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Narrativa em Torno do Notável Henry Le Boursicauld

À loucura da peregrinação do meu antigo confrade,
Henry Le Boursicaud, quis eu juntar a minha peregrinação,
de esgarafunchar a história da “herética divinização” dos Papas.
Mas não vejam aqui senão uma crítica amiga.
Luís Guerreiro
(dedicatória manuscrita do autor e amigo no exemplar que nos foi enviado)

Luís Guerreiro é um escritor de convicções fortes.  Bem anteriormente, dediquei um post ao instigante romance Oitavo Dia da Criação (29/06/07). O presente, O Peregrino (Brasília, Ser, 2012), vem comprovar a preocupação maior do autor com os rumos da Igreja Católica Apostólica Romana. Para tanto, descreve com acuidade os passos sofridos do missionário redentorista francês, Henry Le Boursicaud (1920- ), em uma caminhada épica empreendida a pé pelo padre aos 75 anos de idade. Escritos de Le Boursicauld durante o trajeto são entremeados pela interpretação de Guerreiro, a dar movimento à narrativa, numa caracterização em que a veracidade pode ter eflúvios da inventiva do escritor, sem, contudo, fugir à certeza de um fato real.

Henry Le Boursicauld é uma figura notável. Padre da Ordem dos Missionários Redentoristas. À certa altura deixou o abrigo certo do convento e partiu para uma aventura que se prolonga aos nossos dias. Percorreu o mundo, a viver nas comunidades mais carentes, não apenas aquelas dos pobres e desvalidos, mas também a integrada pelos oprimidos, pelas populações desprovidas das necessidades básicas. Inicialmente viveria entre milhares de imigrantes portugueses em Champigny,  perto de Paris. Esteve prolongadamente em alguns dos guetos mais desfavorecidos deste planeta, a desenvolver ações comunitárias. Notáveis suas contribuições junto aos abandonados pelo poder público em Fortaleza e entre os catadores de lixo em São Paulo, assim como a prolongada ação junto aos pigmeus, na África, onde ensinou o plantio de inúmeros vegetais, que corroborariam o sobreviver da etnia africana. Seus livros são o resultado desses apelos interiores e de uma vida cristã realmente dignificada pela ação. E tudo teria acontecido quando recebeu um tapa em reunião de párocos, simplesmente por ter dito que não lhe parecia difícil encontrar a casa da paróquia em pequena localidade, pois esta era preferencialmente a melhor.

Luís Guerreiro, que em Oitavo Dia da Criação ratificava sua posição clara relacionada a alguns desvios da Igreja, e o personagem do livro, Deodato, apreendia o sentimento solidário relacionado àqueles oprimidos pelos poderosos, encontra no exemplo de Henry Le Boursicauld o herói vivo, palpável, admirado, mormente pelo fato de ter sido seu antigo confrade redentorista. Constrói uma história a partir de um feito inédito e excepcional empreendido pelo personagem.

Desiludido com a pompa existente em setores da Igreja e com a falta de dedicação plena aos menos favorecidos, Henry Le Boursicauld empreende uma viagem tida por tantos como um ato de loucura, de sonhador, de visionário. Segue a pé de Paris a Roma, a fim de entregar carta de seu punho e cinco livros do teólogo alemão Berhnard Häring ao Papa João Paulo II. Na missiva,  pede com firmeza uma ação maior voltada aos oprimidos e aos pobres segregados. Fá-lo aos 75 anos e de 18 de Junho a 23 de Setembro de 1995 caminha em direção ao Vaticano. Seriam 97 dias em que sequer pediu carona, pois o trajeto teria de ser completado a pé!!! Apenas aos sábados descansava. Quase sempre recebia acolhida para repouso em casas de moradores ou religiosos das pequenas localidades. Em França e na Itália. Transpôs os Alpes! Nas longas e perigosas subidas pelo acostamento das estradas alpinas, receberia convite de motoristas querendo levá-lo, pois sua peregrinação ganhara manchetes. Recusava sistematicamente. Tantos o têm como um Profeta. Creio que Luís Guerreiro soube captar essa vontade férrea de Le Boursicauld. Nessa epopeia, o missionário redentorista se faz – involuntariamente – acompanhar de um jovem alemão forte e alto que se sentiu impelido a segui-lo: “Henry, dou-te três meses da minha vida”. Guerreiro insere os textos fortes do missionário sobre episódios papais, alternando-os com os seus, colega redentorista, descritivos, romanceados. Essa técnica torna leve a interpretação do cotidiano da longa viagem, a possibilitar que as observações duras escritas pelo padre tornem-se referências aguardadas pelo leitor. Dos diálogos entre Jürgen, o jovem, e o velho missionário, Guerreiro sabe caracterizar a intrepidez do sacerdote nascido na Bretanha. Não por vezes há discordâncias entre os dois peregrinos, mas Guerreiro capta nesse “romance histórico” o lado altruístico do germânico companheiro de Henry e a sua admiração pelas características indomáveis de Le Boursicauld.

