O olhar diferenciado de Saint-Exupéry
Os quarenta primeiros anos da existência nos dão o texto;
os trinta seguintes, o comentário.
Arthur Schopenhauer (1788-1860)
A juventude é o tempo de aprender sabedoria,
a velhice de praticá-la.
Jean-Jacques Rousseau (1712-778)
O tempo te constrói raízes.
Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)
O post precedente, ao abordar as reflexões de La Rochefoucauld sobre as fases derradeiras do ser humano, suscitou uma série de posicionamentos de leitores interessados na temática e até sugerindo estender as considerações. Nem todos apreendem a velhice como uma transição que deveria ser vivenciada como um caminho natural para o inexorável. Eliane Ghigonetto Mendes, viúva do meu saudoso amigo e notável compositor Gilberto Mendes (1922-2016), enviou-me uma mensagem da qual extraio uma preciosa frase: “Cada vez mais vejo amigos envelhecerem tão mal, tão amargos, por se deixarem escravizar pelo Ego, que não foi domesticado a tempo…”. Veio-me à mente Citadelle, de Saint Exupéry (1900-1944), várias vezes presente nos posts semanais desde a sua origem, que remonta a Março de 2007. Uma frase vinda de sua irmã, Simone de Saint Exupéry, pesquisadora que colaborou na elaboração de Citadelle, define a importância da obra. Afirma: “É impossível esgotar as riquezas dessa obra densa e profunda, que aborda todos os problemas do destino humano e do condicionamento do homem”.
As considerações a respeito da velhice em Citadelle têm aplicação na atualidade. Relembrando, o personagem principal da obra em pauta é um senhor do deserto, à semelhança de um rei. Nas narrativas na primeira pessoa do singular, Saint-Exupéry tece suas considerações sobre os mais variados temas que permeiam a humanidade.
Clique para ouvir, de Gilberto Mendes: Sonatina à la Mozart (1951), na interpretação de J.E.M.
https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4
“Naquela noite, ao descer da minha montanha pela encosta onde já não conhecia mais ninguém, como um homem já levado para a terra por anjos silenciosos, senti o consolo de envelhecer. E de ser uma árvore pesada com seus galhos, já toda endurecida por protuberâncias e rugas, e já como embalsamada pelo tempo no pergaminho dos meus dedos, e tão difícil de ferir, como se já tivesse me tornado eu mesmo. E eu tecia minhas reflexões: ‘Aquele que já envelheceu assim, como poderia o tirano aterrorizá-lo com o odor dos suplícios — que é aquele do leite azedo — e mudar nele qualquer coisa, já que sua vida ele a mantém no passado, como um manto desamarrado que só permanece preso por um cordão?’ Será que já estou assim guardado na memória dos homens? E nenhuma renegação da minha parte teria mais sentido. Também senti o consolo de estar livre das minhas amarras, como se tivesse trocado toda essa carne enrugada pelo invisível, assim como as asas. Como se eu estivesse finalmente caminhando por conta própria, na companhia daquele arcanjo que tanto havia procurado. Como se, ao abandonar meu velho invólucro, eu me descobrisse extraordinariamente jovem. E essa juventude não era feita de entusiasmo, nem de desejo, mas de uma serenidade extraordinária. Essa juventude era daquelas que se aproximam da eternidade, não daquelas que, ao amanhecer, enfrentam os tumultos da vida. Era de espaço e de tempo. Parecia-me que, ao ter concluído meu processo de formação, eu estava me tornando eterno”.
Estou a me lembrar do meu saudoso Pai, que morreu dias antes de completar 102 anos (1898-2000). Entendia a velhice como uma dádiva concedida por um Poder Maior. No prefácio do seu último livro, escreveu: “Finalizo esta minha pequena biografia declarando que em 31 de maio de 1999 partiu para a Pátria Celeste aquela que durante 67 anos iluminou minha alma e encheu de infinito amor meu coração. Na prece diária que consagro a Deus, repito o apelo que Ana Madalena Bach fazia a Deus, mudando o nome de Sebastian por santa Alá, porque era por Alá que eu carinhosamente a chamava” (José da Silva Martins, “Breviário de Meditação”, São Paulo, Martin Claret, 2000).
Aos 88 anos acredito firmemente na denominada juventude da idade madura, que pode ser prolongada desde que haja a permanente motivação mental, apesar de esta ser em ritmo menos acentuado. A lendária pianista e professora francesa, Marguerite Long (1874-1966), com quem tive o privilégio de estudar (1958-59), afirmava acreditar que “quem é jovem é para sempre”, e ela o era em suas atitudes.
Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, 4ème Nocturne, na interpretação da insigne Marguerite Long. Gravação realizada em 1937:
Marguerite Long plays Fauré Nocturne no. 4 in E flat major
Readers requested a second post on old age following my previous one based on the writings of La Rochefoulcald. For this one, I have chosen to focus on the reflections on old age found in Saint -Exupéry’s *Citadelle*.




