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Considerações de Gisèle Brelet

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Um grande artista nos dizia que sua alegria de gravar era a alegria
de não mais sentir a hostilidade latente,
obscuro sadismo do público –
o qual, assistindo a um concerto
como a um espetáculo de circo,
espera secretamente ver “o domador devorado”.
Gisèle Brelet
(“L’Interprétation Crétrice” – vol.II)

Não poucas vezes mencionei meu amigo Marcelo, que encontro por vezes a frequentar a mesma feira-livre que há décadas visito com imenso prazer. Curiosamente, sempre após saudações habituais vem pergunta, para meu gáudio, sobre os blogs que lê com assiduidade. “Qual a maior diferença que você encontra entre apresentar-se em público e gravar?”. Respondi-lhe de imediato que em vários posts abordei o tema, sem contudo pormenorizar-me mais profundamente. Disse-lhe que dedicaria um blog a respeito. A pergunta foi feita após meus derradeiros blogs sobre o CD “O Romantismo de Henrique Oswald”, lançado pelo selo SESC, e os recitais que dei ligados à divulgação do registro.

A pergunta de Marcelo vem ao encontro de leitura que estou a fazer do segundo volume de “L’Interprétation Créatrice – L’Éxecution et l’Expression” (Paris, Presses Universitaires de France, 1951)  de Gisèle Brenet. Já tecera comentários em blogs dedicados ao primeiro volume (vide blogs “L’interprétation Créatrice – L’Éxecution et l’Oeuvre”, 13 e 20/04/2019).

Temos dois approaches distintos, sendo que o concernente à apresentação ao vivo pode vir acompanhada de gravação em áudio ou, também, com o acréscimo da imagem.

Primeiramente há a questão mental, que influenciará as duas posturas. O recital pressupõe um preparo psicológico indispensável para que a récita se processe sem percalço. Mesmo assim, o intérprete pode ter o público como estímulo não apenas para a performance, o que implica, muitas vezes, simultânea ação coreográfica, mormente em décadas recentes. Outros executantes têm na concentração absoluta o elo decisivo que o liga ao público atento. Todavia, há aqueles, tantos notáveis intérpretes, que entram em cena tensos, receosos do erro, mas, tão logo a comunicação com a plateia se faz, a tendência à interação se instaura. Em entrevista recente ao “Estadão” (22/01/2019), concedida a João Luiz Sampaio, a pianista portuguesa Maria João Pires comenta o motivo de, aos 75 anos, abrir mão dos concertos: “Mas o modelo do concerto, com teatros enormes, frios, para os quais o público vai apenas para assistir a um ‘grande nome’ não me atrai. As pessoas estão enganadas, pagam para ver um artista. Não deveria ser assim que funciona. Eu não toco para as pessoas, eu toco com as pessoas. Tocar e ouvir são atividades criativas, é a mesma coisa. Arte é algo que se partilha”.

No que concerne a gravação, a busca da perfeição, sempre inatingível, reveste-se de outras especificidades. Se cinco LPs que gravei no Brasil foram lançados nas décadas de 1970-1980, nas condições impostas pela tecnologia “precária” do período, apesar do empenho de técnicos no mister, somente a partir de 1995 iniciei  gravações no Exterior, num momento em que avanços consideráveis na área tornavam imbatível a qualidade da tomada de som em locais com acústica superlativa, fora de estúdios convencionais. Estou a me lembrar das gravações que realizei em 1996-1997 na Sala Bulgária, em Sófia. Toda ela revestida de madeira, desde as poltronas às paredes. Extraordinária acústica, que encontraria também no meu templo mágico, a Capela Saint-Hilarius em Mullem, na Bélgica Flamenga, Templo tão comentado e ilustrado ao longo dos anos em meus blogs. Nesta, o grande engenheiro de som Johan Kennivé coloca o piano embaixo da torre milenar de pedra, instala os microfones em lugares estratégicos, ficando a mim reservada a missão de transmitir a mensagem musical. Foram 20 anos de um convívio inefável entre o mágico dos sons e o intérprete.