Nessa determinação, até certo aspecto visionária, a almejar que sua carta pudesse ser lida pelo Papa João Paulo II, reside o cerne do livro. Mostra-se Le Boursicaud obcecado por mudanças na Igreja, que na realidade pouca guarida poderiam ter por parte das autoridades eclesiásticas. Percebe-se, por parte do padre, uma revolta interior pelos desmandos dos papas, desde os primórdios da Igreja. Tece reflexões a respeito da célebre frase contida nos evangelhos “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. A interpretação, tomada à risca pelos papas, teria sido a responsável por tantas arbitrariedades cometidas por suas ações ao longo da história. Le Boursicaud historia em seus apontamentos o lado trágico e autoritário nessa milenar sucessão de papas. Essa constatação, somada à infalibilidade papal, apenas do Papa, proclamada durante o pontificado de Pio IX no século XIX, à ostentação ainda existente na cúpula da Igreja e à existência de determinado “sistema” elitista arcaico constantiniano (secreto?) a visar ao Poder iriam se chocar com a visão oposta voltada aos abandonados, à miséria, aos oprimidos, razão maior da cruzada apostólica do missionário. Diria que amor sincero e revolta, não ódio, frise-se, fazem-se presentes no transcorrer da obra. Ficaria claro que o amor é a essência na vida do missionário peregrino, mas a revolta estaria a apontar o caminho da denúncia.  Afirmaria Le Boursicauld: “Colossais despesas das viagens do papa pelo mundo endividam as dioceses. Ao mesmo tempo, João Paulo II é obrigado a colar-se aos ricos, por vezes pouco desejáveis. Em Bogotá, antes de sua chegada, retiraram da rua todas as crianças miseráveis, para que ele não as visse, e levantaram anteparas diante dos bairros de lata. O primeiro dos crentes parte dos palácios luxuosos para anunciar a Boa Nova aos pobres! Como se pode compreender isso”? Como afirma Luís Guerreiro, “supostos sucessores de Pedro, houve papas santos, alguns deles mártires. Noutros, Cristo não teria hipotecado a sua confiança”. O padre redentorista bretão teve a fortificá-lo em suas convicções o Abbé Pierre (1912-2007), fundador do Movimento Emaús, motivo maior para que Le Boursicauld fundasse posteriormente a sua comunidade “Emmaüs Liberté”. Influenciou-o e o estimularia posteriormente o ilustre teólogo Bernhard Häring (1912-1998).

A grande decepção de Henry Le Boursicaud, cuja peregrinação durara 97 dias, sempre a andar, e cuja repercussão na mídia antevia bem antecipadamente a sua chegada ao Vaticano, foi a de não ter sido recebido pelo Papa João Paulo II. Entregou sua carta e presentes ao Cardeal Etchegaray. Assim como duas cartas endereçadas ao papa nunca foram respondidas, essa em especial, após essa caminhada épica, também não seria.

O Peregrino é livro polêmico. Li-o com a devida cautela, cônscio da austeridade, probidade e competência teológica do autor e da extraordinária Missão Apostólica de Henry Le Boursicauld, que, às portas de seus 92 anos, foi morar com os mais pobres e oprimidos na favela Vila Velha, em Fortaleza. Ali pretende ficar, até que Deus o receba. Mistérios.

