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A Força das Imagens

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Tenhamos confiança absoluta nas energias da vontade.
Saber querer é o sagrado mister dos corações sensíveis.

Austregésilo de Athayde

Há livros que prendem nossa atenção mercê do impacto iconográfico. Alguns adquirem inclusive o status de obra de arte, sempre de subjetiva avaliação, a depender do talento e das escolhas empreendidas pelos organizadores. Stefan Gan foi o responsável por texto, pesquisa de imagens e edição de fotografias do livro João Carlos Martins (São Paulo, Parágrafo, 2008, 168 págs.). Poder-se-ia considerar o livro, em formato substancioso, como uma publicação de arte, mormente pelas fotografias especiais que percorrem, em panorâmica expressiva, parte da trajetória do pianista, hoje regente, João Carlos Martins. Tem-se mais de sessenta anos relatados através de fotos extraordinárias, que não apenas contam a história do grande intérprete da obra de J.S.Bach desde a sua infância, mas oferecem também a Stefan Gan possibilidade de organizá-las numa leitura sócio-iconográfica, pois auditórios e as várias categorias de público são focalizados. As imagens, grande parte em branco e preto, o que significa maior fidelidade, apresentam o músico diante de sua realidade: o miúdo no início de seus estudos, os ambientes que freqüentou como intérprete, assim como a legião daqueles que o cercaram e cercam, ilustres ou anônimos.
João Carlos Martins é um livro bonito. Destaca, a partir de um crescendo – termo por nós, músicos, utilizado – o estágio atual do pianista, hoje regente. Carismático, João Carlos soube, através de uma insofismável bagagem pianística, impor-se nacional e internacionalmente. De posse desse tesouro obtido a partir de disciplina férrea, tenacidade, concentração e talento, o instrumentista atingiu naturalmente o estágio de mito após sofrer todas as vicissitudes que o levaram à impossibilidade de tocar piano. Que pianista, entre nossos intérpretes, teria essas histórias como lastro reservado ao herói? Que regente tem hoje tão grande empatia com o público de todas as classes sociais? Essa primazia, pois, seria sustentada pela grande mídia, e João Carlos, com agudeza – característica dos carismáticos – sempre soube apreender os meandros da comunicação. Se é hoje, possivelmente, o mais ventilado músico erudito do país, bom para a música como um todo.

Em pé, da esquerda para a direita: João Carlos, Souza Lima, Alberto Ginastera, José Kliass. Sentado: Camargo Guarnieri. Foto José da Silva Martins, 1961, pág. 57. Clique para ampliar.

