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Uma Festa para os Sentidos

Feira Livre em Sófia, Bulgária. Foto J.E.M. 1997. Clique para ampliar.

Mais vale o cheiro
do que o gosto.

Adágio Popular Açoriano

Em posts anteriores, reiteradas vezes escrevi sobre um afeto especial que mantenho pela feira-livre, esteja em que ponto geográfico estiver. O apego vem da infância, quando, eleito acompanhante de minha mãe, era o encarregado de fazer deslizar um pesado carro de madeira com quatro rodas de borracha. Era o que existia no período. Observava a relação prazerosa que minha mãe estabelecia com os feirantes, brincando, sorrindo, pechinchando preços. Uma festa que o tempo só fez sedimentar.
Quando tradições são assimiladas e rememoradas com alegria, certamente elas permanecem. Jamais deixei de freqüentar feiras e mercados ao ar livre, no Brasil e no Exterior. Ficaram gravadas no meu de profundis as várias visitas ao Ver o Peso em Belém do Pará, ao Mercado Modelo de Salvador, a tantas outras feiras do interior, onde cores vivas, cheiros os mais diversos, artesanatos curiosos, tudo enriquece o olhar e os outros sentidos. De Sófia vem-me a visão daquela barraca de tomates, famosos pela excelência. Rico em licopeno, os tomates dos Bálcãs são considerados os melhores do mundo e servidos com queijo branco no café da manhã. De Bucarest, a mistura de tantos produtos comestíveis e peças de artesanato. Em Gent, as feiras exclusivas em dias certos para produtos certos. Há de tudo. De Paris, as barracas de queijos, de hortaliças e de frutos do mar. Todas essas, faça frio ou calor, estão sempre vivas e os pregões dos vendedores tornam-se uma algazarra salutar para os ouvidos.

Feira Livre em Paris. Foto Antoine Robert. 2003. Clique para ampliar.

Na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo, é sempre motivo de real prazer preparar o carrinho e uma sacola resistente, a fim de percorrer os caminhos estreitos entre as diversas bancas dos feirantes. Constatações que corroboram a lembrança vêm dos sentidos: cheiros diversos das frutas, hortaliças e legumes, peixes, frituras dos pastéis, queijos; pregões em voz alta dos feirantes em concorrência salutar; as mais variadas cores de tudo o que é exposto e espalhado pelas inúmeras barracas. Quando chove, aquele sufoco, pois os toldos servem de abrigo temporário, mas quando plenos de água um pequeno solavanco nas estacas que os sustentam e toda aquela água inunda o infortunado de plantão. É bom prevenir-se em dias de aguaceiro. Contudo, sempre há solidariedade. Num outro aspecto, meninos pedindo esmolas, querendo puxar carrinhos ou levar sacolas, mendigos idosos ou aqueles ainda menos favorecidos, expondo suas chagas a fim de alguns trocados, são freqüentadores atávicos. Tudo faz parte das feiras livres que, desde a antiguidade mais remota, em todo o mundo, obedecem a critérios bem semelhantes, embora em diferentes geografias.
Prazer maior quando o relacionamento com os feirantes afigura-se nominal. Conhecê-los pelos nomes é sempre acatado com felicidade por essa brava gente. Dessa maneira, a escolha das mercadorias é melhor assistida, pois naturalmente um elo liga o freguês ao atendente. Não raras vezes, conhecedor dos produtos a serem consumidos pelo comprador habitual, o feirante já tem separado algo especial, ainda não manuseado por outros interessados. É certamente uma deferência.

Feira Livre do Campo Belo. Foto J.E.M. 2008.

Na feira livre do Campo Belo, aos sábados, a rotina apenas dimensiona o prazer. Em determinadas barracas há até uma ligação que chega à expectativa animada. Naquela de tomates, como exemplo, as irmãs nisseis Dirce e Sônia, sempre atenciosas, aguardam que eu acerte o quilo do tomate. Coloco-os num saquinho e pessoalmente peso. Raramente erro. Isso faz com que acrescentem um ou mais tomates à embalagem, sistematicamente com a mesma frase: “a sua mão continua certinha”. Curiosidades que ratificam o porquê dessa freqüência a esse mercado a céu aberto. Alessandra, simpática e sorridente, tem bordado no avental o símbolo do São Paulo, seu time de coração. Nem ouso falar de minha desacreditada lusa. Já tem separado o meu kit-banana com as frutas a serem consumidas, da maduríssima à verde, durante os dias da semana. Irene, zelosa pela atividade e pela quantidade grande de hortaliças e legumes, oferece ótimas escolhas. Miguel, que trabalhava com sua mulher, falecida há muitos anos, e hoje com filhas e netos e mais o inseparável funcionário Sílvio, oferece frutas as mais diversas e sempre acrescenta aquelas do “chorinho”. Um brinde, na realidade.

