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Gilberto Mendes e o Romance

O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens;
é tê-las feito.
Agostinho da Silva

O nosso grande compositor Gilberto Mendes, nos seus 90 anos de idade, continua a causar impacto. A composição flui viva em sua pena clara, sem subterfugios, direta, a expor sua mensagem sonora rica e diversificada. O compositor tem suas preferências nítidas que não ficam enclausuradas unicamente na criação de seus ilustres ascendentes musicais, mas viajam para outras latitudes e o cinema, o jazz band, o mar de sua Santos eterna servem de subsídios que, transfigurados, aportam em seu vasto catálogo. É surpreendente seu interesse por tudo que o cerca. Hoje não mais viaja para o Exterior. Entende o seu tempo físico, que, apesar de não o desapontar, tem regras inexoráveis. Ideia e criação desafiando o tempo implacável. Gilberto personaliza o pulsar vulcânico controlado, mas constante. As lavas são jorradas das entranhas de seu criar, em absoluta concordância com o outro Gilberto, o do cotidiano, que merece a admiração e o carinho de todos os que têm o privilégio de com ele conviver.

Em meados do ano passado fui visitá-lo em Santos. Com regularidade estamos em contato, mormente por telefone. Durante o almoço, a saborear ostras em restaurante da maior confiança de Gilberto, confessou-nos, à minha mulher e a mim, que estava a finalizar um romance. Romance? – perguntei-lhe pasmo. Dois posts dedicados à sua obra literária, na qual Gilberto narra sua odisséia musical vivida sem alterações fantasiosas, testemunham minha sempre admiração pelo colega e amigo (vide posts de 13/10/2007 e 04/04/2009). A viagem literária do compositor, a brotar da imaginação, surgiu-me no instante como fato inédito. E é. Aos 90 anos!!! Gilberto disse-me à altura que procurou divertir-se ao criar personagens para Danielle em Surdina, Langsam (São Paulo, Algol, 2013). E como se diverte. Mas se é fim deste post o conhecimento desse talento que desabrocha, não o é, entretanto, o panegírico tout court.  Lembraria que “langsam” é palavra germânica bem utilizada na terminologia musical e tem correspondentes em outras línguas: lento, lent, slow. Enigmático en surdine… Como não pensar em Paul Verlaine  (Fêtes Galantes) ou Charles Baudelaire? 

O romance de Gilberto Mendes não tem o manejo linguístico e formal de especialistas do ofício. Nem poderia tê-lo. Seria pedir muito àquele que destinou sua vida às sonoridades, à palavra que serviria aos seus desideratos musicais e à cena teatral em função de uma adequação à mensagem musical e estética. Danielle… sintetiza muitos dos devaneios gilbertianos, que percorrem dezenas de títulos em suas composições. Nestes, Gilberto é insólito, desconcertante, divertido ou trágico. Quem neste país fez o mesmo com tanta naturalidade?  O pente de Istanbul; Ulysses em Copacabana surfando com Doroty Lamour e James Joyce; Um Estudo?  Eisler e Webern caminham nos mares do sul;  Santos Football Music; a tragédia em Cubatão, Vila Socó meu amorVers les joyeux tropiques, avec une musique vivante, théatrale! e tantos outros revelam o observador da vida em sua acepção. Dir-se-ia que o criador de imagens sempre esteve definido. Sob outra égide, sua pena firme e crítica comentou durante decênios concertos e denunciou irregularidades a contagiar a sociedade. O homem em sua convicta ideologia de esquerda não se furtaria a apontar descasos culturais e sociais de variadas origens. Mas jamais com o ranço que caracteriza tantos adeptos.

Danielle em Surdina, Langsam, passa-se em dois tempos, numa espécie de forma bipartida,  mas com alternâncias geográficas. O “tempo” de Danielle… obedece ao presente (Alemanha) e ao passado (Santos). Em todo o curto romance o personagem central,  Mathias Emmanuel, se vê frente à reminiscência. A realidade é o instante do acontecido. Fundem-se os tempos e o presente renascido encontra final surpreendente.

