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“Um Sonho Chamado K2”

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La mort n’est donc indéterminée que comme moment à venir.
Plutôt qu’indéterminée, la mort est imprévisible.

Vladimir Jankélévitch

O K2 é a montanha mais terrível,
mais repulsiva e fascinante que qualquer outra.
Para os seres humanos,
é um símbolo do inatingível, uma eterna tentação
.
Karl Diemberger

O infausto episódio acontecido nos primeiros dias de Agosto último, em que morreram 11 alpinistas depois da queda de um serac, bloco de gelo resultante da fratura de um glaciar, ratifica a extrema dificuldade em se alcançar o topo da segunda maior montanha do mundo, o K2 (8.611m), localizado na cordilheira Karakorum, próxima ao Himalaia, entre Paquistão e China. Ao vir abaixo, o serac matou cinco montanhistas, isolando mais de uma dezena que se encontravam acima, cerca de 8.300m de altitude. Especialistas têm o K2 como o grande desafio de suas carreiras. Li recentemente o livro de Waldemar Niclevicz (Um Sonho Chamado K2 – A Conquista Brasileira da Montanha da Morte. Rio de Janeiro-São Paulo, Record, 2007, 373 págs.). A presente tragédia, somada a outras tantas, leva-nos a refletir sobre a fronteira entre a vida e morte, desafio permanente de um alpinista.
O relato de Niklevicz tem a força do testemunho de quem por duas vezes, em 1998 e 1999, tentou sem sucesso a escalada do perigoso K2. Avalanches e dificuldades outras tornam a subida e, sobremaneira, a descida terrivelmente complexas. Inúmeros especialistas sucumbiram ao desafiar aquelas alturas.
Um Sonho Chamado K2 antolha-se-me como uma antevisão da terrível tragédia ocorrida recentemente. Menciona o autor uma frase de Reinhold Messner que “a descida das montanhas representa também um retorno à vida. Cada passo da subida, no entanto, equivale a dois passos que nos afastamos dela”. Niclevicz narra em sua dantesca descida do K2 que sentiu a morte bem próxima: eu me arrepiava ao escutar os pedaços de gelo despencarem, tilintando como pedaços de vidro dentro daquele abismo negro. E continua: sabia que a maioria das 54 vítimas do K2 até então havia perdido a vida durante a descida, e justamente nas proximidades daquele trecho traiçoeiro da escalada. Causa impacto ao leitor a insistência de tantos alpinistas que, ao enfrentarem o desafio da escalada do K2, têm a convicção absoluta, mais do que em outras subidas e descidas, do perigo maior sempre à espreita. É a certeza de que o “inevitável” pode ocorrer a cada momento. Escreve o autor, a revelar parcela do porquê do desafio situado bem além da aventura pela aventura: Nesse mundo particular formado pelas montanhas mais espetaculares da Terra, eu não teria nenhum outro interesse além da busca das alturas mais elevadas, da ânsia de superar meus próprios limites, para encontrar, dentro de mim mesmo, o sentido da minha existência. Sabia, portanto, que jamais eu chegaria ao alto do K2 se não superasse todos os meus medos e fraquezas. Sabia que, na verdade, estava novamente em busca da escalada do meu próprio ser e não de uma montanha de rocha e gelo.
Tão forte reação o K2 exerce sobre Waldemar Niclevicz que o alpinista dedica capítulos às tragédias ocorridas em 1986 e 1995, sem considerar as outras tantas mortes por ele mencionadas em anos diversos. A determinação e ousadia de Niclevicz foram responsáveis pela não desistência após insucessos anteriores devido aos riscos de avalanches e da metereologia, a apontar péssimos dias para a empreitada. A escalada vitoriosa em 2000, juntamente com os experientes alpinistas italianos Abele Blanc e Marco Camandona, é narrada por Niclevicz de maneira palpitante e possibilita ao leitor entender as atrozes dificuldades que o K2 apresenta. E pensar que, para o público em geral, o Everest, apenas 237 metros mais alto, recebe a atenção total, apesar de ser menos difícil sua escalada !
A tragédia de Agosto, somada a tantos outros infaustos acontecimentos desde a primeira escalada ao K2, em 1954, evidencia o permanente peristilo da morte. Números surpreendem. Se o Everest é largamente o mais visado, sobram estatísticas espantosas quanto à comparação com o K2. Para cada 12 pessoas que escalaram o Everest, uma morreu, enquanto que a proporção no K2 é de uma morte para cada três sucessos.
Tragédias e a leitura da narrativa de Niclevicz levaram-me à reflexão. Vladimir Jankélévitch, filósofo e musicólogo, em sua obra La Mort debruça-se sobre o “instante do acontecido” traduzido pelo momento do desenlace. A salvaguarda, segundo o grande pensador, é não sabermos o infinitesimal flash que separa a vida da morte. Se nos fosse dada a possibilidade de conhecer quando morrer, não haveria garantia alguma para a existência e esta estaria com a sua trajetória já traçada, sem o vislumbre da esperança. Para o condenado à morte é dado conhecer o momento de seu desaparecimento físico. Contudo, se tem sua pena modificada no instante derradeiro, poderá haver a visão absoluta da razão da existência, que passaria a ser valorizada como nunca anteriormente. É-nos facultado precisar a passagem de um cometa, mas o ser humano segue em direção à morte sem saber seu instante final. Jankélévitch afirma: É por motivos metafísicos que a predição é impossível. Não se trata de uma imprecisão acidental, mas de uma indeterminação essencial. Fiquei a meditar sobre o livro do pensador francês visitado na década de 80. Não haveria uma “situação intermediária” do axioma mors certa, hora incerta? Todos esses valorosos alpinistas, em narrativas pungentes, não “namoram” perenemente o momento derradeiro, continuando sempre a insistir nessa fronteira única, sem retorno, se a fatalidade de atalaia surgir em forma de uma avalanche, de um passo em falso, da corda que se rompe, do ar rarefeito, do mal da montanha, do congelamento, da fragilidade humana em face ao inesperado? Buscar o limite nessas situações não significaria ir ao encontro da morte, vislumbrando-a e tantas vezes sucumbindo à sua atração? Que desideratos, tantas vezes inconscientes, levam o homem a sentir-se demiurgo, mas a pedir socorro no momento em que a senhora morte é vislumbrada através da densa neblina ou de um abismo sem fim? A irresistível necessidade de sua presença não significaria a tentação de sentir a ruptura da salvaguarda mencionada por Jankélévitch? O alpinista, no instante em que decide afrontar o mau tempo rumo ao cume, não estaria indo ao encontro da mors certa, hora certa? Seria a prudência, em situação extrema de perigo, salvaguarda confiável, se considerado for o motivo a levar o homem ao temível cume?
Um Sonho Chamado K2 prende totalmente a atenção do leitor. Ficaria apenas uma ressalva referente ao desiderato de Waldemar Niclevicz em mencionar tantas vezes ajudas dos diversos patrocinadores e, no final, de todos os doadores. Vivemos na era globalizada, a busca de recursos se torna necessária, mas se existisse maior discrição, acredito que não haveria a quebra da seqüência da empolgante narrativa. Seria bom crer que os auxílios apenas premiam a intrepidez do montanhista, sem esperar o retorno financeiro.

