Navegando Posts em Cotidiano

O Homem Frente às Renovações

Praça José da Silva Martins, na confluência das Avenidas Juscelino Kubitschek e Nações Unidas.

Cada um de nós emergirá ao fim do Ano Novo, ou maior ou menor; ou então, absolutamente não teremos crescido, permanecendo em completa inércia, exatamente aquilo que agora somos. Porem, para aqueles dentre nós que sentem ardor, que é que um Novo Ano significa? Não poder ter esta significação? Somos semelhantes a viajantes, penetrando, em nossa longa jornada, por um país novo e desconhecido, onde fados estranhos e estranhas aventuras nos esperam. Nesta terra, à medida que o peregrino observador a percorre, oportunidades se acumulam sob seus passos. Porém, para os utilizar, necessita ser sábio e estar alerta. Pois de uma cousa deve lembrar-se, – que é um viajante e que o que lhe compete é, não deter-se, mas passar adeante.
Jiddu Krishnamurti

A todo fim de ano, o ser humano busca interiormente o renascimento que deveria acontecer no alvorecer de outro período inexorável. Tão logo o reinício das atividades nos primeiros dias, percebe-se que a rotina, os hábitos enraizados fazem sucumbir vãs promessas desse renovar. É absolutamente humano e acontece em todos os povos, que, ajustados a outros calendários, criam a esperança de um desabrochar, lindo no conceito, difícil na prática.
A cada ano antecipa-se a pressão publicitária relacionada às festividades em torno da transição para o Ano Novo. A insistência no sentido de que tudo será diferente é repetitiva em quase todas as propagandas. Estimula-se a mudança para melhor, tantas vezes a certeza da frustração do amanhã. Fica no ar a “aparência” da felicidade.
Estou a me lembrar de preceitos de meu saudoso pai, José da Silva Martins (1898-2000), que a cada ano propunha metas e geralmente as cumpria, criava métodos para os quatro filhos e raramente deixava de aplicá-los. Havia o amálgama de atitude espartana à aplicação ateniense. Dir-se-ia ainda, um misto de Apolo e Dionísio. O velho patriarca, a fim de fazer-se doutrinário, era o paradigma de conduta, método, disciplina e afeto também, mercê da ação moderadora de nossa mãe (vide Mãe, 15/07/07, categoria Cotidiano). Após assistir à plena sedimentação de seus descendentes, realizaria ainda, a partir dos 86 anos, o seu sonho, escrever, e nessa idade veria o primeiro de seus sete livros publicados.
Os anos se passaram, as décadas foram acumuladas em quantidade fora dos limites, e meu pai chegaria aos 102 anos incompletos, pois faltavam apenas vinte e dois dias para isso quando a senhora morte surgiu, aos 19 de Maio de 2000. Um primeiro alerta da renovação já se fazia prenunciar quando, duas horas antes de seu desenlace, ouvi a respiração que o acompanhou desde 1898. Parecia-me irreal aquele arfar sôfrego e rápido, últimos vestígios de vida de alguém que nascera no século XIX e chegara até ao amanhecer do XXI. Irreal e a causar impacto emotivo, que seria apreendido, diferentemente, dois dias após, também em um hospital, quando ouvia outro respirar, também acelerado, o de uma neta que vinha ao mundo, a clamar vida, alegria e renascimento.
Um fato inusitado deu-se três meses após meu pai ter completado os 100 anos de idade. Sempre soubera digitar com destreza em máquinas de escrever, contudo queria mais e comprou um computador, aprendendo com incrível rapidez os meandros elementares. Durante uns bons trinta anos tive o hábito de almoçar com meus pais todas as sextas-feiras. Fi-lo certa vez e, ao entrar em seu escritório, surpreendi-me ao ver o pai centenário frente à internet. Como mantinha segredo desse “descobrimento”, chegou inclusive a ficar um tanto irritado. Nada que o bom vinho tinto português à mesa não atenuasse. Seu último livro foi inteiramente digitado no computador e ele trocava idéias on line com seu editor.
Após sua morte, fiquei com o computador que a ele pertencera. Relutava em aprender essa tecnologia hoje tão difundida. Dessa maneira, apenas um ano após o PC começou a funcionar, graças às aulas recebidas de meu ex-aluno de piano na universidade, Magnus Bardela, sempre possuidor de uma arguta escuta musical e hoje com carreira promissora em outra área. É ele o responsável pela colocação de meus posts, sempre acompanhados de ilustrações pertinentes por mim escolhidas e por ele trabalhadas. Sem as colaborações de Magnus e de Regina Maria Pitta, revisora dos textos, tudo se tornaria mais complexo.

