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Abrir a Mente para Poder Compreendê-lo

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Desenho de Luca Vitali a partir do livro Ultime Lettere di Jacopo Ortis de Ugo Foscolo. Clique para ampliar.

Le tombe non giovane ai morti,
perché non restituiscono la vita.
L’aldilà non esiste….

Ugo Foscolo (I Sepolcri)

Estava a tomar um curto com velho e dileto amigo. Cláudio Giordano é editor. Presidente da Oficina do Livro Rubens Borba de Moraes, doou toda a coleção, constituída de livros, jornais e revistas (circa 30.000), à UNICAMP, que a acolheu em sua Biblioteca Central. Generosidade, altruísmo e amor à atividade marcam a sua existência. Editou três de meus livros. Na conversa sempre enriquecedora com Giordano surgiu o nome do escritor italiano Edmondo de Amicis (1846-1908), o célebre autor de Cuore, que encantou gerações. Na juventude, ambos lemos a preciosa obra e nunca mais a esquecemos. Igualmente perdemos o contato com o livro primeiro, percorrido com quase devoção. Extravios ou destruições? Não soubemos dizer. A permanência de um livro pode ter motivos tão díspares…
Giordano, em suas andanças por alfarrábicos da cidade, encontrara edições da obra em italiano e em português, e presenteou o amigo. Já estou a reler, movido por nostálgico prazer, após mais de meio século de uma primeira visita. Será motivo de blog futuro. Regalou-me ainda Giordano com A Voz de um Livro, do autor de Cuore, em que de Amicis narra a saga de um livro e as inúmeras mãos por que passou ao longo de sua existência. Causou o artigo profundo impacto em Giordano, que o traduziu para o português (Revista Bibliográfica e Cultural, Julho 2000, nº 2, pgs. 20-25). Tive a mesma reação frente às elucubrações contidas na narrativa. Escrevi o post a comentar o hipnótico, longo e instigante A Voz de um Livro. Em curto posterior, no mesmo lugar, li o presente texto ao amigo e artista plástico Luca Vitali, que igualmente emocionou-se. E surgiria em sua mente criativa a imagem a ilustrar o post da semana.
De Amicis, ao ter em mãos um exemplar da 1ª edição de Ultime Lettere di Jacopo Ortis, romance epistolar do escritor e poeta italiano Ugo Foscolo (1778-1827), cria um interessantíssimo texto a partir daquilo que ele denomina “singularíssima alucinação”. O livro ganha nesse devaneio estranhas formas, e aparências humanas de expressão, como rosto, olhos, boca, dimensionam-se na imaginação de De Amicis. Adquire vida e o exemplar, agora personagem, conta sua saga. O autor escreve, a anteceder o resultado da alucinação: “Existe coisa inanimada – afora a foto de nossos semelhantes – que nos possa dar tal ilusão melhor do que um livro?” O calvário se inicia em 1802, logo após o nascimento da edição de Foscolo, e prosseguirá décadas após a morte do criador de Jacopo Ortis. O autor de Cuore segue os caminhos tortuosos a que foi submetido o livro nas suas mais variadas moradas. A sua permanência, essa “coisa inanimada”, pode merecer carinho ou desprezo daquele que o possui, mas tantas vezes desconhecemos sua trajetória. Penetrar nesse mundo imaginário, mas a conviver conosco, sugere outras elucubrações.
No desenrolar da narrativa, o exemplar passa pela leitura de amigas de senhora piemontesa que o adquirira. Prossegue, mais tarde, nas mãos de Comissário austríaco que fazia inspeção na casa da adquirente e viverá, após, sete anos em estante. Ao morrer a senhora, seu irmão leva o espólio, e o livro sentirá a censura de um padre, permanecendo recluso “com outros livros excomungados, em um cubículo morto”. Lido, posteriormente, por soldados na Guerra da Criméia. A seguir “ fui molhado pelas águas do Mar Egeu, a bordo do navio inglês que transportou o 4º Regimento Provisório da Divisão de Alexandre Lamarmora”; esteve em tendas turcas onde grassava a cólera; amargaria em hospital; um dono seu foi morto na batalha de Cernaia. Seria vendido posteriormente a “revendedor que tinha banca na Praça Castelo. Lá fiquei vários meses, exposto ao sol e ao vento, banhado às vezes por chuvas inesperadas, aberto e manuseado por centenas de ociosos”. O drama continua e um comprador “jovem, pobre