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A Música para Junqueiro

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Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado.
A arte exige uma liturgia, um ritual,
que se prende com a fonte da dádiva e a aproximação ao amor.
A arte atravessa a nossa mente com pés de pomba,
à mínima tempestade torna-se invisível, substituída pelos apelos do cotidiano.

Miguel Real

Estava a organizar livros que se acumularam. Reconheci a lombada de volume caro a meu pai: A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro (Porto, Lello & Irmão, 1926). Acostumamo-nos a ouvir, durante décadas, nosso progenitor recitar com empolgação o longo poema O Melro, integralmente e sem vacilos. Abri e folheei. Logo na abertura, chamou-me a atenção o extenso prefácio à segunda edição (fragmento inédito), escrito pelo autor em 1887. Incisivamente, Guerra Junqueiro (1850-1923), polêmico escritor e poeta português, posiciona-se em relação à sua autonomia: “Nunca discuti, nem jamais discutirei com quem quer que seja, o valor literário duma obra minha. / Um livro atirado ao público equivale a um filho atirado à roda. Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte. Que seja feliz é o que eu lhe desejo; mas, se o não for, também não verterei uma lágrima. / Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz a resina, a pereira, pêras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim”. E em outro segmento, a dimensionar a qualidade de uma obra: “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe vêem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for sendo a distância, mais imperceptíveis se irão tornando”. O tempo se mostraria o grande aliado de Guerra Junqueiro, a perenizar sua obra.
Compositores buscaram, ao longo dos séculos, na poesia popular ou nos poemas entendidos como cultos ou eruditos, fonte indispensável à existência das canções ou lieds. Há poetas e poetas. Alguns, apesar do imenso valor, não têm em seus versos a “musicalidade” essencial. Intuitivamente ou não, os músicos, ao buscarem poemas para as suas composições, tendem à essa volatização que se expande de uma poesia. Nem sempre o poeta que perdura tem versos musicais, mas tantos outros, que a história ajudou a esquecer, tiveram poemas magistralmente musicados por compositores do período romântico, como Franz Schubert, Robert Schumann… Se Claude Debussy teve o dom de captar a essência essencial de Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine e Charles Baudelaire para as suas mélodies, não deixou contudo, por vezes, de frequentar poetas menores. Em L’harmonie du soir, um dos poemas de Les Fleurs du Mal de Baudelaire, não somente criou uma de suas mais expressivas mélodies para canto e piano, como do verso Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir, um dos mais sensíveis Prelúdios para piano solo. Sob égide outra, o cancioneiro popular, “uma bíblia em música”, segundo Guerra Junqueiro, deve sua existência à plasticidade do verso geralmente anônimo do povo, que saberá, como fluxo inexorável, adequá-lo a uma melodia. Há todo um aspecto “mágico” nessa interação ancestral.
Quando do recital em Braga no início de Junho, lá esteve meu amigo António Menéres. Dele recebi A Música de Junqueiro (Porto. Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa. Coordenação: Henrique Manuel S. Pereira, 2009). Li-o com interesse. Trata-se de obra fundamental para o conhecimento não apenas de uma característica poético-musical do grande poeta e escritor, mas também para a compreensão de todo um processo que leva o compositor a buscar poemas que emanem “sonoridades”. Tão mais sonoros são os versos junqueirinos quão mais entendemos que, ao longo de um século, apesar de toda a trajetória da escrita composicional, os poemas de Junqueiro jamais deixaram de interessar aos músicos. Torna-se evidente que a visitação constante, na maior parte constituída de compositores expressivos, é inequívoca presença dessa imanência musical nos poemas de Guerra Junqueiro.
A coletânea de textos escrita por autores competentes, contida em A Música de Junqueiro, está a demonstrar a insistência do autor de Pátria em precisar a importância da música frente à poesia. Já não seria a evidência de que a frase musical esteve sempre a integrar o seu de profundis? As inúmeras incursões, opiniões, “certezas” até de Guerra Junqueiro em relação à música são inquestionáveis.

