Navegando Posts em Música

Depoimentos que corroboram a edificação de um Mestre

Homem guiado por inabalável fé católica
e sem nenhuma convicção política,
colocando-se acima de quaisquer contingências,
pareceria ser um criador único,
a não ter jamais se submetido a nenhum sistema de criação
ou tendência que seja,
estruturado sobre suas próprias motivações sem renunciá-las,
buscando sempre transmitir uma mensagem de amor e de bondade.
Catherine Lechner-Reydellett

Os inúmeros depoimentos qualitativos sobre Olivier Messiaen, contidos em “Messiaen – l’empreint d’un géant”, tornam imperativo dividir em dois posts essas apreensões colhidas pela autora, Catherine Lechner-Reydellet, em um levantamento hercúleo, mercê da competência inquestionável dos depoentes, que agigantam a figura do compositor, tão bem captada no subtítulo do livro. Se no primeiro blog uma síntese dos textos de Lechner-Reydellet foi esboçada, os próximos dois posts complementarão a análise do precioso volume.

Observaremos conceitos emitidos por intérpretes, compositores e artistas outros, que foram alunos ou estiveram próximos de Olivier Messiaen. Esse trabalho de recolha de opiniões, por vezes coincidentes, outras trazendo novos caminhos para a construção do personagem, torna-se de grande valia, pois muitas lacunas existentes sobre o homenageado poderiam ficar perdidas para sempre. A visão de coetâneos amalgama-se naturalmente e de maneira verossímil à documentação “oficial”, vindo a enriquecer biografias. Traços inalienáveis da ação e do caráter são revelados e estarão doravante incorporados à figura estudada. Salvaguarda dos depoimentos estaria fixada na semelhança da narrativa exposta pelos depoentes em determinados segmentos. A escolha seletiva dos músicos e artistas, prerrogativa da autora, garante seguir o homenageado no hic et nunc, diferentemente das indispensáveis consultas às fontes primárias e outras tantas, que, necessariamente engessadas, não têm o “calor” de testemunhos confiáveis. Dos vinte e tais convidados por Lechner-Reydellet, selecionei segmentos narrativos, entendendo-os como contributos contundentes.

Primeiramente, Lechner-Reydelett apresenta depoimentos de organistas, pois Messian foi excelente instrumentista. Louis Thiry, após comentar o sagrado existente no órgão, expõe sua opinião: “O órgão não tem nenhuma pré-disposição especial para exprimir o sagrado: só os acasos da história, diria, fizeram-no adentrar as igrejas ocidentais”. Messiaen, católico de fé intensa, entendeu sempre a sacralização do instrumento e “de sua abundante produção organística, apenas duas peças não fazem explicitamente referência ao domínio do sagrado”, considera Thiry. Segundo o instrumentista, o fato de Messiaen ter sido durante décadas organista da Église de la Trinité marcou-o decididamente, inclusive a partir da qualidade, registros e possibilidades daquele instrumento. “O órgão da Trinité tornou-se para ele um campo de experimentação que, durante toda a vida, foi-lhe caro ao coração”, afirma Louis Thiry.

Raffi Ourgandjian, organista de origem armênia, traça aspectos de seu mestre: a necessidade imperiosa de saber ouvir, de apreender as vibrações, a profundidade da análise musical: “Existia em sua interpretação um fenômeno de magia para que compreendêssemos o senso do sagrado, do maravilhoso e do sublime, da poesia e do imaginário”. Ao analisar Orfeu, de Monteverdi, ou Tristão e Isolda, de Wagner, Ourgandjian observa um lado teatral de Messiaen, pois os alunos sentiam-se partícipes da cenas. Observa ainda um toque extraordinário de Messiaen ao interpretar as mais variadas obras para piano. Esse item é repetido através de inúmeros outros testemunhos. Todavia, o que mais marcaria o depoente seria o domínio do mestre no que concerne ao ritmo, por Messiaen considerado como essência essencial da música.

Loïc Mallié, organista e compositor, tece elogios sobre o professor: “Guardo uma lembrança que me comoveu quando de meu primeiro encontro em sala de aula. A acolhida tão simples, tão calorosa e o olhar do Mestre, que parecia atingir imediatamente o essencial”.

Olivier Latry, importante organista de sua geração, um dos titulares do órgão de Notre Dame de Paris, capta algo relevante concernente às improvisações no órgão da Trinité: “Maestria total de sua linguagem musical. Creio realmente que o órgão era para ele UM meio de expressão entre outros, mas não SEU próprio meio de expressão, sempre associado a um profundo sentimento religioso. Eu o vi, na tribuna da Trinité, ajoelhar-se durante a consagração, como exemplo. Tudo estava relacionado à sua fé; ele não tinha a menor necessidade de falar para que soubéssemos”.

