Navegando Posts em Música

Quando o Destino é Implacável

Desenho de Luca Vitali. Julho 2009. Clique para ampliar.

Quando for tudo
servirei aos teus
quando for nada
servirei a Deus

Agostinho da Silva

Em toda atividade humana há extremos. Existem aqueles para quem circunstâncias muitas, somadas ao talento, fizeram com que tudo desse certo em suas carreiras. Torna-se evidente que nas trajetórias individuais há alguns que se sobressaem pelo valor inequívoco e, ao pontificarem, mantêm o status da realização plena e do sucesso, com ampla ventilação na mídia. Outros, que igualmente chegam ao destino, mantêm distância dos focos de divulgação. Estilos diferenciados.
Importa considerar que o caminho traçado pelo homem, mesmo que talento exista, pode ser obliterado por motivos os mais diversos e dramáticos. A história esquece os que não conseguem atingir objetivos acalentados no início da trajetória. Todavia, exemplos proliferam dessa permanente existência do talento que perde o sentido, mas que pode ser detectado, apesar de drama final. Nesse estágio, relaxa-se o manejo da atividade, abandona-se o rigor, e o profissional, cônscio da indiferença dos olhares e das opiniões, acaba perdendo a auto-estima. O mergulho que leva ao abismo estaria propenso a acontecer. É triste e lamentável, mas essa realidade é comum em todos os cantos do planeta, pois carreiras estiolam-se.

Tocador de gadulka. Sófia, 1996. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Das atividades humanas, duas ligadas às artes desde a antiguidade apresentam extremos a apontar para a plena realização de uns e para o infortúnio de outros, que perambulam por cidades, vilas e aldeias. Normalmente, esses artistas buscam unicamente a sobrevivência, pois todas as portas lhes foram fechadas. Nessa derrocada, longo caminhar em direção às calçadas, sonhos esfumaçaram-se, laços familiares romperam-se. Em tantos casos, o infortúnio veio da ausência de estrutura psíquica, assim como da mão solidária em momentos cruciais.
Pintores de rua, retratistas, muitos deles com real talento, ao chegarem ao derradeiro porto de sobrevivência demonstram o patético e, não raramente, traços que retratam transeuntes, paisagens perdidas ou o abstrato pelo abstrato trazem conteúdos que merecem interpretações. No campo da música, quantas não foram as vezes que em cidades brasileiras e em outras, espalhadas pelo mundo, deparei-me com talentos extraordinários, musicalidade à flor da pele, técnica apurada, se bem que possuidora de vícios absolutamente compatíveis com a realidade, já que o rigor há muito ficou à margem. Alguns registrados em meus olhos e, sobretudo, em meus ouvidos. Estou a me lembrar de um idoso tocador de gadulka – instrumento da Bulgária, espécie de violino popular – em Sófia, que no rigoroso inverno apresentava melodias da mais profunda nostalgia, dando grande ênfase às frases musicais. Nas ruas da cidade, intérpretes de kaval (flauta de madeira), de gaita de fole simples e de sanfona evidenciavam destreza. Há guitarristas em logradouros públicos de Lisboa, nem sempre tocando fados, mas conhecedores do instrumento. O metrô de Paris conhece bem músicos que interpretam em corredores e vagões. Alguns são jovens que estudam no Conservatório, compreendem essa prática como meio de angariar pequenas importâncias para complementar a sobrevivência. Diariamente, músicos de toda sorte entram nos trens. Muitas vezes são cegos e, nessa situação, tocam sem expressão melodias conhecidas, pois não estão estáticos, mas caminhando e preocupados com o barulho de parcas moedas que caem em suas caixas de metal. Em outra versão, respeitado violinista internacional disfarçou-se e ficou a interpretar obras do repertório de concerto em corredor de metrô, enquanto a grande maioria dos transeuntes passava indiferente.
Em San Juan, na Argentina, passei por dois músicos que estavam a tocar muitíssimo bem em uma praça. Violão e flauta andina formavam um belo duo na execução de canções folclóricas. Aplaudi-os num intervalo que fizeram e, ao falar com os intérpretes, soube que eram irmãos. Contaram-me vicissitudes, os vários conjuntos que integraram pela América andina e que se desfaziam continuamente. Sem trabalho, buscavam o sustento tocando nas ruas e logradouros públicos. Eram peruanos, estudaram em conservatório, mas, com a morte dos pais em conflitos com o Sendero Luminoso, saíram pelas montanhas. Hoje na planície, estão a angariar sustento.
Em Sergipe, na bela cidade de São Cristóvão – a quarta mais antiga do país -, conheci um tocador de pífano extraordinário. Estávamos em Outubro de 1982. O jovem não tinha mais de vinte anos, mas uma descomunal virtuosidade. Com seu chapéu de couro, característico da região, mostrava igualmente musicalidade invulgar, e seu corpo contorcia-se todo para a alegria dos que estavam a ouvi-lo. Ao final, perguntei-lhe a respeito de sua formação, de seu instrumento, de sua vida. Aprendera desde tenra idade com um mestre da região. Fazia seus próprios instrumentos. Utilizava taquara, cano de plástico, osso e qualquer outro material “tocável”. Com a seca sempre a grassar pela região, preferiu tocar nas cidades e vilas do entorno a migrar para o sul. Disse-lhe para persistir em suas belas execuções, pois um dia poderia se integrar a um conjunto. Ao deixar a praça, pois tinha de me preparar para recital à noite na bonita Igreja Matriz, fiquei com as melodias encantadoras daquele jovem músico. Liszt, em carta à Madame d’Agoult, não escreveria que há almas que amam os sons? Esse tocador de pífano mostrou-se exemplo típico, tão expressivo seu envolvimento.