Stefan Gan teve o cuidado de inserir com sensibilidade textos sobre João Carlos. Colheu depoimentos relevantes de personalidades como Dave Brubeck, fantástico pianista de jazz; Heiner Stadler, produtor das gravações J.S. Bach; Jay Hoffman, agente de tantas décadas nos Estados Unidos. Milton Glaser, Marluce Dias, Jô Soares e Marcos Frota prestam igualmente tributo a João Carlos. Ficariam reservados dois depoimentos de colegas pianistas: Arthur Moreira Lima, amigo e parceiro em tantas memoráveis apresentações Bach-Chopin, assim como minha homenagem.
Transcrevo-a na íntegra:
“Escrever sobre João Carlos faz-me apelar às lembranças. A nossa infância e juventude foram bem compartilhadas, pois nos dedicávamos à mesma atividade musical e dormíamos no mesmo quarto. De todos da família, apenas nós dois persistimos pianisticamente, estudando com os mesmos professores: Giammarusti, Berkovitz e, bem mais longamente, com José Kliass. Período decisivo de nossas existências. Sob forte e salutar disciplina, cumpríamos os horários estabelecidos por nosso pai e, nos intervalos de dez minutos entre dois espaços de tempo pianísticos, brincávamos com uma bola no grande quintal de nossa casa.
Foi a partir de 1958 que o destino levou-nos a regiões geográficas determinantes em nossas trajetórias. João teria o aperfeiçoamento pianístico e cultural nos Estados Unidos e eu fiquei alguns anos em Paris. Se permanecia ‘recluso’ em França, comprometido com o ato de estudar música e entender a cultura francesa, João Carlos precocemente iniciava uma promissora carreira pianística, com sucesso extraordinário até a desventura do primeiro acidente com o braço direito, mercê de uma queda em prática esportiva. Reerguer-se-ia várias vezes em todo o seu caminhar, lutando bravamente com dramas outros a acometerem seus braços e mãos até o epílogo recente, a impedir definitivamente o prosseguimento da carreira pianística.
Durante décadas, o nosso relacionamento sempre amistoso permanece esporádico por motivos ligados às nossas próprias opções. Esse distanciamento jamais interveio num sincero e mútuo respeito. Ratifico a minha profunda admiração por sua interpretação da obra completa de Bach para teclado, executada ao piano de maneira ousada e como verdadeiro desafio ao establishment existente. Se Gleen Gould já rompera tradições enraizadas, por que não buscar caminho outro? Assim João Carlos pensou em relação a J.S. Bach e, dessa maneira, conseguiu edificar a sua construção pianística. Se distante da traditio, não seguida como padrão, a interpretação de João Carlos está a apontar para um horizonte novo que poderá propiciar visitações diferenciadas à obra do grande Kantor.
No peristilo de sua ‘aposentadoria’ pianística, quando sua mão direita já não mais suportava os impactos digitais sobre o teclado, graças ao ataque de um celerado em Sófia um anos antes, João Carlos e eu gravamos na capital da Bulgária os dois Concertos para dois teclados (pianos) de J.S. Bach, acompanhados pelos Solistas de Sófia. Estreitávamos os nossos laços e entendi o grande drama pelo qual passava. Durante as gravações, reiteradas vezes teve de interromper as sessões, mercê de desmesurado inchaço em sua mão direita. Esse triste fato prolongar-se-ia durante os três longos dias de gravações. Dores e contorções contrapunham-se à vontade de ver finalizado o seu hercúleo trabalho bachiano. Felizmente, a duras penas chegamos ao final de dramática mas bela gravação, e os dois Concertos incorporaram-se à opera omnia para teclado do grande Bach.
O novo desafio visualizado, a regência, deu a João Carlos a certeza da continuidade. Catarse, conceitos que conscientemente ou não já integravam o seu de profundis, encaminharam-no para o homem da grande mídia. De longe acompanho o seu sucesso. Fiel às minhas origens, permaneço a entender a música como magia e mistério e a servi-la sem desviar-me de rumos traçados. Esse aparente antagonismo, longe de distanciar-nos, apenas ratifica admirações que sabemos mútuas”.

João Carlos e José Eduardo. Teatro São Pedro, 1968, pág. 71. Clique para ampliar.

Como sempre faço (vide Bragança Paulista, Razões de uma Escolha, 23/07/07 e Bragança Paulista (II), O Retorno Necessário, 29/08/08), estava em Bragança em fins de Outubro a escrever um longo texto em francês para publicação na Bélgica. Na portaria do Grande Hotel Bragança disseram-me que famoso maestro viria à cidade, a fim de reger sua própria orquestra. Perguntaram-me: “Professor, ele também é Martins. O Sr. O conhece?” Sem nada responder, liguei para o celular do João, que se encontrava no Rio de Janeiro. Contei-lhe a viva voz o curioso episódio. Sabia ele que Bragança é meu refúgio a acalentar idéias que afloram, desaguando para o papel na bucólica praça José Bonifácio. Imediatamente convidou-me para tocar duas obras no seu concerto, que se deu no dia 8 deste mês. Ele mesmo escolheu: L’isle Joyeuse de Claude Debussy e o Estudo Patético de Alexander Scriabine. Sem contar nossa gravação em Sófia em 1996, não subia a um palco com o irmão desde os anos 80. Foi uma grande alegria, e o público que superlotou a Casa de Cultura pôde sentir o carisma de João Carlos, hoje absoluto frente à orquestra e às platéias. Ao piano, com os poucos dedos que ainda podem tocar, foram executadas obras de J.S.Bach, dois andamentos lentos de Concertos para piano e orquestra de Mozart − sob a regência competente do spalla, Laércio Diniz −, mais Piazzolla e Tom Jobim, levando o auditório ao delírio. Essa mescla ratifica a justa adoração de João Carlos por J.S.Bach e evidencia a opção por outros repertórios também. Os ouvintes saíram comovidos, inebriados com a chamada música de concerto. João Carlos conquistou “minha” Bragança Paulista na plenitude (vide fotos do FotoBlog A Música Venceu!).
“Carisma” sem lastro, entendo-o como simulacro. O caso João Carlos é carisma em sua abrangência. J.S.Bach e sua integral ao piano, Alberto Ginastera e a primeira audição absoluta de seu Concerto para piano e orquestra, o Carnegie Hall de Nova York em inúmeras apresentações com sala repleta, dramas e tragédias, estes são alguns exemplos que representam o profundo embasamento a levá-lo ao patamar do músico lendário. Se o pianista teve de interromper seu caminho por motivos alheios à sua vontade, o regente não apenas teve a acolhida instantânea do público espalhado pelo país, como, através da Fundação Bachiana, criada por João Carlos, está a propiciar o ensino e a audição da boa música a centenas de crianças e jovens menos favorecidos.
É portanto de especial valia o conhecimento de João Carlos Martins, de Stefan Gan. Agora lançado, o leitor poderá, através da imagem, seguir uma trajetória singular. Que João Carlos persista em seu imenso trabalho. Creio ser o voto de todos nós.

