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Quando a recepção aos textos precedentes ganha potencial relevo

É o insatisfeito, como era natural,
que junta alguma coisa à realidade;
desde que o homem se encontre bem de vida,
a força que o levava a criar,
seja qual for o domínio,
afrouxa e estaca.

Agostinho da Silva
(“Sete cartas a um jovem filósofo”)

O blog sobre a criação na juventude da idade adulta e na maturidade da idade adulta provocou inúmeras mensagens, sendo que a do compositor e pensador francês François Servenière foi de tal abrangência e dimensão que mereceria ser exposta ao leitor. Aguardei o término das festividades do Natal e do Ano Novo para publicá-la. Servenière tece comentários sobre o texto do médico e especialista Elliot Jaques, tema do blog de 15 de Dezembro, acrescentando dados que certamente despertarão atenção especial dos seguidores de meu blog semanal. O pensamento de Servenière leva sempre a um amplo campo reflexivo, passível de ser polemizado. Essa postura é um dos fatores de interesse de suas mensagens. Um privilégio para mim tê-lo tantas vezes como partner de meus blogs. Abrimos pois 2019 com tema relevante. François Servenière expõe:

“Fiquei interessado pelo artigo que encerrou a série sobre o jovem compositor português António Fragoso, morto precocemente vítima da gripe espanhola em 1918, na idade de 21 anos. Seu post abordou temas profundos e, como sempre acontece com seus textos, parte-se de um tema particular para se chegar à reflexão geral.

Primeiramente, entendo de interesse todos os comentários efetuados pelo médico canadense Elliot Jaques sobre a crise do meio da existência.

Concernente à criatividade e às idades mais favoráveis, tinha opiniões de certa forma estanques quando via todos esses gênios da música, da pintura e da literatura atingidos por alguma moléstia e abatidos pela morte antes dos quarenta anos. Estavam eles, como todos os criadores, aliás, imersos ainda jovens no efeito turbo dos hormônios do crescimento. Sabemos que a produção desses hormônios, verdadeiras anfetaminas destinadas ao crescimento e à reprodução da espécie no período em que os gametas têm mais potencial, diminui no sangue nas fronteiras dos trinta anos. Seria imaginar que os hormônios fizeram seu trabalho de transmissão do que há de melhor do DNA e que, passado esse período, o corpo humano não tivesse mais nenhuma utilidade para a continuação da espécie. Essa situação hormonal leva-me a pensar nos salmões subindo com energia delirante os rios e cachoeiras mais difíceis do Grande Norte – após um a três anos nos oceanos – até o lugar onde nasceram, a fim de desovar e, após, deixarem-se morrer no local, esgotados e não mais servindo para qualquer outra atividade, tendo pois completado o ciclo das gerações.

Essa metáfora tem relevo quando estudamos a vida de dois dos maiores gênios da musica em quantidade e em qualidade, Mozart (35 anos) e Schubert (31 anos). Morreram, cérebros e corpos esgotados pela vida criativa alucinante. Em ambos os casos, 626 e quase 1000 opus, respectivamente, existências abreviadas que ensejam algumas estatísticas musicologicamente comprovadas sobre os dois e outros criadores de grande talento que morreram precocemente:

- começaram a compor muito jovens;
- escreveram delirantemente, arruinando suas saúdes;
- repetiram-se inúmeras vezes, sendo que algumas obras ‘intermediárias’ serviram de rascunhos e de maquetes para as obras-primas que viriam a seguir, as cumeeiras criativas;
- viveram em períodos onde a esperança de vida era frágil (30-40 anos) e tinham consciência aguda da brevidade da existência.

Havia a percepção clara e generalizada de que o corpo humano não estava preparado face às grandes pandemias que assolavam a Europa periodicamente, a aumentar paradoxalmente a pujança criativa, pois sabiam que o fluxo da ampulheta seria rápido e desfavorável. Acredito com convicção que a vida criativa desses compositores, prematuramente desaparecidos, assemelhar-se-ia a um gigantesco tornado e que o término do fenômeno estaria por volta dos 30 anos.

