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Pianista exemplar da grande tradição

Todo ato resulta de um pensamento nascido de um sentimento. Toda nossa vida se resume em três pontos: agir, pensar, amar, e se manifesta pela vontade, inteligência e sensibilidade. A vontade diz: eu quero. A inteligência diz: eu gostaria. A sensibilidade diz: eu amaria. P.Hissarlian-Lagoutte (“Philosophie et Esthétique de l’Art Musical”, 1949)

Lembrar de Yara Bernette no ano de seu centenário é imperativo. Após a tríade extraordinária composta por Antonieta Rudge (1885-1974), Guiomar Novaes (1894-1979) e Magda Tagliaferro (1893-1986), o Brasil apresentou um hiato de algumas décadas até a aparição de Yara Bernette, artista à altura de suas antecessoras, mas que desempenharia em acréscimo fora do Brasil função diretivo-didática das mais importantes durante décadas na Alemanha.

Nascida em Boston de pais russos, aos seis meses veio ao Brasil e teve a naturalização. Foi aluna durante anos do professor russo José Kliass, certamente aquele que orientou os nomes mais expressivos da pianística brasileira: Bernardo Segall, Estelinha Epstein, Ana Stella Schic, Isabel Mourão, Ney Salgado, entre tantos. Meu irmão e eu estivemos sob sua orientação durante seis anos. José Kliass estudou com Martim Krause, aluno de Franz Liszt e professor igualmente de Claudio Arrau.

A estreia de Yara Bernette em Nova York em 1947 rendeu-lhe crítica extraordinária do New York Times: “…a mais bela sonoridade da temporada”. Em 1956 receberia a medalha Arnold Bax Memorial Award “como a melhor intérprete da música contemporânea”. Tendo se apresentado com as mais respeitadas orquestras sob a regência de maestros renomados como Karl Bohm, Eugene Jochun, Willian Steinberg, Rudolf Kempe, Ferdinand Leitner, entre tantos outros, foi igualmente recitalista entre as melhores.

Importante frisar que nos anos 1960 fixaria residência na Alemanha, sendo que em 1972, concorrendo com 130 candidatos de vários países, obteve a Cátedra de Piano da Escola Superior de Música da Universidade de Hamburgo. A premissa se faz necessária, pois lentamente o nome de Yara Bernette soma-se às figuras pátrias de relevo da música clássica erudita ou de concerto que vão sendo olvidadas. Fato inquestionável.

As interpretações de Yara Bernette, entre as mais significativas de sua geração em termos mundiais, revelam marcantemente a artista que pensa, que vai além da partitura, numa recriação da obra mantendo o respeito e a linha mestra da tradição, elementos essenciais para as gerações presente e vindoura. Nenhum efeito direcionado a agradar por agradar e a ausência da ênfase exagerada ou do gesto inútil. A emoção está presente em suas execuções amalgamando-se com a estrutura da composição em seu sentido pleno. Caracteriza igualmente a sua interpretação a convicção. Todas suas performances estavam sob essa égide.

Clique para ouvir, de Rachmaninov, os Prelúdios op. 32 nºs 1, 2, 6, 5 e 12, na interpretação de Yara Bernette:

https://www.youtube.com/watch?v=HxdGekuVfr0

Ouvia-a várias vezes em recitais ou com orquestra. Na minha juventude estive presente nas várias sessões em que tocou e analisou a integral do Cravo Bem Temperado de Bach. Numa visita de Villa-Lobos à casa do mestre José Kliass, Bernette, Estelinha Epstein, Ney Salgado, meu irmão e eu tocamos a homenagear o compositor.

Estou a me lembrar que estando a estudar em Paris, Yara Bernette por lá passou em 1961 e me procurou a pedido de Camargo Guarnieri, a fim de com ela ensaiar as “Variações sobre um tema nordestino” do compositor, obra que estudei com Guarnieri. Conservo as cópias heliográficas, nelas constando as partes de piano e da redução da orquestra. Yara iria estrear a obra nos Estados Unidos e estudara recentemente a obra. Fizemos dois longos ensaios e impressionou-me a qualidade de sua interpretação. Uma grande pianista.

