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Evidências Reveladoras da Sinceridade

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Os sonhos dividem-se em duas categorias.
Na primeira, aquele que cria o sonho torna-se mestre dos acontecimentos
que se desenvolvem em seu devaneio,
no qual ele é como um mágico, um demiurgo.
Na segunda, o sonhador não consegue controlar as coisas,
ele é passivo, impotente e incapaz
para se defender contra a sua visão.
Aquilo que lhe acontece é exatamente o que ele receia,
o que ocasiona terror e tortura.

Andreï Tarkovski

A trajetória do ser humano é marcada por impactos os mais variados. É possível que ela se mantenha serena durante o percurso completo, ou sofra maiores ou menores turbulências que afetarão a conduta, o vislumbre do caminho a ser percorrido, a relação com o próximo, as regras relativas à boa manutenção físico-psíquica, o entendimento espiritual. A qualidade do impacto poderá determinar as flexibilizações da existência, ou a ruptura absoluta com os padrões seguidos anteriormente. Seria possível compreender as palavras de Jiddu Krishnamurti, que asseverava que somos peregrinos sobre a Terra e que não nos devemos deter, mas sim continuar a senda trilhada. Fatos geradores de grandes transformações seriam, creio eu, passagens que podem afetar profundamente a nossa conduta. Seria o equilíbrio interpretativo que realizamos a nossa maior salvaguarda, a fim de que haja razão nesse permanente caminhar, e que o olhar, a partir da filtração que fazemos do fato que causa impacto, torne-se diferenciado.
Trocara idéias com uma vizinha no episódio Metrô – felizmente, decidiram-se pela Estação Águas Espraiadas, juntamente com o Terminal de Ônibus – quando Penha falou-me a respeito de seu filho, morador em Curitiba, que tivera um linfoma do tipo Hodkins, já extinto. Como aquele que me atingiu era mais agressivo, Tipo T de células pequenas, quis conhecê-lo. Sob aspecto outro, mudanças ocorridas em sua vida, mercê da doença, fizeram-no mudar sua visão de mundo. Uma guinada absoluta se daria e Vitor Caruso Jr. tornar-se-ia um outro homem. Tive o prazer de manter com ele longa e prazerosa conversa e realmente apreendi muito deste jovem voltado a empreendimentos ligados à Ciência Meditativa (www.cienciameditativa.com) e a ações voluntárias junto à APACN – Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia (www.apacn.org.br).
Vitor é hoje budista, praticante de Yoga e emana contagiante alegria. O nosso diálogo abordou desde a luta individual contra o câncer, como aspectos ligados à existência. Apesar do distanciamento etário, creio que enfrentamos o mal com ferramentas bem parecidas. Vitor Caruso teve a coragem de expor em livro todo o processo do mal que o afligiu, em seus mínimos pormenores, assim como os mecanismos que o levaram a enfrentar com determinação o mal de Hodkins. Jamais se submeteu aos diagnósticos plúmbeos. Toda essa epopéia está relatada em Com Qualquer Um de Nós (São Paulo, Rinacy, 2003, 66 págs.). A doença, que eu não quis revelar em seus pormenores, vejo através da pena do autor narrada de maneira direta e sincera, sem preocupações estilísticas, tampouco visando a agradar segmentos corporativos. Trata-se de um desabafo necessário, a servir de alento a todos os que lutam, vencem e não se submetem ao infortúnio. Mesmo àqueles que estão a sucumbir, há a palavra reconfortante de Vitor Caruso Jr. Um ponto chamou-nos a atenção. Em plena químio, contrariando os médicos, Vitor, hoje com 38 anos, disse ao oncologista que iria correr a São Silvestre, tradicional prova de 15 km que se realiza em São Paulo aos 31 de Dezembro. Este, pasmo pela notícia, desaconselhou vivamente o “irresponsável”. Vitor não apenas correu como bateu o seu recorde pessoal. Isso em pleno tratamento. Como não lembrar exemplo que vivi bem posteriormente (vide Sobreviver com Qualidade de Vida, 07/06/08)? Contei ao agora jovem amigo que eu também, desaconselhado pelos médicos, internado no Hospital Nove de Julho, com agulha a importunar minha mão esquerda – o que levou a um grande edema que durou 48 horas para ser absorvido -, estudei durante dez dias em um teclado mudo, pois havia um desafio a vencer: o recital comemorativo ao tri-centenário de nascimento do notável compositor português Carlos Seixas (1704-1742), conimbricense. O recital deu-se na Biblioteca Joanina – uma das Jóias da Humanidade – em Coimbra, na extraordinária Universidade do mesmo nome. Com uma bengala, pois as pernas fraquejavam, adentrei o mágico recinto e encarei o recital inteiramente dedicado ao compositor, retornando dois dias depois a São Paulo, a fim de continuar o tratamento. Durante a apresentação, passei por momentos dramáticos, pois nas peças mais rápidas por várias vezes tive cãimbras nas mãos, o que me obrigou a encontrar solução alternativa imediata – sem prejuízo ao todo – à execução. Um sufoco ! Conseqüências quimioterápicas.