Clique aqui para ouvir o 3o. movimento do Concerto para Dois Teclados e Orquestra em Dó menor, de J. S. Bach.
Gravação do ensaio de 1996 na Bulgária, na execução de João Carlos e José Eduardo Martins e Solistas de Sofia, sob a regência de Plamen Djurov.

A book entitled “João Carlos Martins” has just been published. Superbly illustrated, it portrays the charismatic Brazilian pianist and conductor from childhood to the present. It is a brief recollection of his life, work and spiritual strength, enhanced by testimonials of friends and fellow musicians.

Os Doze Estudos para Piano

Os termos vanguarda ou modernismo
não têm mais interesse para mim.
A Sagração da Primavera de Stravinsky
é uma obra capital, seja em 1913 ou agora.
Pierrot Lunaire de Schoenberg também.
Os Études para piano de Debussy
e o 4ª Quarteto de cordas de Bartok igualmente.

Pierre Boulez

O CD contendo os Doze Estudos para piano de Claude Debussy que será lançado no sábado, 25 de Outubro, das 12 às 14hs na Loja Clássicos na Sala São Paulo, tem em seu encarte texto que escrevi originalmente em francês para a edição apresentada ao público da Bélgica em 2006. Por ultrapassar os limites a que me proponho para os posts publicados no blog, será inserido nestes próximos dias no item Essays que se encontra no menu de meu website. Contudo, ao prezado leitor, senti a necessidade de explicar as causas que me levaram a gravar essa obra extraordinária. Dir-se-ia, um making-of “subjetivo” da gestação desse CD.
Quando apresentei pela primeira vez a integral para piano de Claude Debussy em 1980, em quatro recitais no MASP, e paulatinamente em anos sucessivos em Portugal, já entendia serem os Doze Estudos o ápice da produção irréprochable do grande compositor francês. No livro O Som Pianístico de Claude Debussy (São Paulo, Novas Metas, 1982), com prefácio da insigne gregorianista e especialista em Debussy, a Profª portuguesa Júlia d’Almendra (1903-1992) (vide A transparência através das cartas, item Essays do site), buscava não apenas abordar a obra completa para piano de maneira sucinta, mas apresentar conceitos que teriam futuramente guarida acima do equador. O então Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale da França, o ilustre François Lesure (1923-2001), convidou-me a iniciar colaboração através de artigos para os Cahiers Debussy do Centre de Documentation Claude Debussy (www.debussy.fr ). Desde 1983, seis textos foram publicados pelos basilares Cahiers, sendo que dois têm os Études como foco: Le langage pianistique des deux dernières Sonates (Nouvelle Série, nº 14, 1990, págs. 55-71) e La technique pianistique et les doigtés dans les Études (nº 19, 1995, págs. 53-68). Quando apresentei uma de minhas teses junto à Universidade de São Paulo, O idiomático técnico-pianístico na obra de Claude Debussy, François Lesure participou da douta Comissão Examinadora. Como um dos quesitos era a apresentação pública, entre as obras executadas constavam criações camerísticas e para piano solo, neste segmento constando alguns Études. A prova de interpretação pública foi gravada pela Rádio Cultura-FM. O notável musicólogo, autor dos mais importantes trabalhos sobre Debussy da segunda metade do século XX, já me aconselhava naquela oportunidade a gravar os Études. Lembro-me de ter-lhe dito que, sendo a obra o grande monumento debussyniano, não pretendia registrá-lo. Criação a ser reverenciada e que contava com gravações históricas excelsas. Debussy, em várias missivas durante a criação dos Estudos em 1915, externaria seu posicionamento a respeito da qualidade e do extremo rigor neles contidos. Motivos vários – como o hermetismo, o abstrato “pedagógico”, quando em outras produções a titulação simbolista corroborou a associação com a música perante o público, o espírito de síntese exemplar – levaram a maioria dos pianistas que interpretam Debussy a preferir obras mais ventiladas e com clara indicação extra-musical.