Lembro-me de uma noitada em Belém do Pará. Bernette, o ótimo violoncelista Antônio Del Claro e eu estávamos na bela cidade para apresentações em dias diferentes. Hospedados no mesmo hotel, permanecemos horas no terraço a conversar e discutir sobre rumos do denominado recital de piano. Chamou-me a atenção naquele final dos anos 1990 uma observação de Yara, chegada há não muito tempo de Hamburgo, já a apontar para a crise futura dessa modalidade. Enfatizava que ela podia ser sentida na Alemanha.

Clique para ouvir de Chopin, o Noturno op. 48 nº 1, na interpretação de Yara Bernette:

https://www.youtube.com/watch?v=B1dp8fax44E

Em entrevista concedida a Ana Luzia Maia Garcia aos 9 de Março de 2000 (sala do Conservatório de Música, Dança e Teatro Villa-Lobos de Osasco – arquivo Denis Wagner Molitsas), há respostas de muito interesse por parte de Yara Bernette a demonstrar não apenas a experiência como pianista e pedagoga, mas também a fina inteligência. Sobre o estudar horas a fio, responde: “É melhor estudar menos horas, mas concentrado e corretamente, do que estudar muitas horas. Muitas horas nunca resolveu o problema de ninguém… Quantas horas depende do estágio do aluno… Mas, como regra, menos tempo e mais qualidade… Estudo concentradíssimo. É sentar ao piano e não permitir que nenhum pensamento interfira”. Sobre o professor José Kliass, seu tio, afirma que “… foi meu único professor, ele me pegou com seis anos e com dezoito eu estava fazendo meu debut em Nova York”.

Foi durante esse convívio que Bernette tocou várias vezes para Arthur Rubinstein e Claudio Arrau que, em tournées pelo Brasil, infalivelmente conviviam com o mestre Kliass, visitando-o sistematicamente. Uma passagem da entrevista é deliciosa, pois envolve esses dois grandes mestres do piano e a menina Yara: “Chegavam aqui, sobrava tempo e eles iam estudar em casa de meu tio. Era comum, assim às onze horas da noite, tocar o telefone em casa e minha mãe me tirar da cama, com sete, oito, dez anos, dizendo: ‘Você precisa ir para a casa do seu tio tocar’. Eu, danada da vida, porque no dia seguinte tinha colégio. Tinha que me vestir, me arrumar. Com isso eles seguiram minha trajetória e foram me ajudando. Quando cheguei numa certa idade, o Rubinstein disse ao meu tio: ‘Quando ela tiver dezoito anos você poderá enviá-la para Nova York, a gente toma conta dela e seu debut será lá e não tenha susto, ela vai estar pronta para isto’. Apesar de Arrau e Rubinstein não serem amigos entre si, eles foram meus mentores”.

“Ao ouvir o belo pianismo de Yara Bernette, fiquei impressionado com o constante alto nível de sua execução; não só o brilho, a naturalidade, a sensibilidade e a energia, mas também a excelência de seu fraseado, sua sonoridade exuberante e refinada maestria são admiráveis. É um raro prazer encontrar tão magnífica virtuosidade. Em suma, Yara Bernette é uma das mais notáveis pianistas da sua geração”. Assinado: Claudio Arrau.

Corajosamente se autofinanciou no início da carreira: “No meu tempo não havia concursos, eu não tive patrocínios de ninguém, fiz tudo por minha conta. No Exterior fiz um projeto, peguei quatro cidades importantes e financiei os quatro concertos lá. Era meu debut, minha estreia, meu cartão de visitas: ‘Aqui estou eu’ , em vez de falar, de pedir, de angariar, eu patrocinei e aluguei uma sala”. Impressiona o desenrolar da atividade pianística de Yara Bernette comprovada através de seu dossier, pois foram cerca de 3.500 apresentações em quatro continentes!!!

Numa visão universalista, Yara Bernette observa: “Guarnieri era um grande compositor, só acho que ele insistiu muito numa linha nacionalista. Bartok é húngaro, mas é universal. Você tem que transcender uma linha nacionalista para uma linguagem universal. E eu acho que o Guarnieri ficou um pouco preso ao nacionalismo, mas era um grande músico, um grande compositor e ótima pessoa também”.