Impressiona a vitalidade imaginativa de Gilberto Mendes. O personagem Mathias Emmanuel é músico e o autor o acompanha dos primórdios pianísticos em Santos até o porto final,  Alemanha, no qual estaria definitivamente radicado como compositor alemão. O alerta já se apresenta no peristilo do livro. Há, no personagem criado por Mendes, um misto de alter ego e de ecos dos anos 1930-1940. Lugares caros a Gilberto em sua cidade berço, situações vividas e encontráveis nas sua “biografias” reais, mas metamorfoseadas, a depender das circunstâncias, a lembrança lúdica da infância e adolescência em que a música para Mathias Emmanuel estaria amalgamada à descoberta do perfil feminino em sutilezas por vezes sensuais,  “olhar os joelhos e pernas das colegiais”, a libido a confundir-se com amor, mas a propiciar o conhecimento. Pureza, temor, arrojo, concretude, seja nos braços de uma prostituta que se parecia com Hedy Lamarr, seja no observar  uma estudante adolescente, Danielle, paixões mensuráveis em contextos diferentes. Essas situações provocam no leitor a indagação, deixando-o estupefato, tal  é o jogo de palavras. Surpresa acompanhar a lista de sinônimos que Mathias elabora na Alemanha para termos como meretriz e casa de tolerância. Gilberto parece se divertir nessas recordações, que todo adolescente ao menos conhece em parte. Mathias Emmanuel, em noite insone em Dresden, recorda-se da quantidade de agências de vapores que adentram pela Ponta da Praia. Enumera-os, assim como o nome dos navios que aportavam, lentamente. Gilberto converte essa listagem na transcendência humana do observar. A matéria banal a volatizar-se na poética imaginação.

Danielle… encanta pelos instantes fantasiosos, trágicos, libidinosos, puros. Os personagens flutuam como névoas nessa viagem através das décadas. Desfilam pelo romance, esporadicamente, nomes que marcaram a música no século XX, tanto a erudita como a popular, e Mathias “julgava as músicas populares norte-americanas e alemãs como as duas faces de uma mesma moeda, algo de certo modo também erudito. As outras seriam músicas populares propriamente ditas”. Devaneia num universo lúdico-sonoro-sensorial.

A guardar as muito devidas contextualizações, Romain Rolland, no belo e caudaloso romance Jean-Christophe, não sacraliza Beethoven jovem? A seguir, na continuação da saga do personagem até a morte, não realiza essa simbiose música-destino, esperança e amor estiolados, sendo a música a única fiel companheira? No breve Danielle em surdina, langsam, Mathias Emmanuel ratifica a imagética de Gilberto e sonha como Jean-Christophe. Se este tem final solitário, Mathias tem surpresas.

É deliciosa a leitura do romance de Gilberto Mendes, mormente ao sabê-lo pleno de entusiasmo pela vida em história reveladora de alguns de seus segredos. Desvelados? Não diria. Há mistérios insondáveis em Gilberto Mendes. Mathias Emmanuel e “Danielles” encantam, e o desdobramento final surpreende. Leitura prazerosa. Gilberto…

Gilberto Mendes, one of the most prominent Brazilian composers, has just published a novel called “Danielle en Surdine, Langsam”. This post is about his book, a light and engaging reading in which fiction and Mendes’ own experiences are intertwined: the hero is a young musician who has spent his childhood and adolescence in Santos and later became a compositor in Germany. Now with 90 years old, instead of enjoying a quiet life in retirement the great Gilberto Mendes is still surprising us.

 

 

 

“Rôle et Responsabilités de l’interprète aujourd’hui”

Fazer justiça a uma obra,
é também conjugar  sua compreensão e liberação de suas forças.
Só uma disciplina englobando a leitura justa,
assimilação paciente, gesto circunstanciado,
pode dar ao intérprete a liberdade e permitir-lhe insuflar vida à obra
- canalizando envolvimento emocional, intelectual, energético,
sem aos quais, mesmo uma obra prima permaneceria letra morta.
Pierre-Laurent Aimard

A interpretação musical foi tema de muitos posts nestes últimos seis anos. Em sendo o elo intermediário da criação-interpretação-recepção, fica reservada ao executante a difícil tarefa da decodificação da escrita musical contida na partitura e transmissão da maneira a mais autêntica e digna. Nesse desiderato, literatura foi escrita por historiadores, musicógrafos e intérpretes ao longo do tempo, mormente a partir do século XX, quando determinados instrumentos, eleitos como solistas, e mais conjuntos orquestrais e corais, tendo à frente um regente, passaram a despertar interesses precisos.

