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Poder-se-ia transplantá-las para a atualidade

Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo.
Infalível e insubornável.
As grandes obras são como as grandes montanhas.
De longe veem-se melhor.
E as obras secundárias,
essas quanto maior for sendo a distância,
mais imperceptíveis se irão tornando.
Guerra Junqueiro
(Prefácio à segunda edição de “A Velhice do Padre Eterno”, 1887)

Em reiterados posts ao longo de quase 10 anos ininterruptos de blog, a crítica musical brasileira é abordada nos aspectos fulcrais, concernentes à raridade e à falta de competência específica daqueles que a ela se dedicam, salvo alguma exceção. Como causas desse desmonte, a derrocada dos suplementos culturais livres de quaisquer posições ideológicas, a massificação ascendente, que está a levar a cultura dita clássica ou erudita à situação limítrofe e, consequentemente, ao nivelamento por baixo daqueles que se dedicam à crítica musical, alguns deles sem formação na área e oriundos de outros compartimentos da comunicação.

Estou a ler uma obra com seleção de textos de Fernando Pessoa (1988-1935) e que integra a Coleção “Citações e Pensamentos”, organizada por Paulo Neves da Silva (Alfragide, 12ª edição, 2016). Foi-me oferecido pela dileta amiga e competente gregorianista portuguesa Idalete Giga, que anteriormente me presenteara com outro livro da coleção, a privilegiar escritos do grande pensador de Portugal, Agostinho da Silva.

Não deverei fazer resenha do livro em apreço, mas pontuar, ao longo da profícua leitura, tópicos que me parecem relevantes sobre artes em geral e literatura, obviamente. No compartimento “Reflexões e Pensamentos”, há segmento intrigante no qual Fernando Pessoa se posiciona sobre a crítica: “A inutilidade da crítica”, que integra “Ideias Estéticas – da Literatura”. Algumas frases merecem um pormenorizar, pois precedem em quase um século posições defendidas em inúmeros posts inseridos neste espaço e que se têm agravado. Escreve Fernando Pessoa: “Que a obra de boa qualidade sempre se destaca é uma afirmação sem valor, se aplicada a uma obra de qualidade realmente boa e se por ‘destaca’ quer-se fazer referência à aceitação na sua própria época. Que a obra de boa qualidade sempre se destaca, no curso de sua futuridade, é verdadeiro; que a obra de boa qualidade, mas de segunda ordem, sempre se destaca na sua própria época é também verdadeiro”. O poeta caracteriza bem “na sua época”, pois a perenidade, pressupõe-se, não estaria garantida. Sutileza.  Continua: “Pois como há-de um crítico julgar? Quais as qualidades que formam, não o incidental, mas o crítico competente?”.  O escritor penetra num campo espinhoso da avaliação. São tantos os fatores que levam jornais e revistas a aceitar determinado crítico. Influência, relações, acolhida por parte de leitores, que nem sempre distinguem o que poderá ser um simulacro. Fernando Pessoa apreende o cerne: “Quão competente é, porém, o crítico competente? Suponhamos que uma obra de arte profundamente original surja diante dos seus olhos. Como a julga ele? Comparando-a com as obras de arte do passado. Se for original, porém, afastar-se-á em alguma coisa – e quanto mais original mais se afastará – das obras de arte do passado”. O escritor está a tratar da competência em graus de intensidade. Seria plausível imaginar a não competência, e ela existe. Neste caso, fugirá o crítico da avaliação de obra original pela ausência do embasamento na área específica, e muitos recorrem, como salvação momentânea à incompetência, ao outro, visitante de mostra, ouvinte de concerto, leitor do poema, no desiderato precípuo de obter informações que o ajudem à elaboração de seu texto, que pode até conter  fluência sedutora.

