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Prevenção sem Açodamento

Mãos de J.E.M. - Nanquim, John Howard 1982

Não sabem acender a luz
Com suas mãos entrevadas.

Carlos Drummond de Andrade

Fila em caixa de supermercado pode revelar surpresas. Aguardava minha vez e duas moças à minha frente conversavam preocupadas. Uma delas, acometida pela L.E.R., relatava seu infortúnio à amiga. Durante o trajeto de volta à casa fiquei a lembrar de minha posição a respeito do mal mencionado pouco antes.
Meu irmão, João Carlos, submetera-se a uma derradeira intervenção cirúrgica em sua mão esquerda e recuperava-se em hospital de São Paulo. Fui visitá-lo logo após e conheci o médico que o operou, Dr. Ronaldo Azze, Professor Emérito da U.S.P. e excelente ortopedista, especialista em mãos. O cirurgião trazia-lhe boa e má notícia: a operação transcorrera muito bem, mas a mão encontrava-se em estado crítico. Todos conhecem suas vicissitudes, seus esforços em manter-se como pianista após sucessivos traumas. Hoje é um bem sucedido regente de orquestra, para sua felicidade e a de seus admiradores. Realizou a catarse. Naquele encontro, entre outros assuntos, Dr. Azze conversou com João sobre a L.E.R. Na realidade, João Carlos, após problemas físicos na mão direita, que o levaram à completa impossibilidade pianística, tentou nova carreira e, durante um ano, dedicou-se ao repertório exclusivo para a mão esquerda, a resultar em CD gravado. Utilizando princípio lógico, não científico e rigorosamente inusitado, nessa nova empreitada João Carlos aplicaria outra postura ao piano, a contrariar décadas de posicionamento tradicional: sentava-se bem à direita do teclado. Foi acometido pela L.E.R. e, em acréscimo pelo mal de Dupuytren, outro terrível empecilho para quem pratica exercícios digitais. O Dr. Azze afirmaria com apreensão que a L.E.R. tem sido um dos males a levar mais doentes a auxílios do INSS. Externei minha posição sobre o problema. O generoso cirurgião convidou-me para uma palestra no Departamento de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Maio de 2001. Preparei-me, a buscar subsídios comprobatórios à minha teoria, sem fundamento médico, mas embasada em décadas de observação.
Preliminarmente, a L.E.R. manifesta-se em maior número em países onde a informatização tornou-se absoluta. No Brasil, essa doença funcional estende-se basicamente aos digitadores e resulta, numa visão generalizada, em três categorias de demandas junto ao INSS: auxílio-doença, podendo o acometido retornar ao trabalho após restabelecido; auxílio-acidente, concedido basicamente quando, após um acidente e a consolidação das lesões, ficar demonstrado que houve redução da capacidade laboral para a atividade habitualmente exercida; aposentadoria por invalidez, concedida no caso da incapacidade total ou definitiva. Trata-se, em todos os casos, de algo dantesco, e legiões de lesionados pela L.E.R. comparecem diariamente a solicitar providências do INSS.
Na palestra oferecida frisei aspectos que considero fundamentais: a prevenção planejada e sistemática; a necessidade absoluta de as escolas de informática conhecerem princípios de relaxamento muscular, e de as empresas adotarem processos elementares relacionados à progressiva carga de trabalho de seus funcionários digitadores; a exemplificação insofismável, a demonstrar a eficácia de um processo simples, mas de resultados, ou seja, a técnica do relaxamento; a grande economia do Estado adotando atitudes preventivas, o que resultaria em sensível diminuição de portadores da L.E.R.
Na realidade, a prevenção faz-se através de métodos seguros. Considerando-se que a grande maioria dos ingressantes no mercado de trabalho voltado à informática aprende a especialidade em poucas semanas, a conseqüência é vê-la mais ou menos preparada para a profissão, mas absolutamente não apta fisicamente. Esse amplo contingente concorre às vagas disponíveis no mercado, que abrange várias redes: bancária, telemarketing, empresas privadas e serviço público. Ingressante, o jovem inicia imediatamente um trabalho árduo de aproximadamente oito horas, sem qualquer preparo físico muscular ou digital, tendo que permanecer longas horas frente a um computador. As instituições mencionadas, por motivos sempre voltados ao imediatismo, pouco se importam com os efeitos que estariam por vir. Mostrar-se-iam propensas a proporcionar ao ingressante carga horária gradativa, ou seja, mínima hora num primeiro mês e, com a devida adaptação, o aumento do período até as horas regulamentares? Esse fato seria apenas por desconhecimento?
Impressionou-me o efeito causado pelo trabalho digital sem o estudo acurado das causas provocadoras da L.E.R. Some-se, às exaustivas horas diante da tela, a pressão sofrida pelo ingressante no sentido de não poder errar, sob pena, tantas vezes, da demissão sumária e pronta substituição por um outro funcionário, que estará sujeito às mesmas condições estressantes.
Tendo-se como exemplo o pianista, vemos o contacto com o teclado processar-se desde tenra idade, com início normalmente na faixa de 3 a 9 anos. Jamais essa criança começará com volume excessivo. Para aqueles que se dedicam plenamente e que têm a possibilidade da trajetória pianística, há períodos na juventude em que a carga horária poderá atingir até 10 horas diárias de estudo intenso. Porém, tudo é progressivo, muitas vezes sem outros traumas. Entenda-se que o pianista não apenas se utiliza dos dez dedos, como emprega-os simultaneamente quando na execução de acordes, aplica a passagem do polegar sob a mão, desenvolve uma infinidade de processos absolutamente desconhecidos, inúteis e impossíveis em um teclado de computador.
