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“O Jardim das Fadas”

São José tenta compreender. Catedral de Autun, França, Séc. XII. Clique para ampliar.

“Cristo nasceu para nós, vinde adorá-lo!
– Aproximai-vos fiéis, correi triunfantes a Belém
para adorar o Rei dos Anjos que acaba de nascer!
–O esplendor eterno habitou a carne.
Vimos o Deus Menino envolto em panos.”

A aproximação do Natal sempre nos leva a reflexões. Quão distantes estamos da comemoração interiorizada sentida pela grande maioria da cristandade através dos milênios. A mercantilização das últimas décadas, em crescente geométrico, anestesia desideratos voltados ao nascimento de Jesus. Ele é comemorado na essência por tantos cristãos espalhados pelo mundo, mas observado por outros mais como uma data do calendário em que a corrida às compras é prioritária. Ouço o rádio e, como um nefelibata, aguardo o impossível, pois as estações de maior audiência entrevistam comerciantes e compradores. Rarissimamente a imprensa focaliza a causa da comemoração do Natal, sendo mais importante para ela o fluxo da 25 de Março e seu mar de consumidores do que a essência essencial da Natividade, os instantes místicos em que uma manjedoura abrigou o menino Jesus.
Estou a me lembrar de duas situações separadas por tantos séculos de diferença. Não continuaria, hoje, São José atônito com a triste realidade? Escultores do século XII realizaram a obra-prima que é a Catedral de São Lázaro em Autun, na Borgonha Romana, em França, e um sobressaiu-se através da maestria e da identificação: Gislebertus, que assinaria o nome e mais Hoc Fecit no tímpano do Cristo Ressuscitado, sendo também autor de diversos capitéis. Um destes chamou-me a atenção em 1959, quando visitei o templo extraordinário durante um longo e inesquecível dia de visitação: St. Joseph médite et cherche à comprendre. A mão direita do Santo a sustentar a cabeça. Que intuição mística teve o escultor que entendeu a dimensão da Natividade! O mistério a levar São José a refletir. O que estaria a pensar? Extraordinária figura de José, o carpinteiro esposo de Maria, que, segundo o Evangelho de São Mateus, soube compreender o apelo do Anjo do Senhor. Em sonho, o Arcanjo revelou-lhe que ele nada teria a temer, pois o menino que estava por nascer fora concebido do Espírito Santo, atribuindo ao bom homem a tarefa de dar o nome de Jesus à criança que viria ao mundo.
Em 1973, passando por Cambuí, em Minas Gerais, parei para tomar um café. Qual não foi o meu espanto quando um escultor popular, que vendia suas criativas peças em barro cozido, apresentou-me um presépio despojado, entre outras mais esculturas espalhadas no meio da calçada. A Natividade lá estava representada em sua síntese: José, Maria, o Menino Jesus e a manjedoura. Antes de adquiri-lo, indaguei-lhe o porquê de São José estar com a mão fechada sob o queixo. Respondeu-me, em sua ingenuidade, que certamente o Santo estaria a pensar: “O mundo nunca mais será o mesmo.” Esse presépio sempre me despertou perplexidade. Tantos séculos a separarem Gislebertus de nosso escultor popular que deixou apenas suas iniciais, ZJ, e as do Estado, MG! Tanta identidade que o tempo apenas estaria a dimensionar! Que fluxo mágico a ligar o pensamento de dois artistas!

Presépio popular, barro cozido, autor ZJ, Minas Gerais, 1973. Clique para ampliar.

No Natal de 2007 inseri um bonito e simples conto de D. Henrique Golland Trindade (1897-1974), arcebispo de Botucatu (Vide Velho Natal – Um Conto Singelo, 22/12). Ao ler o texto sobre Dito Pituba (Vide Pesquisa de Campo – Entendimento Através das Entranhas, 27/09/08), a minha dileta amiga, professora e competente gregorianista portuguesa Idalete Giga, escreveu-me que estava a pensar em um conto que seria dedicado às minhas netas. Ao lê-lo, entendi associações generosas de uma alma sensível. O texto atravessou o oceano via internet, e é com o maior gosto que eu o publico em meu blog, não sem antes desejar um Natal vivido na intensidade a todos os leitores que me prestigiam semanalmente. Que os miúdos tenham acesso à delicadeza desse conto escrito para eles… e para nós também, cristãos ou não.