Página manuscrita de Guerra Junqueiro. Extraído de A Música de Junqueiro, pág. 34. Clique para ampliar.

A cuidadosa seleção de referências à música, realizada pelos responsáveis de A Música de Junqueiro, vem demonstrar uma atração à temática por parte do poeta e escritor. No artigo Música de e Música para Junqueiro, Henrique Manuel S. Pereira seleciona criteriosamente segmentos do escritor e poeta em que a arte dos sons está presente reverencialmente. No texto, S.Pereira penetra na hermenêutica, a dar sentido à música interior de Guerra Junqueiro expressa na prosa em períodos vários de sua existência. Junqueiro realiza uma glorificação ao cantar: “ser o cantador, ser a voz da água e do vento, da rocha e da floresta, dos homens e dos monstros, dos infusórios e dos sóis, das nebulosas e dos átomos! Cantar o riso, o beijo, o olhar, a dor, a lágrima!”. E prossegue nessa louvação emocional às formas, matérias, ideias, paixões. Faz o amálgama das artes ao afirmar que “a luz é música. O prisma é um instrumento de música” e a luz seria uma orquestra, “um hino de cores”. O ter sido colecionador respeitado de obras de arte não seria a ratificação de uma vocação à integração das artes? Situação bem próxima não teria ocorrido com Alexander Scriabine (1872-1915), o notável compositor russo, que buscava a identidade das artes em Prometeu, o Poema do Fogo e no Mystère (inacabado) que deveria ser a união de todas em direção ao Cosmos?
Guerra Junqueiro, na comparação com o verso, afirmaria que “no canto há (ainda) mais amor entre as palavras, socializam mais, fraternizam mais”. E prossegue: “o verbo cantar é um dos filhos radiantes do verbo supremo, do verbo eterno, do verbo divino e criador, que é o verbo amar”. A assertiva do poeta viria de um tríplice entendimento: o cantar a prevalecer sobre o verso, e este, por sua vez, sendo “mais belo do que a prosa”. Entendimento que o faz captar a condução de uma linha poética expressa nas palavras: “o verso errado é um delito”. Tem o poeta o dom da associação metafórica: “cantar é por os sons em harmonia, torná-los amigos, parentes próximos, irmãos devotados e inseparáveis. Cantar é moralizar o som”. Ao preferenciar órgão e violino, pelo fato de que “as notas são contínuas, fundem-se, convivem mais, porque cada uma delas sacrifica, por amor à outra, uma parte do seu individualismo, o seu limite”, ao contrário do piano onde o som, por força do mecanismo do instrumento, evidenciaria, ao ver de Junqueiro a “contiguidade, não continuidade”, não demonstraria uma percepção, intuitiva, dos