A técnica da digitação é a que o pianista conhece como técnica dos cinco dedos. Como se não bastasse a elementaridade da utilização digital, o peso empregado sobre cada tecla por um digitador é ínfimo. Na prática, a diferença da pressão feita pelas pontas dos dedos sobre um teclado de piano e sobre as teclas de um computador é imensa. Frise-se, para ter mínimas estatísticas utilizei-me de princípio elementar, mas seguro. Freqüento quase diariamente um supermercado perto de casa, conhecendo bem os colaboradores. Autorizado pelo gerente, fiquei ao lado de uma simpática funcionária. A intuição levava-me a adivinhar que determinado cliente utilizava computador e que seria solícito. Pedia então para que pressionasse, com os olhos fechados, os dedos sobre a balança, como se fosse o seu teclado. Repeti o processo em três visitas ao estabelecimento, a testar 18 pessoas diferentes. Os resultados foram surpreendentes. Geralmente entre as mulheres, dependendo do físico mais ou menos avantajado, expressões tensas ou não, o peso digital variava de 30 a 70 gramas, aproximadamente. Entre os homens, de 60 a 130 gramas. Impressiona saber que este peso, ínfimo para nós, pianistas, leva legiões de digitadores à L.E.R. Tomando-se como exemplo minha gravação de Feuillet d’Album, de Alexander Scriabine (1872-1915), peça em baixa intensidade, a pressão de cada dedo sobre a tecla varia de 150 a 600 gramas. Se eu pressionar com intensidade em outras obras, pode atingir 700 a 1.700 gramas ou mais. Caso utilize quatro ou cinco dedos de uma mão ao mesmo tempo, naquilo que denominamos acorde, em intensidade alta, chegará a 3 ou 4 quilos de pressão, ou bem mais, se os acordes forem dados pelas duas mãos em fortissimo. Testei dois alunos para ter maior amostragem. Geralmente, a digitação em computador de um estudante de piano ou de um pianista tem maior impacto, o que é absolutamente natural.
Essas considerações, não científicas, mas apenas conseqüências da reflexão e da observação, não teriam significado maior se não atestassem que para o pianista, que pressiona o teclado com intensidade bem maior do que a de um usuário de computador, rarissimamente o drama da L.E.R. se instala. Haveria razões transparentes a atestarem a veracidade da afirmação. Frise-se, há outros males que podem atingir o pianista, como o mal de De Quervain, tenossinuvite, tendinite, artrite reumatóide, artrose, mas estamos em compartimentos que muitas vezes nada têm a ver com a prática pianística.
O relaxamento muscular é o princípio fundamental desde o início da formação de um pianista, ainda criança. Desde os primeiros anos, se bem orientado, o miúdo assimila com naturalidade a técnica do relaxamento, indispensável ao bom funcionamento digital. Nesse período, o pequeno estará submetido a estudos progressivos, frise-se, não apenas pela faixa etária, como pela própria concentração, que está ainda em processo de sedimentação. Se talento e disciplina conviverem solidariamente, o promissor pianista terá formação harmoniosa. Em períodos mais laboriosos, representados por concursos, preparação de repertório em prazo preciso, o jovem ou o adulto submetem-se a longos estudos diários, e os dedos sofrem impactos enormes. Qual o motivo de basicamente nada de mal ocorrer? Não seriam a preparação progressiva e a noção exata do relaxamento, transmitida por professor consciente, as causas dessa naturalidade? O mestre atento, mesmo sem os conhecimentos científicos, entende pela tradição que toda a descontração muscular passa pela região dorsal, pescoço, ombros, braços, antebraços, punhos, mãos e dedos, destinação final do peso a ser aplicado. Sem a obediência à trajetória do relaxamento haverá bloqueio em algum segmento do complexo físico, a levar ao estresse ou a qualquer contração comprometedora.
Acredito que os bons fisioterapeutas teriam muito a aprender com os mestres de piano sobre o relaxamento que atinge todo o sistema muscular, que se estende até as pontas dos dedos. Considere-se que o método, no caso de pianistas e professores do instrumento, já tem mais de dois séculos e diariamente prova-se convincente. Se escolas de informática tivessem o cuidado de contratar profissionais que conhecessem essa técnica bissecular, apreendida pelos pianistas, já um primeiro passo seria dado. Se as instituições que contratam jovens digitadores se preocupassem menos com os lucros imediatos e mais com a harmoniosa adaptação dos contratados, dando-lhes, sem pressão alguma, carga horária progressiva e assistência de um profissional de relaxamento, haveria a médio prazo resultados surpreendentes. Quem seriam os beneficiados? Certamente o jovem, que estaria apto física e psicologicamente; as empresas que, a médio prazo, colheriam resultados não pensados; a comunidade como um todo, pois haveria enorme diminuição de acometidos pela L.E.R. a buscarem benefícios junto ao Instituto de Aposentadoria. Em um contexto amplo, o legislador deveria estudar normas de adequação, o que obrigaria empregadores a programarem carga horária progressiva para seus funcionários ingressantes.

