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Artista da Hiper-Super-Ação

Você não se sente livre sendo filho,
você não se sente livre sendo mãe.
Livre é um caminho crítico,
por felicidade na liberdade.

Luca Vitali

Mestre Luca Vitali e Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Em posts anteriores, referi-me ao emprego inadequado de certos termos. Outros mais, à força da reiteração, banalizam-se e não mais correspondem à sua real acepção. Incluiria nessa categoria a palavra superação. Igualmente mencionada ad nauseam em propagandas e nos meios de comunicação, raras vezes adequa-se ao verdadeiro sentido que deveria ter. É um fato com que nos deparamos a todo instante. Em qualquer das atividades humanas há aqueles que conseguiram a superação após vicissitudes de toda a ordem, assim como há a sua “aparência” em tantas mais figuras divulgadas pela mídia. Todavia, legião de verdadeiros heróis poderia ser citada. Felizmente esta existe, a fim de que exemplos dignificantes sirvam como faróis para a trajetória do homem. Já mencionei no post anterior Edson Dantas, bi-campeão da Maratona de Nova York na categoria amputados, como cidadão forjado no destemor e que soube superar o que poderia parecer impossível.
Há contudo uns poucos, raríssimos, que ultrapassam a aplicação do termo superação. Incapacitados para a vida e dependendo inteiramente de ajuda diuturna, representam esses seres extraordinários exemplos para todos aqueles que, pelos mais variados pretextos, tendem a viver na lamentação. Quando a fé inabalável – a que remove montanhas – tem a alimentá-la a força criativa sedimentada pelo tempo, surge o herói verdadeiro, o demiurgo que encontrará seu espaço e será paradigma para todos os mortais. Ergue-se sob a égide da Hiper-Super-Ação, figura acima das tão decantadas superações, válidas, inquestionáveis, mas apenas superações.

Evilásio e seu universo. Clique para ampliar.

Através de relatos pungentes de Luca Vitali, habituara-me a ouvir a saga de Evilásio Luiz Cândido, um vitimado pela paralisia cerebral. No inícío dos anos 90, o adolescente, assistido pela Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), com extrema dificuldade externou a Luca Vitali o seu desejo de pintar, de mostrar ao mundo as aspirações acalentadas às quais o destino parecia opor-se. Foi Luca que, ao conhecer o drama de Evilásio, indicou-lhe a senda da luz, aquela que, ao ser percorrida, pode explicar a passagem do homem pelo planeta. Torná-lo exemplo. Apreendeu o mestre que a vocação de Evilásio seria a de pintar, sonho aparentemente irrealizável. Mas como ajudar alguém que em cadeira de rodas, sem poder fazer uso dos membros superiores e inferiores, com sérios problemas de coordenação da fala e de outros movimentos corporais, inclusive da cabeça e da boca, a encontrar realização na pintura? A AACD já adaptara uma tiara, a fim de que Evilásio pudesse escrever. Luca adaptou à tiara um pincel. Isso se deu em 1992. Magia. Tiara do desvelamento, possibilidade única para que o imaginário rico de Evilásio pudesse vir à superfície. Tiara da esperança, da concretização da luz. Pincel, instrumento a fixar os mistérios da mente. Houve momentos de desalento por parte do discípulo, não relacionados ao desejo final, mas às próprias dificuldades sobre-humanas do aprendizado. A técnica lhe foi ensinada com paciência e relação de afeto: planos, cor, perspectiva a partir dos tons claros aos escuros, entrada da luz e das sombras, a noção das distâncias, harmonia, dimensões dos quadros, do pequeno à grande tela, misturas, limpeza de pincéis. Evilásio dedicou-se com afinco, aprendeu o métier e hoje, amparado pela dedicadíssima mãe Dilza – entre outras tarefas, é ela que diariamente carrega o filho ao subir os 12 degraus que levam ao quarto de dormir -, pela irmã Juliana e a ter como verdadeiro anjo protetor Eliana Pereira Bento, carinhosa especialista a cuidar dessa difícil comunicação de Evilásio com o mundo que o circunda. Eliana é fonoaudióloga e tem acompanhado o desenvolvimento de Evilásio há longos anos, não apenas a solucionar problemas do cotidiano, mas também estabelecendo contatos com os que se interessam por arte. Frise-se o apoio que o artista recebe até o presente do Núcleo Assistencial Irmão Alfredo.