Tocador de viola caipira. autor: Guilherme, barro cozido, 25 cm. Clique para ampliar.

Foi no final da década de 70 que, percorrendo o Mercado da “breganha” na cidade de Taubaté – evento popular aos domingos onde se vende toda espécie de quinquilharia, de objeto antigo a dentadura usada -, encontrei uma escultura em terracota que me impressionou pela força expressiva da figura de um músico das calçadas. Carrega sua fisionomia toda a dor do mundo, e o artista com traços fortes soube traduzir o peso da trajetória. A viola caipira dimensiona a raiz do tocador, sua desventura, seu destino. Capta também a dignidade não perdida, apesar da pena a que foi submetido. Tenho sobre meu piano de estudo a expressiva peça em barro queimado. Meu respeito absoluto a esses músicos do infortúnio leva-me a jamais passar indiferente por colegas nessa situação. Suas presenças pelas calçadas desse mundo estão perenemente a revelar o drama soturno. Abandonados, permanecem como a sonoridade tristonha a procura da escuta solidária e da migalha de afeto.

On street musicians of varying talent levels playing their instruments in public places for pocket change and the indifference of passers-by.

Infinitesimais Sonoridades Fronteiriças

Desenho a lápis. Maria Fernanda, 2009. Clique para ampliar.