Causa-me forte impressão a leitura reflexiva de Giséle Brelet a respeito da gravação e da interpretação ao vivo. Seus livros sobre interpretação datam de 1951, quando a realidade era a gravação destinada ao LP com toda a problemática, com o acréscimo do atrito da agulha sobre o acetato. Comenta: “Diante do disco o intérprete está só e luta contra a solidão; e seus gestos, doravante invisíveis, têm tendência a se atrofiar, enquanto que esses estariam vivificados se a transmissão de uma mensagem fosse visível e audível. Sem dúvida, o executante deve saber se adequar às exigências da gravação e triunfar, a fim de confiar ao disco uma execução viva, plena e sustentada pelo élan da duração musical. Se necessário for repetir e interromper, tocar por fragmentos, que ele viva cada instante como parte essencial do conjunto, não deixando jamais quebrar-se a espiritualidade, esse élan temporal – o qual pode subsistir, apesar de a interpretação ser materialmente interrompida”. Gisèle Brelet considera que cabe ao intérprete imaginar da maneira mais intensa a presença do público ao qual sua execução é destinada. Todavia, observa: “não basta acreditar que o executante toque diante do microfone como se estivesse em concerto. Se o público de concerto apresenta um caráter determinado, criando uma atmosfera particular, compartilhando com o intérprete um comércio direto e familiar, o público imaginário ao qual ele se projeta em um disco é infinitamente vasto, anônimo e, na realidade, eterno e ideal: é um público de todos os países e de todos os tempos, tendo exigências exorbitantes. Seu julgamento surpreende o executante. Enquanto num concerto ele se comunicava com o público no instante do acontecido, ao tocar diante de um microfone ele sabe que sua execução se imobiliza sobre a cera (tempos dos LPs) e ficará para sempre aquilo que foi gravado”. Continuando suas reflexões, Brelet escreve: “A execução gravada torna-se semelhante a toda obra de arte, diga-se, inscreve-se no eterno, distancia-se de seu artista, despe-se da sedução que exerce o toque atual, visível e vivo do virtuose para se apresentar tal qual em sua nudez”.

A autora se pormenoriza sobre a atitude do intérprete frente à gravação em concerto, a considerar que a estética da execução gravada não é a mesma daquela que entendemos em concerto. Brelet afirma: “Não somente as condições do concerto não são favoráveis à gravação – é fácil perceber -, mas a mesma interpretação, que parece viva e perfeita no dia do concerto, parecerá imperfeita e desprovida de rigor uma vez escutada através do disco – e essas imperfeições se acentuarão na medida de escutas outras. A verve fantasista e a espontaneidade – independentemente do querer – podem levar a uma certa desatenção, alguma imperfeição técnica que, se sob um aspecto dão vida a essa execução em concerto, desaparecem na gravação ao vivo, pois o encanto que seduz à primeira escuta, na repetição pode oferecer apenas a caricatura.

São inúmeras outras reflexões sobre o ato de gravar na solidão e a do se apresentar em público, com ou sem gravação denominada ao vivo. Mencionaria uma consideração admirável e profundamente detectada na interpretação de grandes mestres do teclado. Escreve a autora: “A execução depositada num disco (hoje CD e aplicativos vários) é mais abstrata. Deve ser ideal e se elevar em direção à essência. Precisamente a gravação tem esse maravilhoso poder de reduzi-la à sua essência essencial”. Escreve-nos sobre a importância do tempo rubato naturalmente sentido pelo intérprete alerte e inspirado, mas a servir de armadilha igualmente: “É privada de vida a execução gravada por intérpretes que se abandonam ao rubato, aos acasos de uma fantasia arbitrária, enquanto que é supremamente viva a execução daqueles que se fundamentam em um sábio rubato, esposando a estrutura da obra, buscando a essência temporal da música e da execução musical”.

As gravações que realizei no Exterior, mormente na Bélgica, de 1995 ao presente, levam-me a considerar a expressão arguta de Gisèle Brelet sobre o ato de gravar. Fala-nos da solidão. Ela existe, mas é benéfica e inspiradora. Revela-nos a impecabilidade, que deve ser soberana. Acrescentaria nos tempos atuais que local, instrumento e qualidade insofismável do engenheiro de som são imprescindíveis para que os melhores resultados sejam alcançados. A menção que Brelet faz da gravação ao vivo é pertinente. Se pequenas falhas técnicas surgirem durante a execução, que seja uma sequer – acontecem nas melhores famílias, confessava-me o grande pianista e saudoso amigo Jacques Klein -, a audição reiterada de uma gravação precisará sempre os compassos na partitura em que deslizes ocorreram. Contudo, um fato é também real, a considerar que a interpretação gravada ao vivo tem inclusive a aura a sinalizar a interação hic et nunc, tornando possíveis equívocos irrelevantes para um público mais esclarecido.