K2 tragedy in August 2008, in which eleven mountaineers died following an avalanche and a sudden and savage storm, reminded me of the book Um Sonho Chamado K2 (A Dream Called K2) ,written by the Brazilian climber Waldemar Niclevicz, an account of his successful and dramatic attempt to summit K-2, the 2nd highest mountain on earth and said to be more difficult to ascent than Everest. The climbing accident led me to reflections on life and death inspired by the thoughts of the French philosopher Vladimir Jankélévitch.

Jacques Durand (1865-1928)

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Quand l’esprit ne se tourne plus naturellement vers l’avenir,
on est devenu un vieux.

Gustave Flaubert

A leitura de memórias pode apresentar problemas de confiabilidade. Se o autor tergiversa, não é difícil, em determinados segmentos, entender desvios comprometedores. Se, sob outro ângulo, o memorialista espera décadas para iniciar suas lembranças, alterações podem encaminhar o texto para fantasias, até perigosas, a não resistir às comprovações que um dia vêm à superfície. Tantas não foram as memórias escritas que perderam validade na confrontação direta com a veracidade. O equilíbrio estaria reservado àqueles que rememoram, mas acolhem os novos dias.
Há tempos procurava Quelques Souvenirs d’un Éditeur de Musique de Jacques Durand. As memórias publicadas em dois volumes, nos anos de 1924 e 1925, foram editadas em Paris pela A. Durand et Fils. Adquiri a obra em um alfarrabista em São Paulo.
Jacques Durand e seu pai, Auguste Durand (1830-1909), foram ilustres empresários e tiveram sólida formação musical. O conhecimento pleno da área amalgamou-se à vocação de editores e ambos pontificaram durante décadas no cenário das publicações musicais em França. Antes do fim do século XIX, Jacques Durand já se integrara às edições e em 1921 passou à direção da Durand & Cie juntamente com Gaston Choisnel e Roger Dommage.
A casa Durand tornar-se-ia referencial, pois seria a editora de autores como Edouard Lalo (1823-1892), Jules Massenet (1842-1912), Camille Saint-Saëns (1835-1921), Claude Debussy (1862-1918), Maurice Ravel (1875-1937), Paul Dukas (1865-1935) e tantos outros. Deve-se a ela as edições francesas de óperas de Richard Wagner, assim como a edição crítica da obra completa de Jean-Philippe Rameau que teve como diretor preliminar Saint-Saëns. Igualmente à Casa Durand creditam-se três revisões da maior importância para o piano do século XIX: Chopin por Debussy, Mendelssohn por Ravel e Schumann por Gabriel Fauré (1845-1924). Mais tarde, Francis Poulenc (1899-1963), Olivier Messiaen (1908-1992), André Jolivet (1905-1974) et Darius Milhaud (1892-1974) tiveram suas obras editadas pela prestigiosa Durand & Fils.
O interesse maior por Quelques souvenirs… veio da leitura, há muitas décadas, de Lettres de Claude Debussy à Son Éditeur, publicadas em 1927 pela mesma organização. São íntimas essas missivas de Debussy, que se estendem de 1894 a Novembro de 1917, poucos meses antes da morte do compositor, abordando a criação, o cotidiano, o acompanhamento das revisões, as crises afetivas, o engajamento ideológico, demonstração inequívoca da qualidade do destinatário. Durand participou de muitas apresentações pianísticas, compondo igualmente, tendo sido responsável pela transcrição para piano solo – com o consentimento de Debussy – das célebres Danses Sacrées et Profanes, escritas originalmente para harpa cromática com acompanhamento de orquestra de cordas, fato a testemunhar a competência do memorialista.
Encontra-se nas memórias de Durand uma panorâmica do ambiente sócio-musical do período. O autor perpassa toda a sua vida envolvida com a música e com as edições musicais. Quelques Souvenirs… indica precisamente que a ligação amorosa de Durand com a profissão escolhida resultou não apenas da feitura de publicações esmeradas, como da escolha dos compositores que permaneceriam na história. Se nomes desapareceram no pó das produções menores, contudo personalidades musicais representativas francesas e européias figuraram no amplo catálogo de Durand & Fils.