O Método Diário de meu pai, escrito aos 101 anos.

Assim que a impressora foi instalada, duas páginas que permaneciam na memória da máquina surgiram: na primeira, ora reproduzida, meu pai fixava sua rotina diária. Aos 101 anos, ei-lo absolutamente convicto e sereno quanto ao seguimento de seus horários. Vê-se a espiritualidade em um homem que entendia as religiões num sentido plenamente ecumênico, pois sentia-se teósofo. Entre seus autores preferidos mais recentes na esfera místico-religiosa, Maurice Maeterlinck (1862-1949), Annie Besant (1847-1933) e Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Compreendia ainda meu pai que o corpo humano deveria sempre ser entendido como um templo, perenemente preservado através da alimentação correta e dos exercícios físicos. Caminhadas diárias e 15 minutos de ginástica sueca, três refeições comedidas e nenhum outro alimento fora dos horários, eis a rotina de tantas décadas. Numa segunda página, ele se mostrava plenamente realizado e aguardava o chamado de Deus para ir ao encontro de minha mãe, que falecera um ano antes. Ao sairem essas duas únicas e derradeiras páginas da impressora, ficamos emocionados. Algumas horas após redigi-las, meu pai teve uma queda, por pura distração, houve trauma craniano e morreria no coma três meses após.
Creio ser relevante o entender apenas seqüencialmente as passagens de ano. Estrutura básica, princípios, metas, projetos de vida, estes nascem do pensar e do agir que se acumulam, serenamente ou não, e estarão a resultar mais ou menos intensamente, dependendo das atitudes tomadas. Impactos que independem da vontade podem alterar projetos, mas se houver centelha, o ser humano tendo esforço, persistência, paciência e concentração, atingirá parâmetros de realizações possivelmente não imaginados, mesmo que em senda diferenciada. Sentirá que todas as experiências, boas e más, serviram de acúmulo para o aprimoramento interior.
Serve essa página como um estímulo àqueles que entendem a seqüência da vida como renovação, e não apenas o Novo Ano do calendário. Os objetivos, sejam eles quais forem, nas mais diversas faixas etárias, só se realizam através do envolvimento pleno e harmonioso. O recomeço é diário, sem tréguas e, na medida do possível, sem traumas. As nossas camadas de todas as categorias acumulam-se e a existência, pouco a pouco, pode merecer um olhar mais amoroso. Se os passos diários são nosso calendário, este pode servir como norte para muitas resoluções previstas. Nesse desiderato, a inclusão de um pequeno Poslúdio clarifica o fluxo contínuo do blog.

New Year’s Resolutions:
One of the traditions of the season is the making of New Year’s resolutions. Since this is considered a time of rebirth, we are encouraged to set our goals for the next year – most of the times just to fail to meet them as the year gets underway. It reminded of my father, who each year set the goals he wanted to attain and really strived to reach them. He lived 102 years and till the very end was rigorously self-disciplined, keeping a list of pre-established steps to guide him through the days. Life is a challenge renewed constantly, not only by the year-end, and we should aim to get better – with effort, patience and persistence – as we move forward.