Como sempre faço, a cada viagem ao Exterior não deixo de buscar literatura musical e de outras áreas. Percorrendo prateleira reservada a Debussy em livraria especializada, encontrei um pequeno livro que me interessou de imediato. A leitura apenas ratificou minha primeira boa impressão.

Pierre-Laurent Aimard é pianista renomado internacionalmente. Seu vasto repertório e sólida discografia estendem-se de J.S. Bach à música contemporânea, mormente a mais ventilada entre os adeptos.  Admitido no tradicional Collège de France, Instituição fundada em 1530, Aimard seria responsável pela cátedra de criação artística nos anos 2008-2009. A aula inaugural do músico seria publicada e tem profundo interesse, pois a abordar problemas tangíveis não apenas da interpretação, como repertório, cultura, apresentação pública, gravação, recepção (Pierre-Laurent Aimard. Rôle et responsabilités de l’interprète Aujour’hui. France, Collège de France/Fayard, 2009, 46 pgs.).

Apesar de destinada aos intérpretes, preferencialmente pianistas, a aula inaugural evidencia posições claras do autor, que incluem rigor repertorial, fidelidade à partitura, compromisso com a música presente e preocupação com tendências que proliferam.

A respeito do intérprete que navega em mares imensos, do barroco à contemporaneidade, o autor classifica-o como arqueólogo e explorador e é nesses vastos espaços que Aimard busca realizar suas buscas repertoriais. Sob outra égide, entende que o executante infesso, que encontra no amplo leque histórico o seu repertório, corre o risco de não se aprofundar, pois o todo necessitaria de tempo. Superespecialização e ecletismo desmesurado podem, assim, ser  obstáculos ao pleno desenvolvimento do intérprete. Este teria de ser o homem de intuição, de estudo e de transmissão que atuará no palco, no estúdio de gravação ou na pedagogia “num universo em mutação extremamente rápida”,  afirma Aimard. Tem consciência da prevalência massacrante do repertório consagrado e mais antigo frente ao contemporâneo dos últimos decênios. Observa que, se a interpretação tende a impecabilidade, sob outra égide é hoje menos inspirada.

O discurso de Aimard, ao referir-se à contemporaneidade, poderia conter determinado paradoxismo. Entende, como Serge Nigg (vide post  Serge Nigg “Captar o passado, apreender o presente, pressentir o futuro”, 04/03/2011), que quantidade de compositores na atualidade, independentes e  individualistas, “pensa ir mais longe do que nunca, sem que sintamos  efeitos na própria criação”. Nigg argumenta que só se deparava com compositores, pois “todos” almejavam esse patamar. Aimard comenta que os “criadores de peso do século XXI são os mesmos do século precedente”. Independentemente do repertório visitado pelo pianista, que se estende de J.S.Bach à música dos últimos cem anos, constata-se em sua discografia a atração preferencial por Debussy, Stravinsky, Messiaen, Berg, Bartok, Ligeti, Marco Stroppa, Elliott Carter,  sem contar suas  performances de obras de Boulez e Stockhausen. A guardar as precauções devidas, não estaríamos diante de uma “reiteração” repertorial movida pelo interesse de grandes gravadoras, no caso, que buscam nomes mais divulgados da música dos últimos decênios? Aquilo que Aimard nomeia, entre determinados criadores da música da atualidade, como “território que é ocupado por músicas comerciais ou revisionistas”, não seria a crítica às tendências não comprometidas com aquelas que são hoje consagradas e que têm seus profetas que se fazem ouvir pelos acólitos? Pierre Boulez não se teria pronunciado sobre a importância da ligação do músico à Instituição? Não estaria esta a financiar ad eternum, de preferência, friso, nomes consagrados na Europa e alhures? A mídia a dar guarida às obras musicais e o pensar incisivo desses compositores não influenciaria o todo? O certo, hélas, é que se de um lado temos “legião de jovens compositores”, grande parte sem ideias coerentes, há um número qualitativo de valores reais, jovens e nem tanto, que não conseguem penetrar num círculo fechado já sedimentado. Pareceria – a partir da discografia valiosa de Aimard – que o pianista de excelência especializou-se nesse compartimento sacralizado contemporâneo de grande importância, mas não o único, pois há outros compositores que não têm suas obras mais divulgadas, mas que mereceriam tal espaço. A pergunta de Aimard sobre o lugar reservado à  criação dos intérpretes  - para a obra contemporânea consagrada, mais precisamente  -  está a merecer, de há muito, que o leque se abra de vez, com o apoio de mídia e… gravadoras.  Subjetivamente ou não, o peso dos notáveis sobrepõem-se à realidade existente. A menção de Aimard a Elliott Carter (1908-2012) não estaria a expor o sacralizado: “não é flagrante, para citar apenas um caso, que o maior compositor americano vivo seja um dos mais europeus, e que esse criador centenário nos surpreenda por sua vitalidade criativa e seu frescor, preferencialmente a tantos jovens lobos”?