Os dois volumes encerram preciosidades. Jacques Durand, na introdução já clareia as intenções: “esforçei-me somente em consignar os fatos da melhor maneira que consegui”. Longe de serem memórias supérfluas, comuns no período dos salões freqüentados por artistas, intelectuais, políticos e empresários afamados, as evocações do autor se estendem da infância a alguns anos antes da morte, com acuidade e forte presença do observador atento.
Tem orgulho de uma linhagem que remonta aos tempos de Henrique IV e indica, através da história, ascendentes relevantes. Lembra-se da infância, quando ouvia seu pai organista. Jacques teria aprendido a solfejar antes mesmo de ler o alfabeto. Parte desse período passou em Gent, pois sua mãe era belga. Em Paris, recordar-se-ia do apoio de seu pai editor aos jovens compositores franceses logo após a guerra de 1870. Realizaria sérios estudos no Conservatório de Paris, a aprofundar-se naqueles de piano e de composição. Nas memórias, refere-se às recepções no salon de seus pais, freqüentado por compositores eminentes: Georges Bizet (1838-1875), Edouard Lalo, Saint Saëns, Massenet, Charles Gounod (1818-1893), pormenorizando fatos que ficaram gravados. Jovem, mercê do prestígio de seu pai músico e editor, conheceu pianistas como Anton Rubinsntein (1829-1894) e Hans von Bülow (1830-1894), violinistas como Pablo de Sarasate (1844-1908) e Eugène Ysaÿe (1858-1931), tecendo sempre comentários competentes sobre as extraordinárias interpretações desses ilustres músicos.
São interessantes os relatos de Jacques Durand sobre as récitas nas salas de concerto ou, mais informais, nos salões onde se fazia música. O do grande pianista e professor Louis Diémer (1843-1919) é mencionado com ênfase, pois o mestre quase nunca deixava o banco do piano, acompanhando à perfeição cantores e violinistas ilustres. Preferenciava, quando solista, o repertório escrito originariamente para cravo. Personalidades parisienses importantes da vida cultural, política e social freqüentavam o salon de Diémer.
A recepção das óperas de Richard Wagner é acompanhada com acuidade por Durand. Particulariza os embates comerciais devido aos direitos autorais das composições do músico alemão. Pormenoriza a edição de obras de tantos autores e, através de suas memórias, entende-se o processo de escolha e a negociação dessas edições. A competência musical de Jacques Durand teria sido a responsável pela permanência de muitos compositores de relevo que tiveram suas criações divulgadas.
Abrigou autores das mais diferentes tendências, e sua memória capta com clareza determinados flashes, como a entrada de Maurice Ravel na Casa Durand levando a célebre Sonatina para piano. O encorajamento àqueles merecedores de publicações e os Concerts Durand, por ele criado a fim da promover obras de compositores ilustres ou jovens, dão às Memórias de Jacques Durand o sentido pleno do humanismo e do respeito aos músicos.
Camille Saint-Saëns merece um destaque especial. O pequeno Jacques conheceu-o como freqüentador da casa de seus pais, quando o compositor já era um músico respeitado. Durante toda a vida, Durand teria uma quase “veneração” pela extrema versatilidade de Saint-Saëns como pianista, compositor e músico possuidor de uma memória absolutamente extraordinária, pois, como narra o editor, sabia as óperas conhecidas inteiras de memória, partituras e libretos. A excepcionalidade de Saint-Saëns em tantas áreas, musicais ou não, será objeto de posts futuros, pois trata-se igualmente do primeiro pianista a apresentar-se em vários continentes: Europa, Ásia, África e América.