O pianista Roger Muraro, um dos especialistas da obra de Olivier Messiaen, foi aluno de Yvonne Loriod e amigo de Messiaen. De interesse seus comentários sobre o compositor: “O tempo inexistia quando Messiaen ensinava as obras-primas da criação musical. Seus conselhos eram de ordem estética, jamais sobre a relação fé-música. Não empregava qualquer proselitismo. Messian dizia que o aspecto mágico dos contos de fada de sua infância reencontravam-se com força plena no catolicismo, verdade absoluta! Por vezes falava poeticamente para evocar a cor de um canto de pássaro”.

Ana Telles, pianista portuguesa de mérito que se dedica à música contemporânea, é professora da Universidade de Évora. Em seu depoimento, pormenoriza seus ensinamentos recebidos da intérprete ideal de Messian, sua esposa, a extraordinária pianista Yvonne Loriod. Com ela, Telles estudou parte do repertório do compositor. Interesse especial à explanação minuciosa de Ana Telles sobre a criteriosa didática de Yvonne Loriod, mas também a respeito de uma “exótica” maneira de diariamente estudar a denominada “técnica pura”, empregando dedilhados bem questionados. Ressalta que Yvonne Loriod realizava com dedicação extrema a revisão de todas as obras compostas pelo ilustre marido, a seu expresso pedido.

Depoimento da soprano alemã Sigune von Osten expõe seu minucioso trabalho junto a Messiaen em obras como Chants de Terre et de Ciel, Poèmes pour MiHarawi.

Catherine Lechner-Reydellet acarinha, não sem razão, o Festival Messiaen au Pays de la Meije, enfatizando sua importância, o apoio das comunidades em torno do Festival, apesar dos recursos modestos. Destaca o papel fulcral de Gaëtan Puaud, economista e apaixonado por música, na concretização do projeto. Tem interesse uma carta de agradecimento de Yvonne Loriod a Gaëtan Puaud. Nessa missiva, uma revelação sobre Messiaen: “A cada ano, desde 1950, ele peregrinava à La Grave e algumas vezes subia ao Lautaret e ao Galibier… onde se sentava sobre uma pedra diante da grandiosa paisagem, a fim de repousar lendo o teólogo Thomas Merton”. A seguir: “A fé, a natureza, o ritmo, os pássaros e as altas montanhas foram as fontes de inspiração de toda a obra de Olivier Messiaen”.

O organista e professor Michel Fischer, Mestre de Conferência na Universidade Paris Sorbonne, defendeu tese de doutorado sobre Messiaen, mormente a tratar da riquíssima visão rítmica do compositor. Em seu depoimento, explora a ciência plena de Messiaen sobre a rítmica grega e hindu, dela extraindo elementos essenciais em suas composições.

René de Obaldia, dramaturgo, memorialista, romancista e poeta, foi amigo de Messiaen. De seu profícuo relato ressalto pequeno segmento de missiva de Messiaen a ele dirigida: “Caro grande amigo, eis uma nova edição da obra-prima de minha mãe, escrita antes de e para meu nascimento e que influenciou fortemente minha vida. De Sapho à condessa de Noailles, passando por Louise Labé e Marceline Desbordes Valmore, todas as mulheres poetisas cantaram o amor. Só minha mãe cantou a maternidade…”. Cécile Sauvage (1883-1927), mãe de Olivier, escreveu inúmeros livros de poesia.

No terceiro e último post dedicado ao fundamental livro de Catherine Lechner-Reydellet, colocarei testemunhos fulcrais de outros ilustres intérpretes, compositores e artistas sobre Olivier Messiaen. Fica neste espaço um comentário preciso de Lechner-Reydellet: “Em sala de aula, Messiaen percorria todos os domínios do saber e da reflexão, a fazer, tantas vezes, referência aos grandes textos literários do passado, assim como às obras referenciais do presente. Para melhor transmitir seu conhecimento, explorava todos os campos de investigação possíveis, colocando à disposição de cada um os mecanismos que levavam a descobrir seus meios de funcionamento ou, então, de redescobrir e compreender as composições musicais essenciais que forjam as bases do saber, dando pois as chaves da compreensão de nosso universo musical”. Entendo basilares essas colocações, pois a Cultura Geral, tão decantada em tempos outros, embasada nos valores do passado ao presente, é pilar que corrobora a abertura do pensar. Sem ela, lacunas serão sentidas durante a trajetória de um músico. A presença de um grande talento musical não impede detectá-las, seja na interpretação, na composição ou na ação junto à sociedade. A força da mídia poderá negligenciar o fato, mas a lacuna instalada não passará incólume aos mais atentos.

