Navegando Posts em Cotidiano

Exercício Autêntico da Cidadania

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E um novo alento tomou conta de todos.
Pouco a pouco, a consciência individual
foi dando lugar à consciência coletiva.
E, com isso, sentiram-se mais fortes.

Luís Guerreiro – “Oitavo Dia da Criação”

A cidadania pode ser manifestada de vários modos. Um dos mais lídimos é o “abaixo-assinado”. A coletividade mobilizada, ao lutar por determinada causa, evidencia significativo direito a ela atribuído. Sob outra égide, quão mais expressiva for a adesão ao abaixo-assinado, mais intensamente estará a revelar a união inquebrantável de um segmento da sociedade em torno dos princípios e propósitos reivindicados.
Em posts anteriores, expressávamos o pensamento de moradores do Brooklin Novo-Campo Belo a respeito do trajeto açodadamente proposto pelo Metrô-Governo de São Paulo, para a Linha 5-Lilás, mais especificamente à pretendida localização da Estação Campo Belo (vide Incúria Administrativa (I) e (II), 21 e 27/06/08, respectivamente, categoria Cotidiano).
Equívocos essenciais foram apontados nas Conclusões Finais do Edital CR 40688212, pág. 194: O conjunto de fatores envolvendo método construtivo, estratégia de implantantação das estações e reserva de espaço compatível com a diretriz de empreendimentos associados resultou num aumento significativo das áreas para desapropriação, em relação aos projetos anteriores desenvolvidos pela Companhia do Metrô. Uma vez que as novas diretrizes para a elaboração de projetos de empreendimentos associados durante as fases de projeto das linhas requerem uma mudança nos paradigmas existentes, e onde a captação de recursos para a execução das obras de expansão do sistema de metrô pode ser obtida através de parcerias com a iniciativa privada, considerou-se oportuna a inclusão de mais uma estação neste subtrecho, para permitir que as áreas responsáveis pela gestão de negócios e empreendimentos associados pudesse propor novos projetos que trouxessem para o Metrô dividendos não operacionais e que a sua implantação permitisse a obtenção de outras fontes não convencionais de recursos que auxiliassem a expansão da rede de metrô. Além disso, o desenvolvimento dos projetos das estações juntamente com os empreendimentos associados pode levar a soluções arquitetônicas compatibilizadas com as necessidades dos seus usuários, dentro das mais modernas tendências de integração de ambientes e acessibilidade (sic).
Ilustrações de imensa área que seria desapropriada, contidas no edital, para a construção de Terminal de Ônibus e Estação do Metrô Campo Belo, inquietaram vivamente moradores de uma extensa região adensada e consolidada socialmente. Ao estranharem propósitos não claros e silenciosos, espontaneamente esses moradores foram se reunindo, numa bela demonstração do pleno exercício de um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito (art. 1º, II da CF): o exercício da cidadania. Obedecendo à legislação vigente, moradores entraram com representação junto ao Ministério Público do Estado de São Paulo e passaram a reunir-se no desiderato único de buscar soluções mais econômicas para a obra pública, assim como, in adendo, propor uma localização da estação e do terminal de ônibus mais pertinente ao projeto açodado do Metrô-Governo do Estado. Evitar-se-iam desapropriações desmesuradas com finalidades estranhas, como as aventadas no edital; o meio ambiente da região seria preservado; não haveria a inexorável desvitalização de todo um entorno dos locais propostos pelo Metrô-Governo do Estado. Localização das Estações em área já desapropriada, ou pertencente ao D.E.R. foi sugerida por comissão de moradores, que poderia juntar esforços para colaborar com o planejamento ainda não efetivado.
É bom destacar que nenhum – friso, nenhum – propósito, além daquele de enfrentar com serenidade a problemática equivocada oferecida pelo Metrô-Governo de São Paulo, tem movido moradores – não pertencentes a quaisquer movimentos – a debruçarem-se sobre a temática em pauta. Plano alternativo para a localização já foi estudado e estará à disposição de Metrô e Governo Estadual, no momento oportuno. Por outra via, estudou-se a adesão de moradores dos bairros Brooklin Novo – Campo Belo, a fim de que um abaixo-assinado também fosse passado entre eles e os solidários à causa.
O resultado foi surpreendente. Confesso que não esperava tão grande participação espontânea, a demonstrar a falta de razoabilidade do projeto atual, quanto à localização da estação e do terminal de ônibus, a exigir desapropriações desmesuradas. Compreenderam, moradores e pessoas solidárias, não ser razoável que o Metrô e o Poder Público incorram em tão elevados ônus de desapropriação e firam o direito dos particulares atingidos pelo ato expropriatório que está a ser cogitado, quando a obra poderia ser realizada de forma muito menos onerosa aos cofres públicos e sem atingir os referidos direitos. Membros de todas as chamadas camadas da sociedade civil aderiram com empenho.
Citava, em texto bem anterior, frase de Antoine de Saint Exupéry, expressa em sua obra maior, Citadelle: “O que é a pedra sem o Templo?” O seu contexto não é isolado, e somente o impulso que leva as “pedras” à união, torna-as merecedoras do culto. Reunidas, elas constroem os homens solidários, levando-os, a outros congraçamentos. Jamais poderia imaginar que entre esses moradores, muitos dos quais mal conhecia – rostos anônimos a transitarem no dia a dia – pudesse haver tão grande afinidade. As pedras se uniram. Diria que uma aura passou a existir e a cobrir com seu brilho faces desconhecidas. Irmanaram-se, mobilizaram-se e, absolutamente tranqüilas, essas pessoas estão prontas para o diálogo de bom senso, sem interesses outros que possam macular o projeto, que deveria considerar aspectos plausíveis, sob as égides absolutas da moralidade e do interesse públicos, únicos parâmetros essenciais. As nossas esperanças são muitas. Metrô e Governo do Estado têm que evidenciar essa vontade, a serviço da real aplicação dos impostos arrecadados e da própria legalidade da realização da obra pública – uma vez que a função da administração pública é realizar de maneira ótima o interesse público. Acreditamos nisso.
A adesão de cerca de 8.000 cidadãos, da maneira mais natural que se possa imaginar, é o resultado da vontade de moradores e solidários, que unicamente solicitam o respeito às suas justas reivindicações. Somente através de diálogos construtivos, e jamais de ações intempestivas à revelia da sociedade, poderemos preservar o verdadeiro espírito comunitário. Congraçar para que o caminho seja trilhado em harmonia, na legalidade e na plena justiça. É o que desejamos.

