Navegando Posts em Música

A realização maior de um músico de imenso talento

Que o querer tenha sua origem e seu apoio
em coração aberto à nobreza, à beleza e à justiça;
de outro modo é apenas gume fino e duro de faca;
por isso mesmo frágil,
na sua aparente penetração e resistência.
Agostinho da Silva
(“Considerações”)

O Talento é dom singular, a possibilitar contudo incontáveis destinações. Necessário em qualquer atividade, para que objetivos sejam alcançados em alto nível. Na área musical, o talento só resulta plenamente se houver harmonização de vários ingredientes que integram o músico completo. O compositor pode ser hábil ao escrever música, tudo está posto na partitura, mas se lhe faltar a criatividade, perder-se-á na poeira do tempo. O instrumentista pode ser habilíssimo sob a égide técnica, mas se não existir a essencial transmissão do que está a ser executado, faltar-lhe-á algo, ou muito. Há também o talento multidirecionado, raro, integralizado.

Durante minhas décadas como professor na Universidade de São Paulo tive o grato prazer de receber em minha classe de piano vários talentos amplos e quantidade de outros para os quais a música representava, hélas, apenas uma possibilidade de alguma realização profissional. Afirmei em muitos blogs, ao longo de quase dez anos, que não aceitava em minha sala alunos que tivessem como finalidade única participar de concursos pianísticos. Teria que conviver com discípulo com apenas uma fixação em mente, geralmente abstraído da verdadeira missão de um músico e de um aprimoramento humanístico necessário. Interessava-me, sim, formar o músico, não o simples tecladista. Dizia aos alunos que tocar bem é fulcral, mas não deve ser a única meta, pois a formação cultural homogênea possibilita o vislumbre de um norte, in conditio sine qua non. Sem a abertura da mente, lacunas são perceptíveis e podem tornar-se crônicas e irrecuperáveis.

Menos de dois anos antes de minha aposentadoria, em 2008, bateu à porta de minha sala na Universidade um aluno por quem tinha simpatia, mas não convívio. Em mais de uma oportunidade cheguei a ouvi-lo tocar, mercê da deficiência acústica notória existente àquela altura nas salas de aula do Departamento. Não sei se persiste. Sabia-o talentoso e, inclusive, promissor regente coral. Procurou-me por ter sido dispensado pelo professor que me antecedera em sua orientação pianística. Luiz Guilherme Godoy, olhar firme a não permitir tergiversação, cativou-me de imediato. Quis ouvi-lo e, à medida que tocava uma obra complexa e de grande interesse, o “Estudo nº 1″ de Osvaldo Lacerda, percebi de imediato que estava diante de um diamante raro em processo de lapidação. Logo após contou-me sua trajetória, pois, paralelamente ao curso universitário, estudava com o competente professor e pianista da Escola Municipal de Música, Renato Figueiredo. Durante muitos anos Renato foi mestre e, diria, mentor humanístico de Luiz Guilherme, pois ajudou-o a trilhar o longo caminho… O então aluno tem gratidão eterna a Renato e à sua esposa Fabiana, convidando-os, inclusive, para padrinhos de seu casamento, realizado em Viena. Gratidão, princípio fundamental para a harmonização de nosso interior. Externou-a também em relação à minha orientação, comovendo-me. Certamente guarda lembranças edificantes de outros mestres. Um belo caráter.

Foi com imenso gosto que acompanhei seus estudos até a brilhantíssima conclusão na universidade. Ele formado e eu aposentado, durante muitos meses ainda o assisti em minha casa com alegria e certeza de sua realização futura. Minha mulher Regina e eu conversávamos sobre essa “santa” altivez de Luiz Guilherme. Talento saindo pelos poros, execução firme, consciente, e o olhar sempre direto. Suas interpretações demonstravam a compreensão da obra musical além da partitura. Fiel ao texto, Luiz Guilherme demonstrava a rara qualidade da criatividade. Um pianista com reais méritos que se tornaria um ótimo pianista acompanhador, caminho indispensável para seu trilhar iluminado.

Lutou acirradamente pela subsistência. Orgulhava-se de sua origem. Seu dia era interminável, pois tinha pequenas atividades musicais para conseguir o prosseguimento de seus estudos. Renato Figueiredo e eu, nesse período difícil para Luiz Guilherme, demos esse apoio musical e externávamos plena amizade. Regina e eu tivemos o jovem promissor à nossa mesa em mais de um almoço, sempre nesse entendimento sereno.

Um belo dia, Luiz Guilherme chegou à aula muito sorridente. Obtivera bolsa para a Europa. Alegria plena do velho professor e igualmente de seu mestre Renato.

