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Santos festeja seu compositor maior

Estilo é técnica. Uma técnica serve a um só estilo, do qual é consequência.
Ou bem ou mal, com muito ou pouco estudo das técnicas
– vale dizer estilos –
de composição, acabaremos, através do trabalho constante, adquirindo, construindo nosso estilo,
nossa técnica particular para esse estilo.
Gilberto Mendes
(“Uma Odisséia Musical – dos mares do sul à elegância pop/art déco”, São Paulo, Edusp – Giordano, 1994)

As comemorações em torno do centenário de Gilberto Mendes são motivo de orgulho para o Brasil, pois Gilberto Mendes foi sem dúvida um dos mais importantes compositores pátrios da segunda metade do século XX. Livre das amarras que o poderiam aprisionar a uma só corrente musical, Gilberto Mendes navegou por várias técnicas composicionais. Academicismo inicial, rigor dos ensinamentos aprendidos em Darmstadt, minimalismo e, a preponderar, o amor ao descortino das correntes outras, foram fatores fulcrais para a sua criatividade plena.

O Festival Gilberto Mendes que se inicia no dia 7 de Outubro em Santos traz diversificação a evidenciar as muitas facetas de Gilberto Mendes. Tenho o privilégio de abrir as festividades musicais a partir de um recital em que apresento não apenas dez criações de Gilberto, mas igualmente obras de autores que permaneceram como ícones para o compositor.

https://www.santos.sp.gov.br/?q=hotsite/centenario-gilberto-mendes

Do livro de Flávio Viegas Amoreira, ilustre escritor, poeta e crítico literário, “Gilberto Mendes – Notas Biográficas” que terá em sua segunda edição a ser lançada no dia 14 (vide programação) um artigo em que historio as 30 peças para piano que tive o privilégio de ser o dedicatário e de apresentá-las em público em primeira audição, retirei as apreciações que figuram no texto anexado à obra do autor santista e que se referem às 10 músicas programadas para o recital de abertura do importante Festival.

“Poderia dividir em dois grupos as composições que Gilberto me dedicou. Num primeiro grupo, vinte criações compostas entre as décadas de 1940-1950 e, num segundo, dez peças escritas a partir de 1985, para as quais o estímulo de minha parte provocaria a recepção plena de Gilberto. Todas têm uma história e, ao narrar, a origem das criações ficará documentada, mercê do convite do ilustre Flávio Viegas Amoreira para que escrevesse este anexo e, pela imensa admiração que ambos temos pela obra e trajetória de um grande amigo e incomensurável mestre, Gilberto Mendes.

Nas várias viagens a Santos no período de nossa docência na USP não poucas vezes visitei Gilberto. Certa vez, ao almoçar em seu apartamento indaguei-lhe sobre suas obras para piano de antanho. Disse-me sem hesitar que não se interessava por elas, pois faziam parte de uma fase remota, que estavam bem embrulhadas e guardadas em um baú. Tendo insistido, Eliane, sua esposa sempre atenta, convenceu-o a me mostrar aquelas criações. Deparei-me de imediato com o manuscrito, já bem envelhecido, da ‘Sonatina Mozartiana’, datada de 1951. Fui ao piano e decifrei-a diante do casal. Ao finalizar, Gilberto a sorrir afirmou: ‘Não é que ela é bonita!’. Fui lendo as outras obras e sugeri apresentá-las in totum no Festival Música Nova. Relutou inicialmente, mas encorajado por Eliane, aquiesceu. Interpretei-as todas em primeira audição em sua Santos, durante o referido Festival  (26/08/1991). Em seu substancioso livro ‘Uma Odisseia Musical – dos mares do sul à elegância da pop/arte-déco’ (São Paulo, Edusp, 1994), Gilberto escreve: ‘Ainda com referência ao pianista José Eduardo Martins, que já me encomendou tantas músicas, sou-lhe grato por haver tocado toda a minha obra inicial, do período de minha formação praticamente autodidata, que estava esquecida nas gavetas. Cheguei muitas vezes, a pensar em jogá-la fora. Mas alguma coisa me segurava, seria como jogar parte de minha vida, e nunca fui de rupturas com o passado’. Dessas obras, apresento habitualmente no Exterior a encantadora ‘Sonatina à la Mozart’, tendo gravado em 1996 em Sofia na Bulgária e incorporado posteriormente no CD “Retour à l’Enfance” (França, Esolem, 2019). Ao sair na Bélgica a edição da partitura, Gilberto entregou-me um exemplar com as palavras: ‘Com meus agradecimentos por esta descoberta arqueológica, e meu grande abraço sempre amigo’ (16/04/2003).