“O Jardim da Fadas”

“Era uma vez um menino chamado Edu, que vivia numa linda cidade com seus pais e irmãos. Edu gostava muito de sua cidade, onde havia parques cheios de árvores, lagos com cisnes e nenúfares, flores de todas as cores, relvinha verde, baloiços, cavalinhos de montar e escorregas. Edu brincava todos os dias no parque com seus amiguinhos e amiguinhas. Mas o que ele mais gostava era de visitar seu avô Pituba, que morava muito, muito longe, no grande Vale de Abipará, pertinho de um lugar encantado que ele chamava de Jardim das Fadas. Quando chegava a Primavera, o Jardim das Fadas ficava todo iluminado. Em todo o Jardim havia flores mágicas, que brilhavam durante o dia e brilhavam ainda mais durante a noite. Havia também libelinhas azuis, renas, corças, cavalos de crina branca, girafas de pescoço comprido e muitos outros animais, tão pequeninos que só as Fadas os podiam ver. O avô Pituba conhecia todos os segredos do vale de Abipará e toda a magia do Jardim das Fadas. Pituba era um sábio. Inventava e construía brinquedos mágicos. Quando Edu ia visitar seu avô, pedia-lhe sempre um brinquedo diferente. E também o acompanhava nos passeios ao Jardim das Fadas. Era só neste Jardim que os brinquedos tinham magia. Por isso, era nele que Edu gostava de brincar e experimentar todos os brinquedos inventados pelo avô. Tinha um cavalinho de madeira que podia voar, uma linda bailarina que rodopiava no ar, um palhacito que tocava saxofone, e uma bandinha de música com a Branca de Neve e os Sete Anões. Cada anãozinho tocava um instrumento muito engraçado. Bastava que Edu segredasse baixinho uma palavra mágica ao ouvido da Branca de Neve, para que os anõezinhos começassem todos a tocar seus instrumentos.
Um belo dia, Pituba construiu um brinquedo muito especial para oferecer a Edu no dia de seu aniversário. Inventou um pianinho que tocava sozinho. Mas para que pudesse tocar, Edu tinha de cantar uma canção. Quando Edu cantava , o pianinho começava a tocar sozinho a mesma canção. Admirado com esta maravilha, Edu perguntou ao avô: – Vôvô, porque é que o pianinho sabe a minha canção e está tocando sozinho?
O avô Pituba, pegando na mão de Edu, respondeu-lhe: – Meu querido netinho, se você fechar os olhos e disser três vezes: ‘quero ver quem está tocando no meu pianinho’, vai ter uma bela surpresa! Mas tome atenção! Para que o pianinho não perca a magia tem de lhe cantar nova canção.
E assim foi. Edu ficou tão feliz que logo inventou esta canção:

Corre, corre, cavalinho
Voa, voa, sem parar
Leva-me ao Jardim das Fadas
Pois é lá que quero brincar !

O avô gostou muito da canção. Logo que chegaram ao Jardim das Fadas, Edu fez tudo direitinho como o avô lhe dissera. Então, fechou os olhos e viu seu pianinho subindo, subindo, subindo devagarinho até ficar suspenso no ar. De repente, viu aparecer uma linda Fada, que começou a tocar a canção do ‘Corre, corre cavalinho’ com a sua varinha mágica. Edu ficou tão contente que começou a falar com a Fada: – Olá, querida Fada! Como é seu nome?
A Fada parou de tocar, olhou carinhosamente para Edu, ficou um bocadinho em silêncio e respondeu: – Chamo-me Princesa da Luz.
- Ah! Já sei! É você que acende as estrelas do céu, à noitinha? – Perguntou Edu.
A Fada sorriu, deu-lhe um beijinho, escreveu no ar a palavra SIM com a sua varinha mágica e desapareceu.
Edu abriu os olhos e foi logo contar ao avô o que tinha acontecido.
-Vôvô, já sei quem toca no meu pianinho! É a Fada Princesa da Luz que também acende as estrelas do céu, à noitinha!
Pituba pegou Edu no seu colo e segredou-lhe baixinho: – Que bom ter falado com a Fada Princesa da Luz! Agora, tenho outra surpresa para você. Mas desta vez só pode abrir o presente quando chegar a casa, combinado? -Sim, vôvô!
Ao chegar a casa dos pais, Edu estava muito curioso e correu logo para seu quarto . Ao retirar o papel que embrulhava o presente, viu uma caixa com uma linda rena desenhada na tampa e pensou: – Ah, deve ser uma rena mágica que o vôvô construiu para eu brincar na noite de Natal. Então abriu a caixa e dentro dela estavam outras caixas mais pequeninas. Cada uma tinha um pedacinho de chifre da rena que mais parecia de um boneco articulado. Edu foi juntando e montando pacientemente, uma a uma, as várias peçinhas. Era um jogo muito engraçado!
Então, qual não foi o seu espanto quando viu que não era um boneco , mas Santo António com o Menino Jesus ao colo! Porém, faltava uma peça. Faltava a cabecinha do Santo. Edu pensou que a tinha perdido e começou a chorar.
Fechou os olhos e viu de novo a Fada Princesa da Luz que lhe disse: – Não chores querido Edu! Vôvô se esqueceu de colocar a caixinha que falta e me pediu para a dar a você.
E levantando sua capa azul transparente retirou a caixinha que estava junto de seu coração e a deu a Edu. Quando Edu a abriu com muito cuidado, lá estava a cabecinha de Santo António. Assim, pôde completar o lindo presente do avô Pituba.