Luiz Guilherme singrou mares, sempre com o pensamento cônscio do  valor autêntico, mas a guardar qualidades ímpares, a simplicidade e a gratidão. Disciplina, concentração, dedicação extrema fariam com que, pouco a pouco, completasse cursos em Portugal, na Alemanha e na Áustria, aperfeiçoando-se com mestres irretocáveis, um deles brasileiro, o pianista Paulo Álvares.

A ascensão de Luiz Guilherme evidencia bem o talento extraordinário do músico de apenas 28 anos de idade. A base sólida instrumental fê-lo estagiário como pianista preparador da Wiener Singakademie, coro da Konzerthaus de Viena, nas programações do biênio 2013-2014  junto a maestros como Sir Simon Rattle, Valerye Gergiev e Gustavo Dudamel. Logo a seguir, em 2015, teria a indicação para assistente da direção artística da instituição, que o levou a apresentações em centros essenciais da Europa.

O grande talento, possuidor de mente privilegiada, extraordinária formação musical, friso, bom senso e vontade férrea, fez com que atingisse nesse 2016 cumeeira jamais alcançada por músico brasileiro. Após rigorosíssima seleção de nível internacional foi apontado para o cargo de Kapellmeister (mestre de capela) do mais famoso conjunto vocal de meninos do planeta, os “Meninos Cantores de Viena”. A crítica europeia não cessa de elogiá-lo e uma delas destaca sua interpretação “autenticamente vienense”. A agenda de Luiz de Godoy estende-se até 2019 e o jovem brasileiro estará a conduzir o célebre coro em turnês pela Europa, Ásia e América do Norte.

Noite Feliz pelos Meninos Cantores de Viena

Saliente-se que nesses três anos em um dos mais importantes centros musicais do mundo, Viena, Luiz Guilherme já acumula outras funções de extrema responsabilidade que lhe foram confiadas, mercê desse talento hors série que enfatizo sempre: regente na Wiener Songakademie, Konzerthaus e da Chorakademie da Ópera Estatal de Viena.

Em uma de suas últimas mensagens (05/12), respondendo a um e-mail que lhe enviara, escreve: “Ainda não havia respondido por ter ficado o dia todo envolvido com longos ensaios da Missa in Tempore Belli, de Haydn, na companhia agradabilíssima e sob a direção exemplarmente respeitosa de Zubin Mehta. Esse grande maestro trabalhou hoje pela primeira vez com as ‘minhas crianças’ para um concerto que se realizará na semana que vem. Tendo chegado em casa agora, vim direto para o computador para redigir este e-mail”.

Adeste Fideles pelos Meninos Cantores de Viena

Repasso ao leitor um fato do cotidiano que me foi transmitido pelo dileto amigo Carlos Augusto Souza Lima, que, em recente viagem à Europa, visitou-o em Viena. Luiz Guilherme fê-lo ouvir um ensaio com os Meninos Cantores. Este findo, pediu para que um dos meninos, de apenas 11 anos, permanecesse na sala, a fim de cantar uma música para Carlos Augusto. O miúdo, natural da Albânia, cantou de maneira angelical uma pequena peça, a emocionar o visitante.

Toda essa ascensão de Luiz Guilherme de Godoy teve reconhecimento extraordinário, pois recebeu no dia 10 de Dezembro, em Viena, o Prêmio da Fundação Erwin Ortner, concedido anualmente a uma só personalidade do universo coral europeu. A lista que vem desde 1988 não deixa dúvidas quanto ao mérito insofismável de Luiz de Godoy.

Quanto à Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy torna-se certamente, entre alguns que lá se formaram com méritos e desenvolvem carreiras brilhantes, o nome maior em sua história na área musical.

Ao bater à minha porta na universidade, Luiz Guilherme deixava ao largo mágoas que poderiam desviá-lo dos altos desígnios que já pululavam em sua  mente privilegiada. Tantos não resistem aos momentos difíceis… Vivendo em Viena de incontáveis tradições exemplares, totalmente diversa de nossa realidade, hélas, escreve Luiz Guilherme (22/12): ” Mesmo num país como a Áustria, onde música é matéria obrigatória nas escolas desde sempre, onde todo professor de ensino infantil tem que tocar um instrumento e cantar – no concurso de admissão! -, onde o ingresso para a ópera custa 3 euros… mesmo aqui há muitas medidas no sentido de tornar a arte ainda mais acessível, para atingir a todos os que possam se beneficiar dela. E a gente, por aí, indo na contramão disso, perdendo orquestras, perdendo festivais. Que tristeza!”. Nosso lamentável cotidiano cultural sem quaisquer perspectivas de melhoras!

Conhecendo o caráter íntegro de Luiz de Godoy, tenho a convicção de que o futuro revelará o sábio semeador das mensagens musicais. O diamante foi lapidado e já pertence aos teatros e salas espalhados pelo mundo. Renato Figueiredo e eu acompanharemos com felicidade interior intensa, essa luminosa carreira que se apresenta.