Fernando Pessoa expõe: “Persuadir-se-ia alguém de que, se fossem publicados hoje o Paraíso Perdido, ou Hamlet, ou os sonetos de Shakespeare e de Milton, lograriam eles cotação acima da poesia de Kipling ou de Noyes, ou a de qualquer outro cavalheiro semelhantemente quotidiano? Se alguém se persuadisse disso, seria um louco. A expressão é curta (?), não doce, mas pretende-se que seja verdadeira”. Observe o leitor que Pessoa dá à palavra “época”, empregada anteriormente, uma outra roupagem, “quotidiano”. A recepção crítica obedece a leis de mercado e, desde que o crítico seja aceito por seus leitores, importaria menos a qualidade de determinados autores ou artistas, mas aquilo que lhes é transmitido. O mediático quase sempre se impõe, independentemente de valor ou não.

Fernando Pessoa, nesse precioso texto, compara a obra de boa qualidade com outra secundária de boa qualidade, mas a simples leitura da palavra “secundária” já a situa em patamar tão bem explicitado por Guerra Junqueiro na epígrafe. Situação dramática estaria reservada à obra de qualidade, mas secundária que, por falta de competência real de um crítico, não é revelada por motivo da possível exposição plena de quem escreve. Teria ele convicção ao opinar? E se estiver absolutamente equivocado? Seria função do crítico musical entender que um jovem talento é realmente bom, do crítico literário apreender da pena de um novel poeta o significado que está além dos versos, de um crítico de artes visuais entender o valor intrínseco de um artista, independentemente da pressão de marchands que têm seus preferidos, tantas vezes secundários, terciários… Esses são aspectos fundamentais dos quais o crítico, sem a formação estruturada da área da qual escreve, esquiva-se ou busca suporte, postura que inviabiliza qualquer avaliação séria, imparcial, embasada na competência. Pode agradar a maioria dos leitores guiados pela máquina da comunicação, mas perguntaria, e a consciência frente ao voluntário equívoco? O mercado e a mídia evidenciariam preferências àqueles artistas plásticos que se dedicam a gamas temáticas reduzidas, com tênues variações, para gáudio de marchands e colecionadores. Quanto à crítica, esta passaria a “descobrir” a grande originalidade na “repetição” temática, apesar da variação de cores na pintura ou, no caso das esculturas, de formas. A crítica musical não insiste em elogios aos intérpretes bem ventilados, que repetem repertórios ad eternum sem o mínimo rubor?

Fernando Pessoa atinge o cerne de um posicionamento que se eterniza na cultura ocidental no que tange à crítica: “De todos os lados, ouvimos o clamor de que o nosso tempo necessita de um grande poeta. O vazio central de todas as modernas realizações é uma coisa mais para se sentir do que para ser falada. Se o grande poeta tivesse de aparecer, quem estaria presente para descobri-lo? Quem pode dizer que ele já não apareceu? O público leitor vê nos jornais as notícias das obras daqueles homens cuja influência e camaradagens tornaram-nos conhecidos, ou cuja secundariedade fez que fossem aceitos pela multidão. O grande poeta pode ter aparecido; a sua obra teria sido noticiada nalgumas poucas palavras de vient-de-paraître em algum sumário bibliográfico de um jornal de crítica”.

Não há a necessidade de mais dizer.

My comments on the views expressed by the Portuguese poet Fernando Pessoa (1888-1935) in the book “Citações e Pensamentos” (Quotes and Thoughts), a compilation of some of his writings by Paulo Neves da Silva. My focus are Pessoa’s considerations about the role of critics in his time and their capacity to evaluating art. How competent is an art critic accepted as competent? Is he really equipped to fulfill his role or just someone pampered by the media? So similar – though written at the beginning of the 20th century – to my own views on the subject expressed time and again over the years in this blog.

 

 

 

A pianista Eudóxia de Barros e a revelação por inteiro

A carreira de pianista também é muito difícil.
Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação,
esse talento, essa vontade, nada seria compensador.
A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa:
porque, material, certamente não é!
A pessoa se dedica tanto!
É uma experiência espiritual que eleva a pessoa.
A pessoa penetra naquela música,
e fica alheia do mundo por aquele período.
Acaba levitando dentro daquela música.
Maestro Henrique Morelenbaum

O que realmente importa em qualquer biografia
é o que a pessoa sente e não aquilo que fez.
Glenn Gould

Dentro das leituras existentes na ampla área musical destaca-se a biografia. Pode ser escrita pelo autor ou por outro, no caso, através de depoimentos ou material documental. Não poucas vezes a biografia adquire a roupagem de romance e todo o cuidado deve ser tomado para que equívocos não ganhem status de verdade.

