Navegando Posts em Música

Transformações musicais inovadoras no período romântico

O músico romântico será naturalmente levado
a procurar formas sonoras que traduzam o instável e o mutável —
a captar as imagens musicais do devir.
Roland-Manuel (1891-1966)

A respeito do blog a focalizar o “Nono Encontro privé” (12/09), recebi mensagens de grande interesse sobre o romantismo. Três delas sugerem a abordagem dos efeitos decorrentes da produção romântica musical em termos da interpretação instrumental. A simpática provocação me leva prazerosamente a expor algumas dessas consequências que, ao longo de dois séculos, tornaram-se efetivas em basicamente todas as interpretações correspondentes ao romantismo, efeitos esses que muitos dos intérpretes aplicam erroneamente nas criações do repertório do período clássico. Este fato, entendido de maneira arbitrária e individualmente praticado por tantos músicos consagrados, leva a essência essencial dessa produção clássica ao impasse, mercê de visões pessoais de executantes frente à obra interpretada.

Se a composição musical no romantismo, sob o aspecto formal, ampliou a concepção de determinadas formas, como a Sonata executada ao cravo, que sofreria transformações na sua estrutura, mormente a partir das primeiras décadas do século XIX, através do pianoforte e do piano a seguir, tendo como protagonistas maiores, Haydn (1732-1809), Mozart (1756-1791), Beethoven (1770-1827), mormente nas últimas Sonatas, Schubert (1897-1828), encontraria na Sonata em si menor de Liszt (1811-1886) dedicada a Schumann (1810-1856) um definitivo divisor de águas. A forma, já bem alterada, seria incorporada às aspirações de compositores eslavos e de outras nacionalidades. E é no romantismo que claramente eclodem determinadas categorias de peças musicais curtas, expressivas ou voltadas à virtuosidade, sem necessariamente estarem ligadas ao rigor formal, entre elas: Noturno, Estudo, Balada, Scherzo, Rapsódia, Improviso e tantas mais.

Clique para ouvir, de Chopin, Balada nº 1 em sol menor, na interpretação de Sanson François:

https://www.youtube.com/watch?v=YpWIiLfhaD4

E, nessas formas, o compositor se sente liberto da maioria das amarras. Enfatize-se que a criação romântica se distancia da composta no classicismo, pois esta se fundamenta em limites, num respeito preferencial às normas pré-estabelecidas, contrariamente ao compositor romântico, que se sente menos dependente ao criar.

Um fator determinante se deu com as formas reestruturadas ou novas em pleno romantismo, verdadeira ampliação nas formulações, máxime igualmente pela evolução do piano, instrumento que sofreu influência com as conquistas da Revolução Industrial. Em pleno século XIX, a indústria do aço foi responsável pelo aperfeiçoamento do piano, que passou a ter uma tábua harmônica de aço, doravante muitíssimo mais resistente do que a de madeira, possibilitando suportar a tensão das cordas mais robustas e dispostas diversamente às dos pianos anteriores. Ampliou-se a sonoridade. Esse avanço surgiu simultaneamente num período em que as salas de concerto ficaram maiores. Composições voltadas à ampla virtuosidade tornaram-se desafios para compositores e intérpretes.

No romantismo, o discurso musical adquire maior flexibilidade devido, entre outras causas, ao culto à flutuação de andamentos. Para tanto, uma terminologia abrangente, utilizada pelos compositores a partir do romantismo, corrobora uma adequada compreensão do intérprete frente à partitura. O entendimento padrão desses termos não impede a interpretação pessoal, pois o intérprete consciente não é um robô. Não obstante, termos como rubato, accelerando, ritenuto ou ritardando, agitato, ou mesmo frases dos compositores orientando o intérprete ― três doux avec langueur, avec une élégance grave et lente; mouvement de Habanera – avec des brusques oppositions d’extrême violence et de passionnée douceur; dans um sentiment intime; avec une certaine pompe; dolce graziosamente; con eleganza, con fidúcia ― e incontáveis outras indicações, basicamente inexistentes nos períodos anteriores ao romantismo, serviam de um guia, sinalizando o pensar do compositor no ato da criação, ideias a complementar o pensamento do músico executante.

Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, Nocturne nº 4, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=X1MnLY21eAo&t=371s

Sobre a compreensão da frase musical, o rubato, termo italiano a indicar uma flexibilização durante uma ou mais frases do discurso musical, propagou-se no romantismo. O verbete no Dicionário de Música, elaborado por Tomás Borba e Fernando Lopes-Graça (Lisboa, Cosmos, ed., 1958), reza: “Modo de execução em que, sobretudo em passagens expressivas, se adopta uma grande liberdade de movimento sem que, porém, se destrua o essencial do ritmo.  Parece ter sido Tosi quem, em 1723, introduziu na música esta expressão”. Seria, contudo, no romantismo musical que a palavra se tornaria amplamente utilizada, máxime nos andamentos mais lentos. Por vezes encontramos o molto rubato, aviso de que determinado segmento musical deve ser ainda mais expressivo.