Uma certa geração de extremistas e radicais do século XX acreditava que, ao encurtar a existência por conduta desregrada, haveria acesso mais rápido à consagração universal e à elevação ao panteão dos séculos… Nada é menos exato, se falarmos unicamente da técnica e da semântica, da organização, da conceitualização, da elevação da alma, do gênio artístico, tendo-se como referencial absoluto os mestres excelsos dos séculos passados. Para esses arrivistas suicidas em busca de um sucesso rápido e retumbante a partir do escândalo (droga, a vida outlaw, hoje o pomo chic), constata-se claramente a flagrante decadência ou hecatombe criativa em comparação aos gênios que permaneceram.

Trata-se de um eufemismo de época, pois o show business mui raramente apresenta o talento encontrável em tempos idos na Idade Média, na Renascença, no período clássico e mesmo na contemporaneidade, naquilo que denominamos arte séria (sob o aspecto da linguagem). Há outra realidade igualmente exemplar: a facilidade econômica das sociedades modernas afunda o talento artístico, assim como deteriora os comportamentos. Esse fenômeno ocorre, de preferência, quando as gerações pertencentes às sociedades ocidentais atingem a idade adulta.

Na verdade, entre os contemporâneos de Mozart (1756-1791) e Schubert (1797-1828), um século antes da profilaxia das vacinas, o stress vital devia estar no seu máximo. Pouco se fala das catedrais, construídas num período de um optimum medieval, época provavelmente mais calorosa do que a nossa, pois construídas nesse fervor artístico sob a égide do empenho coletivo de várias gerações de artesãos-artistas, poupados que foram do egoísmo contemporâneo das sociedades de super consumo. Criatividade, vida curta ou longa? Debate um pouco defasado quando relatamos as obras primas da antiguidade. No caso dos dois compositores mencionados, os últimos retratos de Mozart evidenciam traços de uma pessoa com mais de 70 anos, a se pensar nas fisionomias da atualidade. Estafado ao extremo, pai de oito filhos, dos quais apenas dois chegaram à idade adulta.

Fala-se da Pequena Idade Glacial para o período entre 1350 a 1900. Durante esse espaço de tempo, a mortalidade infantil foi enorme, assim como a fertilidade para assegurar a sobrevida da espécie, sendo que a esperança de vida se restringiu ao seu nível mais baixo, comparável àquele dos homens da pré-história. As pinturas de Hieronymus Bosch (1450-1516) evocam um período muito frio, quase glacial. Poder-se-ia pensar que o gênio criativo tenha sido correlativamente fraco. Pois o que aconteceu foi o contrário. Incontáveis os gênios artísticos e filosóficos que surgiram nessa Pequena Idade Glacial. Precariedade de vida pareceria associada a uma energia vital pujante do gênio criativo levado ao extremo…

Socialmente poderemos fazer um paralelo com a soma imensa das grandes obras produzida sob regimes totalitários. A restrição pareceria ser parâmetro importante. Mas, e a liberdade? É bem difícil responder abruptamente. A se considerar conjunturas históricas com tais diferenciais de saúde pública, de sistemas políticos, poder-se-ia considerar uma idade ideal para a criatividade? O que é certo é que, atualmente, o gênio é inversamente proporcional ao conforto a beneficiar criadores. Mais eles são inflados, incensados, menores esforços eles fazem para sair da rotina, do comum, das banalidades”. Em blog bem anterior (vide O Criativo – Quando apropriações estranhas criam distorções. 25/04/2009), considerava a apropriação indevida da palavra criativo, há tempos tão a gosto do profissional de propaganda e marketing. Vulgarizaram o termo. A publicidade atual evidencia tantas e tantas vezes o caminho da repetição em todas as áreas, pois se uma publicidade ganha grande visualização, outros “criadores” das muitas empresas, para produtos da mesma área, seguem o abominável caminho da repetição. As empresas a abrigarem “criadores” não estariam nessa zona “inflada, incensada, rotineira, banalizada, de conforto”, como expõe, sobre outra égide, Servenière?