e triste” o leva, mas o infortunado teria como destino o suicídio, e gotas de sangue respingaram sobre o exemplar. Foi ter a seguir a um Gabinete de Leitura “com taxa de dez soldos mensais e eu, marcado com um número como objeto de bazar, passei de sócio a sócio; no bolso de um deles, que fugia, fui desmantelado por uma bala dos carabineiros, no funesto tumulto da Praça Castelo pela Convenção de Setembro”. Em 1864 vai ter às mãos de açougueiro, que o mantém durante sete anos em caixote. O que segue tem aguçado humor: “Em 1871, soando na boca de todos o nome de Foscolo, por causa da remoção de suas cinzas para Santa Cruz, o açougueiro me retirou do sepulcro e me deu de presente ao dono de sua casa, que era um velho bibliófilo. Este me dedicou grandes cuidados, fazendo crer aos amigos que as marcações de algumas frases minhas eram do punho do meu autor. Depois de sua morte, por uma série de empréstimos, presenteamentos e trocas, passei de um professor a um advogado, a um estudante, a um dono de pensão, a uma atriz dramática e, por fim, a uma criada romântica, que me trocou por Mon voisin Raymond, de Paul de Kock, com um revendedor da Porta Palazzo, onde você me encontrou sobre uma esteira estendida no chão, entre uma antiga espada da Guarda Nacional e um São Roque de terracota. Eis a minha história de cento e cinco anos, desde o Consulado de Napoleão até o Reinado de Vitor Emanuel III. Meu autor tinha 28 anos quando vim à luz e há oitenta anos está sepultado! Mas, o meu fim também se aproxima, como você vê.”
Após a exposição da saga geográfica, De Amicis percebe a boca aludida reabrir-se, e uma segunda etapa, introspectiva, a penetrar o âmago das percepções, é revelada: “Quantas coisas não vi ! Nada há mais respeitado e mais maltratado no mundo do que um livro”. O exemplar narra essas apreensões, que se estendem desde estar presente em bibliotecas arrumadas e envidraçadas até aquelas onde os escaninhos imundos fizeram-no estar misturado a trapos e teias de aranha. Se pessoas respeitadas trataram-no bem, outros o usaram para apagar velas, espantar insetos, pregar tachinhas, cobrir cafeteira e até servir como raquete em folguedo infantil. Torna-se de vivo interesse a descrição do autor a respeito de marcadores. O exemplar do livro Jacopo Ortis revelaria que fitas douradas, espátulas artísticas, chaves enferrujadas e palha de cigarro serviram de sinalizadores para o estágio da leitura, assim como lágrimas vertidas, fios de barba, rapé de nariz caíram sobre páginas indefesas de maneira aleatória. A contrapor, cabelos de belas jovens permaneceram “e adormeci na tepidez perfumada de seus travesseiros”.
Descreve conformado a qualidade de outros leitores. Daqueles interessados que chegavam à emoção, aos que percorriam o livro sem quaisquer reações fisionômicas, aos indiferentes que abandonam a leitura, ou até aos que o lêem para provocar o sono deixando-o cair, o que o obrigou a dormir ao lado de chinelos e sapatos. Bilhetes e fotos tantas e tantas vezes estiveram entre suas páginas. Nesse passar de mãos em mãos, o exemplar fala dos “carregadores que me encaixotaram para mudanças; encadernadores que me deram vestes novas. Três vezes mudei de revestimento; três vezes fui desfeito, refeito, costurado, colado, dourado e devolvido rejuvenescido aos meus donos.”
O exemplar não deixa de comentar sua vizinhança em tantas estantes: “Quantos e quão diversos vizinhos tive ao longo da vida! Em estantes organizadas por ordem alfabética, estive entre Fedro e Franklin” e outros mais com a letra F. Em outra organização, essa familiar, cercou-se de diversas outras obras de Foscoli, “outros filhos de meu pai”. Sob contexto diferente, esteve ao lado de “grossos volumes austeros, revestidos de pergaminho, tratados de moral e teologia com mais de cem anos de idade, os quais, percebendo quem eu era e as aventuras que vivera, trataram-me como malfeitor e vagabundo. Tinham mais de um século, mas estavam mais conservados do que eu; há tempos imemoriais ninguém os abrira, eu vivera, vira e conhecera mais mundos em cinquenta anos do que eles em trezentos, e sentia-me mais velho, mais cansado, mais próximo da morte do que eles”.
