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José Maria Pedrosa Cardoso

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Assim como uma pedra sólida não é abalada pelo vento,
do mesmo modo o sábio
não é abalado pela censura ou pelo elogio.

Dhammapada

Aos meu alunos,
esta síntese máxima,
do que disse e deixei de dizer.

José Maria Pedrosa Cardoso (dedicatória)

Reiteradas vezes abordei a problemática do livro de determinada área escrito por especialista ou por leigo. No primeiro caso, pode-se ter, em princípio, a garantia do conhecimento da matéria. Quem escreve, a ter sob controle tema determinado, geralmente o faz com competência. Impossível não se captar a intimidade do autor com o roteiro traçado. Em senso inverso, todo aquele que escreve sobre área da qual desconhece fundamentos básicos, o que o levaria a ser entendido como amador ou soi disant, em determinado momento da narrativa evidencia a falha estrutural, mesmo que o discurso possa ter certa sedução. Infelizmente, a literatura sobre música de concerto, erudita ou clássica no Brasil tem apresentado acentuados exemplos dessas visitações não competentes, que se contrapõem a outras, felizmente de músicos os musicólogos. Se os primeiros chegam a ter guarida junto a meios de comunicação não protegidos pela visão crítica autêntica, sob aspecto outro não servem de referência, pois conceitos ou são “extraídos” de tantas obras consagradas, ou derivam de considerações arbitrárias. E todo o mal está feito. Frise-se, autores da área musical, nem sempre escrevem livros confiáveis. Todavia, obras competentes sobre Música, invariavelmente são escritas por músicos ou musicólogos de valor. E todo mérito se faz presente.
Saudara em 2009 o excelente livro de Júlio Medaglia (vide Música Maestro – Do Canto Gregoriano ao Sintetizador, 18/04/09) em que o autor, com pleno conhecimento da História da Música, percorre prazerosamente os vários períodos, explicando, a partir da experiência pessoal junto a uma infinidade de partituras, os muitos meandros que levaram a arte dos sons à contemporaneidade. Igualmente é o caso de uma nova visita à História da Música, desta vez empreendida por professor e musicólogo da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso (História Breve da Música Ocidental. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2010). Poderíamos citar obras referenciais recentes de Pedrosa Cardoso, como O Canto da Paixão nos Séculos XVI e XVII: A Singularidade Portuguesa (Coimbra, IUC, 2006, 560 pgs.) e Cerimonial da Capela Real: Um Manual Litúrgico de D.Maria de Portugal (1538-1577) – Princesa de Parma (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, 157 pgs.) No livro em pauta, Pedrosa Cardoso, latinista impecável, ratifica a premissa do presente blog: “Não se pode entender e apreciar correctamente uma peça gregoriana sem conhecer o seu texto e reconhecer a funcionalidade da mesma dentro da liturgia cristã”. Afirmação que leva o leitor a confiar na competência, conditio sine qua non para a referência, pois estamos diante de um emérito conhecedor da música da cristandade, do gregoriano aos dias atuais. Já mencionara anteriormente que, no capítulo Nasce um Maestro, do livro de Medaglia, o polivalente músico dá uma verdadeira aula, mercê de acúmulos de rica experiência ao longo das décadas. Pedrosa Cardoso realiza trajetória paralela embasada no conhecimento, e faz o leitor viajar até a Renascença com leveza. Enfatiza a música desse período através dos três fatores básicos: o mecenas, o compositor e os executantes, e comenta a importância da Música Sacra e da Profana no Renascimento. Período rico na descoberta instrumental, que se expande às várias camadas sociais, e no emprego de sistemas de escrita musical que facilitariam a compreensão e divulgação da música.