Clique para ouvir, de Camargo Guarnieri, Dança Negra, na interpretação de Yara Bernette:

https://www.youtube.com/watch?v=vWp14uYSzd4

Marcantes foram suas interpretações no Exterior. Determinadas gravações ainda não estão disponibilizadas devido aos direitos autorais. A menção a alguns Concertos para piano e orquestra se faz necessária: nº 2 de Brahms, nº 1 de Rachmaninov, nº 1 de Chopin, nº 4 de Beethoven, nº 3 de Prokofiev, nº 1 de Tchaikovsky, nº 20 em ré menor de Mozart, de Grieg, de Schumann, as “Bachianas nº 3″ de Villa-Lobos, as “Variações sobre um tema nordestino” de Camargo Guarnieri.

Clique para ouvir, na interpretação de Yara Bernette, sob a regência de Simon Blech, o Concerto nº 3 de Rachmaninov (gravação realizada no Theatro Municipal de São Paulo em 1974)

https://www.youtube.com/watch?v=evtsTxoU_3E

Yara Bernette integra o quarteto de nossas excelsas pianistas. Urgiria a divulgação maior do legado que nos deixaram. Há a necessidade dos pósteros não as esquecerem, pois são elas marcos fundamentais de nossa tradição pianística.

This year celebrates the birth centenary of one of the continent’s greatest pianists, Yara Bernette. Head of the piano department of the Hochschule für Musik und Theater of Hamburg, Germany, from 1972 to 1992, Yara Bernette was an interpreter who kept the pianistic tradition at its highest level.

Intervenção cirúrgica quando necessária

O estudo de piano necessita prolongados esforços.
Esses não implicam lutar contra a natureza.
Uma mão normal é feita para tocar piano
e todo pianista que não compartilha dessa convicção
é indigno de sua arte.
Marguerite Long
(“Le Piano”)

Há males que afligem o instrumentista e nos tempos atuais o digitador. Tratei desse tema em dois posts quando de duas cirurgias a que fui submetido nos polegares, a temida Rizartrose. O processo evolutivo até chegar à intervenção durou anos. Nas mãos de um cirurgião de ponta, Dr. Heitor Ulson, competente especialista de cirurgia da mão, essas intervenções que podem deixar sequelas transcorreram seguras e logo por mim esquecidas (vide blog “Cirurgia da mão – Rizartrose”, 09/10/2010).

Heitor Ulson, professor aposentado da UNICAMP, é primo irmão de minha mulher Regina. Em 1982, ao observar a básica não utilização da passagem do polegar na opera omnia para piano do grande compositor russo Alexandre Scriabine (1872-1915) e sabendo que o músico tivera problemas sérios em sua mão direita aos 18 anos de idade, transmiti ao médico minha hipótese, ou seja, que o mal que acometera sua mão direita obrigando-o a tratamento intenso poderia ser a causa da quase absoluta ausência da passagem do polegar nos longos segmentos em que essa flexão se tornava imperativa. Scriabine compensou essa ausência através de grande abertura das mãos, o que possibilitava o percurso total do teclado, por vezes, metaforicamente, à maneira de um caranguejo. Em artigo publicado nos “Cahiers Debussy” (“Quelques aspects comparatifs dans les langages de Debussy et Scriabine”, Paris, Centre de Documentation Claude Debussy, nouvelle série, nº 7, 1983), inseri posicionamento do Dr. Ulson que aventou a possibilidade de que Scriabine tivesse sido acometido de tendinite, conhecida como Mal de De Quervain, nome dado às propostas do médico suíço Fritz de Quervain (1868-1940) relativa à inflamação da bainha em torno dos tendões que controlam o movimento do polegar. Acredito que nenhum outro compositor que escreveu obras para piano e que permaneceu na história nesses dois últimos séculos escreveu abstendo-se de arpejos ou escalas percorrendo o teclado com a passagem necessária do polegar. O “diagnóstico” tardio no caso de Scriabine de uma possível tendinite de De Quervain sustentada pelo Dr. Ulson teve guarida nos meios musicais em França e na União Soviética.

Pela segunda vez submeto-me à cirurgia do denominado dedo em gatilho, bem mais simples do que aquelas reservadas à Rizartrose, sendo a primeira no final dos anos 1990. Dr. Ulson foi o cirurgião. Àquela altura, tão logo após os sintomas procurei-o e a cirurgia ocorreu logo a seguir.