Um outro aspecto curioso nesse segmento refere-se ao tratamento dado às páginas, antes imaculadas. O exemplar, através de seu escriba De Amicis, considera que ninguém ousava escrever sobre suas páginas nos primeiros anos. Com o tempo, passaram a fazer anotações a lápis ou a caneta e todo tipo de comentário surgiu, dos elogiosos às injúrias contra a obra. E profeticamente “Serão estes os juízos definitivos do porvir? Não posso acreditar nisso. Mudou o coração humano ou a linguagem da paixão? Que língua se fala hoje aos homens para comovê-los? Que estranha reviravolta ocorreu nos ânimos e nas idéias para que aquilo que comovia profundamente a geração em que nasci deixe frios ou faça sorrir ou irrite os leitores dos novos tempos? Pode então estar sujeita uma obra de talento, em sua beleza e em sua eficácia, à mesma decadência a que estão condenadas a substância e a forma em que essa obra se materializou? Vede a que estou reduzido ! Que miséria e que tristeza !”
É o autor que, ao sair temporariamento do devaneio, considera o estado do exemplar de Jacopo Ortis de Ugo Foscoli: “De fato, nenhuma coisa inanimada é mais triste de se ver do que um livro estragado pelo tempo e pelo abandono…”. Com amargor menciona as vicissitudes a que foi submetido o livro, no mais profundo estado valetudinário. Moscas, traças e ratos, pó e umidade deixaram suas marcas. Manchas de toda ordem, “páginas inteiramente amareladas como faces de ictéricos”, dobras em outras folhas, furos provocados por cigarros, tintas várias, remendos grotescos por todo o livro e páginas “que se soltaram, foram enquadradas em papel mais branco, de sorte que têm a aparência de rostos de feridos, enfaixados com uma tira de pano, que cobre o crânio e ata-se sob o queixo”. E continua: “A capa de papelão soltou-se do volume como couraça desprendida; há páginas pela metade: alguns cadernos não se prendem aos demais senão por um fio frouxo, como se prende ainda ao tronco por um nervo um braço amputado”.
No epílogo do texto, um diálogo sombrio se produz entre De Amicis e o exemplar. “Estou no fim – suspirou”. A cada alento do autor de Cuore, o livro responde ceticamente. Não acredita na perenidade e à afirmação de De Amicis “Mas existem irmãos imortais. As odes, os sonetos, I sepolcri renascerão eternamente”, a voz do livro responde “Não. Também esses acabarão destruídos um dia, sem deixar sucessores, e os últimos não serão mais compreendidos”. À insistência do autor em buscar uma luz de esperança, “Que seja para os teus irmãos, mas os filhos dos supremos entre os supremos, pouquíssimos ao longo dos séculos, apenas os que se possam nomear num só fôlego, salvar-se-ão”, combalido, o livro responde com voz ainda mais distante “Nenhum”. E, com ironia e compaixão, ainda diria “Só resta resignar-se, meu caro”. A servir de reflexão, De Amicis ouve voz bem fraca que advém de uma livraria “À infinita vaidade de tudo”.
O texto de Edmundo De Amicis ultrapassa gerações. A tecnologia que levou às fotocópias e à internet, que tudo revela instantaneamente, não teria provocado abalo crucial no culto ao livro? Perdurariam o afeto mantido pelos livros e suas moradas, as estantes a abrigá-los, perpetrado por gerações precedentes e o entusiamo evidente a cada novo tomo ou compêndio que vinha somar ao que era percorrido avidamente pelos olhos? Parcela imensa dos que nasceram nessas últimas décadas não estaria fixada na rica informação que a internet oferece, mas geralmente esquecida após consultas feitas? A biblioteca física, amorosa, que permanece e que um dia é transferida para destinos vários, não teria perdido para legiões a aura do conhecimento a ser retido pela razão, coração e fisicamente? Não perde o homem uma raiz essencial? Àqueles que ainda acreditam, o texto sombrio e profético de De Amicis apenas ratifica afeições. Para tantos outros, um texto perdido no tempo. Prefiro ainda ter lá minhas nostálgicas esperanças, à la manière do cronista português António Menéres: “Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir adivinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para me facilitar outros e novos convívios”.