A group of people living in the districts of Brooklin and Campo Belo in São Paulo organized a petition against the state government decision to build a subway station and a bus terminal in the area. The response to the petition was enormous, gathering over 8.000 signatures. The group will now attach the signatures to a complaint against the decision filed with the Ministério Público (Public Ministry), in the hope that authorities will take into consideration the wish of the citizens and conduct studies to find a more convenient site for the subway expansion project, avoiding unreasonable expropriations and intensification of traffic jams in an already congested area.

“Um Sonho Chamado K2”

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La mort n’est donc indéterminée que comme moment à venir.
Plutôt qu’indéterminée, la mort est imprévisible.

Vladimir Jankélévitch

O K2 é a montanha mais terrível,
mais repulsiva e fascinante que qualquer outra.
Para os seres humanos,
é um símbolo do inatingível, uma eterna tentação
.
Karl Diemberger

O infausto episódio acontecido nos primeiros dias de Agosto último, em que morreram 11 alpinistas depois da queda de um serac, bloco de gelo resultante da fratura de um glaciar, ratifica a extrema dificuldade em se alcançar o topo da segunda maior montanha do mundo, o K2 (8.611m), localizado na cordilheira Karakorum, próxima ao Himalaia, entre Paquistão e China. Ao vir abaixo, o serac matou cinco montanhistas, isolando mais de uma dezena que se encontravam acima, cerca de 8.300m de altitude. Especialistas têm o K2 como o grande desafio de suas carreiras. Li recentemente o livro de Waldemar Niclevicz (Um Sonho Chamado K2 – A Conquista Brasileira da Montanha da Morte. Rio de Janeiro-São Paulo, Record, 2007, 373 págs.). A presente tragédia, somada a outras tantas, leva-nos a refletir sobre a fronteira entre a vida e morte, desafio permanente de um alpinista.
O relato de Niklevicz tem a força do testemunho de quem por duas vezes, em 1998 e 1999, tentou sem sucesso a escalada do perigoso K2. Avalanches e dificuldades outras tornam a subida e, sobremaneira, a descida terrivelmente complexas. Inúmeros especialistas sucumbiram ao desafiar aquelas alturas.
Um Sonho Chamado K2 antolha-se-me como uma antevisão da terrível tragédia ocorrida recentemente. Menciona o autor uma frase de Reinhold Messner que “a descida das montanhas representa também um retorno à vida. Cada passo da subida, no entanto, equivale a dois passos que nos afastamos dela”. Niclevicz narra em sua dantesca descida do K2 que sentiu a morte bem próxima: eu me arrepiava ao escutar os pedaços de gelo despencarem, tilintando como pedaços de vidro dentro daquele abismo negro. E continua: sabia que a maioria das 54 vítimas do K2 até então havia perdido a vida durante a descida, e justamente nas proximidades daquele trecho traiçoeiro da escalada. Causa impacto ao leitor a insistência de tantos alpinistas que, ao enfrentarem o desafio da escalada do K2, têm a convicção absoluta, mais do que em outras subidas e descidas, do perigo maior sempre à espreita. É a certeza de que o “inevitável” pode ocorrer a cada momento. Escreve o autor, a revelar parcela do porquê do desafio situado bem além da aventura pela aventura: Nesse mundo particular formado pelas montanhas mais espetaculares da Terra, eu não teria nenhum outro interesse além da busca das alturas mais elevadas, da ânsia de superar meus próprios limites, para encontrar, dentro de mim mesmo, o sentido da minha existência. Sabia, portanto, que jamais eu chegaria ao alto do K2 se não superasse todos os meus medos e fraquezas. Sabia que, na verdade, estava novamente em busca da escalada do meu próprio ser e não de uma montanha de rocha e gelo.