Feira Livre do Campo Belo. Foto J.E.M. 2008.

O acúmulo das décadas nos torna observadores desse cotidiano que insiste, apesar das transformações do mundo, em ser cotidiano. É o caso das feiras ao ar livre. Mais e mais conhecemos o ser humano em seus níveis ditos sociais, mais é possível entender onde reside a felicidade. Na medida que, mercê desse acúmulo, conhecemos feiras, lojas, shoppings, verifica-se que, quanto mais sofisticado o estabelecimento, mais distante é aquele que vende, dir-se-ia em outro “patamar”. Se nessa escala chegarmos ao extremo oposto, ou seja, da feira-livre à loja de roupas de grife, percebemos que está a apresentar o produto de preço alto, quase sempre, aquele que mede com o olhar o eventual comprador. Apresentação sem envolvimento, economia de gestos e de sorrisos, ar blasé a demonstrar “aparente” indiferença, atitudes que simplesmente atestam o local onde se está.
A feira-livre é plena de sacrifícios mil, que se estendem da compra dos produtos pelo feirante nos grandes entrepostos à chegada aos diferentes locais durante a semana em plena madrugada, com saída, depois de dura labuta, nunca antes das 14 horas. Adicionemos a tais dificuldades as intempéries, representadas pelos extremos de temperatura, chuvas que podem ser torrenciais, todo um arsenal a apontar para aquele que poderia ser o pior dos temperamentos, o do feirante, devido ao excesso de agruras. Paradoxalmente, assiste-se ao contrário. Décadas de freqüência levaram-me a ver a sua face voltada à alegria, à solidariedade entre os pares, à ajuda no troco e à doação mútua de mercadorias. Entendem-se e, nessa exteriorização, contagiam aqueles que têm prazer também em entendê-los. Formam, na diversidade, um bloco monolítico de reações palpáveis.
Tantos foram os políticos, influenciados por poderosos, que buscaram e buscam acabar com a feira livre. Sem a exuberância qualitativa de outrora, ela permanece, a representar um dos aspectos mais bonitos da civilização nesse quesito extraordinariamente fundamental que é a espontaneidade do povo.

Street Markets:
Since childhood I have been fond of street markets crowded with stalls of fruits, vegetables, fish, cheese, flowers, clothing and buyers browsing the merchandise. This kind of market is very old and still survives around the world. I used to go with my mother when I was a boy and today I go to the one held in my neighborhood on Saturdays. When I am traveling, I never fail to visit them wherever I am. Though very much alike, each has a distinctive flavor. Haggling with the sellers – so unpretentious and accessible – is part of the fun. It is a pity that the overflowing exuberance of street markets is being gradually displaced in large cities, because they represent an important aspect of every society: that of people in their unconstrained spontaneity.

Eterna Sina

Caíam-lhe soltas no colo vergado
As longas madeixas em brancos anéis:
Que nobre semblante de rugas sulcado,
Sulcado dos anos, e mágoas cruéis !

Antônio Augusto Soares de Passos

O carrinho de mão de Sísifo. Clique para ampliar.