Flora. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Luca confessou-me que jamais interveio nos desideratos do discípulo. Ele é o mestre a guiá-lo, tão somente. A temática criativa de Evilásio passaria a brotar como o magma das profundezas da terra, e o interior singular do pintor tem emergido em deslumbramento da cor, em apelo à vida e à compaixão. Como não pensar no Douanier Rousseau (1844-1910) e suas florestas tropicais, fauna e flora, oriundas da imaginação?

Primavera. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Impressionaram-me pinturas brotadas não apenas do espírito criador, mas de uma reflexão concernente à vida, seus embates e conflitos, mas igualmente dessa incessante busca da pureza do espírito e da luz como almejo final. Se pinturas como Flora e Primavera traduzem um universo que o homem teima em extinguir; se Recanto leva-o a pensar num abrigo tranquilo para um Evilásio morador em casa simples e prestes a vê-la demolida pelas máquinas impiedosas da modernidade; se Israel, representado pela árvore enroscada por galhos que a sufocam, estaria a lembrar um país sem paz duradoura, mercê de intolerâncias; uma outra árvore, aquela que conduz o olhar à luz em Iluminada, não seria a confissão desse artista que tem como fim único a aspiração do bem e do belo? Não representaria a Ponte, a transição do “impossível” a almejar a plena humanidade?

Recanto. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Quis conhecer Evilásio. Sua figura, constantemente exaltada com emoção por Luca, contagiou-me. O amigo agendou esse encontro. Ao leitor diria que Evilásio é um ato de fervor. Entrevistei-o, a questionar-lhe os porquês da opção, a relação com a vida, possíveis desencantos pelo impedimento quase que absoluto de participar do cotidiano de todos. Suas necessidades básicas têm de ser acompanhadas. Tem alma pura e seus sentimentos revelam grandeza de espírito. Evilásio ultrapassa qualquer julgamento a respeito da superação. É ele essa encarnação da Hiper-Super-Ação, pois as vicissitudes imprimiram em seus 33 anos de existência o sentido do espírito solidário, do amor vertido nesse pincel preso à tiara que pouco a pouco traduz o que sente em cores vivas, a natureza em festa ou em paz, os miúdos em seus folguedos. Deles participa na imaginação e no olhar, sem jamais ter tido a oportunidade de fazê-lo fisicamente. Sente ternura pelas crianças. Ama a vida e a humanidade, sem quaisquer barreiras. Um iluminado.

Israel. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Fiz-lhe muitas perguntas. Respondeu a todas, apesar da complexidade da fala. Pergunta: O que é liberdade para você? Resposta: É poder ir a qualquer lugar sem sair de minha cadeira de rodas. Apesar de todas as dificuldades, sou livre e viajo quando estou pintando e procurando as cores, que são a minha luz. P: Luz, indaguei? R: Sim, luz é coisa de Deus e eu me sinto um iluminado ao fazer o que mais amo. Realizar tudo sem medo de ser feliz e de poder sonhar. P: O Evilásio gosta da natureza e das crianças. Qual a razão dessas preferências? R: Amo a natureza, pois os grandes espaços me dão o sentido da vida e da liberdade. Amo as crianças, pois participo interiormente de suas brincadeiras. P: A natureza parece estar sempre em harmonia nos seus traços. Como você a recria? R: Eu sei que ela está lá. Televisão e livros mostram imagens que nunca conhecerei. A natureza que eu pinto, árvores, campos, é aquela que está dentro de mim. P: Há uma quase fixação em cenas do Natal, como demonstram seus cartões postais, que propiciam parte de sua subsistência. Seria fruto de sua infância difícil? R: Jesus e Natal representam uma coisa só. Sem o menino Jesus o que seria do Natal? P: E Luca em sua vida? R: Não tenho o que falar, só a agradecer pelo fato de ter acreditado em mim. Incentivou-me a ser o que sou. Mesmo quando está longe, ouço a sua voz me aconselhando. P: Sei que você gostaria de conhecer a França e que estuda não apenas francês, como português. R: Estudo para estar preparado. Francês com a professora Maria Lúcia Vaz Guimarães, mas também português, pois tenciono escrever um livro.
Eliana Bento Pereira ratifica as palavras de Luca Vitali. Para a fonoaudióloga, tudo é extremamente difícil para Evilásio, mas jamais o artista desiste. “Há uma força descomunal nesse ser humano que não conseguiria sobreviver sem atenção diuturna. Procura retribuir carinhos com o amor que suas pinturas traduzem.”