An appreciation of the book “O Peregrino” (The Pilgrim), in which writer Luís Guerreiro recounts, in a mixture of facts and fiction, the epic journey from Paris to Rome undertaken on foot by the Redemptorist Father Henry Le Boursicauld in 1995.

      

 

 

 

Texto Impecável de Mário Vieira de Carvalho

Confesso-lhe com inteira sinceridade que prefiro,
do ponto de vista da comunicação artística,
deslocar-me com o Coro da Academia de Amadores de Música
à mais esquecida vila alentejana ou beirã,
ou à mais popular (e não alienada)
colectividade filarmónica-recreativa da Outra Banda,
a receber os aplausos medidos e convencionais
que na realidade se digna, dispensar à minha música
os frequentadores habituais das salas de concerto da capital.
(Entrevista concedida a Mário Vieira de Carvalho por FLG em Fevereiro/Março de 1974)

Será em Junho o lançamento em Portugal do álbum a conter dois CDs com obras essenciais do grande compositor português do século XX, Fernando Lopes-Graça (1906-1994). Gravei-as em 2010 na Capela Sint-Hilarius, em Mullem, na Bélgica, a ter como engenheiro de som o excelente Johan Kennivé. Foi a partir de Novembro último que houve o vivo interesse do prestigioso selo PortugalSom pelo lançamento das quatro composições registradas em solo belga. Confiaram ao Professor Catedrático da Universidade Nova de Lisboa, Mário Vieira de Carvalho, o texto do encarte. O ilustre musicólogo, grande conhecedor da obra e da trajetória de Lopes-Graça, privou da amizade do músico e pensador e é autor de livros referenciais sobre o compositor nascido em Tomar (O Essencial sobre Fernando Lopes-Graça, Portugal, IN/CM, 1989 e Pensar a Música, Mudar o Mundo: Fernando Lopes-Graça, Porto, Campo das Letras, 2006). Reiteradas vezes tenho escrito que não estamos diante de um grande compositor português, mas sim frente a um dos maiores músicos do século XX em termos mundiais. Compositor, regente, pianista e pensador, a obra de Lopes-Graça tem a qualidade excelsa proporcionada a poucos. Lamentável, para não dizer vergonhoso, é o desconhecimento que dele se tem no Brasil. Urge reparar esse desvio histórico.

Solicitei à PortugalSom e ao Professor Vieira de Carvalho a reprodução do texto em meu blog poucas semanas antes do lançamento. Gentilmente aquiesceram. O leitor é brindado com o estudo de Vieira de Carvalho, concluído em Cascais aos 25 de Março de 2012, verdadeiro debruçamento sobre as obras constantes nos CDs Lopes-Graça.

Fernando Lopes-Graça (1904-1994)
Obras para piano

“Este duplo CD de música para piano de Fernando Lopes-Graça é resultado duma intensa atividade de investigação do intérprete, José Eduardo Martins, cuja dedicação e entrega ao repertório de autores portugueses e à sua divulgação sistemática, nomeadamente através de gravações exemplares, tanto na substância musical como na qualidade fonográfica, dificilmente tem competidores, mesmo entre pianistas residentes em Portugal.

