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Tarefa cumprida Amorosamente

François Lesure (1923-2001), em entrevista para Idéia, Criação e Interpretação da USP-FM (1997). Foram gravados quatro programas com o insigne musicólogo francês. Clique para ampliar.

A quem se mete por atalhos,
nunca lhe faltam trabalhos.

Adágio açoriano

Os ciclos fazem parte da existência. A sabedoria expressa no Eclesiastes bem evidencia o tempo das trajetórias. Ao sermos concebidos, aquele microscópico embrião já estará destinado à morte, depois de suas transformações, desenvolvimento e a permanência, mais ou menos longa, pelo mundo. É a inexorabilidade da impermanência, caminhar-se para o fim. Daí a necessidade de valorizarmos cada instante da vida, essa passagem rápida como um relâmpago a descer uma montanha, segunda Buda.
Durante as décadas na Universidade – tempo diminuto -, entre as muitas atividades desenvolvidas intramuros estive bem intensamente ligado à manutenção de Tempo de Concerto, ciclo semanal da Rádio USP-FM dedicado à música erudita ou de concerto. Onze anos a coordenar e dezesseis na apresentação de Idéia, Criação e Interpretação que, inclusive, daria o título a um dos cursos que apresentei no programa de Pós-Graduação. Em posts anteriores já comentei o fluxo primeiro da idéia que leva à criação de fato e à interpretação do músico como salvaguarda da perenidade sonora da partitura. Preocupação efetiva, pois através dessa corrente chega-se à recepção pública.
Junto à USP-FM, buscamos sempre esse elo que liga o ouvinte à universidade, no que há de mais essencial, a transmissão do conhecimento. Ineditismo extraordinário foi basicamente nosso desiderato na apresentação de LPs e CDs absolutamente desconhecidos no Brasil. Entrevistas com luminares da música como Pierre Boulez, François Lesure, Enrico Fubini, Abel Carlevaro, Jorge Peixinho, Rui Vieira Nery, Ramón Barce, Angela Toscheva, Gilberto Mendes, Ricardo Tacuchian, João Carlos Martins, integrantes do Rubiokwartet e tantos outros, serviram para ratificar princípios de qualidade, nosso perene norte. Ao assumir a coordenação em 2004, Edelton Gloeden daria sequência aos programas, continuando o rodízio dos professores frente à programação, sempre que houvesse a intenção voluntária de determinado professor de desligar-se de Tempo de Concerto por força de outras atividades acadêmicas.
Em texto que escrevi para Concerto – Guia Mensal de Música Erudita faltou-me espaço para agradecimentos fundamentais e para fatos que entendo relevantes. Figuras humanas que nos ajudaram tanto durante esses dezesseis anos. Na direção da Rádio, meus contatos maiores foram com Melquíades Cunha Júnior, Lígia Maria Trigo de Souza e Marcelo Bittencourt, figuras humanas de convicções firmes que não tergiversavam. Maria Aparecida, a Cida, sempre a secretariar com total eficiência. Durante tantos anos Sebastião Marciano conduziu a edição de todos os meus programas, ultimamente levados a bom termo por Márcio Ortiz. A cultura musical de Tião, como é conhecido, é proverbial, sobretudo na área do jazz. Instruía-me sempre quando nomes de intérpretes estavam em alemão ou em línguas escandinavas. Meus colegas, que se revezaram e enriqueceram Tempo de Concerto durante o longo período, tiveram Marciano e outros programadores, todos dedicados à causa da USP-FM. Uma bela equipe.
Instalada no prédio da velha reitoria, a Rádio sofreria o desgaste natural em suas dependências, no que diz respeito ao prédio e a aparelhagem tecnológica. Durante a reforma, que redundou nas modernas instalações atuais, esteve durante um bom período numa espécie de bunker, subterrâneo gentilmente cedido pela Poli-USP. Momentos difíceis para os funcionários e apresentadores, mas tudo fazia parte do envolvimento.
Insiro neste post o texto recém publicado pela mencionada revista. Tornou-se imperativo para Edelton e para mim refletir sobre o breve histórico de nossas atuações. Testemunha o fim de um ciclo pleno de trabalho, mas profundamente gratificante. Menção especial a Edelton Gloeden, esse grande violonista, fiel e devotado nos momentos cruciais de minha vida, quando a sobrevivência esteve em causa. Gestos seus dão a dimensão da grandeza do homem. Naquele período de luta diária, não deixei de apresentar meus programas. Contudo, era Edelton que selecionava os CDs inéditos de piano, separava as faixas, a fim de que não me desgastasse, restringindo-me aos comentários radiofônicos. Gratidão eterna. Durante quinze anos o amigo esteve a apresentar Violão em Tempo de Concerto, seu respeitado programa integrante da série em questão, e desde meados de 2004 coordenou-a com a tranquilidade que lhe é característica.
Segue o texto:

“No longínquo 1993, o Departamento de Música da USP recebeu o convite do Professor Melquíades Cunha Júnior, Diretor da Rádio USP-FM, para que um de seus docentes aceitasse a incumbência de coordenar a programação de Tempo de Concerto, antes apresentado pelo ator Carlos Arena. Diante da negativa de colegas, aceitei o desafio e a partir de agosto daquele ano reuni uma equipe de professores, a fim de que, juntos, apresentássemos programas diários, cabendo a cada um tema específico. Estava formada a nova configuração de Tempo de Concerto.
Desde o início enfrentamos inúmeros problemas que, sem diminuir entusiasmos, aguçavam o desafio. Inexistia discoteca específica na Rádio. Aos docentes ficava o encargo de obter as gravações, como igualmente produzir os programas editados por profissionais dedicados da USP-FM. Esse fato foi benéfico, pois mais de 80% de Tempo de Concerto, apresentado durante todos esses anos, estruturou-se em registros fonográficos inéditos trazidos pelos professores, mormente após viagens ao Exterior. Grande parte dessas gravações não apenas não está disponível em nosso mercado, tampouco no acervo da coirmã Cultura FM. Sob outra égide, a divulgação mostrava-se precária, sendo que nos últimos anos, a nosso pedido, Nelson Rubens Kunze, da Concerto, generosamente cedeu-nos uma página. Nesse espaço fica a nossa gratidão ao prezado amigo.
Permaneci na Coordenação de Tempo de Concerto de 1993 a 2004 quando, acometido de um câncer agressivo, com prognósticos sombrios, faltaram-me forças para o trabalho de colher os programas de cada docente, redigi-los e entregá-los para a divulgação. Convidei desde logo Edelton Gloeden, colega e excelente violonista, para que assumisse a tarefa, que o ilustre músico desempenhou até o presente com absoluta dignidade e competência. Continuei, contudo, a apresentar ininterruptamente desde 1993, Idéia, Criação e Interpretação.
Um rodízio imenso de professores do Departamento ocorreu durante esses 16 anos. Nomear os docentes é ao mesmo tempo um agradecimento às suas atuações. Por ordem alfabética: José Luís Aquino, Ricardo Ballestero, Sérgio Cascapera, Maria José Carrasqueira, Fernando Corvisier, Rogério Costa, Régis Duprat, Aylton Escobar, Alex Ficarelli, Mário Ficarelli, Edelton Gloeden, Susana Igayara, Adriana Lopes, Diósnio Machado Neto, Lorenzo Mammi, Ronaldo Miranda, R.R. Ricciardi, Pedro Paulo Salles, Eduardo Seincman e Marco Antônio da Silva Ramos. Servir gratuita e dedicadamente à comunidade foi nosso único objetivo.
Tempo de Concerto deverá ser reestruturado sob a responsabilidade do atual chefe do Dep. de Música. As mudanças paulatinas, visando ao ineditismo repertorial e à qualidade nesses 16 anos, chegam a termo. A colaboração prazerosa e dedicada do signatário e de Edelton Gloeden encerra um ciclo. Agradecemos à pequena, mas fiel audiência, que tanto nos estimulou ao longo dos anos. Foi ela, através de incontáveis contatos, o nosso farol de esperança.”

Doravante, retiro da lista de meus links, aquele referente à Idéia, Criação e Interpretação, apresentado ininterruptamente desde o início de nossa coordenação.