_____________

Estava a inserir o post no presente blog, quando recebo de meu diletíssimo amigo e grande compositor português, Eurico Carrapatoso, um link que leva à sua criação “Dece do Ceo”, a partir de soneto do vate maior de nossa língua, Luiz Vaz de Camões. A obra foi estreada no último dia 17, no monumental Convento de Mafra, e teve como intérpretes: Joana Seara (soprano), Coro infantil, Coro misto e Coro de Câmara da Academia de Música de Santa Cecília, seis órgãos históricos comandados por Rui Paiva, Direção do maestro António Gonçalves (vide blog “Dece do Ceo” 28/05/16). Tão logo no YouTube indicarei o link aos leitores.

Nesse ambiente natalino insiro outra obra sublime de Eurico Carrapatoso interpretada pelos seguintes músicos: Angélica Neto – Soprano,  António José Carrilho e Sofia Norton – Flautas de Bisel, Jenny Silvestre – Cravo, Coro e Ensemble instrumental Olisipo sob a direção de Armando Possante.

Ó meu Menino (excerto do Magnificat em Talha Dourada)

A todo leitor que me tem acompanhado nessa longa jornada a observar as insólitas transformações por que passa o cotidiano mundial, desejo um Natal de intenso congraçamento em torno da data maior da cristandade.

This post is about the brilliant career of my former student at Universidade de São Paulo, Luiz Guilherme de Godoy. From a humble background, he has had to overcome countless difficulties to pursue his dreams. With unique talent, he got a scholarship to Europe, studying in Portugal, Germany and Austria. Today he is choral conductor of the best known choir in the world, the Vienna Boys’ Choir and has just received the Erwin Ortner Award, given annually for a personality active in the field of collective singing in Europe. Luiz Guilherme is no doubt the greatest name in the history of Universidade de São Paulo in the area of music education and matter of pride for his former mentors, pianist Renato Figueiredo (Municipal School of Music) and me.

 


 

 

 

Aspectos relativos ao recital piano solo

É melhor debater ideias sem regulamentá-las
do que regulamentá-las sem as ter debatido.
Joseph Joubert (1754-1824)

A recepção à epígrafe do post anterior, a abordar conceitos sobre a atividade “profissional” do pianista, causou-me surpresa. Reproduzo-a: “A carreira de pianista também é muito difícil. Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação, esse talento, essa vontade, nada seria compensador. A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é! A pessoa se dedica tanto! É uma experiência espiritual que eleva a pessoa. A pessoa penetra naquela música, e fica alheia do mundo por aquele período. Acaba levitando dentro daquela música.” Os inúmeros e-mails não deixaram de louvar, sem exceção, a pianista Eudóxia de Barros em seu trabalho cotidiano em prol da música brasileira e a epígrafe em apreço de Henrique Morelenbaum.

Considerando-se pianistas de minha geração, não é difícil concluir que havia no país uma maior oportunidade para recitais de piano, com cachets pertinentes. Apenas na cidade de São Paulo o pianista se apresentava algumas vezes ao ano e com salas abrigando bom público. Quase todos de minha geração tocaram, como exemplo, no Teatro Colombo, no Largo da Concórdia, no Brás, que seria consumido pelas chamas em 1966. Naquele período havia menos entraves burocráticos e as instituições, públicas ou privadas, convidavam o músico, recolhiam os impostos devidos e pagavam o que lhe era devido. Quanto aos entraves burocráticos, Eudóxia de Barros, em “Valeu a Pena?”, apresenta generosamente os passos para um intérprete conseguir dar entrada no Ministério da Cultura, a fim de obter o registro necessário e daí partir em busca de patrocinadores!!! Eudóxia de Barros comenta: “Já me aconteceu de que quando consegui o patrocinador, o prazo de validade do registro no MINC tinha expirado. Voltamos à estaca zero e daí resolvi nunca mais cuidar dessa parte tão burocrática e cansativa. Enfim, é muito complexa a intermediação entre as entidades que contratam e o pianista que precisa se atualizar com todos esses procedimentos para manter sua carreira!”. Servindo-me de várias observações pontuadas no livro “Valeu a Pena?”, a pianista Eudóxia de Barros, que percorreu centenas de cidades e Estados brasileiros, exceção a Tocantins – certamente aquela que visitou o maior número de localidades do país para recitais em teatros e auditórios -, verifica-se sensível declínio da apresentação piano solo. Factível uma das considerações, a apontar que o recital solo atualmente tem menor apelo junto às instituições e promotores, em detrimento da apresentação conjunta. Eudóxia de Barros é enfática ao observar que “as Secretarias de Cultura não vêm se interessando muito por recitais de piano. Não está fácil conseguir concertos, porque as Secretarias de Cultura, que existem aos milhares no Brasil, quase não contratam mais recitalistas. O pianista depende, sobretudo, de patrocinadores ou do SESC e SESI”. Sob outra égide, bem menos causadora de impacto no imenso Brasil, as “Grandes” Sociedades de Concerto, quando agendam um pianista pátrio – contam-se estes nos dedos de uma apenas das mãos – fazem-no prioritariamente no formato piano e orquestra.