Santo Antônio. Imagem atribuída a Dito Pituba (1848-1923). Chifre, 8cm. Clique para ampliar.

Passaram muitos, muitos anos. Hoje, Edu é um famoso pianista, conhecido em todo o mundo. Santo António com o Menino ao colo ficou, para sempre, o Santo protector de sua família. Quando olha para ele recorda com muita saudade o avô Pituba, o Vale de Abipará, os longos passeios ao Jardim das Fadas, todos os brinquedos mágicos de sua Infância e nunca, nunca mais esqueceu a linda Fada Princesa da Luz.” Paço d´Arcos, 30/Out./2008.

O leitor terá a plena compreensão da dimensão de Idalete Giga, autora do conto tão sutil, ao ouvi-la dirigir o Coro da Capela Gregoriana Laus Deo, em um belíssimo canto gregoriano a louvar a Natividade: Christus natus est nobis, venite adoremus.– Adeste fideles, laeti triumphantes: venite, venite in Bethlehem. Natum videte Regem Angelorum.– Aeterni Parentis splendorem aeternum: velatum sub carne videbimus: Deum infantem pannis involutum.

Clique para ouvir “Christus Natus Est”, com o Coro Capela Gregoriana Laus Deo, sob a direção de Idalete Giga.

It’s Christmas season once more and random thoughts wander through my mind: commercial interests transforming the date into a secular holiday with its celebration of materialistic consumerism; two intriguing images of St. Joseph – distant 800 years in time – depicting the saint engrossed in thoughts, with a hand under his chin; Christmas stories. I want to include as the last post of 2008 a story written for my grandchildren by Idalete Giga, a very dear friend, teacher and Gregorianist living in Portugal. Though not exactly a Christmas story, it is suitable for the season. It’s entitled “O Jardim das Fadas” (The Fairy Garden). And to remind us all of the Nativity, readers of this blog can listen to a chant sang by the Laus Deo Gregorian Chapel Choir conducted by Idalete Giga.

Sinônimo de Equipe Solidária

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Uma vez
é a primeira

Adágio Açoriano

Para ampliar, clique sobre as ilustrações.