A música ainda é integrante dos “Tempos” do Eclesiastes. A viagem a Portugal, neste início de Maio, tem significado especial. Comemoro 50 anos de meu primeiro recital em terras lusitanas, que se deu na Academia de Amadores de Música em Lisboa, aos 14 de Julho de 1959, a convite do extraordinário compositor Fernando Lopes-Graça. Sete recitais e três recitais-conferências dão-me a necessária motivação. Apresentarei repertório totalmente dedicado aos compositores portugueses, do barroco à contemporaneidade, assim como três obras de excelentes autores brasileiros homenageando Portugal, escritas a nosso pedido desde 1979. Nova travessia, posts que virão de além mar a partir do próximo, integrando a categoria Impressões de Viagens.

Last April, my friend and fellow musician Edelton Gloeden and I left our weekly radio programme presented by USP FM, always trying to bring to listeners the best in classical music from around the world. As stated in the Ecclesiastes, to everything there is a reason and a purpose. For us it was the end of a long reason of hard and gratifying work.

“Do Canto Gregoriano ao Sintetizador”

A música expulsa o ódio daqueles que não têm amor.
Ela traz paz aos que não têm repouso,
consola os que choram.
Aqueles que se perderam encontram novos caminhos,
e os que recusam tudo encontram confiança e esperança.