Henrique Morelenbaum tem extrema razão ao dizer que “a recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa: porque, material, certamente não é!” Tirando-se os que “se contam nos dedos de uma apenas das mãos”, os pianistas residentes no país sabem que os cachets são bem menores do que antanho, pois o interesse diminuiu. Se amparada pela lei Rouanet e por poderosos patrocinadores, as possibilidades se apresentam. Considere-se que a música popular e as “celebridades ‘vocais’ popularescas” têm consideravelmente uma guarida extremamente mais ampla – público avassalador em gestual uniformizado – e, em acréscimo, casos de desvios vêm a público. A decadência da arte erudita, enfatizada por Mario Vargas Llosa no livro “La Civilización del Espectáculo”, e a certeza de promotores visando à quantidade de público e rarissimamente à qualidade do ouvinte, explicariam em parte a queda dos valores eruditos. O lucro a preponderar sobre a Cultura. Antolha-se-me que, na música erudita ou de concerto, a apresentação individual de um intérprete não pertencente à “seleta” elite bafejada pelo binômio patrocínio-holofote, estará a cada ano mais restrita a público diminuto, mas geralmente qualificado. Diria, audiência de resistência. Sem o fator formado pelo binômio acima, o intérprete individual estará a buscar a “recompensa espiritual” mencionada  por Morelenbaum. Comentei, em tantos blogs, que voluntariamente muitos pianistas altamente qualificados não têm propensão a situações necessárias para serem ungidos, como a constante viagem ou o holofote que pode obliterar intenções mais dignas. Mencionei várias vezes meu Mestre em França, o pianista Jean Doyen (1907-1982), pertencente a um nível de primeiríssima elite, mas que era avesso às “badalações” mediáticas.

Para o pianista que pratica repertório conhecido do grande público, que insere composições brasileiras e, por motivos tantos, obtém patrocínios, as chances de ser abrigado pelas leis de incentivo são maiores. A realidade, contudo, é mais dramática para aqueles que, sem acesso a poderosos patrocinadores e consequente “amparo” da Lei Rouanet, insistem no piano solo em apresentações fortuitas. Se convidados por Universidades no país, têm de se sujeitar aos pro labores apenas; se lembrados por entidades particulares, ficam a mercê do imponderável. A universidade surgiria como “refúgio” de sobrevivência e possibilidade até de rumos outros, devido ao “canto das sereias” administrativo.

Considerando parcela apreciável de pianistas docentes na universidade, a hipótese de drástica desmobilização quanto à eventual carreira artística é real. São necessárias disciplina férrea e perseverança para conciliar aulas, burocracia imensa na Academia e o estudo pianístico e, nesse aspecto, Eudóxia de Barros mostra-se bem cética em “Valeu a Pena?”, justamente pelo desvio de foco. Apenas não menciona, por desconhecer possivelmente as entranhas universitárias, que incontáveis reuniões intramuros são estéreis, como, aliás, majoritariamente na vida política do país.

O consagrado pianista francês Désiré N’Kaoua – meu colega durante curso na classe da legendária Marguerite Long – afirmou recentemente, em longa e substancial entrevista para o site “Pianodoux”, que “o que eu não diria, sob pena de ser acusado de ‘tentativa de desmoralização da legião’ de pianistas, é que sou bem pessimista no que concerne ao futuro do piano, pelo menos em sua formatação de recital público. Creio que o piano está intimamente ligado ao período romântico, durante o qual ele era essencialmente vocal e não destinado a se tornar o símbolo da destreza e da percussão, tal qual o é atualmente. Outro motivo da redução do público: uma visão geopolítica da música ocidental nos revela rapidamente os gigantescos territórios que não mais estão dispostos a receber essa música essencialmente europeia, que alimentou toda a nossa existência. A rapidez dos meios de transporte e a propagação de CDs de todas as origens pelo planeta tiveram como consequência uma incrível proliferação de aprendizes-pianistas, assim como de concursos, sendo que esses oferecem uma sobrevida de curta duração ao laureado – até a aparição de um novo ungido -, abandonando-o à própria sorte, tornando o primeiro, doravante, um pianista em busca de algum concerto. Paralelamente ao rush de novos pianistas, o público que os acolhe encolheu drasticamente”. Em meu livro “Témoignages – Entretien avec le pianiste brésilien José Eduardo Martins” (Paris Sorbonne, 2012), abordava o tema e dizia que, anualmente, legião de pianistas do Extremo Oriente inunda concursos internacionais de piano, habilíssimos instrumentistas, mas na grande maioria com ausência de ideias precisas e criativas.