Iluminada. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Observa-se que, para aqueles que superaram adversidades, geralmente a compensação acabará dando alento novo à vida. Para Evilásio, o impasse permanente está sempre a apontar ou para o naufrágio à espreita, ou para a absoluta impossibilidade física, com exceções da mente criativa e da tiara-pincel redentora. Para Evilásio, a hercúlea vontade de expor ao mundo a vocação artística, apesar dessa sofrida dependência, é inequívoca. A arte não trouxe a restauração física, tampouco a possibilidade do ir e vir. A pintura é para Evilásio a própria mensagem divina, a revelar ao homem a sua fraqueza ao lamentar-se seja qual for a situação. A paralisia de Evilásio que, paradoxalmente, tornou-o pintor e até digitador de um computador, é o sinal Superior dado a todos nós de que se amor e esperança houver, a redenção se dá. Evilásio não é apenas o ato de amor, mas também o estímulo vivo para os incapacitados físicos, a lição permanente para os que têm o privilégio de conhecê-lo.
Através do site www.projetoevi.org e do e-mail evicandido@gmail.com, pode o leitor ter acesso aos seus cartões de festas natalinas, aos calendários por ele idealizados e a sua pintura singular. Cenas do Youtube revelam parcela desse universo desconhecido por nós, razão de viver de Evilásio Cândido:
http://www.youtube.com/watch?v=dBBjr2SAeFU

Ponte. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Evilásio Cândido is a 33-year-old painter. What sets him apart from other artists is that he was born with brain paralysis and can only move his head and eyes. His severe disabilities make communication difficult, but he managed to express to the painter and graphic designer Luca Vitali his wish of learning to paint. It was so that Luca began to instruct him in the techniques of artistic painting, which he has learned with gigantic determination, working with the paintbrush attached to his forehead. This post tells a little of the story of this extraordinary human being, his thoughts, his art, his efforts to make something of his life, his refusal to give up, his permanent lesson of encouragement for those who have the privilege of knowing him.

A Pianista Zhu Xiao-Mei e os Segredos Desvelados

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Meus relacionamento com as pessoas eram puramente
animais, automáticos, maquinais…
Sim, eram de alguma maneira histórias de animais !
Que me compreendam hoje,
pois não me é mais possível contar todo o meu passado filosoficamente,
olhando do alto, com serenidade,
os bons velhos tempos de horror e de absurdos.
Agradeço ao céu ter-me tirado do inferno,
como se fosse o desenho indecifrável da Providência.

György Cziffra

Trabalha-se a argila para se fazer vasos,
mas é do vazio de seu interior
que depende o seu uso.