meandros sonoro-musicais e da plasticidade ininterrupta? A erudição quanto ao repertório musical sacralizado o levaria, através da escuta, à dedução: “A música é poesia incorpórea. Há sonatas de Beethoven que se me afiguram ser as melódicas almas imortais de grandes epopéias que morreram…”. O texto de Henrique Manuel S.Pereira tem, entre outras virtudes, a de ser ponte importante a ser transposta, a fim de que entendamos o porquê dessa frase musical no verso de Guerra Junqueiro, e a compreensão consequente por parte de tantos compositores de méritos que se debruçaram sobre sua poesia.
Se a canção predomina em sua básica formatação canto e piano, a poesia musical de Junqueiro serviria, sob outra égide, para outros entendimentos quanto à destinação. Em texto de síntese e bem elaborado, Fernado C. Lapa apresenta essas várias configurações nas quais os versos do poeta estimulariam a ideia do compositor. Quinteto de sopros, coro de câmara e quarteto de cordas, coro a capella e os muitos endereçamentos não eruditos visitados por músicos de várias tendências populares ou pop. Salienta o compositor F.C. Lapa, ao caracterizar as vertentes musicais erudita e popular que apreenderam o conteúdo inerente na poesia de Guerra Junqueiro: “podemos afirmar que nelas se reflectem duas das atitudes mais contrastadas na abordagem da poesia de Junqueiro: a atitude naturalista (a vida no campo, a singeleza da natureza, a bondade universal…) e uma atitude mais construtivista (filosófica, dramática, por vezes irónica)”. Nomes expressivos inspiraram-se em seus versos. Mencionaríamos, à guisa de exemplificação, compositores como Fernando Lopes-Graça, Cláudio Carneiro, Tomás Borba, António Fragoso, Luís de Freitas Branco, Óscar da Silva, José Viana da Mota e o brasileiro Barrozo Netto. Seria do vocalista da banda Houdini Blues uma consideração pertinente à poesia e à letra da canção. Faz distinção: “A primeira dificilmente se musica com sucesso por já ter uma melodia e uma cadência inerentes, a segunda dificilmente sobrevive incólume à ausência da música”. Algumas das poesias de Guerra Junqueiro, como A Moleirinha, Canção Perdida, Morena, Regresso ao Lar, tiveram várias leituras realizadas por compositores de tendências distintas.
A edição esmerada de A Música de Junqueiro apresenta artigos instigantes, todos os poemas que foram a fonte essencial para a criação sonora, entrevistas com intérpretes, a relação cuidadosa de todos os compositores e mais dois CDs, contendo o resultado musical da ampla pesquisa. Modelo a ser seguido.

