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A Pianista Zhu Xiao-Mei e os Segredos Desvelados

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Meus relacionamento com as pessoas eram puramente
animais, automáticos, maquinais…
Sim, eram de alguma maneira histórias de animais !
Que me compreendam hoje,
pois não me é mais possível contar todo o meu passado filosoficamente,
olhando do alto, com serenidade,
os bons velhos tempos de horror e de absurdos.
Agradeço ao céu ter-me tirado do inferno,
como se fosse o desenho indecifrável da Providência.

György Cziffra

Trabalha-se a argila para se fazer vasos,
mas é do vazio de seu interior
que depende o seu uso.

Lao-Tzé

Quantos não foram os artistas, escritores, intelectuais que viveram as situações as mais dramáticas em campos de concentração ou de “reeducação”. Os regimes dirigidos por títeres não têm clemência, e no intuito de sedimentar ideias totalitárias, tantas vezes proclamadas democráticas, impõem aos cidadãos as maiores agruras. Alexander Soljenítsin (1918-2008) denunciaria as repressões em campos de prisioneiros soviéticos, e o conjunto de sua obra, incluindo-se o Arquipélago Gulag, render-lhe-ia o Prêmio Nobel. Wladyslaw Spilman (1911-2000) escreveria a narrativa Morte de uma Cidade, décadas após reeditada com o título O Pianista. Conta a sua história nos guetos de Varsóvia durante a Segunda Grande Guerra e o seu instinto de sobrevivência. Roman Polansky dirigiria o premiado filme O Pianista a partir do dramático relato. György Cziffra (1921-1994), telúrico e extraordinário pianista húngaro conheceria durante longo período as maiores adversidades e o contato permanente com a morte em campos de prisioneiros nazistas e comunistas, relatando-os em livro (Des Canons et des Fleurs. Paris, Robert Laffont, 1977, 291 págs.). Lilly Krauss, notável pianista austríaca sofreria em campo de concentração nazista. O bailarino Li Cunxin narra também sua história plena de tribulações em Adeus, China – O Último Bailarino de Mao (Brasil, Fundamento, 2007, 400 págs.). Há uma tendência mórbida dos senhores da guerra nessa perseguição às artes, à liberdade de expressão, ao livre pensamento, às comunicações independentes, às ciências ou, paradoxalmente, ao incentivo ao desempenho excepcional de alguns como forma de propaganda política. Assim aconteceu no Terceiro Reich, na União Soviética, na China e em Cuba não apenas para intérpretes e bailarinos de exceção, como para atletas fantásticos. Entretanto nem todos tiveram a mesma sorte e sucumbiram aos horrores, como os músicos levados pelos nazistas ao campo de Terezin, ou os milhões deportados para a Sibéria, ou ainda aqueles destinados ao terrível paredón. Ditadores e seus acólitos estão sempre à espreita. Aguardam apenas a oportunidade. E, hélas, periodicamente ela reaparece. Todo um rancor que parecia extinto ressurge e cidadãos aparentemente normais tornam-se ferozes, a serviço dos títeres. Vítimas da Revolução Cultural na China de Mao Tsé-Tung pouco a pouco vão tendo a coragem de expor sofrimentos incomensuráveis.
Zhu Xiao-Mei é pianista chinesa. Há excepcionalidades em vários aspectos. Escreveu sua saga que vem somar às precedentes mencionadas (La Rivière et son secret. Paris, Robert Laffont, 2007, 330 págs.). Nascida em 1949, pertencia à família considerada de “má origem”, pois burguesa letrada. Já na infância, devido aos infortúnios provocados pelo regime comunista de Mao Tsé-Tung, sua família sofreria dificuldades. Pianista precoce, tem lá seus sucessos quando a estudar no Conservatório de Pequin. Aos 14 anos, já possui base sólida, mas uma brincadeira