O investimento na pesquisa e a paixão com que se dedica à música que interpreta explicam um dos maiores motivos de interesse deste CD duplo, que é a recuperação do original para piano do Canto de Amor e de Morte, uma versão que o compositor deu por ‘inutilizada’. Trata-se de uma peça-chave na obra de Lopes-Graça, composta em 1961 após uma grave crise existencial que quase colocou o compositor à beira do suicídio, e que representa um momento de viragem na sua linguagem musical – acentuando o pendor  para um ‘expressionismo dramático de carácter mais ou menos atual’ (palavras do compositor) que nela se manifestava em estado latente. Essa viragem traduz-se no extremar do princípio da variação evolvente ou amplificadora (entwickelnde Variation ou evolving variation) a partir das figurações elementares melódico-harmónicas e rítmicas. A dissonância (nomeadamente, intervalos de segunda e sétima obsessivos) está sempre presente e não tem resolução: é a dissonância entre o autor e uma realidade social e política que lhe é odiosa, que lhe é hostil, que o limita drasticamente nas suas expectativas de realização pessoal e artística, que o oprime como ser humano, que o dilacera na sua esfera mais íntima. É a obra confessional de um homem que se ‘deita ao lado da sua solidão’ (1) – um homem que, proibido pela Ditadura do Estado Novo do exercício da docência (quer nas escolas públicas, quer privadas), perseguido política e economicamente pela sua militância comunista, mas afrontando sempre com intransigência e coragem as adversidades da vida, chegara aos 54 anos confinado a um quarto alugado, pois não tinha meios para arrendar um apartamento próprio. É essa dissonância existencial que emana do gesto global da obra – um gesto expressionista, que vem das profundezas da subjetividade.

Pode presumir-se que Lopes-Graça pensou originalmente o Canto de Amor e de Morte como obra para piano e que só em pleno processo de composição, decerto marcado por uma forte interação com o instrumento, se tenha apercebido de que precisava de ir mais além, alargar os meios instrumentais de modo a tornar a obra mais exequível e mais transparente nas suas componentes estruturais e expressivas. A versão definitiva, apresentada em primeira audição em 1961, para quarteto de arcos e piano, impôs-se então ao compositor e impôs-se ao público e à crítica pelo seu perfeito equilíbrio entre construção e expressão. Que na substância musical cabia uma grande orquestra foi o que ficou demonstrado numa versão ulterior, de 1962. A obra foi-se expandindo, pois, da ideia primeira (piano) para ensemble (quarteto de cordas e piano) e, finalmente, orquestra. José Eduardo Martins, após um paciente e rigoroso trabalho reconstrutivo, convida-nos a percorrer caminho inverso: o caminho da concentração nos meios exclusivamente oferecidos pelo piano. Passamos a dispor, assim, de três versões, e escusado será dizer que José Eduardo Martins nos convence completamente daquela que pode considerar-se, a partir de agora, a versão “original” para piano. Pelos enormes desafios que ela coloca ao intérprete, revive-se na sua execução a ‘luta’ do compositor/pianista com os limites do instrumento. O efeito é o duma redobrada condensação expressiva.

Canto de Amor e de Morte é um título que podia, com propriedade, abranger todas as obras incluídas neste CD duplo. Na verdade, amor e morte são também evocados na impressionante coleção de Músicas Fúnebres para piano, e o gesto de amor – o gesto de amor que esconjura a morte – está ainda latente nas duas obras que completam o CD: Música de piano para as crianças e Cosmorame.

As Músicas Fúnebres, apesar de compostas dispersamente ao longo de dez anos (1981-1991), têm uma monumentalidade comparável à dos Funerais de Liszt. O próprio compositor as reuniu num ciclo, reconhecendo e sublinhando a posteriori a sua unidade. Na verdade, parecem articular-se entre si como as Cinco Estelas Funerárias (para companheiros mortos) para orquestra (1948, 1º audição: 1956), em que Lopes-Graça também chora a perda irreparável de amigos e companheiros. A partilha do mesmo ideário e a fraternidade política, vividas intensamente, e revividas no momento do luto com grande comoção íntima, inspiram todas elas. Esse mesmo fundo político aparece ainda nas outras ‘músicas fúnebres’ do compositor: na Elegia à memória de D. Herculana de Carvalho (1953), peça para piano autónoma (2); no Pranto à memória de Manuela Porto (composto em 1950 e depois incluído nas Oito Bagatelas para piano, 1950); bem como obviamente no Requiem pelas vítimas do fascismo em Portugal, para solistas, coro e orquestra (1979).