Divide-se o livro em quatro capítulos e inúmeros sub-capítulos, tendo o som como epicentro: O Som Místico da Época Medieval, O Som Humano da Época Moderna, O Som Livre da Época Contemporânea e, o mais longo, O Som Plural da Época Atual. Nesses breves capítulos, Pedrosa Cardoso caminha com o leitor, ilustrando-o, sem ser enfático. As 159 páginas da História Breve da Música Ocidental tem o mérito da síntese. Não se trata de um resumo, mas de sementes fecundas plantadas, pois esses capítulos fornecem farto material – no caso, multum in minimo – destilado de maneira sequencial, sem quaisquer obliterações. Pequenos textos que podem propiciar ao leitor olhares outros, a visar ao aprofundamento. Se as tantas Histórias da Música, das caudalosas às mais concentradas, percorrem os períodos, muitas delas a evidenciar o conhecimento do autor ou autores, não poucas vezes tem-se o conteúdo doutoral. Tornam-se referência, mas dificilmente o leigo poderá compreender.
Se do barroco, passando-se pelo classicismo e pelo período romântico – que na realidade não tem interrupção do início do século XIX a meados do século XX, mas sim vertentes agregadoras ou diferenciadas, mas românticas sempre – às fronteiras do século XXI, naquilo que Pedrosa bem define em subcapítulo como “pluralismo cultural”, seria todavia a música do último cento que atrai um olhar ainda mais pormenorizado do autor. Dir-se-ia que as múltiplas tendências surgidas após a desagregação da tonalidade fascinam Pedrosa Cardoso, pelo multidirecionamento a envolver técnicas composicionais, convivência do erudito com o popular, tecnologia, sintetizador, o concerto democratizado a abrigar tendências divergentes e, paradoxalmente, em situações de congraçamento, sob um mesmo teto. E como fonte viva e até “independente”, a presença da música de raiz, o folclorismo que pulsa e que teria um olhar diferenciado sobre a sua autêntica manifestação, mais acentuadamente a partir da segunda metade do século XIX.
O fato de a música até o século XX ter sido extremamente ventilada em infindáveis compêndios propiciaria a Pedrosa Cardoso – provável suposição – um debruçamento maior em nomes da criação musical, sobretudo da segunda metade do século XX, não se alongando sobre determinadas figuras basilares dos séculos precedentes. Seria possível aventar a falta de recuo histórico para a avaliação de inúmeros compositores pormenorizados por Pedrosa Cardoso e pertencentes ao século XX. Entende, contudo, ter sido Debussy “o grande nome da charneira dos séculos XIX-XX, tal como Monteverdi foi para os séculos XVI-XVII e Beethoven para os séculos XVIII-XIX”. Agregaria o autor, no decurso da História, Schöenberg.
A facilidade com que os vários temas são tratados por Pedrosa Cardoso, assim como a sua capacidade em tornar segmentos complexos ou controvertidos da História da Música palatáveis ao estudante e ao leigo, já bastariam para a recomendação da obra. Uma pequena observação apenas, que deveria ser entendida como um desafio. Teria faltado no significativo livro, capítulo reservado à música em Portugal. Aguarda-se sempre a sua inserção definitiva nos repertórios internacionais. Nesse cenário global irreversível, em que a música se coloca como uma das mais importantes fontes do sentir e do pensar, urge o esforço coletivo nesse desiderato de divulgação mais ampla, interna e externamente, da música criada em terras lusíadas. E Pedrosa Cardoso tem-se mostrado, através de obras anteriores, um grande defensor da música portuguesa. Quem sabe não dedique a sua pena a uma próxima História Breve da Música em Portugal?
Instigante a frase final de História Breve da Música Ocidental: “Não se sabe como será a música do futuro. Talvez esta ignorância, humildemente assumida, explique o mistério do som, que mudará, ou não, à justa medida do ser humano”.