juvenil leva-a a júri coletivo. Vivia-se o período da terrível Revolução Cultural. As denúncias, estimuladas pelo regime, não perdoavam aqueles que se desviassem do Livro Vermelho de Mao, única leitura possível. Lavagem cerebral provoca uma sua carta em que se arrepende de ser indigna frente a Mao, traidora da Revolução, a entender serem seus pais de “má origem”. Zhu tinha apenas 14 anos! Incorpora a ideologia maoísta e torna-se, sempre temerosa, uma jovem revolucionária. Tem crises não reveladas publicamente, pois entendia que tudo teria de ser feito a seguir preceitos para que a Revolução Cultural vingasse, mas dúvidas quanto aos procedimentos a deixavam perturbada. Assiste a seus mestres – alguns deles idosos – serem humilhados e surrados no pátio do Conservatório pelos jovens da Guarda Vermelha. Entende, nesse turbilhão de incertezas e confusões interiores, que excessos estavam a ser perpetrados. Acusados de terem propagado a música ocidental, de J.S. Bach aos mais modernos, professores perderiam tudo e seriam desterrados para campos de reeducação. Outros suicidaram-se nesse período de desvario absoluto. Todas as partituras do Conservatório foram queimadas, pois traduziam a cultura ocidental decadente e, portanto, distante da classe proletária. Lembrar-se-ia “das execuções sumárias, dos cadáveres sobrepostos no anexo do Conservatório”. Com coragem, Zhu Xiao-Mei observa que houve longo tempo em que acreditou na Revolução, tão grande a pressão exercida. Encaminhada para campos de reeducação, permanece cerca de dez anos longe da família – dispersa em outros campos -, da prática da música e a passar as maiores agruras e humilhações, ainda a acreditar na Revolução. Colegas e outros estudantes partilharam momentos difíceis, onde não faltavam a denúncia coletiva diária e a leitura do Livro Vermelho de Mao, atividades realizadas após dura labuta nos campos agrícolas, quando imundos e fragilizados. Só após essas terríveis sessões o infortunado tinha direito à parca alimentação e à mínima higiene pessoal. E, numa declaração de amor à música, escreve “A Revolução Cultural estava a fim de nos tirar todo o sentido de humanidade e isso não foi possível. No fundo de nós mesmos existia um lampejo de humanidade, esse que os regimes totalitários que subestimam as potencialidades do homem, esquecem sempre, infelizmente para eles. É esse lampejo que a música trouxe de volta”. Comentaria: “Mao percebeu o poder da arte e principalmente da música sobre o povo. Ele sabia que os artistas eram perigosos, questionando sempre o real, querendo sempre mais liberdades. Esse o motivo para os atacar, a razão pela qual deixava sua esposa se apropriar da arte através de seus Yanbangxi. Na verdade, Mao considerava o saber em geral como perigoso: seu obscurantismo organizado, sistemático, extremista é testemunho.”
As vicissitudes sofridas pela pianista levaram-na a vários traumas que a acompanham. No último período em campo de reeducação conseguiu “burlar” incultos guardas e recebeu de sua mãe o seu velho piano da infância. Cordas quebradas eram substituídas por arames e J.S.Bach, Beethoven e outros, no dizer de Xiao-Mei, eram ouvidos pelas autoridades como se fossem música chinesa revolucionária. A ignorância deles, para resignado prazer da pianista, resultaria na possibilidade de estudar. Reiteradas vezes menciona a indecisão e a dúvida como integrantes de seu pensar. Ao sair da China para os Estados Unidos, depois de enormes tribulações, certezas em relação à música antagonizavam-se às dúvidas quanto à sobrevivência. Nesse país trabalhou como doméstica, faxineira em restaurante e mais outras atividades, a habitar em tantas casas de imigrantes que a acolhiam. A fim de obter o green card, casa-se por conveniência. Estuda em Boston, mas seu instinto leva-a a Paris. Obteria mais tarde, após difíceis tramitações, o passaporte francês. Hoje é reconhecida internacionalmente como pianista e professora do Conservatório Superior de Música e Dança de Paris. Seus pais e suas irmãs estão sempre em sua mente, nesses constantes deslocamentos. Retornaria à China mais de uma vez, mas com as salvaguardas da diplomacia internacional.