Cônscio da pluralidade de estilos composicionais do barroco aos nossos dias, Aimard entende determinadas proximidades interpretativas, no caso de Haydn idoso, Mozart e Beethoven, este na juventude. Contudo “uma das atribuições do intérprete é a caracterização das diferentes maneiras de agir para fazer jus à originalidade de cada compositor no seio de um mesmo estilo. No coração de nossa Torre de Babel, ao contrário, o intérprete é levado a descobrir constantemente estéticas e técnicas novas; torna-se um linguista experimentador… e poliglota”, afirma.

Aimard faz duras críticas à educação superior, na qual o Sistema de ensino permanece basicamente o mesmo desde o final do século XIX para instrumentos como piano, violino e canto, tomados como exemplos. Vê com preocupação os holofotes projetados sobre jovens não suficientemente maduros e o mal que o fato acarreta. Todo um sistema a dar guarida sempre aos “novos talentos” criaria situações que desestabilizam precocidades, pois substituídas logo após por nova leva de candidatos ao estrelismo. Creio que poderíamos acrescentar os concursos nacionais e internacionais, principalmente para os instrumentos mencionados por Aimard, quando meteoros tendem a desaparecer, tantas vezes para sempre, mercê do desvio sistemático do foco de luz.    

Sobre a popularização da música clássica, entende com reservas essa ascensão. O que poderia servir de alerta residiria na maneira de ela ser configurada para atender as massas: “Quando esse fenômeno se produz no coração do sistema, sem que distinção seja feita entre divertimento populista e música com outras exigências, o risco de confusão é grande”. A assertiva viria ao encontro de manifestações, que têm se acentuado atualmente, de uma mescla da chamada música clássica com várias tendências populares de intensa divulgação. Tem-se o simulacro da primeira e apenas mais uma aparição de gênero que preferencialmente, esse sim, faz concessão ao se acoplar ao erudito.

Preocupa-se Aimard com a montagem dos repertórios, que não se deve basear na cópia de modelos tradicionais que não atenderiam à atualidade multicultural. Afirma “O repertório de cada intérprete é o reflexo artístico de suas convicções profundas. Essa teia de obras é uma manifestação da sua identidade (diga-me o que tocas e eu te direi quem és), mas também o resultado de seu olhar crítico sobre o estado do mundo musical – carências a contrabalançar, atos pedagógicos… “. O contexto seria fundamental para a apresentação de uma obra e a montagem de um programa deveria atender a vários atributos nesse desiderato. Entende Aimard que “o mais nobre de um intérprete é aquele de servir aos criadores de seu tempo”. Elenca as dificuldades nessa missão, como a relacionada a  uma obra recém-composta quando fica destinado ao executante “dormir três curtas vezes por semana se o concerto estiver próximo”. Outro quesito colocado pelo pianista é aquele relacionado à importância do estudo de uma obra contemporânea com o próprio autor. Acredito ser esse um compartimento fundamental – quando possível, é claro. Se a obra tem valor, a tradição passará a ter seu curso. Insiste Pierre-Laurent Aimard na diferenciação estilística que deve ser respeitada e menciona Debussy e Ravel, que merecem tratamentos distintos.