Gosto do gênero biografia de músicos, mormente dos pianistas. Jamais as narrativas têm semelhanças, graças às categorias diferenciadas na abordagem.  Wilhelm Kempff  (1895-1991) narra com sensibilidade seus anos de juventude e cativa pela intensa visão espiritual (“Cette Note Grave – les années d’aprentissage d’un musicien”, Paris, Plon, 1955); Arthur Schnabel (1882-1951) aborda aspectos fundamentais relativos à interpretação e ao período em que viveu (“My life and music”, New York, Dover, 1988); Vladimir Horowitz (1903-1989) explora os muitos aspectos da carreira, comenta sobre pianistas coetâneos, evidencia suas preferências repertoriais (“Evenings with Horowitz” – entrevistas concedidas a David Dubal, New York, Citadel, 1994); Claudio Arrau (1903-1991) discorre sobre sua formação musical, carreira, repertório e, num anexo, tem longo e essencial texto em que aborda o intérprete frente à psicanálise (“Arrau Parle”, – entrevistas concedidas a Joseph Horowitz, Paris, Gallimard, 1985); Heinrich Neuhaus (1888-1964) realiza verdadeira explanação da sua metodologia de ensino, exemplificando processos técnicos, sem abandonar dados concernentes à sua trajetória de pianista e professor (“L’Art du Piano”, Tours, Van de Velde, 1971);  György Czifra (1921-1994) e Zhu Xiao Mei (1949- ) viveram experiências traumáticas. Aquele, prisioneiro dos nazistas e, após, de soviéticos durante a segunda grande guerra. Desde a infância, a trajetória pianística gloriosa teria lances dramáticos e, como toda a técnica pianística e a interpretação tiveram a mais absoluta naturalidade, pouco se refere a elas (“Des canons et des fleurs”, Paris, Laffont, 1977). Zhu Xiao Mei viveu a Revolução Cultural na China e descreve com agudeza os “campos de reeducação” onde esteve detida e sua prática digital-pianística sem piano, a visualização de fuzilamentos de seus mestres e todo o longo caminho até chegar a Paris e desenvolver carreira sólida (“La Rivière et son secret”, Paris, Laffont, 2007); Arthur Rubinstein (1887-1982), nas autobiografias “Les jours de ma jeunesse”, de 1973, e “Grand est la vie”, de 1980 (Paris, Laffont) e Magdalena Tagliaferro (1893-1986) em “Quase tudo” (Rio de Janeiro, 1979) permanecem preferencialmente nas exuberantes trajetórias, mas em abordagens nas quais as apresentações e o convívio social preponderam; João de Souza Lima (1898-1982) narra sua rica trajetória como pianista – dileto aluno de Marguerite Long -, maestro, professor e compositor (“Moto Perpétuo”, São Paulo, Ibrasa, 1982); João Carlos Martins (1940- ) esclarece seu envolvimento com a integral de J.S.Bach para teclado e os vários processos pianísticos criados, mercê de infortúnios que sofreu com as mãos (“Conversas com João Carlos Martins” – entrevistas concedidas a David Dubal, São Paulo, Green Forest do Brasil, 1999); Guiomar Novaes (1895-1979) apresenta-se em estudo multidirecionado onde não faltam depoimentos da pianista (“Uma arrebatadora história de amor” por Maria Stella Orsini, São Paulo, Editora C.I, 1992);   Glenn Gould (1932-1982) pormenoriza determinação consciente em suas interpretações, tantas delas polêmicas (“Glenn Gould – Uma vida e variações”, contém inúmeros depoimentos colhidos por Otto Friedrich, Rio de Janeiro, Record, 2000); Daniel Barenboim (1942- ), pianista, pensador e maestro, tem na polivalência uma de suas marcas essenciais, evidentes em duas autobiografias (“La musique éveille le temps” e “La musique est un tout”, Paris, Fayard, 2000 e 2008, respectivamente); Marguerite Long (1874-1966), em seus livros sobre três compositores franceses fulcrais, Gabriel Fauré, Claude Debussy e Maurice Ravel, expõe não apenas o convívio com os notáveis músicos, mas aspectos interpretativos deles aprendidos (“Au piano avec Gabriel Fauré”, Paris, Julliard, 1963; “Au piano avec Claude Debussy”, Paris, Julliard, 1960; “Au piano avec Maurice Ravel”, Paris Julliard, 1971). Considere-se que as três obras de grande importância, mas escritas bem tardiamente contêm, por vezes, fatos não comprovados. Seria Janine Weil que, ao escrever uma biografia da legendária pianista e professora, levaria ao leitor sua trajetória de maneira mais totalizante (“Marguerite Long, une vie fascinante, Paris, Julliard, 1969).