Pareceria evidente que há mercado para a quantidade de pianistas premiados em concursos internacionais, geralmente por período curto, raramente a ultrapassar um ano. A proliferação dos certames e a quantidade de primeiros prêmios agraciados por numerosos recitais e concertos, logo após a láurea máxima, não são garantias de carreira certa. Seriam as “leis da natureza” a minimizar o laureado anterior, a fim de promover o novo talento. Proliferam os exemplos. Essa assertiva ocorre basicamente em todas as áreas. Uma quantidade mínima consegue prosseguir com uma agenda de concertos preenchida. Vários fatores envolveriam o pianista eleito nesse desenvolvimento a ultrapassar a barreira do prazo vencido: talento indiscutível, patrocinadores relevantes, contatos certos e repertório. Muitos talentos sucumbem ao day after da premiação pelo fato da limitação de repertório e da impossibilidade de, em curto prazo, edificá-lo. O mercado é implacável e a depressão pode instaurar-se.

François Servenière elabora outra metáfora àquela que apresentei no livro citado. “Em seu livro da série ‘Témoignage’, publicado pela Sorbonne, do qual fui um dos entrevistadores, você estabelece metáfora em algumas páginas sobre a existência na ponta do iceberg do repertório super frequentado e na massa submersa, escondida, do repertório pouco tocado ou nunca programado. No âmbito da interpretação, proponho outra metáfora, da montanha. Há aqueles raríssimos, que conquistaram os 14 picos himalaios acima dos 8.000 metros e tantos outros que repartem os cerca de 200 picos na faixa dos 7.000m, também no Himalaia. Virtuosidade na ascensão, perigos enfrentados, risco mortal nas duas faixas de altitude evidenciam profundo valor. Todavia, a mídia apenas projeta todos os holofotes nos ungidos que realizaram o feito do acesso aos 14 picos, as cumeeiras, o Olimpo!!! Casta à parte e poderíamos considerar normal a atitude. Diria que a metáfora relativa ao Himalaia bem se aplica à elite na música, no caso, aos pianistas. A parte submersa do iceberg ou os dificílimos picos logo abaixo dos 8.000m não contam para a mídia. Ficam nas profundezas (iceberg) e na sombra (montanha), respectivamente. Apenas a elite tem o privilégio da unção, independentemente de talentos e qualidades individuais” (traduções: JEM). O certo é que, se aqueles que tiveram acesso aos picos próximos aos 8.000m têm pouca divulgação, menos ainda os que, meritórios, não atingiram os 7.000m. Lembremo-nos que a maior altitude abaixo dos 7.000m está distante da cordilheira do Himalaia. Trata-se do Aconcágua (6.962m) na Cordilheira dos Andes. Metáforas à parte, o recital de piano fora das condições de elite está em crise.

O tema é rico, polêmico e a ele darei espaço no próximo blog, aproveitando trechos da entrevista e da mensagem dos ilustres músicos Désiré N’Kaoua e François Servenière, respectivamente, que acrescentam, inclusive, outros temas significativos relativos à interpretação.

Nowadays space for soloists dwindles as sponsors focus primarily on pop shows and, in terms of classical music, on orchestras, since grandiose shows capture more public and bring in receipts in ticket sales. Only star soloists – in special foreign ones – have a chance and audiences get more of the same, for they keep hearing the same things again and again. Winners of international competitions may become overnight superstars, but just until the next winner is chosen. Profit prevails over culture and legions of excellent soloists remain unknown because financial backers prefer a handful of celebrated performers. As Vargas Llosa announced in his book “Notes on the Death of Culture: Essays on Spectacle and Society”, high culture is dying, replaced by mere entertainment.

 

A pianista Eudóxia de Barros e a revelação por inteiro

A carreira de pianista também é muito difícil.
Há tanta dedicação! Se não houvesse essa vocação,
esse talento, essa vontade, nada seria compensador.
A recompensa é mais espiritual do que qualquer outra coisa:
porque, material, certamente não é!
A pessoa se dedica tanto!
É uma experiência espiritual que eleva a pessoa.
A pessoa penetra naquela música,
e fica alheia do mundo por aquele período.
Acaba levitando dentro daquela música.
Maestro Henrique Morelenbaum

O que realmente importa em qualquer biografia
é o que a pessoa sente e não aquilo que fez.
Glenn Gould

Dentro das leituras existentes na ampla área musical destaca-se a biografia. Pode ser escrita pelo autor ou por outro, no caso, através de depoimentos ou material documental. Não poucas vezes a biografia adquire a roupagem de romance e todo o cuidado deve ser tomado para que equívocos não ganhem status de verdade.

