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O piano oswaldiano como confidente

Está em nossas mãos apagar
inteiramente da nossa memória
os infortúnios e evocar as recordações agradáveis.

Cícero

O blog anterior despertou uma série de questionamentos sobre o mal-entendido em torno de manuscrito do Concerto para piano e orquestra op. 10 de Henrique Oswald, sanado através de esclarecimentos pertinentes, mas também sobre o manuscrito autógrafo em minhas mãos, sua origem, trajetória e importância do piano na obra de Oswald. Emocionou-me o fato que, de maneira unânime, os leitores mostraram-se cônscios do equívoco e solidarizaram-se com minhas considerações. Ficou transparente para muitos que a carta aberta do pianista Nahim Marun e meu direito de resposta, publicados na Revista CONCERTO, isentam o pianista da frase lamentável a ele atribuída. Louvaram os leitores as ilustrações comprobatórias de um manuscrito por três vezes autografado e sem quaisquer rasuras em suas 119 páginas. Entendendo o assunto encerrado e acreditando ter havido um engano por parte da colunista da Revista Concerto, sem outra intenção, buscarei escrever sobre alguns outros aspectos relacionados a Henrique Oswald e meu envolvimento com suas composições, não sem antes historiar minha ligação com a neta do compositor, a saudosa Maria Isabel Oswald Monteiro, que me abriu horizontes infindáveis a partir de 1978, início de meus aprofundamentos na vida e na obra de seu ilustre avô. Aliás, leitores pediram-me que o fizesse.

Foram vários os posts sobre o compositor desde o início do blog em Março de 2007, inclusive a respeito de sua neta, quando de seu falecimento. Diria, tema recorrente. Para um intérprete que se considera low profile, tendo a liberdade, desde o início da década de 1970, de escolher parte substancial do repertório de alto nível que, por motivos precisos, está distante das salas de concerto, há razões para ter eleito Henrique Oswald entre os compositores que frequento. Estamos diante de nosso mais representativo compositor do período e que dialogava musicalmente à altura com importantes mestres europeus.

Basicamente desconhecido, “forçosamente” restrito a duas ou três pequenas criações para piano, exaustivamente indicadas nos conservatórios – Il Neige! e duas das peças op.14, Barcarola e Tarantela -, Henrique Oswald era realmente aquele grande músico a ser redescoberto. Não por outro motivo, observei no post anterior o “apoio incondicional da família do compositor durante décadas” (desde 1978), mormente na figura de Maria Isabel, que mantinha manuscritos, obras editadas e os preciosos diários, estímulo esse que resultou no “projeto” que se figurou como determinante para o lento aprofundamento na obra do compositor. Louve-se o trabalho de figuras como as pianistas Honorina Silva e Leonor Macedo Costa, infatigáveis divulgadoras de sua criação, principalmente nos meados do século XX, mas cuja atuação restringia-se mais à cidade do Rio de Janeiro.

Mercê do estímulo firme e sereno do ilustre compositor Edino Krieger, então Presidente da FUNARTE, durante uns bons anos viajei mensalmente ao Rio de Janeiro para estudar a criação oswaldiana. Ficava invariavelmente hospedado no apartamento de Maria Isabel, a desfrutar da extrema acolhida da neta e de seu marido, Dr. Mário Monteiro, respeitado médico da cidade. Durante dois dias, Maria Isabel e eu trabalhávamos umas 10 horas, abrindo arquivos musicais, tentando por vezes decifrar a cronologia de determinadas obras. Maria Isabel reservava algumas horas para a leitura dos vários diários escritos pela mãe do compositor, inicialmente, e posteriormente por Laudomia Oswald, esposa devotada do músico. A dedicação ao avô não desviou Maria Isabel do aprofundamento simultâneo – trabalho hercúleo – para a preservação da obra de seu pai, o notável Carlos Oswald, pioneiro da gravura em metal no Brasil e autor dos desenhos preliminares do Cristo Redentor do Rio de Janeiro. Nesse período, frequentei também o Arquivo Nacional, a Biblioteca Nacional e a Escola de Música da UFRJ, a fim de estudar e fotocopiar composições de Oswald lá depositadas. Edino Krieger, preocupado com a preservação sonora desse repertório, convidou-me para a gravação de três CDs, sob a égide da FUNARTE. O violoncelista Antônio Lauro del Claro e eu gravamos a integral para cello e piano (1983) e o álbum duplo de LPs continha ainda obras para piano solo. Posteriormente, Del Claro, Elisa Fukuda (violino) e eu gravamos o Trio op. 9, sendo que o LP também continha a belíssima Sonata para violino e piano op. 36 (1988). A sequência dos aprofundamentos o leitor as têm no final do post anterior.