Quantos não são os momentos em que sente insegurança frente à vida prática? Num outro contexto, em muitas oportunidades comenta com ênfase que apenas a música livrou-a do naufrágio absoluto. O livro tem como epicentro repertorial as Variações Goldberg de J.S. Bach. A grande revelação. No entender de Zhu Xiao-Mei, trata-se da maior criação para teclado. Percorre o mundo a interpretá-la, entre tantas obras do repertório consagrado. Tão grande a empatia da artista frente à monumental composição, que se torna dignificante lê-la descrever emocionalmente da Ária às variações. Pormenoriza-se na última, Quodlibet e na reprise da Ária, quando Bach finaliza a obra. Dir-se-ia que Xiao-Mei percorre seu próprio caminho ideal, sem máculas ao descrever as Goldberg-Variationen. No Youtube-vídeos pode-se ouvir a grande criação do Kantor interpretada pela pianista chinesa. A partir da Ária, apresentada de maneira singular, pois imbuída da maior reflexão, capta-se parcela da profunda identidade de Zhu Xiao-Mei com as Goldberg… e com a vida. O gestual da pianista é econômico. Observa, a partir de conto chinês a respeito de um pintor e sua obra, a fim de exemplificar a inocuidade do gesto exagerado ao interpretar uma composição: “…ele pintou sobre o solo uma serpente de um realismo tal que o réptil parecia vivo. Uma pessoa ao passar pela rua, pisou na pintura e começou a gritar: ‘fui picado pela cobra!’ Os transeuntes se aproximaram para ver o que acontecera. Todos também pisaram exclamando: ‘Jamais vimos uma serpente tão bem pintada’! Logo, o povo conheceu a criação do artista. A fim de torná-la mais bela, o pintor colocou patas na cobra, mas ao perceberem a serpente assim configurada, os cidadãos disseram: ‘Que animal ridículo’! E o pintor caiu no esquecimento”. Em outra imagem significativa, a sugerir a introspecção frente à composição: “Para se ver o fundo de um lago, é necessário que a superfície da água esteja lisa e calma. Mais ela é tranquila, mais transparente é o fundo”.
A leitura de La Rivière et ses Secrets, ao revelar a perene insatistação da artista frente à perfeição e ao gestual inócuo refletido pelos holofotes, vem apresentar a essência essencial do que deveria ser entendido por interpretação sincera. Escreve: “Sinto-me incapaz de atingir a perfeição que eu sonho. Como tantos outros intérpretes, estou impregnada por essa impotência. Como Richter, que no final da vida diria ‘Eu não me amo’. A sabedoria seria certamente reconhecer que a perfeição não existe. Os chineses entendem bem esse axioma, quando introduzem um defeito num bordado ou na caligrafia, considerando que o defeito tornará a obra mais bela ainda. Os iranianos fazem o mesmo em seus tapetes para testemunharem que apenas Deus é perfeito”.
Zhu Xiao-Mei lega-nos um testemunho de fidelidade à música, sem jamais traí-la. Seu livro merece ser lido. O conteúdo de La Rivière et son Secret faz melhor compreender a força criativa da artista, a lutar no desespero, mas na confiança, contra a bestialidade humana. A obra foi traduzida para o português: O Rio e o seu Segredo (Guerra & Paz).