Gosto do gênero biografia de músicos, mormente dos pianistas. Jamais as narrativas têm semelhanças, graças às categorias diferenciadas na abordagem.  Wilhelm Kempff  (1895-1991) narra com sensibilidade seus anos de juventude e cativa pela intensa visão espiritual (“Cette Note Grave – les années d’aprentissage d’un musicien”, Paris, Plon, 1955); Arthur Schnabel (1882-1951) aborda aspectos fundamentais relativos à interpretação e ao período em que viveu (“My life and music”, New York, Dover, 1988); Vladimir Horowitz (1903-1989) explora os muitos aspectos da carreira, comenta sobre pianistas coetâneos, evidencia suas preferências repertoriais (“Evenings with Horowitz” – entrevistas concedidas a David Dubal, New York, Citadel, 1994); Claudio Arrau (1903-1991) discorre sobre sua formação musical, carreira, repertório e, num anexo, tem longo e essencial texto em que aborda o intérprete frente à psicanálise (“Arrau Parle”, – entrevistas concedidas a Joseph Horowitz, Paris, Gallimard, 1985); Heinrich Neuhaus (1888-1964) realiza verdadeira explanação da sua metodologia de ensino, exemplificando processos técnicos, sem abandonar dados concernentes à sua trajetória de pianista e professor (“L’Art du Piano”, Tours, Van de Velde, 1971);  György Czifra (1921-1994) e Zhu Xiao Mei (1949- ) viveram experiências traumáticas. Aquele, prisioneiro dos nazistas e, após, de soviéticos durante a segunda grande guerra. Desde a infância, a trajetória pianística gloriosa teria lances dramáticos e, como toda a técnica pianística e a interpretação tiveram a mais absoluta naturalidade, pouco se refere a elas (“Des canons et des fleurs”, Paris, Laffont, 1977). Zhu Xiao Mei viveu a Revolução Cultural na China e descreve com agudeza os “campos de reeducação” onde esteve detida e sua prática digital-pianística sem piano, a visualização de fuzilamentos de seus mestres e todo o longo caminho até chegar a Paris e desenvolver carreira sólida (“La Rivière et son secret”, Paris, Laffont, 2007); Arthur Rubinstein (1887-1982), nas autobiografias “Les jours de ma jeunesse”, de 1973, e “Grand est la vie”, de 1980 (Paris, Laffont) e Magdalena Tagliaferro (1893-1986) em “Quase tudo” (Rio de Janeiro, 1979) permanecem preferencialmente nas exuberantes trajetórias, mas em abordagens nas quais as apresentações e o convívio social preponderam; João de Souza Lima (1898-1982) narra sua rica trajetória como pianista – dileto aluno de Marguerite Long -, maestro, professor e compositor (“Moto Perpétuo”, São Paulo, Ibrasa, 1982); João Carlos Martins (1940- ) esclarece seu envolvimento com a integral de J.S.Bach para teclado e os vários processos pianísticos criados, mercê de infortúnios que sofreu com as mãos (“Conversas com João Carlos Martins” – entrevistas concedidas a David Dubal, São Paulo, Green Forest do Brasil, 1999); Guiomar Novaes (1895-1979) apresenta-se em estudo multidirecionado onde não faltam depoimentos da pianista (“Uma arrebatadora história de amor” por Maria Stella Orsini, São Paulo, Editora C.I, 1992);   Glenn Gould (1932-1982) pormenoriza determinação consciente em suas interpretações, tantas delas polêmicas (“Glenn Gould – Uma vida e variações”, contém inúmeros depoimentos colhidos por Otto Friedrich, Rio de Janeiro, Record, 2000); Daniel Barenboim (1942- ), pianista, pensador e maestro, tem na polivalência uma de suas marcas essenciais, evidentes em duas autobiografias (“La musique éveille le temps” e “La musique est un tout”, Paris, Fayard, 2000 e 2008, respectivamente); Marguerite Long (1874-1966), em seus livros sobre três compositores franceses fulcrais, Gabriel Fauré, Claude Debussy e Maurice Ravel, expõe não apenas o convívio com os notáveis músicos, mas aspectos interpretativos deles aprendidos (“Au piano avec Gabriel Fauré”, Paris, Julliard, 1963; “Au piano avec Claude Debussy”, Paris, Julliard, 1960; “Au piano avec Maurice Ravel”, Paris Julliard, 1971). Considere-se que as três obras de grande importância, mas escritas bem tardiamente contêm, por vezes, fatos não comprovados. Seria Janine Weil que, ao escrever uma biografia da legendária pianista e professora, levaria ao leitor sua trajetória de maneira mais totalizante (“Marguerite Long, une vie fascinante, Paris, Julliard, 1969).