A Pureza de um Autor

Posso afirmar que envelhecer assim
‘combatendo o bom combate’
não é ruim…
Envelhecer com vida e garra
é para quem merece !

Norberto de Moraes Alves

Torna-se mais acentuada a diferença entre o que deve ser lido, ouvido, visto pelo cidadão no entender da mídia, em comparação ao que pensa parcela surda e operosa que produz e assimila à margem da divulgação. Quando a mídia incensa determinado autor, seja qual for o seu valor, imediatamente o cidadão que lê, ouve e assiste a teatro, filmes ou TV corre para sentir o odor do incenso, seja este especiaria ímpar, ou simples resina qualquer a queimar. Foi assim no passado e perpetua-se em ascensão geométrica no presente. Basta uma excentricidade ou inovação, duvidosa ou não, e determinado autor é eleito pelo público. Todavia, espalhados pelo planeta, escritores, poetas, pintores, escultores e compositores ainda reverenciam modelos execrados pela modernidade “criativa” ou pelos adeptos do modismo forjado.
Por serem menos conhecidos, autores “ocultos” pareceriam entender situações. Uns se conformam, outros retêm uma tristeza notória e outros mais convivem com a realidade e continuam a produzir no mais autêntico sentido vocacional. Entre tantos, há inúmeros com real valor e que pelas mais variadas razões jamais foram procurados pelos meios de comunicação. Esse fenômeno não acontece só sob a guarida do cada vez mais inclemente sol tropical. Autores que se notabilizam – tantas vezes ungidos artificialmente – aqui e alhures acham-se no direito de tudo dizer, de opinar como arautos, e infinidades de absurdos e arbitrariedades são proferidos em entrevistas, sob a égide de mitos reais ou forjados. Mais deprimente quando a “fama” veio outrora e, durante o resto da existência, o autor prossegue em obras recorrentes. Em todas as categorias da Cultura. O grande público, sem captar o engodo, tem a certeza de estar diante da “verdade”.
Em nosso país, figuras notáveis estão a produzir cultura ainda à “antiga”, mas num universo criativo sensível, distante de modismos efêmeros. O tema surgiu após novas visitas a Bragança Paulista. Tenho conhecido figuras que me sensibilizam. Durante aproximadamente duas décadas permaneci quase que isolado nos “meus” bancos da Praça José Bonifácio, ou no quarto no Grande Hotel Bragança, a fim de escrever artigos para publicações arbitradas no Exterior, ou ouvir material gravado na Bélgica que seria convertido em CDs, respectivamente. Pouco a pouco, figuras humanas extraordinárias cruzaram meu caminho e, se continuo a visitar Bragança Paulista, basicamente pelos mesmos motivos, haverá sempre o congraçamento com essa gente generosa da cidade.
Os bons amigos, Hugo e Rosana, da Hughes Mens Wear, estabelecimento junto à praça mencionada, apresentaram-me a Norberto de Moraes Alves, escritor e poeta de Bragança Paulista. Iria dar um recital na cidade, mas previamente o querido casal presenteou-me com um livro de Norberto. Sensível dedicatória do autor enriquecia a obra. Após o recital, o escritor e poeta oferece-me outros dois livros. O simples folhear, já no Hotel, causou-me interesse. Após a leitura das três obras contendo contos, poesias e crônicas, tive a sensação de leveza. Norberto é um puro e escreve amorosamente. Percebe-se que o autor tem prazer em narrar suas experiências, fértil imaginação na criação de contos diversificados em seus temas e uma veia poética sensível e inteligível.
Acompanhá-lo em três livros que se estendem pela primeira década deste século é apreender a vocação autêntica dirigida aos textos curtos, de síntese, que captam a própria essência do episódio. A condução dos contos é realizada com maestria e os personagens integram a narrativa de maneira homogênea. São participantes efetivos durante o desenrolar da trama.
As Flores da Lua (Piracicaba, Degasperi, 2001, 140 p.) tem prefácio da filósofa Marilena Chauí que, ao comentar dois contos, entre outros, escreve: “Se sorrimos, às vezes, e nos emocionamos, outras vezes, também não podemos deixar de perceber a crítica social que se desenha em filigrana em contos como ‘Bicho de pé’ – o mundo feito e desfeito num intervalo eleitoral – e ‘Momento de decisão’ – a vida destroçada por uma economia que despreza a terra e sua gente”. Acrescentaria o conto A Herança, nítida posição frente à vida e à posição social, mormente entre membros de uma mesma família.
Norberto de Moraes Alves tem o dom de fazer crítica sem perder a elegância da escrita ou o controle dos personagens. Bons e maus, justos e injustos, nesses breves contos não se degladiam ferozmente. Permanecem num antagonismo quase que discreto, exceção ao conto Fidelidade, que tem como cenário fazenda do século XIX e onde a tragédia vai impor-se de maneira absoluta, mercê de trama a envolver paixão, adultério, brancos e negros. Em outros contos, o autor, que ao ingressar no magistério público em plena Serra da Bocaina, precisamente em São José do Barreiro (Vale do Paraíba), sofreria efeitos do linguajar do povo simples existente nessa extensa região, entrega aos personagens essa fala do caipira e do caboclo. Demonstra virtuosidade nessa configuração que perpassa alguns contos. Em outros, como Capaiz !!!, Um fato insólito e O Cordeiro de Deus, Norberto de Moraes Alves trata de maneira hilariante as narrativas, e um humor incisivo seduz o leitor. Há por vezes, na condução dos contos presentes nesse livro e em Sopro de Ternura, certa proximidade com os Contos da Montanha, do extraordinário escritor português Miguel Torga. Se em Torga as descrições que envolvem humor ou tragédia estariam a revelar densidade na escrita – peculiaridade do autor – e estilo a proporcionar ao leitor a sua detectação, em Norberto Moraes Alves uma descontração, um quase divertir-se ao escrever, percorre os textos. Mas é a presença, nesses breves escritos de ambos, do homem da pequena aldeia ou do campo em seus afetos e idiossincrasias que merece ser apreendida.