Chaque fleur s’évapore ainsi qu’un encensoir…
Charles Baudelaire

Um dos grandes segredos da interpretação é saber lidar com a dinâmica (do grego dynamiké), termo utilizado na música para determinar as oscilações da intensidade sonora, da máxima à mínima. A música denominada clássica, erudita ou de concerto convive com essa maleabilidade no tratamento das intensidades. Saliente-se que o domínio absoluto desses opostos é de rara dificuldade. Em 1961, estudava em Paris e, ao visitar a insigne professora Nadia Boulanger (1887-1979), uma das mais importantes mestras francesas do século XX, toquei emocionado várias obras para ela. Após, durante os preciosos momentos em que passei em sua residência, recebi conselhos sobre interpretação que permaneceram como normas. No quesito dinâmica, jamais me esquecerei de seu conceito. Para ela, o instrumentista que soubesse utilizar toda a extensa gama, que vai dos sons basicamente inaudíveis ao volume mais acentuado, estaria a dominar parte dos segredos da interpretação, pois a grande maioria permanece, ao lidar com a dinâmica, entre uma intermediação, não chegando aos limites que se fariam necessários. Dias depois, recebi encorajadora carta de Nadia Boulanger, doada recentemente à Fundação que leva seu nome, em Paris.
Os limites extremos do som sempre despertaram interesse. Na música erudita tradicional há essas fronteiras que são precisas e que atendem, inclusive, à percepção auditiva do homem. Baixa, média e alta intensidades obedecem a critérios interpretativos que deveriam ser sempre seletivos. Ao longo dos anos ficou-me o axioma da ilustre personalidade musical francesa, especialmente quando iniciei estudos para a apresentação da integral para piano de Claude Debussy, que se deu pela primeira vez em 1980. O compositor francês é a representação maior dos sons infinitesimais, pois 80% de suas composições encontram-se nas baixas e baixíssimas intensidades (p e pp, piano e pianíssimo no léxico musical). Se for considerada a terminologia utilizada por Debussy no desiderato de exprimir a constante presença das baixas intensidades em sua obra, ter-se-á a poética a fazer fronteira com o silêncio. Essa divisão entre o nada e sonoridades quase inaudíveis, assim como a situação contrária a levar ao silêncio, é insistentemente assinalada pelo autor, que dá as senhas precisas para a interpretação. Dir-se-ia que há nesses casos verdadeira volatilização sonora, analogia com as fragrâncias, Les sons et les parfums tournent dans l’air du soir, como escreve Baudelaire em verso apreendido por Debussy. Ingredientes simbolistas estariam a penetrar nesses termos expressivos sempre que o limite extremo sonoro voltado aos pianíssimos estimulasse a sensibilidade do compositor. Dir-se-ia que expressões como en se perdant, en retenant et en s’effaçant, encore plus lent et plus lointain, morendo jusqu’à la fin, très éffacé contêm essência desse encantamento pelo quase inaudível. No subcapítulo Le Presque-Rien: L’Air et le Vent, do terceiro volume da trilogia sobre o músico francês Debussy et le mystère le l’instant (Paris, Plon,1976), Vladimir Jankélévich observa, ao abordar essa penetração abissal: “É no instante em que a eternidade e a inexistência, a aparição e o desaparecimento, o positivo e o negativo coincidem, pois a música de Debussy é a arte do infinitesimal”. O autor apreende, a partir de metáforas, a problemática das intensidades em Debussy, assim como o universo das longas quedas buscando sons em baixas intensidades, ou, desde logo, o caminho em direção à luz, quando ascensões sonoras se fazem presentes. O leitor terá mais informações das obras sobre música do grande filófofo francês ao acessar meu texto incluído no site (vide Vladimir Jankélévitch e os Opostos Sonoros em Harmonia, no item Essays).

Gaby Dupont, amiga de Debussy durante anos. Foto Pierre Louÿs, circa 1895. Clique para ampliar.