Lao-Tzé

Quantos não foram os artistas, escritores, intelectuais que viveram as situações as mais dramáticas em campos de concentração ou de “reeducação”. Os regimes dirigidos por títeres não têm clemência, e no intuito de sedimentar ideias totalitárias, tantas vezes proclamadas democráticas, impõem aos cidadãos as maiores agruras. Alexander Soljenítsin (1918-2008) denunciaria as repressões em campos de prisioneiros soviéticos, e o conjunto de sua obra, incluindo-se o Arquipélago Gulag, render-lhe-ia o Prêmio Nobel. Wladyslaw Spilman (1911-2000) escreveria a narrativa Morte de uma Cidade, décadas após reeditada com o título O Pianista. Conta a sua história nos guetos de Varsóvia durante a Segunda Grande Guerra e o seu instinto de sobrevivência. Roman Polansky dirigiria o premiado filme O Pianista a partir do dramático relato. György Cziffra (1921-1994), telúrico e extraordinário pianista húngaro conheceria durante longo período as maiores adversidades e o contato permanente com a morte em campos de prisioneiros nazistas e comunistas, relatando-os em livro (Des Canons et des Fleurs. Paris, Robert Laffont, 1977, 291 págs.). Lilly Krauss, notável pianista austríaca sofreria em campo de concentração nazista. O bailarino Li Cunxin narra também sua história plena de tribulações em Adeus, China – O Último Bailarino de Mao (Brasil, Fundamento, 2007, 400 págs.). Há uma tendência mórbida dos senhores da guerra nessa perseguição às artes, à liberdade de expressão, ao livre pensamento, às comunicações independentes, às ciências ou, paradoxalmente, ao incentivo ao desempenho excepcional de alguns como forma de propaganda política. Assim aconteceu no Terceiro Reich, na União Soviética, na China e em Cuba não apenas para intérpretes e bailarinos de exceção, como para atletas fantásticos. Entretanto nem todos tiveram a mesma sorte e sucumbiram aos horrores, como os músicos levados pelos nazistas ao campo de Terezin, ou os milhões deportados para a Sibéria, ou ainda aqueles destinados ao terrível paredón. Ditadores e seus acólitos estão sempre à espreita. Aguardam apenas a oportunidade. E, hélas, periodicamente ela reaparece. Todo um rancor que parecia extinto ressurge e cidadãos aparentemente normais tornam-se ferozes, a serviço dos títeres. Vítimas da Revolução Cultural na China de Mao Tsé-Tung pouco a pouco vão tendo a coragem de expor sofrimentos incomensuráveis.
Zhu Xiao-Mei é pianista chinesa. Há excepcionalidades em vários aspectos. Escreveu sua saga que vem somar às precedentes mencionadas (La Rivière et son secret. Paris, Robert Laffont, 2007, 330 págs.). Nascida em 1949, pertencia à família considerada de “má origem”, pois burguesa letrada. Já na infância, devido aos infortúnios provocados pelo regime comunista de Mao Tsé-Tung, sua família sofreria dificuldades. Pianista precoce, tem lá seus sucessos quando a estudar no Conservatório de Pequin. Aos 14 anos, já possui base sólida, mas uma brincadeira juvenil leva-a a júri coletivo. Vivia-se o período da terrível Revolução Cultural. As denúncias, estimuladas pelo regime, não perdoavam aqueles que se desviassem do Livro Vermelho de Mao, única leitura possível. Lavagem cerebral provoca uma sua carta em que se arrepende de ser indigna frente a Mao, traidora da Revolução, a entender serem seus pais de “má origem”. Zhu tinha apenas 14 anos! Incorpora a ideologia maoísta e torna-se, sempre temerosa, uma jovem revolucionária. Tem crises não reveladas publicamente, pois entendia que tudo teria de ser feito a seguir preceitos para que a Revolução Cultural vingasse, mas dúvidas quanto aos procedimentos a deixavam perturbada. Assiste a seus mestres – alguns deles idosos – serem humilhados e surrados no pátio do Conservatório pelos jovens da Guarda Vermelha. Entende, nesse turbilhão de incertezas e confusões interiores, que excessos estavam a ser perpetrados. Acusados de terem propagado a música ocidental, de J.S. Bach aos mais modernos, professores perderiam tudo e seriam desterrados para campos de reeducação. Outros suicidaram-se nesse período de desvario absoluto. Todas as partituras do Conservatório foram queimadas, pois traduziam a cultura ocidental decadente e, portanto, distante da classe proletária. Lembrar-se-ia “das execuções sumárias, dos cadáveres sobrepostos no anexo do Conservatório”. Com coragem, Zhu Xiao-Mei observa que houve longo tempo em que acreditou na Revolução, tão grande a pressão exercida. Encaminhada para campos de reeducação, permanece cerca de dez anos longe da família – dispersa em outros campos -, da prática da música e a passar as maiores agruras e humilhações, ainda a acreditar na Revolução. Colegas e outros estudantes partilharam momentos difíceis, onde não faltavam a denúncia coletiva diária e a leitura do Livro Vermelho de Mao, atividades realizadas após dura labuta nos campos agrícolas, quando imundos e fragilizados. Só após essas terríveis sessões o infortunado tinha direito à parca alimentação e à mínima higiene pessoal. E, numa declaração de amor à música, escreve “A Revolução Cultural estava a fim de nos tirar todo o sentido de humanidade e isso não foi possível. No fundo de nós mesmos existia um lampejo de humanidade, esse que os regimes totalitários que subestimam as potencialidades do homem, esquecem sempre, infelizmente para eles. É esse lampejo que a música trouxe de volta”. Comentaria: “Mao percebeu o poder da arte e principalmente da música sobre o povo. Ele sabia que os artistas eram perigosos, questionando sempre o real, querendo sempre mais liberdades. Esse o motivo para os atacar, a razão pela qual deixava sua esposa se apropriar da arte através de seus Yanbangxi. Na verdade, Mao considerava o saber em geral como perigoso: seu obscurantismo organizado, sistemático, extremista é testemunho.”
