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A permanência pelo mérito

A permanência pelo mérito

Felizmente, há na música uma grande dose de magia, do inexplicável.
Ela não é comparável a nenhuma outra arte.
Os nossos antepassados foram sensatos ao excluir a música das «Belas Artes».
De um lado, a música. Do outro, a pintura, a escultura, a gravura, a arquitetura.
Apesar das leis derivadas da tradição, a música contém uma dose de milagre.
Arthur Honneger (1892-1955)
(in “Je suis compositeur”)

Primeiramente, agradeço as mensagens de leitores que se entusiasmaram com o Grupo dos Seis em França. Após a apresentação de três membros do Grupo no post anterior, Louis Durey, Georges Auric e Darius Milhaud, focalizaremos Germaine Tailleferre (1892-1983), Francis Poulenc (1899-1963) e Arthur Honneger (1892-1955).

Germaine Tailleferre, a única mulher do Grupo, foi apresentada por Darius Milhaud a Eric Satie. Através dele tem contato com os jovens compositores que formariam o Grupo dos Seis. Integrada ao Grupo, foi uma das que participou da elaboração do bailado Les mariés de la Tour Eiffel - sobre texto de Jean Cocteau -, juntamente com Poulenc, Milhaud, Honneger e Auric. Sua obra tem consistência, é sensível, criativa, ousada tantas vezes, sem negligenciar tendências do passado. Escreveu para vários gêneros musicais, inclusive óperas cômicas.

Clique para ouvir, de Germaine Tailleferre, En Plein Air (1918) para dois pianos, na interpretação de Marc Clinton e Nicole Carboni, composição em que explora com competência, inúmeros recursos da técnica pianística. Ao ouvir um ensaio de En Plein Air interpretado pela compositora e a notável pianista Marcelle Meyer (1897-1958), Eric Satie teria declarado ser Tailleferre sua “filha musical”.

https://www.youtube.com/watch?v=pdhTXU90lSU&t=16s

Francis Poulenc sofreria influência dos seus compositores eleitos, Scarlatti, Schubert, Fauré e outros. Contudo seu estilo é bem individualizado o que demonstra autenticidade, pois há sempre suas impressões digitais. Não é de longe um intelectual da composição. Há expontaneidade, bela fluência dos elementos básicos, mas com acentos que identificam a sua personalidade. Um dos preceitos da composição francesa do período, a denominada clarté, é um dos seus predicados, acrescido da facilidade melódica. Sob outra égide, essa clareza se estenderia à interpretação pianística, pois essa é uma das características propaladas da técnica pianística em França.

Estou a me lembrar que em 1959, em Paris, com bolsa do governo francês, após prêmio em Concurso de Piano em Salvador, estava a estudar inicialmente com o insigne pianista e professor Jacques Février (1900-1979). Certa manhã me dirigi à casa Durand, na Place de la Madeleine, a fim de adquirir partituras. Sentado a espera de alguém estava Francis Poulenc. Apresentei-me a dizer que estudava com um seu grande amigo Février e que no meu repertório em formação, tocava Mouvements Perpétuels de sua autoria. Extremamente gentil, falou-me da criação dessas três pequenas peças. Gravei em minha memória seus aconselhamentos e sua llaneza. Francis Poulenc e Jacques Février fizeram a estreia do Concerto para dois pianos do compositor em 1932.

Clique para ouvir, de Francis Poulenc, Mouvements perpétuels na interpretação do autor:

https://www.youtube.com/watch?v=U-qH2zLw490

Clique para ouvir de Francis Poulenc, Concerto para dois pianos e orquestra, na interpretação de Martha Argerich e Nelson Freire e a Orquestra Sinfônica de Montreal [Montreal Symphony Orchestra] sob regência de Charles Dutoit.

https://www.youtube.com/watch?v=0wJDUQxy-Ug

Arthur Honneger é um compositor de grande interesse não apenas como criador, mas um músico pleno de ideias, tantas delas polêmicas. Certamente um dos grandes mestres do período. Seu engajamento ao Grupo dos Seis não o impediu de estar ligado às concepções tradicionais. Os mestres do passado lhe são familiares e ele os cultiva. Algumas de suas criações têm a aura da obra-prima e contrastam com aquelas de outro mestre mencionado no blog anterior, Darius Milhaud. Estilos diferentes.