Neblina, buée irisée ; a noite e seus mistérios; a lua em percepção única, Et la Lune descent sur le Temple qui fut (E a Lua desce sobre um Templo que Existiu); a água a permear a criação, desde as grandes ondas até aquela imóvel e estagnada; a neve e a chuva; o vento tenebroso ou rotineiro; reflexos; e tantas outras representações da natureza seriam parte essencial da respiração em Debussy. Toda essa mutabilidade perceptível aos sentidos no corpo de uma mulher seria traduzida pelos cabelos em permanente transformação. Longos, a seduzirem e a provocar encantamento. Têm eles essa fraterna ligação com a instabilidade da natureza. Imprecisos, rebelam-se contra a fixação. Em Pélleas et Mélisande, é ela que inebria Pélleas no terceiro ato, com seus longos cabelos; quando de La fille aux cheveux de lin, Debussy sugere; em La Chevelure, a partir de poema de Pierre Loüys: Cette nuit, j’ai révé. J’avais ta chevelure autour de mon cou. J’avais tes cheveux comme un collier noir autour de ma nuque et sur ma poitrine. / Je les caressais, et c’étaint les miens; et nous étions liés pour toujours ainsi, par la même chevelure… E o inefável dos cabelos integra o universo das imagens do compositor. Sons e quadros intangíveis, mas a serem buscados na essência pelo intérprete e pelo ouvinte. Jankélévich escreve: “entre o nada e ele há justamente a diferença desse quase, que é uma diferença infinita: a presença quase-ausente é fugaz, mas presente”. Nesse sonoro em que reinam as baixas intensidades, os cabelos e toda a sensualidade e pureza, paradoxo amalgamado, traduziriam essência essencial do pensar de Debussy. Camille Soulla acrescenta o objeto indispensável: “…o pente a modificar, ao ser manuseado, o mutante edifício chamado penteado”.
Essas observações vêm a propósito do não-dito, do não-composto, do não-pensado. O universo simbolista, do qual Debussy é o representante excelso, não teria apreendido o infinitesimal do infinitesimal, captado por uma miúda em sala de aula. Sim, há o “quase” silêncio, irmão gêmeo do “quase” inaudível, pois pertencentes à mesma intenção. Ao fazer parte de banca examinadora de um dos mais originais trabalhos acadêmicos que analisei em minha vida intramuros (Pedro Paulo Salles. Gênese da Notação Musical na Criança. Dissertação de Mestrado. São Paulo, FEUSP, 1996, pág. 149), deparei-me com algo rigorosamente inédito e extraordinário, pois vindo de uma menina em tenra idade. Escreve Pedro Paulo Salles, competente e criativo professor, binômio cada vez mais raro a ser atribuído a um docente: “Certa ocasião, uma menina de sete anos entrou na sala de aula e disse: ‘Pedro, eu tenho um som! Mas preciso do máximo de silêncio.’ As outras dezesseis crianças e eu fizemos, então, um silêncio sepulcral, não se ouvia um nada de coisa alguma. Construído esse microcosmo de silêncios, cúpula para ressonâncias, a menina de longos cabelos castanhos retirou, lenta e cuidadosamente de sua mochila, uma escova de cabelos: a situação era para pasmos e suspensões. Então, de ouvidos (e olhos) arregalados e de respiração suspensa, pudemos perceber a lenta, leve e repetida ‘respiração’ do escovar. Mímica: mínima música. Diante de nós: intensidade (presque-rien), duração (cabelos longos; som longo), timbre (fricção), densidade (os fios da chevelure) e mistério. Cabelos tangidos em movimentos precisos, gestos sem gravidade regendo intensidades, desembaraçando significações. Formado em grande parte por silêncios, o escovar é quase um som conceitual e evoca as levíssimas brumas de Debussy e as filigranas de Webern”. Qual não teria sido a reação do autor de Sirènes se tivesse conhecimento desse ineditismo? Ao ler o texto à minha filha Maria Fernanda, dias após apresentou-me a materialização do fato singular. O pente como símbolo da evaporação sonora, sem mácula, a não deixar vestígios.

Clique aqui para ouvir excerto do 3o Quadro da Boîte à Joujoux, de Claude Debussy, com J.E.M. ao piano. “Un pâtre qui n’est pas d’ici joue du chalumeau dans le lointain. Lent et mélancolique.”

A few comments on sound and silence in the works of Claude Debussy, and a seven-year old girl’s original approach to the subject.

In Memoriam

Álvaro Guimarães e J.E.M. Gent, 1995. Clique para ampliar.

Eis onde estamos.
Para nós, em nossa vida e em nosso universo,
há apenas um acontecimento de monta: é a nossa morte.

Seria salutar que todos nos preparássemos para essa ideia
na claridade dos dias e na força da nossa inteligência.

Maurice Maeterlink

A inexorabilidade da morte e a dificuldade de nela pensar antolha-se-nos como grande barreira para entendê-la no momento preciso. Mors certa hora incerta é a única salvaguarda de que dispomos para esperar o instante final. Possivelmente, a negligência do homem frente à impermanência, concretude absoluta, torna-o despreparado para entender a morte, tanto espiritual como racionalmente. Os budistas, através da certeza dos renascimentos, aliviam sofrimentos, mal administrados na complexidade do mundo ocidental. O cristianismo, apesar de conceituações claras a respeito da morte, geralmente é mal interpretado nesse quesito pelos fiéis que enterram seus mortos. Há toda uma tradição enraizada que nos coloca indefesos quando o assunto é a finitude física. Bossuet (1627-1704), um dos maiores oradores sacros da história, já escrevia que “não é digno de um cristão revoltar-se contra a morte no momento em que ela se apresenta para o arrebatar”.