Tão forte reação o K2 exerce sobre Waldemar Niclevicz que o alpinista dedica capítulos às tragédias ocorridas em 1986 e 1995, sem considerar as outras tantas mortes por ele mencionadas em anos diversos. A determinação e ousadia de Niclevicz foram responsáveis pela não desistência após insucessos anteriores devido aos riscos de avalanches e da metereologia, a apontar péssimos dias para a empreitada. A escalada vitoriosa em 2000, juntamente com os experientes alpinistas italianos Abele Blanc e Marco Camandona, é narrada por Niclevicz de maneira palpitante e possibilita ao leitor entender as atrozes dificuldades que o K2 apresenta. E pensar que, para o público em geral, o Everest, apenas 237 metros mais alto, recebe a atenção total, apesar de ser menos difícil sua escalada !
A tragédia de Agosto, somada a tantos outros infaustos acontecimentos desde a primeira escalada ao K2, em 1954, evidencia o permanente peristilo da morte. Números surpreendem. Se o Everest é largamente o mais visado, sobram estatísticas espantosas quanto à comparação com o K2. Para cada 12 pessoas que escalaram o Everest, uma morreu, enquanto que a proporção no K2 é de uma morte para cada três sucessos.
Tragédias e a leitura da narrativa de Niclevicz levaram-me à reflexão. Vladimir Jankélévitch, filósofo e musicólogo, em sua obra La Mort debruça-se sobre o “instante do acontecido” traduzido pelo momento do desenlace. A salvaguarda, segundo o grande pensador, é não sabermos o infinitesimal flash que separa a vida da morte. Se nos fosse dada a possibilidade de conhecer quando morrer, não haveria garantia alguma para a existência e esta estaria com a sua trajetória já traçada, sem o vislumbre da esperança. Para o condenado à morte é dado conhecer o momento de seu desaparecimento físico. Contudo, se tem sua pena modificada no instante derradeiro, poderá haver a visão absoluta da razão da existência, que passaria a ser valorizada como nunca anteriormente. É-nos facultado precisar a passagem de um cometa, mas o ser humano segue em direção à morte sem saber seu instante final. Jankélévitch afirma: É por motivos metafísicos que a predição é impossível. Não se trata de uma imprecisão acidental, mas de uma indeterminação essencial. Fiquei a meditar sobre o livro do pensador francês visitado na década de 80. Não haveria uma “situação intermediária” do axioma mors certa, hora incerta? Todos esses valorosos alpinistas, em narrativas pungentes, não “namoram” perenemente o momento derradeiro, continuando sempre a insistir nessa fronteira única, sem retorno, se a fatalidade de atalaia surgir em forma de uma avalanche, de um passo em falso, da corda que se rompe, do ar rarefeito, do mal da montanha, do congelamento, da fragilidade humana em face ao inesperado? Buscar o limite nessas situações não significaria ir ao encontro da morte, vislumbrando-a e tantas vezes sucumbindo à sua atração? Que desideratos, tantas vezes inconscientes, levam o homem a sentir-se demiurgo, mas a pedir socorro no momento em que a senhora morte é vislumbrada através da densa neblina ou de um abismo sem fim? A irresistível necessidade de sua presença não significaria a tentação de sentir a ruptura da salvaguarda mencionada por Jankélévitch? O alpinista, no instante em que decide afrontar o mau tempo rumo ao cume, não estaria indo ao encontro da mors certa, hora certa? Seria a prudência, em situação extrema de perigo, salvaguarda confiável, se considerado for o motivo a levar o homem ao temível cume?
Um Sonho Chamado K2 prende totalmente a atenção do leitor. Ficaria apenas uma ressalva referente ao desiderato de Waldemar Niclevicz em mencionar tantas vezes ajudas dos diversos patrocinadores e, no final, de todos os doadores. Vivemos na era globalizada, a busca de recursos se torna necessária, mas se existisse maior discrição, acredito que não haveria a quebra da seqüência da empolgante narrativa. Seria bom crer que os auxílios apenas premiam a intrepidez do montanhista, sem esperar o retorno financeiro.

