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Em torno de Henrique Oswald (1852-1931)

Não sou um optimista. O que sou é determinado
naquilo em que me apetece ser determinado,
e continuo convicto até entender
que a convicção estava errada e tenho de mudar.
Mas isso não tem acontecido muito.
Agostinho da Silva (1906-1994)
“Entrevista”

Após dedicarmos vários Encontros a notáveis compositores acima do equador, o Nono Encontro privé homenageia quatro compositores pátrios, mormente Henrique Oswald.

Sobre Oswald, dediquei vários blogs ao longo dos anos. Certamente o nosso mais importante compositor romântico e um dos nomes referenciais da nossa música através dos séculos. As minhas pesquisas tiveram início em 1978, mercê da colaboração extraordinária de Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do notável músico. Durante alguns anos, mensalmente ia ao Rio de Janeiro e ficava hospedado na morada do casal Mário e Maria Isabel (vide blog: Maria Isabel Oswald Monteiro, 1919-2012).  O precioso arquivo, cuidadosamente preservado pela anfitriã, dele constando partituras manuscritas autografadas, riquíssimos diários e outros mais documentos relevantes, foram paulatinamente estudados. Logicamente, as pesquisas se davam também junto à Biblioteca Nacional, ao Arquivo Nacional e à Escola Superior de Música do Rio de Janeiro.

Meu doutorado em 1988 foi pioneiro. Presentemente já foram defendidos mais de dez doutorados no Brasil e no Exterior (Estados Unidos, França e Itália), e que venham outros mais é o que se espera. No concurso para professor titular (1992) prossegui na temática oswaldiana, sendo que, posteriormente, houve a publicação do livro no qual concentrei as duas teses, “Henrique Oswald, músico de uma saga romântica” (São Paulo, Edusp, 1995). Prazer indizível se deu durante as gravações de três LPs (Funarte) e quatro CDs, estes gravados na Bélgica, unicamente com composições de Henrique Oswald para piano solo, assim como música de câmara com piano.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Tre Piccoli Pezzi”, na interpretação de J.E.M:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Menciono o histórico pelo fato de que as escolhas repertoriais deveriam sempre ter uma relação de pleno envolvimento. Como executar as músicas de um compositor sem que as suas mensagens penetrem no de profundis do intérprete? Os mais notáveis pianistas, mormente do passado, fizeram suas escolhas entre inúmeros compositores integrantes dos seus repertórios. Arthur Schnabel (1882-1951), Beethoven e Schubert; Edwin Fischer (1886-1960), J.S.Bach e Beethoven; Wilhelm Kempff (1895-1991), J.S.Bach…; Arthur Rubinstein (1887-1982), compositores românticos; Guiomar Novaes (1894-1979), Chopin, Schumann e Debussy; Walter Gieseking (1895-1956), Mozart e Debussy; Clara Haskil (1895-1960), Mozart e Chopin; Vladimir Horowitz (1903-1989), Liszt, Scriabine, Rachmaninov…; György Cziffra (1921-1994), Liszt preferencialmente. As indicações repertoriais estão ratificadas nos inúmeros documentos críticos e fonográficos. Opinando sobre colegas, Horowitz afirmava que ninguém tocava Chopin como Alfred Cortot (1877-1962) e os compositores espanhóis como Alicia de Larrocha (1923-2009).

Henrique Oswald é um dos meus eleitos e homenageá-lo em um Encontro privé faz-se necessário. As obras escolhidas são de raro encanto, pois não apenas a escrita do compositor é de extrema clareza, a partir de preceitos aos quais sempre foi fiel, como se mostra admirável no aspecto melódico.

Regina interpreta inicialmente uma criação emblemática de Villa-Lobos (1887-1959), “Alma brasileira”,  e algumas criações de Francisco Mignone (1897-1986), sendo que “Il Neige encore” é o tributo de Mignone a “Il Neige” de Oswald, peça que obteve o 1º prêmio no concurso promovido pelo jornal Le Figaro de Paris (1902), certame esse que recebeu 647 composições vindas de tantos países, tendo no júri luminares da música em França: Gabriel Fauré (1845-1924), Camille Saint-Saëns (1835-1921) e Louis Diémer (1843-1919).