As vicissitudes sofridas pela pianista levaram-na a vários traumas que a acompanham. No último período em campo de reeducação conseguiu “burlar” incultos guardas e recebeu de sua mãe o seu velho piano da infância. Cordas quebradas eram substituídas por arames e J.S.Bach, Beethoven e outros, no dizer de Xiao-Mei, eram ouvidos pelas autoridades como se fossem música chinesa revolucionária. A ignorância deles, para resignado prazer da pianista, resultaria na possibilidade de estudar. Reiteradas vezes menciona a indecisão e a dúvida como integrantes de seu pensar. Ao sair da China para os Estados Unidos, depois de enormes tribulações, certezas em relação à música antagonizavam-se às dúvidas quanto à sobrevivência. Nesse país trabalhou como doméstica, faxineira em restaurante e mais outras atividades, a habitar em tantas casas de imigrantes que a acolhiam. A fim de obter o green card, casa-se por conveniência. Estuda em Boston, mas seu instinto leva-a a Paris. Obteria mais tarde, após difíceis tramitações, o passaporte francês. Hoje é reconhecida internacionalmente como pianista e professora do Conservatório Superior de Música e Dança de Paris. Seus pais e suas irmãs estão sempre em sua mente, nesses constantes deslocamentos. Retornaria à China mais de uma vez, mas com as salvaguardas da diplomacia internacional.
Quantos não são os momentos em que sente insegurança frente à vida prática? Num outro contexto, em muitas oportunidades comenta com ênfase que apenas a música livrou-a do naufrágio absoluto. O livro tem como epicentro repertorial as Variações Goldberg de J.S. Bach. A grande revelação. No entender de Zhu Xiao-Mei, trata-se da maior criação para teclado. Percorre o mundo a interpretá-la, entre tantas obras do repertório consagrado. Tão grande a empatia da artista frente à monumental composição, que se torna dignificante lê-la descrever emocionalmente da Ária às variações. Pormenoriza-se na última, Quodlibet e na reprise da Ária, quando Bach finaliza a obra. Dir-se-ia que Xiao-Mei percorre seu próprio caminho ideal, sem máculas ao descrever as Goldberg-Variationen. No Youtube-vídeos pode-se ouvir a grande criação do Kantor interpretada pela pianista chinesa. A partir da Ária, apresentada de maneira singular, pois imbuída da maior reflexão, capta-se parcela da profunda identidade de Zhu Xiao-Mei com as Goldberg… e com a vida. O gestual da pianista é econômico. Observa, a partir de conto chinês a respeito de um pintor e sua obra, a fim de exemplificar a inocuidade do gesto exagerado ao interpretar uma composição: “…ele pintou sobre o solo uma serpente de um realismo tal que o réptil parecia vivo. Uma pessoa ao passar pela rua, pisou na pintura e começou a gritar: ‘fui picado pela cobra!’ Os transeuntes se aproximaram para ver o que acontecera. Todos também pisaram exclamando: ‘Jamais vimos uma serpente tão bem pintada’! Logo, o povo conheceu a criação do artista. A fim de torná-la mais bela, o pintor colocou patas na cobra, mas ao perceberem a serpente assim configurada, os cidadãos disseram: ‘Que animal ridículo’! E o pintor caiu no esquecimento”. Em outra imagem significativa, a sugerir a introspecção frente à composição: “Para se ver o fundo de um lago, é necessário que a superfície da água esteja lisa e calma. Mais ela é tranquila, mais transparente é o fundo”.
A leitura de La Rivière et ses Secrets, ao revelar a perene insatistação da artista frente à perfeição e ao gestual inócuo refletido pelos holofotes, vem apresentar a essência essencial do que deveria ser entendido por interpretação sincera. Escreve: “Sinto-me incapaz de atingir a perfeição que eu sonho. Como tantos outros intérpretes, estou impregnada por essa impotência. Como Richter, que no final da vida diria ‘Eu não me amo’. A sabedoria seria certamente reconhecer que a perfeição não existe. Os chineses entendem bem esse axioma, quando introduzem um defeito num bordado ou na caligrafia, considerando que o defeito tornará a obra mais bela ainda. Os iranianos fazem o mesmo em seus tapetes para testemunharem que apenas Deus é perfeito”.
Zhu Xiao-Mei lega-nos um testemunho de fidelidade à música, sem jamais traí-la. Seu livro merece ser lido. O conteúdo de La Rivière et son Secret faz melhor compreender a força criativa da artista, a lutar no desespero, mas na confiança, contra a bestialidade humana. A obra foi traduzida para o português: O Rio e o seu Segredo (Guerra & Paz).