Poslúdio

O blog existe desde 2 de Março de 2007. Foram 53 posts publicados e inúmeras comunicações com leitores do Brasil e do Exterior, o que me traz uma grande alegria. No sentido de tornar os textos mais amplamente apreendidos pelo leitor, incluí no menu do blog um item, Instruções.
Quanto ao website, já estão disponíveis os itens: curriculum, blog, portraits, recordings, repertoire e contact. Através deste último, poderá o leitor transmitir as suas mensagens diretamente para J.E.M. Entramos pois em 2008 a buscar o aperfeiçoamento, nosso perene objetivo.

This Postlude explains the insertion of the item “Instructions” in the menu options, so as to make easier the access to the blog, integral part of the site under construction.

Um Conto Singelo

Dom Henrique G. Trindade, óleo sobre tela, Carlos Oswald.

De todas as histórias que nos contava
guardei apenas uma vaga e imperfeita lembrança.
Porém, uma delas ficou tão nitidamente gravada
em minha memória, que sou capaz de repeti-la
a qualquer momento – a pequenina história
do nascimento de Jesus.

Selma Lagerlöf

Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974) foi uma figura extraordinária. Poder-se-ia acrescentar: homem santo ou iluminado, a depender das conceituações espiritualistas. Nascido em Porto Alegre, a vocação levou-o à formação religiosa competente. Tornou-se franciscano e atuou com intensidade frente a várias paróquias do país. Quando designado para a vida eclesiástica em Botucatu, no Estado de São Paulo, teve seu apostolado voltado aos mais simples e às crianças órfãs. Bispo e mais tarde arcebispo da diocese de Botucatu, nem por isso deixou de lado essa missão diária de assistir aos desalentados da cidade. Fundador da Congregação Diocesana das Irmãs Servas do Senhor em 1952 e da Vila dos Meninos Sagrada Família, Dom Henrique amava as Artes. A Capela da Santíssima Trindade do Seminário Arquidiocesano foi pintada por Henrique Oswald, filho do grande artista plástico Carlos e neto do não menos ilustre compositor Henrique (vide post de 19 de Outubro).

Pormenor da ábside da Capela da Santíssima Trindade, Botucatu - óleo sobre reboco preparado, pintura Henrique Oswald.

Em 1952, João Carlos e eu demos um recital na Igreja de São Francisco, no Largo do mesmo nome, em São Paulo. Era uma homenagem ao eminente prelado. Nos anos subsequentes, oferecíamos um recital no Colégio Santa Marcelina, em Botucatu, com a renda inteiramente destinada à Vila dos Meninos. Por várias vezes fomos passar alguns dias no Arcebispado da cidade e, orientados por Dom Henrique, apreciávamos, nos mínimos pormenores, a belíssima pintura de Henrique Oswald na ábside da Capela. Foi nosso padrinho de crisma. Em 1963, em Campinas, oficiaria o meu casamento com Regina.
Recordações tornam-se necessárias. Dom Henrique mostrava-me, em seu quarto, algumas imagens em madeira, a representarem S. Francisco. Chamou-me a atenção sua cama, uma larga tábua envernizada coberta por lençol e manta, sem qualquer colchão ou acolchoado. Perguntei-lhe o porquê. Disse-me que era o mínimo de penitência a ser feita. Indaguei-lhe certa vez a respeito da corrente e do crucifixo, assim como do anel de autoridade eclesiástica, todos em madeira, seus objetos pessoais de todos os dias. Respondeu-me que ouro ou pedras preciosas, comuns à alta hierarquia da Igreja, representavam ostentação. Em outra oportunidade, no início da década de 70, dera um recital em Botucatu e no dia seguinte, bem cedo, fui visitá-lo na Vila dos Meninos, onde há muito se recolhera. Econtrei-o ajoelhado, naquela manhã fria, a podar umas rosas. Tentei levantá-lo. Disse-me que estava bem. Perguntei ainda como se sentia, após a renúncia da arquidiocese muito tempo antes, a fim de cuidar de crianças desamparadas. Baixou o capuz e serenamente respondeu: “Enquanto eu tiver braços para levantar e louvar a Deus, estarei bem”.
Grande orador sacro, seus sermões não apenas cativavam pela profundidade dos ensinamentos, mas igualmente pelo vernáculo impecável. Escreveu vários livros, entre os quais Matt Talbot – O Operário Penitente (Petrópolis, Vozes, 1945, 181 págs.) e Os Nossos Pobres Contos (Petrópolis, Vozes, 1952, 171 págs). Para este Natal, lembrei-me de um conto de Dom Henrique inserido no segundo livro mencionado. Em 1954, nosso padrinho ofereceu-nos essas duas pequenas obras. Li-os, e muito ficou naquele fundo da memória reservado àquilo de que gostamos.
Telefonei à Editora Vozes e gentilmente aquiesceram no sentido da publicação on line de Velho Natal, um conto, entre centenas de outros, escritos por autores os mais díspares, divulgados pelo mundo e relativos ao evento máximo da cristandade. Porventura um dos mais simples e despojados, características essenciais da personalidade de Dom Henrique. Transcrevo-o pois aos leitores:

Presépio - lápis de cor e papel colado, Maria Teresa, minha neta.

“ O Papai Noel, enviado do Menino Jesus, com suas longas barbas e seu capuz de ponta, já se fora…
Mas quantos presentes deixara! Nunca se mostrara assim tão generoso: tambor, corneta, livros de figuras, roupa e… um velocípede, pelo qual o pequeno felizardo tanto suspirara! Oh! Poder agora correr pelas alamedas do jardim, pelas calçadas e praças públicas, que prazer! Não era muito grande, não; e Papai Noel do Deus Menino dissera que, em breve já não lhe serviria. Mas, qual história! A gente não cresce tão depressa assim: sempre se conhecera do mesmo tamanho e a seu pai sempre vira com seus bigodes salpicados de brancura…
E o rapazito pulava de alegria. Nem era tudo: os armários estavam abarrotados de doces e empadas, nozes, amêndoas e avelãs; sobre as mesas era tudo flores e frutas, maçãs das bem vermelhinhas, e peras daquelas plenas de suco, como de água as esponjas; na cozinha, bem temperadinho, estava o mais gordo peru que fora, já na véspera, degolado. E enquanto pensamentos elevavam o pequerrucho, fazendo vir-lhe água à boca, lembrava-se de que, daí a pouco, vestiria sua roupinha nova, cor de neve, calçaria seus sapatitos pretos de verniz e, depois, todo faceiro, entre o papai e a mamãe, iria assistir à missa de festa na matriz. Lá veria o encantador presépio: o Menino Jesus nas palhas da manjedoura, as ovelhinhas a pastar pelas encostas das montanhas… de papelão, anjinho a voar, pastores com suas flautas a tocar, os reis magos com seus pajens e camelos, lá ao longe, tão longe, tão longe, que só se prostariam aos pés do menino, 12 dias depois. E quando ele tivesse examinado bem todas as maravilhas do presépio, apareceria o bondoso pároco, segurando um cálice de ouro, com os cabelos brancos como a lã das ovelhas; rezaria muito ao altar, contaria a seus paroquianos a história do Menino Deus, que sempre se ouvia com novo prazer. Lá em cima, na tribuna, cantariam: ‘Noite feliz!’ que ele também sabia. Depois, os meninos vestidos de vermelho, tocariam as campainhas, todos bateriam no peito, e lá iriam, papai e mamãe, com as mãos juntas e os olhos baixos, receber sobre a língua, das mãos do pároco, um pãozinho branco, que a mãe sempre dizia ser a morada do Menino Deus; e quando voltassem a seus lugares, o rosto do pai pareceria mais belo e a mãe, com lágrimas de alegria, o apertaria contra o peito, dizendo: ‘Meu filho, meu filho, pede a bênção a Jesus, para que nunca te afastes dele!’ – Depois voltariam para casa e, com os primos e com as primas… que festa o dia inteiro!
Oh! Natal! Natal! Que belo dia! Por que Jesus não nasceu mais vezes? Poderia alguém estar triste em tal festa? Poderia alguém chorar?
E os sinos da matriz bimbalhavam alegremente: ‘vinde adorar o Menino Deus!’
.. .. .. .. ..
E… o jovem despertou. Passou os olhos tristemente esbugalhados pelo quarto, onde a riqueza e o luxo se uniam ao desleixo e à desordem. Olhou para o relógio prateado da parede: nove horas; para a folhinha: 25 de Dezembro!
Os sinos da matriz, sim, repicavam, realmente, mas… o resto fora já, em tempos idos, realidade. Agora… fora um sonho.
.. .. .. .. ..
Natal! Natal! A roupinha branca, há muito que não a tinha; os pais já descansavam sob o mármore do sepulcro, aonde ele ia, uma vez por ano, contrafeito, depositar um punhado de saudades e colher uma braçada de espinhos e remorso. A história do Menino Deus era, agora, para ele, uma bela lenda para educar crianças. Com seus vinte e três anos já era senhor da grande fortuna paterna, que ele se encarregava de dissipar. Tinha liberdade, tinha ‘amigos’, tinha festas, mas não tinha felicidade, pois já perdera aquela inocência da qual a mãe era tão ciosa, e a fé, da qual o pai tanto se orgulhava.
De que servia o seu rio de dinheiro, se não era suficiente para comprar a alegria e a paz da sua infância? De que lhe servia a liberdade, se sua alma gemia em dura escravidão?…
O sonho fez-lhe mal. Levantou-se da cama, banhado em suor frio.
Correu a cortina do balcão, que abria para a rua, e viu o rosto do rapazito alegre, as crianças felizes, sobraçando os seus mimos, e os velhos bem dispostos, em seus fatos domingueiros.
‘Poderia alguém estar triste em tal festa? Poderia alguém chorar?’ E o rapaz atirou-se sobre a poltrona de veludo, cobriu o rosto com as mãos e … chorou! Chorou no meio de sua riqueza, enquanto os pobrezinhos, alegres, acudiam ao bimbalhar dos sinos, que chamavam, alvissareiros: ‘Vinde adorar o Menino!’”