Essa breve panorâmica apreende fatores essenciais para a compreensão do pianista consagrado e do longo caminho percorrido. Cada um aborda, à sua maneira, as causas que o conduziram ao reconhecimento planetário. Contudo, processos do estudo pianístico ficam por vezes nebulosos, pois estaria mais em evidência o todo do aprimoramento.

Em “Valeu a Pena? – Conversando com Eudóxia de Barros”, entrevistas formuladas e colhidas por Rosângela Paciello Pupo (Brasília, Musimed, 2016), a pianista Eudóxia de Barros narra sua trajetória desde a infância e sua vocação insofismável, demonstrada desde os tenros anos, é largamente exposta. Os estudos no Brasil, em França, nos Estados Unidos e na Alemanha deram-lhe base sólida para a carreira escolhida. Apresentou-se com recepção crítica elogiosa, em muitos países europeus, nos Estados Unidos e na América Latina. Carreira consolidada, pois. Contudo seria, como afirma, a sua ligação umbilical ao Brasil que determinaria durante décadas sua afirmação como pianista pátria, nitidamente ratificada. Caminho escolhido, importaria a Eudóxia expor o seu envolvimento com a Música e, ainda mais, com o piano. “Valeu a Pena?” se diferencia das biografias apontadas pela visão “regional” da pianista, voltada preferencialmente para cenário no Brasil, país que apresenta severas deficiências relativas à cultura musical erudita ou clássica. Mostra-se corajosa nesse trabalho dignificante ao levar música de qualidade aos rincões mais afastados do nosso território.

Largamente comenta todos os processos de sustentação nessa dualidade imprescindível para o intérprete, a prática e a apresentação pública. Não sem razão, no raciocínio de Eudóxia a palavra “estudo”, como necessidade imperiosa, está presente em todos os capítulos. Seria ela a chave mestra, verdadeira fixação, que levaria a pianista a se manter ativa durante tantos decênios. Disciplina espartana quanto ao estudo, preparação para as apresentações, preferência repertorial, cotidiano voltado à música, mas também ao vestuário, às relações humanas, à saúde, ao saudoso marido, o compositor Osvaldo Lacerda, e a um verdadeiro “guru”, que ainda ouve seus programas montados para apresentações a cada ano, o maestro Henrique Morelenbaum, reiteradas vezes são mencionados. Rosângela Paciello Pupo, de maneira extremamente organizada, soube orientar as “entrevistas” para que nada pudesse ficar à margem.

Consideraria “Valeu a Pena?” um livro testemunhal de ordem prática. Quantas não são as vezes que Eudóxia de Barros se expõe de maneira confidencial? Dessa assertiva vem parte do interesse do livro. Revelar-se por inteiro, a não ocultar ao leitor pormenores “laboratoriais” rigorosamente íntimos, demonstra certezas, coragem e até possibilita armadilhas. Há retornos constantes a verdadeiros “dogmas” relacionados ao mencionado estudo diário inflexível, a obedecer regras e de preferência com horários fixos; ao estudo permanente com as mãos separadas; à memorização; à colocação de dedilhados em toda a partitura, mais ainda, em cada figura da trama musical; à prática diária da técnica pura; à preparação no dia de recitais e concertos, dela fazendo parte o estudo prolongado a anteceder a apresentação; à carreira como eixo paradigmático primordial em sua vida. Exaustivamente Eudóxia responde às perguntas inteligentes de Rosângela e, em determinadas reflexões sobre música e interpretação, demonstra até franqueza constrangedora. O leitor poderia se perguntar se estaria aí uma falha. Diria que temos em seus depoimentos a mais absoluta sinceridade, o que é raríssimo entre os intérpretes em suas biografias. Essa sinceridade é porosa, faz jorrar em cada página a descoberta de Eudóxia de Barros por inteiro e não seria essa autenticidade um dos aspectos a tornar “Valeu a Pena?” um livro de forte interesse? A ausência desse desnudamento não faria falta em tantas biografias, entre as quais algumas das acima citadas?