Pablo Casals

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Quando do blog referente ao ótimo livro do compositor Gilberto Mendes (vide “Viver sua Música – Com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevskiy”, 28/03/09), considerava o respeito que sempre tive pelos textos competentes sobre música, nos quais o autor, ao exercer igualmente a atividade prática musical, seja em qual segmento for, demonstra conhecimento pleno da escrita particularizada do universo sonoro. Compositores, intérpretes e musicólogos, quando se dirigem voluntariamente para o texto passível de ser lido por todos, pois sem a ininteligibilidade – para muitos – da partitura, podem revelar o domínio da área sem amarras, a depender obviamente do talento para o mister e da cultura adquirida através da trajetória. Há livros e livros escritos por competente músicos, mas muitos deles direcionados a conhecedores, pois podem envolver análises ou conceituações difíceis para não iniciados. Todavia, quando a obra tem caráter de divulgação de conhecimentos para o público em geral, mais importante ainda que o texto transparente esteja estruturado em sólida cultura musical, salvaguarda contra equívocos, por vezes constrangedores. Acabo de ler o livro de Júlio Medaglia (Música Maestro, – Do Canto Gregoriano ao Sintetizador. São Paulo, Globo, 2008, 355 págs). O subtítulo da obra já apresenta empreitada de dificílima resolução, mormente pela abrangência do quadro, a abordar o desenrolar da música ocidental a partir do cantochão, expressão maior da cristandade.
Júlio Medaglia, um dos músicos mais completos deste país, maestro, compositor, arranjador, comunicador, nasceu em São Paulo em 1938. Ainda na juventude ingressou na Escola Livre de Música, onde teve a orientação de Hans Joachim Koellreutter. Adquiriu posteriormente sólida formação na Alemanha, quando estudou com o lendário regente sir John Barbirolli, cursando os festivais de música contemporânea de Darmstadt com Karlheinz Stockhausen e Pierre Boulez. O trabalho com ilustres mestres é garantia de boa estrutura, embora não necessariamente de bons frutos. Medaglia é exemplo típico daquele que deu resultado. Poucos podem orgulhar-se de ter perpassado como regente o grande repertório tradicional, a música contemporânea e ter sido o expert dos arranjos do movimento tropicalista. A experiência como professor em várias universidades e seus deslocamentos permanentes para apresentações no Exterior são inequívocas referências. Lembremo-nos, igualmente, da excelência de Medaglia como comunicador.
De posse de toda essa bagagem, primeiramente escreveria Música Impopular (São Paulo, Global, Coleção Navio Pirata, 1989), do qual redigi resenha para o jornal “O Estado de São Paulo” (Cultura, nº 454, ano VII, 08/04/89, pág.9).
Os vinte anos que separam os dois livros merecem um comentário. Se na obra de 89 Júlio é provocativo, ousado nas críticas – endosso-as plenamente – a determinadas situações da música atual, erudita ou popular, em Música, Maestro! pode-se perceber o músico-pensador instigante, mas destilando a competência com serenidade. Todos os capítulos, desde o destinado à Antiguidade até o da música contemporânea, são descritos sem qualquer constrangimento ou amarras acadêmicas. Um passeio pela História. A intenção do livro é nitidamente a de divulgar com competência a trajetória da música ocidental, daí o primeiro passo para a liberdade do pensar não limitada a período específico, autor e obras, tão caros à Academia. Ratifico, discorrer sobre a História da Música, tarefa dificílima, torna-se em Música, Maestro! leve, palatável, competente e a atender ao leigo, ao estudante e ao músico. Que contributo extraordinário não seria se fosse o livro adotado na universidade, quando muitas vezes o “ranço” da erudição torna nebuloso o entendimento da evolução histórica da música, distanciando o aluno, em não poucas oportunidades, de um interesse frutífero pela matéria.
Júlio Medaglia tem o dom da comunicação direta, sem artimanhas, sem o linguajar que possa suscitar dúvidas ou a busca aos léxicos. Lê-lo discorrer sobre passado e presente, como se estivesse a sobrevoar solo familiar, é a comprovação do conhecimento estruturado em raízes profundas. Os capítulos referentes à polifonia (de 800 a 1600) estendendo-se ao estilo clássico (de 1750 a 1820) oferecem informações rigorosamente transparentes, sem a menor necessidade de aprofundamentos tantas vezes inintelegíveis. O estilo romântico (de 1820 a 1900) é abordado numa concentração nos autores fundamentais, desenvolvimento das formas, gêneros. Focaliza ópera, opereta vienense, canção-solo, criações para orquestra, música de câmara, e a ascensão do instrumento solo. “A música para piano liderou a criação musical no século XIX, chegando, em meados desse período, a superar até mesmo a orquestral” como afirma. Uma sinopse dos principais compositores do século XIX e a inclusão do ballet e a sua real importância concluem esse capítulo, que relata período tão caro aos aficionados. O século XX é uma das muitas especialidades de Júlio Medaglia. É instrutivo ler suas considerações sobre escolas composicionais, estilos, autores, sempre com a mais absoluta firmeza.
Ao considerar a música brasileira, percorre-a do erudito ao popular. O povo e suas manifestações, características regionais e gêneros são percorridos por quem viveu momento crucial, verdadeira encruzilhada, que foi o período do movimento tropicalista.
Comentava sobre o respeito que sempre tive pelo texto competente escrito pelo profissional de fato e de direito. Ao escrever um subcapítulo, “Nasce o Maestro”, Júlio Medaglia dá uma verdadeira aula (págs. 87-90), e o leitor capta a sensível percepção daquele que deve liderar o conjunto orquestral.
A meu ver, o livro Música Maestro! é necessário a todos que desejam realizar um passeio pela extensa senda da História da Música. Para os que já leram tantos compêndios, torna-se o livro uma revisitação prazerosa, a relembrar fatos por vezes esquecidos. Para estudantes e leigos, uma belíssima introdução. Fica a certeza de que novos adeptos à causa da música erudita estarão nascendo. Um CD anexado a Música, Maestro! faz-nos percorrer do gregoriano a Villa-Lobos, nesse caminhar que leva a tantas boas recordações sonoras. Anexos pertinentes completam a obra.
À guisa de conclusão, escreve Júlio Medaglia, a reverenciar um de seus grandes mestres – como é bom neles pensar! – “Almoçando certa vez na casa de Pierre Boulez em Baden-Baden, junto com o poeta concretista Haroldo de Campos, o grande músico francês nos disse uma frase, ideal para encerrar este trabalho: ‘O talento e a tecnologia são como dois espelhos. Só quando colocados frente a frente, em igualdade de condições, é que os resultados vão se refletir e multiplicar ao infinito’. Que seja esta a missão do homem no admirável século novo…”

On the book “Música, Maestro”, written by the Brazilian conductor, composer and arranger Júlio Medaglia, an outstandingly comprehensive overview of the history of music from the Gregorian chant to the synthesizer, designed for both the student and the general reader.

“Com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevskiy”

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Se o teu pensamento fôr o que deve ser,
encontrarás pouca dificuldade na ação.
Lembra-te que para seu util à humanidade,
o pensamento deve traduzir-se em ações.