O pensador francês prossegue: “O show business é o enterro da arte excepcional do passado. Quando se fundem na mesma expressão social, negócios e criação, o resultado é uma linguagem empobrecida no limite da precariedade, do sucesso fácil. A frase imbecil ‘todo mundo é um artista’ simboliza a triste realidade”. O funk não representa o que de mais desprezível existe sob o rótulo inapropriado de manifestação musical?

Servenière continua: “Uma conclusão rápida deve, pois, nos induzir à ideia de que as piores condições de vida aumentam consideravelmente o instinto criativo, que é integralmente relacionado ao instinto vital. Esse instinto pode atingir seu ápice aos 20, 40, 60, 80 anos. É evidente que a juventude transmite uma energia eruptiva em suas obras. Mas seriam elas profundamente pensadas, organizadas, arquitetadas, perenizadas? Enfim, a ciência e o saber acumulados durante a senectude verão nascer produções raras, que terão certamente maior pertinência. Não obstante, haveria a necessidade de o artista ter uma longa existência e saber organizar socialmente seu viático (sucesso, ensino, negócios, outro métier…) para ainda persistir a vontade de criar aos 80 anos. Os insucessos potenciais e recorrentes da vida podem reduzir toda vontade criativa a zero muitíssimo antes da chegada à idade avançada. Quantos não são os artistas que param toda a atividade bem rapidamente diante de um fracasso e partem para outra ocupação? Uma imensa maioria. Nem o talento, nem a força do talento, nem a pujança criativa renovada são ofertados a todo mundo. Na idade de 60 anos, os resistentes às vicissitudes da vida de artista são exceções em suas gerações.

Basicamente não se pode sinceramente criar grandes obras sem que se seja um faminto pela vida. Pareceria evidente. Sob outro aspecto, a depressão destrói tanto o instinto criativo como a vitalidade.

Numa outra apreensão, a luz do sol tem papel fundamental no humor das pessoas, terapia para as depressões sazonais, segundo confirmações da medicina desde o fim do século XX. O outono e o inverno nos deixam sombrios, enquanto a primavera é a fonte da juventude, de criatividade, de fluxo de hormônios, mercê do aproveitamento pleno da seiva. Quantos não foram os artistas do passado que, em carruagens, desceram às terras do Mediterrâneo ou realizaram a curta travessia do Mare Nostrum rumo ao Norte da África, ou mesmo atravessaram oceanos em busca de outros hemisférios, simplesmente para evitar que o ato criativo tivesse uma queda? Legiões. Não por acaso, a Califórnia tornou-se um dos centros mais criativos do planeta nas últimas décadas… Cria-se mais em espaços de bom humor e energia, geografias essas onde o sol nos invade com excesso de Vitamina D. No passado há exemplos dessas cidades florescentes, plenas de sol benfazejo: Roma, Florença, Atenas.

Se essa apologia ao sol é válida, consideremos que o Astro Rei representa o exemplo da superficialidade, do descompromisso, enquanto a pouca luz existente nas estações frias da nossa Europa favorece a introspecção e o aprofundamento. O hedonismo se opondo naturalmente à austeridade. A metáfora é possível e contraditória, praias e mosteiros. Ambos favorecem, à sa manière, a criatividade, embora por caminhos rigorosamente diferentes.

Ao observarmos esse parâmetro climático para falar sobre criatividade e hedonismo, emergem dois polos essenciais da cultura humana, aquele do norte – países frios – outro do sul – países quentes. Considerando a concepção europeia de arte, há forma, estilo, ambiente que poderíamos considerar como mediterrâneos, tendo como centro a Itália, assim como outra, nórdica, centrada na Alemanha. Duas culturas extraordinárias, nascidas na Europa e espalhadas para o mundo. A Itália e a Alemanha resumiram as oposições de estilo e pensamento. J.S.Bach (1685-1750) e Antonio Vivaldi (1678-1741), Richard Wagner (1813-1883) e Giuseppe Verdi (1813-1901) não seriam exemplos nítidos?