Os peregrinos, pormenor do tímpano Cristo Ressuscitado. Catedral de Autun, França, Séc. XII. Clique para ampliar.

Com Qualquer Um de Nós é uma ode à vida. Seguir a tribulação de Vitor, preso anteriormente a uma multinacional, como tantas e tantas extraindo até a alma de seus funcionários; ser atingido pelo tumor de Hodkins e vencê-lo; entender a vida posterior como uma graça que o fez desligar-se de um tipo de morte à qualidade de vida, preocupação derradeira dessas empresas tentaculares; encarar tantos desafios; contrariar metodologias médicas ortodoxas após leituras insistentes sobre o mal; todos esses aspectos tornam a leitura da narrativa de Vitor Caruso Jr. uma extraordinária lição de vida. Os médicos acertam o diagnóstico, mas falham por não entender o ser humano em sua individualidade. Recomenda o autor a urgência da psicologia àqueles que “uniformizam” o paciente, não o vendo como uma pessoa, única e fragilizada em seu extremo limite físico-psíquico. Conversar com o doente, transmitir-lhe a verdade sem a frieza tão comum, eis o que muitos médicos deveriam aprender. Vitor passou por momentos estressantes frente aos doutores. Em acréscimo, considera as dificuldades que determinados Planos de Saúde impõem aos segurados portadores de câncer, doença muito dispendiosa. De maneira coloquial, os curtos capítulos servem de guia para cancerosos e para todos aqueles que queiram evitar a doença. Regime alimentar, exercícios, meditação são vários os temas abordados pelo autor na busca do encontro de uma vida saudável.
Outros livros mais foram escritos por Vitor, já sob a aura de visão espiritualista que o budismo lhe proporcionou. Conheceu Sua Santidade o Dalai Lama, freqüenta monastério ao norte da India e desempenha um humanitário trabalho junto às comunidades e às crianças em Curitiba. Curado fisicamente, e espiritualmente um outro homem, Vitor Caruso Jr. terá muito a transmitir neste nosso país tão carente de valores voluntários e desinteressados.
Saí substanciado após nosso diálogo e li com interesse seu livro. Continuarei com meus exames periódicos, mas a esperança que foi dele, e é minha também, leva-me sempre a acreditar. Nós temos forças que na realidade mal conhecemos. Caminho a ser percorrido, olhar confiante e a crença na ajuda de um Poder Maior. Nossa vida transforma-se. Quantas não são as coisas que entendíamos fundamentais que perdem completamente o significado. E quão importante são os laços de sangue, os entes solidários. Vitor tem a bela família e o aprofundamento espiritual; eu, igualmente a preciosa família, a música, que é meu descortino diário, e o convívio que tanto amo na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Somos peregrinos a entender que o tempo que nos é dado caminhar nada mais é do que uma grande dádiva.