A saga de Sísifo prossegue (vide Sisuphos 22/03/07, categoria Cotidiano). Diariamente continua a passar em frente de minha casa levando em seu carrinho de mão as mesmas coisas. Nada é alterado. Roupas velhas, placas de papelão, jornais, tudo prossegue exatamente como sempre.
Ultimamente, fato novo tem irritado profundamente nosso Sísifo. Seu velho veículo já encerrou o ciclo da resistência. Com freqüência a roda sai do eixo, obrigando o ancião a tudo retirar, a fim de conserto provisório. Essa mazela não afetou jamais o Sisuphos mitológico, obrigado a levar imensa pedra ao topo da montanha, sem atribuição outra a sobrecarregar o triste fardo. Portanto, nosso condenado é ainda mais infeliz ao ser atingido por fatores que independem de sua sina primeira, carregar nesse carrinho os mesmos objetos.
Sua irritabilidade é levada a extremos, mercê desse problema relacionado ao seu transporte. Se por algum motivo se desespera pelo destino implacável, chega a vociferar e mesmo a cuspir em transeuntes. Sua índole não é má, mas sabe-se lá a ação dessa roda que teima em sair do eixo sobre a mente de Sísifo. Há não mais de um mês, o ancião cuspiu em uma senhora. Ato indigno, é certo, mas perdoável naquele destinado ao drama da rotina exemplar. Soube que um jovem celerado que descia a minha rua viu o acontecido e, indo rápido em sua direção, aplicou-lhe uma “tesoura voadora”, a atingir em cheio as costas de nosso pobre homem, jogando-o ao chão. Apreendi que o delinqüente continuou o seu caminho, sem o mínimo remorso pelo ato covarde, pois certamente descarregara em um indefeso toda a ira contida e disposição para a violência. Mercê do temor a que estamos submetidos diariamente frente a tais elementos, não houve a mínima reação por parte dos transeuntes. É a aplicação absoluta de uma lei “subjetiva”, a implicar o silêncio e o não ver. Algum morador atencioso, que assistira à cena de uma janela, chamou a ambulância, e lá foi Sísifo acidentado para algum Pronto Socorro. Cheguei logo após o ocorrido e marcas de sangue em plena rua atestavam ser o nosso Sísifo bem humano. Pensei que o combalido cidadão não fosse resistir à fúria do tresloucado. Se Sísifo tivesse morrido haveria mais um assassino à solta. Não apenas o Poder Público não protege o cidadão da violência alarmante e vergonhosa a imperar nesse país, como não atende aos milhares de Sísifos, pois esses não votam. O assistencialismo demagógico passa bem distante das tragédias vividas pelos moradores de rua.
Durante um bom mês, a réplica do personagem mitológico condenado pelos deuses desapareceu do Brooklin-Campo Belo. Regressou há cerca de duas semanas com os cabelos cortados e com seu desastrado carrinho. Este teimava em quebrar.
Um dia desses, ouvi pela manhã alguém praguejar em alta voz. Fui à janela e vi Sísifo, que olhava seu veículo e gritava. Novamente o drama da roda. Retirou tudo do carrinho e estava a consertá-la, quando desci e fui ter com ele. Perguntei-lhe se gostaria de um outro novo, a aguardar até uma negação. Olhou-me e respondeu afirmativamente, com um esboço de sorriso sem esperança e com o olhar perdido, reflexo de tantos outros dramas vividos, de tantas andanças sem destino. Fui a uma casa comercial bem próxima e adquiri um novinho. Levei pessoalmente a nova “viatura” a Sísifo, num percurso de cerca de cem metros, a sentir que mesmo sem nada ele tem peso considerável. Um surdo obrigado foi o sinal da aprovação. Subi para os meus estudos e cerca de uma hora após vi que transferira todo o seu universo para o novo carrinho. Curiosamente, levou os dois, a alternar pequenos trajetos. Deixou bem na esquina o velho companheiro de infortúnio, acabado, com o eixo torto, as barras de sustentação completamente desalinhadas, mas bem limpo. É possível que tenha pensado que o antigo carrinho pudesse ainda servir a alguém. Nesses infortunados há generosidade que não buscamos conhecer.
Segue Sísifo o caminho de sua desdita. Pelo menos, um fardo saiu de seus ombros. Talvez pragueje menos, mas a sina, esta continuará até o final de seus dias, pois os deuses parecem assim querer, com o beneplácito de nossos homens públicos.

Another post about Sisyphus, the homeless old man who wanders incessantly across the streets of my neighborhood pushing a handcart piled high with trash, reminding me of the mythical king of Corinth condemned to roll a huge block up a hill only to watch it roll down again, making his toil endless.

Raridade a Evidenciar Alegria Contagiante

Músicos de banda, Barcelos, Portugal. Figuras em barro pintado, 6 cm. Clique para ampliar.

Devemos fazer públicas nossas alegrias
e esconder nossas mágoas.