Sob outra égide, basicamente inexiste nas biografias mencionadas o autoelogio. Por questões éticas, de modéstia – ou ausência dela -, de foro íntimo, dificilmente um intérprete em texto faz referência às suas qualidades. Eudóxia, não como vanglória, frise-se, mas como necessidade de expor suas virtudes, revela essa franqueza que pode ser apreendida como vontade de transmitir aos seus incontáveis ouvintes qualidades que eles já tinham captado e que o documental escrito apenas solidifica em suas mentes. Proliferam os superlativos voltados à excelência das oitavas, da velocidade, da compreensão e do fraseado, da memória. Todas essas exaltações transcorrem normalmente e Eudóxia transmite o que ela sente, entende e assiste ao verificar suas facilidades frente ao teclado. Quem teria essa coragem? Quanto à memória, não poucas vezes ressalta ser inadmissível a interpretação tendo-se à frente a partitura em recital solo. Nesse aspecto, entendo o conceito passível de interpretação. Nem todos tem a memória de Eudóxia e, como narra em “Valeu a Pena?”, há todo um científico trabalho para se decorar uma obra. Contudo, tem-se de ver caso a caso. O grande Sviatoslav Richter (1915-1997) confessaria que, nas últimas décadas da vida, apresentava-se com partitura à frente. Assim procedeu tardiamente Roberto Szidon (1941-2011), dessa maneira habitualmente desempenha brilhante carreira o pianista português Arthur Pizarro (1968-  ). Certamente todos tiveram ou têm as obras absolutamente digeridas e a presença da partitura serve certamente como um conforto, a fim de que nada de anormal possa ocorrer. Apenas isso. Sabe-se que ela lá está. Assisti a um sem número de excelentes pianistas na Bélgica interpretando ou integrais ou recitais com obras diversas com a partitura como ajuda. Pessoalmente, mormente nestes últimos anos, assim procedo. O grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro já afirmava que “o tempo é insubornável”.

Uma das qualidades inalienáveis de Eudóxia, exposta com insistência, é o culto à música brasileira. Revela inquestionável missão, cruzada sem trégua a que se dedica desde jovem, não apenas a cultuar compositores consagrados, como Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1897-1986), Camargo Guarnieri (1907-1993) e seu discípulo e marido da pianista, Osvaldo Lacerda (1927-2011), mas também autores que eram desconhecidos do grande público. Dedicou-se igualmente ao repertório pátrio semi-erudito, clássico-ligeiro na visão de seu até hoje conselheiro musical, o Maestro Henrique Morelenbaum. Ernesto Nazareth (1863-1934) e Chiquinha Gonzaga (1847-1935) tiveram suas obras estudadas, interpretadas e propagadas pelos mais distantes rincões do país. Contam-se às centenas as cidades brasileiras visitadas pela pianista nessa hercúlea tarefa. Do clássico-ligeiro ao popular tem-se um passo e Eudóxia demonstraria em sua carreira intrínseca intimidade com a música de Zequinha de Abreu (1880-1935) ou com grupos que praticam o chôro, os denominados Chorões. Polivalência relativa à música brasileira, do erudito ao popular.

Não tendo trilhado carreira acadêmica, Eudóxia faz críticas ao trabalho dentro da universidade e suas obrigações. Crê que a sobrecarga intramuros impeça o desenvolvimento de uma carreira como a que empreendeu.

Um longo capítulo apresenta situações hilariantes pelas quais a pianista passou ao longo da carreira. Tem muita graça, realmente diverte o leitor.