J. Krishnamurti

Há décadas, e não poucas vezes, tenho redigido textos a respeito do escrever sobre música. O posicionamento vem de uma imensa admiração pela escrita competente. Apreciador de esportes, respeito aqueles comentaristas que – empregando jargão da especialidade – “estiveram lá”, ou seja, praticaram modalidades esportivas que resultariam, após encerrar a carreira, em atividade nos meios de comunicação, através de jornais, revistas, rádio e televisão. É fácil entender que comentam com propriedade, sem radicalismos, pois “estiveram lá”, a apreender a vitória e a derrota, o congraçamento e a discórdia. Quem “lá não esteve” geralmente tem paixões, vocifera, evidencia possíveis frustrações pela ausência em sua vida da área demarcada e cercada pelo público. Pode até ganhar notoriedade, mas o respeito do esclarecido que ama esportes estará concentrado nos que transpiraram em suas especialidades esportivas. O mero comentarista pode tornar-se um simples falastrão, diferentemente do locutor de esportes, que exerce uma arte destinada a poucos. Ao compor Santos Football Music (1969) para orquestra sinfônica, 3 tape recordings contendo irradiação de jogo de futebol, participação do público e ação teatral, Gilberto Mendes (1922- ) recorreria à extraordinária narração de Geraldo José de Almeida, um dos grandes locutores do passado.
Dessa premissa vem igualmente o meu respeito pelo texto voluntário sobre música, mas redigido por especialista. Se naturalmente construído, não tem o “ranço”, tantas vezes “obrigatório”, que a Academia impõe, mercê em parte dos não vocacionados impelidos a escrever, a fim de alcançar as várias titulações em suas carreiras. Inexiste tampouco na espontaneidade daquele que “lá está” a característica facilmente detectável do soi disant, o diletante que aparenta competência, mas que insiste em escrever sobre música. Essa categoria existe e está sempre a publicar textos, críticas, comentários e até ensaios sobre nossa área. Neste caso, pode incorrer no simulacro, pois estará a navegar em águas desconhecidas, que acredita confiáveis e familiares. A retórica rebuscada não consegue camuflar incompetências transparentes. Numa visão mais ampla, o texto voluntário e seguro tem a aura da dedicação e da relação amorosa com a área abordada.
Dois ótimos livros sobre música foram lançados recentemente, escritos por músicos da melhor estirpe que “estão lá”, a exercer com firmeza e dedicação suas atividades: o notável compositor Gilberto Mendes, nosso maior nome como criador erudito, e Júlio Medaglia, esse extraordinário músico pleno de pluralidade ímpar. O livro de Júlio, Música, Maestro!, será tema de um futuro post, pois a temática prende-se ao conhecimento geral da história da música em linguagem acessível a todos.
Ao escrever seu primeiro livro (Odisséia Musical – Dos Mares do Sul à elegância Pop/Art Déco. São Paulo, Giordano/Edusp, 1994, 268 págs.), Gilberto Mendes concretizava o sonho de ver editada a sua magnífica tese de doutorado, da qual tive o prazer de participar como membro da banca julgadora. Nessa obra, Gilberto narra a sua trajetória, envolve aqueles que foram contatos permanentes, declara seus ascendentes musicais eleitos e Santos, sempre Santos, mostrar-se-ia o “porto seguro”, como ele assim define, após tantas viagens pelo mundo. Em 2005 foi lançado o documentário extremamente bem produzido, dirigido e editado por seu filho Carlos de Moura Ribeiro Mendes, A Odisséia Musical de Gilberto Mendes, e através de música e imagens seu universo se dimensiona. Gilberto Mendes está por inteiro a percorrer a sua Europa amada, os lugares em que apreendeu ser a vida dadivosa, graças a seu talento invulgar e a uma dedicação e disciplina ímpares, resultando numa produção contínua na qual o compositor se mostra o artesão amoroso. Sempre. Por ocasião de seus 85 anos, redigi um post a respeito do grande músico e dileto amigo (vide Gilberto Mendes (1922- ) – Tributo ao Músico Pensador, 13/10/07).
Ao escrever Viver sua Música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à avenida Nevskiy (Santos-São Paulo, Realejo/Edusp, 2008, 373 págs.), Gilberto Mendes, livre de determinadas amarras que uma tese acadêmica determina, confessa tudo que o levou à inteira compreensão de seu mundo, único, generosamente repartido entre todos os que tiveram e têm o privilégio de privar de seu convívio. Autobiografia singela e bonita. Gilberto abre-se para o leitor. Os oitenta e tais anos acumulados impedem-no de não dizer o que sente. Silenciar seria trair sua natureza. Reverencia mestres com imensa candura e respeito – lição para as novas gerações, que insistem em esquecê-los. Importa muito menos o processo escritural já assimilado e extremamente polivalente, mas único e personalíssimo, e mais o texto coloquial. Um caleidoscópio em permanente mutação, onde influências assimiladas prazerosamente transformam-se naquilo que Gilberto é, a sinceridade plena. Sob outra égide, perpassam amigos, músicos, outros músicos e Santos, sua eternidade terrena. Poder-se-ia afirmar que o segundo livro é mais solto, e em nenhum instante Mendes evita o que lhe vai pela alma. Até de maneira ingênua, por vezes, nessa qualidade rara e essencial que a intelligentzia entende – quantas lá não foram as vezes – como não seriedade. Fotos sinceras, que poderiam ser compreendidas até como integrantes do seu lúdico, que jamais deixou de existir. Imagens reveladoras do imenso prazer de Gilberto ao sentir um local que povoou seu imaginário durante décadas. Retratos do texto.
É comum com a idade a fixação no passado, a rememorar paraísos percorridos ou terrenos pantanosos vencidos. Tudo faz parte. Recorrendo insistentemente a esse tempo ascendente, Gilberto tem o descortino como permanente meta. Bonito vê-lo discorrer encantado, como um jovem em plena fase efusiva, sobre as terras novas ou reconquistadas nas últimas décadas, revisitação sob novo olhar. U.S.A., Bélgica, Holanda, Alemanha e, preferencialmente, a Rússia. Diria, São Petersburgo. Ter lá estado, assistir a apresentação de suas obras e conhecer o solo que viu passar os monstros sagrados da música russa sintetizam o autêntico maravilhamento. Aliás, ao ler-se Viver sua Música, tem-se a impressão de que se não fosse Santos sua cidade, escolheria a cidade do Museu Hermitage, do Teatro Mariinsky e dos passos, que ecoam ainda, dos grandes mestres do Conservatório: “andei pelos corredores e escadarias por onde também andaram Rimsky Kórsakov, Glazunof, Anton Rubinstein, Tchaikovsky, e ainda Prokofief, Shostakovich, Galina Ustvolskaya e… Igor Stravinsky!”, escreve reverencialmente o nosso mais importante e festejado compositor erudito vivo brasileiro. A euforia de Gilberto é total e os locais novos são incorporados aos antigos, a enriquecer sua enciclopédia. Está tudo lá, passado, presente e, logo mais, outros futuros. A memória extraordinária do grande músico, compositor e amante da vida registra o mínimo detalhe e insere as gradações sensoriais e emotivas. O peixe e o vinho em jantar com Eleazar de Carvalho, o peixe roubado pelo urubu em seu terraço, o cinema – essa paixão absoluta -, a Av. Nevskiy em São Petersburgo, nada escapa ao olhar extasiado. Ao final volta à escrita musical e algumas partituras, assim como um catálogo básico, completam a bela obra de Gilberto Mendes.