Sobre “Il Neige”, gravei-a em 1979 para um LP em um andamento mais rápido. Quando de um recital na Sala Cecília Meirelles, toquei-a como peça extraprograma. O notável compositor Francisco Mignone, presente ao evento, disse-me após o recital que Oswald tocava “Il Neige” bem mais lentamente. “Bem mais lentamente?”, indaguei. “Muito mais”, retrucou o dileto Mignone. Em 1995, ao gravar um CD na Bélgica com a integral para violino e piano do compositor, tendo o excelente Paul Klinck ao violino, houve espaço para “Il Neige” no andamento vivenciado por Mignone.

Clique para ouvir, de Henrique Oswald, “Il Neige”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

Caderno contendo oito composições em homenagem a Henrique Oswald. Universidade de São Paulo, 1985.

 

Inicio a minha parte interpretando a criação minimalista do notável Gilberto Mendes (1922-2016), “Il Neige de nouveau”, igualmente uma homenagem a Henrique Oswald e, em seguida, a célebre “Il Neige”. Na sequência, apresento composições que me são caras e que fizeram parte do meu repertório ao longo da atividade pianística pública. As “Tre Piccolli Pezzi”, compostas em Florença (1885), nunca foram publicadas e são encantadoras. Os “Six Morceaux” op. 4 (1887) é um dos vários conjuntos de peças no catálogo do compositor. O “Estudo” e a “Valse-Caprice” op. 11 nº1 são criações envolventes e de virtuosidade.

https://www.youtube.com/watch?v=NjmXusZY8F0

As novas gerações de músicos deveriam cultuar os nossos relevantes compositores que, no presente, não têm divulgação à altura. Henrique Oswald deveria ser visitado permanentemente, não apenas as suas composições para piano, mas igualmente a sua obra de câmara, sinfônica e vocal.

The Ninth private recital will focus on the piano works of Brazilian composers, particularly Henrique Oswald.

 

 

A partir de substancial diálogo

Enquanto Rameau, entre os maiores, não ocupar todo o espaço a que tem direito,
a História da Música do século XVIII e através dos tempos não terá a sua total orientação.
Georges Migot (1891-1976)

O ilustre pianista Arthur Rubinstein (1887-1982), após se “aposentar” da atividade frente ao público aos 89 anos, manteve em seu repertório algumas obras que lhe foram caras durante a existência. Mutatis mutandis, sem quaisquer intuitos comparativos, após encerrar minhas atividades pianísticas públicas em 2023, diariamente me dedico umas poucas horas aos estudos de piano, relendo criações que me impactaram e apresentando-as periodicamente em petit comité com propósitos precisos: preservar a vocação iniciada aos 9 anos de idade, ter contato com amigos ouvintes possuidores da apreciação crítica e, finalmente, manter-me em atividade aos 88 anos, verdadeira dádiva. Minha mulher Regina realiza o mesmo caminho. Há um compositor que diariamente revisito, interpretando uma ou duas peças ao piano: Jean-Philippe Rameau (1683-1764). Há anos, um belo dia caminhava com meu caro amigo, pensador e compositor meritoso, Willy Corrêa de Oliveira (1938-). Repentinamente, ele para e me pergunta à “queima roupa” qual era meu compositor preferido e instantaneamente, sem pensar, respondo: Rameau. Retribuí a pergunta e a resposta de Willy foi também precisa, Chopin. Logicamente outras figuras essenciais da composição fazem parte das minhas preferências. A admiração pela obra de Rameau vem da juventude, quando aos 16 anos, após ouvir a integral para cravo interpretada ao piano (2 LPs) pela excelsa pianista francesa Marcelle Meyer (1887-1958), fiquei fascinado pelas obras, que desconhecia por completo. Meu Pai, ao sentir o meu entusiasmo, presenteou-me com o álbum.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, La Dauphine, na interpretação de Marcelle Meyer:

https://www.youtube.com/watch?v=4IrpvP2xXDY

De uma conversa fundamental entre duas figuras marcantes em França, o musicólogo Roland-Manuel (1891-1966) e a pianista franco-russa Nadia Tagrine (1917-2003), parte de um dos programas da série radiofônica e literária Plaisir de la Musique, na qual as duas relevantes personalidades dialogavam a respeito de aspectos fulcrais da música e das criações concebidas por luminares da composição, extraí as considerações sobre Jean-Philippe Rameau. Bem anteriormente, escrevera dois posts sobre temas contidos em Plaisir de la Musique (25/08/2018 e 1/9/2018), abordando figuras fulcrais da história da música. Sobre Rameau foram vários blogs ao longo de mais de 19 anos de posts publicados sem interrupção.