During my recent visit to Braga I was given the book “A Música de Junqueiro” (The Music of Junqueiro). Guerra Junqueiro (1850-1923) was one of the greatest poetry and prose writers of the 19th century in Portugal. The book unveils Junqueiro’s thoughts about music, examines the musicality of his poetry and the works of composers who have drawn inspiration from his writings thanks to the musical effects of the language he used. It presents all of Junqueiro’s poems that were set to music, stimulating articles, interviews with performers, lists the composers who worked on his poetry and comes with two CDs with works by names such as Fernando Lopes-Graça, Cláudio Carneiro, Tomás Borba, António Fragoso, Luís de Freitas Branco, Óscar da Silva, José Viana da Mota and the Brazilian Barroso Netto. An interesting reading for anyone who wants to go deeper into the art of this great writer and into the creative process of composers when their inspiration comes from poetic works.

Saint-Exupéry e Aspectos Ligados ao Futuro

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La pierre n’a point d’espoir d’être autre chose que pierre.
Mais, de collaborer, elle s’assemble et devient temple.

Saint-Exupéry

Quão impossível se possa prever, o futuro, palavra impregnada de mistério está perene durante toda nossa trajetória. O termo adquire metamorfoses na medida em que o afunilamento etário delimita fronteiras. Mas a palavra se adapta a todas as situações previstas: família, comunidade, profissão e almejos os mais variados. Estamos sempre a delinear projetos de toda a ordem, neles acreditando ou até sonhando, e revés ou desiderato atingido farão parte desse caminhar olhando o passo à frente ou o final da senda. Porvir imediato ou longínquo são salvaguardas para aspirações e aprimoramentos ou, hélas, desejos menos nobres. Faz parte do gênero humano pensar naquilo que virá, esse vir a ser que tantas vezes pode ser obliterado pelo inesperado. E ele acontece sem que o queiramos.
A noção que se tem do futuro é elástica e mais será encolhida à medida que as décadas se acumularem. Outra configuração, essa transcendental, pode dirigir o homem às reflexões espirituais. É absolutamente normal, pois tensões, provocadas pelas vontades de toda ordem nas fases que precedem a idade mais serena, estimulam eflúvios para que o futuro possa acontecer e que intenções se realizem.
Estava a folhear Citadelle, de Saint-Exupéry, obra de constantes visitas, mormente nos momentos voltados à meditação. Há precisões do autor quanto ao tema a envolver o futuro. Ele, que nos voos noturnos nos céus da África do Norte, do Atlântico e da América do Sul, previa sempre chegar bem, a ter como bálsamo a atividade cumprida e as correspondências distribuídas pelas casas e empresas, levando toda espécie de mensagem. Em pleno voo, ao sobrevoar o sul do continente americano, ficava a imaginar guaridas para a correspondência esperada. Visão do alto, a pensar em anseios acalantados em terra. Pensamentos que ocorriam ao piloto escritor quando se aproximava da temível aterrissagem, naqueles tempos históricos em que tantos monomotores soçobraram sem missão cumprida.
Saint-Exupéry entendia que o futuro se constrói. Não haveria em Citadelle a visão do progresso material, esse encaminhamento na busca de um bem-estar sem a presença humanística, responsável e ética. Seu ceticismo quanto à preocupação do homem voltado preferencialmente ao ganho é notório. Há nítida preocupação moral que perpassa Citadelle, obra que teria sido citada como uma Bíblia do século XX. Abundam metáforas nesse reino imaginado por Saint-Exupéry e poder-se-ia considerar tantas delas como verdadeiras parábolas.
Os textos reunidos que compõem a obra têm, inclusive, apesar de não sequenciais, um norteamento seguro. O futuro lá está, exemplificado em vários segmentos, mas a obedecer apreensão humanística. A presença, nesse Império imaginário representado por Citadelle, do velho jardineiro que estava a regar com carinho uma pequena muda de carvalho não transcende expectativas? Ao ser perguntado do porquê de tanta devoção a cuidar de uma árvore que teria lento crescimento, a durar décadas somadas, se a vida estava a se estiolar, o homem respondeu que pensava nas gerações que desfrutariam da sombra do cedro quando crescido. Em outro segmento, nessa alegoria à vida vegetal, Saint-Exupéry observa que “nada significa para ele a primavera que não desenvolveu flores”, numa referencia à ilusão do almejar se não houver a expressão verdadeira do presente, ou ainda na menção a outra árvore que vê crescer pouco a pouco os seus ramos: “De presente em