Apêndices apresentam o enorme repertório de Eudóxia de Barros. Verifica-se que, após perpassar parcela das composições sacralizadas e comuns a todos os pianistas, mais e mais ela revelou esse notável trabalho voltado aos compositores brasileiros. Um mérito indiscutível. Também sua larga discografia, críticas recebidas no Brasil e no Exterior e uma instigante entrevista de seu conselheiro musical – Maestro Henrique Morelenbaum – que descreve o perfil pianístico de Eudóxia, complementam o copioso livro. Serve o depoimento do ilustre músico para evidenciar esse entendimento profícuo estabelecido entre ambos.

“Valeu a Pena?” é obra obrigatória na biblioteca de músicos e leigos, mormente dos estudantes que terão em mãos um verdadeiro vade mecum voltado ao cotidiano pianístico, do estudo à apresentação pública, a ratificar in adendo, com letras maiúsculas, a imperiosa dedicação e disciplina para que objetivos sejam atingidos. Essas palavras apenas corroboram o caminho meritório e consagrado da pianista Eudóxia de Barros.

Today’s post addresses the book “Valeu a Pena?”, a series of conversations between the Brazilian pianist Eudóxia de Barros and journalist Rosângela Paciello Pupo. With honesty and candor, Eudóxia talks about a lifetime devoted to music: the discipline required for her daily piano practice, performance preparation routines, the importance of playing from memory, choice of repertoire, recordings, her option for the promotion of Brazilian composers since the beginning of her career. In my opinion, a mandatory reading for music lovers and in special for students, since it makes clear that nothing can be accomplished without practice, discipline and hard work.

 


O humor de Heitor Rosa em contos hilariantes

Escrevendo ou lendo
nos unimos para além do tempo e do espaço,
e os limitados braços se põem a abraçar o mundo;
a riqueza de outros nos enriquece a nós. Leia.
Agostinho da Silva

Durante curso e recital que dei na Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás tive a satisfação de manter mais uma vez contato com Heitor Rosa. Ele e sua esposa, a competente professora da EMAE-UFG, Consuelo Quireze, ofereceram, após meu recital, uma bela recepção em seu apartamento. Oportunidade para buscar entender o fascínio do médico escritor pela medicina medieval, diagnóstico, instrumental, tratamento e ervas medicinais utilizadas nas “poções mágicas” de antanho, que o inspiraram a escrever dois romances, a partir de seus conhecimentos como embasamento seguro. Ofereceu-me “Histórias da Creusa”.

Antolha-se-me que o humor, principalmente no Brasil, quando praticado por contistas mediáticos, tende muitas vezes a resvalar para a vulgaridade ou para aquilo que causa sensação através de palavreado por vezes chulo, enredos de banalidade extrema e divulgação imensa nos veículos principais. A televisão aberta não apresenta, em todos os programas humorísticos, o bestiário mais rasteiro para a satisfação dos que promovem e do público com viseiras? Sim, temos contistas como Machado de Assis, Lima Barreto, Moacyr Scliar, Fernando Sabino, Ruben Braga, Frederico Branco (vide blog “Frederico Branco – A revisitação das imagens perdidas”, 09/03/2007) entre muitos de imenso valor, que souberam valorizar o gênero e adentrar por vezes no difícil campo do fino humor. Heitor Rosa é um deles e sua cultura invulgar, seu arguto senso de observação e sua vocação literária propiciam o amálgama da história real e da narrativa idealizada.

Este é o terceiro livro de Heitor Rosa que tive o prazer de ler. Diferentemente de “Memórias de um Cirurgião-Barbeiro” (vide blog, 10/09/2016), no qual bases históricas sólidas ajudaram a construção da narrativa do romance, ou mesmo do “Enigma da 5ª Sinfonia” (vide blog, 30/07/2016), em que personagens históricos vivem  situações jocosas, “Histórias da Creusa”, que os precede  (Goiânia, Kelps – UGG, 2009), é totalmente voltado ao humor fino, hilariante, inteligente. Creusa, a serviçal intempestiva, atabalhoada e fisicamente avantajada dá título ao livro e permanece a causar situações embaraçosas nos primeiros capítulos do livro. Um dos contos estará inserido no “Enigma da 5ª Sinfonia”.