Essa breve panorâmica apreende fatores essenciais para a compreensão do pianista consagrado e do longo caminho percorrido. Cada um aborda, à sua maneira, as causas que o conduziram ao reconhecimento planetário. Contudo, processos do estudo pianístico ficam por vezes nebulosos, pois estaria mais em evidência o todo do aprimoramento.

Em “Valeu a Pena? – Conversando com Eudóxia de Barros”, entrevistas formuladas e colhidas por Rosângela Paciello Pupo (Brasília, Musimed, 2016), a pianista Eudóxia de Barros narra sua trajetória desde a infância e sua vocação insofismável, demonstrada desde os tenros anos, é largamente exposta. Os estudos no Brasil, em França, nos Estados Unidos e na Alemanha deram-lhe base sólida para a carreira escolhida. Apresentou-se com recepção crítica elogiosa, em muitos países europeus, nos Estados Unidos e na América Latina. Carreira consolidada, pois. Contudo seria, como afirma, a sua ligação umbilical ao Brasil que determinaria durante décadas sua afirmação como pianista pátria, nitidamente ratificada. Caminho escolhido, importaria a Eudóxia expor o seu envolvimento com a Música e, ainda mais, com o piano. “Valeu a Pena?” se diferencia das biografias apontadas pela visão “regional” da pianista, voltada preferencialmente para cenário no Brasil, país que apresenta severas deficiências relativas à cultura musical erudita ou clássica. Mostra-se corajosa nesse trabalho dignificante ao levar música de qualidade aos rincões mais afastados do nosso território.

Largamente comenta todos os processos de sustentação nessa dualidade imprescindível para o intérprete, a prática e a apresentação pública. Não sem razão, no raciocínio de Eudóxia a palavra “estudo”, como necessidade imperiosa, está presente em todos os capítulos. Seria ela a chave mestra, verdadeira fixação, que levaria a pianista a se manter ativa durante tantos decênios. Disciplina espartana quanto ao estudo, preparação para as apresentações, preferência repertorial, cotidiano voltado à música, mas também ao vestuário, às relações humanas, à saúde, ao saudoso marido, o compositor Osvaldo Lacerda, e a um verdadeiro “guru”, que ainda ouve seus programas montados para apresentações a cada ano, o maestro Henrique Morelenbaum, reiteradas vezes são mencionados. Rosângela Paciello Pupo, de maneira extremamente organizada, soube orientar as “entrevistas” para que nada pudesse ficar à margem.

Consideraria “Valeu a Pena?” um livro testemunhal de ordem prática. Quantas não são as vezes que Eudóxia de Barros se expõe de maneira confidencial? Dessa assertiva vem parte do interesse do livro. Revelar-se por inteiro, a não ocultar ao leitor pormenores “laboratoriais” rigorosamente íntimos, demonstra certezas, coragem e até possibilita armadilhas. Há retornos constantes a verdadeiros “dogmas” relacionados ao mencionado estudo diário inflexível, a obedecer regras e de preferência com horários fixos; ao estudo permanente com as mãos separadas; à memorização; à colocação de dedilhados em toda a partitura, mais ainda, em cada figura da trama musical; à prática diária da técnica pura; à preparação no dia de recitais e concertos, dela fazendo parte o estudo prolongado a anteceder a apresentação; à carreira como eixo paradigmático primordial em sua vida. Exaustivamente Eudóxia responde às perguntas inteligentes de Rosângela e, em determinadas reflexões sobre música e interpretação, demonstra até franqueza constrangedora. O leitor poderia se perguntar se estaria aí uma falha. Diria que temos em seus depoimentos a mais absoluta sinceridade, o que é raríssimo entre os intérpretes em suas biografias. Essa sinceridade é porosa, faz jorrar em cada página a descoberta de Eudóxia de Barros por inteiro e não seria essa autenticidade um dos aspectos a tornar “Valeu a Pena?” um livro de forte interesse? A ausência desse desnudamento não faria falta em tantas biografias, entre as quais algumas das acima citadas?