A cultura mediterrânea pareceria mais superficial e hedonista, enquanto a nórdica mais cerebral e conceitual. Encontraremos grande quantidade de músicas muito sensíveis na Itália, berço histórico da ‘lacrimosa’, enquanto a Alemanha nos oferecerá as formas musicais mais científicas, pensadas, organizadas e com resultados surpreendentes. A ciência pareceria alemã, a sensibilidade, italiana. É claro que essa definição esquemática se torna simplista. Há o contraexemplo, pois gênios italianos serão considerados ‘alemães’ e esses, ‘italianos’. São incontáveis os ‘vazamentos’ culturais e assimilações mútuas.

Na arte, como na luz, há todas as cores do arco-íris, todas as gradações possíveis, todas as nuances regionais que nos induzem a pensar que não existem regras absolutas… Seria um erro se, ao contemplarmos o globo terrestre e a disposição dos países, nos dispuséssemos a acreditar que a influência do sol determinará a criação de tendências maiores ou menores. Dir-se-á que tal estilo, tal caráter é francês, alemão, russo, chinês, mexicano, brasileiro, português, espanhol, americano, africano, etc, etc. Muito sol provocaria a preguiça, a fadiga e a hedonismo, e muito frio congelaria o cérebro. Os países temperados são os privilegiados sob a esfera da criatividade: nem tão frio, nem tão quente. Não se trataria apenas de uma questão da personalidade individual, como se constata em todas as partes do mundo. Há inúmeros exemplos que estabelecem as exceções nas civilizações habituadas aos extremos…

Evidentemente, podemos analisar a personalidade individual, em todas as suas conjunturas, como integrante da vontade individual, mas que será duramente impactada pelo meio onde ela emergir. Seria um acaso o aparecimento de gênios e grandes artistas, durante séculos, em Paris, Roma, Moscou, Londres, Amsterdam? A política, a abertura de espírito e a sensibilidade dos príncipes, a riqueza do comércio, o limite das populações e as geografias climáticas favoráveis, a curiosidade das massas, a filosofia e o pensamento dominante do entorno (todos parâmetros interdependentes) tiveram papel fundamental na história da arte e não podem ser desprezados. O artista ex nihilo não existe, aquele que surge a partir no nada. Ele vem de longe, de alguma parte, de uma forja cósmica social e universal, potencializada pelo tempo e pelas gerações. É ele filho, produto de um ambiente propício, de um acúmulo de camadas, de uma predisposição mental certa, mas também de uma cultura. Ele passará ao lado de seu destino, ou não. O acaso e a necessidade farão sua obra no segmento biológico que constitui a sua vida” (tradução: JEM).

The posts about the Portuguese composer António Fragoso’s untimely death and about the Canadian psychoanalyst Elliot Jacques (creativity at different stages of life) has been given special attention by the French composer François Servenière, who sent his comments on the matter: effects of hormones on creativity, celebrity and success breeding repetition and superficiality, climatic cold and heat shaping creative thinking, the impossibility of separating an artist’s’ mental disposition from his environment. Sometimes controversial, always thought-provoking, Servenière’s views will for sure capture the readers’ attention.

 

As distintas fases criativas

O sucesso final do trabalho criador da idade madura
depende da resignação construtiva face às imperfeições humanas
e às insuficiências de seu próprio trabalho.
É essa resignação construtiva que imprime doravante
a serenidade na vida e na obra.
Elliot Jaques

Os posts sobre o jovem compositor António Fragoso, que faleceu aos 21 anos vítima da gripe espanhola, possivelmente a maior pandemia da história, antagonizou opiniões. Juventude ou maturidade? Quais as fases da existência mais propícias à criatividade? Recebi inúmeras mensagens observando o fato e algumas sugerindo abordar o polêmico tema. Um dos e-mails, do professor titular da USP Gildo Magalhães, resume as muitas opiniões e indagações: “É mesmo curiosa a precocidade. Num outro polo, vamos encontrar aqueles que só na maturidade tardia terão suas melhores obras, como o escritor Pedro Nava, que desabrocha depois dos 70 anos”. Aguçando-me ainda mais, meu amigo Marcelo – encontro-o sempre na feira-livre de sábado – insistiu para que apresentasse em blog exemplos e o porquê das várias fases da vida representarem características tão diferenciadas e, em todas as etapas da existência, a possibilidade da criação “genial” existir.