Aimard vê com simpatia compositores atuais que tentam explicar suas criações. Lembraria o ilustre compositor cubano-norte-americano Aurelio de La Vega, que, em entrevista a mim concedida  (Aurelio de La Vega – Os musicólogos têm pouca visão. In: “Cultura” de “O Estado de São Paulo”, 18/05/1986) dizia que tantas vezes a “bula” é bem mais extensa do que a obra, o que entendia como um equívoco. Aimard compreende, entretanto, fundamental esse trabalho testemunhal, pois ajuda o intérprete a melhor captar as mensagens de um criador.

Um dos aspectos fulcrais da música é a pedagogia e Aimard dela não descuida em seu acurado texto. Aponta para a necessidade de o professor ser honesto, sem fugir das reais capacidades de um aluno, desaconselhando-o a seguir a trajetória musical, se for o caso. Compreende indispensável a transmissão dos muitos estilos através da história, mormente as várias tendências da música contemporânea, mas vê com preocupação “a resistência por vezes tenaz de certas mentalidades”.

Aimard entende a importância da tecnologia e a utilização de meios proporcionados pela internet.  A possibilidade de “estar presente” a tantos eventos ligados à atividade musical, como gravações de toda sorte, aulas, cursos, documentários, traz ao ouvinte e ao aprendiz o conhecimento imediato, a transpor geografias.

Pormenoriza-se no intérprete e na necessidade imperiosa de ele ser “proteiforme  e agir  sobre diversos fronts: criação, pesquisa e releitura do repertório, pedagogia diversificada, trabalho sobre diferentes suportes, etc.” Acrescenta que, sobretudo, deve ele ser “o conteúdo que dita a ação, e não a função social que aprisiona o conteúdo”. Para tanto, o conhecimento abrangente dos gêneros praticados por um compositor apenas enriquecerá a interpretação. Sob outra égide, deve o intérprete ter consciência da “transposição” ao apreender que obras, mormente as do passado, foram concebidas para instrumentos e espaços outros. Todo uma apreensão histórica e contextual não pode ser negligenciada.

Nessa temática, Aimard entende que “parte considerável da obra cravística  executada ao piano revela-se inoperante, ou inaceitável”. Lembro-me sempre da frase do ilustre musicólogo François Lesure, que ao referir-se à obra de Jean-Philippe Rameau para cravo executada ao piano, escrevia que “o que importa não é o instrumento, mas a qualidade do intérprete”. Não poderia parecer subjetivo, talvez paradoxal, que essa “parte considerável da obra cravística ao piano” tenha por parte de Pierre-Laurent Aimard a aplicação do livre-arbítrio quanto à escolha, pois gravaria ao piano A Arte da Fuga de J.S.Bach. Há controvérsias quanto à destinação dessa obra-prima do Kantor: para cravo ou sem especificação definida?  Critérios de escolha.

Rôle et responsabilités de l’interprète aujourd’hui  revela-se da maior importância, apesar das poucas páginas, pois se trata da tradução de um acúmulo de conhecimentos concentrados por um músico na acepção em rara obra pedagógica.

When admitted to the Collège de France in 2008, the remarkable pianist Pierre-Laurent Aimard gave an Inaugural Class that was turned into a book. This post is about this book, which I believe addresses issues of great interest for any interpreter of classical music.