Velho Natal (Old Christmas) is an unpretentious Christmas story written by Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), a priest and a holy man, once archbishop of the city of Botucatu, a position to which he resigned in order to minister to the poor, orphaned and helpless. A very dear friend of mine, he was the sponsor at my Confirmation and officiated my wedding cerimony.

Fidelidade Eterna

Camisa de Jair Marinho, década de 60.

O futebol é a coisa mais importante
entre as coisas menos importantes.

Milton Neves

Meu padrinho, de nome Paes, era um português falante. Dono de lojas de sapatos no Rio de Janeiro, estava sempre a visitar São Paulo. Em uma oportunidade, tinha eu oito anos, presenteou-me com uma bola de borracha com cores e emblema da Portuguesa de Desportos. Nascia o torcedor. Gostava tanto daquela bola que, antes de dormir, deixava-a ao lado de minha cama. Curiosamente, meu pai, português, era são-paulino e convenceu dois de meus irmãos a aderirem à sua preferência. João Carlos e eu, que dormíamos no mesmo quarto, preservamos nossas origens. Torcer para a Portuguesa era um duplo orgulho, estruturado na paternidade e na cruz de Avis estampada na bola de borracha.
A Portuguesa, nas fronteiras dos anos 40-50, treinava no Parque do Ibirapuera. João Carlos e eu íamos a pé assistir encantados aos treinos. Certa vez, Nininho cobrou um pênalti – o goleiro era Caxambu – e a bola foi para fora, atingindo em cheio o rosto de meu irmão, que estava perto da trave. João deu uma pirueta e caiu desmaiado. Foi um susto!
A adolescência foi um desfilar de alegrias. Em meados dos anos 50, a Portuguesa tinha o melhor time do Brasil. Seis de seus jogadores foram convocados para a seleção brasileira e nove para a paulista. Um timaço que, não obstante a qualidade, não conseguia ganhar o campeonato estadual. Sempre faltou força da Associação Portuguesa de Desportos junto às Federações e aos Conselhos Arbitrais. O time era tão inconteste em sua qualidade que, apesar da desventura de não ter grande torcida e influência política, por duas vezes foi campeão do Torneio Gomes Pedrosa, que reunia os grandes clubes de São Paulo e do Rio de Janeiro. Lembro-me até hoje de um dos esquadrões extraordinários da Portuguesa: Muca, Nena e Noronha, Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci, Julinho, Renato, Nininho, Pinga e Simão. Realmente, o timaço. Recebeu a Lusa, por três vezes, a Fita Azul, pois foi o time que, em três excursões à Europa, não perdeu nenhum dos 41 jogos disputados. Ou eram vitórias, ou empates. Sim, numa delas perdeu, contra o poderoso Arsenal, pois chegara pouco antes à Inglaterra, que passava por rigoroso inverno. Nenhum outro, na América Latina, superou esse recorde. O tempo passou, a Portuguesa formaria jogadores extraordinários, mas quase todos acabavam sendo comprados por agremiações mais poderosas financeiramente. Incontáveis os craques que vestiram sua camisa: Ipojucã – Pelé afirmaria, em depoimento, que quando jovem sonhava jogar como ele -, Ivair, Enéas, Dener, Leivinha, Ranulfo, Henrique, Dida, Neivaldo, Reinaldo, Zé Maria, Ditão, Jair Marinho, Jair da Costa, Servílio, Marinho Peres, Pontoni (argentino), Nair, Basílio, Daniel González e Taborda (uruguaios), Cabinho, Pampolini, Wilson Carrasco, os pontas velozes Wilsinho e Ratinho, Dicá, Edu Marangon, Rodrigo Fabri, Leandro Amaral, Ricardo Oliveira e goleiros como Caxambu, Lindolfo, Cabeção, Orlando, Félix – guardião da seleção brasileira campeã em 1970 -, Zecão, Miguel, Aguillera (paraguaio), Clemer… Alguns, como Badeco, maestro do meio campo, Djalma Santos – jamais vi puxetas tão precisas, inacreditáveis -, Capitão – o prenome verdadeiro é Oliude -, Zé Maria, o outro ótimo zagueiro, hoje na Itália, o grande Zé Roberto, jogador de carreira internacional consolidada na Alemanha e artista de nossas últimas seleções, são até hoje torcedores e ídolos da pequena, mas calorosa, torcida lusa. Quando a Portuguesa vai bem, esses torcedores, como em passe de mágica, multiplicam-se. É bom destacar que 8% de todos os jogadores que passaram pela seleção brasileira jogaram determinado período na Portuguesa, sendo que, 4% formaram-se nas escolinhas da lusa. A lista de bons jogadores é enorme e os citados vieram-me no momento da redação do post.
Em 1973, disputávamos o campeonato paulista e tivemos de dividir a taça com o Santos por erros do árbitro Armando Marques. Durante a partida, cometeria uma falha imperdoável ao anular um gol legítimo do ótimo centro-avante luso Cabinho. Na decisão por pênaltis, a Portuguesa desperdiçara três e o Santos acertara dois quando Marques, equivocadamente, encerrou a partida. Errou na matemática, mas nosso Presidente, Osvaldo Teixeira Duarte, entendeu lindamente que houve um êrro de Direito e pediu ao time que se retirasse do campo. Apesar do imbroglio, foi uma alegria. Em 1975, disputamos a final com o São Paulo e perdemos por falhas da arbitragem que, aliás, sempre pendem contra a Lusa. É uma injustiça histórica. Quando a Portuguesa disputou a final do Campeonato Brasileiro em 1996 com o Grêmio, em Porto Alegre, poderíamos até perder por um tento de diferença, mas o gol do time gaúcho ao final levou-nos a esperança de sermos campeões.
Dias difíceis vieram. Nesta década, fomos não apenas para a segunda divisão do campeonato brasileiro, como para a segundona do paulista , categoria que dá “cãibra na vista”, na opinião do célebre Dadá Maravilha. Amargamos e, neste 2007, retornamos às divisões principais dos dois campeonatos.
No dia seis de maio, ganhamos a série B do certame estadual. Um feito. Acabara de dar um recital de piano em Paris e fui ao computador mais próximo, acompanhado da amiga e excelente pianista Sônia Rubinsky. Fiquei eufórico ao saber do título conquistado. Minha mulher, Sônia e eu fomos, a seguir, jantar no apartamento dos amigos Roberts, onde todos aguardavam o instante em que a televisão apresentaria a foto do Presidente eleito da França, pois era o dia do segundo turno. Quando, às oito horas em ponto – tradição no país gaulês –, foi mostrado o retrato de Nicolas Sarkosy, houve alegrias e tristezas. Um amigo, adepto de Segolène Royal, perguntou sobre minha preferência. Disse-lhe apenas que estava um tanto quanto decepcionado. De fato gostaria de ver na tela o emblema da Lusa. Enfim, serviu para boas risadas.