Em Quintal dos Sonhos (Bragança Paulista, Barletta, 2007, 112 p.), o poeta cria imagens líricas plenas de singeleza. Tocam fundo. Distante de qualquer tendência modernista, Norberto prefere falar direto à sensibilidade de cada leitor. Poemas expressivos, diáfanos, diria até puros na plena acepção da palavra, revelam o que o autor é na realidade. Se em Insegurança versos captam esse estado:

“Quando quero falar de amor
e não encontro a palavra exata,
navego em pensamentos
qual indecisa fragata,
enfrentando o mar revolto
a ponto de naufragar” ;

se em Pesadelo:

“A dor se fez sofrimento
sem tempo de despertar” ;

ao versar Sobre a Inspiração, a luminosidade se dá:

“Inspiração
é qual arpejo,
de melodia
que atravessa
as nuvens
de um sonho.
São acordes
de um lamento
de saudade
e de desejos.
Entregue-se,
navegue por ela
mesmo que
por um só
momento…”

Ao escrever Sopro de Ternura (Bragança Paulista, ABR, 2009, 126 p.), Norberto retorna aos poemas e contos, a criar novas imagens e personagens. Os belos versos de A Rosa e a Eternidade são exemplos:

“A rosa não se perpetua
pela forma, pela cor
ou pela nobreza da flor
da qual é revestida,
mas pela pétala
que flutua,
deixando que o aroma,
aos poucos, no tempo se dilua
e busque no infinito
a semente…
de todo o sempre.”

Humor e tragédia se intercalam no segmento destinado aos contos, e Le Due Sorelli e O Anjo de Asa Quebrada são exemplos, respectivamente. Algumas breves crônicas, geralmente a homenagear entes queridos que partiram para a outra margem, encerram o livro.
Norberto de Moraes Alves é esse puro que encontra na pena o exteriorizar sentimentos que as novas gerações estão sendo induzidas a sufocar. Sua escrita fica como um farol que, ao ser visto, proporciona ainda salvaguardas para a existência.

On one of my visits to the city of Bragança Paulista I had the privilege of knowing the writer Norberto de Moraes Alves, who lives in the city and offered me three of his books. In this post I give an account of my reading, completely captivated by the lyricism of his poems and the simple elegance, conciseness and imagination of his short stories.