Uma análise aprofundada das Músicas Fúnebres deixaria entrever aqueles traços característicos (subjacentes ao gesto expressionista unificador) que as diferenciam entre si, pois remetem para personalidades tão marcadas como os poetas Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira (que inspiraram várias obras vocais de Lopes-Graça, entre elas as canções revolucionárias ou canções heróicas, uma das quais – Jornada - se insinua não só título mas também na substância musical da peça à memória deste último) (3); a escritora e ativista política e dos direitos das mulheres, Maria Lamas, obrigada a exilar-se durante a vigência da Ditadura; o líder da FRELIMO, Movimento de Libertação de Moçambique, Samora Machel, que Lopes-Graça conheceu pessoalmente; Francisco Miguel, o dirigente do Partido Comunista Português que somou maior número de anos de prisão e um dos que mais arriscou a vida em ações de luta contra o Estado Novo; o médico Ernesto Castro e Silva, também ‘amigo e camarada’; Francine Benoît e Louis Saguer, compositores, musicólogos, pedagogos, irmanados com Lopes-Graça tanto na persistente defesa da modernidade estética como na intransigência política; e, finalmente, Michel Giacometti, também amigo e incondicional  companheiro de luta de Lopes-Graça, seu colaborador inseparável desde 1960 no projeto de investigação, recuperação, registo fonográfico e estudo exaustivos da música regional ou ‘música rústica’ portuguesa.

De diferente carácter são as peças incluídas no CD 2 deste álbum duplo, embora nelas se divise igualmente o tema do amor e o gesto de esconjurar a morte. Música de Piano para as Crianças (1968-1976) faz parte da apreciável série de obras instrumentais ou corais-instrumentais em que Lopes-Graça dá testemunho do seu amor pelas crianças, dir-se-ia como manifestação do seu amor à vida e de esperança num mundo de paz e solidário. É uma coleção de peças-miniaturas destinadas à iniciação infantil no piano. Os seus títulos alternam, entre a sugestão de imagens (p. ex. Um bocadinho triste, Recordação, Brincadeira, Divagação, Caleidoscópio) e as referências diretas à forma musical ou ao treino pianístico (p. ex. Estudo, Melodia acompanhada, Simples canção, Cânone a duas vozes, Baixo obstinado, Pentatonia, Tocata). Tal como as peças do Álbum do Jovem Pianista (1953-1966), trata-se de verdadeiras preciosidades de invenção musical, com um propósito educativo e formativo, mas que nem por isso deixam de interpelar o ouvinte, convidando-o a uma escuta atenta e interessada.

Em Cosmorame (1963), Lopes-Graça dialoga com os povos de todo o mundo numa suite de 21 peças. O título original em francês, acrescido do subtítulo Grand recueil de pièces pour piano: composés sur des airs de divers pays et consacrés à la fraternté des peuplespar: première partie, previa uma segunda parte, que não chegou a ser composta. Num mundo de conflitos agudizados, que espalhavam em vários continentes a devastação e a morte, Lopes-Graça proclama a fraternidade dos povos através da sua música: ...se eu queria celebrar a fraternidade dos povos na paz, na amizade e na compreensão mútuas – ideal que tenho muito a peito -, porque não haveria de me dirigir aos seus cantos e às suas danças, para com eles compor um ramalhete de pecinhas que os irmanasse no meu pensamento e na minha arte, e isto mediante aquilo que mais os individualiza e, ao mesmo tempo, os aproxima em espírito, e já que de outros poderes não disponho para promover a sua aliança? … não constituirá ao menos um acto de alguma coragem o procurar fazer assumir à arte, à música, na espécie, um gesto de amor, hoje que ela, a música, parece, não direi perdida, mas solipsisticamente encerrada no mágico anel das suas experiências e das suas descobertas, e hoje em que, num mundo de trágico desconcerto, os gestos de amor se tornam tão urgentes? Um gesto de amor, este Cosmorama. Conterá ele a arte que possa exalçar esse gesto? (4).

O propósito do compositor é ainda acentuado pela citação de Telémaco, de Fénelon, inscrito na partitura: Tout le genre humain n’est qu’une famille dispersée sur la face de toute la terre. Tous les peuples sont frères, et doivent s’aimer comme tels. Malheur à ces impies qui cherchent une gloire cruelle dans le sang de leurs frères, qui est leur propre sang.