My chance meeting with Vitor Caruso who, after a Hodgkin’s lymphoma, left the constant strain of a job in a multinational corporation, becoming a Buddhist and a yogi with a high level of spiritual insight. He is the author of a number of books on philosophical and spiritual subjects, among them “Com Qualquer Um de Nós” (To Anyone of Us), a story of his successful struggle against the lymphoma. The book involved me completely because I have a non-Hodgkin’s lymphoma myself and drew a parallel between his experience and mine. Like Vitor Caruso, I believe that determination and faith are the weapons to carry us through this battle.

Problemática e Possíveis Soluções

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Quando teço reflexões a respeito
de meus sucessos e meus fracassos,
constato uma ligação estreita entre a vida que eu levava
durante os dias a precederem o resultado final.
O repouso, o estado de saúde,
o equilíbrio do corpo e do espírito são condições da realização
.
Henrich Neuhaus (pianista e pedagogo)

Em post bem anterior abordei um mal físico que pode afetar os intérpretes de maneira temporária ou definitiva (vide L.E.R. – Lesão por Esforço Repetitivo, 16/11/07). Muitos são aqueles que, diante de empecilho a afetar dedos, mãos e braços, desiludem-se, frustram-se e buscam caminhos incertos.
Há contudo um mal comum à quase totalidade dos músicos, atores, bailarinos, atletas e acrobatas, possível de ser bem administrado durante toda a trajetória, mas a provocar, em pessoas mais sensíveis, danos irreparáveis na seqüência de seus desempenhos. Refiro-me ao medo do palco, le trac, em francês.
Dois livros exemplares, abordando essa presença que pode levar à insegurança total, esclarecem pontos até obscuros da problemática, e expõem várias categorias de tratamento (André-François Arcier. Le Trac: le comprendre pour mieux l’apprivoisier e Le Trac: stratégies pour le maîtriser. France, Alexitère – Collection Médicine des Arts, 1998, 288 págs. e 2004, 271 págs., respectivamente). Se no primeiro Arcier fixa com clareza fatores prováveis a favorecerem a inibição e aponta meios de administrar e até dominar a terrível, mas majoritária, presença do medo, no segundo, escrito alguns anos após, alarga as possibilidades de tratamentos, que se estendem desde medicamentos alopáticos, entre os quais as benzodiazepinas e os beta-bloqueadores, àqueles alternativos, como a homeopatia, a fitoterapia e a acupuntura. Aborda estratégias corporais que podem efetivamente levar à diminuição das tensões, como os métodos Feldenkrais e Jacobson ou a técnica Alexander, ou ainda o Yoga e outras práticas orientais. Pormenoriza as técnicas relaxantes, a sofrologia e penetra na seara da programação neurolingüística e do desenvolvimento da auto estima. “A estima de si mesmo se aprende e se cultiva” como afirma o autor, finalizando pelas estratégias comportamentais e cognitivas.
O domínio da angústia que antecede a apresentação pública é uma das preocupações de médicos, psicólogos, psicanalistas e especialistas nas muitas vertentes que levam ao relaxamento físico e mental, no desiderato de, através de estudos cada vez mais aprofundados, ao menos atenuar a real ansiedade que existe entre músicos, atores, atletas e outros, que têm de se defrontar com um público, seja este leigo ou especializado, entre os quais uma Comissão Julgadora quando de concursos tipificados. Arcier focaliza preferencialmente os músicos solistas ou de orquestra e atores, daí o palco ser o epicentro a causar a euforia, a plena realização ou o desequilíbrio físico-emocional que prejudica a performance. Os trabalhos de André-François Arcier poderiam ser entendidos como simplesmente acadêmicos, não fosse a quantidade apreciável de depoimentos fulcrais, de músicos e atores da maior respeitabilidade, que aprenderam a conviver com a aflição, entendendo-a, administrando-a da maneira a mais razoável possível e, em muitos casos, buscando auxílio médico, psicológico ou relaxante. Que le trac existe, existe. Ao apresentar estatísticas entre músicos de orquestra, é considerável o número daqueles que sofrem de ansiedade pré-apresentação.
Diferentes tipos de angústia exigem tratamentos variados, pois jamais o medo tem característica padrão, apresentando infinidade de nuances, conforme os perfis estudados por Arcier. Gráficos estão sempre a apontar, numa simplificação para o leitor, as modalidades, resultados, estatísticas. Quando segmentos do corpo humano são apresentados, locais onde nasce e age le trac são pedagogicamente explicados.
Há aqueles para os quais o palco tornou-se um terror. Muitas carreiras tiveram de ser interrompidas pela não adaptação à realidade necessária à performance, pois em cena a tensão pode traduzir-se em obstáculo insuperável. Determinados medicamentos alopáticos, como exemplo, podem ter eficácia para o executante de um instrumento e não para um cantor, outros podem agir atenuando transpirações pré-apresentação, batimentos cardíacos acentuados, problemas no aparelho digestivo, todos ocorrendo nos momentos que precedem a representação.