Quando professor de composição na École Normale de Musique em Paris, Honneger iniciava o curso com um depoimento incisivo a desestimular os fracos. Tem interesse o que dizia: “Senhores, querem mesmo tornar-se compositores de música? Já pensaram bem no que isso implica? Se escreverem música, ninguém a tocará e não conseguirão ganhar a vida! Se seus pais puderem sustentá-los, então nada impede que preencham papel pautado. Encontrarão papel em todo o lado, e o que escreverem nele terá apenas uma importância secundária para os outros; eles não têm qualquer ânsia de descobri-los, a vocês e a suas sonatas… A única desculpa possível é escrever honestamente a música que desejam expressar, dedicando-lhe todo o cuidado, toda a consciência que um homem íntegro dedica às ações sérias da sua existência. Suponhamos por um único instante que sejam trinta e sete homens — não digo sequer gênios, mas sim talentosos — e que cada um escreva num ano uma obra válida, que merecesse ser tocada; isso desencadearia uma verdadeira catástrofe no mundo musical. A composição não é uma profissão. É uma mania – uma doce loucura – (pois é raro constatar um compositor desconhecido envolvendo-se em atos de violência que perturbem a ordem pública, exceto nas salas de concerto, durante a apresentação da obra de um rival).”  (in: Arthur Honneger, “Je suis compositeur”, Paris, Éditions du Conquistador, 1951).

Uma de suas obras mais consagradas é Pacific 231 (1923). Sugerida por Blaise Cendrars (1887-1961), romancista e poeta, pois o renomado escritor sabia do fascínio do compositor pelas locomotivas. O termo escolhido tem relação com um modelo específico de trem a vapor e o número 231 relativo à disposição das rodas. Tem-se o arranque, a aceleração e a frenagem da locomotiva. Criação descritiva, não desprovida de dramaticidade.

Clique para ouvir de Arthur Honneger, Pacific 231, pela Orquestra Nacional da O.R.T.F., sob a regência de Jean Martinon:

https://www.youtube.com/watch?v=zT48OxzgYFg

Completamente numa outra orientação e sem quaisquer ligações com o Grupo dos Seis, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) compõe “O Trenzinho do Caipira”, quarto movimento das Bachianas Brasileiras nº 2, uma de suas mais comoventes criações:

Clique para ouvir, de Heitor Villa-Lobos, “O trenzinho do Caipira”, na interpretação da Orquestra Sinfônica Brasileira sob a regência de Roberto Minczuk:

https://www.youtube.com/watch?v=wIG4h7lvj4Y

In this post, I conclude the series introducing the other three key members of the Group of Six: Germaine Tailleferre, Francis Poulenc, and Arthur Honegger.

 

Compositores em torno da renovação

A coisa mais difícil na música
ainda é escrever uma melodia de vários compassos
que possa ser auto suficiente.
Esse é o segredo da música.

Darius Milhaud (1892-1974)

Fico grato pela repercussão dos posts dedicados ao Grupo do Cinco, compositores que, em meados do século XIX, buscaram aspirações nas raízes da música russa com a finalidade de se distanciarem de preceitos musicais do Ocidente. Foi o crítico e historiador Vladimir Stassov (1824-1906) que, ao propalar que se tratava de um “pequeno e pujante grupo”, deu ensejo a que, primeiramente em França, esses poucos compositores recebessem a designação “Grupo dos Cinco”, que vigorou doravante.

Um dos leitores, Camilo Bittencourt Miranda, sugere em sua mensagem um tema bem pertinente, o “Grupo dos seis”, compositores que se reuniam em Paris com propósitos novos entre 1916 e 1923. O tema é bem sugestivo, o período histórico é outro e as motivações tenuemente se assemelham aos postulados professados pelos músicos russos.

Deve-se ao crítico musical Henri Collet (1885-1951) a designação Grupo dos Seis em Janeiro de 1920. O poeta Jean Cocteau (1889-1963) e o compositor Erik Satie (1866-1925) foram fundamentais em seus princípios estéticos para a criação do Grupo, que seria formado por Darius Milhaud (1892-1974), Arthur Honneger (1892-1955), compositor franco-suíço nascido no Havre, França, Francis Poulenc (1899-1963), Louis Durey (1888-1979), Georges Auric (1899-1983) e Germaine Tailleferre (1892-1983). Os três primeiros foram os mais representativos e deixaram composições que permanecem no repertório mundial. O Grupo, voltado a diferente posicionamento estético-musical propalado pelos compositores Gabriel Fauré (1845-1924), Claude Debussy (1862-1918) e Maurice Ravel (1875-1937) – se bem que os três importantes músicos tivessem tendências não homogêneas -, buscou vias que se coadunavam com as propostas de Cocteau e Satie.