Como não pensar em Santa Cecília?

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O santo se constrói sobre o homem.
D. Henrique Golland Trindade (Matt Talbot)

Minha fé inquebrantável
espera ainda muito…
muito mais.

Norberto de Moraes Alves (Quintal de Sonhos)

Era uma tarde de primavera em Lisboa neste último Maio. Estava a conversar com minha amiga de tantas décadas, Idalete Giga, em um café no Chiado. A certa altura, já lá não me lembro a razão, o tema abordado relacionou-se aos contos de nossa juventude. A puerilidade de tantos deles, que as ávidas leituras transformavam em maravilhamento. Chegamos à nova geração formada pela internet. Temáticas outras fizeram estiolar determinado gênero de conto. Aquele que acalentou sonhos, a partir de nosso imaginário, permanecia em nossa conversa como tênue luz a ser vislumbrada com afeto. Nem questionamos valores, apenas, nostalgicamente, constatamos fatos. Ao cair da noite deveria dar o primeiro dos dois recitais consagrados à música portuguesa na lendária Academia de Amadores de Música. Nem sei bem como surgiu o nome de Santa Cecília nessa conversa informal. Bastou a lembrança, e Idalete prometeu-me um conto que estava a ser amorosamente germinado em sua mente privilegiada. Lembrei à amiga que mantive sempre sobre meu piano de estudos uma estampa de Santa Cecília que me foi oferecida pelo saudoso D. Henrique Golland Trindade em 1954. O ilustre prelado, arcebispo de Botucatu, era meu padrinho de crisma. Gostaria Idalete que minhas netas sentissem esse clima perdido em histórias outras que não contos de nossa geração. Serenamente o texto chegou, mas apenas alguns dias antes de 22 de Novembro, dia consagrado à Santa Cecília, padroeira da música. Como outros temas armazenados em meu baú mental aguardavam o vir a ser, pois igualmente cronológicos, não foi possível inserí-lo na oportunidade. Sob outra égide, Natal sem música perde um rito de fundamento. Daí ter associado o conto de Santa Cecília à efeméride natalina. Ao frequentador assíduo de meus posts, apresento a singeleza que é o conto de Idalete Giga. Aqueles de minha geração poderão associar, através do texto da amiga, lembranças de infinidade de contos cristãos que povoaram nossa imaginação. E segue o meu voto profundo de paz, a todos os leitores, para essa que é a mais expressiva celebração da cristandade.

O sonho de Santa Cecília

Para o meu querido Amigo José Eduardo

“Roma. Corria o ano 222 da era cristã. As incontáveis loucuras, devassidão e crueldades do imperador Heliogábalo tinham chegado ao fim. Mas a este ser cruel sucedeu outro igualmente cruel e sanguinário – Alexandre Severo. O maior divertimento deste facínora era assistir ao martírio dos cristãos lançados aos tigres e leões no sinistro e malcheiroso circo de Roma. Sempre que os arautos espalhavam pela cidade a notícia do espetáculo preferido do imperador, de todos os lados surgia gente estranha correndo para o mesmo local – o circo. Alguns vestiam túnicas negras e usavam tatuagens diabólicas espalhadas pelo corpo, especialmente na cara e nos braços. Quando o imperador entrava, triunfante, no circo, ia sempre acompanhado pelas suas concubinas e escravas. O circo ficava a abarrotar de povo sedento do sangue de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes que eram devorados brutalmente pelas feras, enquanto o mesmo povo lançava gritos a exigir mais mortes e mais sangue de cristãos.