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André-François Arcier penetra fundo em todos os possíveis traumas causadores do trac, passível de múltiplos tratamentos. Não obstante o “medo” do inesperado existir para todos os que enfrentam o palco, o autor preocupa-se com aqueles para os quais a ansiedade ultrapassa a razoabilidade. Considera também que a ausência absoluta do medo pode caracterizar até um outro tipo de anomalia.
Traumas oriundos da infância, quando de apresentações não satisfatórias; pressão dos pais nessa antevisão do menino prodígio a provocar no futuro a idiossincrasia absoluta pelo palco por parte do jovem, já não mais uma revelação; a insegurança frente a um repertório musical ou teatral; a presença de um público competente; a banca examinadora de concursos; episódios múltiplos de ordem absolutamente individual, mas com antecedentes preocupantes; a necessidade – para muitos – de ser o melhor, o que os torna sensíveis à recepção que o público fará de suas apresentações; o terror das falhas técnicas ou do chamado “branco” em relação à memória, todos são fatores que levam intérpretes e atores ao stress, à instabilidade emocional frente ao público e, quando o limite é sentido, a algum acompanhamento médico, terapêutico, fisiológico, relaxante ou psicanalítico.
Quando o pianista canadense Glenn Gould asseverava não sentir le trac antes da apresentação, evidenciava contudo um problema em torno do medo, o pavor de verificar o seu batimento cardíaco aumentar – uma variante da ansiedade, causa provável que o levou a abandonar a apresentação pública, dedicando-se a certa altura da brilhante carreira unicamente às gravações. Teria sido esse sofrimento cênico que conduziria ilustres intérpretes, em períodos determinados, ao afastamento temporário ou definitivo do palco. Vladimir Horowitz teve traumas provocados pela ansiedade pré-apresentação. Martha Argerich confessa, segundo o exposto na obra de Arcier (2004): “Hoje, eu poderia muito bem deixar de dar concertos. É um ato contra a natureza. O prazer é tão raro. No palco não temos a naturalidade de quando em nossa casa, pois não realizamos os mesmos gestos com as mãos frias, há os joelhos que tremem, o nariz que escorre. A interpretação se modifica. E mais, o peso dos olhares sobre você… O efeito da multidão que te observa… julga. Eu não suporto mais ser prisioneira de uma programação, eu que hesito, tateio permanentemente… Hoje, quando te apreciam, fixam um novo encontro dentro de três anos. Eu tenho pesadelos ao pensar”. A grande pianista refere-se às temporadas musicais acima do equador, sempre agendadas com enorme antecedência. Por sua vez, o extraordinário pianista Georges Cziffra afirmou que “adentrar um palco é um ato de coragem. É nesse instante que reside a fragilidade do intérprete. Leva-se uma mensagem que tem de ser passada em hora precisa, por vezes fixada anos antes, sendo um paradoxo que oscila entre a ação de graça e o suplício de Tântalo”. A uma pergunta a respeito do prazer de tocar em público, o pianista Murray Perahia afirmaria: “Não, não é um trauma, se bem que sinto le trac que não é tão indolor como eu desejaria, mas a música é comunicação e é comunicando-se que aprendemos, daí serem necessários os concertos”. E a convivência com essa angústia indesejada, mas sempre presente, seria um fato. Talvez possamos entender as considerações do pianista francês Jean-Philippe Collard citadas por Arcier como uma síntese existente do medo do palco. Considera Collard le trac um companheiro que o pianista conhece bem, entendendo-o necessário, impedindo-o, por vezes, de exprimir-se como gostaria. E afirma: “um companheiro que torna algumas apresentações dolorosas comparadas à fugacidade dos instantes de embriaguês impalpável que existem apenas na geografia de uma sala”.
Entre músicos e atores, a ansiedade pode advir no instante a preceder a apresentação, ou horas, dias ou meses antes de um evento. Dependerá das estruturas mentais de cada artista. Haveria, como afirma André-François Arcier, a necessidade não de suprimir le trac, mas de domesticá-lo. Saber entender que a existência do medo a preceder a apresentação faz parte dessa íntima relação intérprete-público é compreender não apenas a responsabilidade do artista frente àqueles que estão ávidos por receber a mensagem, como também entender a fragilidade humana perante o desafio.