K2 tragedy in August 2008, in which eleven mountaineers died following an avalanche and a sudden and savage storm, reminded me of the book Um Sonho Chamado K2 (A Dream Called K2) ,written by the Brazilian climber Waldemar Niclevicz, an account of his successful and dramatic attempt to summit K-2, the 2nd highest mountain on earth and said to be more difficult to ascent than Everest. The climbing accident led me to reflections on life and death inspired by the thoughts of the French philosopher Vladimir Jankélévitch.

O Retorno Necessário

Pormenor da Praça José Bonifácio. Foto Maria Fernanda. 2007. Clique para ampliar.

Car le bonheur se sent en soi
ainsi qu’un fruit qui est plein de sa saveur.

Antoine de Saint-Exupéry

Novamente na cidade, a fim de dupla tarefa: completar a edição do CD Gabriel Fauré (1845-1924), gravado este ano na mística e mágica capela de Sint-Hilarius, em Mullem, na Bélgica, e realizar a última revisão do livro Crônicas de um Observador, a reunir 72 posts publicados no blog, de Março de 2007 até Maio deste ano.
Escrevi anteriormente que, para concentração plena, Bragança é o meu paraíso de sempre (vide Bragança Paulista, 23/07/07, categoria Cotidiano), mormente após o último texto ter abordado o assalto a mão armada que sofri em São Paulo. É inacreditável que, a uma centena de quilômetros da maior cidade do país, ainda possamos sentar em um banco de praça pública sem grades, friso, e tranqüilamente realizar a revisão de um livro inteiro, durante quatro dias, sem ser molestado. Há quase quatro lustros leio e escrevo na praça em frente ao Grande Hotel Bragança, onde me hospedo, sempre numa rotina prazerosa, pois sei que as idéias fluem e não serei importunado. Seriam impossíveis tais tarefas em praças de São Paulo, pela freqüência estranha, a sujeira e a virulência abusiva.
Após tantos anos visitando a cidade, desta vez conheci mais bragantinos do que durante todo o passado. Conversas com comerciantes que circundam a praça, com cidadãos que me foram apresentados, todos fatos a ratificarem a preferência. Queria entender ainda melhor o porquê da escolha de Bragança. Durante esse longo período praticamente nada mudou. A cidade continua hospitaleira. Idosos ocupam os bancos das praças, conversam e riem animadamente, deixando transparecer essa naturalidade possível apenas se a violência inexistir no dia a dia. Miúdos brincando, estudantes e tantos outros transeuntes cruzando as praças José Bonifácio-Raul Leme dimensionam o pulsar do logradouro público, em freqüências diferenciadas das manhãs até pouco após o por do sol.
Creio que a dupla tarefa proposta fez-me intercalar os períodos de relaxamento, daí naturalmente entrar nas conversas do bom povo da cidade. Os muitos cafés tomados durante o dia em vários locais circundando o espaço de congraçamento propiciaram a descontração que leva ao diálogo. Tudo a acontecer em torno das praças contíguas. Hugo e família da excelente Hughes Men’s Wear, Graça da Livraria da Praça, Adriano e Valdilene da Relojoaria São Luiz, Marcelo, Reginaldo e Roberto, que conheci no bom restaurante Show Cook do Leonardo, todos com uma qualidade de vida absolutamente desconhecida para nós paulistanos. Temas sobre Bragança, cultura, educação, música, cotidiano eram focalizados com naturalidade. Curioso é verificar