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O culto aos preceitos românticos

O romantismo, para além das dicotomias
que pesam sobre o homem moderno,
procurou apaixonadamente a indissociação
entre o bem e o mal,
entre a liberdade e a necessidade,
entre a consciência e a natureza.
Vladimir Jankélevitch (1903-1985)
(“Le Nocturne”)

Tem interesse a quase unanimidade dos leitores que captaram os eflúvios românticos que se depreendem das composições de Henrique Oswald. Vários me escreveram sobre esse culto prolongado ao romantismo.

Ao longo dos 19 anos e meio de blogs ininterruptos, foram diversos os posts que dediquei a esse período tão rico não apenas para a música, como para a literatura e outras manifestações artísticas. Compositores do período barroco e da época do classicismo professaram formas preestabelecidas, que lhes proporcionavam uma segurança na criação de suas músicas. Apesar do engessamento formal, foi imensa a produção que, atravessando os séculos, continua a ser reverenciada por musicólogos e intérpretes. Retornar ao tema do romantismo musical é sempre prazeroso, mercê da qualidade de tantos compositores que durante o romantismo se “libertaram” de uma rigidez formal vigente durante séculos.

A Revolução Francesa (1789-1799) foi uma das causadoras da eclosão romântica, que se expandiria a partir do início do século XIX. Anteriormente, vemos considerável número de compositores que viviam sob as benesses da nobreza ou sob o manto das ordens religiosas. O grito libertário, emanado nos tempos revolucionários, teria sido uma das causas da busca de caminhos novos. Os primórdios do romantismo foram fixados nesse período pós-revolução. Foi na Alemanha, nas fronteiras dos séculos XVIII e XIX, que o movimento, que englobaria a literatura, a música e as artes, “Sturm und Drang” (Tempestade e ímpeto), teve influência que se espalharia pela Europa. O compositor, pouco a pouco, “transformaria” formas rígidas, dando-lhes maior abertura e criando outras mais. Acrescente-se ao período uma noção cultural mais abrangente por parte de compositores, escritores, poetas e pintores – libertária, na realidade -, a corroborar o dirigismo das novas concepções criativas.  A arte teria como fonte indelével a mensagem da expressão do sentimento individual e não a do coletivo. Na música, exemplos claros foram professados por Karl Maria von Weber (1786-1826), Beethoven (1770-1827) e Schubert (1797-1828). É justamente a presença do sentimento, tantas vezes da maneira mais explícita, a atingir limites extremos, que compositores, máxime Chopin (1810-1849), Schumann (1810-1856), Liszt (1811-1886), Brahms (1833-1897), Berlioz (1803-1869) e Wagner (1813-1883), para citar alguns dos mais representativos, propiciaram a fixação romântica durante um vasto período.

Clique para ouvir,  de Wagner-Liszt, a transcrição para piano de A Morte de Isolda, extraída da ópera Tristão e Isolda, na interpretação de Arthur Moreira Lima:

https://www.youtube.com/watch?v=L4wWsaSJ4tw

 

Creio que o ilustre compositor, regente e escritor português Fernando Lopes-Graça traduz com precisão o entendimento do romantismo musical: “Sentindo-se libertado de tutelas religiosas e aristocráticas, sentindo-se uma pessoa social, o compositor, na exaltação da sua personalidade moral e espiritual conquistada e reconhecida, começa a fazer do seu eu o motivo e o agente da sua obra. Quer cantar-se a si mesmo, nas suas dores, nas suas ilusões, nas suas ideias, nas suas aspirações. Pretende levar aos outros homens o calor da sua mensagem, de uma mensagem de beleza e de humanismo, para que se sente eleito. É poeta e apóstolo. Supõe-se o centro do mundo, e daí o ver a realidade deformada ou reduzida a termos do seu próprio eu. É ao mesmo tempo um idealista. Cria para si a sua própria lei e fé mas, do mesmo passo, por um excesso de orgulho e hipertrofia do eu, quer levar aos outros essa lei e essa fé.” (“Obras Literárias – Opúsculos 2”. Lisboa, Caminho, 1984).

Diversos especialistas fixam um período romântico musical que iria até Wagner e Liszt e, como continuação, compreendem como pós-romantismo. Entendo que o termo romantismo sem prefixo já se basta, pois há uma linha única, caudaloso rio com afluentes, a depender dos estilos dos compositores pós Wagner, mas que teria fim com a morte de Serguei Rachmaninoff (1873-1943), pois o notável compositor russo permaneceu fiel à linha romântica – com raras exceções em sua profícua produção, contrariamente ao seu exato contemporâneo, Alexandre Scriabine (1872-1915), nascido um ano antes e que, de um romantismo exacerbado se direcionaria, em sua breve existência, a uma linguagem distanciada, personalíssima, a qual recebe imensa influência do seu pensar místico. Como não considerar tantas das criações de Camille Saint-Saëns (1835-1921) ou de Gabriel Fauré (1845-1824) como plenas de romantismo?