Temática complexa e que exige debruçamento acurado. Estou a me lembrar de precioso estudo do médico canadense Elliot Jaques (1917-2003), cujos trabalhos inovadores incluem os concernentes à psicologia cognitiva. Em precioso artigo, “Mort et crise du milieu de la vie”, publicado em 2004 no livro “Crise, rupture et dépassement” (Paris, Dunod – Collection Insconscient et culture, 0rg. René Kaés, 2004), a reunir uma série de outros estudos pertinentes, Elliot Jaques penetra nesse misterioso campo da ideia a resultar na criação de uma obra, da juventude à plena maturidade, consubstanciada nos mais diferentes acervos, impactos e vivências que vão sendo acumulados pelo compositor, escritor, escultor, pintor, filósofo e tantos outros ligados à imensa área da Cultura, no caso, erudita. Durante os mais de onze anos de blogs ininterruptos, já mencionei reiteradas vezes reflexões do autor, contextualizando-as de acordo com os temas propostos. Não obstante as menções, a morte do talentoso compositor António Fragoso em plena juventude motiva uma maior atenção. Leitores atentos impulsionam-me a estender a temática.

Saímos da juventude do compositor António Fragoso (1897-1918) e penetramos nas fases seguintes da existência, pois Elliot Jaques, em seu precioso artigo, aborda a “crise do meio da vida”, a que se situa por volta dos 35 anos, e a da plena maturidade, nas fronteiras dos 65 anos, pormenorizando-se sobretudo na primeira.

Elliot Jaques observa que “aos vinte anos até o início dos trinta, a criatividade tem como característica ser inflamada. Ela é intensa, espontânea, a obra tem a possibilidade de ser definitiva. A maior parte desse trabalho parece ser feito inconscientemente. A produção consciente é rápida, e a velocidade da criação não sendo limitada que pela capacidade do artista registar materialmente as palavras ou a música que lhe servem de expressão”. O autor desenvolve a seguir as crises existenciais a partir da juventude, nomeando duas etapas sensíveis, a “juventude da idade adulta” e a “maturidade da idade adulta”, que terão intrínseca relação com a maneira de criar e o conteúdo da obra. Considera que, no meio da existência, o homem passa por dúvidas, questionamentos a envolver a criação e, por vezes, a perda de entusiasmo decorrente. Enumera quantidade de compositores, literatos, poetas, filósofos, pintores, escultores e outros artistas que, na fase dos 40 anos, passaram por situações que tiveram sensíveis consequências na obra criada.

Nas considerações de Elliot Jaques, a mudança que ocorre na mente do artista nessa fase tem como fator essencial o acervo adquirido, mais as experiências boas e más e a depressão que pode advir. Explica: “A criatividade nas fronteiras dos quarenta anos é ‘esculpida’. A inspiração poderá ser intensa e calorosa. O trabalho inconsciente não é inferior ao precedente. Mas uma grande distância separa o primeiro élan inspirador do produto criado e finalizado. A inspiração poderá surgir mais lentamente. Mesmo se houver brusco jorrar inspiratório, tem-se apenas o começo do processo da criação da obra. A inspiração inicial deve ser exteriorizada no estado bruto. Começa, então, o processo de formação e de construção do produto externo, por sistema de modelagem e remodelagem sucessivas da matéria. Utilizo o termo ‘esculpido’, pois a natureza do material do escultor – é no escultor sobre pedra que eu penso – obriga o artista a manter esse tipo de relação com o produto de sua imaginação criativa. Lá aparece toda uma interação entre, de uma parte, o trabalho inconsciente intuitivo, a inspiração, e de outra parte a percepção atenta do produto externo sendo criado e a sua reação a este”. Elliot Jaques considera raros os exemplos de obras elaboradas e ‘esculpidas’ durante a juventude. Considera: “A diferença no modo de trabalho próprio à juventude ou à maturidade da idade madura é o caráter rápido e ‘esculpido’ da criatividade. Consideremos a mudança concernente à qualidade e ao conteúdo da criatividade. A mudança na qual eu penso é a emergência de um conteúdo trágico e filosófico que conduz à serenidade na criatividade da maturidade da idade adulta, a contrastar com o conteúdo mais tipicamente lírico e descritivo nas obras da juventude da idade adulta”.