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Passou-se o tempo. Na Bélgica, a Direção da Rode Pomp, selo para o qual tenho gravado tantos CDs, dois deles com obras fundamentais de Debussy, solicitou que registrasse os Études, pois eu fixara anteriormente todos os de Alexander Scriabine, e mais dois CDs contendo Estudos contemporâneos belgas e brasileiros.
Quando em plena quimioterapia, extremamente fragilizado, assisti deitado, em um domingo frio, pela TV a cabo, a interpretação de pianista internacional da maior visibilidade, que alternava comentários e execução dos Doze Estudos. Perfeição digital absoluta havia, mas a anima e a descaracterização de fundamentos propostos por Debussy, compositor a tudo indicar no sentido do entendimento de suas intenções, eram evidentes, sobremaneira em quesitos essenciais. O fato de Debussy não ter assinalado indicações metronômicas – mensuradoras de andamento – para os Estudos, quando o fizera em outras obras, mormente no 2º Caderno de Images, leva-o a comentar em carta ao seu editor Jacques Durand aos 9 de Outubro de 1915: “Você sabe minha opinião sobre os movimentos metronômicos: eles são justos durante um compasso, como as rosas no espaço de uma manhã”, o que pode levar o intérprete a pressupor, paradoxalmente, a arbitrariedade. Sentia naqueles momentos uma sub-reptícia intenção, determinada pelo pragmatismo do mercado, de se conduzir Debussy às estereotipadas execuções virtuosísticas ou acrobáticas, perpetradas na interpretação de determinadas obras românticas por tantos pianistas consagrados. Levantei-me com dificuldade, fui ao teclado do computador e escrevi à Rode Pomp: “o próximo CD, se forças tiver e o Senhor me der trégua, será dedicado aos Doze Estudos de Debussy”. Logo após, recebia da respeitada casa belga um e-mail em letras garrafais e em vermelho: “À la bonheur!!!” (Felizmente!!!). Já na segunda feira, começei a reestudar essa obra magistral e em 2005, parcialmente restabelecido e com o nihil obstat de meus médicos, gravava a criação pianística testamentária de Debussy na mística Capela Sint-Hilarius de Mullem na Bélgica, sob a supervisão do sempre amigo e extraordinário engenheiro de som Johan Kennivé.