Lopes-Graça terminou a obra e escreveu as linhas da sua apresentação acima referidas em plena guerra colonial (deflagrada em 1961), quando soldados portugueses e militantes dos movimentos de libertação de Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde e Moçambique se defrontavam em sangrentos combates. Daí ganhar particular relevância política o facto de, no contexto da obra, Portugal e Moçambique serem colocados em pé de igualdade, como povos fraternos. José Eduardo Martins trabalhou detidamente na análise de Cosmorame, aplicou-se no esforço de decomposição estrutural e decifração dramatúrgica, como se não se conformasse com a designação de pecinhas dada pelo compositor. Na sua interpretação, e assim realizada integralmente, a obra surge-nos como um monumento, um memorial à fraternidade dos povos, sobre o pano de fundo de um mundo onde a guerra e as lutas fratricidas continuam a grassar”.

In June my double album with pieces for piano by the great Portuguese composer Lopes-Graça will be released in Portugal by the label PortugalSom. This week’s post is a transcription of the CD booklet, written by the distinguished musicologist and professor of the University of Coimbra Mario Vieira de Carvalho, who with his usual competence discusses briefly the works contained in the CD.

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1) Hoje deitei-me ao lado da minha solidão – verso de um dos poemas de Eugénio de Andrade incluído no ciclo de canções para canto e piano As mãos e os frutos, composto por Lopes-Graça em 1959.
2) Herculana de Carvalho era mãe de Guilherme da Costa Carvalho, dirigente do Partido Comunista Português, que, à data da composição da obra se encontrava prisioneiro no Campo de Concentração do Tarrafal (em Cabo Verde, então sob domínio colonial português) e que chegou a ouvi-la, numa gravação, durante o seu cativeiro.
3) A evocação da mesma “canção heroica”, Jornada, aparece igualmente na Elegia à memória de D. Herculana de Carvalho, mas mais enfatizada.
4) Lopes-Graça, texto para a primeira edição fonográfica de Cosmorame, 1967 (Piano: Georges Bernand), citado em Romeu Pinto da Silva, Tábua Póstuma da Obra Musical de Fernando Lopes-Graça, Lisboa, Caminho, 2009, p.196.

Entrevistas Antigas com Serge Nigg

Em arte, o erro afigura-se tão fecundo como os acertos.
É aos ziguezagues que a arte avança.
O que num momento se supunha erro
vem a revelar-se com frequência um manancial de virtualidades.
João José Cochofel

De meu grande amigo António Ferreirinho recebi  em Novembro último quando de tournée por terras lusíadas, Opiniões com data, de João José Cochofel (1919-1982). O conimbricense Cochofel foi poeta, ensaísta, crítico literário e musical muito respeitado em Portugal. Integrou o movimento neorrealista português e foi ativo organizador e colaborador de revistas e periódicos importantes para a vida cultural de Portugal.

Opiniões com data, que integra as obras completas de Cochofel,  estende-se de 1939 a 1954. É possível seguir o desenrolar intelectual do autor no conjunto de seus artigos publicados em Portugal. Mais interessante se torna ao compreendermos a necessidade de Cochofel de interagir bem posteriormente ao preservar os textos originais, mas a fazer comentários analisando a feitura dos escritos. Ferreirinho sabia de meu interesse por tudo o que se refere ao notável compositor e pensador Fernando Lopes-Graça (1906-1994), e João José Cochofel não apenas foi amigo do grande músico,  como autor dos poemas das Cinco canções de “Os dias Íntimos” para canto e piano (1950-1966) do compositor nascido em Tomar.