Estou a me lembrar de um comentário do meu professor de piano (1954-1958), o notável José Kliass (1895-1970), que de imediato me fez entender o processo. Comparava o rubato a um bêbado que executa passos laterais em aceleração, equilibra-se por vezes sobre uma perna e retorna aos passos em aceleração para novo equilíbrio.

Aos leitores que me propuseram abordar os efeitos da produção romântica na interpretação instrumental, convém lembrar que palavras-chave, como timbre e flutuação dos andamentos, são preocupações que não estavam a vigorar conscientemente no pensar criativo dos compositores do período clássico, ao menos na escrita.

Frequentado pela grande maioria de pianistas, o repertório romântico continua a ser uma das preferências dos ouvintes e um desafio constante à interpretação ao piano, mercê dos seus atributos inalienáveis.

In response to messages I have received regarding certain characteristics of Romanticism in music, I address several significant aspects related to the interpretation of works from this important period in music.

 

O culto aos preceitos românticos

O romantismo, para além das dicotomias
que pesam sobre o homem moderno,
procurou apaixonadamente a indissociação
entre o bem e o mal,
entre a liberdade e a necessidade,
entre a consciência e a natureza.
Vladimir Jankélevitch (1903-1985)
(“Le Nocturne”)

Tem interesse a quase unanimidade dos leitores que captaram os eflúvios românticos que se depreendem das composições de Henrique Oswald. Vários me escreveram sobre esse culto prolongado ao romantismo.

Ao longo dos 19 anos e meio de blogs ininterruptos, foram diversos os posts que dediquei a esse período tão rico não apenas para a música, como para a literatura e outras manifestações artísticas. Compositores do período barroco e da época do classicismo professaram formas preestabelecidas, que lhes proporcionavam uma segurança na criação de suas músicas. Apesar do engessamento formal, foi imensa a produção que, atravessando os séculos, continua a ser reverenciada por musicólogos e intérpretes. Retornar ao tema do romantismo musical é sempre prazeroso, mercê da qualidade de tantos compositores que durante o romantismo se “libertaram” de uma rigidez formal vigente durante séculos.

A Revolução Francesa (1789-1799) foi uma das causadoras da eclosão romântica, que se expandiria a partir do início do século XIX. Anteriormente, vemos considerável número de compositores que viviam sob as benesses da nobreza ou sob o manto das ordens religiosas. O grito libertário, emanado nos tempos revolucionários, teria sido uma das causas da busca de caminhos novos. Os primórdios do romantismo foram fixados nesse período pós-revolução. Foi na Alemanha, nas fronteiras dos séculos XVIII e XIX, que o movimento, que englobaria a literatura, a música e as artes, “Sturm und Drang” (Tempestade e ímpeto), teve influência que se espalharia pela Europa. O compositor, pouco a pouco, “transformaria” formas rígidas, dando-lhes maior abertura e criando outras mais. Acrescente-se ao período uma noção cultural mais abrangente por parte de compositores, escritores, poetas e pintores – libertária, na realidade -, a corroborar o dirigismo das novas concepções criativas.  A arte teria como fonte indelével a mensagem da expressão do sentimento individual e não a do coletivo. Na música, exemplos claros foram professados por Karl Maria von Weber (1786-1826), Beethoven (1770-1827) e Schubert (1797-1828). É justamente a presença do sentimento, tantas vezes da maneira mais explícita, a atingir limites extremos, que compositores, máxime Chopin (1810-1849), Schumann (1810-1856), Liszt (1811-1886), Brahms (1833-1897), Berlioz (1803-1869) e Wagner (1813-1883), para citar alguns dos mais representativos, propiciaram a fixação romântica durante um vasto período.