Clique para ouvir, de Rachmaninov, Étude Tableau op. 39 nº 8, na interpretação de J.E.M. (gravação ao vivo durante o Concurso Tchaikovsky em Moscou, 1962):

https://www.youtube.com/watch?v=fBwvQq9sj9g

É bem possível que as tendências que surgiram nas fronteiras dos séculos XIX-XX tenham, em contrapartida, determinado a compreensão desse pós, agregado ao termo romântico.

Impressionismo, dodecafonismo e seus desdobramentos, até a atual fase em que há múltiplas tendências composicionais, explicam a individualização, pois a maioria dos compositores de hoje tem técnica personalizada. Não a tendo, e seguindo princípios precedentes, esse músico tende a ser anatematizado por muitos dos seus pares, que professam tendências em constante ebulição. Assim como o classicismo está fixado no passado, igualmente o romantismo já está instalado em seu período histórico. Entretanto, permanece como fonte da extraordinária criação musical sempre visitada pelos intérpretes.

O nosso maior romântico, Henrique Oswald (1852-1931), manteve-se sempre fiel à sua linha estética voltada ao romantismo. O seu “redescobrimento” relativamente recente, na segunda metade do século XX, não o apresenta como um inovador, mas um compositor que foi fiel à tradição recebida por seus mestres da Itália durante os cerca de trinta anos vividos no país.

In earlier posts, I discussed the topic of Romanticism. Having received several messages regarding Romanticism in the work of Henrique Oswald, I return to the subject with a different approach.

 

Em torno de Henrique Oswald (1852-1931)

Não sou um optimista. O que sou é determinado
naquilo em que me apetece ser determinado,
e continuo convicto até entender
que a convicção estava errada e tenho de mudar.
Mas isso não tem acontecido muito.
Agostinho da Silva (1906-1994)
“Entrevista”

Após dedicarmos vários Encontros a notáveis compositores acima do equador, o Nono Encontro privé homenageia quatro compositores pátrios, mormente Henrique Oswald.

Sobre Oswald, dediquei vários blogs ao longo dos anos. Certamente o nosso mais importante compositor romântico e um dos nomes referenciais da nossa música através dos séculos. As minhas pesquisas tiveram início em 1978, mercê da colaboração extraordinária de Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do notável músico. Durante alguns anos, mensalmente ia ao Rio de Janeiro e ficava hospedado na morada do casal Mário e Maria Isabel (vide blog: Maria Isabel Oswald Monteiro, 1919-2012).  O precioso arquivo, cuidadosamente preservado pela anfitriã, dele constando partituras manuscritas autografadas, riquíssimos diários e outros mais documentos relevantes, foram paulatinamente estudados. Logicamente, as pesquisas se davam também junto à Biblioteca Nacional, ao Arquivo Nacional e à Escola Superior de Música do Rio de Janeiro.

Meu doutorado em 1988 foi pioneiro. Presentemente já foram defendidos mais de dez doutorados no Brasil e no Exterior (Estados Unidos, França e Itália), e que venham outros mais é o que se espera. No concurso para professor titular (1992) prossegui na temática oswaldiana, sendo que, posteriormente, houve a publicação do livro no qual concentrei as duas teses, “Henrique Oswald, músico de uma saga romântica” (São Paulo, Edusp, 1995). Prazer indizível se deu durante as gravações de três LPs (Funarte) e quatro CDs, estes gravados na Bélgica, unicamente com composições de Henrique Oswald para piano solo, assim como música de câmara com piano.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Tre Piccoli Pezzi”, na interpretação de J.E.M:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Menciono o histórico pelo fato de que as escolhas repertoriais deveriam sempre ter uma relação de pleno envolvimento. Como executar as músicas de um compositor sem que as suas mensagens penetrem no de profundis do intérprete? Os mais notáveis pianistas, mormente do passado, fizeram suas escolhas entre inúmeros compositores integrantes dos seus repertórios. Arthur Schnabel (1882-1951), Beethoven e Schubert; Edwin Fischer (1886-1960), J.S.Bach e Beethoven; Wilhelm Kempff (1895-1991), J.S.Bach…; Arthur Rubinstein (1887-1982), compositores românticos; Guiomar Novaes (1894-1979), Chopin, Schumann e Debussy; Walter Gieseking (1895-1956), Mozart e Debussy; Clara Haskil (1895-1960), Mozart e Chopin; Vladimir Horowitz (1903-1989), Liszt, Scriabine, Rachmaninov…; György Cziffra (1921-1994), Liszt preferencialmente. As indicações repertoriais estão ratificadas nos inúmeros documentos críticos e fonográficos. Opinando sobre colegas, Horowitz afirmava que ninguém tocava Chopin como Alfred Cortot (1877-1962) e os compositores espanhóis como Alicia de Larrocha (1923-2009).