Clique para ouvir, de Gilberto Mendes, “Sonatina à la Mozart” na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=ZO0-u5kU5c4

Foi a partir de 1985 que as ‘encomendas’ surgidas em conversas, nas quais algum evento, data comemorativa ou peça tombeau eram temas habituais, que, nasceriam dez novas criações de Gilberto Mendes, algumas integrando hoje repertórios de vários intérpretes brasileiros e do Exterior. Algumas têm o culto ao minimalismo, ‘um gosto meu pela estrutura musical estática, repetitiva’, d’après Gilberto.

Em 1985 fui o responsável por um caderno de oito composições a homenagear o notável compositor romântico Henrique Oswald (1852-1931). Publicado pela USP, teria todas as composições em xerox dos manuscritos. Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Gilberto Mendes, Mario Ficarelli, Tsuna Iwami (Japão), Ricardo Tacuchian, Stephen Hartke (Estados Unidos) e Rodolfo Coelho de Souza, aceitaram a proposta. Partindo da consagrada criação ‘Il Neige’! do homenageado, Mignone comporia ‘Il Neige Encore’, Gilberto ‘Il Neige… de nouveau’ e Tacuchian, ‘Il fait du soleil’. No manuscrito autógrafo que recebi, Gilberto escreveria após o título oficial: ‘Quel froid! Mais je suis très bien chez moi… Et les pauvres, les chômeurs…’. A peça de Gilberto é minimalista, “parte do primeiro acorde de Il Neige”, como afirma Gilberto e, apresenta amplificação sonora e motívica nas diversas exposições ao longo dos compassos, através de engenhosa pedalização que leva à reverberação maior a propiciar ao todo uma concepção inusitada.  A primeira audição do caderno se deu durante o Festival Música Nova (São Paulo, MASP, 22/08/1985).

No centenário de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), coordenei a coletânea a ele dedicado, igualmente publicado nas mesmas condições pela USP em 1987. Os dez ilustres compositores convidados enviaram suas contribuições: Camargo Guarnieri, Aurelio de la Vega (Cuba-Estados Unidos), Edino Krieger, Gilberto Mendes, Ramón Barce (Espanha), Mario Ficarelli, Jorge Peixinho (Portugal), Almeida Prado, Roberto Martins, Wilhelm Zobl (Áustria). Apresentei a coleção em primeira audição durante o Festival Música Nova (São Paulo, Instituto Goethe, (23/08/1987). ‘Viva Villa!’ é possivelmente a peça para piano de Gilberto mais gravada e tocada no Brasil e no Exterior. Minimalista, apresenta vários ritmos brasileiros de índole popular utilizados por Villa-Lobos. O autor comenta: “Compus Viva Villa sobre acordes que já tinha prontos – também de um velho caderno de notas – e me pareceu ‘brasileiros’, com algo do Villa, no meu sentir’. Os segmentos não obedecem a rígidas repetições e, como último dos ritmos, Gilberto apresenta o da Bossa Nova. Perguntei-lhe o porquê. A resposta foi imediata: ‘Villa Lobos não teve tempo de vida para aplicá-lo’.