Ainda no correr dos meses abordarei outros temas concernentes à interpretação tratados por Gisèle Brelet.

This post addresses the 2nd volume of the book “L’Intérpretation Créatice”, written by the French musicologist and pianist Gisèle Brelet (1915-1973). The author elaborates further on the interpreter’s differences in attitude when recording and when performing before a live audience. Also included are my own comments on the subject based on my experience in both activities.


SESC disponibiliza ao público CD dedicado a Henrique Oswald

Melhor, bem melhor dar aulas de piano em Florença,
compor para mim e para meus amigos, e,
se quando morrer a minha música for considerada boa, executá-la-ão.
Entretanto, para mim é a mesma coisa,
a mim ela agrada, aos outros que não gostam de ouvi-la,
que escutem outras, existem tantas!
Henrique Oswald
(“Diário de Munique” – 1906)

Os comentários do compositor francês François Servenière, publicados no blog anterior, precisam com agudeza determinado quesito presente na obra de Henrique Oswald, compositor que tem paulatina, mas segura, divulgação. Quanto ao “Nocturne op. 6 nº 1”, gravado em vídeo após recital na Igreja da Boa Morte em São Paulo e anexado ao citado blog, houve inúmeras apreciações.

Maury Buchala, compositor e regente brasileiro residente há décadas em Paris, escreveu: “Sublime este Noturno, Já se evidenciam caminhos e resoluções harmônicas quase atonais, às vezes fora do contexto habitual do romantismo. Percebemos em vários momentos soluções mais próximas do que virá mais tarde no século XX”.

Idalete Giga, regente coral e especialista portuguesa em canto gregoriano observa: “Quem me dera ter vivido no tempo de H. Oswald! Ele é, de facto, um grande romântico, no melhor sentido do termo.  Mas talvez hoje possamos compreender, amar e  sentir melhor a beleza das suas obras e a sua dimensão humana que foi muito para além do seu tempo. O facto de o José Eduardo  ter  dedicado uma parte da sua vida a estudar a obra de H. Oswald e a divulgá-la através de gravações, recitais e palestras, prendou-nos a todos ao revelar um tesouro que estava escondido e manteve assim viva a genialidade do grande romântico. Considero que foi também um privilégio para o José Eduardo o acesso às suas obras e a aproximação tão carinhosa à família Oswald! Nada acontece por acaso. Felizmente, poderei agora ouvir também muitas outras gravadas em disco, ou tocadas ao vivo. Por ex, o ‘Nocturne’ nº 6 que o José Eduardo interpreta magistralmente.  Gostei muitíssimo das reflexões de seu amigo Serveniére sobre este ‘Nocturne’. Ele utiliza sempre imagens muito sugestivas. Por outro lado, mostra bem o contraste entre a grande Música e o estafado e barulhento rock que continua a poluir, ad nauseam, o ambiente, por toda a parte. É que a maioria dos jovens não suporta o silêncio. As escolas não ensinam a ‘escutar’ e, por isso, o silêncio é constantemente crucificado.(!)

Gildo Magalhães, professor titular da FFLECH-USP, observa: “E a chave é a sensibilidade, acima de escolas e períodos, e a que você se dedicou desde cedo e desenvolveu admiravelmente”.

De Thomaz Oswald, bisneto do compositor e responsável pela montagem do site referencial dedicado ao seu ilustre ascendente, veio a mensagem: “Descobri há poucos dias que se espalha cada vez mais o interesse por Henrique Oswald. O YouTube, o Spotify, o Googleplay, o Deezer e outras plataformas de audição de músicas na Internet criaram paginas especiais para Henrique Oswald. (É só colocar o nome dele na busca que surge muita coisa criada recentemente). Ficamos surpresos! Existem hoje páginas especiais criadas pelo Google, Wikipédia e links para tantas outras mais. É tudo muito surpreendente! Você tem um papel mais que importante nisso”.

Maria Clara Porto, também bisneta de Henrique Oswald, escreveu:“Que maravilha, José Eduardo! Aproveito para te dizer que atualizamos o site da família Oswald e inserimos e atualizamos o conteúdo. Isabel, minha filha, está responsável pela administração do mesmo e já inseriu essa última gravação, que está belíssima! Obrigada sempre pela divulgação da obra de nosso bisavô. Somos e seremos sempre muito gratos!”