presente a árvore terá crescido e chegará, ciclo concluso, à morte”. Citadelle leva-nos a surpresas, e apreende-se que preparar o futuro nada mais é do que fundamentar o presente, “pois a única invenção verdadeira é a decifração do presente sob seus aspectos incoerentes e sua linguagem contraditória”. E em seu idiomático literário surge a metáfora “criar um navio é exclusivamente fundamentar a rampa em direção ao mar”. Para Saint-Exupéry, sonhar o amanhã pode implicar antevê-lo sem bases concretas, o que levaria ao equívoco: “ O futuro não se pode prever, mas permitir”. Ou ainda, recorrente: “Construir o futuro é construir o presente. É criar um desejo pertinente ao hoje. Que é hoje em direção ao amanhã.” Estar focalizado no presente destrói a antevisão que poderia configurar o sonho, a idealização sem bases, a vontade sem esforço. Esse presente de que nos fala Saint-Exupéry não seria o stress preocupante em direção ao amanhã perturbado, mas a construção pedra por pedra, que se realiza no hoje “O passado é irreparável, mas o presente nos é apresentado como material a granel aos pés do construtor. Compete a você forjar o futuro”.
Através de constantes imagens, muitas delas repetitivas, mas sob outra vestimenta, Saint-Exupéry constrói e solidifica seu pensamento. Explicam seus escritos a insistência da pedra que, trabalhada, tornar-se-á templo, da semente que será cedro. Essas metáforas servem à explicação de seu edificar um mundo responsável, amoroso e solidário.
No reino imaginado por Saint-Exupéry não há acolhida para o pragmatismo voltado à exatidão dos números, a geometria a serviço da construção sem fervor, o general que entende a guerra pela guerra. O futuro idealizado com alicerces no presente consciente, mas não direcionado ao determinismo imediatista do amanhã, revaloriza o estado do homem, posiciona-o como ente a entender o desenvolvimento natural em direção ao aperfeiçoamento. O ser humano e seus valores, preocupação constante do autor. Esse futuro entranhado no presente estabelece a relação que liga o homem a Deus. Valores como a família – prioritário –, o semelhante, a profissão amorosa, a casa onde tudo acontece e a comunidade como entidade onde todos devem ser responsáveis. A responsabilidade como respiração. Cresce o homem. A grandeza se edifica lentamente, e a força e o fervor, concentrados nesse dia a dia com pleno sentido, estabelecerão as bases em que o futuro será consequência. Se o inesperado acontecer, a obliterar aspirações, haverá outro comungante a levar o estandarte. A metáfora dos galhos de uma árvore, tema caro ao autor de Vol de Nuit.
Poder-se-ia pensar em utopia. Tantas décadas se passaram após Citadelle e vê-se que o homem permanece basicamente voltado aos seus princípios egoístas e direcionados à auto satisfação. A legião operante e trabalhadora continua à mercê de interesses de uma minoria. Pensar o futuro? Infelizmente, parte considerável dos povos mal pode “prever” o presente, mas os poderosos, tantas vezes em ligações espúrias lobby-empresa-poder, levam àqueles que ainda acreditam o gosto amargo ao ver o homem, que deveria ter como aspiração maior a semelhança com Deus, corrompido em suas entranhas. Todas as decorrentes quedas em direção ao abismo mostrar-se-ão evidentes. Todo o mal estará perpetrado. E a degradação do planeta, nesse permanente, denunciador e lamentável day after ocorrido pós Kyoto e Kopenhagen, persistirá, pois os poderosos teimaram e teimam em não ouvir os lamentos da Terra. E o planeta reage nos limites da agonia. Não foram as desmesuradas enchentes que invadiram São Paulo nestes dois últimos meses, a imprevisão do amanhã? A incúria de governantes e empresários gananciosos não seria a causadora de desordenada construção de prédios cada vez mais altos – lucros igualmente – e da incorporação de cerca de 1.000 carros novos à frota da cidade, diariamente? Ouvi há poucos dias especialista na área viária dizer que, em determinadas horas, não mais se vê asfalto num sobrevoo sobre a urbe, apenas um mar de tetos metálicos, em alusão aos carros que trafegam, ou tentam fazê-lo, ao menos.
Aos que acreditam na integridade do homem, o tempo que está por vir alicerçado no presente poderá ser menos caótico, na medida em que consciências ajam em defesa de um Bem que o Sistema tenta sempre escamotear, a confundir as mentes. Futuro, está ele aí, no amanhã que poderá apresentar, ao alvorecer, a luz de um céu de esperanças – oxalá isso ocorra. Em metáfora outra, a sombria manhã sem brilho, apenas a mostrar no cerceamento de nuvens e terra sem luminosidade, a névoa das poluições físicas e, sobretudo, morais.