Estando a ler Opiniões com data homeopaticamente entre tantas outras leituras, torna-se revelador o pensamento inteligente, arguto e profético do autor. Certamente João José Cochofel será citado em posts futuros pelos conceitos que emitiu, sempre com raro interesse. Por ora fica a surpresa ao me deparar com interessante entrevista que Cochofel realizou em Paris em 1951 com o ilustre compositor Serge Nigg (1924-2008), que foi tema de um de meus posts do ano passado (vide Serge Nigg “Captar o Passado, Apreender o Presente, Pressentir o Futuro“, 04/03/2011). O jovem compositor, que teria escrito pela primeira vez em França, no ano de 1946, uma obra onde utilizou a técnica dodecafônica (Variations pour piano et 10 instruments), logo se tornou celebridade que não passaria desapercebida para Fernando Lopes-Graça, que o entrevistou em 1947 (Visita aos Músicos Franceses, Seara Nova, 1948), no período em que Serge Nigg surgia como um estímulo para a vanguarda musical em detrimento da música de ampla audiência, isso logo após a Segunda Grande Guerra. A uma das perguntas de Lopes-Graça sobre o possível coadunar dodecafonismo e a tradição musical francesa, Nigg responde: “Certamente. Não há incompatibilidade entre o dodecafonismo e a tradição musical francesa, antes de mais nada porque não se trata de estética quando se fala de dodecafonia, mas sim de técnica de composição, ao passo que, quando se fala de uma tradição musical (o que é muito vago) tem-se em mente sobretudo o apego a certos conceitos estéticos, frequentemente vazios de sentido”. Pois bem, por volta de 1950 Serge Nigg rompe com o “movimento” que apregoava o dodecafonismo em França. João José Cochofel, ao comentar bem tardiamente outra entrevista de Serge Nigg a ele concedida em Paris no ano de 1951, diz: “Em nome da generosa miragem da arte para todos, Nigg consentiu no maior sacrifício que a um artista é dado fazer, o sacrifício das suas tendências profundas, ao renegar o dodecafonismo” e conclui “De qualquer modo, foi Boulez, seu émulo e opositor, quem triunfou e se tornou conhecido”.

Cochofel, ao procurar Serge Nigg, tinha em mente elucidar várias questões, inclusive a da “ruptura” do compositor com a técnica que passava a ter guarida entre os jovens músicos franceses. Escreve que Nigg começava “a suspeitar da irredutibilidade do esoterismo daquela corrente aos seus ideais humanísticos”. Prossegue Cochofel: “E Nigg acaba realmente por abandonar a ortodoxia dodecafônica, levantando grande celeuma nos meios musicais, que fizeram por ignorar a honestidade e a coragem de que deu provas ao procurar novas formas de expressão quando começava a triunfar, e vencendo uma crise inevitavelmente dolorosa de desilusões e renúncias, mas que a sua consciência lhe impunha”. A uma incisiva pergunta do entrevistador sobre a razão de ter abandonado o dodecafonismo, Serge Nigg, aos 27 anos, responde: “Por este não levar a coisa nenhuma, destruindo o caráter nacional, fazendo uma música de receita, igual em todos os países, nivelando tudo. Há tempos assisti a um concerto de jovens compositores sul-americanos, mas em vez de encontrar o Brasil, encontrei música escrita em Viena de Áustria…”. Em 1965, Cochofel observaria que colocou em Opiniões com Data a entrevista concedida em 1951 por Nigg, apesar de asseverar que se tratava de “ideias mais alheias do que minhas”.  João José Cochofel comenta que “a experiência das duas últimas décadas veio mostrar cruelmente que os experimentalismos eram irreprimíveis e que não se pode travar o desenvolvimento natural da arte…”. Contudo, tem consciência de que deve ser combatida a rotina, mesmo em movimento de vanguarda.

As entrevistas pontuais que Fernando Lopes-Graça (1947) e João José Cochofel (1951) fizeram com Serge Nigg, atestando a adesão e a posterior “rejeição” ao dodecafonismo – fatos que ocorreram bem antes dos 30 anos do compositor – seriam, cinco décadas após, durante o longo depoimento mantido com Gérard Denizeau  (1998-2008) e publicado em 2010 na série Témoignages (nº 3), do Observatoire Musical Français da Université Paris Sorbonne, amplamente ratificadas por Serge Nigg. Vem  demonstrar a profunda coerência do ilustre compositor e pensador francês. Esse substancioso depoimento foi o material temático do post acima mencionado.