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Claude Debussy ocupa parte considerável em Quelques Souvenirs… Durand conhece-o em 1884 na classe de composição de Ernest Guiraud (1837-1892) e ratifica a posição de outros biógrafos a respeito da extrema amizade do mestre para com o aluno preferido: “muitas vezes, à noite, eles se encontravam em um pequeno café da rua de La Bruyère; jogavam bilhar e era necessário o fechamento do café para arrancá-los de lá. Depois, uma vez fora, as conversações estéticas continuavam sob a fumaça de seus cigarros, enquanto reconduziam-se mutuamente e de maneira sucessiva a suas moradas respectivas”. Acompanha com felicidade a obtenção do Prix de Rome em 1884, premiação maior do Conservatório de Paris, obtida pelo amigo com a cantata L’Enfant Prodigue, que seria editada pela casa Durand. Relata, à medida em que as memórias fluem, as primeiras apresentações das principais obras de Debussy, verdadeiro testemunho receptivo dessas composições. Aliás, tal procedimento dar-se-ia em relação às produções dos principais autores franceses e do Exterior, em apreciações breves, mas competentes, de Jacques Durand.
Dois outros aspectos concernentes a Debussy mereceriam menções. Comenta os 12 Études para piano, de 1915, e a Sonata para violino e piano, de 1917. Após uma apresentação na Casa Durand, Debussy mostrou-se insatisfeito com o final desta obra. Levou-o de volta e oito dias após entregou uma nova versão, o que motivou Durand a comentar: “Vê-se o quão difícil Debussy se mostrava frente à suas composições, exemplo a ser citado para aqueles, muitos numerosos, que se contentam bem facilmente”. Jacques Durand visitaria Debussy no peristilo de sua morte. Em estado terminal devido a um câncer prolongado e ouvindo o bombardeio a que Paris estava sujeita naquele dia, “disse- me que tudo acabara, e bem sabia que era questão de horas, curtas na verdade. Hélas! Era fato. Diante de minha denegação, fez sinal para que me aproximasse para um abraço; após, pediu-me um cigarro, sua última consolação. Eu sai de sua casa muito perturbado, sem esperanças. Dois dias após, era o fim !…”
Como conclusão de Quelques Souvenirs d’un Éditeur de Musique, o autor escreve: “nossos mestres atuais produzem sempre belas obras e eu conheço jovens nos quais devemos depositar as maiores esperanças” a evidenciar um espírito superior afeito à tradição e aberto a novas perspectivas. O ter seguido com acuidade o movimento musical em França e a sua vida pessoal de raro interesse dá às Memórias de Jacques Durand uma importância referencial para a compreensão de período tão extraordinário.