A few comments on the book “História Breve da Música Ocidental” (A Brief History of Western Music), written by José Maria Pedrosa, musicologist and Professor at the University of Coimbra. The book gives an overview of different stylistic periods in music history from the Medieval days to the present, with a particular focus on the 20th century and the multiple tendencies that emerged as music progressed towards atonalism. Pedrosa Cardoso has a gift to express the most using the least and his short chapters are seeds inviting readers – music students and the general reader as well – to investigate further the subjects covered by the book.

A Música para Junqueiro

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Porém, a arte só beija quem por ela almeja ser beijado.
A arte exige uma liturgia, um ritual,
que se prende com a fonte da dádiva e a aproximação ao amor.
A arte atravessa a nossa mente com pés de pomba,
à mínima tempestade torna-se invisível, substituída pelos apelos do cotidiano.

Miguel Real

Estava a organizar livros que se acumularam. Reconheci a lombada de volume caro a meu pai: A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro (Porto, Lello & Irmão, 1926). Acostumamo-nos a ouvir, durante décadas, nosso progenitor recitar com empolgação o longo poema O Melro, integralmente e sem vacilos. Abri e folheei. Logo na abertura, chamou-me a atenção o extenso prefácio à segunda edição (fragmento inédito), escrito pelo autor em 1887. Incisivamente, Guerra Junqueiro (1850-1923), polêmico escritor e poeta português, posiciona-se em relação à sua autonomia: “Nunca discuti, nem jamais discutirei com quem quer que seja, o valor literário duma obra minha. / Um livro atirado ao público equivale a um filho atirado à roda. Entrego-o ao destino, abandono-o à sorte. Que seja feliz é o que eu lhe desejo; mas, se o não for, também não verterei uma lágrima. / Não faço versos por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz a resina, a pereira, pêras e a macieira, maçãs: é uma simples fatalidade orgânica. Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim”. E em outro segmento, a dimensionar a qualidade de uma obra: “Sim, o crítico dos críticos é só ele – o tempo. Infalível e insubornável. As grandes obras são como as grandes montanhas. De longe vêem-se melhor. E as obras secundárias, essas quanto maior for sendo a distância, mais imperceptíveis se irão tornando”. O tempo se mostraria o grande aliado de Guerra Junqueiro, a perenizar sua obra.
Compositores buscaram, ao longo dos séculos, na poesia popular ou nos poemas entendidos como cultos ou eruditos, fonte indispensável à existência das canções ou lieds. Há poetas e poetas. Alguns, apesar do imenso valor, não têm em seus versos a “musicalidade” essencial. Intuitivamente ou não, os músicos, ao buscarem poemas para as suas composições, tendem à essa volatização que se expande de uma poesia. Nem sempre o poeta que perdura tem versos musicais, mas tantos outros, que a história ajudou a esquecer, tiveram poemas magistralmente musicados por compositores do período romântico, como Franz Schubert, Robert Schumann… Se Claude Debussy teve o dom de captar a essência essencial de Stéphane Mallarmé, Paul Verlaine e Charles Baudelaire para as suas mélodies, não deixou contudo, por vezes, de frequentar poetas menores. Em L’harmonie du soir, um dos poemas de Les Fleurs du Mal de Baudelaire, não somente criou uma de suas mais expressivas mélodies para canto e piano, como do verso Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir, um dos mais sensíveis Prelúdios para piano solo. Sob égide outra, o cancioneiro popular, “uma bíblia em música”, segundo Guerra Junqueiro, deve sua existência à plasticidade do verso geralmente anônimo do povo, que saberá, como fluxo inexorável, adequá-lo a uma melodia. Há todo um aspecto “mágico” nessa interação ancestral.
Quando do recital em Braga no início de Junho, lá esteve meu amigo António Menéres. Dele recebi A Música de Junqueiro (Porto. Escola das Artes, Universidade Católica Portuguesa. Coordenação: Henrique Manuel S. Pereira, 2009). Li-o com interesse. Trata-se de obra fundamental para o conhecimento não apenas de uma característica poético-musical do grande poeta e escritor, mas também para a compreensão de todo um processo que leva o compositor a buscar poemas que emanem “sonoridades”. Tão mais sonoros são os versos junqueirinos quão mais entendemos que, ao longo de um século, apesar de toda a trajetória da escrita composicional, os poemas de Junqueiro jamais deixaram de interessar aos músicos. Torna-se evidente que a visitação constante, na maior parte constituída de compositores expressivos, é inequívoca presença dessa imanência musical nos poemas de Guerra Junqueiro.
A coletânea de textos escrita por autores competentes, contida em A Música de Junqueiro, está a demonstrar a insistência do autor de Pátria em precisar a importância da música frente à poesia. Já não seria a evidência de que a frase musical esteve sempre a integrar o seu de profundis? As inúmeras incursões, opiniões, “certezas” até de Guerra Junqueiro em relação à música são inquestionáveis.