Worried about the future and about our planet at risk thanks to men’s greed for power and wealth, I took refuge in Saint-Exupéry’s masterpiece Citadelle (The Wisdom of the Sands), in which he demonstrates his personal philosophy, stressing the importance of individual responsibility and moral soundness as our only safeguard for the future.

Abrir a Mente para Poder Compreendê-lo

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Desenho de Luca Vitali a partir do livro Ultime Lettere di Jacopo Ortis de Ugo Foscolo. Clique para ampliar.

Le tombe non giovane ai morti,
perché non restituiscono la vita.
L’aldilà non esiste….

Ugo Foscolo (I Sepolcri)

Estava a tomar um curto com velho e dileto amigo. Cláudio Giordano é editor. Presidente da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, doou toda a coleção, constituída de livros, jornais e revistas (circa 30.000), à UNICAMP, que a acolheu em sua Biblioteca Central. Generosidade, altruísmo e amor à atividade marcam a sua existência. Editou três de meus livros. Na conversa sempre enriquecedora com Giordano surgiu o nome do escritor italiano Edmondo de Amicis (1846-1908), o célebre autor de Cuore, que encantou gerações. Na juventude, ambos lemos a preciosa obra e nunca mais a esquecemos. Igualmente perdemos o contato com o livro primeiro, percorrido com quase devoção. Extravios ou destruições? Não soubemos dizer. A permanência de um livro pode ter motivos tão díspares…
Giordano, em suas andanças por alfarrábicos da cidade, encontrara edições da obra em italiano e em português, e presenteou o amigo. Já estou a reler, movido por nostálgico prazer, após mais de meio século de uma primeira visita. Será motivo de blog futuro. Regalou-me ainda Giordano com A Voz de um Livro, do autor de Cuore, em que de Amicis narra a saga de um livro e as inúmeras mãos por que passou ao longo de sua existência. Causou o artigo profundo impacto em Giordano, que o traduziu para o português (Revista Bibliográfica e Cultural, Julho 2000, nº 2, pgs. 20-25). Tive a mesma reação frente às elucubrações contidas na narrativa. Escrevi o post a comentar o hipnótico, longo e instigante A Voz de um Livro. Em curto posterior, no mesmo lugar, li o presente texto ao amigo e artista plástico Luca Vitali, que igualmente emocionou-se. E surgiria em sua mente criativa a imagem a ilustrar o post da semana.
De Amicis, ao ter em mãos um exemplar da 1ª edição de Ultime Lettere di Jacopo Ortis, romance epistolar do escritor e poeta italiano Ugo Foscolo (1778-1827), cria um interessantíssimo texto a partir daquilo que ele denomina “singularíssima alucinação”. O livro ganha nesse devaneio estranhas formas, e aparências humanas de expressão, como rosto, olhos, boca, dimensionam-se na imaginação de De Amicis. Adquire vida e o exemplar, agora personagem, conta sua saga. O autor escreve, a anteceder o resultado da alucinação: “Existe coisa inanimada – afora a foto de nossos semelhantes – que nos possa dar tal ilusão melhor do que um livro?” O calvário se inicia em 1802, logo após o nascimento da edição de Foscolo, e prosseguirá décadas após a morte do criador de Jacopo Ortis. O autor de Cuore segue os caminhos tortuosos a que foi submetido o livro nas suas mais variadas moradas. A sua permanência, essa “coisa inanimada”, pode merecer carinho ou desprezo daquele que o possui, mas tantas vezes desconhecemos sua trajetória. Penetrar nesse mundo imaginário, mas a conviver conosco, sugere outras elucubrações.
No desenrolar da narrativa, o exemplar passa pela leitura de amigas de senhora piemontesa que o adquirira. Prossegue, mais tarde, nas mãos de Comissário austríaco que fazia inspeção na casa da adquirente e viverá, após, sete anos em estante. Ao morrer a senhora, seu irmão leva o espólio, e o livro sentirá a censura de um padre, permanecendo recluso “com outros livros excomungados, em um cubículo morto”. Lido, posteriormente, por soldados na Guerra da Criméia. A seguir “ fui molhado pelas águas do Mar Egeu, a bordo do navio inglês que transportou o 4º Regimento Provisório da Divisão de Alexandre Lamarmora”; esteve em tendas turcas onde grassava a cólera; amargaria em hospital; um dono seu foi morto na batalha de Cernaia. Seria vendido posteriormente a “revendedor que tinha