O grande pianista Arnaldo Estrela (1908-1980) considerava Henrique Oswald o nosso mais importante compositor de música de câmara. O compositor dedicar-se-ia ao gênero com regularidade durante parte essencial de sua vida criativa, geralmente a ter o piano como eixo paradigmático. Entenda-se que a intimidade com o instrumento tem origem na tenra infância, e apresentações suas como pianista estão documentadas desde os primeiros anos até a terceira idade. Obras de câmara com piano foram compostas em várias configurações e o instrumento de teclado é quase sempre predominante. Paradoxalmente, ao escrever cerca de duzentas composições para piano solo, raramente penetra no “virtuosismo” pianístico encontrável tantas vezes no piano camerístico.

Ao compor em 1890 seu único Concerto para piano, fá-lo-ia a privilegiar a orquestra como acompanhamento, prática utilizada desde o século XVIII por tantos compositores. Todavia, ao realizar a redução do acompanhamento de orquestra para quinteto de cordas, houve a nítida intenção de apresentá-lo em cidades italianas onde não houvesse orquestra, fato comprovado através da primeira audição, realizada em Firenze em 1894, na configuração piano e conjunto de câmara. Tendo poucas vezes penetrado no universo orquestral, acredito que o Concerto op. 10 flui com maior naturalidade através da versão camerística, fato que me levou a gravar na Bélgica e interpretar em cidades belgas e em São Paulo essa segunda escolha de Henrique Oswald. No caso específico do Concerto op. 10 de Henrique Oswald, seria possível divagar sobre datas relativamente próximas entre a criação do Quinteto com piano op. 18 e a versão do Concerto op. 10. A presença da Cadenza no Concerto, se de um lado explica a visão piano-orquestra, não exclui contudo a “filiação” enraizada de Oswald no que se refere à música de câmara ao realizar a redução da orquestra para quinteto de cordas.

Henrique Oswald permanece como um dos compositores que me encantam. Elegi alguns e a eles tenho me dedicado ao longo das décadas. Grande parte dessas obras maiúsculas não é apresentada minimamente em nossas salas de concerto. Incontáveis vezes externei minha posição a respeito dessa lamentável situação, basicamente incontornável. Certamente, ao longo, voltarei a fazê-lo. Apraz-me saber que ultimamente intérpretes e estudiosos têm dedicado atenção especial ao nosso grande compositor romântico. Esperanças…

Resuming the subject of last week’s post, I address other aspects of my decades-long research into Henrique Oswald’s life and legacy, my relationship with his granddaughter, Maria Isabel Oswald Monteiro, and my commitment to promoting his works both in Brazil and overseas.


 

 

Um mal-entendido a resultar esclarecimentos

Julgas a árvore pelos materiais?
Falas-me da laranjeira,
criticando sua raiz ou o sabor da fibra,
o visco, as rugas da casca ou a arquitetura de seus galhos?
Não te preocupes com os materiais.
Julga a laranjeira pela laranja.
Antoine de Saint-Exupéry
(“Citadelle” cap. CCXVII)

A tradicional Revista CONCERTO de Julho último publicou matéria assinada pela colunista Camila Frésca, na qual, ao abordar o Concerto op. 10 para piano e orquestra de Henrique Oswald,  que seria apresentado no início do mês no Theatro Municipal pelo pianista Nahim Marun, insere frase a ele atribuída. A certa altura, abre aspas para palavras que seriam do pianista: “Esse concerto  foi tocado há muitos anos por José Eduardo Martins, mas usando o manuscrito, que tem muitos erros”. Ao ler o segmento, realmente fiquei atônito!!! Tive de imediato dúvidas quanto à afirmação. Conheço Nahim Marun e com ele mantenho esporádicos contatos, sempre cordiais. Sob outro aspecto, em meu blog publiquei resenha de seu ótimo livro “Técnica avançada para pianistas” (03/09/2011). Leio habitualmente a coluna de Camila Frésca, doutora em música, e entendo a frase como um mal-entendido que teve esclarecimento posterior pertinente.