Página manuscrita de Guerra Junqueiro. Extraído de A Música de Junqueiro, pág. 34. Clique para ampliar.

A cuidadosa seleção de referências à música, realizada pelos responsáveis de A Música de Junqueiro, vem demonstrar uma atração à temática por parte do poeta e escritor. No artigo Música de e Música para Junqueiro, Henrique Manuel S. Pereira seleciona criteriosamente segmentos do escritor e poeta em que a arte dos sons está presente reverencialmente. No texto, S.Pereira penetra na hermenêutica, a dar sentido à música interior de Guerra Junqueiro expressa na prosa em períodos vários de sua existência. Junqueiro realiza uma glorificação ao cantar: “ser o cantador, ser a voz da água e do vento, da rocha e da floresta, dos homens e dos monstros, dos infusórios e dos sóis, das nebulosas e dos átomos! Cantar o riso, o beijo, o olhar, a dor, a lágrima!”. E prossegue nessa louvação emocional às formas, matérias, ideias, paixões. Faz o amálgama das artes ao afirmar que “a luz é música. O prisma é um instrumento de música” e a luz seria uma orquestra, “um hino de cores”. O ter sido colecionador respeitado de obras de arte não seria a ratificação de uma vocação à integração das artes? Situação bem próxima não teria ocorrido com Alexander Scriabine (1872-1915), o notável compositor russo, que buscava a identidade das artes em Prometeu, o Poema do Fogo e no Mystère (inacabado) que deveria ser a união de todas em direção ao Cosmos?
Guerra Junqueiro, na comparação com o verso, afirmaria que “no canto há (ainda) mais amor entre as palavras, socializam mais, fraternizam mais”. E prossegue: “o verbo cantar é um dos filhos radiantes do verbo supremo, do verbo eterno, do verbo divino e criador, que é o verbo amar”. A assertiva do poeta viria de um tríplice entendimento: o cantar a prevalecer sobre o verso, e este, por sua vez, sendo “mais belo do que a prosa”. Entendimento que o faz captar a condução de uma linha poética expressa nas palavras: “o verso errado é um delito”. Tem o poeta o dom da associação metafórica: “cantar é por os sons em harmonia, torná-los amigos, parentes próximos, irmãos devotados e inseparáveis. Cantar é moralizar o som”. Ao preferenciar órgão e violino, pelo fato de que “as notas são contínuas, fundem-se, convivem mais, porque cada uma delas sacrifica, por amor à outra, uma parte do seu individualismo, o seu limite”, ao contrário do piano onde o som, por força do mecanismo do instrumento, evidenciaria, ao ver de Junqueiro a “contiguidade, não continuidade”, não demonstraria uma percepção, intuitiva, dos meandros sonoro-musicais e da plasticidade ininterrupta? A erudição quanto ao repertório musical sacralizado o levaria, através da escuta, à dedução: “A música é poesia incorpórea. Há sonatas de Beethoven que se me afiguram ser as melódicas almas imortais de grandes epopéias que morreram…”. O texto de Henrique Manuel S.Pereira tem, entre outras virtudes, a de ser ponte importante a ser transposta, a fim de que entendamos o porquê dessa frase musical no verso de Guerra Junqueiro, e a compreensão consequente por parte de tantos compositores de méritos que se debruçaram sobre sua poesia.
Se a canção predomina em sua básica formatação canto e piano, a poesia musical de Junqueiro serviria, sob outra égide, para outros entendimentos quanto à destinação. Em texto de síntese e bem elaborado, Fernado C. Lapa apresenta essas várias configurações nas quais os versos do poeta estimulariam a ideia do compositor. Quinteto de sopros, coro de câmara e quarteto de cordas, coro a capella e os muitos endereçamentos não eruditos visitados por músicos de várias tendências populares ou pop. Salienta o compositor F.C. Lapa, ao caracterizar as vertentes musicais erudita e popular que apreenderam o conteúdo inerente na poesia de Guerra Junqueiro: “podemos afirmar que nelas se reflectem duas das atitudes mais contrastadas na abordagem da poesia de Junqueiro: a atitude naturalista (a vida no campo, a singeleza da natureza, a bondade universal…) e uma atitude mais construtivista (filosófica, dramática, por vezes irónica)”. Nomes expressivos inspiraram-se em seus versos. Mencionaríamos, à guisa de exemplificação, compositores como Fernando Lopes-Graça, Cláudio Carneiro, Tomás Borba, António Fragoso, Luís de Freitas Branco, Óscar da Silva, José Viana da Mota e o brasileiro Barrozo Netto. Seria do vocalista da banda Houdini Blues uma consideração pertinente à poesia e à letra da canção. Faz distinção: “A primeira dificilmente se musica com sucesso por já ter uma melodia e uma cadência inerentes, a segunda dificilmente sobrevive incólume à ausência da música”. Algumas das poesias de Guerra Junqueiro, como A Moleirinha, Canção Perdida, Morena, Regresso ao Lar, tiveram várias leituras realizadas por compositores de tendências distintas.
A edição esmerada de A Música de Junqueiro apresenta artigos instigantes, todos os poemas que foram a fonte essencial para a criação sonora, entrevistas com intérpretes, a relação cuidadosa de todos os compositores e mais dois CDs, contendo o resultado musical da ampla pesquisa. Modelo a ser seguido.

