibilidade de sentir o ambiente da criação, o destinatário final que diuturnamente orava a partir das singelas peças de nossa imaginária popular. Quiçá um resgate ainda possa ser feito

My adventures as a field researcher some decades ago, when I was collecting and studying religious images known as “Paulistinhas” and the importance of the field work to establish a link between the object of study and the person who uses it – in my case, the poor peasants along the Paraíba do Sul river in Brazil. I believe that capturing the whole makes easier the understanding of the parts that compose it.