Emoções inusitadas trazem sempre a certeza da surpresa à espreita. A própria vida está a apresentar, dependendo em grande parte da ação voluntária, atrações difíceis de serem avaliadas racionalmente.
Quando de meu tratamento quimioterápico na Clínica Clioh em 2004, conheci médicos, enfermeiros e funcionários que até hoje permanecem enraizados em meu afeto. Periodicamente sinto o prazer de visitá-los, quando de exames de manutenção.
Em Janeiro de 2006 comecei a andar pelas ruas de minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, e a partir de Março, a correr intercalando com andanças. Progressivamente as distâncias aumentaram, e hoje já corro septuagenariamente de 8 a 12 quilômetros três vezes por semana. Para alguém que está a lutar contra um mal tão cruel, mas passível de ser vencido a partir da ação voluntária, cercar-se naturalmente de pessoas radiantes é fundamental. Estímulos são positivos, projetos dimensionam-se sem pressões, a vida pode mudar.
Confesso que jamais cruzei com corredores amadores que não fossem saudáveis. O gesto, o desenvolver do exercício, o contágio das endorfinas a propiciar a vontade de prosseguir, tudo concorre para patamar que me era absolutamente desconhecido. O Piano agradece, os textos descontraem-se e a idade avança sem traumas, a clamar que a terceira idade pode ser entendida como o resultado do que fomos e sentimos. Propicia também sentimentos interiores que levam à paz e à serenidade possíveis neste mundo conturbado.
Cristina Ito trabalha na Clioh. Conheci-a quando, em reuniões de pacientes em tratamento de químio, buscávamos ajudar-nos sob sua coordenação. Passaram-se os anos e Cristina soube que começara a correr. Sempre que a encontro, um ou mais quilômetros são relatados pelo corredor entusiasmado. Soube ela que participei da Maratona de São Paulo em Junho, no percurso de 5km (Vide Sobreviver com Qualidade de Vida, 07/06/08). Qual não foi meu espanto quando ela me convidou para integrar a equipe TA LENTO, que estava a fazer inscrição para a maratona de revezamento Ayrton Senna Racing Day, que seria realizada aos 16 de Novembro no Autódromo de Interlagos. Incontinente disse sim e não escondi a euforia por ter sido convidado por alguém que estimo e pertencente à Clioh. Um aval de que as coisas caminham bem. Seria eu o Matusalém de uma equipe cuja faixa etária varia entre 42 e 47 anos. Estava assim encerrada a primeira etapa, e os sete integrantes não cansaram de enviar-me mensagens alentadoras. Uma frase em particular, escrita por Sérgio Yuji Yokoyama, ficou gravada: “O melhor resultado não é da equipe que consegue o melhor tempo; o melhor resultado é daquela que consegue desfrutar da alegria, do prazer, da satisfação de estar entre amigos e fazer perdurar isso pelo maior tempo possível…”.

Em pé: da esq. p/ dir.: Franco, Cristina, J.E., Sato, Regina, Américo e Ademir; agachado: Sérgio. Clique para ampliar.

Estava pois integrado ao grupo TA LENTO, equipe nipo-brasileira. Dizer da contagiante felicidade do encontro é pouco. Foram momentos mágicos, só possíveis com a prática do esporte sem pressões, longe de quaisquer outros princípios que não o do prazer de correr e o da alegria do congraçamento. Fui o primeiro da equipe a percorrer os 5.275m, devido à idade e ao fato de às oito horas da manhã o asfalto ter ainda uma temperatura satisfatória. Ao chegar, passei a braçadeira à Cristina. A cada integrante que findava o seu percurso, a indisfarçável euforia do grupo.
Percorrer a pista de Interlagos é extraordinária experiência. Primeiramente, sair nesse batalhão constituído por centenas de corredores, tantos deles profissionais. Sentir a descida após os boxes, tangenciar o S do Senna, correr pelo traçado famoso: Ferradura, Pinheirinho, Laranjinha, curva do sol; enfrentar a subida do lago e o temido aclive em direção à chegada, quando se tem de graduar energias, passar pelas zebras e ver ainda as marcas dos pneus dos possantes meteoros da Fórmula 1, tudo contagia e traz um sentimento de gratidão por lá estar apreciando o autódromo lendário, rememorando os monstros sagrados do automobilismo. Sensação única.
Quando faltavam uns poucos 300 metros, ouvi gritos vindos do terraço na parte superior dos boxes. Minhas netas gritavam: “Vai, vovô !”. Tinha ainda reservas e, num sprint, consegui passar umas moças de academia conhecida de São Paulo. Alegria total.
Um fato curioso deu-se durante o trajeto. Na longa inclinação a levar aos boxes, estava passando por corredor que despejou “potência” logo na descida após a largada. Dele me lembrei por não ser jovem e ter inscrições em cirílico na parte posterior de sua camisa branca. Quando ficamos emparelhados, disse-lhe: “falta pouco, meu caro”. Respondeu-me, bem cansado, que a idade pesava. Aparentava sessenta e tais anos. Como corri sempre na mesma passada, falei de minha idade e continuei a dizer que sete outros corredores o aguardavam e que valeria correr por eles. No meu trotar ultrapassei-o e persisti até a chegada. Bem mais tarde, encontrei-o tranqüilo nas imediações dos boxes. Foi uma satisfação ouvi-lo dizer que estivera a ponto de desistir e só não o fizera graças às minhas palavras de estímulo. Respirou fundo e chegou, cansadíssimo, como afirmou, mas entregou a braçadeira ao seu companheiro. Abraçamo-nos bem contentes com o feito mútuo.

Viviane Senna e integrantes da TA LENTO. Clique para ampliar.