‘Um Estudo? Eisler e Webern caminham nos mares do Sul’ foi composto em 1988. Gilberto escreve: ‘O pianista José Eduardo Martins me pediu para compor um estudo. ‘Um estudo?’ repeti, aborrecido, já que há muito tempo não componho peças com títulos de formas musicais. Eu não ia compor um estudo, coisa nenhuma! Mas José Eduardo não desiste fácil, muito pelo contrário. E quando menos esperava, lá vinha ele a me pedir o tal estudo, explicava que era para tocar em Potsdam e Berlim, Alemanha Oriental (naquele tempo!), dentro de uma série de estudos que ele estava encomendando a vários compositores. Um dia contra-ataquei. Só se fosse um anti-estudo, algo bem fácil, com notas de valor igual, andante… mas José Eduardo achou ótima a ideia. De fato, sem querer, eu estava esboçando uma ideia musical. E até me pareceu interessante. Não abri mão, no entanto, de deixar a coisa vaga, no próprio título, e imaginei: ‘Eisler e Webern caminham nos mares do sul..’ (São Paulo, Cadernos Musicais, Outubro, 1990). A primeira audição se deu em Potsdam na antiga DDR, no Neuen Palais Sanssouci, aos 31 de Maio de 1989.

‘Estudo Magno, ao Magno professor em sua aula Magna’. A dedicatória foi dada a uma das mais importantes criações de Gilberto para piano. Entendo o ‘Estudo Magno’ como verdadeira obra prima, que faz jus estar entre os mais significativos do gênero em termos absolutos, opinião corroborada por músicos que ouviram a criação em Portugal, França, Bulgária, Romênia, Bélgica, Inglaterra e País de Gales, centros em que apresentei a composição. Historiando, diria que numa de minhas visitas a Gilberto em sua Santos, disse-lhe que fora convidado para a Aula Magna da ECA-USP, mercê de minha aprovação como professor titular. Daria uma palestra no auditório Camargo Guarnieri seguido de um breve recital. Nasceria, pois, o ‘Estudo Magno’, cuja estreia se deu no dia 4 de Março de 1993. São inúmeras as formulações técnico-pianísticas, mormente aquelas concernentes à denominada técnica dos cinco dedos. Gravei-o na Bélgica para o CD Estudos Brasileiros (Rio de Janeiro, ABM, 2006).

Clique para ouvir de Gilberto Mendes, Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois, na interpretação de J.E.M.:

338) Gilberto Mendes – Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois! – José Eduardo Martins – piano – YouTube

A amizade entre Gilberto Mendes e Jorge Peixinho era proverbial. Em Dezembro de 1994 Peixinho me escreve lamentando ‘a morte de nosso grande amigo Lopes-Graça’ (1906-1994), consensualmente o maior nome da criação musical em Portugal. Seis meses após era ele, Peixinho que partia. Ao saber do infausto acontecimento liguei para Gilberto. Com a voz embargada teve de desligar o telefone, em prantos. Retomamos minutos depois. Quase dois anos após a morte de Jorge Peixinho, recebi convite para recital de abertura do Orada Hansa Artística que seria realizado no Convento da Orada, em Monsaraz, no Alentejo, em Julho de 1997 e que contaria com a honrosa presença do Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio. Solicitei ao Gilberto um Estudo em homenagem ao nosso diletíssimo amigo Jorge Peixinho. Nasceria o ‘Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois’ in memoriam Jorge Peixinho, obra tombeau que foge aos ditames habituais. Preito sentido de Gilberto através de acordes em forma de coral que percorrem parte considerável do extraordinário Estudo. Elementos rápidos e metamorfoseados, caros na escrita composicional de Peixinho, entremeiam esses lentos acordes, assim como em outros segmentos, lembranças jazzísticas e da música norte-americana simpáticas aos dois compositores desfilam no percurso e, até, citação de passagem existente nos Funérailles de Franz Liszt, por duas vezes sedimentam o apreço ao amigo que se foi. Liszt está presente pois antes da criação dera recital no Museu Benedito Calixto em Santos e interpretei Funérailles. O recital em Monsaraz se deu aos 13 de Julho daquele ano. Gravei esse Estudo na Bulgária para o CD Estudos Brasileiros (Rio de Janeiro, ABM, 2006).