banca na Praça Castelo. Lá fiquei vários meses, exposto ao sol e ao vento, banhado às vezes por chuvas inesperadas, aberto e manuseado por centenas de ociosos”. O drama continua e um comprador “jovem, pobre e triste” o leva, mas o infortunado teria como destino o suicídio, e gotas de sangue respingaram sobre o exemplar. Foi ter a seguir a um Gabinete de Leitura “com taxa de dez soldos mensais e eu, marcado com um número como objeto de bazar, passei de sócio a sócio; no bolso de um deles, que fugia, fui desmantelado por uma bala dos carabineiros, no funesto tumulto da Praça Castelo pela Convenção de Setembro”. Em 1864 vai ter às mãos de açougueiro, que o mantém durante sete anos em caixote. O que segue tem aguçado humor: “Em 1871, soando na boca de todos o nome de Foscolo, por causa da remoção de suas cinzas para Santa Cruz, o açougueiro me retirou do sepulcro e me deu de presente ao dono de sua casa, que era um velho bibliófilo. Este me dedicou grandes cuidados, fazendo crer aos amigos que as marcações de algumas frases minhas eram do punho do meu autor. Depois de sua morte, por uma série de empréstimos, presenteamentos e trocas, passei de um professor a um advogado, a um estudante, a um dono de pensão, a uma atriz dramática e, por fim, a uma criada romântica, que me trocou por Mon voisin Raymond, de Paul de Kock, com um revendedor da Porta Palazzo, onde você me encontrou sobre uma esteira estendida no chão, entre uma antiga espada da Guarda Nacional e um São Roque de terracota. Eis a minha história de cento e cinco anos, desde o Consulado de Napoleão até o Reinado de Vitor Emanuel III. Meu autor tinha 28 anos quando vim à luz e há oitenta anos está sepultado! Mas, o meu fim também se aproxima, como você vê.”
Após a exposição da saga geográfica, De Amicis percebe a boca aludida reabrir-se, e uma segunda etapa, introspectiva, a penetrar o âmago das percepções, é revelada: “Quantas coisas não vi ! Nada há mais respeitado e mais maltratado no mundo do que um livro”. O exemplar narra essas apreensões, que se estendem desde estar presente em bibliotecas arrumadas e envidraçadas até aquelas onde os escaninhos imundos fizeram-no estar misturado a trapos e teias de aranha. Se pessoas respeitadas trataram-no bem, outros o usaram para apagar velas, espantar insetos, pregar tachinhas, cobrir cafeteira e até servir como raquete em folguedo infantil. Torna-se de vivo interesse a descrição do autor a respeito de marcadores. O exemplar do livro Jacopo Ortis revelaria que fitas douradas, espátulas artísticas, chaves enferrujadas e palha de cigarro serviram de sinalizadores para o estágio da leitura, assim como lágrimas vertidas, fios de barba, rapé de nariz caíram sobre páginas indefesas de maneira aleatória. A contrapor, cabelos de belas jovens permaneceram “e adormeci na tepidez perfumada de seus travesseiros”.
Descreve conformado a qualidade de outros leitores. Daqueles interessados que chegavam à emoção, aos que percorriam o livro sem quaisquer reações fisionômicas, aos indiferentes que abandonam a leitura, ou até aos que o lêem para provocar o sono deixando-o cair, o que o obrigou a dormir ao lado de chinelos e sapatos. Bilhetes e fotos tantas e tantas vezes estiveram entre suas páginas. Nesse passar de mãos em mãos, o exemplar fala dos “carregadores que me encaixotaram para mudanças; encadernadores que me deram vestes novas. Três vezes mudei de revestimento; três vezes fui desfeito, refeito, costurado, colado, dourado e devolvido rejuvenescido aos meus donos.”
O exemplar não deixa de comentar sua vizinhança em tantas estantes: “Quantos e quão diversos vizinhos tive ao longo da vida! Em estantes organizadas por ordem alfabética, estive entre Fedro e Franklin” e outros mais com a letra F. Em outra organização, essa familiar, cercou-se de diversas outras obras de Foscoli, “outros filhos de meu pai”. Sob contexto diferente, esteve ao lado de “grossos volumes austeros, revestidos de pergaminho, tratados de moral e teologia com mais de cem anos de idade, os quais, percebendo quem eu era e as aventuras que vivera, trataram-me como malfeitor e vagabundo. Tinham mais de um século, mas estavam mais conservados do que eu; há tempos imemoriais ninguém os abrira, eu vivera, vira e conhecera mais mundos em cinquenta anos do que eles em trezentos, e sentia-me mais velho, mais cansado, mais próximo da morte do que eles”.