Preparava “direito de resposta” quando recebo, no dia 6 de Julho, telefonema de Nahim Marun explicando-se, a dizer que palavras foram mal interpretadas. No dia seguinte enviou-me cópia de mensagem à Revista em apreço, “Carta aberta aos leitores da Revista Concerto”, na qual se posiciona com clareza. Sairá publicada na Revista de Agosto, assim como meu “Direito de resposta”. Torna-se indispensável transmitir algumas considerações de Nahim Marun em sua retificação ao segmento escrito pela colunista: “Na conversa, feita por telefone, fui  perguntado se esse concerto já havia sido feito no Brasil. A minha resposta foi afirmativa, explicando que a referida obra havia sido executada pelo pianista e Prof. Dr. José Eduardo Martins há vários anos. Mencionei também a ótima gravação do mesmo, em versão para Quinteto de Cordas, realizado pelo Prof. Martins e o Quinteto Rubio”. Insiro dois outros parágrafos:

“Portanto as aspas na minha declaração ‘Esse concerto foi tocado há muitos anos por José Eduardo Martins, mas usando o manuscrito, que tem muitos erros’ é um completo equívoco, provavelmente uma interpretação indevida do que foi dito, conectando a resposta da primeira pergunta à da segunda, alterando o contexto das afirmações feitas.

Venho aqui declarar que tenho profundo respeito e grande admiração pelo trabalho do Prof. Dr. José Eduardo Martins. Seu trabalho é uma notória referência, essencial para qualquer estudo acadêmico ou interpretativo da obra de Henrique Oswald. Não tive absolutamente nenhuma intenção fazer qualquer critica negativa ao seu pioneiro e respeitadíssimo trabalho acadêmico e musical”.

Entendo o episódio como superado, aceitando os termos expressos pelo pianista, que se posiciona com transparência. Creio mesmo ter havido um mal entendido. Ao leitor, à guisa de informação, diria que Henrique Oswald redigiu ao menos seis manuscritos do Concerto: três para a configuração original, piano e orquestra, dois para a versão para piano e quinteto de cordas e uma para dois pianos (segundo piano, redução do acompanhamento de orquestra), sempre a manter a parte do piano basicamente inalterada. Na matéria da Revista Concerto é mencionado um só manuscrito na configuração piano e quinteto de cordas, quando na realidade são dois. Designa-o como “arranjo” quando na realidade é versão (redução de orquestra para quinteto de cordas realizada pelo compositor), palavra correta e que está presente na carta do pianista Nahim Marun. O manuscrito utilizado, contendo três autógrafos de Oswald, pertence-me, pois me foi presenteado pela neta do compositor, minha saudosa amiga Maria Izabel Oswald Monteiro, que o recebeu, por sua vez, da pianista Honorina Silva, que estudou com o compositor e dele ganhou o manuscrito encadernado (119 págs). Não há uma só rasura, o que evidencia certezas plenas por parte de Oswald. Considere-se que foi nessa versão para quinteto de cordas e piano e, com todas as probabilidades, através do manuscrito mencionado, que Henrique Oswald apresentou a primeira audição em Firenze em 1894, sendo que o original para piano e orquestra foi apresentado em 1897 no Rio de Janeiro.

Ao consultar Johan Kennivé, um dos mais competentes engenheiros de som da Europa e com o qual realizo gravações desde 1999, recomendou-me gravar o Concerto de Oswald com o Quarteto de cordas Rubio, renomado conjunto com uma série de registros fonográficos basilares sob o controle de Kennivé, entre os quais a premiada gravação dos 15 quartetos de cordas de Dmitri Shostakovitch (Brilliant Classics, Abril-Setembro de 2002).  Cópia do manuscrito autógrafo de Oswald em apreço foi enviada ao Quarteto Rubio, que se debruçou em pormenorizado trabalho visando a uma edição digitalizada para cordas. Durante meses trocamos informações. Cheguei na Bélgica mais de uma semana antes da gravação e aprofundamo-nos nesse manuscrito autógrafo. Dirk Van de Velde, do Quarteto  Rubio, convidou o primeiro contrabaixista da Orquestra Sinfônica da Ópera Nacional da Bélgica para integrar o quinteto de cordas. Gravamos o Concerto na Capela Saint-Hilarius (séc. XI) em Mullem, Bélgica,  entre os dias 17 e 20 de Fevereiro de 2002. Completam o CD o Quarteto op. 26 para trio de cordas e piano e a Sonata para violoncelo e piano op. 44. O CD foi lançado no Brasil sob a égide da Revista CONCERTO, em coprodução com a Universidade de São Paulo e a VZW De Verenigde Cultuurfabrieken / De Rode Pomp, Bélgica, 2002.