A few comments on two books written by the French doctor André-François Arcier, a research on the causes and effects of stage fright – “trac” in French, the performance anxiety to some extent affecting all performers, from beginners to professionals, when they step on-stage – and a variety of strategies to control it.

Em torno de uma Dissertação

Paulistinhas anônimas, terracota, séc. XIX. Clique para ampliar.

Os países da América Central e do Sul, de raízes castelhanas,
embora como nós latinos e católicos,
diferem radicalmente do Brasil na sua formação.
Todos tiveram suas realizações culturais
iniciadas dentro da arte sacra,
mas nenhum deles teve suas raízes culturais dentro da imaginária,
da escultura religiosa, como aconteceu com nosso país.

Eduardo Etzel

A temática a respeito da Pós-Graduação na área das Humanas tem sido objeto de reflexões transmitidas em posts anteriores, mormente em O Drama da Pós-Graduação – O Perigo do Circunstancial Endêmico (21/06/07). Entre as muitas mazelas existentes nesse domínio, apontava uma essencial. Referia-me ao mau orientador que abriga não importa qual projeto, um dano à nossa cultura, oposto absoluto do competente, que não apenas sabe escolher o candidato, como compreende as nuances preferenciais de um bom orientando. Havendo uma enorme demanda por bolsas junto aos Institutos de Fomento pelos “selecionados” para dissertações e teses, joio e trigo se misturam. Muitas vezes, conveniências oriundas sobremaneira da longa carreira acadêmica de um orientador “oficial”, não de um scholar autêntico, estarão a anunciar todo o mal, pois o veredicto final apenas contemplará duas palavras: aprovado ou reprovado. A fronteira entre ambas é tênue e dissertações ou teses são aprovadas no limite do regular, enquanto outras, extraordinárias, têm a mesma palavra de aceite. Quão fundamentais eram as notas beirando o dez, sendo esta uma referência! Alunos aprovados na faixa mínima permitida sabiam que não haviam sido exemplares. Hoje tudo se confunde, e o Sistema nada faz para alterar essa terrível simplificação a premiar chaga que se alastra sob o olhar benevolente dos detentores do poder educacional, pois o “conceito positivo” estaria a demonstrar eficiência.
A premissa fez-se necessária. Quando aceito participar de uma Comissão Examinadora, verifico em primeiro lugar o nome do orientador, garantia, em princípio, de um bom trabalho acadêmico a ser avaliado. Ao ler o nome de Percival Tirapeli, Professor Adjunto do Instituto de Artes da UNESP, e a temática estudada pelo candidato Ailton S. de Alcântara, atendi ao chamado. Após a leitura da dissertação, apreendi tratar-se de um competente contributo acadêmico: Paulistinhas – Imagens Sacras, Singelas e Singulares, a valorizar não apenas o trabalho artístico na confecção dessas peças de devoção, como igualmente a fazer justiça ao extraordinário pesquisador Eduardo Etzel, certamente o mais importante conhecedor de nossa imaginária (vide Eduardo Etzel – A Valorização do Humanismo – I, e Literatura Sobre Arte Sacra no Brasil – II , 17 e 25/08/07, respectivamente). Dissipa-se pouco a pouco a opinião distorcida que entendia o monumental legado de Etzel como não relevante, devido à sua não formação acadêmica na área de Artes! De maneira progressiva e contundente, a luz prevalece sobre a escuridão.