No presente post abordarei três integrantes: Louis Durey, Georges Auric e, principalmente, Darius Milhaud. Louis Durey transitou inicialmente pelo sistema atonal proposto por Arnold Schoenberg, enveredando a seguir por propostas mais conservadoras, senão românticas.

Clique para ouvir, de Louis Durey, Romance sans paroles op. 21, na interpretação da pianista Françoise Petit:

Louis Durey – Romance sans Paroles (Op. 21) [Score Video]

Georges Auric estudou com Vincent d’Indy, privou da amizade de Igor Stravinsky e de Éric Satie antes de pertencer ao Grupo dos Seis, sofrendo influências do autor das Gymnopédies. Pluralista, compôs para várias destinações musicais: orquestra, piano câmara, coral, assim como para dezenas de filmes e, juntamente com Serguei Diaghilev (1872-1929), para vários ballets.

Clique para ouvir, de Georges Auric, os divertidos Trois impromptus para piano, na interpretação de Françoise Gobet:

Georges Auric – Trois Impromptus for piano (with score)

Do Grupo dos Seis, Darius Milhaud foi um dos mais influentes. Profícuo compositor, abordou basicamente todos os gêneros musicais: sinfônico, lírico e coreográfico, camerístico (nove quartetos de corda), obras vocais. Sua obra é plena de variantes, intensa em tantas delas, utilizando-se inúmeras vezes do recurso da politonalidade. Imaginativo, se por vezes suas criações revelam certa desigualdade, é fato que muitas delas têm mérito invulgar mercê de fatores fulcrais, como curiosidade, instinto criativo, busca dos extremos. Milhaud particularmente teve laços com o Brasil, pois em 1917 Paul Claudel (1868-1955), poeta e dramaturgo francês, foi nomeado Ministro da França no Brasil e ele, nos seus vinte e poucos anos, veio como secretário, tornando-se amigo do nosso maior compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931). Durante o período em que esteve no Rio de Janeiro, captou essencialidades da música urbana do país, traduzindo-as em composições que se perenizaram. Em carta datada de outubro de 1919, quando de regresso a Paris, escreve à esposa de Oswald, e uma frase é pitoresca: “Se me fizessem escolher entre ‘ir ao paraíso ou retornar ao Rio’, creio que escolheria retornar ao Rio”. Outros tempos, certamente…

Um episódio curioso se deu durante a estadia de Milhaud no Rio de janeiro. Em um jantar festivo na morada de Henrique Oswald, entre os cerca de vinte convidados estava o notável pianista Arthur Rubinstein (1887-1882), que realizava turnê pela América Latina. Em suas minuciosas memórias publicadas em três volumes, Rubinstein escreve: “Do outro lado da mesa estava um homem que nem sequer tinha sorrido uma única vez. A expressão do seu rosto intrigava-me. Parecia mais brasileiro do que todos os outros, na sua maioria de ascendência italiana ou portuguesa. Aquele homem sereno tinha um rosto redondo, bem barbeado, cheio, de tez morena, olhos tristes e inteligentes. O que mais me impressionou foi o seu excelente francês. Aproveitando um momento de calmaria, dirigi-me a ele: ‘Permita-me elogiá-lo pelo seu francês. Nunca ouvi um estrangeiro dominar a este nível esta língua tão bela e tão difícil’. ‘Sou francês’, respondeu ele com um sorriso, ‘sou o secretário particular do ministro da França. Chamo-me Darius Milhaud e sou violinista e compositor’. ‘Nunca tinha ouvido falar dele’. ‘Fui declarado inapto para o serviço militar e fui trazido para cá pelo nosso ministro, o Sr. Paul Claudel, na qualidade de secretário e, sobretudo, colaborador.», (in: Arthur Rubinstein, Grande est la vie – mes longues années. Paris, Robert Laffont, 1980).