Se busquei o Dr. Heitor Ulson já nos primeiros sintomas de um primeiro dedo em gatilho, o mesmo não ocorreu presentemente. Com a pandemia e o confinamento deu-se aquilo verificado em incontáveis casos de acometidos pelos mais diversos males que não buscaram visitar médicos ou hospitais. Os sintomas do dedo em gatilho no anelar da mão esquerda tiveram início em Março. A evolução foi lenta, sem trégua. Só entrei em contato com o Dr. Ulson em Outubro quando dores e a trava da articulação do anelar impediram-me da prática pianística. Nesse período final, o dedo em gatilho só voltava a ficar esticado com o auxílio da outra mão a trazer bem lentamente o dedo afetado à posição normal provisória, diga-se, para que a dor fosse menos intensa.

Solicitei ao Dr. Heitor Ulson um comentário sobre o dedo em gatilho e suas implicações. Gentilmente me enviou suas apreciações:

“Queixas dolorosas associadas a movimentos de flexo-extensão dos dedos são comuns, ocorrendo preferencialmente em grupos etários mais avançados, ou mesmo, em mais jovens, no geral relacionadas a esforços repetitivos ou em processos inflamatórios de fundo reumatológico. Esses bloqueios das articulações interfalangianas causam dor e o paciente refere incapacidade da ação de extensão ativa do dedo, necessitando da outra mão para abrir o mesmo, ocorrendo dor aguda a cada vez, em seguida da imediata extensão. Esses sintomas e sinais se assemelham ao clique repentino ao acionar-se um gatilho de arma, daí o termo ‘dedo em gatilho’ tirado da língua inglesa trigger finger. A história clínica, com duração de algumas semanas, fala em favor de tratamento incruento, por imobilizações temporárias, de órteses digitais dorsais, podendo ser associadas a infiltrações locais de anestésicos, com ou sem corticosteróides, aplicações de calor local, movimentação suave para prevenir-se rigidez articular, e precedidas de massagem de retorno venoso e linfático, em casos de edema importante.

O tratamento cirúrgico visa liberar o bloqueio dos tendões flexores que não conseguem deslizar dentro do canal ou túnel fibroso que se tornou ‘apertado’, pelo fenômeno inflamatório original (tenossinovite estenosante). No geral, a região tendinosa mais afetada é pela estenose da polia digital A1, correspondendo às pregas palmares distal e à digito-palmar.

O procedimento cirúrgico pode ser preferencialmente realizado sob anestesia local, com o paciente acordado para a demonstração clínico-cirúrgica imediata a pedido do cirurgião, da liberação completa da flexão-extensão do dedo, no caso, o anelar da mão esquerda”.

No pós-operatório o uso precoce dos dedos auxilia a rápida recuperação das funções que, nos casos crônicos, necessita de Terapia da Mão mais especializada para uso de órteses específicas complementares para a extensão da interfalangiana proximal”.

Para cada atividade motora moléstias podem advir. As várias modalidades esportivas apresentam males tipificados para determinada prática específica. Futebol, vôlei, basquete, tênis, entre tantas outras, têm males que se apresentam para cada categoria. Não é diferente em relação à prática pianística. Dedo em gatilho, Rizartrose, Mal de Dupuytren, Túnel do carpo, Mal de De Quervain, tendinites em suas várias manifestações, artrite reumatoide, artroses… podem ocorrer a depender das individualidades. Assim como Pelé que atravessou a fabulosa carreira sem um problema grave a atormentá-lo, muitos são os pianistas que chegaram à idade avançada sem um problema físico sequer.

Excelente o atendimento do Hospital Samaritano, local da cirurgia. A recuperação se faz. Após alguns dias já consegui estudar piano levemente e ao escrever este post volto à quase normalidade. E continuamos…

Owing to the pandemic, I have postponed a medical consultation about a progressive problem, the trigger finger. When it became almost impossible for me to flex the left-hand ring finger, due to a strong pain when stretching, I consulted the competent Dr. Heitor Ulson, who had already operated on my two thumbs for Rizarthrosis, ten years before. Dr. Ulson’s text explains the evolution of the disease and justifies the surgery, when necessary.

Opiniões que levam à reflexão

Na realidade, o passado se conserva por si mesmo, automaticamente.
Por inteiro, sem dúvida, ele nos segue a cada instante.
Henri Bergson

Foram muitas as mensagens sobre o notável pianista Benno Moiseiwitsch. Alguns desconheciam completamente o músico. Outros saudaram a lembrança e apontaram para um caminho que se apresenta como sem retorno tornando a música clássica ou de concerto produzida por poderosas organizações musicais pelo mundo um grande espetáculo multimídia.