Percival Tirapeli, autor de vários livros sobre história da arte, entre os quais Arte Brasileira – Arte Colonial. Barroco e Rococó (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 2006, 96 págs.) soube entender e orientar Ailton Alcântara numa temática pouco explorada academicamente, se bem que exemplarmente desvelada por Eduardo Etzel. Contudo, a partir das pesquisas do referido estudioso, Alcântara esboça propostas que deverão servir a debruçamentos maiores e indispensáveis quanto às Paulistinhas.
A dissertação, dividida em três capítulos, estuda inicialmente a introdução da imaginária pelos religiosos nas terras descobertas pelos portugueses. A origem, motivada pela necessidade da propagação do catolicismo, resultou na construção de igrejas e capelas na extensa faixa litorânea. A interiorização territorial empreendida pelos bandeirantes e outros intrépidos aventureiros fez com que, pouco a pouco, o futuro Brasil ficasse povoado de templos e de abundante imaginária. Alcântara debruça-se sobre o período em que jesuítas e, mais tarde, beneditinos e franciscanos, com forte tradição portuguesa, passaram àqueles já nascidos nos trópicos a técnica da confecção de imagens em madeira ou em barro, este cru ou cozido.

Paulistinhas de Dito Pituba (1848-1923). Terracota. Clique para ampliar.

Ao abordar as estruturas sociais, econômicas e religiosas na Província de São Paulo, o candidato a mestrado preparou o terreno a fim de que a temática central – Paulistinha – estivesse esclarecida. Evidenciando um conhecimento competente da matéria estudada, Alcântara mostrou, em bem realizado data show, a transição das imagens de barro cozido, criadas basicamente desde o século XVII, até a transformação final que seria a Paulistinha, do final do século XVIII e de todo o século XIX, a adentrar as primeiras décadas do século XX. Paulistinhas anônimas e aquelas realizadas por Benedito Amaro de Oliveira – o Dito Pituba (1848-1923) – foram apresentadas. Um debate profícuo foi mantido entre os membros da Comissão Examinadora, da qual faziam parte o orientador já mencionado, José Leonardo do Nascimento, Professor Adjunto do Departamento de Artes Plásticas da UNESP e o autor deste post. Alguns tópicos foram propostos e acredito que novas luzes recairão sobre essa extraordinária criação típica do Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo.
Eduardo Etzel prefere denominar “os” Paulistinhas, atendo-se aos santos. Se considerada for como imagem sacra, tem-se a palavra no feminino. A respeito das Paulistinhas, tem-se a imaginária em seu sentido mais despojado. Confeccionadas por santeiros, homens simples do campo ou das cidades do Vale do Paraíba, essas pequenas peças de 10 a 18 cm de altura, aproximadamente, povoaram as casas dos caboclos e dos moradores das pequenas cidades da região. Utilizando-se do barro, o santeiro preenchia as fôrmas necessárias, colocava-as no forno em alta temperatura, e as imagens confeccionadas ganhavam consistência, daí centenas delas terem chegado intactas até os nossos dias. Pinturas singelas, precisas, sem muitas variações, davam a essa típica representação da imaginária paulista o dom da perfeição possível. Eduardo Etzel as compararia às tânagras, pequenas estatuetas em terracota da Grécia antiga. Sendo de pequena dimensão, as Paulistinhas preenchiam oratórios simples, decorados principalmente com pinturas florais e também feitos pelos santeiros. Todo um cenário a levar à religiosidade estava estabelecido. Se considerarmos os grandes casarões de algumas fazendas do Vale do Paraíba, com suas capelas fora das moradias, ou oratórios grandes no interior a abrigarem imagens maiores, poderemos verificar a importância extraordinária, ainda não totalmente valorizada na sua intencionalidade, que é a Paulistinha, imagem destinada aos menos favorecidos.