Aprofundo-me na obra de Henrique Oswald desde 1978, mercê do apoio incondicional da família do compositor durante décadas, rigorosamente sem quaisquer outros interesses. Corroborando o exposto: cinco LPs gravados no Brasil e três CDs gravados na Bélgica (o quarto, em edição, previsto para 2018-2019), livro (“Henrique Oswald – Músico de uma saga romântica”, São Paulo, Edusp, 1995), dois trabalhos acadêmicos junto à USP (tese de doutorado em 1988 e provas para professor titular em 1992 ), edições de partituras em 1982 (São Paulo, Novas Metas) e 2002 (São Paulo, Edusp), artigos acadêmicos e inúmeros recitais consagrados a Oswald, mormente no Exterior. Apraz-me saber que, a partir de minha tese pioneira, mais de uma dezena, escritas por estudiosos do compositor, foram defendidas no Brasil e no Exterior, tendo eu integrado júris nessas duas condições. Ademais, diria que jamais neguei quaisquer aconselhamentos sobre Henrique Oswald a todos os que me têm consultado ao longo das décadas. É sempre motivo de alegria saber que a obra de Henrique Oswald está a ser apresentada.

Confio no bom bom senso do pianista Nahim Marun, que aliás, frise-se, está a realizar trabalho louvável em torno de Henrique Oswald, tendo gravado CD a ele dedicado e apresentando, em acréscimo, a primeira audição moderna no Brasil do Concerto do compositor na configuração original, piano e orquestra sinfônica, pois apresentei o Concerto na versão camerística com o Quarteto Rubio em várias cidades belgas e em São Paulo no ano de 2003, assim como  posteriormente com a OCAM (conjunto de cordas), regida pelo Maestro Gil Jardim, no Theatro São Pedro.

Clique para ouvir, com J.E.M. ao piano:

Acreditemos na má interpretação da conversa telefônica. Contudo, a dedicada colunista Camila Frésca deveria ao menos ter-me consultado a fim de certificar-se sobre o manuscrito aludido, já que meu nome foi publicado a constranger-me. Eu teria, através de um simples telefonema, dirimido dúvidas sobre o manuscrito que utilizamos para gravação e concertos.

On a damaging statement appeared in an interview published by “Revista Concerto” (July issue) regarding my manuscript of Henrique Oswald’s Concert nº 10 for piano and orchestra (reduction of orchestral score for string quintet) and my refutation of what has been said, as shown by pictures of my autograph manuscript used for recording and performances in Belgium and São Paulo.

 

 


Quando a distância temporal determina emoções

Caminho, caminho, caminho.
Quando me encontro no jardim,
que é uma pátria de aromas
,
sento-me em um banco.
Olho e vejo folhas que voam e flores que fenecem.

Sinto que tudo morre e renasce.
Sensações que não me abalam.
Sou vigilância em pleno mar.
Não se trata de paciência,
pois é na caminhada que encontro o prazer
e não em seu término.
Antoine de Saint-Exupéry
(“Citadelle”, cap. CLXXXVI)

No penúltimo post comentava o programa do recital que apresentei no Theatro Municipal no dia 28 de Junho. Há recitais e recitais. O realizado naquele dia revestiu-se de aura diferenciada. O distanciamento tão imenso do tempo entre duas apresentações não permitia entender a récita como mais uma. Nascido em São Paulo, tendo me apresentado umas poucas vezes no Theatro Municipal, sendo que o último recital deu-se aos 17 de Junho de 1963, pois com orquestra apresentei-me nos anos 1970, o evento causou-me uma nostálgica sensação a anteceder o momento de entrar no palco. Quantos não eram, entre aqueles do numeroso público, que vieram ao mundo nesses 54 anos decorridos. Temos certamente duas gerações no espaço de tempo pouco superior a meio século!!!

Sempre que passo pelo Theatro Municipal, contornando-o durante inúmeras corridas como as do Centro Histórico ou da São Silvestre, lembro-me, entre uma longa respiração e outra, de minhas apresentações no mais tradicional e belo teatro da cidade. Pensava igualmente que jamais retornaria para realizar recitais naquele recinto. A minha total idiossincrasia quanto a ter um empresário, fruto talvez de minhas escolhas repertoriais, tornaram-me o que se denomina um low profile. Rigorosamente sinto-me bem nessa situação, pois a liberdade de agir, os locais eleitos no Exterior, para onde me desloco anualmente para apresentações destinadas a públicos que têm absoluto respeito ao repertório pouco frequentado, assim como para as gravações na mágica capela de Saint-Hilarius, perdida na planura flamenga da Bélgica, levam-me, já a caminho dos 80 anos, a considerar que a missão está a valer.