Jacques Durand (1865-1928), the author of “Some Memories of and Editor of Music”, and his father, Auguste Durand, had a solid music education and owned a publishing firm that by the end of the XIXth century was already a landmark in France. The Durand house was responsible for the publication of authors such as Edouard Lalo, Jules Massenet, Camille Saint-Saëns, Claude Debussy, Maurice Ravel, Paul Dukas. It published also the French edition of some of Wagner’s operas, the critical edition of Rameau’s complete works (under the initial direction of Saint-Saëns) and three very important works for piano in the XIXth century: Chopin revised by Debussy; that of Mendelssohn by Maurice Ravel and that of Schumann by Gabriel Fauré. Later on, the works of Francis Poulenc, Olivier Messiaen, André Jolivet and Darius Milhaud were also edited by the prestigious Durand & Fils. The book is interesting because the author was well acquainted with outstanding musicians of his time- – with special emphasis on Camille Saint-Saëns and Debussy – and manages to capture the complexity of the musical, social and political world of fin-de-siècle Paris.

Criação, Trajetória, Novos Horizontes

Revista Música (1990-2007). Vinte Números.

Ainsi n’écoute jamais ceux qui te veulent servir
en te conseillant de renoncer à l’une de tes aspirations.

Antoine de Saint-Exupéry

No longínquo 1990, a Revista Música foi criada. Lutei por essa conquista a partir de meu ingresso na Universidade de São Paulo, em 1982. Desde o primeiro número, publicado em Maio daquele ano, estive como editor responsável, a ter como assistente o colega Marcos Branda Lacerda.
Pareceu-me sempre muito perigosa a premência pela produção acadêmica por parte dos Institutos de Fomento e das Universidades Públicas, prática nacional que obriga aqueles que seguem caminhos universitários a publicar em prazos certos, mas com resultados tantas vezes incertos. O açodamento leva à quantidade, não à qualidade. Soma-se um item ao currículo individual, mas a densidade, ou mesmo, num sentido mais originário, a vocação ficariam constantemente à margem, pois itens desconsiderados numa avaliação simples. Desta maneira, parte considerável das publicações universitárias estaria a abrigar artigos rigorosamente descartáveis, mas “indispensáveis” à somatória que será avaliada em tantos sentidos a beneficiar interessados: curricular, concursos, possibilidade de viagens para participação em Congressos, estágios prolongados visando a doutorados ou aos chamados pós-doc, obtenção de bolsas individuais ou aquelas a atender a projetos temáticos ou outros mais, que adquirem designações dependendo dos dirigentes acadêmicos de plantão. Acumulam-se dissertações e teses nas muitas universidades brasileiras sem o embasamento necessário, mas que atenderam aos requisitos institucionais e responderam aos relatórios extensos e friamente burocráticos (vide O Drama da Pós-Graduação, 21/06/07). O governo rejubila-se ao apresentar índices crescentes relativos à pós-graduação e às somas que foram dedicadas à pesquisa. Dados estatísticos tantas vezes tergiversantes.
Na minha área específica, sucessivas viagens ao exterior fizeram-me entender que uma publicação acadêmica no Brasil necessitaria de permanente diálogo com outros países, onde a Música tem raízes sólidas e aprofundamentos fazem-se sentir há milênios. Precisaríamos de longo debruçar nessa busca de conhecimentos diferentemente orientados, a enriquecer toda uma comunidade universitária. O excelente compositor Aurelio de la Vega, então professor da Universidade da Califórnia, em entrevista lapidar a mim concedida e publicada no saudoso “Cultura” de O Estado de São Paulo (nº 309, ano V, 18/05/86, págs. 11-12), ao discorrer sobre a criação erudito-musical do Brasil, afirmou que “o isolamento pronunciado em que se mantém o compositor brasileiro é perigoso, pois cria uma atmosfera cômoda de autocomplacência, afugenta a comparação crítica, muitas vezes proveitosa, e rebaixa com os anos o nível técnico-criativo do compositor”. Mutatis mutandis, essa prática autocomplacente não teria penetrado em outras áreas musicais, como as referentes a teses, artigos, performances, em que uma atitude condescendente existe? As Revistas sobre Música no Brasil não estariam exageradamente acalentando uma extensa rede musical endogênica? Não haveria, por falta de diálogos mais abrangentes com o Exterior e pela necessidade da publicação brasileira que leva a pontuações nos currículos apresentados aos Institutos de Fomento, uma espécie de perigosa reserva de mercado?