Clique para ouvir,  de Wagner-Liszt, a transcrição para piano de A Morte de Isolda, extraída da ópera Tristão e Isolda, na interpretação de Arthur Moreira Lima:

https://www.youtube.com/watch?v=L4wWsaSJ4tw

 

Creio que o ilustre compositor, regente e escritor português Fernando Lopes-Graça traduz com precisão o entendimento do romantismo musical: “Sentindo-se libertado de tutelas religiosas e aristocráticas, sentindo-se uma pessoa social, o compositor, na exaltação da sua personalidade moral e espiritual conquistada e reconhecida, começa a fazer do seu eu o motivo e o agente da sua obra. Quer cantar-se a si mesmo, nas suas dores, nas suas ilusões, nas suas ideias, nas suas aspirações. Pretende levar aos outros homens o calor da sua mensagem, de uma mensagem de beleza e de humanismo, para que se sente eleito. É poeta e apóstolo. Supõe-se o centro do mundo, e daí o ver a realidade deformada ou reduzida a termos do seu próprio eu. É ao mesmo tempo um idealista. Cria para si a sua própria lei e fé mas, do mesmo passo, por um excesso de orgulho e hipertrofia do eu, quer levar aos outros essa lei e essa fé.” (“Obras Literárias – Opúsculos 2”. Lisboa, Caminho, 1984).

Diversos especialistas fixam um período romântico musical que iria até Wagner e Liszt e, como continuação, compreendem como pós-romantismo. Entendo que o termo romantismo sem prefixo já se basta, pois há uma linha única, caudaloso rio com afluentes, a depender dos estilos dos compositores pós Wagner, mas que teria fim com a morte de Serguei Rachmaninoff (1873-1943), pois o notável compositor russo permaneceu fiel à linha romântica – com raras exceções em sua profícua produção, contrariamente ao seu exato contemporâneo, Alexandre Scriabine (1872-1915), nascido um ano antes e que, de um romantismo exacerbado se direcionaria, em sua breve existência, a uma linguagem distanciada, personalíssima, a qual recebe imensa influência do seu pensar místico. Como não considerar tantas das criações de Camille Saint-Saëns (1835-1921) ou de Gabriel Fauré (1845-1824) como plenas de romantismo?

Clique para ouvir, de Rachmaninov, Étude Tableau op. 39 nº 8, na interpretação de J.E.M. (gravação ao vivo durante o Concurso Tchaikovsky em Moscou, 1962):

https://www.youtube.com/watch?v=fBwvQq9sj9g

É bem possível que as tendências que surgiram nas fronteiras dos séculos XIX-XX tenham, em contrapartida, determinado a compreensão desse pós, agregado ao termo romântico.

Impressionismo, dodecafonismo e seus desdobramentos, até a atual fase em que há múltiplas tendências composicionais, explicam a individualização, pois a maioria dos compositores de hoje tem técnica personalizada. Não a tendo, e seguindo princípios precedentes, esse músico tende a ser anatematizado por muitos dos seus pares, que professam tendências em constante ebulição. Assim como o classicismo está fixado no passado, igualmente o romantismo já está instalado em seu período histórico. Entretanto, permanece como fonte da extraordinária criação musical sempre visitada pelos intérpretes.

O nosso maior romântico, Henrique Oswald (1852-1931), manteve-se sempre fiel à sua linha estética voltada ao romantismo. O seu “redescobrimento” relativamente recente, na segunda metade do século XX, não o apresenta como um inovador, mas um compositor que foi fiel à tradição recebida por seus mestres da Itália durante os cerca de trinta anos vividos no país.

In earlier posts, I discussed the topic of Romanticism. Having received several messages regarding Romanticism in the work of Henrique Oswald, I return to the subject with a different approach.

 

Em torno de Henrique Oswald (1852-1931)

Não sou um optimista. O que sou é determinado
naquilo em que me apetece ser determinado,
e continuo convicto até entender
que a convicção estava errada e tenho de mudar.
Mas isso não tem acontecido muito.
Agostinho da Silva (1906-1994)
“Entrevista”

Após dedicarmos vários Encontros a notáveis compositores acima do equador, o Nono Encontro privé homenageia quatro compositores pátrios, mormente Henrique Oswald.

Sobre Oswald, dediquei vários blogs ao longo dos anos. Certamente o nosso mais importante compositor romântico e um dos nomes referenciais da nossa música através dos séculos. As minhas pesquisas tiveram início em 1978, mercê da colaboração extraordinária de Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do notável músico. Durante alguns anos, mensalmente ia ao Rio de Janeiro e ficava hospedado na morada do casal Mário e Maria Isabel (vide blog: Maria Isabel Oswald Monteiro, 1919-2012).  O precioso arquivo, cuidadosamente preservado pela anfitriã, dele constando partituras manuscritas autografadas, riquíssimos diários e outros mais documentos relevantes, foram paulatinamente estudados. Logicamente, as pesquisas se davam também junto à Biblioteca Nacional, ao Arquivo Nacional e à Escola Superior de Música do Rio de Janeiro.