Roland-Manuel insere no diálogo alguns dados pouco ventilados pelos biógrafos e que evidenciam traços da personalidade de Rameau:

“Áspero, tanto no estado de espírito como fisicamente, fechado, triste, solitário. Dizia-se que o vazio que ele encontrava na sociedade o levava a afastar-se dela. Quanto à sua arte e aos interesses dela estava, pelo contrário, preocupado em não negligenciar nada, segundo as suas próprias palavras; a avareza era o reverso dessa moeda dura. Incapaz de fazer concessões e particularmente inexorável em matéria de música, pois esta estivera presente em toda a sua vida. O escritor Louis Petit Bachaumont (1690-1771) conta que, à beira da morte, quando o pároco de Saint-Eustache foi dar-lhe a extrema-unção, Rameau encontrou forças para interrompê-lo, dizendo-lhe: «Mas que raio vem cá cantar-me isso, Senhor Pároco? A sua voz está desafinada…».

Rolland-Manuel enfatiza conceito que se tornaria uma constante nas avaliações feitas a posteriori sobre Rameau. A sua grandeza não apenas se fixou nas composições, exemplificada pelas suas magníficas óperas, que têm sido progressivamente apresentadas, como na profundidade dos seus tratados teóricos. Comenta: “«Não é tanto fruto do acaso, mas sim da Providência, que o maior teórico da música e o maior compositor francês do século XVIII se encontrem reunidos na mesma pessoa: a ciência e a experiência, a razão e a intuição apoiam-se e esclarecem-se mutuamente em Jean-Philippe Rameau».

Através das décadas mais se consolidou a minha admiração pela obra de Rameau. Em suas inúmeras óperas, Rameau revela todo o seu domínio escritural, assim como o domínio dos endereçamentos no que concerne à ópera-balé ou à tragédia lírica. Roland-Manuel observa: “O que há de admirável em Rameau é que ele efetivamente não apenas estabelece a razão demonstrativa e a sensibilidade mais profunda, como também a sabedoria a mais rigorosa, sem deixar de ser o poeta mais afinado às solicitações do sonho”.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Tendre Amour, da ópera-balé Les Indes Galantes, na interpretação do conjunto Les Arts Florissants sob a regência de William Christie:

https://www.youtube.com/watch?v=MvRMfR2c1hY

Em contraste ao Tendre Amour, clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, a Abertura da Tragédia Lírica Zoroastre, na interpretação do conjunto Le Concert des Nations sob a regência de Jordi Savall:

https://www.youtube.com/watch?v=9br3o8MfUvI&t=23s

Quanto à obra para cravo interpretada ao piano, a criação de Rameau quantitativamente é menor às de François Couperin, J.S.Bach e Domenico Scarlatti. Todavia, tem-se o multum in mínimo e a excelência de suas composições comprova a assertiva.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, Les Cyclopes, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=c7lyY0pBRkU&t=4s

A fruitful dialogue between the French-Russian pianist Nadia Tagrine and the musicologist Roland-Manuel about Jean-Philippe Rameau is of interest because, although it took place in the mid-20th century, it remains highly relevant today.

 

O olhar diferenciado de Saint-Exupéry

Os quarenta primeiros anos da existência nos dão o texto;
os trinta seguintes, o comentário.
Arthur Schopenhauer (1788-1860)

A juventude é o tempo de aprender sabedoria,
a velhice de praticá-la.
Jean-Jacques Rousseau (1712-778)

O tempo te constrói raízes.
Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944)