In this post and in the next I come back to the book “Messiaen – l’empreinte d’un géant”, by Catherine Lechner-Reydellet, this time selecting some of the testimonies on Messiaen given by composers, musicians, friends and former students, adding to the understanding of this major twentieth-century composer. The author mentions that, as a teacher, Messiaen exhibited a vast scope of knowledge, quoting past and present literary texts, teaching his students to rediscover and consider the essential musical compositions that are the foundations of our musical universe. Personally, I see this transmittal of our cultural heritage as something of utmost importance, a real mind-opener that will reflect well on the work of future musicians.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Messiaen – L’empreinte d’un géant”

Falar da cor em Messiaen significa dizer
que a evocação da natureza, da atmosfera e do clima
forma um exemplo perfeito de inspiração que conduz à obra-prima.
Assim como a cor se situa no âmago da problemática do pintor,
assim também ela se apresenta como meio
de descoberta e sublimação na composição de Messiaen.
Catherine Lechner-Reydlett

Há livros biográficos que buscam retratar de maneira, a se esperar precisa, figuras marcantes da história da humanidade. Críticas ou laudatórias, as biografias sérias perscrutam desde as fontes primárias a outros variados mananciais que auxiliam a construção do eleito. O critério imparcial nem sempre está presente, o que, por vezes, inviabiliza avaliações.

A escritora e pianista Catherine Lechner-Reydellet, professora titular do Conservatório de Música e Arte Dramática de Grenoble, apresenta mais um livro sobre música, entre os vários ficcionais e poéticos de sua lavra, fazendo parte de um espírito multidirecionado. Em “Messiaen – l’empreinte d’un géant” (Paris, Séguier, 2008), a autora volta-se à tendência que tem adotado em obras anteriores sobre música, ou seja, textos pessoais e depoimentos de músicos que conviveram com  homenageados. Esse posicionamento pluralista e generoso nos induz a dividir o post em dois, um a abordar o que pensa Catherine Lechner-Reydlett após pesquisas aprofundadas e um outro a buscar a síntese dos ricos depoimentos, compartimentando-os em seus ineditismos, pois obviamente há nesses depoimentos opiniões convergentes. Sob outro aspecto, “Messiaen – l’empreinte d’un géant” pressupõe a admiração confessa da autora. A leitura do livro e o conhecimento prévio de muitas composições de Olivier Messiaen apenas ratificam a exatidão do subtítulo.

Olivier Messiaen (1908-1992) foi um dos mais influentes compositores franceses. Compositor, pianista, organista, regente e ilustre professor, Messiaen teve sob sua tutela no Conservatório Nacional Superior de Música e de Dança de Paris alguns dos mais ilustres músicos que se projetariam no cenário. Entre eles, Serge Nigg, Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen, Maurice Leroux, Mikis Theodorákis, Iannis Xenakis, Tristan Murail, Yvonne Loriod e o nosso saudoso e notável compositor José Antônio de Almeida Prado. Messiaen, católico convicto e amante inveterado da natureza, estabeleceu parâmetros inéditos para a composição e seu estilo rigorosamente pessoal causa até o presente admiração e reverência.

Catherine Lechner-Reydlett realizou trabalho exaustivo e profundo, a fim de levar ao leitor a diversidade criativa de Messiaen. Fê-lo bem, pois seus estudos levaram-na a apreender quase todas as facetas possíveis do grande compositor e, quando ausentes, complementadas nos depoimentos que serão tratados no próximo blog.

No fervilhar de tantas tendências musicais que grassaram ao longo do século XX, Olivier Messiaen estrutura um estilo a partir de uma fé católica imperturbável, “mesmo que esse engajamento nem sempre tenha tido defensores entre os puros agnósticos. Todavia, desperta a atenção, torna-se respeitado, pois forja uma trajetória original estabelecida com ciência e consciência, contribuindo para elevar a música francesa a um dos polos privilegiados da arte musical construtiva no mundo”, observa Lechner-Reydlet. A autora elenca uma série de contributos essenciais que deve ser consignada à ação de Messiaen. Entre esses, a estética fundamentalmente inovadora, devendo-se ao compositor duas grandes obras teóricas do século XX, “Technique de mon langage musical” (Paris, Leduc, 1944) e “Traité de rythme, de couleur et d’ornithologie – 1949-1992” (Paris, Leduc, 1994-2002). Após aprofundamentos voltados à métrica grega, aos neumas do cantochão e às linguagens de ilustres compositores que perduraram pela qualidade, assim como à rítmica de outros povos, Messiaen estabelece seus critérios inovadores.