Gilberto Mendes na interpretação da esposa Eliane. Clique para ampliar.

Livro para ser apreciado a conta-gotas. Através dele, pode-se perceber como a dedicação à música ultrapassa qualquer barreira, desde que vocação à flor da pele exista. Torna-se, nessa condição, imanente no caráter do homem. E mesmo a ideologia, tão presente em Gilberto Mendes, tem o cunho de profundo humanismo. Ideologia de esquerda, autêntica, mas embalada aos sons dos trópicos, do Havaí inclusive. Há exceções em sua obra musical, onde a tragédia é denunciada. Contudo, é o todo que se manifesta homogêneo. A contracapa reproduz a pintura carinhosa de sua esposa Eliane, que consegue extrair essa serenidade do compositor – aparente talvez -, e também o testemunho de Gilberto: “É o que eu chamo de som da felicidade. O prazer da felicidade que a beleza musical pode nos proporcionar, como no caso de As Bodas de Fígaro, de Mozart. ‘Ah tutti contenti’! Viver a emoção provocada por essa beleza, que encerra a dor do mundo – a beleza intensa dói! – e também a alegria, que é o amor, significa viver a música, em toda a sua estranheza e ambiguidade. Isso é o que é a música para mim”.

A few comments on the last book written by Gilberto Mendes (1922- ), the most important living composer of contemporary classical music in Brazil.