O leitor poderá ouvir todo o repertório contido no CD “O Romantismo de Henrique Oswald” ao acessar o link do selo SESC, mais uma prestimosa contribuição pública do Serviço Social do Comércio. Após meu texto inserido no encarte do CD, o leitor tem à disposição todo o repertório:

https://www.sescsp.org.br/online/selo-sesc/809_O+ROMANTISMO+DE+HENRIQUE+OSWALD#/tagcloud=lista

Outros mais e-mails que nos chegaram corroboram aspecto fulcral na criação oswaldiana, a presença melódica marcante, estruturada numa configuração plena da escrita impecável. Da mais singela peça para piano à complexidade, mormente em parte considerável da música de câmara, a natural inclinação melódica se destaca.

Em Lagos, Portugal, tenho um velho amigo que durante 60 anos navegou, a pescar pelas águas algarvias. Foi e continua a ser sua atividade, mesmo após a aposentadoria. Perguntei-lhe certa vez: “Firmino, qual é o segredo do mar?”. “O segredo do mar é o vento”, respondeu-me.

Poder-se-ia dizer que, na obra de Henrique Oswald, o “canto”, louvado no blog anterior por Servenière, é um dos segredos. Ele possibilita a flexibilização da frase musical, que jamais se apresenta inflexível. Diria que há uma constante presença do rubato, tão apregoado no romantismo, mas pré-existente inclusive na Idade Média através das linhas do canto gregoriano. Claude Debussy escreveria que não se podia penetrar em seus “Douze Études” sem as mãos preparadas. Logicamente, o mestre francês referia-se à parte técnica, pois os “Études” têm tantas mais implicações, entre as quais a dinâmica, a agógica e a articulação, que os configuram como uma das obras mestras do século XX. São segredos nessa intrínseca dualidade musical que, segundo observação de Stravinsky: “a natureza particular da música comanda sua vida própria e seus reflexos na ordem social, pois ela supõe duas espécies de músicos, o criador e o intérprete”.

Consideremos Henrique Oswald na sua ação como homem. Não há em sua vida o enfrentamento. Em Florença, onde permaneceu por quase três décadas, inexiste um fato relevante gerador de disputa frontal. No Instituto Nacional de Música, que dirigiu de 1903 a 1906, renunciaria para não entrar em estéreis polêmicas. Quando da  ebulição do nacionalismo musical, Oswald não se posiciona, mas menciona em entrevista outros compositores mais familiarizados com as ideias do movimento. Se querelas há, restringem-se às confidências fixadas em cartas ou diários que não vêm à luz.  A interiorização induz à obra que não foi feita para o impacto. Extremamente bem cuidada, não inovadora, contudo identificada com muitas outras criações de pares ilustres. O velamento tem consequências na escritura.  A flexibilização oswaldiana da frase – agógica -, implica, mormente na maioria das circa duas centenas de peças para piano, o entendimento que se pode apreender da índole do compositor e da destinação dessas pequenas criações, ou seja, a aplicação prática nos salões burgueses com olhar aristocrático. A elegância de suas peças se coaduna com o ambiente social, mas revela a introspectividade do autor. Em outras palavras, Oswald não pode jamais ser pensado “metronomicamente”. Minha saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro, neta do compositor, a quem tributo gratidão eterna por generosamente, durante anos, expor toda a documentação, constituída de manuscritos musicais autógrafos inéditos, diários da mãe e da esposa de Henrique Oswald, dizia sempre que a respiração constante visando à construção da frase musical era o norte da produção de seu avô. Em recital que apresentei na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, interpretei “Il Neige!”, obra premiada em Paris. Nosso grande compositor e também saudoso amigo, Francisco Mignone, foi ao camarim e me disse: “Oswald entendia essa sua criação muito mais lenta e plenamente flexibilizada”. Não me esqueceria dessa afirmação.

Alvissareira a edição de CDs dedicados a Henrique Oswald, mormente na última década. Ultimamente tem sido um dos compositores mais frequentados pelos intérpretes brasileiros que prestigiam a produção tão sensível do autor. Sob outra égide, já são inúmeras as teses sobre o músico produzidas no Brasil e no Exterior.Causa surpresa e esperanças o interesse pelo compositor. Acredito mesmo que, enquanto sua opera omnia não estiver amplamente divulgada, uma lacuna referente ao romantismo perpetrado por criador nacional se fará presente. Para aqueles que quiserem mais informações sobre Henrique Oswald, o site criado por Thomaz Oswald traz substanciosas informações:

https://oswald.art.br

Ouçamos Henrique Oswald. Neste país pleno de surpresas, absurdos e tumultos, a calma e a paz, apregoadas por François Servenière no blog anterior, após a audição de suas obras, podem ser caminhos para suportarmos a avalanche de desacertos que se perpetuam.