Não foi fácil estabelecer parâmetros porcentuais aos artigos internacionais, que pudessem ao menos indicar pensares outros, constantemente trazendo subsídios de grande valia para a ampla área da Música, seja na teoria, na musicologia como um todo ou na interpretação. Sofri críticas as mais díspares por ter insistido nesse caminho, que entendo profícuo à ventilação de outros conhecimentos. Esse olhar diferenciado não apenas nos enriquece, como provoca a necessidade do aperfeiçoamento. Frisaria que, ao buscar a excelência – inúmeras vezes presente entre nossos estudiosos -, deparamo-nos com o choque, pois são múltiplas as tendências além-fronteiras. Nesse desiderato, mantivemos no idioma original artigos escritos em inglês, francês, espanhol e italiano, pois são as línguas mais familiares aos estudos universitários.
Mencionemos, como reconhecimento, os colaboradores internacionais nestes dezessete anos, seguindo a cronologia da Revista Música. São eles: Günter Mayer, Karlheinz Stockhausen, Mario Lavista, Wilhelm Zobl, Bruno Prunés, Myriam Chimènes, Aurelio de la Vega, Giuseppe Chiari, Keith Swanwick, Kwabena Nketia, Vincent Déhoux, Massimo Caselli, Humberto D’Ávila, Kasadi Mukuna, J.M. Bettencourt da Câmara, Ricardo dal Farra, Juan Pablo Gonzáles, Robert Blackburn, Jorge Peixinho, Antônio Sérgio Azevedo, Didier Gigue, Anik Devriés-Lesure, Caroline Rae, Enrico Fubini, Pierre Boulez, Angela Tosheva, François Lesure, Herman Sabbe, Rui Vieira Nery, José Maria Pedrosa Cardoso, Nancy Lee Harper, Elisa Lessa. Quanto aos estudiosos brasileiros, inúmeros estiveram a enriquecer o conteúdo da publicação com artigos que se tornaram referências. Dentre os autores responsáveis por artigos argutos e originais, sempre em ordem cronológica: Marcos Branda Lacerda, Régis Duprat, Walter Zanini, Maurício Dottori, Paulo Chagas, Carlos Tarcha, Celso Mojola, Paulo Costa Lima, Paulo Castagna, Arnaldo Daraya Contier, Mario Ficarelli, José Paulo Paes, Gilberto Mendes, Lorenzo Mammi, Enio Squeff, Willy Corrêa de Oliveira, Luiz Tatit, Antônio Luis Cagnin, Pedro Paulo Salles, Luís Antôno Giron, Paulo Roberto Peloso Augusto, Marco Antônio da Silva Ramos, Ricardo Tacuchian, Susana Cecília Igayara, Ecléa Bosi, Benedito Lima de Toledo, Mario D’Agostino. A qualidade dos artigos tem servido de fonte importante para tantos outros estudos e de luz para pesquisas de destaque.
Importa considerar que a Revista Música jamais, friso, jamais solicitou ajuda aos Institutos de Fomento do Estado ou do Governo Central. Sim, é muito difícil a sobrevivência sem o auxílio oficial. A fim de que não houvesse quaisquer interferências, seja através de pareceres por vezes estranhos, seja pela enorme burocracia a levar à publicação, seja nessa característica da Revista Música de forte alento aos artigos qualitativos internacionais, estando eu desde 1990 como editor responsável sempre mereci a generosa acolhida, em oportunidades distintas, dos diversos órgãos da Reitoria da Universidade de São Paulo e da Escola de Comunicação e Artes da U.S.P., assim como a atenção cuidadosa da Editora da Universidade, a EDUSP. Isso nos deu liberdade da escolha, a busca sine qua non da não concessão e o interesse claro de ilustres musicólogos além-fronteiras pela austeridade de propósitos. Sendo uma publicação do Laboratório de Musicologia do Departamento de Música da ECA-USP, Laboratório este que esteve sob minha coordenação até fins de 2007, houve sempre uma simpatia das lideranças universitárias pela publicação, pois sabiam de nosso norteamento, assim como de nossas dificuldades.