Caminho diário percorrido por Álvaro na Béguinage. Gent, 1995. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Álvaro Guimarães foi um amigo impecável. Músico, fixou-se em 1990 na Bélgica, Gent seu universo. Constituiu família e sua esposa, Katrijn Friant, é excelente regente coral e pianista. Tiveram três filhos: Mabel, Mariuga e Celso. Morava na cidade em uma tranquila Béguinage, comum na região flamenga, a conter vários edifícios. De cunho religioso, as Béguinages abrigavam no passado viúvas e solteiras. No aprazível recanto na Lange Violettestraat, Álvaro praticava música dia e noite, amando-a e a pensar nos outros, não apenas a tentar ajudar colegas na área musical, mas também contatando sociedades de concerto e organizando mesmo tantos eventos especiais. Como estudioso preparou o doutorado sob a orientação de Herman Sabbe. Era professor do Conservatório de Música de Gent. Revelou-se igualmente compositor de mérito.
Devo a Álvaro Guimarães minha primeira ida à Bélgica (vide Gent-A Flandres Rejuvenescida, 28/04/07). Em fins de 1994 procurou-me em São Paulo. Ficara impressionado com as composições de Henrique Oswald, que eu gravara em quatro LPs na década de 80, tencionando realizar um evento especial no Musiekconservatorium de Gent, dedicado unicamente às obras do compositor. Empenharam-se, ele e Katrijn, durante todo o ano de 1995 para a récita que se deu aos 18 de Novembro. Participei, como pianista, executando várias obras camerísticas e para piano solo. A Missa de Requiem foi magistralmente interpretada na segunda parte pelo coral Novecanto, sob a regência de Katrijn Friant. Era a primeira vez, após a morte do compositor em 1931, que todo um longo concerto com tantos participantes homenageava Henrique Oswald. Álvaro Guimarães exultou.
Nas primeiras idas à Bélgica, fiquei hospedado em sua casa, que respirava música, ao vivo ou através da rádio. Espírito inquieto, Álvaro partiu para projetos ousados. Foi ele o verdadeiro Embaixador da música brasileira na Bélgica, creio que o maior, assim como um imenso divulgador da música flamenga na Europa e no Brasil. Quantos não foram os músicos de nosso país por ele acalentados que atravessaram o oceano a fim de se apresentar em Gent, ou ter obras interpretadas? Professava admiração confessa pelas obras de Gilberto Mendes e Willy Correa de Oliveira, tendo sido idealizador e responsável pelo magnífico CD lançado na Bélgica unicamente com obras de câmara de Gilberto executada por músicos flamengos. Intérpretes e outros tantos compositores brasileiros tinham de sua parte a melhor acolhida, pois suas portas estavam sempre abertas.
Houve a fase de imenso trabalho para a fixação junto ao público do repertório recente belga e brasileiro. Ao administrar os concertos para o conjunto flamengo The Spectra Ensemble, de música contemporânea, não poupava esforços no sentido de tudo organizar. Foi o responsável pela construção de pontes extraordinárias, ligando Gent ao Festival Música Nova de Santos e às programações em São Petersburgo. Entusiasta, polemizava sempre com afinco. Quantas não foram as vezes em que, calorosamente, dialogamos sobre estéticas musicais. Divergíamos em muitos pontos, mas eu admirava a defesa que fazia de suas idéias arrojadas, sempre com raro brilhantismo. Concordávamos inteiramente quando o tema compreendia repertórios, pois nós ambos lamentávamos a mesmice das programações que ainda impera em tantas sociedades de concerto.
Foi o amigo que me apresentou aos excelentes compositores Boudwijn Buckinx e Lucien Posman, entre outros músicos. Buckinx escreveu, entre 1999-2001 Sete Estudos para o CD que eu gravaria para o selo De Rode Pomp, New Belgian Etudes, sendo que o nº 4 da série foi dedicado a Álvaro Guimarães (Clique para ouvir).
Traduziria do holandês para o português De Kleine pomo – of muziekgeschiedenis van het postmodernisme (O Pequeno Pomo ou a história da música do pós-modernismo, São Paulo, Giordano-Ateliê, 1998), instigante livro do compositor-pensador Boudwijn Buckinx. A meu convite, escreveu para a Revista Música da USP o importante artigo A Bélgica e a Recepção da Música Erudita Brasileira (vol.6 nºs. 1-2, Maio/Novembro 1995, págs. 150-169).
Compareceu a quase todos os meus recitais em Gent desde 1996. Era um prazer revê-lo, conversar e beber in loco, durante as discussões musicais, a cerveja considerada a melhor do planeta. Preferíamos a triplet, realmente excepcional.
Álvaro fumava muito. Diria excessivamente. Acometido por um câncer muito agressivo, lutou com todas as forças, heroicamente. Em Fevereiro último, compareceu ao meu recital no Parnassus, em Gent. Dias após almoçamos e houve troca de experiências quanto à administração do mal, mas já se podia apreender em sua fala resignada, mas com um fio de esperança, o drama que estava a viver.
Ao regressar ao Brasil, mantivemos um intercâmbio através de e-mails, ele relatando a evolução e o tratamento da doença, eu a encorajá-lo. Durante todo esse período, Álvaro era lembrado diariamente em minhas preces noturnas e matutinas. Não hesitei em comunicar o fato a ele. Ao receber de um amigo O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche, disse-me que a obra fazia-lhe bem. Realmente, trata-se de livro singular, pleno de sabedoria. Uma grande obra. Nos últimos meses, a religião foi-lhe reconfortante, e o livro, indicado pelo amigo, tem sido também minha leitura de cabeceira.
Um pouco antes de minha viagem a Portugal, Álvaro escreveu-me a dizer que os médicos tinham-lhe dado poucos dias de vida. Mas havia serenidade e resignação em seu e-mail, característico de alguém que encontrara a paz. Tenho a convicção de que a família e o livro mencionado foram decisivos. Ao regressar no começo de Junho, mais e-mails foram trocados. Acreditava que estava a se recuperar, pois ganhara peso e sentia-se melhor. A mensagem do dia 18 de Junho último confirmava esperanças, mas tudo a deixar nas mãos de Deus: “A máxima de minha mãe ainda é a melhor explicação, deixar com Deus aquilo que os médicos não conseguem, e seguir em frente. Obrigado pelas preces, agora e sempre.”
Ao telefonar ao amigo dias antes de minha viagem, Álvaro, completamente estruturado na Bélgica, citou Gonçalves Dias, dizendo: “Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá”. Não foi possível. Álvaro Guimarães morreu no dia 23 de Junho, cinco dias após nosso último contacto, sem concretizar o que almejava. O e-mail de sua dedicada esposa Katrijn, “Álvaro nos deixou”, abruptamente levou-me às lágrimas, pois já começara a conviver com suas esperanças. Duas pátrias Álvaro leva consigo indelevelmente, Brasil e Bélgica, países que amou.