Seria plausível considerar que o criador na plena idade madura possa realizar o recolhimento, uma síntese dos procedimentos empregados ao longo da trajetória. Nesse contexto, Jean Gaudefroy-Demombynes considera que “a maioria dos grandes músicos românticos evoluíram, como Goethe, do romantismo ao classicismo, ou a uma espécie de classicisation do romantismo” (Jean Chantavoine et Jean-Gaudefroy-Demombynes. Le Romantisme dans la Musique Européenne. Paris, Albin Michel, 1955). Quando propus a Gilberto Mendes (1922-2016) a criação de um Estudo de Síntese para piano, a complementar a série de Estudos que o grande compositor brasileiro me dedicou a partir de 1989, sugeri que Gilberto empregasse os acordes que se lhe afiguraram icônicos durante sua longa existência. Surgiria o “Étude de Sinthèse” (2004) com referencial acréscimo, pois Mendes arpejaria esses acordes a buscar em suas recordações a fluidez sonora tão a seu gosto, ele que se mostrava um amante das ondulações dos Mares do Sul.

António Fragoso e tantos outros artistas não conseguiram ultrapassar a arrebentação que leva ao mar aberto, pois lhes foi negado o prosseguimento da existência. Todavia, tendo ultrapassado outras etapas da vida, o criador mereceria alcançar a serenidade, não sempre possível, mas almejada. Se a criação envolve mistério insondável, o destino reservado ao criador quanto às possíveis décadas acrescidas sobre o planeta consolidará escolhas e procedimentos.

Which stage of life is more favorable to creativity? Does the output of creative people increase, peak and decline as time goes by? Is it possible to stay creative throughout one’s life span? That’s the subject of this post., based on researchers of the Canadian psychoanalyst Elliot Jaques as stated in his article “Mort et crise du milieu de la vie”.

 

A morte de um jovem músico e a avaliação póstera


Fragoso,
alma subtil,
cedo desasada,
faz parte do coro de anjos.
Eurico Carrapatoso

Neste segundo post sobre o compositor português António Fragoso (1897-1918) abordaremos a avaliação que habitualmente é feita à obra criada na juventude, nas mais variadas áreas da Cultura, mormente quando abortada precocemente.

Admirador do pequeno e qualitativo legado deixado por Antônio Fragoso, intriga-me a avaliação da breve opera omnia, escrita na juventude por um criador de grande talento, que é abruptamente ceifado pelo infortúnio. Considerando-se alguns poetas brasileiros de inegáveis qualidades, como Castro Alves (1847-1871), Casimiro de Abreu (1839-1960), Álvares de Azevedo (1831-1952), Augusto dos Anjos (1884-1914) e outros mais, assim como o compositor brasileiro – nascido na Itália – Glauco Velásquez (1884-1914) e o também compositor belga Guillaume Lekeu (1870-1894), verifica-se que há sempre a perspectiva da projeção, de um vir a ser imaginário. Ambos os músicos deixaram criações de alto nível que integram repertórios, sendo que a Sonata para violino e piano em Sol Maior de Lekeu (1891-1893), dedicada ao grande violinista Eugène Isaye – que fez sua estreia -, é uma das mais importantes obras do gênero da segunda metade do século XIX.

Numa outra categoria, há aquele que simplesmente “morre” para a atividade que o consagraria e as décadas vindouras dar-lhe-ão a aura da imortalidade. Arthur Rimbaud (1854-1991) encerra sua criação poética em 1875, aos 21 anos de idade, e sua vida após essa data estará marcada por incontáveis aventuras e desacertos, que o levariam a inúmeros países da Europa, África e Ásia.