Não me desviando das propostas erigidas desde a década de 1970, o repertório apresentado no dia 28, luso-brasileiro, continha obras de quatro compositores portugueses e outros quatro brasileiros. Ao adentrar o palco, tendo o piano com plena luz e uma sombra a encobrir o público, entendi que este era numeroso pela vibração que acompanha a entrada de um intérprete. Proferi algumas palavras iniciais e lembrei-me, mercê da sugestão do Sr. Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, idealizador da magnífica série de eventos que teve como título “Experimenta Portugal’17″, de mencionar aquela longínqua apresentação. Dei ênfase à frase, pois disse “aos 17 de Junho de… 1963″ e, para minha surpresa, fui aplaudido. Descontração maior, clima mais propício não poderia existir. “… Resistir, quem há-de?”, lembrando-me do soneto de Luiz Guimarães Júnior, “Visita à casa paterna”.

O programa, iniciado com duas Sonatas basilares de Carlos Seixas (1704-1742), foi sendo apresentado e poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo foram lidos, a anteceder cada uma das seis peças de Eurico Carrapatoso, executadas em primeira audição no Brasil, dando prosseguimento à récita. Escusado dizer que a excepcional coletânea teve guarida absoluta e, após o recital, vários estudantes pediram-me cópia da partitura. Como não sentir emoção ao tocar os seis “Estudos Transcendentais” e “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, de Francisco Mignone, tendo presente a viúva do compositor, a pianista Josephina Mignone, incansável batalhadora nessa luta hercúlea pela preservação da memória desse imenso músico brasileiro. Na ordem, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça e Júlio Medaglia, sendo que a pequena peça deste, “Zé Eduardo arpeggiando no choro”, pelas características da obra e minha primeira incursão no gênero, mereceu aplausos inusitados. Há um fato que sempre me intriga. Quando apresento obras do notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995), criações austeras, seriais, de difícil entendimento inicial para o público, a reação é imediata e calorosa. Assim sempre ocorreu, seja com “Villalbarosa”, composta em 1987 para o centenário de Villa-Lobos, seja com o “Étude V Die Reihe-Courante”. Criações telúricas, que extraem todos os recursos possíveis do piano e cujo emprego dos pedais se mostra rigorosamente singular. Nessa duas obras tenho de utilizar luvas, pois há glissandos que percorrem todas as teclas, brancas e pretas, processo basicamente impossível de ser realizado com as mãos abertas desprotegidas.

O que dizer da magnífica “Valse-Caprice” op.11 nº 1, de Henrique Oswald? Uma das criações mais comunicativas do repertório brasileiro, estará presente em meu próximo CD, já editado e com previsão para lançamento entre 2018 e 2019. O público a desconhecia, pois o manuscrito não foi encontrado e poucas cópias da edição publicada subsistem em arquivos institucionais. Uma das alunas de Henrique Oswald, Honorina Silva, presenteou-me com uma cópia, ela que foi intérprete notável de Oswald. Também a interpretação dessa magnífica Valsa a encerrar o programa mereceu efusivos aplausos. Friso sempre que esses são destinados prioritariamente às obras, sendo eu apenas o mensageiro.

Duas peças extra-programa foram apresentadas: “Oraison dominicale des Castors”, síntese da síntese de uma obra, pois essa pequena “oração”, que faz parte das “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, evolui em forma de coral, após a menção de um canto, apenas a melodia. Um primor. E como sempre faço ao apresentar os denominados encores, interpreto de vez duas peças. “Viva-Villa”, de Gilberto Mendes, encerraria o recital que, diferentemente de tantos outros ao longo de meu caminho, sensibilizou-me muito.

Uma sugestão ficaria para a programação do Theatro Municipal. Presentemente não mais imprimem os programas. Tive de me socorrer junto ao Consulado Geral de Portugal em São Paulo, que na última hora fotocopiou o programa. Que os responsáveis pela programação do teatro entendam que o programa editado faz parte de uma apresentação. Qual a memória escrita que restaria de uma récita? Os sons podem permanecer nas mentes do ouvinte ou se volatizarem, o papel comprova e reaviva lembranças.

On my delight in playing once more in the great hall of Theatro Municipal de São Paulo last 28 June, fifty-four years after my previous solo recital at the same theatre, the most traditional and impressive in the city, as confirmed by the pictures that illustrate this post, taken by photographer André Hoss during my performance.