‘Étude de Sinthèse’ (2004) teve origem a partir da… síntese. Conversava com Gilberto, já na sua oitava década, sobre um derradeiro Estudo. Disse-lhe que gostaria de uma criação no qual ele colocaria os acordes que mais foram sensíveis em sua produção. Mencionei Wagner, Liszt, Debussy, Scriabine… que tinham lá suas predileções. Pensei receber um Estudo vertical, mas Gilberto os horizontou em forma de arpejos que deslizam… Estudo testamentário? Pode ser, pois sereno, envolvente, generoso como seu criador. Interpretei-o em turnê pela Bélgica, gravando-o em Mullem para o CD Estudos Brasileiros (Rio de Janeiro, ABM, 2006).

Consideraria um aspecto que ratifica a abertura de Gilberto Mendes, jamais preso a fanatismos, sejam eles ideológicos ou de tendências composicionais. Frases resumem bem o nosso entendimento e a liberdade que ele proporcionava ao intérprete: ‘A dinâmica entre ‘p’ e ‘mf’, você escolhe, menos no final que é ‘fff’. Tudo bem legato, não obstante eu não tenha feito as arcadas sobre as notas’, ao se referir ao ‘Étude de Sinthèse’. Sob outra égide, nas peças minimalistas, deu-me a liberdade em algumas delas de aumentar ou diminuir as repetições.

‘Largo do Chiado’ tem história singular. Daria recitais em Portugal comemorando 50 anos de meu primeiro recital em solo lusitano, aos 14 de Julho de 1959, na Academia de Amadores de Música em Lisboa a convite do insigne Fernando Lopes-Graça. Conversei com Gilberto e nasceria ‘Largo do Chiado’, breve homenagem do amigo. Composta em Dezembro de 2008, a peça evolui martellato uguale, senza espressione, a evocar nos compassos finais reminiscências do ‘Fado da Severa’, canção caríssima a Gilberto. A estreia se deu durante recital no Convento Nª Senhora dos Remédios em Évora aos 9 de Maio de 2009, interpretando-a a seguir em Tomar e Lisboa. Algumas das obras elencadas, assim como outras não apenas para piano, foram publicadas na Bélgica (Alain van Kerckhoven – New Consonant Music), mercê dos esforços do pianista e professor santista Antônio Eduardo.

Sempre a considerar o intérprete absolutamente necessário, mas num plano secundário em relação a obra a ser apresentada, pois transitório, entendo que determinadas criações através da história jamais viriam à luz se não houvesse o estímulo exterior, seja do intérprete ou vindo de outrem ou ainda de tantos fatores que levam o músico a compor. No meu de profundis apraz-me saber que o estímulo vingou e que fui o mensageiro temporário de todas essas trinta composições. Friso, se talento ou criatividade inexistirem, a criação se perderá no limbo da história. Pode ocorrer a permanência de um compositor durante certas décadas, mas só aqueles que conseguem ultrapassar a arrebentação, amparando-me numa imagem voltada ao mar tão amado por Gilberto, encontrarão o mar infinito. Galhardamente a obra de Gilberto Mendes navega nos ‘mares do sul’ em direção a tantos oceanos imaginários.

Rememorar essas relações musicais é um privilégio que dimensiona o entendimento compositor-intérprete. A corroborar o fato, mencionaria outras maiúsculas criações de Gilberto Mendes das quais participei como pianista: ‘Saudades do Parque Balneário para saxofone alto e piano’, ‘Canções’, ‘Longghorn para trompete, trombone e piano’, ‘Ulysses em Copacabana surfando com James Joyce e Dorothy Lamour’, ‘Concerto para piano e orquestra” e ‘Rimsky’, obra  apresentada em várias cidades da Bélgica com os integrantes do excelente Rubio Kwartet em 2003”.

J.S.Bach, “insuperável”; Franz Liszt, “fenomenal”; Claude Debussy, “fonte da música moderna”, Gabriel Fauré, “daria toda minha obra para ser o autor do Noturno nº4” e Alexandre Scriabine, “o transcendental, o misticismo eslavo contido em Vers la Flamme…”, são cinco de seus compositores eleitos e que povoavam os nossos diálogos. Completarei o recital a interpretar obras desses autores consagrados.