O post precedente, ao abordar as reflexões de La Rochefoucauld sobre as fases derradeiras do ser humano, suscitou uma série de posicionamentos de leitores interessados na temática e até sugerindo estender as considerações. Nem todos apreendem a velhice como uma transição que deveria ser vivenciada como um caminho natural para o inexorável. Eliane Ghigonetto Mendes, viúva do meu saudoso amigo e notável compositor Gilberto Mendes (1922-2016), enviou-me uma mensagem da qual extraio uma preciosa frase: “Cada vez mais vejo amigos envelhecerem tão mal, tão amargos, por se deixarem escravizar pelo Ego, que não foi domesticado a tempo…”. Veio-me à mente Citadelle, de Saint Exupéry (1900-1944), várias vezes presente nos posts semanais desde a sua origem, que remonta a Março de 2007. Uma frase vinda de sua irmã, Simone de Saint Exupéry, pesquisadora que colaborou na elaboração de Citadelle, define a importância da obra. Afirma: “É impossível esgotar as riquezas dessa obra densa e profunda, que aborda todos os problemas do destino humano e do condicionamento do homem”.

As considerações a respeito da velhice em Citadelle têm aplicação na atualidade. Relembrando, o personagem principal da obra em pauta é um senhor do deserto, à semelhança de um rei. Nas narrativas na primeira pessoa do singular, Saint-Exupéry tece suas considerações sobre os mais variados temas que permeiam a humanidade.

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes: Sonatina à la Mozart (1951), na interpretação de J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4

“Naquela noite, ao descer da minha montanha pela encosta onde já não conhecia mais ninguém, como um homem já levado para a terra por anjos silenciosos, senti o consolo de envelhecer. E de ser uma árvore pesada com seus galhos, já toda endurecida por protuberâncias e rugas, e já como embalsamada pelo tempo no pergaminho dos meus dedos, e tão difícil de ferir, como se já tivesse me tornado eu mesmo. E eu tecia minhas reflexões: ‘Aquele que já envelheceu assim, como poderia o tirano aterrorizá-lo com o odor dos suplícios — que é aquele do leite azedo — e mudar nele qualquer coisa, já que sua vida ele a mantém no passado, como um manto desamarrado que só permanece preso por um cordão?’ Será que já estou assim guardado na memória dos homens? E nenhuma renegação da minha parte teria mais sentido. Também senti o consolo de estar livre das minhas amarras, como se tivesse trocado toda essa carne enrugada pelo invisível, assim como as asas. Como se eu estivesse finalmente caminhando por conta própria, na companhia daquele arcanjo que tanto havia procurado. Como se, ao abandonar meu velho invólucro, eu me descobrisse extraordinariamente jovem. E essa juventude não era feita de entusiasmo, nem de desejo, mas de uma serenidade extraordinária. Essa juventude era daquelas que se aproximam da eternidade, não daquelas que, ao amanhecer, enfrentam os tumultos da vida. Era de espaço e de tempo. Parecia-me que, ao ter concluído meu processo de formação, eu estava me tornando eterno”.

Estou a me lembrar do meu saudoso Pai, que morreu dias antes de completar 102 anos (1898-2000). Entendia a velhice como uma dádiva concedida por um Poder Maior. No prefácio do seu último livro, escreveu: “Finalizo esta minha pequena biografia declarando que em 31 de maio de 1999 partiu para a Pátria Celeste aquela que durante 67 anos iluminou minha alma e encheu de infinito amor meu coração. Na prece diária que consagro a Deus, repito o apelo que Ana Madalena Bach fazia a Deus, mudando o nome de Sebastian por santa Alá, porque era por Alá que eu carinhosamente a chamava” (José da Silva Martins, “Breviário de Meditação”, São Paulo, Martin Claret, 2000).

Aos 88 anos acredito firmemente na denominada juventude da idade madura, que pode ser prolongada desde que haja a permanente motivação mental, apesar de esta ser em ritmo menos acentuado. A lendária pianista e professora francesa, Marguerite Long (1874-1966), com quem tive o privilégio de estudar (1958-59), afirmava acreditar que “quem é jovem é para sempre”, e ela o era em suas atitudes.

Clique para ouvir, de Gabriel Fauré, 4ème Nocturne, na interpretação da insigne Marguerite Long. Gravação realizada em 1937:

Marguerite Long plays Fauré Nocturne no. 4 in E flat major

Readers requested a second post on old age following my previous one based on the writings of La Rochefoulcald. For this one, I have chosen to focus on the reflections on old age found in Saint -Exupéry’s *Citadelle*.