Meu irmão João Carlos, torcedor-símbolo da Portuguesa, convida-me sempre para acompanhá-lo ao estádio quando o jogo é em São Paulo, no Canindé. Não vou. Meu amor pela Lusa é íntimo. Nem pela TV assisto aos jogos, conhecendo os resultados ao final das contendas. Sofro menos. Voltado ao passado, reverencio o trabalho de um grande torcedor, Eduardo Campos Rosmarinho, fundador do Museu Histórico, hoje dirigido pelo competente Vital Vieira Curto. Quantas glórias contidas!
Por outro lado, meu afeto pela Portuguesa data de período romântico, em que jogadores permaneciam nos clubes e amavam a camisa. Hoje tudo mudou. Diria que a massificação do futebol – o esporte mais ventilado em todo o mundo – cresceu de maneira desmesurada e os tempos da moralidade esportiva desapareceram. São os grandes clubes, sempre os mesmos, que estão a ser beneficiados perenemente no Brasil e no Exterior. Nenhum time de nosso país pode manter jogadores, que bem jovens, quando talento existe, vão para todos os continentes. Esses atletas, no estágio brasileiro em clube celeiro, grande ou pequeno, só pensam, não sem razão, no sonho d’além-mar. Só esse fato já não evidenciaria um desequilíbrio abissal entre os melhores times do Brasil e os referenciais de Espanha, Itália, Inglaterra? Se, em disputas de, na realidade, um jogo, times sul-americanos levantam taça em Tóquio quando da Copa Toyota, “aparência” da verdade, nenhum, mas nenhum time latino-americano resistiria minimamente a torneios de longa duração disputados na Europa, justamente pela falta de jogadores extraordinários, pois os melhores de todo o mundo estão a jogar no Velho Continente. É fato.
Sob outra égide, mormente em nossas terras, dirigentes são com freqüência personagens de colunas policiais, a arbitragem é seguidamente contestada, torcidas uniformizadas tornaram-se gangues violentas, bilhetes são adulterados ou ficam em mãos de cambistas, lavagem de dinheiro com a compra e venda de jogadores envolve muita gente e é notíciário constante. Haveria prazer para um torcedor nefelibata, que se afeiçoou um dia a uma bola de borracha com o emblema da terra de seu pai, em freqüentar estádios? Difícil, todavia a fidelidade ao meu time é real, solitária e sem quaisquer possibilidades de abalo.
E a saga da Portuguesa continuará. Prejudicada sempre pelas arbitragens, ela resiste. A esperança está representada por sua pequena, mas fidelíssima torcida, constituída por adultos e jovens. A velha nau encontrou uma vez mais seu rumo, apesar das intempéries, retornando à Série A do Campeonato Brasileiro. Louros ao nosso ex-jogador e hoje técnico Vagner Bennazzi, que conseguiu fazer ressurgir a gloriosa Portuguesa de Desportos. Bem haja, lusa de meu universo lúdico.