Cecília era uma jovem romana muito bela que pertencia à nobre família dos Soletem. Vivia na cidade de Roma com seus pais. Era cristã desde a infância e desde muito cedo revelou dons extraordinários. Conseguia ler na memória da Natureza. Via através de tudo o que era opaco. Entrava facilmente noutras dimensões e mundos paralelos. Tinha frequentes visões de Anjos e de outros seres misteriosos que a acompanhavam sempre que se juntava com os seus amigos nas catacumbas da cidade. Aqui rezavam todos, cantando os mais belos hinos e salmos de louvor a Deus, acompanhados com harpas, cítaras e liras. Também recolhiam bens entre todos e depois, na calada da noite, distribuíam-nos pelos mendigos espalhados por toda a cidade. Cecília era a mais forte. Nada temia. Cobria-se com uma túnica esfarrapada para poder passar por mendiga e não se cansava de percorrer as ruas mais sujas e sombrias de Roma, levando alimentos , palavras de carinho e curando as chagas aos mendigos e crianças abandonadas. Quando a noite caía, todos ansiavam por ela. Todos a amavam, mas ninguém sabia donde vinha e quem era esta jovem tão bela que parecia vir do céu. Por isso, uns chamavam-na ‘a deusa misteriosa’ e outros ‘o lírio branco’, por aparecer sempre com uma túnica branca.

Numa noite fria e chuvosa de inverno, quando Cecília regressava das suas caminhadas, os pais esperavam-na, ansiosos. Depois de a saudarem amorosamente, o pai dirigiu-se-lhe, um pouco receoso:
- Cecília, nossa querida filha, tua mãe e eu temos uma surpresa para ti. O nobre soldado Valeriano ama-te muito e deseja desposar-te. Por isso, prometemos preparar o vosso casamento na Primavera, quando os campos começarem a florir.

Cecília estremeceu ao ouvir as palavras do pai, pois já tinha prometido ao seu Anjo Shealiah que se manteria virgem. Porém, não querendo entristecer os pais, embora contrariada, aceitou casar com Valeriano. Casou numa tarde perfumada de Maio. Valeriano não cabia em si de contente. Estava muito feliz por desposar uma jovem tão bela e tão bondosa. No fim da festa, Cecília e Valeriano foram transportados numa pequena liteira até à sua villa situada na via Ápia. Ficaram ambos sentados no jardim da casa, silenciosos e contemplando as flores durante algum tempo. Foi então que Cecília, caindo de joelhos aos pés de Valeriano, falou-lhe de Shealiah:
- O Anjo Shealiah apareceu-me no próprio dia em que nasci, dizendo que vinha de outro Universo, de outra dimensão, mandado por Deus para me proteger da maldade das criaturas humanas.

Valeriano, ao ouvir Cecília, pensou que ela tivesse enlouquecido, pois não compreendia aquela estranha linguagem. Pensou tratar-se de outro homem e quis, de imediato, enfrentá-lo. Mas Cecília tranquilizou-o, dizendo-lhe que Shealiah não tardaria a aparecer a ambos. Antes que a noite descesse, Shealiah surgiu num raio de luz intensíssimo trazendo consigo duas coroas, uma de lírios e outra de rosas. Envolveu os noivos com a sua luz e disse-lhes:
- Cecília, recebe esta coroa de lírios brancos perfumados. E tu, Valeriano, recebe esta coroa de rosas perfumadas. Enquanto permanecerem sobre a vossa cabeça, nunca hão-de murchar e a vossa fé jamais perecerá. Os vossos corações são puros, por isso verão a Deus.

Depois de pronunciar estas palavras, o Anjo desapareceu. Valeriano ficou tão emocionado que caiu, chorando, aos pés de Cecília e converteu-se à fé cristã nessa mesma noite.
Quando Tibúrcio, irmão de Valeriano, soube da sua conversão, quis procurá-lo na sua casa para o humilhar e troçar dele. Antes, porém, de entrar no jardim de Cecília, viu uma luz muito brilhante vinda do céu que o envolveu e o fez parar. Então ouviu uma voz suavíssima que lhe disse:
-Tibúrcio, porque queres humilhar e perseguir o teu irmão? Toma esta coroa de lírios e rosas e vai para junto de Cecília e Valeriano, que te esperam.

Tibúrcio não queria acreditar no que estava a acontecer com ele, mas logo que a luz desapareceu, entrou, já completamente transfigurado, na casa de Cecília. Ao chegar, encontrou Cecília e o irmão, de joelhos, rezando. Abraçou-os com grande ternura, relatando-lhes o seu encontro com a luz que o envolveu e a voz misteriosa que acabara de transfigurá-lo.