Enquanto nossos companheiros se revezavam, conhecemos essa simpatia que é Viviane Senna, irmã do tri-campeão da Fórmula 1, Presidente da Fundação e do Instituto Ayrton Senna e incentivadora incansável de projetos sociais através do esporte. Deixou-se fotografar com a maior naturalidade, o que trouxe um grande prazer à TA LENTO.
Ao leitor, passo os tempos de nossos valorosos corredores: Ademir Giacomelli 26:40, Américo Risato Umeda 27:38, Luis T. Sato 30:06, Sérgio Yuji Yokoyama 34:36, Franco Nakamura 36:02, Regina Tokuzumi Umeda 38:11, Cristina Ito Nakamura 40:00 e o meu 40:51. Nosso tempo bruto foi de 04:44:38. Ficamos em posição bem intermediária o que propiciou entender o recado de Sérgio: “…fazer perdurar isso pelo maior tempo possível”.
Ao receber e-mails de meus já amigos, mais um incentivo. Fui incorporado à equipe e esse fato despertou um surdo entusiasmo. Sim, estarei com essa incrível TA LENTO. Enquanto forças tiver, participarei com o maior gosto. Que extraordinária dádiva é alcançar um objetivo através da constância e da vontade. Que maravilhamento é o convívio com pessoas tão sensíveis e estimulantes.
Bem haja !

The emotions of my debut as a marathon runner at the relay race held on 16 November at the Interlagos circuit in São Paulo. I was part of the Nippo-Brazilian team named “Ta Lento”, made up of eight members, each running a set part of the circuit. At 70, I was the Methuselah of the group, but managed to run my 5.725 m in 40’51”. We didn’t break any record, but finished in a middle position. The feeling of euphoria was intensified by the fact that the event took place at the venue of the F1 Brazilian Grand Prix, with its illustrious history of motor racing. It was a great day for me: for the marathon itself and for the pleasure of being with a group of people I admire and whose company I enjoy.

Estímulos e Recordações

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Car seule est importante
et peut nourrir des poèmes véritables
la part de la vie qui t’engage…

Antoine de Saint-Exupéry

À medida que os anos vão se somando, mais distantes ficamos de hábitos tão rotineiros em tempos outros, hoje ultrapassados pela permanente trajetória dos inventos, costumes, modismos, linguajar, tecnologias e tantos outros fatores. Nada a fazer, tampouco incomodar-se. É a realidade a que temos necessariamente de adequar-nos, sob pena de nos tornarmos jurássicos. Se olhar e sentir o novo em constante ebulição é um fato, nem por isso as lembranças do passado deixam de ser prazerosas. Nostalgia? Talvez, mas a certeza do irremediável dá-nos a sensação de que é também importante acompanhar os novos caminhos.
Algumas transformações podem até deixar-nos atônitos pelo impacto de uma degeneração sensível. Falo da degradação da “música” dita de alto consumo, diria em acréscimo, de altíssimos decibéis; ou então da decadência acentuada dos programas da televisão aberta; ou, ainda, dessa ausência do espírito de cidadania entre uma parcela imensa da população. Sem contar fatores outros como a corrupção em todos os níveis, hoje pandêmica; a política desacreditada; o futebol totalmente desvirtuado e decadente neste nosso país; a violência inaudita e a droga, essa chaga absoluta.
Adquiri um livro em 1960 em Paris, pois lera a obra através de generoso empréstimo de um amigo. Comprei e guardei. Ao escrever o texto anterior, lembrei-me de uma frase, epígrafe do post, e finalmente abri literalmente o livro, percorrido pelo olhar e pensar da juventude, hoje revisitado. Trata-se do ensaio Un Voyageur Solitaire Est un Diable, do notável escritor, dramaturgo e ensaísta francês Henry de Montherland (1896-1972). Edição antiga, em brochura, tive de recorrer à velha espátula de prata de lei que meu pai me dera quando completei 18 anos. Reflexões afloraram. Que maravilhamento era abrir um livro, a partir do corte que era feito ao longo da borda extrema das folhas. Cortava-se na extensão e extremidade superiores e tínhamos quatro folhas. Repetíamos a tarefa e após cortávamos duas e mais duas folhas em suas extensões laterais externas, e quatro outras estavam à nossa disposição. Essa prática fazia emanar até o aroma do papel e, sob um enfoque mais profundo, despertava a curiosidade relacionada ao texto, a depender do interesse que por ele tínhamos. Felicidade interior, convívio íntimo com a leitura, pois nesse ato de cortar, o livro se abria como uma dádiva oferecida.
Quantos não foram os volumes que sofreram essa intervenção “cirúrgica”. Um sereno afeto ligava doravante aquele livro ao leitor que tudo anotou a lápis nas folhas derradeiras em branco. Lembro-me de, por vezes, ter cortado mal as páginas. Era raro, mas quando isso acontecia sentia-me irmanado nessa espécie de “dor literária” e não poucas vezes lamentei interiormente ter ocasionado algo ao livro e ao autor. Resquícios da juventude.