No próximo post comentarei o lançamento de “Gilberto Mendes – notas biográficas”, de autoria d0 ilustre Flávio Viegas Amoreira, livro que tenho o privilégio de participar escrevendo o anexo “Gilberto Mendes frente ao intérprete”. Farei parte da mesa redonda em torno do lançamento.

The city of Santos festively celebrates the centennial of the notable composer Gilberto Mendes. A Festival sponsored by the Santos City Hall will present a series of musical, literary and artistic manifestations in general. I will open the Festival by reading ten of the thirty compositions that Gilberto Mendes dedicated to me over decades of solid friendship.

 

O compositor e suas convicções

Se fazes, és;
Se não fazes, serias.
Agostinho da Silva
(Espólio)

O denominado Questionário Proust teve origem na Inglaterra nos anos 1860 (Confession album) e ganhou celebridade a partir das respostas às questões escritas ainda na juventude por Marcel Proust (1871-1922). Descobriu-o em 1886, ainda adolescente, num álbum da filha do futuro presidente francês Félix Faure, Antoinette. Proust em mais de uma oportunidade recorreu às respostas. Inúmeras figuras representativas em todas as áreas responderam ao questionário, nele inserindo aspirações, preferências diversas, estilo, gosto. Entre esses ilustres personagens encontramos Stéphane Mallarmé, Claude Debussy, Arthur Conan Doyle, Karl Marx, Paul Cézanne, Oscar Wilde… Deve-se, contudo, às respostas de Proust em períodos distintos a divulgação ampla do questionário, que revelou muito das personalidades daqueles que se propuseram responder às cerca de 30 questões formuladas. Tendo penetrado nas várias classes sociais e entretido escritores, artistas e figuras de destaque em tantas áreas, o posteriormente nomeado Questionário Proust ainda perdura, até como apanhado a servir para determinadas áreas, como a da psicologia. Igualmente ele é utilizado em vários veículos de notícias, mormente no hemisfério norte. Segundo o escritor e romancista escocês Gilbert Adair (1944-2011), “a vantagem dos questionários, na perspectiva financeira, se resume no fato de que figuras conhecidas se abstêm de serem pagas”. Apesar de ter diminuído o seu alcance no período das duas Grandes Guerras, ressurgiria na segunda metade do século. Como exemplo, a revista Vanity Fair, a partir de 1993, estendeu o alcance do questionário a um público abrangente.

O ilustre compositor Eurico Carrapatoso, com a verve que lhe é característica indelével, respondeu ao Questionário Proust que foi publicado recentemente no relevante “Diário de Notícias” de Lisboa (03/09/2022). Enviou-me a página e, após a leitura, solicitei ao dileto amigo a divulgação neste espaço. Gentilmente Eurico aquiesceu. O português castiço, entremeado de um sabor transmontano único, fez com que eu inserisse algumas notas de rodapé relativas às palavras inusuais em nossas terras.

“A sua virtude preferida?
O ouvido.

A qualidade que mais aprecia num homem?
O talento.

A qualidade que mais aprecia numa mulher?
O talento.

O que aprecia mais nos seus amigos?
Disponibilidade para ouvir, para falar ou para estar em silêncio.

O seu principal defeito?
Pouca resistência à tentação.

A sua ocupação preferida?
Compor.

Qual é a sua ideia de “felicidade perfeita”?
Caminhar à beira-Tejo, com sol, ou viajar em estradas secundárias pelo interior de Portugal, com chuva.

Um desgosto?
Perder uma ideia que estava na ponta da língua.

O que é que gostaria de ser?
Compositor com direito à preguiça. Deploro o tempo de negócio em que nos mergulharam, que nos retira o direito ao ócio e nos transforma, à viva força, em potros de competição dispostos em linha de montagem.

Em que país gostaria de viver?
Renúncia expressa de qualquer outro país. Começo a bocejar no preciso momento em que deixo o espaço aéreo de Portugal. Enfadado, só retorno à tranquilidade quando volto a pedir uma bica curta (1) numa esplanada alfacinha, tripeira (2) ou brigantina, tanto dá, com um coreto em Si bemol à minha frente.

A cor preferida?
A do Maio florido.