Escolhi de Darius Milhaud uma obra contagiante, que tem todas as referências rítmicas e sonoras que o compositor apreendeu no Rio de Janeiro. Le boeuf sur le toit, criação de 1920, é um ballet burlesco. Devido ao retumbante sucesso da composição, Louis Moysés, ligado a casas noturnas parisienses, inaugurou um cabaré em 1922 com o nome Le boeuf sur le toit, que passaria doravante a ser frequentado por figuras de renome nas várias atividades: Jean Cocteau, Pablo Picasso, o Grupo dos Seis, Erik Satie, Maurice Chevalier, Coco Chanel, Cristian Dior… Até o presente, o restaurante com música ao vivo prossegue em suas atividades.

Clique para ouvir, de Darius Milhaud, Le boeuf sur le toit, na entusiástica regência de Alondra de la Parra frente à Orquestra de Paris:

Darius Milhaud, Le Bœuf sur le Toit – Alondra de la Parra & Orchestre de Paris

No próximo blog, completando o Grupo dos Seis, focalizarei Francis Poulenc, Arthur Honneger e Germaine Taillefferre.

The Group of Six in France brought together, for a number of years, six composers who were seeking new directions, following in the footsteps of the country’s three most influential masters of musical composition: Gabriel Fauré, Claude Debussy, and Maurice Ravel.

Completando o importante Grupo dos Cinco

A música não é um brinquedo,
é uma arte nobre e sagrada.
Milly Balakirev

Desde o final do século XIX, divulgação maior tem sido reservada a três integrantes do Grupo dos Cinco, compositores russos que, durante cerca de 15 anos (1856-1970), protagonizaram a escolha criativa estruturada basicamente nas raízes nacionais da Rússia.  Havia, inclusive, uma idiossincrasia quanto à música vinda do ocidente, salvo exceções. Nos blogs anteriores abordei Mussorgsky (1839-1881), Borodine (1833-1887) e Rimsky Korsakov (1844-1908), os mais ventilados dos cinco compositores.

A importância de Vladimir Stassov (1824-2006), crítico e musicólogo, foi fundamental para a constituição do Grupo dos Cinco. Argumentava que a arte praticada na Rússia não poderia ficar presa aos axiomas ocidentais. Sua ação foi decisiva no sentido de conduzir os ideais dos fundadores do Grupo nessa escolha a visar a arte direcionada às raízes russas, ao nacionalismo, ao folclore pátrio. Milly Balakirev e César Cui já estavam convencidos das orientações propostas inicialmente por Stassov, que teria futuramente influência nítida, máxime no aconselhamento a Mussorgsky e Borodine em suas magistrais óperas Boris GoudonovO Príncipe Igor, respectivamente.

Balakirev e César Cui foram essenciais na formação do Grupo dos Cinco, sendo o segundo encarregado de redigir o famoso manifesto dos esperançosos membros:

1 – A nova escola defende que a música dramática tem um valor próprio como música absoluta, independentemente do texto que acompanha. Uma das características desta escola é a sua oposição à vulgaridade e à banalidade;

2 – A música vocal, no teatro, deve estar em perfeita sintonia com o significado do texto cantado.

3 – As formas da música lírica não são de modo algum determinadas pelos moldes tradicionais da rotina: devem nascer livremente, de forma espontânea, da situação dramática e das exigências específicas do texto;

4 – É essencial, fundamental, traduzir musicalmente e com o máximo de realce o caráter e o tipo das diversas personagens. Nunca cometer anacronismos nas obras de caráter histórico. Reproduzir fielmente o colorido local.

Balakirev nasceu em Nijni-Novgorod e teve, quando miúdo, orientação de sua mãe nos estudos preliminares para piano. Após frequentar o curso secundário, inscreveu-se como ouvinte na Faculdade de Ciências da Universidade de Kasan. Autodidata, como seus futuros companheiros do Grupo dos Cinco, foi apresentado pelo rico aristocrata Alexandre Oulybychev, musicólogo amador, a Mikhail Glinka (1804-1857), renomado compositor, propalado como o patriarca da música russa, que propunha uma volta às origens profundas das manifestações musicais na Rússia. Glinka, ao conhecer algumas composições de Balakirev, estimula-o vivamente. Esse apoio fez com que Balakirev viajasse para São Petersburgo, convencido de que poderia revolucionar os conceitos musicais da Rússia. A vigência do Grupo dos Cinco foi interrompida anos após, entre outros fatores, devido ao temperamento um tanto despótico de Balakirev.