Se figuras como Mozart (1756-1991) e Schubert (1797-1828) excedem nas criações até os 21 anos, num outro patamar surpreende a precocidade vocacional de António Fragoso. Considerando-se Beethoven (1770-1827), a precocidade teria sido menos favorável: os três Trios op. 1 foram escritos em 1795 e suas primeiras Sonatas para piano datam do mesmo ano. Debussy (1862-1918) terá, como obras juvenis que perduraram pela qualidade, principalmente as inúmeras melodias que compõe, já a saber escolher poetas que também permaneceriam, como Paul Verlaine, Théophile Gautier, Leconte de Lisle, Théodore de Banville, Paul Bourget…

Os exemplos mencionados, entre incontáveis outros, servem apenas como amostras para a avaliação póstera. Se considerarmos que Jean-Philippe Rameau (1683-1764) compõe aos 21 anos a sua primeira Suíte em lá menor para cravo, que surpreende com um Prélude absolutamente inovador para o período (1706), vindo a escrever sua última ópera – Les Boréades - aos 80 anos, a menção da Suíte em questão “teria” menor interesse para os intérpretes e estudiosos do que aquelas compostas em 1724 e 1731. É humana a tendência de não se valorizar determinadas criações da juventude, quando as que se sucedem trazem contributos inquestionáveis quanto à estrutura, à forma e aos conceitos de um autor que permanecerá na história.

Seria possível entender que a morte, advinda no tempo em que a criação musical começa a se expandir de maneira plena, estimule até uma “benevolência” póstera com o multum in minimo deixado por um compositor. Sob outra égide, a qualidade é a salvaguarda da perenidade. Vocações ceifadas precocemente, como as de António Fragoso, Glauco Velásques e Guillaume Lekeu, continuarão a despertar interesse. No estudo Luís de Freitas Branco e António Fragoso: análise comparada de obras para piano (“António Fragoso e o seu tempo”, Direcção de Paulo Ferreira de Castro, Lisboa, CESEM, 2010), a pianista Ana Telles traça criteriosa comparação entre obras para piano de António Fragoso e de seu mestre, Luís de Freitas Branco (1890-1955), com apenas alguns anos a mais. Este acreditava firmemente nos dons musicais do jovem discípulo. Uma visão de “futurologia do passado” poderia antever uma evolução de Fragoso em direcionamento bem inovador. As criações do infortunado jovem apresentam claramente o caminhar seguro.

Se a preferência ao que vem de França é sensível em algumas de suas composições, não se descarte – o que evidencia uma cultura invulgar do jovem Fragoso – uma preocupação com o nacional. Na mesma publicação, José Maria Pedrosa Cardoso, em seu precioso artigo, António Fragoso e a música portuguesa, observa: “Na realidade, António Fragoso, distinguindo uma música nacional baseada em temas populares e uma música nacional original, antecipou de algum modo a postura de Fernando Lopes-Graça sobre a matéria, ao expor reiteradamente um nacionalismo de raiz folclórica e um nacionalismo étnico-cultural”. O prolongamento da existência teria forçosamente libertado Fragoso das amarras a que fatalmente todo compositor de mérito se submeteu durante arroubos juvenis num fervilhar criativo. Só após a arrebentação chega-se ao mar aberto e o criador passa a encontrar seu estilo num longo processo de decantação.

Louve-se o empenho em Portugal em divulgar, editar e gravar a obra de António Fragoso. Os centenários de morte de um mestre accompli, Claude Debussy, e de uma promessa-realidade, que foi abortada pela fatal gripe pneumónica de 2018, estimulam as mentes.

Que perdure a sua obra precocemente afirmada, se estimule a divulgação da sua música e do seu nome e se reconheça em Portugal e no mundo o talento do jovem que a morte ceifou na mesma onda que arrastou outro músico notável que foi David de Souza (1880-1918) e um enorme pintor, igualmente jovem, que foi Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918).

The second post about António Fragoso discusses how untimely death can be an essential factor in evaluating the production an artist leaves behind. Could the legacy of those who died young win the benevolence of critics? On the other hand, isn’t it true that those who have lived long enough to establish a style of their own may have their juvenile works neglected? The reason why António Fragoso’s output — at a time when his style definition was still unclear — continues to be studied and praised is due to one reason only: his immense talent, as shown by the soundness of his musical writing and the intellectual curiosity that surfaces in his many letters.