A gravação revestiu-se de intencionalidades múltiplas. Realizava o pedido de meu saudoso amigo François Lesure, prestava um tributo ao extraordinário compositor e, confesso, sentia-me irmanado no mal que o acometera. Debussy, após ter realizado a revisão dos Estudos para piano de Chopin para a casa Durand, compôs a sua obra maior para o instrumento. No verão-início do outono de 1915 escreve os Doze Estudos divididos em dois livros, já com os sintomas do câncer que lhe seria fatal em 1918. Finda a obra, redige carta ao seu grande amigo Robert Godet: “(…) eu escrevi como um louco, ou como aquele que deve morrer na manhã seguinte”. No interior de Sint-Hilarius deu-se essa comunhão. Encerrada a gravação, após três madrugadas de fervor, o alvorecer iluminava tenuemente a capela e a planura flamenga, e uma atmosfera de paz e de gratidão ao Poder Maior aconteceu. Com a saúde sub judice, não deixei de refletir longamente diante do sacrário tão próximo do piano. Todos nós temos os nossos limites e a consciência da existência dessas fronteiras leva-nos ao desafio. Há dez anos gravo em Sint-Hilarius, mas essa gravação esteve sob a aura das identidades. Lançado em 2006 em Gent pela De Rode Pomp, tem agora a edição brasileira. Duplicado na Sun Trip sob encomenda da Clássicos Editorial Ltda., teve o esmero que caracteriza essa empresa.
Por motivos já expressos em As Mortes do Intérprete, texto de 1988 (vide item Essays em meu site), jamais tive minha imagem em capas de LPs ou CDs. Nenhum juízo de valor. Questão de estilo, tão somente. Sabedor dessa minha certeza, Nelson Rubens Kunze, diretor da Clássicos Editorial, idealizou, e Gilberto Duobles realizou a apresentação gráfica do CD, captando, sem que eu soubesse, a essência essencial que emana dessa obra exemplar, que “paira sobre os cimos da execução”, segundo Claude Debussy. Contudo, como curiosidade a ilustrar o presente post, coloquei uma montagem realizada pelo ótimo fotógrafo Rômulo Fialdini. Foi publicada no Suplemento Cultural de “O Estado de São Paulo” aos 16 de Setembro de 1973, como imagem para uma crítica redigida por José da Veiga Oliveira de meu recital no Auditório Itália, quando apresentei os Doze Estudos. Tinha eu a metade dos meus 70 anos.

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Mercê da gravação belga lançada em 2006, tenho sob encomenda um artigo para publicação internacional e conferências na Antuérpia e na Sorbonne em 2009 e 2010, respectivamente, quando estenderei minhas conceituações a respeito da observância imperiosa aos critérios estabelecidos por Debussy para os Douze Études, condição sine qua non para que uma tradição interpretativa não se estiole.

My CD with Debussy’s twelve Études for piano will be released in Brazil on 25 October 2008 and this post explains the reasons why it was recorded. These days more and more pianists seem to have become infected by speed, maybe due to the proliferation of piano contests all over the world. They want to set up new records, especially in the field of tempi. Of course, virtuosity has always been an important aspect of the Concert Étude. In the case of Debussy, however, forcing the pace in fast movements can sweep away the essence of the interpretation, turning it just a display of bravura. This recording had multiple intentions: to fulfill the expectations of my late friend, François-Lesure, former director of the music department of the French Bibliothèque Nationale; to pay a tribute to one of the most important of all French composers by recording his Études strictly observing his indications; and also, I must confess, to find an outlet for the mystic bond I had with the composer at the time. In October 2004, when I decided to accept the challenge of recording the Études, I had to fight two battles: one to master the demands of Debussy’s pieces, another to survive a lymphoma. In 1915, when Debussy wrote his Études, he was also struggling against the ravages of a cancer that would kill him three years later. In his own words, he wrote them “as someone who will die the following morning”.

Clique aqui para ouvir Pour les Arpèges Composés, executado ao piano por J.E.M.

Problemática e Possíveis Soluções

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Quando teço reflexões a respeito
de meus sucessos e meus fracassos,
constato uma ligação estreita entre a vida que eu levava
durante os dias a precederem o resultado final.
O repouso, o estado de saúde,
o equilíbrio do corpo e do espírito são condições da realização
.
Henrich Neuhaus (pianista e pedagogo)