Henrique Oswald é um dos meus eleitos e homenageá-lo em um Encontro privé faz-se necessário. As obras escolhidas são de raro encanto, pois não apenas a escrita do compositor é de extrema clareza, a partir de preceitos aos quais sempre foi fiel, como se mostra admirável no aspecto melódico.

Regina interpreta inicialmente uma criação emblemática de Villa-Lobos (1887-1959), “Alma brasileira”,  e algumas criações de Francisco Mignone (1897-1986), sendo que “Il Neige encore” é o tributo de Mignone a “Il Neige” de Oswald, peça que obteve o 1º prêmio no concurso promovido pelo jornal Le Figaro de Paris (1902), certame esse que recebeu 647 composições vindas de tantos países, tendo no júri luminares da música em França: Gabriel Fauré (1845-1924), Camille Saint-Saëns (1835-1921) e Louis Diémer (1843-1919).

Sobre “Il Neige”, gravei-a em 1979 para um LP em um andamento mais rápido. Quando de um recital na Sala Cecília Meirelles, toquei-a como peça extraprograma. O notável compositor Francisco Mignone, presente ao evento, disse-me após o recital que Oswald tocava “Il Neige” bem mais lentamente. “Bem mais lentamente?”, indaguei. “Muito mais”, retrucou o dileto Mignone. Em 1995, ao gravar um CD na Bélgica com a integral para violino e piano do compositor, tendo o excelente Paul Klinck ao violino, houve espaço para “Il Neige” no andamento vivenciado por Mignone.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Caderno contendo oito composições em homenagem a Henrique Oswald. Universidade de São Paulo, 1985.

 

Inicio a minha parte interpretando a criação minimalista do notável Gilberto Mendes (1922-2016), “Il Neige de nouveau”, igualmente uma homenagem a Henrique Oswald e, em seguida, a célebre “Il Neige”. Na sequência, apresento composições que me são caras e que fizeram parte do meu repertório ao longo da atividade pianística pública. As “Tre Piccolli Pezzi”, compostas em Florença (1885), nunca foram publicadas e são encantadoras. Os “Six Morceaux” op. 4 (1887) é um dos vários conjuntos de peças no catálogo do compositor. O “Estudo” e a “Valse-Caprice” op. 11 nº1 são criações envolventes e de virtuosidade.

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

As novas gerações de músicos deveriam cultuar os nossos relevantes compositores que, no presente, não têm divulgação à altura. Henrique Oswald deveria ser visitado permanentemente, não apenas as suas composições para piano, mas igualmente a sua obra de câmara, sinfônica e vocal.

The Ninth private recital will focus on the piano works of Brazilian composers, particularly Henrique Oswald.

 

 

A partir de substancial diálogo

Enquanto Rameau, entre os maiores, não ocupar todo o espaço a que tem direito,
a História da Música do século XVIII e através dos tempos não terá a sua total orientação.
Georges Migot (1891-1976)

O ilustre pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), após se “aposentar” da atividade frente ao público aos 89 anos, manteve em seu repertório algumas obras que lhe foram caras durante a existência. Mutatis mutandis, sem quaisquer intuitos comparativos, após encerrar minhas atividades pianísticas públicas em 2023, diariamente me dedico umas poucas horas aos estudos de piano, relendo criações que me impactaram e apresentando-as periodicamente em petit comité com propósitos precisos: preservar a vocação iniciada aos 9 anos de idade, ter contato com amigos ouvintes possuidores da apreciação crítica e, finalmente, manter-me em atividade aos 88 anos, verdadeira dádiva. Minha mulher Regina realiza o mesmo caminho. Há um compositor que diariamente revisito, interpretando uma ou duas peças ao piano: Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Há anos, um belo dia caminhava com meu caro amigo, pensador e compositor meritoso, Willy Corrêa de Oliveira (1938-). Repentinamente, ele para e me pergunta à “queima roupa” qual era meu compositor preferido e instantaneamente, sem pensar, respondo: Rameau. Retribuí a pergunta e a resposta de Willy foi também precisa, Chopin. Logicamente outras figuras essenciais da composição fazem parte das minhas preferências. A admiração pela obra de Rameau vem da juventude, quando aos 16 anos, após ouvir a integral para cravo interpretada ao piano (2 LPs) pela excelsa pianista francesa Marcelle Meyer (1887-1958), fiquei fascinado pelas obras, que desconhecia por completo. Meu Pai, ao sentir o meu entusiasmo, presenteou-me com o álbum.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, La Dauphine, na interpretação de Marcelle Meyer:

https://www.youtube.com/watch?v=4IrpvP2xXDY

De uma conversa fundamental entre duas figuras marcantes em França, o musicólogo Roland-Manuel (1891-1966) e a pianista franco-russa Nadia Tagrine (1917-2003), parte de um dos programas da série radiofônica e literária Plaisir de la Musique, na qual as duas relevantes personalidades dialogavam a respeito de aspectos fulcrais da música e das criações concebidas por luminares da composição, extraí as considerações sobre Jean-Philippe Rameau. Bem anteriormente, escrevera dois posts sobre temas contidos em Plaisir de la Musique (25/08/2018 e 1/9/2018), abordando figuras fulcrais da história da música. Sobre Rameau foram vários blogs ao longo de mais de 19 anos de posts publicados sem interrupção.

Roland-Manuel insere no diálogo alguns dados pouco ventilados pelos biógrafos e que evidenciam traços da personalidade de Rameau:

“Áspero, tanto no estado de espírito como fisicamente, fechado, triste, solitário. Dizia-se que o vazio que ele encontrava na sociedade o levava a afastar-se dela. Quanto à sua arte e aos interesses dela estava, pelo contrário, preocupado em não negligenciar nada, segundo as suas próprias palavras; a avareza era o reverso dessa moeda dura. Incapaz de fazer concessões e particularmente inexorável em matéria de música, pois esta estivera presente em toda a sua vida. O escritor Louis Petit Bachaumont (1690-1771) conta que, à beira da morte, quando o pároco de Saint-Eustache foi dar-lhe a extrema-unção, Rameau encontrou forças para interrompê-lo, dizendo-lhe: «Mas que raio vem cá cantar-me isso, Senhor Pároco? A sua voz está desafinada…».

Rolland-Manuel enfatiza conceito que se tornaria uma constante nas avaliações feitas a posteriori sobre Rameau. A sua grandeza não apenas se fixou nas composições, exemplificada pelas suas magníficas óperas, que têm sido progressivamente apresentadas, como na profundidade dos seus tratados teóricos. Comenta: “«Não é tanto fruto do acaso, mas sim da Providência, que o maior teórico da música e o maior compositor francês do século XVIII se encontrem reunidos na mesma pessoa: a ciência e a experiência, a razão e a intuição apoiam-se e esclarecem-se mutuamente em Jean-Philippe Rameau».

Através das décadas mais se consolidou a minha admiração pela obra de Rameau. Em suas inúmeras óperas, Rameau revela todo o seu domínio escritural, assim como o domínio dos endereçamentos no que concerne à ópera-balé ou à tragédia lírica. Roland-Manuel observa: “O que há de admirável em Rameau é que ele efetivamente não apenas estabelece a razão demonstrativa e a sensibilidade mais profunda, como também a sabedoria a mais rigorosa, sem deixar de ser o poeta mais afinado às solicitações do sonho”.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Tendre Amour, da ópera-balé Les Indes Galantes, na interpretação do conjunto Les Arts Florissants sob a regência de William Christie:

https://www.youtube.com/watch?v=MvRMfR2c1hY

Em contraste ao Tendre Amour, clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, a Abertura da Tragédia Lírica Zoroastre, na interpretação do conjunto Le Concert des Nations sob a regência de Jordi Savall:

https://www.youtube.com/watch?v=9br3o8MfUvI&t=23s

Quanto à obra para cravo interpretada ao piano, a criação de Rameau quantitativamente é menor às de François Couperin, J.S.Bach e Domenico Scarlatti. Todavia, tem-se o multum in mínimo e a excelência de suas composições comprova a assertiva.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Les Cyclopes, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=c7lyY0pBRkU&t=4s

A fruitful dialogue between the French-Russian pianist Nadia Tagrine and the musicologist Roland-Manuel about Jean-Philippe Rameau is of interest because, although it took place in the mid-20th century, it remains highly relevant today.