Passaram-se alguns dias. A notícia da conversão dos dois irmãos chegou rapidamente aos ouvidos do imperador, que ordenou de imediato que os acorrentassem e os obrigassem a adorar a estátua de Júpiter. Como ambos recusassem, foram presos e decapitados no mesmo dia.
Cecília sabia que o imperador não a pouparia. Por isso, estava pronta para morrer. Acabou por ser presa por ter dado sepultura, no seu jardim, a Valeriano e Tibúrcio, abandonados na prisão onde foram decapitados. Na noite em que foi presa, o carrasco Almáquio, enviado pelo imperador, tentou tirar-lhe a vida, por asfixia, com vapor de água a ferver no Caldarium da sua própria casa. Mas Cecília resistiu a todo este tormento. Por fim, caiu exausta e adormeceu. Foi durante a mesma noite que teve um sonho extraordinário. Viu surgir do céu uma pequenina luz que, pouco a pouco, foi crescendo até se transformar numa lira de cristal. Cecília ouvia sons belíssimos, como se alguém, invisível, estivesse tocando este instrumento que lhe era tão querido, tão familiar e que aprendera a tocar na sua infância. De repente, ouviu pronunciar o seu nome :
- Cecília, Cecília, coração puro, lírio abençoado do céu, eu sou o Mensageiro da Música Divina. Deus transformou-me numa lira de cristal e enviou-me a ti para que me guardes no teu coração e na tua alma. Serás para sempre, a inspiradora dos músicos cristãos.

Quando acordou, Cecília viu diante de si Shealiah segurando a lira que aparecera no seu sonho. Mas a sua visão durou pouco tempo. Começou a ouvir pesados passos e pancadas brutais na porta da sua casa. Era de novo Almáquio e dois guardas, que vinham decapitá-la por ordem do imperador. Cecília ainda resistiu a vários suplícios. Nenhum dos três carrascos conseguiu decapitá-la, apesar dos golpes desferidos. Morreu a cantar o Salmo 91 (Salmo de louvor a Deus que governa o destino dos homens com Sabedoria e Justiça). Quando a ouviram cantar o Salmo, Almáquio e os dois guardas ficaram tão impressionados com a sua coragem e resistência que caíram de joelhos, pedindo-lhe perdão. Cecília ainda levantou a mão para os abençoar e exalou, pouco depois, o último suspiro. Os três homens, já convertidos, choraram junto do seu corpo transfigurado.

No momento da sua morte , passava junto do jardim de Cecília um grupo de crianças que andavam a mendigar pela cidade. Eram as mesmas que Cecília amara e das quais cuidara com tanto carinho. Ao olhar para o céu, as crianças viram três Anjos levando Cecília. O Anjo da Morte segurava-lhe a mão direita. Shealiah sustentava a coroa de lírios brancos sobre a sua cabeça transfigurada e o Anjo Mensageiro da Música segurava a lira que se unia e confundia com o coração de Cecília. Só as crianças puderam ver os Anjos e a alma de Cecília elevando-se suavemente nos céus. Só as crianças puderam ver a sua coroa de lírios e a sua túnica branca esvoaçando, iluminada como um sol. Só as crianças puderam ouvir os sons da lira que o Mensageiro da Música tocava, cantando ao mesmo tempo este hino:

Cecília, coração puro
Lírio do céu perfumado
Tu és o porto seguro
Deste mundo conturbado

Quando o Anjo ficou silencioso, as crianças reconheceram a sua ‘deusa misteriosa’ que agora partia deixando-os sós. Então, começaram a chorar e choraram tanto que os três Anjos vieram consolá-las, dizendo-lhes:
-Não chorem, queridos pequeninos. Cecília não morreu. A sua alma viverá eternamente. As crianças pararam de chorar e para seu grande espanto começaram a ver uma chuva de pequeninas estrelas brilhantes que Cecília lhes mandava dos céus. Ao pousarem suavemente nas suas cabeças, transformaram as crianças nas mais belas flores que ficaram para sempre no jardim de Cecília.

Hoje, quem visitar Roma e for à Igreja onde era a casa de Santa Cecília, se tiver o coração puro sentirá o suave perfume de lírios e de rosas e ouvirá os sons da lira de cristal que ficaram suspensos para todo o sempre na memória invisível, mas real, da Natureza.”

Idalete Giga
17/Novembro/2009

Clique para ouvir “Christus Natus Est”, com o Coro Capela Gregoriana Laus Deo, sob a direção de Idalete Giga.