Meu doutorado em 1988 foi pioneiro. Presentemente já foram defendidos mais de dez doutorados no Brasil e no Exterior (Estados Unidos, França e Itália), e que venham outros mais é o que se espera. No concurso para professor titular (1992) prossegui na temática oswaldiana, sendo que, posteriormente, houve a publicação do livro no qual concentrei as duas teses, “Henrique Oswald, músico de uma saga romântica” (São Paulo, Edusp, 1995). Prazer indizível se deu durante as gravações de três LPs (Funarte) e quatro CDs, estes gravados na Bélgica, unicamente com composições de Henrique Oswald para piano solo, assim como música de câmara com piano.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Tre Piccoli Pezzi”, na interpretação de J.E.M:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Menciono o histórico pelo fato de que as escolhas repertoriais deveriam sempre ter uma relação de pleno envolvimento. Como executar as músicas de um compositor sem que as suas mensagens penetrem no de profundis do intérprete? Os mais notáveis pianistas, mormente do passado, fizeram suas escolhas entre inúmeros compositores integrantes dos seus repertórios. Arthur Schnabel (1882-1951), Beethoven e Schubert; Edwin Fischer (1886-1960), J.S.Bach e Beethoven; Wilhelm Kempff (1895-1991), J.S.Bach…; Arthur Rubinstein (1887-1982), compositores românticos; Guiomar Novaes (1894-1979), Chopin, Schumann e Debussy; Walter Gieseking (1895-1956), Mozart e Debussy; Clara Haskil (1895-1960), Mozart e Chopin; Vladimir Horowitz (1903-1989), Liszt, Scriabine, Rachmaninov…; György Cziffra (1921-1994), Liszt preferencialmente. As indicações repertoriais estão ratificadas nos inúmeros documentos críticos e fonográficos. Opinando sobre colegas, Horowitz afirmava que ninguém tocava Chopin como Alfred Cortot (1877-1962) e os compositores espanhóis como Alicia de Larrocha (1923-2009).

Henrique Oswald é um dos meus eleitos e homenageá-lo em um Encontro privé faz-se necessário. As obras escolhidas são de raro encanto, pois não apenas a escrita do compositor é de extrema clareza, a partir de preceitos aos quais sempre foi fiel, como se mostra admirável no aspecto melódico.

Regina interpreta inicialmente uma criação emblemática de Villa-Lobos (1887-1959), “Alma brasileira”,  e algumas criações de Francisco Mignone (1897-1986), sendo que “Il Neige encore” é o tributo de Mignone a “Il Neige” de Oswald, peça que obteve o 1º prêmio no concurso promovido pelo jornal Le Figaro de Paris (1902), certame esse que recebeu 647 composições vindas de tantos países, tendo no júri luminares da música em França: Gabriel Fauré (1845-1924), Camille Saint-Saëns (1835-1921) e Louis Diémer (1843-1919).

Sobre “Il Neige”, gravei-a em 1979 para um LP em um andamento mais rápido. Quando de um recital na Sala Cecília Meirelles, toquei-a como peça extraprograma. O notável compositor Francisco Mignone, presente ao evento, disse-me após o recital que Oswald tocava “Il Neige” bem mais lentamente. “Bem mais lentamente?”, indaguei. “Muito mais”, retrucou o dileto Mignone. Em 1995, ao gravar um CD na Bélgica com a integral para violino e piano do compositor, tendo o excelente Paul Klinck ao violino, houve espaço para “Il Neige” no andamento vivenciado por Mignone.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Caderno contendo oito composições em homenagem a Henrique Oswald. Universidade de São Paulo, 1985.

 

Inicio a minha parte interpretando a criação minimalista do notável Gilberto Mendes (1922-2016), “Il Neige de nouveau”, igualmente uma homenagem a Henrique Oswald e, em seguida, a célebre “Il Neige”. Na sequência, apresento composições que me são caras e que fizeram parte do meu repertório ao longo da atividade pianística pública. As “Tre Piccolli Pezzi”, compostas em Florença (1885), nunca foram publicadas e são encantadoras. Os “Six Morceaux” op. 4 (1887) é um dos vários conjuntos de peças no catálogo do compositor. O “Estudo” e a “Valse-Caprice” op. 11 nº1 são criações envolventes e de virtuosidade.

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

As novas gerações de músicos deveriam cultuar os nossos relevantes compositores que, no presente, não têm divulgação à altura. Henrique Oswald deveria ser visitado permanentemente, não apenas as suas composições para piano, mas igualmente a sua obra de câmara, sinfônica e vocal.

The Ninth private recital will focus on the piano works of Brazilian composers, particularly Henrique Oswald.