Em post bem anterior abordei um mal físico que pode afetar os intérpretes de maneira temporária ou definitiva (vide L.E.R. – Lesão por Esforço Repetitivo, 16/11/07). Muitos são aqueles que, diante de empecilho a afetar dedos, mãos e braços, desiludem-se, frustram-se e buscam caminhos incertos.
Há contudo um mal comum à quase totalidade dos músicos, atores, bailarinos, atletas e acrobatas, possível de ser bem administrado durante toda a trajetória, mas a provocar, em pessoas mais sensíveis, danos irreparáveis na seqüência de seus desempenhos. Refiro-me ao medo do palco, le trac, em francês.
Dois livros exemplares, abordando essa presença que pode levar à insegurança total, esclarecem pontos até obscuros da problemática, e expõem várias categorias de tratamento (André-François Arcier. Le Trac: le comprendre pour mieux l’apprivoisier e Le Trac: stratégies pour le maîtriser. France, Alexitère – Collection Médicine des Arts, 1998, 288 págs. e 2004, 271 págs., respectivamente). Se no primeiro Arcier fixa com clareza fatores prováveis a favorecerem a inibição e aponta meios de administrar e até dominar a terrível, mas majoritária, presença do medo, no segundo, escrito alguns anos após, alarga as possibilidades de tratamentos, que se estendem desde medicamentos alopáticos, entre os quais as benzodiazepinas e os beta-bloqueadores, àqueles alternativos, como a homeopatia, a fitoterapia e a acupuntura. Aborda estratégias corporais que podem efetivamente levar à diminuição das tensões, como os métodos Feldenkrais e Jacobson ou a técnica Alexander, ou ainda o Yoga e outras práticas orientais. Pormenoriza as técnicas relaxantes, a sofrologia e penetra na seara da programação neurolingüística e do desenvolvimento da auto estima. “A estima de si mesmo se aprende e se cultiva” como afirma o autor, finalizando pelas estratégias comportamentais e cognitivas.
O domínio da angústia que antecede a apresentação pública é uma das preocupações de médicos, psicólogos, psicanalistas e especialistas nas muitas vertentes que levam ao relaxamento físico e mental, no desiderato de, através de estudos cada vez mais aprofundados, ao menos atenuar a real ansiedade que existe entre músicos, atores, atletas e outros, que têm de se defrontar com um público, seja este leigo ou especializado, entre os quais uma Comissão Julgadora quando de concursos tipificados. Arcier focaliza preferencialmente os músicos solistas ou de orquestra e atores, daí o palco ser o epicentro a causar a euforia, a plena realização ou o desequilíbrio físico-emocional que prejudica a performance. Os trabalhos de André-François Arcier poderiam ser entendidos como simplesmente acadêmicos, não fosse a quantidade apreciável de depoimentos fulcrais, de músicos e atores da maior respeitabilidade, que aprenderam a conviver com a aflição, entendendo-a, administrando-a da maneira a mais razoável possível e, em muitos casos, buscando auxílio médico, psicológico ou relaxante. Que le trac existe, existe. Ao apresentar estatísticas entre músicos de orquestra, é considerável o número daqueles que sofrem de ansiedade pré-apresentação.
Diferentes tipos de angústia exigem tratamentos variados, pois jamais o medo tem característica padrão, apresentando infinidade de nuances, conforme os perfis estudados por Arcier. Gráficos estão sempre a apontar, numa simplificação para o leitor, as modalidades, resultados, estatísticas. Quando segmentos do corpo humano são apresentados, locais onde nasce e age le trac são pedagogicamente explicados.
Há aqueles para os quais o palco tornou-se um terror. Muitas carreiras tiveram de ser interrompidas pela não adaptação à realidade necessária à performance, pois em cena a tensão pode traduzir-se em obstáculo insuperável. Determinados medicamentos alopáticos, como exemplo, podem ter eficácia para o executante de um instrumento e não para um cantor, outros podem agir atenuando transpirações pré-apresentação, batimentos cardíacos acentuados, problemas no aparelho digestivo, todos ocorrendo nos momentos que precedem a representação.