In this post I give my view of the book “La Rivière et Son Secret”, the amazing and true story of the Chinese pianist Zhu Xiao-Mei. We follow her as a young girl in China, her efforts to go on with her piano practice during the Cultural Revolution, the years in a working camp. In 1979 she managed to leave China for the US and today lives in Paris. Now internationally acclaimed, she is an example of a strong female character who never gave up her dream.

Horizontes Abertos às Gerações

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Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

Eugénio de Andrade

Desde Março de 2007, rememorar o passado tem preenchido posts. Faz parte da existência olhar o presente, vislumbrar passos a serem dados, mas também revisitar mentalmente caminhos trilhados. O regresso às lembranças registradas e às leituras que permaneceram apenas dimensiona a apreensão do todo de uma vida. Somos forjados nesse gigantesco acúmulo que, ao final da trajetória, deverá resultar na interação completa dos tempos de maneira harmoniosa, ou demonstrar que certas sendas levaram a impasses, dependendo de nossa atitude frente à vida, ou até do imponderável.
A geração a que pertenço cresceu sob égides desconhecidas ou difíceis de serem entendidas pelas que a sucederam. No quesito leitura, a formação dos pais pode ter sido determinante à qualidade dos livros. Se interessados, sabiam como entusiasmar os filhos nessa mágica viagem que os volumes proporcionam. Não havia distrações ditadas pela tecnologia em veloz aceleração, o que permitia ao jovem concentração maior nas poucas alternativas existentes. E o livro preponderava.
Estou a me lembrar das coleções que ganhei de meus pais, mercê da evolução pianística paulatina a causar guarida no coração dos dois. Serviam de estímulo aos progressos alcançados pelo adolescente. Sabiam qual orientação dar, não se esquecendo contudo de preferências individuais de cada filho. Foi assim que recebi O Mundo Pitoresco em nove volumes, que me abriu a janela geográfica do planeta (vide Leituras sobre o Himalaia (I) – Origens do Fascínio, 07/12/07), Os Doze Trabalhos de Hércules de Monteiro Lobato em doze fascículos e, nessa ampla visão enciclopédica, o Thesouro da Juventude em 18 substanciosos compêndios (Estados Unidos da América do Norte, The Colonial Press. Inc., s.d. Distribuído no Brasil pela W.M.Jackson, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, 5.904 págs.). À Introdução, o insigne Clóvis Bevilacqua escreve: “ É, portanto, o Thesouro da Juventude uma biblioteca apurada, escolhida e condensada, onde se acham as noções essenciais das ciências, os conhecimentos de utilidade geral, as artes e a moral, e que resume e substitui uma dispendiosa e vasta, que muito poucos podem adquirir, e menor número ainda consegue ler”.

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A obra é realmente um tesouro. Atendia às mais variadas áreas do conhecimento, a possibilitar, inclusive, a precoce escolha de uma profissão pelo adolescente que frequentava a leitura dos compêndios ricamente encadernados. Cada um tratava harmoniosamente de várias categorias, prioritariamente denominadas livros. A fim de não se tornar cansativo, cada seção não se exauria de uma só vez, mas era intermediada por todas as outras. Dessa maneira, o retorno a segmento já apresentado pressupunha a visita progressiva a todos os outros “livros”, ou o encontro mais adiante com a categoria de interesse naquele momento. Estruturava-se a divisão nos seguintes compartimentos: O Livro da Terra, O Livro da Natureza, O Livro da Nossa Vida, Os Livros do Velho e do Novo Mundo, Cousas que Devemos Saber, O Livro dos “Porquês”, Homens e Mulheres Célebres, O Livro dos Contos, Cousas que Podemos Fazer, O Livro das Bellas Acções, O Livro da Poesia, Os Livros Famosos e O Livro das Licções Attrahentes. Todos os segmentos apresentavam-se em doses homeopáticas, distribuídos pelos 18 compêndios. Se as poesias escolhidas mantinham-se quase sempre na íntegra, o mesmo não acontecia com os Livros Famosos ou o dos Contos, apresentados resumidamente, mas a estimular o jovem leitor ao conhecimento da obra na sua abrangência. Nos títulos O Livro da Terra, O Livro da Natureza e O Livro da Nossa Vida, deparávamo-nos não apenas com o universo e seus mistérios, assim também com todas as implicações da origem, formação e sedimentação do planeta – mares, rios, águas subterrâneas, minérios, fauna, flora. O Thesouro… aguçava o conhecimento da história e da geografia através dos Livros do Velho e do Novo Mundo – apresentados separadamente. Exemplos dignificantes ficavam reservados aos Livro das Bellas Acções e Homens e Mulheres Célebres. Muitas das atitudes perante à vida não teriam sido influenciadas por exemplos representativos? Nos segmentos: O Livro das Licções Attrahentes, O Livro dos “Porquês” e Cousas que Podemos Fazer, aprendemos lições teóricas e práticas que serviriam para a vida. Estou a me lembrar que, nesse último compartimento, minha mãe disputava a leitura quando algo referia-se às prendas domésticas.
O ilustre economista Roberto Macedo escreveria uma sensível crônica com o título O “Thesouro da Juventude”, publicada em O Estado de São Paulo (30/12/1999, pg.2), a relembrar os efeitos duradouros que a obra teve sobre sua formação humanística. Comenta “Seja por interesse ou porque na época não havia muitas alternativas, particularmente as audiovisuais que hoje tanto atraem a juventude, devorei quase todos esses livros e devo muito a eles”. Creio que para todos aqueles que tiveram o grande privilégio de contar com essa extraordinária coletânea, lendo-a preferencialmente, marcas indeléveis permaneceram, mercê da diversidade das áreas abordadas em textos claros, objetivos, sintéticos, mas sempre a provocar o aprendiz da leitura.