In this post I publish messages received with comments on my recording of Henrique Oswald’s “Nocturne op 6 nº 1”, subject of the previous post, followed by my own considerations on some aspects of the composer’s musical writing.  Included is a link of the SESC label giving access to the entire album “O Romantismo de Henrique Oswald”. His works are on the rise among Brazilian interpreters and it is my belief that, unless his opera omnia is widely promoted, there will be a gap in the history of Brazilian Romanticism. Those who want to go deeper into life and work of this great romantic composer may visit the website maintained by the Oswald family:https://oswald.art.br

 

Reflexões de François Servenière sobre um Noturno de Henrique Oswald

Bom tempo mesmo aquele que imagino ter sido.
Agostinho da Silva
(Espólio)

Os três recitais dedicados ao lançamento do CD “O Romantismo de Henrique Oswald” tiveram boa recepção por parte de ouvintes que me enviaram mensagens curtas, mas significativas. Após o recital apresentado na Igreja da Boa Morte, em São Paulo, a competente equipe do SESC (Serviço Social do Comércio) solicitou-me a gravação de uma peça do ilustre compositor para conservar em seus arquivos. Aquiesci e gravei o “Nocturne op. 6 nº 1″, que durante a apresentação foi interpretado logo após o “Nocturne nº 4″ do notável Gabriel Fauré (1845-1924). A intenção foi proposital, a evidenciar uma identidade que, em não poucas criações, expõe a admiração de Henrique Oswald (1852-1931) pelo mestre francês, contudo a manter as próprias impressões digitais insofismáveis.

O compositor François Servenière ouviu o “Nocturne” de Oswald através do link que anexo ao presente blog e emitiu considerações de real interesse. Anteriormente conhecera meus CDs precedentes dedicados à obra para piano solo e camerística de nosso maior compositor romântico.

https://www.sescsp.org.br/online/selo-sesc/822_UM+PLANO+JOSE+EDUARDO+MARTINS+NOCTURNE+OP6+N+1#/tagcloud=lista

“Ouvi o ‘Nocturne op. 6 nº 1′ de Oswald que você me enviou. Como antes, ao ouvir seus vários CDs dedicados ao compositor, subjuguei-me ao charme das notas aveludadas, tão perfeitamente harmonizadas. Ouvindo atentamente Oswald e Fauré no silêncio absoluto, compreendi uma antiga chave mestra da composição, que me foi extremamente útil nos primeiros tempos do métier. Posso parecer tolo, tal o truísmo dessa revelação. Essa verdade é expressa com grande emoção através de seus dedos. Na realidade, eu ouvia esse ‘Nocturne’ e me perguntava: qual é a chave dessa narração? Bastaram poucos segundos para descobrir que esta chave era ‘o canto’. Ao retiramos a parte cientificamente construída do acompanhamento, chegamos a escutar a melodia, que flui magistralmente. José Eduardo responderia polidamente, em silêncio, ‘é bem isso, com certeza’, olhando-me com altivez musicológica!

A realidade evidencia que não é tão simples assim a escritura de Oswald. Comungamos o fato de que a música está plena de chaves, a levar a escrita composicional a todos os caminhos e das maneiras mais diversas. No limit. A música está à altura do universo que a criou. Em todos os sentidos. Em todos os volumes. Em todas as dimensões. Em todos os estilos. Em todas as culturas. Em todos os biótopos. A linguagem universal por excelência, entendida em todo o planeta! Isso nós dois sabemos.

Seria necessário constatar que a ciência musical absoluta permite ao criador fugir da essência para ir em direção à superficialidade, chegando num campo imenso e quase sem fronteiras, o que o faz esquecer o que realmente importa. ‘Como explorar esse vasto conjunto no curso de uma vida?’, repete muitas vezes o compositor, tendo de lidar com todo esse material e ferramentas à sua disposição. Correntemente, observa-se que muitos se deixam seduzir ao entender a construção pela construção, a cor pela cor, a intensidade pela intensidade, a virtuosidade pela virtuosidade, o prolongamento pelo prolongamento… E só de pensar que grandes mestres do passado legaram às gerações atuais toda uma sabedoria que possibilitou até alguma embriaguez adicional!