Sem questionarem as qualidades inerentes de determinados intérpretes possuidores do domínio pleno do teclado – musicalmente nem sempre – pertencentes à categoria mediática, chamaria maior atenção a forma como realizam as suas performances e a indumentária chamativa a evidenciar que o espetáculo tem de ser totalizante, teatral.

O gestual econômico dos grandes pianistas do passado focalizados neste espaço é evidência nítida de que a grande preocupação daqueles artistas estava direcionada à realização musical essencialmente e que a virtuosidade, quando presente, era apenas o meio para o desempenho o mais correto de determinados segmentos, jamais o fim como desiderato. Essa assertiva ficaria evidente no último exemplo inserido no post anterior sobre o ilustre Benno Moiseiwitsch. Após a plena virtuosidade a enriquecer uma sensível condução das frases musicais em obra de extrema dificuldade, a transcrição de Liszt-Moiseiwitsch da abertura de Tannhaüser de Wagner, o notável pianista com a mais absoluta naturalidade retira um lenço do bolso da lapela, serenamente passa na parte superior dos lábios, volta-se para a câmera e diz sem qualquer fadiga Good Night e Bonsoir.

O professor titular da FFLCH-USP, Gildo Magalhães, escreve: “Delicado – sutil; contido – preciso; emotivo – sublime. Totalmente imperdível!!! Muito obrigado, mais esta vez”.

O ilustre compositor português Eurico Carrapatoso escreveu: “Ao ler o teu escrito ocorreu-me logo o exemplo desta artista, Lola Astanova, nos antípodas do excelso Benno Moiseiwitsch, que não tem qualquer inibição em exibir seus dotes. Ela daria uma excelente actriz de produções do cinema saloio encarnando personagens espúrias do universo Marvel de 2ª categoria, do género Vulva-Woman. O exibicionismo campeia nos corredores da produção de espectáculos, e agora cada vez mais na área da Música Clássica: artistas que são, digamos, escolhidas a dedo”.

Assiste-se presentemente, de maneira sempre crescente, a busca de elementos extramusicais por parte de intérpretes mais jovens para gáudio de um público que une a mensagem musical à teatralidade do executante. À frase do respeitado músico belga André Souris (1899-1970): “O público se preocupa pouco com as intenções do compositor e mais com aquilo que ele ouve”, inserida como epígrafe no post anterior, acrescentaria eu “e com aquilo que ele vê”, a refletir bem a célere despreocupação por parte de intérpretes super mediáticos das novas gerações com o sagrado contido na música clássica, de concerto ou erudita. O amparo das associações promotoras e da mídia é plena a este cenário que sempre objetiva a legião de adeptos e o lucro.

Entre as pianistas mulheres há muitas relativamente jovens e extremamente hábeis, oriundas basicamente do Extremo Oriente e da Europa do Leste, conhecidas mundialmente a se ver, inclusive, no indicador de acessos dos aplicativos mais ventilados. Atingem milhões de buscas em pouquíssimo tempo. Gestual in extremis, sumárias vestes, toda uma produção fixada pelas câmeras e para esse novo público já seduzido pelo espetáculo teatral. Diria que em tantos casos, a música vira um pormenor necessário. Para que o leitor se inteire, o Noturno de Chopin em mi menor op. 72 nº 1 interpretado de maneira inefável por Moiseiwitsch inserido no blog anterior está no Youtube desde Janeiro de 2010 com pouco mais de 5.000 acessos!!! Vídeos da intérprete mencionada por Carrapatoso em 2018 chegam a 8.800.000!!! Dotada de dons técnico-pianísticos evidentes tanto para a desenvoltura da música clássica como da música pop testemunhados por vídeos expondo verdadeiros malabarismos dignos do Cirque de Soleil, mercê igualmente de atributos físicos inquestionáveis da pianista-show, emprega-os servindo-se da Música Clássica em cenários rebuscados. Em um deles executa uma obra sacralizada do repertório “vestida” unicamente com peças “super” íntimas amparadas por asas angelicais!!! A disparidade estratosférica dos acessos ratifica a mudança acentuada do gosto musical, palavras decantadas há séculos. Outra pianista conhecida mundialmente soma-se a essa civilização do espetáculo que busca superar-se, apresentando-se em vídeo com uma das obras mais populares de Franz Schubert a ter no início da exibição sua figura deitada em um pequeno lago e com ramalhete no peito, imitação – a beirar o grotesco – da pintura do pré-rafaelita inglês John Everett Millais (1829-1896), Ofélia. Antolha-se-me que todos esses vídeos visitados por milhões estariam a endereçar repertório clássico em direção ao simulacro. Distrair a escuta é uma forma de desvirtuá-la.