Diploma de Honra ao Mérito

Quando adentrei um dos anfiteatros da Faculdade de Medicina para a palestra mencionada, fiquei surpreso com a grande quantidade de professores, assistentes e estagiários. Durante a exposição, coloquei algumas de minhas gravações, evidenciando pesos aproximados de percussão digital. As perguntas foram estimulantes. Poucas semanas após, recebi um diploma da Instituição que me deixou sensibilizado. Guardo-o com carinho ao lado de outros, voltados à Música.

R.S.I. – Repetitive Strain Injury
The increasing number of computer users affected by lesions related to occupational activities led me to think about the effectiveness of the muscular relaxation techniques that pianists and piano teachers have been using for 200 years. Employers and trained therapists should know them to assist in the prevention of the onset of R.S.I.

DC-3 do CAN

Douglas DC-3

Do trilho
só entende quem o trilha.

Adágio Popular Açoriano

Estava a almoçar na Universidade com meu dileto amigo e colega Edelton Gloeden, excelente violonista, e este contou-me, entusiasmado, a respeito de um curso que dera em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, patrocinado pela Universidade Federal. Perguntou-me se conhecia a cidade. Disse-lhe que sobrevoara Campo Grande em baixa velocidade, lembrava-me das largas ruas e, superficialmente, do aeroporto. Contei-lhe o episódio.
Em 1963, dei um curso de três semanas em Instituto Musical de Assunção, a convite de uma Companhia local e das Linhas Aéreas do Paraguai. Foi entre Outubro e Novembro, meses absolutamente quentes. O curso de interpretação pianística transcorreu bem e, ao final, dei um recital de piano transmitido pela Rádio para todo o país. Tempos do ditador Alfredo Stroessner (1912-2006). No intervalo da apresentação, o Embaixador do Brasil, o ilustre escritor, político e diplomata Mário Palmério (1916-1996), futuro membro da Academia Brasileira de Letras, em público, ofereceu-me alguns livros, entre os quais o premiado Vila dos Confins (li-o com enorme prazer) e um LP, dele constando algumas guarânias por ele compostas. Gentilmente asseverou que eu receberia um cachê do governo brasileiro, oferecendo a mim e à minha mulher o retorno ao Brasil pelo vôo do Correio Aéreo Nacional (CAN). Nossa intenção inicial era regressar no dia seguinte utilizando o bilhete aéreo paraguaio, mas a nova passagem fez-nos permanecer mais dois dias na cidade e defrontamo-nos com duas “epopéias”: a do cachê, jamais recebido, apesar de muitas missivas trocadas, e a viagem pelo glorioso CAN, que relevantes serviços prestou à nação em tantas décadas. O CAN realizava verdadeira interação deste país continente, atendendo também algumas nações limítrofes. Fez-me lembrar, sob contexto outro, do extraordinário livro Courrier Sud, de Antoine de Saint-Exupéry.
O percurso, que seria de aproximadamente duas horas, levou exatamente um dia. O avião, um Douglas DC-3, tipo de aeronave tão utilizada durante a Segunda Grande Guerra, tinha os bancos laterais de madeira e todos os tipos de personagens adentraram o avião, enquanto enormes pacotes abarrotaram outros espaços. Como o DC-3, incrivelmente estável, voava a baixa altitude e o calor era intenso, viajamos por muitas horas com as janelas abertas. O avião fez várias escalas, a fim de deixar e recolher correspondência e mercadorias. Pessoas desciam e subiam, quase como em ônibus urbano, e a cada decolagem minha mulher passava mal e tinha de acudi-la. Ponta Porã, Dourados, Campo Grande, Três Lagoas, dois ou três outros pousos em pistas de terra batida, cuja localização eu não saberia precisar, uma cidade do interior de São Paulo cujo nome não me lembro, e o destino final, que seria São Paulo. Ao sobrevoar, já à noite, o Aeroporto de Congonhas, desabava um aguaceiro violento, e o avião foi pilotado prudentemente até Viracopos. Outro era a momento histórico, em que interesses espúrios ainda não se mostravam pandêmicos. Esses pilotos militares eram super competentes, habituados a todo tipo de adversidade e atenciosos para com os passageiros, alguns descalços, pois pessoas simples da lavoura subiram e desceram em outros campos.