As atividades do compositor se estenderam a outras áreas musicais, pois foi professor de composição e regente. Deve-se a ele a introdução na Rússia de obras sinfônicas de Franz Liszt (1811-1886), Robert Schumann (1810-1856) e Hector Berlioz (1803-1869), entre alguns mais compositores ocidentais.

Assim como o fez em relação aos hábitos de Borodine (vide blog: 30/05), tem interesse o depoimento de Rimsky Korsakov sobre hábitos de seu “colega de armas”, Balakirev: “Em cada um dos cômodos do apartamento de Balakirev havia um ícone e uma luz acesa. Ninguém mais tinha permissão para entrar em seu quarto e, quando ele adentrava na presença de terceiros, apressava-se em fechar a porta atrás de si. Da rua, a janela revelava uma penumbra misteriosa e os reflexos pálidos de uma luz acesa. Muitas vezes eu o ouvia dizer que acabara de assistir a alguma cerimônia religiosa. Ao passar por uma igreja, ele levantava o chapéu e fazia o sinal da cruz; fazia o mesmo sinal da cruz diante da boca quando bocejava…  Ele não fumava mais, deixou de comer carne e, mesmo nos dias mais frios, saía vestindo apenas um pobre sobretudo de meia estação… Se por acaso encontrasse um percevejo no quarto, ele o pegava delicadamente e o jogava pela janela, dizendo: – Vai embora, bichinho, e que Deus te proteja!…”.

Milly Balakirev foi fecundo na composição plena de competência, onde não falta a inclinação para as raízes da música russa e um afeto especial pelo orientalismo, tendo legado duas sinfonias, aberturas sobre temática russa, o poema sinfônico Tamara, bem frequentado pelas orquestras através dos tempos, música de câmara, canções e inúmeras criações para piano, entre as quais se destaca uma das peças mais emblemáticas e desafiadoras escritas para piano, a fantasia oriental  Islamey. É extraordinária a sua estrutura voltada à mais alta virtuosidade. Desavenças com colegas, defesa de posições nacionalistas extremadas resultaram em sua morte na absoluta solidão.

Clique para ouvir, de Milly Balakirev, Islamey, na fantástica e colorida interpretação de Vladimir Horowitz:

https://www.youtube.com/watch?v=r9yWeSMnpt8&t=20s

César Cui (1835-1918) nasceu na Lituânia, na época pertencente ao Império da Rússia. Seu pai, Antoine Cui, foi oficial da Grande Armada napoleônica. Após a célebre campanha de 1812, Antoine fixou-se em Vilnius, casando-se com uma lituana. Enquanto miúdo, César Cui estudou música e, ao entrar na Escola Militar de São Petersburgo, especializou-se em fortificações, tendo legado inúmeros textos sobre o tema. Ao conhecer Balakirev, aprofundou-se nos estudos musicais, compondo e escrevendo artigos para inúmeras publicações na Rússia e no Exterior. Como compositor, legou diversas óperas, entre elas O Flibusteiro (1889), cuja primeira apresentação se deu na ópera Cômica de Paris em 1894. Frise-se a sua qualidade como miniaturista, de que são exemplos a quantidade de canções e de obras para piano.

Clique para ouvir, de César Cui, “Prelúdio op. 64 nº 9”, na sensível interpretação da pianista britânica Margareth Fingerhut:

https://www.youtube.com/watch?v=LyVqq8dWRCs&list=PLri7jP-39qoG8SiAJjjWHTW_OPbKb0UrG

Para o leitor que desejar conhecer outras composições de César Cui para piano, indico a gravação da integral realizada  por Marco Rapetti, excelente pianista italiano e meu dileto amigo.

https://www.google.com/search?q=youtube+C%C3%A9sar+Cui+par+Marco+Rapetti&oq=youtube+C%C3%A9sar+Cui+par+Marco+Rapetti&gs_lcrp=EgZjaHJvbWUyBggAEEUYOdIBCTI2NTAwajBqN6gCCLACAfEFRUjXVItw6_HxBUVI11SLcOvx&sourceid=chrome&ie=UTF-8#fpstate=ive&vld=cid:afc9da3b,vid:xKtkdfkP_ic,st:2171

Mily Balakirev and César Cui were core members of “The Five”, an influential group of 19th-century Russian composers who sought to establish a distinctly Russian classical music, free from Western European academic traditions.