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André-François Arcier penetra fundo em todos os possíveis traumas causadores do trac, passível de múltiplos tratamentos. Não obstante o “medo” do inesperado existir para todos os que enfrentam o palco, o autor preocupa-se com aqueles para os quais a ansiedade ultrapassa a razoabilidade. Considera também que a ausência absoluta do medo pode caracterizar até um outro tipo de anomalia.
Traumas oriundos da infância, quando de apresentações não satisfatórias; pressão dos pais nessa antevisão do menino prodígio a provocar no futuro a idiossincrasia absoluta pelo palco por parte do jovem, já não mais uma revelação; a insegurança frente a um repertório musical ou teatral; a presença de um público competente; a banca examinadora de concursos; episódios múltiplos de ordem absolutamente individual, mas com antecedentes preocupantes; a necessidade – para muitos – de ser o melhor, o que os torna sensíveis à recepção que o público fará de suas apresentações; o terror das falhas técnicas ou do chamado “branco” em relação à memória, todos são fatores que levam intérpretes e atores ao stress, à instabilidade emocional frente ao público e, quando o limite é sentido, a algum acompanhamento médico, terapêutico, fisiológico, relaxante ou psicanalítico.
Quando o pianista canadense Glenn Gould asseverava não sentir le trac antes da apresentação, evidenciava contudo um problema em torno do medo, o pavor de verificar o seu batimento cardíaco aumentar – uma variante da ansiedade, causa provável que o levou a abandonar a apresentação pública, dedicando-se a certa altura da brilhante carreira unicamente às gravações. Teria sido esse sofrimento cênico que conduziria ilustres intérpretes, em períodos determinados, ao afastamento temporário ou definitivo do palco. Vladimir Horowitz teve traumas provocados pela ansiedade pré-apresentação. Martha Argerich confessa, segundo o exposto na obra de Arcier (2004): “Hoje, eu poderia muito bem deixar de dar concertos. É um ato contra a natureza. O prazer é tão raro. No palco não temos a naturalidade de quando em nossa casa, pois não realizamos os mesmos gestos com as mãos frias, há os joelhos que tremem, o nariz que escorre. A interpretação se modifica. E mais, o peso dos olhares sobre você… O efeito da multidão que te observa… julga. Eu não suporto mais ser prisioneira de uma programação, eu que hesito, tateio permanentemente… Hoje, quando te apreciam, fixam um novo encontro dentro de três anos. Eu tenho pesadelos ao pensar”. A grande pianista refere-se às temporadas musicais acima do equador, sempre agendadas com enorme antecedência. Por sua vez, o extraordinário pianista Georges Cziffra afirmou que “adentrar um palco é um ato de coragem. É nesse instante que reside a fragilidade do intérprete. Leva-se uma mensagem que tem de ser passada em hora precisa, por vezes fixada anos antes, sendo um paradoxo que oscila entre a ação de graça e o suplício de Tântalo”. A uma pergunta a respeito do prazer de tocar em público, o pianista Murray Perahia afirmaria: “Não, não é um trauma, se bem que sinto le trac que não é tão indolor como eu desejaria, mas a música é comunicação e é comunicando-se que aprendemos, daí serem necessários os concertos”. E a convivência com essa angústia indesejada, mas sempre presente, seria um fato. Talvez possamos entender as considerações do pianista francês Jean-Philippe Collard citadas por Arcier como uma síntese existente do medo do palco. Considera Collard le trac um companheiro que o pianista conhece bem, entendendo-o necessário, impedindo-o, por vezes, de exprimir-se como gostaria. E afirma: “um companheiro que torna algumas apresentações dolorosas comparadas à fugacidade dos instantes de embriaguês impalpável que existem apenas na geografia de uma sala”.
Entre músicos e atores, a ansiedade pode advir no instante a preceder a apresentação, ou horas, dias ou meses antes de um evento. Dependerá das estruturas mentais de cada artista. Haveria, como afirma André-François Arcier, a necessidade não de suprimir le trac, mas de domesticá-lo. Saber entender que a existência do medo a preceder a apresentação faz parte dessa íntima relação intérprete-público é compreender não apenas a responsabilidade do artista frente àqueles que estão ávidos por receber a mensagem, como também entender a fragilidade humana perante o desafio.

A few comments on two books written by the French doctor André-François Arcier, a research on the causes and effects of stage fright – “trac” in French, the performance anxiety to some extent affecting all performers, from beginners to professionals, when they step on-stage – and a variety of strategies to control it.