A flor de que gosta?
Angélica.

O pássaro que prefere?
Rouxinol na noite de Abril, a carriça (3) na alvorada, o tordo (4) no crepúsculo de Dezembro. O melro, primo do tordo? Esse, sempre.

O autor preferido em prosa?
Camilo.

Poetas preferidos?
Pessanha, Pascoaes.

O seu herói da ficção?
Davis, jurado número 8 em “12 Angry Men”

Heroínas favoritas na ficção?
Viridiana.

Os heróis da vida real?
Meus pais, meus irmãos, minha mulher e meus filhos.

As heroínas históricas?
Rainhas de Inglaterra, não, de certeza. Prefiro rainhas da vida real. Ocorrem-me duas senhoras sem direito a pompa, circunstância e toda a sorte de protocolos ajaezados, apenas no exercício do direito de resposta: Rita Machado, filha do escritor Dinis Machado (autor de “O que diz Molero”), na forma como acertou o passo a António Lobo Antunes ao defender a memória de seu pai e demais antepassados já falecidos. A dignidade da sua resposta é solar e sonora como um sino de bronze, a lembrar o tiro certeiro de David na testa de Golias. A outra heroína é uma leitora anónima de Setúbal que respondeu de forma mortal a Maria Filomena Mónica. A socióloga afirmara num dado artigo que “havia três pessoas cultas em Portugal, se tanto.” A leitora confirmou na semana seguinte àquela publicação que eram mesmo três, sem qualquer dúvida. E enumerou-as: “Uma das pessoas cultas é a Drª Maria Filomena Mónica, pois claro. A segunda pessoa culta é o Dr. António Barreto, seu marido. E a terceira pessoa culta sou eu, evidentemente.”

Os pintores preferidos?
Rego, Souza-Cardoso, Turner, El Greco, Parmigianino, Mantegna.

Compositores preferidos?
Pedro Faria Gomes, Lopes-Graça, Poulenc, Ravel, Debussy, Bach.

Os seus nomes preferidos?
Amélia e António.

O que detesta acima de tudo?
Pedantismo de queixo altivo, e, citando Debussy no seu questionário Proust de 16 de Fevereiro de 1889, les femmes trop belles.

A personagem histórica que mais despreza?
Frei Tomás de Torquemada, a representar todos os seres sinistros respaldados no poder instituído que, com base em efabulações e toda a sorte de banhas da cobra, se arrogam à autoridade moral de julgar os outros, apoucando-os, censurando-os, prendendo-os, torturando-os, assassinando-os.

O feito militar que mais admira?
Bafordo de Valdevez (5).

O dom da natureza que gostaria de ter?
Renovar-me e remoçar todas as primaveras como o freixo (6).

Como gostaria de morrer?
A rir.

Estado de espírito atual?
A sorrir.

Os erros que lhe inspiram maior indulgência?
Todo e qualquer desvio das linhas estéticas que vão bolçando da boquinha mimada e burguesa dos tempos que correm.

A sua divisa?
“Escreve música. Deixa lá a história”.

NOTAS:

(1)   Bica curta corresponde ao café curto.
(2)  Alfacinha e tripeira, alcunhas aos que nascem em Lisboa e Porto, respectivamente.
(3)  Carriça, pássaro canoro bem pequeno pertencente à avifauna portuguesa. Assemelha-se à nossa corruíra.
(4) Tordo, pássaro canoro com penas coloridas da dimensão aproximada do nosso sabiá.
(5)  A fim de se evitar o combate dos exércitos, acordava-se o torneio medieval, a possibilitar o desempenho de cavaleiros representando as facções. Feitos durante a fundação da nacionalidade portuguesa. Século XII.
(6)  Árvore que pode atingir 30 ou mais metros de altura.

Nesse clima de descontração, clique para ouvir, de Eurico Carrapatoso, O crocodilo, sexta peça das “Six Histoires d’Enfants pour amuser un Artiste”, na interpretação ao vivo de J.E.M. :

https://www.youtube.com/watch?v=mpiX2kyJA1M

The remarkable Portuguese composer Eurico Carrapatoso answered the famous Proust questionnaire (Confession Album) that was recently published in the prestigious Diário de Notícias of Lisbon. He authorized me to publish it in this space and through it we capture part of his thoughts.