um outro sentido do tempo, bem mais humano, entre esses bons cidadãos. Regressei à Cantina Bella Italia de meu velho amigo Lino – Paschoal Iuliani é seu nome -, ótimo chefe da cozinha italiana. Prepara com afeto as massas que aprendeu com seu pai na Itália. Empreendedor, preside o Conselho Municipal de Turismo e a Associação Sabores de Bragança, cujo lema – Bragança Paulista, Capital Nacional da Lingüiça – é bem alusivo. Tem ele toda razão. Continuo a visitar o Casarão com seu forno à lenha e refeição caseira.
Durante a semana, as voltas pelo belo lago à entrada da cidade foram feitas com alegria. Mais bem cuidado do que anteriormente, tem hoje às suas margens marcos a assinalarem distância. Por duas vezes corri os cinco quilômetros. O prazer invade a nossa mente devido às endorfinas, dizem os entendidos. Se bem que, para o septuagenário, é mais um trotar, mas tudo é válido quando nos sentimos bem e mais preparados para os trabalhos mentais propostos.
Mercê do fato de ter completado num fim da tarde a edição do CD e a revisão do livro, tarefas que me levaram à concentração de cerca de 12 horas diárias, houve possibilidade maior de contato com cidadãos de Bragança. Foram dias de salutar retiro.

CDs para edição. Mullem, Bélgica. Foto Tim Heirman.

Encaminharei ao competente engenheiro de som Johan Kennivé em Gent, na Bélgica, o resultado das minhas escolhas sonoras. Teve ele o carinho de fixar nos CDs, resultado das três noites de gravações, fotos tiradas durante as sessões em Sint-Hilarius. Aquelas pedras milenares, irregulares e solidárias podem ser vistas e ajudaram-me a externar o meu de profundis, favorecendo a expansão das ressonâncias da inefável música para piano de Gabriel Fauré. Sob égide outra, a revisão do livro em plena praça será entregue ao editor idealista Cláudio Giordano. Durante essa revisitação aos textos contidos no blog, refleti muito sobre a existência humana. Sim, teria razão meu mestrando José Francisco Bannwart, hoje a preparar o doutoramento junto à Sorbonne, em Paris. Lê na capital francesa todos os meus posts e, homem de fé intensa – é padre católico por vocação absoluta -, em e-mail recente observou que os textos publicados no blog representam meu testamento. É bem possível que isso esteja a ocorrer. Não seria a terceira idade o período das reflexões resultantes de tantos acúmulos? Envelhecer não é compreender que o afunilamento do tempo leva-nos à maior intensidade? Bragança não estaria nessa compreensão do espírito voltado à síntese, espécie de decantação de escolhas voluntárias?
Bragança Paulista, cidade que me estimula nesse concentrar necessário e sem pressão. Bonita é a existência dessa boa gente que freqüenta suas praças, seu comércio, seus cafés e restaurantes. Não mais sou um anônimo, mas um quase anônimo. Esse posicionamento reforça certezas, e a tranqüila urbe pode ser vista na sua autenticidade ainda mais humana. Olhar e ouvidos a apreenderem a realidade, pois ainda existe a respiração natural na aprazível Bragança Paulista.

On another visit to my safe haven, the city of Bragança Paulista, in search of peace of mind to concentrate on the edition of my new CD with works for piano by Gabriel Fauré, and also for the final revision of a book with a collection of my posts written from March 2007 to May 2008.