Provérbio Inglês

Fatos inusitados são difíceis de esquecer. Permanecem, a apontar lembranças agradáveis ou não. Quando enriquecidos por diálogos a sedimentar recordações, merecem exposição. Em toda a minha vida, apenas por duas vezes deparei-me com motorista de táxi ouvindo música erudita. A primeira vez deu-se em Coimbra, e o taxista que estava a ouvir a Antena 2, fixado numa das belas Sinfonias de Haydn, disse-me que na cidade somente ele e um outro colega ficavam na permanente escuta da música chamada erudita, clássica ou culta. Palavras elitistas, é certo, mas que delimitam territórios por todos conhecidos.
Estava na Rua Riachuelo, no centro de São Paulo, e peguei um táxi parado nesse trânsito absurdo, pois de volta à minha cidade bairro, Brooklin. O motorista, a aparentar seus quarenta e tais anos sintonizava o programa de início da tarde da Cultura FM, apresentado pelo bom músico e colega Gilberto Tinetti. A minha primeira pergunta foi a do porquê estar ele a ouvir música erudita. Tranqüilamente, respondeu-me que sempre assim o fazia e que o seu dial era imutável. Quis saber mais, indagando qual a origem dessa preferência. Contou-me que seu pai, nascido em Boqueirão dos Coxos, no sertão da Paraíba, tocava trombone na banda da cidade, no coreto e nas festividades, pois tratava-se da única atração da comunidade. Desfilou familiares que tocaram e tocam instrumentos de metal, sendo que ele mesmo conseguia tirar uns sons, com certa dificuldade, de um outro trombone. Enfim, o taxista, de nome Gerson, é um homem feliz e isso traduz-se na sua fala entusiasmada. Evangélico, tem uma visão muito bonita da função da música no ser humano. Teve graça outra história que contou relacionada à música. Seu irmão, ainda bem miúdo, tocava pratos em uma banda e certa vez, em uma viagem para Jaboticabal, viajou dentro da campânula de uma tuba, essa parte do instrumento bem aberta e em forma de sino. Hoje, desenvolve atividade de maestro.
Contou-me com orgulho a respeito de um amigo, que chegara a uma das Sinfônicas do Estado de São Paulo. Ao presenciar sua saudável alegria, relatei o que lera há tempos, não me recordo se em livro ou revista. Estatísticas evidenciavam que os músicos que tocam instrumentos de cordas em uma orquestra, muitas vezes após o ensaio deixam as partituras sobre as estantes, diferentemente de outros, que executam instrumentos de metal. Segundo o texto, tantos são os violinistas, violistas ou celistas de orquestra que sonharam um dia ser solistas. Apesar da meritória carreira de instrumentistas de orquestra, conscientemente ou não poderia haver uma frustração pela não realização de carreira solo ou cameristíca de relevo. Quanto àqueles que tocam instrumentos de metal, oriundos de bandas, muitas vezes do interior deste enorme país, chegar à uma orquestra sinfônica representaria a glória, daí a possível dedicação ao levarem as partituras para um estudo mais aprofundado em suas casas. Gerson achou muito pertinente essa estatística, ao completar que entre os seus havia um profundo prazer em fazer música, sob quaisquer situações.
Chegou um momento em que me perguntou se eu conhecia música. Apresentei-me e imediatamente, com um largo sorriso, apertou-me fortemente a mão ao encontrar um dos seus. Já ouvira na Cultura FM obras por mim tocadas. Falei-lhe do programa que apresento semanalmente na USP-FM e logo tomou nota do dial e do horário. Foi a partir dessa irmanação sonora que captei a paixão sincera que Gerson, o taxista privilegiado, tem pela música. Falou-me da importância dos sons em sua vida e dessa absoluta identificação com tudo que envolve o prazeroso assunto.

Grupo folclórico romeno. Figuras em madeira, 15 cms. Clique para ampliar.

Depois de um trajeto em que a conversa foi muito estimulante, cheguei ao meu destino. Após o acerto da corrida, disse-lhe para aguardar um pouco. Entrei em casa e levei-lhe dois de meus CDs. Pediu autógrafos, colocou um deles na bandeja apropriada e já estava a ouvir, quando finalizou afirmando ter um cliente que só anda em seu táxi, pois adora ouvir música erudita e que, tenho a certeza, contagia-se pela felicidade que Gerson deixa transparecer. Asseverou-me que na primeira oportunidade tocará as gravações recebidas para o freguês habitual. Despedimo-nos, e lá saiu ele a ouvir um dos CDs em seu táxi impecável e com aura diferenciada.
Ainda fiquei certo tempo a pensar e a tecer comparações. Justamente no post anterior focalizei uma ex-aluna que não se encantara com a magia da música, apesar de estudos mais acurados. Sob outra égide, um músico amador feliz, certamente contente com a vida e com sua profissão de taxista, a exaltar a música de forma efusiva. Realmente, nada como um dia depois do outro.

A quite interesting conversation with a taxi driver who enjoys listening to classical music on the radio as he drives through the maze of streets of São Paulo city.