 

Recente turnê pelo Brasil

Recente turnê no Brasil

Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado.
A arte exige uma liturgia,
um ritual, que se prende com a fonte
da dádiva e a aproximação ao amor.

Miguel Real (1953-)

Através de meu sobrinho, Ives Gandra Martins Filho, ministro do Tribunal Superior do Trabalho, tenho imenso gosto nesses últimos dois anos de trocar correspondência com a excelente pianista norte-americana Solungga Liu, Coordenadora da Área de Piano e Professora Associada de Piano no College of Musical Arts, Bowling Green State University, EUA. Solungga desenvolve uma bela carreira, tendo se apresentado nos cinco continentes não só como solista frente a renomadas orquestras, como em inúmeros recitais com ampla aceitação crítica e pública. Seu repertório extenso aborda tanto obras sacralizadas como, preferencialmente, as composições contemporâneas ou pouco executadas do repertório tradicional norte-americano, mormente criações do início do século XX. Dedicatária de criações de vários autores relevantes dos Estados Unidos, entre eles Steve Reich (1936-), Stephen Hartke (1953-), Gregory Mertl (1969-) Aaron Travers (1975-) e Eric Nathan (1983-), Solungga Liu visitou o Brasil pela oitava vez e, nesta última estada, participou do 5º Festival de Música de Câmara PPGM-UFPB em João Pessoa, na Paraíba, onde se apresentou como camerista, recitalista e professora. Após, apresentou-se em Brasília.

Nossa amizade, intermediada pelo sobrinho Ives Filho, deu-se através de um Estudo para piano de destacado compositor norte-americano, Stephen Hartke (1953-). Em 1985 coordenei um caderno de homenagens ao compositor romântico brasileiro Henrique Oswald (1852-1931). Naquele ano, Stephen Hartke estava a oferecer um curso na Universidade de São Paulo, no Departamento em que eu atuava. Convidei-o e, engenhosamente, Stephen compôs Template, criação bem contemporânea, mas estruturada a partir do Étude-Scherzo de Oswald, composto em 1902. A fotocópia do manuscrito original, que me foi presenteado pela neta do compositor, a saudosa Maria Isabel Oswald Monteiro, encantou Stephen, que fez minucioso recorte aproveitando-se de notas, compassos ou segmentos do estudo, uma “espécie” de kirigami, arte japonesa antiquíssima a partir de folha de papel harmoniosa e simetricamente recortada em seu interior. O leitor, através da imagem da primeira página de Template, poderá observar o processo utilizado. Apresentei as criações de Oswald e de Stephen Hartke no Festival Música Nova, dirigido pelo compositor Gilberto Mendes (1922-2016), em Santos e São Paulo no mesmo ano. De maneira magistral, Solungga Liu, intérprete de várias obras de Harke, executa na sequência os dois Estudos. Como curiosidade, Template foi o primeiro Estudo da coletânea que reuni e que se estendeu de 1985 a 2015, a corresponder a 30 anos do Estudo para piano nas fronteiras dos séculos. Recebi ao todo 85 criações vindas de inúmeros países.

Clique para ouvir, nas interpretações de Solungga Liu, os Étude-Scherzo de Henrique Oswald e Template de Stephen Hartke:

(268) Henrique Oswald: Estudo-Scherzo {Solungga Liu, piano} – YouTube

(268) Stephen Hartke: Template, from Post-Modern Homages, Set 1 {Solungga Liu, piano} – YouTube

Reiteradas vezes neste espaço tenho ressaltado os vários caminhos a que um intérprete se propõe. Aqueles que, majoritariamente oriundos dos mais afamados concursos internacionais de piano, tendem a prosseguir suas carreiras vitoriosas para um público maior, tendo como prioridade o repertório sacralizado, desfilarão seus talentos cultuando as obras preferidas das plateias do planeta. Todavia, acredito que há um dom inalienável, nem sempre presente, o da curiosidade. Se bem pensarmos, o repertório sacrossanto, importantíssimo e que deve fazer parte da seleção de composições de todos os intérpretes, é a ponta do iceberg. Há incontáveis tesouros ocultos de antanho que estão sendo revelados lentamente e com critério, e esses só serão visitados se o intérprete tiver o dom da curiosidade. Buscar, pesquisar e revelar preciosidades mantidas em tantos arquivos espalhados nas bibliotecas do mundo.