Essencial durante a trajetória, ratifique-se, é a fé católica. Lechner-Reydellet situa de maneira a não deixar dúvidas esse aspecto, que teria influência decisiva na criação de Messiaen. Cercado pela contemporaneidade que aderira à negação de Deus – segmento expressivo nessa tendência -, nada abalaria o posicionamento de Messiaen. A autora posiciona bem aspectos do caráter do homenageado que, afável, gentil e generoso com os que o procuravam, reservava-se o direito de manter determinados isolamentos, que seriam a salvaguarda de seu mundo interior. Quantas não são as obras em que o Divino está presente: Transfiguration de Notre Seigneur Jésus-Christ, Vingt Regards sur L’Enfant Jésus, Saint François d’Assise, Les Trois Petites Liturgies de la Présence Divine, Les Visions de l’Amen e outras.

O piano é fundamental para Olivier Messiaen. Lechner-Reydellet dedica-lhe capítulo substancioso, a focalizar preferencialmente O Catalogue d’ Oiseaux. Menciona confissão do compositor: “Sempre amei o piano e sofri de um complexo ao pensar que era um organista-compositor e um pianista analista”.  A transcender outras composições, a magistral coletânea para piano, obra das mais importantes da literatura pianística em termos mundiais, o Catalogue d’Oiseaux, (1956-1958), criação de quase três horas, foi composto a seguir outra composição extraordinária, Vingt Regards de l’Enfant Jésus (1944).

O Catalogue des Oiseaux está dividido em sete livros, que reagrupam treze peças. A autora recorre a outra confissão de Messiaen: “as viagens e os estágios repetidos, necessários à notação dos cantos de cada pássaro, foram, por vezes, bem anteriores à composição das peças. Essas indicações tornaram-se bem precisas e o autor soube despertar as velhas lembranças de algumas horas ou de muitos anos”. Encerra a dizer “aos meus modelos alados e à pianista Yvonne Loriod”. Messiaen se casaria em 1961 com a dedicatária, sua ex-aluna, e Yvonne Loriod (1924-2010) tornar-se-ia a extraordinária intérprete de toda a criação pianística de Messiaen, justamente ela que apresentara em público, entre outras obras de seu imenso repertório, a integral do Cravo Bem Temperado de J.S.Bach e os 27 Concertos para piano e orquestra de Mozart.

Catherine Lechner-Reydlett debruça-se sobre a produção de Messiaen, a classe de composição mantida no Conservatório de Paris e o “Festival Messiaen au Pays de la Meije” criado em tributo ao homenageado. Como no próximo post abordarei a síntese de depoimentos de intérpretes e alunos colhidos criteriosamente pela autora, esses temas surgirão naturalmente, a realçar as qualidades inalienáveis de um dos maiores mestres da composição e do ensino do século XX.

My comments on the book “Messiaen – l’empreinte d’un géant”, written by Catherine Lechner-Reydellet, French pianist, writer and professor at the University of Grenoble. The book is a sound research on the French composer, organist and teacher Olivier Messiaen’s creative diversity, pointing out the influence of his devout Catholic faith in his production. An essential reading for anyone wanting to learn more about one of the most influential names in the history of 20th century classical music.

 

 

 

 

 

Em pauta o repertório pouco frequentado

A posteridade não é uma figura da justiça imanente.
Ela é humana.
A posteridade retém certos nomes que ela repete,
a resultar naquilo que denominamos glória;
ela esquece outros que não mereceriam ser esquecidos…
Roland-Manuel

Nos dias 22 e 29 de Setembro haverá dois recitais de piano em São Paulo. Um primeiro será dedicado a Claude Debussy, neste ano em que se comemora o centenário de morte do grande compositor francês. A apresentação se dará no auditório do Ateneu Paulistano às 20 hs (apoio: Sociedade Brasileira de Eubiose) e serei o intérprete. Em um segundo recital, no dia 29, minha esposa Regina Normanha Martins será a pianista e o recital se dará no auditório Giovanni Aronne às 16 hs (Rua Amâncio de Carvalho, 525, Vila Mariana t. 5549-6898).