Neste espaço desde 2007 tenho denunciado o caminho que acredito sem volta. Contudo chamou-me a atenção mensagem de um leitor a contestar meu posicionamento e que me pediu anonimato (cito apenas as duas primeiras iniciais JA). Escreve que as gravações dos pianistas do passado eram feitas em condições insatisfatórias para os padrões atuais e que não seria ele um “visitante de museus” – palavras suas -, pois ouve sempre os artistas da nova geração gravados na excelência e quando filmados, “o espetáculo é total” (palavras de JA). Escrevi-lhe a dizer que minha resposta estaria externada no presente post.

Ao longo desses anos tenho salientado a qualidade inefável de pianistas de antanho. Diferentemente de uma obra literária ou de uma pintura ou escultura que fixadas permanecem, a composição sem a presença do intérprete, personagem indispensável, permanecerá, mas apenas como partitura em determinado arquivo. A execução musical só teve registros sonoros a partir dos primórdios do século XX. Os avanços tecnológicos estabeleceram para a gravação avanços incomensuráveis. Dos discos de 78 rotações (78 rpm) à atualidade, passos gigantescos foram empreendidos. Com o surgimento do vinil, (Long Play – LP) nas fronteiras da segunda metade do século XX, mais leve e podendo conter minutagem bem superior, estiola-se a produção dos discos 78 rpm. Mencionei tempos atrás que minha primeira gravação para um Long Play (LP) em 1979 teve a edição realizada pelo técnico ao meu lado com instrumental hoje jurássico, pois editava cortando a fita magnética com uma lâmina de barbear!!! Os veículos de divulgação a partir da aparição do CD em 1990 expandiram-se. Maiores e menores empresas, estas mais seletivas no geral, democratizaram a gravação possibilitando a aparição de milhares de músicos antes sem acesso às grandes gravadoras. Sob outro aspecto a técnica de gravação deu saltos gigantescos. Se a agulha que percorria o vinil era “sinônimo” de atrito, a encobrir um “som puro”, a gravação digital foi um avanço e a aparição do compact disc realidade que ainda perdura. Outros tantos passos têm sido dados de maneira célere. Esses avanços contínuos não inviabilizaram a atenção para com os processos antigos e hoje já são recuperadas gravações de discos 78 rpm e LPs, através de leituras a laser sobre os sulcos antes percorridos pela agulha que têm trazido resultados a beirar a perfeição.

Acredito que temos de ouvir as gravações do passado abstraindo-se da qualidade dos registros, atentando-se apenas à transmissão da mensagem musical. Assim fazendo, podemos compreender a diferença da abordagem, antes significativamente musical, hoje, mesmo a se ter em conta o técnico-pianístico absoluto de tantos pianistas das novas gerações, a atender tantos outros desideratos distantes da essência essencial da mensagem musical e mais ligados ao espetáculo ávido pelo espetáculo. Contudo, também creio que deve o intérprete gravar a partir das condições tecnológicas mais hodiernas, pois a história registrou aqueles excelsos artistas nessas possibilidades extremas da perfeição do momento. Somente através desse acompanhamento ditado pelo avanço constante da parafernália de aparelhos eletrônicos que nos proporciona gravações atuais próximas ao ideal sonoro, podemos avaliar e apreciar com “ouvidos históricos” os grandes mestres de antanho que se utilizavam da “perfeição” que lhes era proporcionada.

Clique para ouvir, de Franz Liszt, Rêve d’amour, na interpretação de Arthur Rubinstein:

https://www.youtube.com/watch?v=nkXOrkeZyqQ

Clique para ouvir, de Franz Liszt, Rêve d’amour, na interpretação de Lang-Lang:

https://www.youtube.com/watch?v=2FqugGjOkQE

 

O leitor tirará suas conclusões.

Among many of the messages received, three caught my attention. One of them comments on the unique experience of listening to Benno Moiseiwitsch’s recordings; another observes the increasing number of performers who use music for self promotion, a situation that has little to do with the essence of classical music. In a third, the reader confesses his preference for current videos due to their better quality, as compared to those of the past.