Não obstante, há também nesses acervos enorme quantidade de composições não bafejadas pelas musas, obras sem um valor escritural maior, apenas fruto do ofício de compor. Independentemente do passado qualitativo, olhar para o presente é fundamental, mas essa visão é mais complexa devido à Torre de Babel representada pela prolixidade de incontáveis tendências composicionais existentes, muitas delas aparências da qualidade. Vive-se no tempo em que cada compositor tem sua técnica particularizada, diferentemente do que ocorria nos séculos passados, em que forma e conteúdo mantinham uma certa homogeneidade. Ao intérprete cabe distinguir e escolher as obras que, a seu ver, contenham significância.

Solungga Liu soube escolher. Admiro sua acuidade frente às tendências. Em seu repertório perpassam criações contemporâneas arrojadas sob a ótica escritural, mas também não despreza, antes cultua, compositores que apresentam linguagem que poderíamos considerar como neoclássicas ou neoromânticas. Pesquisou também o passado norte-americano e, em seus recitais, não deixa de divulgá-lo, caso específico da compositora Amy Beach (1867-1944).

Clique para ouvir, de Amy Beach, Ballade op. 6, na interpretação de Solungga Liu:

https://www.youtube.com/watch?v=_KK3R1bxJaM

Acredito firmemente que o compositor não pode ser julgado pejorativamente por não aderir ao experimentalismo. Se admiro profundamente o compositor Jorge Peixinho (1940-1995), que seguiu os caminhos dos ensinamentos da Escola de Darmstadt na Alemanha (Internationalen Ferienkurse für Neue Musiky), não deixo de admirar Gilberto Mendes (1922-2016), que aprendeu as lições dos cursos proferidos em Darmstadt e frequentou posteriormente tendências múltiplas, sempre a compor criativamente. Tenho igualmente apreço, entre outros compositores, pelas obras do francês François Servenière (1961-), do nosso Ricardo Tacuchian (1939-), que criou técnica inovadora, e do português Eurico Carrapatoso (1962-), este, cultor de tantas técnicas de que remontam ao glorioso passado.

Solungga ficou hospedada em São Paulo, como habitualmente o faz, na residência de seu grande amigo Fernand Alphen, cidadão de grande cultura. Convidaram-nos para um jantar íntimo e enfim pudemos nos conhecer. Solungga interpretou admiravelmente composições contemporâneas de seu repertório e eu, algumas obras, entre as quais criações de Gilberto Mendes, neste ano em que se comemora o centenário do notável compositor santista. Regina e nossa filha Maria Beatriz também ficaram encantadas com as execuções e a simpatia de Solungga.

A mescla repertorial que a pianista realiza nesse árduo, mas prazeroso caminho da interpretação a torna uma artista completa. Se apresentou alguns dos Concertos para piano e orquestra consagrados pelo grande público, visitou nessa configuração criações de Lutoslawsky, Aaron Travers, Gregory Mertl.

Insere-se Solungga Liu entre aqueles que têm a visão multifacetada. Excelente pianista, distante dos holofotes irmanados com o egocentrismo, a pianista realiza suas interpretações com maestria, sem gestual pour épater les bourgeois, como dizem em França, e dotada de algo inalienável, a curiosidade.

Clique para ouvir, de Eric Natham, Remembrances, na interpretação de Solungga Liu:Eric Nathan “Remembrances”

https://www.youtube.com/watch?v=-UfPDiySsyg

For two years now I’ve been corresponding with the American pianist Solungga Liu, whom I had the pleasure of meeting at the home of a great friend of hers in São Paulo. In this post I comment on our meeting and some of Solungga Liu’s magnificent performances.