O livro, dividido em quatro secções distintas, “Histórias da Creusa”, “Os ossos do Coronel Azambuja”, “Histórias não contadas da Guerra do Iraque” e “Outras Histórias”, apresenta o contista em pleno domínio da narrativa diversificada. Não poucas vezes adentra em temática relacionada à sua atividade de médico, como “Medicina alternativa”; “Consulta eletrônica”, verdadeira paródia da tecnologia em constante evolução; “Medicina do Mercosul”, crítica às muitas soluções fruto da incompetência; “Perfumai vossos puns!”. Neste conto, sem qualquer artifício banal ou “rasteiro”, comum nessa categoria literária, o autor, também jocosamente, parte de algo relacionado à esfera médica e, no jogo das palavras e nos diálogos entre um médico e um pesquisador em Congresso europeu, cria um conto hilariante.

Se Creusa está presente em seis contos, creio que na secção central, “Os ossos do Coronel Azambuja”, em seus quinze capítulos, Heitor Rosa constrói um dos melhores conjuntos de sábio humor da literatura brasileira. Centrado no personagem principal, José de Arimatéia, nascido em local idealizado pelo autor, “Serra Verde de Goiás, cidade próxima ao Triângulo Mineiro”, Rosa leva o leitor a acompanhar o desenvolvimento desse filho de um coletor através de passagem por seminário e estudos em Roma. “De volta ao Brasil, já não lhe interessava a incipiente carreira religiosa, e assim abandonou-a de imediato para dedicar-se ao ensino de História e à tarefa de transformar o país”, escreve Heitor Rosa. Após lecionar História em colégio respeitado de Belo Horizonte, retorna à terra natal como ilustre personagem. As peripécias incontáveis de Arimatéia, no desiderato de fazer com que, de Serra Verde, transformações locais sejam aplicadas no país, são de extraordinário humor e impossível não gargalhar durante a leitura. Os desdobramentos de duas dessas transformações são extraordinários: a persuasão de Arimatéia no sentido de que juiz, promotor e advogado de defesa da cidade, além das vestes negras, passassem a adotar o uso da peruca, tradição inglesa, em todas as sessões de julgamento, o que, à maneira de uma bola de neve, poderia ser utilizado Brasil afora, tem final absolutamente surpreendente. Numa segunda mirabolante ideia de Arimatéia, a construção de um panteão, no qual os mortos ilustres da cidade permanecessem ad eternum, tem enredo muito bem tramado e desfecho inesperado.

Após os quatro capítulos de “Histórias não contadas da Guerra do Iraque”, Heitor Rosa insere, em “Outras Histórias”, treze contos independentes, curtos, precisos e tematicamente bem diversificados.

Nos dois livros anteriormente resenhados salientava que urge a divulgação maior dos romances e contos do notável escritor goiano. Dia a dia vemos surgir tantos títulos que fadados estão ao desaparecimento, tão logo a ação mediática deixe de agir. Assistimos, de maneira galopante, a atores televisivos escrevendo sobre tudo de maneira superficial; radialistas e jornalistas lançando livros sobre o hodierno político que se estiola tão logo o efêmero seja suplantado por novos casos, que igualmente terão vida curta; esportistas em incursões literárias “históricas” evidenciando qualidade “suspeita”. Quantos não são os livros “depoimentos” escritos pelo outro? Passado o por vezes tsunami, o ostracismo se faz. Todavia, hélas, sempre outras torrentes estão surgindo.

Recomendo a obra literária de Heitor Rosa. Nas várias modalidades, estamos diante de um mestre da literatura, sem dúvida.

In today’s post I comment on the book Histórias da Creusa, written by the Brazilian doctor and University teacher Heitor Rosa. It is a book of hilarious short stories written with fine humor by a man of broad knowledge, keen power of observation and undeniable gift for writing, capable of sustaining readers’ interest from beginning to end. Heitor Rosa is a master writer whose books deserve better promotion and marketing.