Neste caldo grosso de desordem planetária, a tal ponto que temos desejo incessante de calma e paz para nos subtrair à barbárie dos sons hodiernos, chegamos de meias, na ponta dos pés, a Fauré e Oswald. Tentamos de todas as maneiras não fazer qualquer ruído ao pisar no assoalho de madeira… Numa igreja, qualquer passo ressoa amplificado por mil. Reaprendemos a pisar como um gato. A murmurar. A aguçar os sentidos. Nesse lugar sagrado ensina-se às crianças, excitadas pela magnitude acústica do templo, a prática do silêncio. Contudo, nada é feito para ensinar-lhes a escutar o silêncio. A embriaguez sonora orgíaca é a nova pedagogia do mundo contemporâneo. Enfrentamos o rock até a exaustão! Reflexões de pessoas idosas?

Henrique Oswald é para ser ouvido após a audição exaustiva dos excessos do mundo contemporâneo, quando estivermos definitivamente exauridos pelo abuso dos decibéis, tendo os tímpanos destruídos nessa loucura a desestabilizar o comportamento social. Não se trata de uma nova decadência! Roma já a havia praticado nos seus circos abertos. Era necessário, naqueles tempos, urrar para impressionar o inimigo ou o predador. O animal em nós. Seria necessário também falar da origem cultural da nova dominação sonora, induzida pela mundialização dos sons.

Oswald é música para o futuro da humanidade, para a elevação espiritual. Presentemente, a potência telúrica dos sons nos encaminha evidentemente ao caos, pois os sons elevadíssimos e as linguagens primitivas navegam nas apresentações embrutecidas.

Podemos entrar em cena com um Caterpillar, com gigantescos pneus a queimar, com um tanque de última geração, com gritos de selvagens, com um martelo ou com uma picareta… Hoje, tudo é permitido à livre escolha.

Não obstante, podemos também entrar no palco colocando os dedos sobre o teclado e dizer que o canto vai decidir o futuro, pois a mensagem é captada diretamente das alturas, sem intermediário. Atenção, nenhum antropomorfismo nessas palavras! Só um sentido geográfico: lá de cima, o céu e suas ondas. É dessa maneira que temos a sensação do que teria sido a ação de compor de Oswald. E é por isso que ele se eleva acima do que é, quando os outros parecem não ter entendido como manejar a carruagem”. (tradução: JEM)

Após o testemunho competente e sensível do mestre François Servenière, concordo com o seu posicionamento, pois o compositor de talento tem à sua disposição todo um ferramental. Como utilizá-lo? Há aqueles para os quais o ato voluntário faz com que a criação seja esmerada, independentemente de ser de vanguarda. Contamos nos dedos os que realmente desbravaram caminhos. Contudo, no caudaloso rio a correr, há os que seguiram entendendo a tradição como bússola segura e dessa maneira navegaram. Tchaikowsky, Grieg, Saint-Saëns não foram inovadores, mas legaram obras indiscutíveis. Liszt, Moussorgsky, Debussy inovaram, mesmo que inconscientemente, e seus valores são consagrados igualmente. Bem além do romantismo como período histórico, Rachmaninov foi um imenso compositor. Entendo que talentos se perderam pela linguagem canhestra ou voluntariamente “preguiçosa”. Henrique Oswald foi par de seus pares. Longe de ser um vanguardista, ele tem sido aceito de maneira intensa no Exterior. François Servenière expõe, acima do equador, o que críticos belgas já haviam sentido quando pela primeira vez em tempos modernos ouviram em seu país um concerto inteiramente dedicado a Oswald. No programa de duas horas de duração (sic), criações camerísticas, para piano solo e a Missa de Requiem a capella preencheram os espaços… Aficionados lotaram, a Sala do Conservatório de Gent e entenderam as mensagens sonoras. Admirados, músicos belgas afirmaram que Henrique Oswald era realmente um compositor dos melhores de sua época. Tive o privilégio de participar de todas as obras executadas, exceção à Missa de Requiem. O ano, 1995.

After listening to Henrique Oswald’s Nocturne Op 6 nº 1, recorded on video for the music archives of SESC (Serviço Social do Comércio), the French composer François Servenière expressed his views on the Brazilian composer’s musical writing, which in his words “uplifts the spirit”, in direct opposition to whatever music is being written today. Servenière’s remarks, always relevant, are the post of this week.