 

     

Considerações Sensíveis

O homem olímpico não ignora o seu contrário,
não foge à sua dor: utiliza-a como a um instrumento de perfeição.
Agostinho da Silva (Parábola da Mulher de Loth, 1944)

Foi numeroso o volume de e-mails focalizando a personalidade da Professora Olga Rizzardo Normanha, tema do post precedente. Alunos e amigos lembraram episódios de interesse dos quais a professora participou, seja no convívio amistoso ou em eventos envolvendo a apresentação de seus incontáveis alunos ao longo das décadas.

Como sempre faço, tive de selecionar e-mails. Gostaria de colocá-los todos. Contudo, para o presente post  escolhi, excepcionalmente, três poemas dedicados à Olga Normanha, com matizes bem diferenciados. De Paris, o professor português Fernando Rosinha, enviou-me um poema reflexivo e metafórico. A professora e poetisa Maria Cândida Ribas comove-nos com poesia etérea e, de Campinas, a irmã da pianista Sônia Rubinsky, Fany, que igualmente estudou com Olga Normanha,  envia-nos singelo texto em forma poética, a observar qualidades inalienáveis da mestra. Nessa seleção constam ainda mensagens pungentes de Mônica Sette Lopes (Belo Horizonte), François Servenière (França), Idalete Giga (Portugal) e Jenny Aisenberg (São Paulo). Como tributos à minha saudosa sogra, apresento aos leitores os  sensíveis textos recebidos.

Fernando Rosinha:

O último concerto da professora e pianista Olga Normanha

Agora e na hora da nossa morte

No êxtase final de muro ou de caixão,
Esquecem-se os desejos. Foi-se embora a nostalgia.
Morrem a fome e a guerra. Uma sinfonia
foi desligando a luz que palpitava em nossas mãos.

Junto da cor das rosas que me afagam, choras.
Lua a rezar por mim ao pé das horas
em luto, doem o amor e a sedução
que deram brilho ao nosso olhar de outrora.
Na lareira da terra se apagou o lume
e o vento afaz-se à noite sem queixume.
São horas de colher o gesto que às minhas mãos desceu como essa flor
que encontrou na montanha a luz e um rumor
de rio onde corre a melodia
que faz do pianista o coração dum dia.

O sonho foi-se. O céu somente em Deus se conservou.
O ficar do teu carinho cheira a rosas.
A fonte dos teus olhos no meu rosto se espantou.
A flor que em lágrimas se abriu, dos lábios nos voou.
Será que só a alma dá certeza e vida às coisas?
Ensina-me a sonhar noutra verdade.
Por mais que eu some as coisas só terei o paraíso
no eco do que fomos e na teia do teu riso.

Por mim andava sempre essa lembrança no rumor duma ansiedade
caiada com sabor de eternidade.

Nosso passado embrulha e põe-mo na algibeira como um canto e um segredo.
Assim tu vais ficando e eu irei sem medo.

Teus lábios lembram tantos sins e tantos nãos,
tantos pianos a subir pelo céu das tuas mãos.

Não sei se foi tristeza ou arcanjo que esta noite veio.
Ó Mãe de Deus acolhe a tua filha entre as rosas do teu seio.

Maria Cândida Ribas: 

Memórias

Ouço uma melodia….
Busco um caminho…
Uma ansiedade saudosa, infinda…
Os meus sentidos …pressentem…
Vibrações divinas….
Fantasias do inconsciente…
Harmonia plena…
Notas suaves e fortes…um desejo…
O tempo passando..e, de repente..
Num olhar que se fita…
A sua lembrança, o seu canto…
E eu, percorrendo em meus sonhos..
O desejo do reencontro,
O caminho do encontro!

Fany Rubinsky:

Em nome dos Rubinsky

Dona Olga – luz que nos guiou: luz que nos iluminou.
Dona Olga – estaca fundamental na nossa formação.
Os cinco adolescentes privilegiados foram envolvidos
por essa personalidade marcante, firmeza e determinação.
Dona Olga nos adotou
E com amor maternal moldou nossa personalidade.
Moldou nossa alma.

Não foram somente aulas de piano.
Foi uma vivência intensa
Em um mundo privilegiado de arte e criatividade.
E, mais do que tudo,
Um preparo para nossas vidas futuras.