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Minhas filhas ainda chegaram a consultar os tomos, que estavam a conhecer outra geração. Entretando, a coleção não resistiu à geração das netas, pois a grafia e fatos tantos que perderam a atualidade desviaram suas atenções para as tecnologias virtuais em evidência. Possivelmente as conexões cerebrais dessa novíssima geração, voltada aos contextos multidisciplinares e suas cargas em constante mutação, provoquem uma outra apreensão do mundo, de tudo o que nos cerca. Muitos dos contos “pueris” do Thesouro da Juventude, lidos hoje para os miúdos, deixam até de ser compreendidos. Todavia, os temas que ficaram congelados perante o caminhar diário da humanidade tornam-se motivo de nostálgica alegria para aqueles que conviveram com a coleção. Mencionemos dois: “ O aeroplano moderno, capaz de desenvolver uma velocidade de 300 kilômetros à hora”, ou “Podemos affirmar desde já que é impossível para um carro ordinário marchar sobre um só rail, porque as suas rodas estão collocadas d’um lado e d’outro, duas a duas ou quatro a quatro, nas duas extremidades de cada carruagem, precisando pois de dois rails para se apoiarem”. Conceituações hoje “ingênuas”, mas que ajudaram gerações a entender transições que se processariam com o desenrolar do tempo.
Conservei intacto o meu Thesouro e é sempre com carinho que observo esses velhos tomos repetidamente visitados durante minha formação. Foi em momento de descontração que consultei-o e a idéia germinou. Lombadas amareladas pelo passar das décadas, afagadas pelas mãos do adolescente que eu fui, mas que não abalaram sua estrutura, tampouco apagaram as inscrições douradas. Enciclopédia envelhecida, mas a revelar que houve carinho a protegê-la. Como a obra redigida data de meados dos anos 30, os episódios da história, comprovadamente “atuais” do período, proporcionam-me, ao revisitá-los, prazer especial. Transmitir aos meus leitores esse afeto faz-me relembrar o passado, que abriu as portas para o desvelar do grande enigma que é a existência. A depender de nossa intenções, podemos, apesar de tantas distorções, entendê-la como maravilhamento.

Dificuldades em Pensar Transições

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Mesmo na certeza
de sermos iguais
perante a morte,
não é menos certo
que não somos iguais
defronte a morte.