Incontáveis vezes salientei a pouca oxigenação que se verifica no repertório para piano apresentado em nosso país, particularizando São Paulo. Nos blogs precedentes, em que abordei os volumes de “Plaisir de la Musique”, o notável professor de Estética Musical e crítico Roland-Manuel já discutia, no final dos anos 1940, essa persistência da não renovação. Seria plausível entender que o público de concerto, preferencialmente, não se sente tão à vontade ao sair da zona de conforto auditivo.

Tendo pautado meu caminho a partir da juventude da idade madura em repertório menos frequentado, apesar de habitualmente não negligenciar obras que o público está acostumado a ouvir, escolhi de Claude Debussy (1862-1918) criações raramente executadas, exceções à Masques e L’Isle Joyeuse, ambas de 1904, sendo que L’Isle… integra o repertório de parcela expressiva dos pianistas. Paradoxalmente, Masques, uma das mais importantes criações de Debussy para piano, é pouquissimamente visitada por pianistas. Masques foi composta em momento turbulento na vida de Debussy e, segundo um de seus biógrafos, Marcel Dietschy, tem-se “máscaras mordazes, fantásticas, apavorantes na branca impassibilidade, disfarce destruindo uma consciência alarmada”. Logo após surge L’Isle Joyeuse, paraíso temporário na ilha de Jersey, em que passa dias com sua futura esposa, Emma Bardac, após a tumultuosa separação de Lily Texier, sua primeira mulher. L’Isle Joyeuse é uma peça tensamente passional. Debussy escreve a respeito ao seu editor Jacques Durand em Setembro de 1904: “Mas senhor! Como é difícil de se tocar… esta peça me parece reunir todas as maneiras de se atacar um piano, pois ela reúne a força e a garra… se eu ouso assim falar”.

No programa interpretarei Images (oubliées), de 1894. Já salientei em blog bem anterior, quando da turnê em Portugal em Maio último, a qualidade dessas três peças, que ficaram em mãos do grande pianista e também colecionador Alfred Cortot (1877-1962). Seriam publicadas apenas em 1977 e o silêncio a que foram relegadas durante décadas explica sua pouca divulgação, em detrimento das duas séries de Images para piano, compostas em 1905 e 1907, respectivamente. Considere-se que duas das três peças que compõem Images oubliées terão destinações diferenciadas na cronologia de Debussy. A segunda peça, Souvenir du Louvre, será, com mínimas alterações, a Sarabande da difundida suíte Pour le Piano (1894-1901), e a terceira, Quelques aspects de ‘Nous n’irons plus au bois’ parce qu’il fait um temps insupportable, seria a primeira versão, se assim podemos considerar, de Jardins sous la pluie, terceira das peças de Estampes (1903). Images oubliées é obra digna de estar presente constantemente em repertórios, o que infelizmente não ocorre.

Danses sacrée et profane (1904) foram originalmente compostas para conjunto de cordas, harpa ou piano e obtiveram repercussão através do tempo. Contudo, em 1907, Jacques Durand (1865-1928), editor de Debussy e músico igualmente, realizou uma versão para piano solo, incorporando, na partitura destinada ao instrumento, segmentos destinados às cordas. Debussy aprovou a transcrição e Manuel de Falla teria apresentado em Madrid, no mesmo ano, essa versão que cairia no ostracismo. Fui o primeiro a gravá-la, constando de CD lançado pelo selo De Rode Pomp, da Bélgica, em 1999. Deveu-se a gravação ao fato que, para a Danse sacrée, Debussy pediu emprestado ao seu amigo, o compositor português Francisco de Lacerda (1869-1934), o tema de sua Danse sacré, danse du voile (1904), obra premiada em concurso parisiense com Debussy no júri. Nesse CD gravei não apenas essa criação de Lacerda, como a sua mais importante composição, as Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste (1902-1922). Acredito firmemente que a versão das Danses Sacrée et Profane para piano solo deveriam integrar o repertório dos pianistas.