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Aos 20 anos, ganhei de meus pais um relógio de bolso. Um Studio 17 rubis. Suíço. Até hoje funciona como deveria ser. Lembro-me do prazer que tinha ao dar corda antes de dormir. Com cuidado, eram cinqüenta movimentos dados à coroa na extremidade superior, e o tic-tac aumentava seu ruído. Hoje, por vezes, retiro-o da aposentadoria, realizo o mesmo procedimento e o Studio não desaponta. Continua a dar a hora como antigamente. Cinqüenta anos de convívio e o máximo que acontece em relação à precisão é o mínimo de atraso. Na década de 60, descia a Ladeira da Memória quando vi um grupo rodeando uma adivinha de olhos vendados. Seu companheiro que buscava “fregueses”, ao ver-me parado por alguns instantes, perguntou-me: “O moço tem algum objeto para a nossa adivinhadeira acertar?” Respondi-lhe: “Qual a marca de meu relógio?” E não é que a mulher disse quase a seguir: “É um relógio de bolso Studio, 17 rubis”. Pasmo, dei uns trocados ao cidadão e continuei a descer a ladeira.

Parker Júnior, minha primeira caneta tinteiro, 1948. Clique para ampliar.

Outro hábito, hoje reservado a colecionadores, tantos deles meros esnobes, ficou no passado: a caneta tinteiro. Guardei as que se acostumaram aos meus dedos, pois parte da minha história. Eram familiares. Delas cuidava com o maior esmero, limpando-as periodicamente e utilizando tintas confiáveis. Desde jovem fizera uma mistura, empregando dois tinteiros de tinta preta e um de coloração verde. Dava um belo musgo que me acompanhou até o advento de outras tecnologias, como o computador. Escrever cartas, artigos, ensaios e teses com caneta tinteiro fez parte de tantas décadas. O prazer era imenso ao ver e sentir o deslizar sereno de uma boa pena sobre o papel. Se manchas ocorriam, o mata-borrão lá estava para deter o derrame. Quando escrevi A Transparência Através das Cartas (vide item Essays no site), reportei-me às quarenta cartas e uns tantos cartões-postais enviados pela notável gregorianista portuguesa Júlia d’Almendra ao seu colega de São Paulo. Outras missivas escritas de cá para as terras lusitanas foram igualmente conservadas pela amiga. Nas cartas de Júlia, a magia da escrita transparece. A dor, a alegria, a hesitação e a esperança podem ser detectadas pelo olhar atento. A escrita não nega a intenção do espírito, mas faz transparecer no traço as mutações emotivas. Reflexões que me vêm à mente a partir da caneta tinteiro, essa peça inesquecível, plena de tantas histórias e segredos. Senti que o seu tempo se esvaíra quando, ao assinar lá pelos anos 90 um documento oficial, disse-me o funcionário que não mais aceitavam assinaturas feitas com caneta tinteiro. O “progresso” é implacável.
Ainda escrevo textos com caneta esferográfica ou lapiseira, mais fáceis de serem utilizadas em logradouro público. Basta requererem um debruçar maior, dirijo-me a Bragança Paulista, e a praça continua a ser perene estímulo. A escrita sai prazerosa e até as rasuras – suprimidas pelo delete tecnológico – fazem parte de estranho grafismo.
Percorrendo neste instante o teclado do computador, não posso deixar de sentir, agora sim, nostalgia, sentimento bem humano. Um teclado com defeito é substituído da mesma maneira que trocamos a escova de dentes. Chega um novo, apenas um novo, nada mais. A salvaguarda é que ainda podemos pensar e transmitir. Oxalá essas funções perdurem…

A book bought in Paris in the sixties and read only recently proved a stimulus to my imagination: the pages, still uncut, required my obsolete silver paperknife, making me reflect on the small objects that have been part of my personal history and have now disappeared: the paperknife, the pocket watch, the fountain pen. Old fashioned things reminding me that time flies.