Sempre ali
Presente no nosso dia a dia.
Acreditou nas nossas possibilidades nascentes,
e nos incentivou
e nos guiou, supervisionando nosso desenvolvimento.

E assim, sob essa luz mágica,
Fomos nos transformando
E crescendo interiormente.

Hoje esta luz não se apagou,
Não para nós,
Privilegiados que fomos
E continuará acesa
Dentro de cada um de nós
Como algo de muito especial
E único
E essencial
De nossas vidas.

Mônica Sette Lopes:

“Meu caro amigo, só agora tive jeito de passar pelo blog e de perceber qual era o tópico de hoje. Chorei várias vezes. Choro leve, como deve ser quando a vida se apresenta tão integramente vivida. Sinto por vocês, por sua Regina e pelas meninas todas. Ando muito sensível com esse tema da idade e da morte por causa dos meus – todos já avançados nos anos e com as dificuldades e surpresas próprias. Mas o bom é que todos temos história e nós com eles. E mesmo que não tenha jeito (sempre digo que a lembrança do meu pai é tão forte como se fosse de ontem e que ele é presença tão forte como quando chegava à noite do trabalho, nada disse é certo interferindo no jeito de entender as coisas, nada disse me deixando triste ou fraca)”.

François Servenière:

Verdadeiramente estou ainda emocionado pela leitura do admirável artigo sobre sua sogra. Estou a ouvir o Concerto nº 3 de Beethoven sob os dedos de Regina. Trata-se de um piano magnífico e sublime, malgrado a qualidade na época da gravação. Seria de suma importância a remasterização desse registro fonográfico como gravação histórica da Regina!

Teu artigo é sublime, pois traduz a proximidade e a perda, mas a deixar um lugar honorífico à vida e à história de Olga Normanha. Um pensamento ocorreu-me: que pena que um escritor ou historiador não se debruce sobre a história dessa mulher, seu método de ensino, a história da família. Poderá interessar numerosos leitores do Brasil, os melômanos, musicólogos, acadêmicos e pedagogos. As histórias de homens e mulheres de valor têm isso de precioso, são exemplos que fundamentam outras vidas e outras histórias, outras lendas e outras excelências, ao lado da genealogia biológica. Sob outra égide, há muita emoção contida com pudor em todas as belas frases apologéticas, em todas essas pequenas ações das crianças, netos e bisnetos, no cemitério…” (tradução JEM).

Idalete Giga:

“Quero, antes de mais, expressar o meu pesar pelo falecimento de sua sogra a Profª Olga Rizzardo Normanha. O poema de Romain Rolland O ma vieille compagne…é um belo prelúdio para o texto que se segue. Pela descrição que faz em sua memória posso, sem a ter conhecido, seguir e ao mesmo tempo admirar o seu percurso de vida incansável como artista, pedagoga, mãe, avó e sogra dedicada. O retrato da avó, que sua filha Maria Fernanda desenhou com grande sensibilidade, revela não apenas uma mulher fisicamente muito bela. É também um retrato psicológico que nos mostra uma mulher terna, generosa, determinada, olhando longe para o horizonte. A Regina teve o privilégio de a ter tido não só como mãe, mas também como mestra. Ouvi a gravação do Rondo-Allegro do Concerto nº3 de Beethoven que a Regina fez apenas com 15 anos! Achei notável, uma adolescente já com este nível! A Regina é, de facto, uma grande e talentosa pianista!!!”

Jenny Aisenberg:

“Fiquei emocionada até as lágrimas pela Olga, pelo piano interpretado pela jovem Regina e pela mensagem de Servenière”.

Há anos, em plena consciência, Olga Normanha doaria todo seu acervo, que conta um pouco da história de sua escola pianística em Campinas, através de quantidade expressiva de cartas, programas, artigos, críticas e notícias em jornais e revistas, assim como fotos que documentam um período culturalmente expressivo da cidade. A Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) recebeu essa preciosa doação.

The post on the death of my mother-in-law has resulted in many condolence messages, a comfort to my family. Written in prose and verse, I chose some of them for this week’s post for I believe they are worth reading even for those outside our family circle.