Paulistinha: data gravada na face interna da base - 1838.

Em post anterior (vide O Espírito de Síntese- Atingir a Decantação, 01/03/08) abordava essa qualidade inalienável que é o retorno às formas clássicas – ou ao despojamento e simplificação – empreendido por tantos compositores. Mutatis mutandis, entendo a Paulistinha como a síntese absoluta da imaginária barroca. Dos panejamentos esvoaçantes; das ornamentações e pinturas douradas sobre estofamentos precisos de gesso das peças em madeira; das expressões contemplativas, de êxtase ou de dor expressas nas imagens do período barroco; das coroas em ouro ou prata; das dimensões bem maiores; todo um longo caminho do erudito ao popular, da riqueza à singeleza, do ornamento à síntese, a resultar nas Paulistinhas. O abastado, capaz de encomendar a peça de ostentação, ou o humilde camponês, que pedia a imagem de devoção ao santeiro do entorno em troca da parca economia, foram responsáveis pela obra de arte. O erudito e o popular pertencendo à categoria de obra de arte. A Paulistinha, em sua dignidade despojada, hierática, em seus traços enigmáticos a não expressar sentimentos, em seu panejamento a tender para a verticalidade sem contornos e em sua peanha funcional, a permitir a queima adequada, mas igualmente a elevação espiritual, aí está a desafiar o tempo e a mostrar que em arte o excelso pode ser apreendido na frase contida em Citadelle, de Saint-Exupéry: “É bem possível que a perfeição seja alcançada não quando nada mais há a ser acrescentado, mas quando nada mais há a ser suprimido”.
No retorno à minha cidade-bairro, o Brooklin, fiquei a pensar na dissertação de Ailton Alcântara e senti certo constrangimento em ter sido obrigado a escolher entre duas palavras, sem a menor possibilidade de outorgar-lhe uma altíssima nota em reconhecimento pelo belíssimo trabalho apresentado. Realmente o pensamento limitado dos educadores governamentais de plantão é o de equalizar competências. Mentes estreitas só podem gerar fronteiras estreitas de avaliação. Perde-se a grandeza, indispensável ao crescimento em qualquer área. Tenhamos esperanças no sentido de que um dia voltemos às notas tão precisas e delimitadoras de dissertações e teses. O insofismável emergirá.

A brilliant thesis defense − a research on the “paulistinhas”, small sacred images in clay, typical of São Paulo state, a local version of erudite models − led me to reflect, as a member of the jury, on the importance of awarding grades to candidates for a higher degree in universities. In Brazil, theses are no longer graded and examiners have to choose between two words: accepted/unacceptable. Instead of rewarding an outstanding work with the highest grade, our education authorities prefer to equalize competences, making it impossible for examiners to define the different levels of achievement of each candidate.