Sob outra égide, basicamente inexiste nas biografias mencionadas o autoelogio. Por questões éticas, de modéstia – ou ausência dela -, de foro íntimo, dificilmente um intérprete em texto faz referência às suas qualidades. Eudóxia, não como vanglória, frise-se, mas como necessidade de expor suas virtudes, revela essa franqueza que pode ser apreendida como vontade de transmitir aos seus incontáveis ouvintes qualidades que eles já tinham captado e que o documental escrito apenas solidifica em suas mentes. Proliferam os superlativos voltados à excelência das oitavas, da velocidade, da compreensão e do fraseado, da memória. Todas essas exaltações transcorrem normalmente e Eudóxia transmite o que ela sente, entende e assiste ao verificar suas facilidades frente ao teclado. Quem teria essa coragem? Quanto à memória, não poucas vezes ressalta ser inadmissível a interpretação tendo-se à frente a partitura em recital solo. Nesse aspecto, entendo o conceito passível de interpretação. Nem todos tem a memória de Eudóxia e, como narra em “Valeu a Pena?”, há todo um científico trabalho para se decorar uma obra. Contudo, tem-se de ver caso a caso. O grande Sviatoslav Richter (1915-1997) confessaria que, nas últimas décadas da vida, apresentava-se com partitura à frente. Assim procedeu tardiamente Roberto Szidon (1941-2011), dessa maneira habitualmente desempenha brilhante carreira o pianista português Arthur Pizarro (1968-  ). Certamente todos tiveram ou têm as obras absolutamente digeridas e a presença da partitura serve certamente como um conforto, a fim de que nada de anormal possa ocorrer. Apenas isso. Sabe-se que ela lá está. Assisti a um sem número de excelentes pianistas na Bélgica interpretando ou integrais ou recitais com obras diversas com a partitura como ajuda. Pessoalmente, mormente nestes últimos anos, assim procedo. O grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro já afirmava que “o tempo é insubornável”.

Uma das qualidades inalienáveis de Eudóxia, exposta com insistência, é o culto à música brasileira. Revela inquestionável missão, cruzada sem trégua a que se dedica desde jovem, não apenas a cultuar compositores consagrados, como Villa-Lobos (1887-1959), Francisco Mignone (1897-1986), Camargo Guarnieri (1907-1993) e seu discípulo e marido da pianista, Osvaldo Lacerda (1927-2011), mas também autores que eram desconhecidos do grande público. Dedicou-se igualmente ao repertório pátrio semi-erudito, clássico-ligeiro na visão de seu até hoje conselheiro musical, o Maestro Henrique Morelenbaum. Ernesto Nazareth (1863-1934) e Chiquinha Gonzaga (1847-1935) tiveram suas obras estudadas, interpretadas e propagadas pelos mais distantes rincões do país. Contam-se às centenas as cidades brasileiras visitadas pela pianista nessa hercúlea tarefa. Do clássico-ligeiro ao popular tem-se um passo e Eudóxia demonstraria em sua carreira intrínseca intimidade com a música de Zequinha de Abreu (1880-1935) ou com grupos que praticam o chôro, os denominados Chorões. Polivalência relativa à música brasileira, do erudito ao popular.

Não tendo trilhado carreira acadêmica, Eudóxia faz críticas ao trabalho dentro da universidade e suas obrigações. Crê que a sobrecarga intramuros impeça o desenvolvimento de uma carreira como a que empreendeu.

Um longo capítulo apresenta situações hilariantes pelas quais a pianista passou ao longo da carreira. Tem muita graça, realmente diverte o leitor.

Apêndices apresentam o enorme repertório de Eudóxia de Barros. Verifica-se que, após perpassar parcela das composições sacralizadas e comuns a todos os pianistas, mais e mais ela revelou esse notável trabalho voltado aos compositores brasileiros. Um mérito indiscutível. Também sua larga discografia, críticas recebidas no Brasil e no Exterior e uma instigante entrevista de seu conselheiro musical – Maestro Henrique Morelenbaum – que descreve o perfil pianístico de Eudóxia, complementam o copioso livro. Serve o depoimento do ilustre músico para evidenciar esse entendimento profícuo estabelecido entre ambos.

“Valeu a Pena?” é obra obrigatória na biblioteca de músicos e leigos, mormente dos estudantes que terão em mãos um verdadeiro vade mecum voltado ao cotidiano pianístico, do estudo à apresentação pública, a ratificar in adendo, com letras maiúsculas, a imperiosa dedicação e disciplina para que objetivos sejam atingidos. Essas palavras apenas corroboram o caminho meritório e consagrado da pianista Eudóxia de Barros.

Today’s post addresses the book “Valeu a Pena?”, a series of conversations between the Brazilian pianist Eudóxia de Barros and journalist Rosângela Paciello Pupo. With honesty and candor, Eudóxia talks about a lifetime devoted to music: the discipline required for her daily piano practice, performance preparation routines, the importance of playing from memory, choice of repertoire, recordings, her option for the promotion of Brazilian composers since the beginning of her career. In my opinion, a mandatory reading for music lovers and in special for students, since it makes clear that nothing can be accomplished without practice, discipline and hard work.