During my recent visit to Braga I was given the book “A Música de Junqueiro” (The Music of Junqueiro). Guerra Junqueiro (1850-1923) was one of the greatest poetry and prose writers of the 19th century in Portugal. The book unveils Junqueiro’s thoughts about music, examines the musicality of his poetry and the works of composers who have drawn inspiration from his writings thanks to the musical effects of the language he used. It presents all of Junqueiro’s poems that were set to music, stimulating articles, interviews with performers, lists the composers who worked on his poetry and comes with two CDs with works by names such as Fernando Lopes-Graça, Cláudio Carneiro, Tomás Borba, António Fragoso, Luís de Freitas Branco, Óscar da Silva, José Viana da Mota and the Brazilian Barroso Netto. An interesting reading for anyone who wants to go deeper into the art of this great writer and into the creative process of composers when their inspiration comes from poetic works.

Quando Renovar tem Implicações

Medalha em cerâmica nº 02-50 da Casa Memória Lopes-Graça. Tomar. Clique para ampliar.

O que é verdadeiramente tradicional é a invenção do futuro.
Agostinho da Silva.

Retorno à minha cidade-bairro, Brooklin-Campo Belo. A certeza de que a tournée pela Bélgica e Portugal teve guarida, mormente se considerada for a programação, pois dois recitais inteiramente dedicados à criação do notável compositor português Fernando Lopes-Graça. Se gravação durante três madrugadas na Bélgica, oito recitais em Portugal, três conferências e mais três masterclasses preencheram o mês inteiro, salientaria que há público e público. Para repertórios especiais há sempre tributo a pagar, pois, devido ao desvio do sacralizado, a grande maioria dos frequentadores de concertos volta-se ao que é conhecido, a não se interessar pelo diferente. Sente-se segura, não há choques ou impressões novas a serem convertidos pelas mentes e a “aparência” da sapientia se referenda.

Conferência no Museu da Música Portuguesa. Cascais. Foto: Maria Manuela Pedrosa Cardoso. 26/05/10. Clique para ampliar.