Acabo de atingir a compulsória e deixo a função de editor responsável. O número ora publicado é o último sob minha coordenação. Assume Marcos Branda Lacerda, competente professor e especialista em etnomusicologia. Sugeriu-me continuar como membro do Conselho Editorial. Não aceitei o sincero convite, por entender que rumos novos deverão advir e que o meu tempo como responsável encerrava-se com o número ora lançado. Sob nova orientação, certamente trilhas outras serão tomadas, oxalá altamente positivas. Faz parte do caminhar. A sensação, ao ver as lombadas dos vinte números reunidos, traz-me reconforto, pois percorro com o olhar todo um longo trajeto que surgia da idéia, do convite ao articulista, das revisões necessárias e do lançamento. Foram dezessete anos de fervor.
Deixo pois registrado o grande carinho que sempre mantive pela Revista Música. Cada exemplar significou, para este professor que atinge hoje a aposentadoria, uma categoria de felicidade possível. Outros compartimentos estão a proporcionar-me alegria de viver. A todos os que colaboraram, fica o meu profundo respeito e gratidão. Sem as contribuições preciosas, a Revista Música não teria razão de existir. E na certeza da permanência da publicação, conduzida pelo pensar de Branda Lacerda, renova-se a esperança de continuidade com qualidade. Que o canto das sereias não o perturbe. Assim espero.

After entering the University of São Paulo in 1982, I founded in 1990 a music periodical, “Revista Música”, published on behalf of the Department of Music by EDUSP (the University Press). I have been its chief editor from the beginning until now, when I am retiring from my position at the University. The present issue is a major milestone for me, for it is the last under my supervision. My aim has always been to publish creative writing on music by welcoming first-rate contributors from a variety of disciplines, countries and theoretical perspectives. I believe it is through interaction with others and confrontation of ideas that we construct new meanings, thus the importance of the articles by foreign authors, who brought new ideas and approaches. My thanks to all who have made “Revista Música” possible. The ethnomusicologist and fellow professor Marcos Branda Lacerda will succeed me as chief editor. I wish him well.