Joan Reventós i Carner

O pensar a morte sempre despertou as mais variadas interpretações, a depender das religiões ou até das divagações não precisamente espirituais. Temor, resignação, paciência, ansiedade, compaixão, fé, revolta, todos são valores que podem aflorar nos momentos derradeiros para quem parte e para os que ficam em torno daquele ser humano prestes ao desenlace. São absolutamente naturais quaisquer das reações, e quase todos já presenciaram entes queridos partirem para a outra margem.
A possibilidade de se pensar em outras vidas, renascimentos infindáveis ou “categorias” do post mortem é objeto de livros sagrados das mais diversas religiões ou seitas e alimenta a imaginação dos humanos. Como se preparar para a morte? O que se passaria na verdade na linha demarcatória? Mistérios que acompanham a humanidade desde os mais remotos tempos. Como viver a vida a pensar no destino final, ou transitório, segundo os budistas tibetanos?
Anteriormente já comentáramos o ótimo livro de poemas de Joan Reventós i Carner Os Anjos não Sabem Velar os Mortos (post publicado aos 06/12/08). No final de um de seus mais expressivos poemas escreve: “É a razão desde o parto./É correr pela vida,/ Carregando sempre a morte.”
Tinha conhecimento de O Livro Tibetano do Viver e do Morrer de Sogyal Rinpoche (São Paulo, Talento-Palas Athena, 2008, 530 pgs.). Meu diletíssimo amigo Álvaro Guimarães, poucos meses antes de sua partida (vide Álvaro Guimarães – In Memoriam, 04/07/09) escreveu-me a dizer que recebera de uma amiga o precioso livro e que a sua leitura fazia-o melhor entender a difícil passagem que se aproximava. Adquiri a obra que se tornou não apenas meu livro de cabeceira, como motivo para troca de e-mails e telefonemas com Álvaro a respeito dessa possibilidade do vir a ser. Poucos dias após a sua morte, a dedicada esposa, Katrijn Friant, escrevia que ele passara para a outra margem. Tenho a mais absoluta convicção que a obra de Sogyal Rinpoche ajudou-o nessa complexa transição. Tendo finalizado a leitura nesses últimos dias, aspectos fulcrais que podem ajudar todo ser humano merecem ser difundidos, mais do que conteúdos doutrinários, pois sou admirador do pensamento budista-tibetano, mas leigo na matéria.
Abordar O Livro Tibetano do Viver e do Morrer pressupõe a vontade de aprofundar-se no tema, mesmo para o leitor não iniciado. Sogyal Rinpoche interpreta para os leigos o célebre Livro Tibetano dos Mortos, publicado em 1927 e acessível àqueles com conhecimento mais avançado da prática budista originária da região himalaia. Sogyal Rinpoche é mestre conceituado, discípulo que foi de dois iluminados tibetanos, Jamyang Khyentse Chökyl Lodrö (1896-1959) e Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-1991), este último abordado em post bem anterior (Leituras sobre o Himalaia – II – Reflexão, Arte, Transcendência, Realidade, 14/12/07). Especializado na meditação budista, Sogyal Rinpoche percorre o mundo a difundir os conceitos da religião, a oferecer cursos nos quais, entre outros temas, a transição vida-morte e o preparar moribundos para a passagem são constantes. Frequenta hospitais, analisa depoimentos de especialistas e experiências daqueles prestes a morrer. A eliminação da carga carmática e a incessante procura do ser humano no desiderato de se chegar à compaixão tornam-se constantes na obra de Sogyal Rinpoche. Ensinamentos a partir da visão budista tibetana, frise-se.
Vida e morte têm outro sentido na mentalidade dos religiosos dessa região. No Tibete, como assevera o autor, as experiências pessoais de ensinamentos apreendidos da natureza essencial, original e mais profunda da mente não tendem a ser popularizados. Pressionado por alunos e amigos do Ocidente buscou difundi-los em seus cursos de maneira até certo ponto assimilável para um não iniciado. Afirma “A natureza da mente só pode ser apresentada por alguém que a tenha realizado por inteiro, e que traga consigo a bênção e a experiência da linhagem”. Diria que se trata de um longo aprendizado, difícil de ser compreendido por quem não penetre a fundo na prática e no desenvolvimento de técnica espiritual exegética. “A contemplação profunda da mensagem secreta da impermanencia – aquilo que de fato está além da impermanência e da morte – leva diretamente ao coração dos antigos e poderosos ensinamentos dos tibetanos: a introdução à essencial ‘natureza da mente’. A realização da natureza da mente, que pode ser chamada de nossa essência mais profunda, aquela que todos nós buscamos, é a chave para a compreensão da vida e da morte”, considera Sogyal Rinpoche. O autor, numa visão ampla da espiritualidade, em vários contextos referentes ao viver e ao morrer não deixa de citar preceitos do cristianismo. Se o Cristo é mencionado várias vezes, assim também São Francisco de Assis, Thomas Merton e outros mais. Poder-se-ia considerar que não há radicalismo no livro, mas um discorrer sereno das profundas convicções budistas do autor frente à complexidade vida-morte.