O público do inusitado é particularmente consciente. Tem ele a perspectiva histórica. Sabe decodificar mensagens pouco visitadas ou inéditas. O impacto o tornará mais crítico quanto à criação musical, pois o comodismo auditivo não é de sua alçada. Participa da apresentação, interessa-se por comentários que introduzam o repertório novo à sua apreciação. Essas reações foram sentidas pelo intérprete, ao entender bem previamente que as obras apresentadas tinham imenso valor, apesar de ainda ignotas. Canto de Amor e de Morte, assim como as Músicas Fúnebres, essas últimas apresentadas integralmente e a ter cerca de 45 minutos de duração, tiveram recepção surpreendente, tão grande a força que emana dessas criações. Se o público que acorreu aos recitais foi seletivo, ficou-me o grato diálogo que mantive com músicos competentes e ouvintes a respeito das obras. Isso permanece.
A premissa se mostra necessária. É esse ouvinte atento e voltado ao pouco frequentado ou inédito, que já apreciara anteriormente o repertório sacralizado, continuando a fazê-lo quando oportuno, que estará a divulgar a outros interessados essas composições qualitativas. Diferente do majoritário, que compreende que se tem de ouvir quase que exclusivamente o que a tradição manteve. Este o público que se desloca para apreciar dezenas de vezes as mesmas composições, fartando-se de um prazer da escuta que lhe garanta a comunicação com seus pares, o incenso aos mesmos intérpretes e a convivência com a sua consciência acomodada. Nada a fazer. A realidade tem-se mostrado, hélas, a cada temporada mais apegada ao consagrado.
Foi pois positivo o balanço. As gravações na mágica capela de Sint-Hilarius, na Bélgica Flamenga, correram em clima de tranquilidade. A planura da região estimula a imaginação. Após, percorrendo Portugal para os recitais, ouvi comentários preciosos no sentido da certeza de que criações extraordinárias foram apresentadas. Em todas as récitas dizia conceitos que apregoo desde a década de 80 (vide As Mortes do Intérprete no item Essays do site). Nós, intérpretes, somos apenas corredores de revezamento, sendo o compositor qualitativo o maratonista que percorre um caminho sem fim. Um dia, nós findamos a trajetória, mesmo que gravações façam perdurar durante decênios a nossa passagem pelo planeta. Nada além disso. Temos a incumbência essencial da transmissão, sem a qual a obra de arte musical corre o risco de se ver estagnada, esquecida ou sepultada. A qualidade permanece na partitura, e o intérprete que nos sucede será o novo estafeta, já a saber que seu antecessor cumpriu sua missão e a entender que, um dia, haverá o seu término igualmente nesse perene revezamento. Essa é a única certeza rigorosamente precisa. Quanto à obra excelsa, esta permanece, a independer se durante décadas ou mais mantiver-se oculta por desconhecimento ou até descaso. Daí ter enfatizado a audição que se faria de criações basilares do grande Lopes-Graça. Estas, a partir dessas primeiras audições, estarão a ser frequentadas por outras mentes, corações e dedos. E a saga continuará, a depender da apreensão de outras gerações de ouvintes. No programa ao vivo da RTP – Antena 2, às 9h do dia 20 de Maio, bem conduzido pelo experiente Paulo Guerra, comentei a qualidade ímpar das obras apresentadas de Lopes-Graça e a origem de meu envolvimento e consequente entusiasmo em divulgá-las. Voltei a elogiar intérpretes portugueses mais dedicados ao país, nesse grande esforço na divulgação da música qualitativa de Portugal de méritos incontestáveis, mas frisei enfaticamente o descaso quase que pleno de outros, sobejamente conhecidos fora das terras lusitanas, que se negam, quando em tournées alhures, a tocar a criação portuguesa. Tendo enorme contingente de ouvintes pelo país, as palavras parecem não se ter perdido no deserto. Houve guarida.
Causou-me impressão a leitura das custosas e cuidadas publicações de duas das maiores instituições que promovem concertos em Portugal. Lembraram-me algumas de outros países, todas destinadas a um público de classe social mais abastada. Repertório preferencialmente bem conhecido e pequenos textos explicativos de rara puerilidade, a nada acrescentar, a não ser a perpetuação do que é de domínio comum. Também nesses casos nada a fazer, pois o público frequentador das temporadas repetitivas continuará “pleno” de certezas provocadas por essas pílulas convertidas em minitextos. Chega-se ao limite do óbvio. O dicionário de música mais elementar mostra-se mais eficaz !