Quanto à La Boîte à Joujoux (1913), entendo incompreensível não figurar essa preciosidade no repertório praticado pelos intérpretes. Trata-se de criação única em sua estrutura, singeleza e na utilização seletiva da dinâmica, da agógica e da articulação. Sob outra égide, trata-se de uma síntese de tantos procedimentos nos quais Debussy mostrou-se revolucionário, entre eles “a beleza do som” tão apregoada pelo compositor. Creio ter sido o primeiro a interpretá-la no Brasil. A apresentação se deu em 1973. Poucos anos após, o respeitado pianista argentino Jorge Zulueta tocaria esse ballet pour enfants quando da apresentação no MASP da integral de Debussy para piano. Apesar de constar do catálogo de 1977 como redução de orquestra, La Boîte à Joujoux é criação original para piano. Em duas palestras na École Pratique des Hautes Études, em Paris, pude comprovar, através de documentação, a intencionalidade de Debussy nesse direcionamento preciso para piano, sendo que mais tarde André Caplet (1878-1925) realizaria a orquestração da composição. La Boîte…, ballet para crianças, é a obra monolítica mais extensa de Debussy. Quando da comemoração do centenário de La Boîte à Joujoux, em 2013, fui o convidado para apresentá-la no Musée Debussy na cidade natal de compositor, Saint-Germain-en Laye.

Abro o recital com Sinergia, criação de François Servenière a partir de acrílico sobre tela do pintor Luca Vitali. Sinergia é uma releitura de Clair de Lune e uma homenagem ao grande compositor, sendo o sétimo da coletânea de Études Cosmiques de Servenière, encontráveis na íntegra no YouTube.

No dia 29, Regina apresentará um recital significativo no auditório da Aronne Pianos, empresa fundada pelo meu saudoso amigo Giovanni Aronne (vide blog: “Giovanni Aronne – amigo e afinador”, 29/08/2009), hoje ampliada e dirigida por seus filhos. Regina estudou com sua mãe, a ilustre professora Olga Normanha. Teve também como mestres Guilherme Mignone e Isabel Mourão. Aos 12 anos apresentou-se no Bach Festival em Berkeley, California, lá recebendo láurea. Premiações, recitais no Brasil e no Exterior marcam sua trajetória. Significativas suas interpretações da integral de Anton Webern (1883-1945), dos dois recitais inteiramente dedicados às Sonatas de Domenico Scarlatti em 1985, ano do tri-centenário de nascimento do compositor, e de inúmeras obras de Francisco Mignone.

No recital, Regina interpretará três Sonatas de Domenico Scarlatti (1685-1757), Concerto Italiano de J.S. Bach (1685-1750), Sonata op. 26, nº 2 de Muzio Clementi (1752-1832), Três Improvisos sobre temas populares portugueses de José Vianna da Motta (vide blog “Vianna da Motta 1868-1948 – Um dos maiores músicos de seu tempo”, 07/07/2018), 12ª Valsa de Esquina de Francisco Mignone (1897-1986) e Jeux d’eau , criação emblemática de Maurice Ravel (1875-1937). Destacaria no programa a Sonata de Clementi, notável compositor, infelizmente longe dos repertórios. Clementi se notabilizaria mormente por sua obra didática Gradus ad Parnassum e por suas Sonatinas, criações obrigatórias durante o aprendizado e um dos méritos do compositor nessa transição que se fez necessária da técnica do cravo à aplicada ao piano, primeiramente voltada ao pianoforte e a seguir ao piano moderno. Talvez essa visão direcionada às obras com fundo didático tenha obliterado o grande valor de suas maiúsculas Sonatas. Recomendaria ao leitor ouvir, no YouTube, Sonatas de Clementi nas magníficas interpretações de Vladimir Horowitz (1903-1989) e Arturo Benedetti Michelangeli (1920-1995). Fica evidente que suas Sonatas rivalizam com Sonatas expressivas compostas por luminares da composição no período. Clementi foi um dos grandes mestres de seu tempo. Quanto a Vianna da Motta, Regina presta homenagem ao insigne músico português no ano de seu sesquicentenário. As Valsas de Esquina de Mignone correspondem à obra mais divulgada de nosso grande compositor.

Tem-se pois um programa bem equilibrado, a contemplar obras que mereceriam ser mais frequentadas pela geração de talentosos pianistas que surgem seguidamente em nosso país.

On two forthcoming recitals in São Paulo.  In the first, to be held on 22 September at “Sala Ateneu Paulistano”, the concert hall of Sociedade Brasileira de Eubiose, I will be the soloist, presenting solely works by Claude Debussy in the year of his death centennial. The second one, with pianist Regina Normanha Martins, will be on 29 September at “Sala Giovanni Aronne”. In the programme, works by Scarlatti, Bach, Muzio Clementi, Vianna da Motta, Francisco Mignone, Ravel. In both cases, the recital programmes will include well known works as well as pieces seldom performed and recorded, introducing audiences to new repertoire pieces.