Quando finalmente aterrissamos no aeroporto de Campinas, já com poucos passageiros, a tempestade chegou logo após, precedida por rajadas violentíssimas de vento. O DC-3, longe de ser um avião pesado, sentiria as conseqüências caso medida urgente não fosse tomada. O comandante solicitou um veículo, que recolheu mulheres, idosos e crianças, não sem antes pedir aos homens que permanecessem no interior do avião, a fim de ajudar a tripulação, formada por militares. Levados os escolhidos, e sob as ordens do comandante, descemos naquela ventania forte, já sob aguaceiro total, e tivemos a árdua tarefa de puxar com firmeza umas cordas para serem fixadas – não saberia precisar onde, devido à intempérie –, a fim de que o avião não ficasse à deriva. Serviço encerrado, fomos ao saguão e aconselhados a pernoitar no aeroporto, pois apenas no dia seguinte a aeronave seguiria para São Paulo. Foi-nos permitido dormir em casa de meus sogros em Campinas, mas a bagagem permaneceria no avião. Por tratar-se de vôo internacional, o desembarque teria de acontecer em São Paulo. Após uma noite curta, no final da madrugada já lá estávamos para o percurso definitivo.
Com tantas viagens realizadas no decurso da existência, seria impossível rememorar todos os trajetos. Esse ficou marcado graças à gentileza do escritor Mário Palmério e às peripécias do percurso. Contá-lo a um amigo como Edelton serviu para boa descontração. A seguir, caminhamos dispostos para as aulas do período da tarde.

O Verdadeiro Povo

Av. Santo Amaro nos traços de John Howard, 1982

Estar em um ônibus é sempre surpresa. Na terceira idade temos poucos privilégios, e um deles consiste em não pagar o bilhete, evitando a conturbada catraca. Neste país completamente à deriva, onde desmandos diários são cometidos, entre os que se salvam está a gente simples que encontramos a todo instante. A maioria, felizmente, tem boa índole, daí o desinteresse da grande mídia, pois esse imenso povo não é violento nem pratica falcatruas.
Presenciei no veículo público conversa que me fez rir interiormente. O motorista dialogava com um colega aposentado e entre os dois, duas moças humildes e bonitas interferiam prazerosamente no bate-papo. O aposentado, nordestino, dizia que, ao chegar a São Paulo, teve de lutar bravamente durante um ano. Tudo lhe faltava, abrigava-se em qualquer canto e só foi trocar de cueca meses após ter vindo, sabe-se lá como, de seu rincão natal.
Asseverou ao colega, bem mais jovem, que nenhuma outra profissão era submetida a tanta pressão: ser assaltado ou assassinado, ter atenção mesmo cansado, sentir a poluição total, receber xingamentos várias vezes ao dia, obrigar-se a horas extras para o sustento de mulher e filhos, comer o que encontrar nos terminais, reter necessidades imperiosas… Repentinamente, disse haver compensações. Uma das moças perguntou-lhe quais seriam. Respondeu bem matreiro: Namorar uma ou outra passageira, convidar para um churrasquinho, e… continuou a sorrir, sem prolongar o assunto. As duas acharam graça da malícia do ex-motorista. Contudo, com semblante sério ao notar a descontração das meninas, continuou: Certa vez entrou uma mulher bem carregadinha. Ao olhá-la, disse-me que o filho poderia ser meu. Pela madrugada!, retruquei. Se minha mulher estivesse aqui armaria o maior barraco. E as duas moças riram gostosamente. Foi então que o motorista observou: Companheiro, você tem muitas histórias. O velho completou: Um bom motorista precisa ser adivinhão, macumbeiro ou mágico…
Continuaria a ouvi-los, mas tive de descer. Certamente os quatro prosseguiram em suas filosofias do cotidiano.