O Presidente da Câmara Municipal de Tomar, Dr. Corvêlo de Sousa, ao entregar a Medalha nº 02-50 da Casa Memória Lopes-Graça a J.E.M., após recital na cidade dos templários. Foto: Ludovico Alves Rosa.  23/05/10. Clique para ampliar.

Determinadas situações durante a digressão deixaram o intérprete emocionado. Ao doar fotos originais com Lopes-Graça, tiradas entre 1958-59, e partituras manuscritas autógrafas, que me foram oferecidas pelo compositor, para a Casa Memória Lopes-Graça, em Tomar, e para o Museu da Música Portuguesa, em Cascais, respectivamente, compreendi que esses preciosos documentos estavam, enfim, nos lugares certos. Em Tomar, como não me sentir feliz ao receber das mãos do Presidente da Câmara Municipal, Dr. Fernando Rui Corvêlo de Sousa, a Medalha em cerâmica da Casa Memória Lopes-Graça? Foram feitas 50 e recebia a de número dois, tendo anteriormente a Ministra da Cultura de Portugal recebido a primeira. Privilegiado ao ser convidado pela Diretora do Museu da Música Portuguesa, Dra. Vanda de Sá, para integrar comissão que visa à publicação das obras para piano de Lopes Graça. Empreitada de fôlego. Contentamento ao saber que os CDs que gravei na Bélgica já têm interesse sensível em Portugal para 2011. Gratidão pelo apoio recebido do Banco Banif do Brasil nestas duas últimas viagens para apresentações musicais.

Academia de Amadores de Música em Lisboa. Templo de Lopes-Graça.  J.E.M. e António Ferreirinho após recital. 19/05/10. Clique para ampliar.

As primeiras absolutas de Canto de Amor e de Morte e da integral das Músicas Fúnebres, realizadas no único auditório emocionalmente possível para o intérprete para premières do Mestre de Tomar, a Academia de Amadores de Música de Lisboa, templo de Lopes-Graça, tão bem conduzida pelo amigo estimado e competente professor Antônio Ferreirinho; o recital na Igreja do Convento Nossa Senhora dos Remédios em Évora, criteriosamente programado pela Diretora do Eborae Musica, a sensível Helena Zuber; Tomar, o torrão natal de Lopes-Graça, e o Canto Firme dirigido pelo ótimo e sensível regente coral Antônio de Sousa; Cascais, já mencionado, onde conferência e dois recitais na Casa da Cultura e no Museu da Música Portuguesa congraçaram-se em torno de Lopes-Graça; Lagos e as três master classes para jovens talentosos; mais, ainda, os recitais em Vila do Bispo e Monchique, em duas pequenas e belas igrejas barrocas, sempre acompanhado, na belíssima região algarvia, pelo competente professor da Universidade de Coimbra, José Maria Pedrosa Cardoso e esposa; finalmente, Braga, berço de meu pai, onde se ouviu a augusta criação de Lopes-Graça na Sala dos Congregados da Universidade do Minho, em recital promovido pelo Departamento de Música, dirigido pela professora Elisa Lessa.

Recital na Igreja Matriz de Vila do Bispo no Algarve. Foto Maria Manuela Pedrosa Cardoso. 29/05/10. Clique para ampliar.

Projetos surgem, na medida em que continuamos a sonhar. Sem essa esperança no descortino, que tem sempre de ser vislumbrado como objetivo já findo, mesmo que no nascedouro, a existência perde o sentido. Ainda há tempo para novas obras a encantarem o intérprete. Pulsação.