Um outro aspecto curioso nesse segmento refere-se ao tratamento dado às páginas, antes imaculadas. O exemplar, através de seu escriba De Amicis, considera que ninguém ousava escrever sobre suas páginas nos primeiros anos. Com o tempo, passaram a fazer anotações a lápis ou a caneta e todo tipo de comentário surgiu, dos elogiosos às injúrias contra a obra. E profeticamente “Serão estes os juízos definitivos do porvir? Não posso acreditar nisso. Mudou o coração humano ou a linguagem da paixão? Que língua se fala hoje aos homens para comovê-los? Que estranha reviravolta ocorreu nos ânimos e nas idéias para que aquilo que comovia profundamente a geração em que nasci deixe frios ou faça sorrir ou irrite os leitores dos novos tempos? Pode então estar sujeita uma obra de talento, em sua beleza e em sua eficácia, à mesma decadência a que estão condenadas a substância e a forma em que essa obra se materializou? Vede a que estou reduzido ! Que miséria e que tristeza !”
É o autor que, ao sair temporariamento do devaneio, considera o estado do exemplar de Jacopo Ortis de Ugo Foscoli: “De fato, nenhuma coisa inanimada é mais triste de se ver do que um livro estragado pelo tempo e pelo abandono…”. Com amargor menciona as vicissitudes a que foi submetido o livro, no mais profundo estado valetudinário. Moscas, traças e ratos, pó e umidade deixaram suas marcas. Manchas de toda ordem, “páginas inteiramente amareladas como faces de ictéricos”, dobras em outras folhas, furos provocados por cigarros, tintas várias, remendos grotescos por todo o livro e páginas “que se soltaram, foram enquadradas em papel mais branco, de sorte que têm a aparência de rostos de feridos, enfaixados com uma tira de pano, que cobre o crânio e ata-se sob o queixo”. E continua: “A capa de papelão soltou-se do volume como couraça desprendida; há páginas pela metade: alguns cadernos não se prendem aos demais senão por um fio frouxo, como se prende ainda ao tronco por um nervo um braço amputado”.
No epílogo do texto, um diálogo sombrio se produz entre De Amicis e o exemplar. “Estou no fim – suspirou”. A cada alento do autor de Cuore, o livro responde ceticamente. Não acredita na perenidade e à afirmação de De Amicis “Mas existem irmãos imortais. As odes, os sonetos, I sepolcri renascerão eternamente”, a voz do livro responde “Não. Também esses acabarão destruídos um dia, sem deixar sucessores, e os últimos não serão mais compreendidos”. À insistência do autor em buscar uma luz de esperança, “Que seja para os teus irmãos, mas os filhos dos supremos entre os supremos, pouquíssimos ao longo dos séculos, apenas os que se possam nomear num só fôlego, salvar-se-ão”, combalido, o livro responde com voz ainda mais distante “Nenhum”. E, com ironia e compaixão, ainda diria “Só resta resignar-se, meu caro”. A servir de reflexão, De Amicis ouve voz bem fraca que advém de uma livraria “À infinita vaidade de tudo”.
O texto de Edmundo De Amicis ultrapassa gerações. A tecnologia que levou às fotocópias e à internet, que tudo revela instantaneamente, não teria provocado abalo crucial no culto ao livro? Perdurariam o afeto mantido pelos livros e suas moradas, as estantes a abrigá-los, perpetrado por gerações precedentes e o entusiamo evidente a cada novo tomo ou compêndio que vinha somar ao que era percorrido avidamente pelos olhos? Parcela imensa dos que nasceram nessas últimas décadas não estaria fixada na rica informação que a internet oferece, mas geralmente esquecida após consultas feitas? A biblioteca física, amorosa, que permanece e que um dia é transferida para destinos vários, não teria perdido para legiões a aura do conhecimento a ser retido pela razão, coração e fisicamente? Não perde o homem uma raiz essencial? Àqueles que ainda acreditam, o texto sombrio e profético de De Amicis apenas ratifica afeições. Para tantos outros, um texto perdido no tempo. Prefiro ainda ter lá minhas nostálgicas esperanças, à la manière do cronista português António Menéres: “Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir adivinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para me facilitar outros e novos convívios”.