Seria possível entender que decênios transcorridos, realizações e vicissitudes advindas, assim como a longa maturação do pensar tivessem provocado em Serge Nigg a necessidade de deixar depoimento definitivo já nos estertores da existência. A coerência do compositor difere bem de determinadas autobiografias em que o passado se torna nebuloso ou, mais grave, fantasioso. É a integridade intelectual do depoente que estaria a comprovar a veracidade dos fatos. Apreendida a premissa, o que fica do memorialista íntegro é a condição de autenticidade, o que o tornará partícipe da História.

No extraordinário depoimento, tema do post sobre ele, Serge Nigg considerava que no crepúsculo da vida o músico terá construído seu mundo abstrato, fiel ao que almejou. Confessa ter sofrido “tentações da fantasia que podem permitir derivações” e que a inspiração deve nortear o compositor. Ao afirmar que o caminho de um criador é a lógica inevitável, considera, contudo, que há tributo a pagar, sendo este  a “solidão”. Não estaria a pensar na longa trajetória e naquele rompimento com o dodecafonismo no início dos anos 50? Que houve marginalização, sabe-se. Todavia, a coerência de Nigg, compondo com a maior competência, sem amarras ideológico-musicais e a confiar na “inspiração”, tornaram-no paradigma para tantos nas décadas que se seguiram. Próximo de seu fim existencial faz a autocrítica de seu desligamento do dodecafonismo após o entusiasmo inicial: “ignorava na época que a ‘repetição’ carregava a ornamentação” referindo-se aos compositores barrocos e clássicos, observando que “Schöenberg, no fim da vida, compreenderia o caráter desumano de seu método”. Afirmaria que, naqueles anos pós-guerra, infortunado o músico que não aderisse às novas tendências. Daí a dimensão incomensurável, com todos os tributos pagos posteriormente, de seu desligamento daquela avassaladora vanguarda, mormente quando estava a ser considerado um expoente da técnica dodecafônica em França. Teriam Lopes-Graça e João José Cochofel entrevistado Nigg não fosse ele referência?

Sob outra égide, Serge Nigg mostra-se avesso à obra aberta, aos modismos, à concessão, à proliferação de jovens compositores: “Quando um Festival especializado anuncia, como exemplo, ’80 criações mundiais’, tem-se frio na espinha”. Alérgico à música eletroacústica, exprime: “Para mim, os sons eletroacústicos são sons mortos, enquanto que nada me parece mais belo que o som do violoncelo, de um oboé ou de um violino… Sempre fui partidário da música instrumental pura, por gosto e temperamento. A ideia da máquina intrusa e da ciência puramente especulativa na música, expressão a mais profunda do gênio humano, é uma coisa que me aterroriza”. Ficaria implícita a ideia de novos caminhos trilhados por Nigg, livres da ortodoxia.

O notável compositor Serge Nigg revisitaria o dodecafonismo, sob outra égide, a partir de 1960, “quando toda aridez, toda sistemática já teriam sido dominadas” segundo Gérard Dénizeau. O autor de obras que se tornaram referenciais tem suas criações executadas por muitos dos mais importantes intérpretes, assim como por orquestras e conjuntos camerísticos vocais de excelência. As entrevistas realizadas nas fronteiras da segunda metade do século XX por dois pensadores fundamentais da música em Portugal apenas ratificam a grandeza de Serge Nigg e sua corajosa coerência, que perduraria através das décadas.

In March 2011 I wrote a post covering the booklet Témoignages – published by the Sorbonne University – of the great French composer Serge Nigg. Now I’ve just read the interviews given by Serge Nigg in 1947 and 1951 to two Portuguese intellectuals: the composer Fernando Lopes-Graça and the poet João José Cochofel. Both interviewed Nigg in two decisive moments of his career. In 1946 Nigg was the first composer in France to write a dodecaphonic work and in 1951 he was already moving away from the twelve-tone technique. Five decades later, the subject would be resumed by Nigg in his Témoignages, where he confirmed his uneasiness with the limitations of the purely abstract technique, proving the consistency of the choices of his youth.