Toda uma tradição que remonta há milênios faz com que a vida e a morte se fundam numa só compreensão durante a permanência física na terra. Forte convicção de renascimentos infindos, de cargas cármicas a determinar essas novas vidas, a crença em uma transição denominada bardo, mas com conotações outras de grande profundidade e complexidade. Sogyal Rinpoche observa “Bardo é uma palavra tibetana que quer dizer simplesmente ‘transição’, ou um intervalo entre o encerramento de uma situação e início de outra. Bar significa ‘entre duas coisas’, e do é ‘suspenso’, ou ‘lançado’ “. Contudo, o leitor não deve se iludir, pois a compreensão do Bardo é para iniciados, devido à sua profunda abrangência. Considere-se que para o budista tibetano as cargas carmáticas, os estados de serenidade ou angústia frente ao desenlace e até a postura física nos momentos que precedem a morte têm influência na maior ou menor permanência nessa transição morte-renascimento. Em outro contexto, mas tão absolutamente próximo, os versos mencionados de Reventós i Carner estariam a indicar a essência da existência de um budista tibetano.
Ratifico minha condição de leigo nesses temas tão significativos. Entretanto, alguns aspectos fulcrais contidos em O Livro Tibetano do Viver e do Morrer estarão a servir doravante como possíveis acúmulos à minha condição de católico: a coragem de apoiar, sem restrições, aquele em condição terminal – como ocorreu nos meses que precederam a morte de Álvaro – e buscar entender naturalmente esse nosso caminho de finitude, sem ansiedade ou temor.
A experiência do autor levou-o a trazer ao Ocidente práticas tibetanas, como o simples toque de mão, um carinho para aquele que vai morrer. Usar igualmente a técnica de obter do moribundo, através de palavras de reconforto, a possibilidade da reconciliação com aqueles que ficam e que até as horas ou instantes que precedem o falecimento com ele mantinham discórdia; assim como estimulá-lo na medida do possível, a imaginar fatos, paisagens, cores ou pensamentos que transmitam a paz. Para Sogyal Rinpoche, a morte física em situação de desespero, desalento absoluto ou rancor somente propiciará bardos tormentosos. Narra experiências daqueles que morrem na solidão extrema. Recorre à compaixão como elemento essencial e mesmo que não se conheça aquele que está para partir, deve-se tentar essas práticas de alívio. Considere-se que há sempre, à maneira de um leitmotiv, a constância dos renascimentos. Muitas dessas práticas budistas tibetanas são aplicadas diferentemente no Ocidente, mas visando também minimizar os difíceis momentos que antecedem o desenlace. Contudo, entre nós, há, para aqueles que ficam, uma percepção mais dramática do vazio deixado pelo que partiu. Possivelmente, menor resignação.
Um outro tema, muito controverso, é a eutanásia. Há conceituações budistas tibetanas flexíveis quanto ao ato da eliminação. A depender dos contextos, decisões consensuais determinariam atitudes que suprimiriam sofrimentos para quem parte e para os que permanecem. O suicídio, em contrapartida, é entendido como decisão a levar o infortunado ao bardo pleno de negatividade.
O Livro Tibetano do Viver e do Morrer deve ser entendido como leitura preparatória. Budistas ou não podem retirar da competente obra de Sogyal Rinpoche ensinamentos que os ajudem a melhor aceitar a passagem inexorável. A leitura que empreendi só foi possível pela experiência trágica que dileto amigo atravessava. Contudo, ajudou-me a compreender mais satisfatoriamente a transição vida-morte.

This post is an account of my reading of “The Tibetan Book of Living and Dying”, written by the spiritual master Sogyal Rinpoche. A beautiful book, in which the Tibetan wisdom tries to teach us all – regardless of religion or nationality – how to transform suffering into peace. It is a guide for a dying person and also for the living, since death is the ultimate experience that awaits us.