Clique para ampliar.

Álvaro Guimarães. Dignificou com o mais puro empenho a música brasileira no Exterior. Música multifacetada, de várias tendências. Disposto ao diálogo, entendeu igualmente que deveria se abrir para a música de outros povos. E o fez com dedicação. Uma personalidade que trabalhou sempre longe dos holofotes. Tem ele grande relevância para a cultura musical como um todo. Repouse em paz, meu querido amigo.

Comovente texto de Katrijn Friant. Clique para ampliar.

Álvaro Guimarães moved to Belgium when still a young musician. There he settled in Gent, married the pianist and choral conductor Katrijn Friant, raised three children and taught at the local conservatory. It was at his invitation that I gave my first recital in Gent in 1995, entirely dedicated to the works of the Brazilian composer Henrique Oswald. Like me, many fellow musicians crossed to ocean thanks to Álvaro’s efforts to promote our classical music in Belgium. He was the link between Gent and the New Music Festival in Santos and also the musical associations of St. Petersburg in Russia. It was Álvaro who introduced me to the great Belgian composers Lucien Posman and Boudwijn Buckinx, among others. Buckinx was the author of seven etudes of my CD ”New Belgian Etudes”. One of them he dedicated to Álvaro Guimarães, who has honored me with his presence in almost all my recitals in Gent. It was so last February, despite his failing health. After my return to Brazil, we kept in touch by e-mail. Though the doctor’s prospects for him were somber, he confessed he felt an urge to visit Brazil once more, quoting a passage of our famous poem “Canção do Exílio” (Song of Exile) written by Gonçalves Dias: “May God not let me die/without going back there”. But it was too late. The man with two homelands died last June 23 in Gent without fulfilling his last dream. The professional who, through his lifelong commitment to music and his enthusiasm in promoting composers and performers of his native country in his adopted country, was in my view the greatest ambassador of the Brazilian music in Belgium. May you rest in peace, my friend.