In this post I give my view of the book “La Rivière et Son Secret”, the amazing and true story of the Chinese pianist Zhu Xiao-Mei. We follow her as a young girl in China, her efforts to go on with her piano practice during the Cultural Revolution, the years in a working camp. In 1979 she managed to leave China for the US and today lives in Paris. Now internationally acclaimed, she is an example of a strong female character who never gave up her dream.

In Memoriam

Álvaro Guimarães e J.E.M. Gent, 1995. Clique para ampliar.

Eis onde estamos.
Para nós, em nossa vida e em nosso universo,
há apenas um acontecimento de monta: é a nossa morte.

Seria salutar que todos nos preparássemos para essa ideia
na claridade dos dias e na força da nossa inteligência.

Maurice Maeterlink

A inexorabilidade da morte e a dificuldade de nela pensar antolha-se-nos como grande barreira para entendê-la no momento preciso. Mors certa hora incerta é a única salvaguarda de que dispomos para esperar o instante final. Possivelmente, a negligência do homem frente à impermanência, concretude absoluta, torna-o despreparado para entender a morte, tanto espiritual como racionalmente. Os budistas, através da certeza dos renascimentos, aliviam sofrimentos, mal administrados na complexidade do mundo ocidental. O cristianismo, apesar de conceituações claras a respeito da morte, geralmente é mal interpretado nesse quesito pelos fiéis que enterram seus mortos. Há toda uma tradição enraizada que nos coloca indefesos quando o assunto é a finitude física. Bossuet (1627-1704), um dos maiores oradores sacros da história, já escrevia que “não é digno de um cristão revoltar-se contra a morte no momento em que ela se apresenta para o arrebatar”.

Caminho diário percorrido por Álvaro na Béguinage. Gent, 1995. Foto J.E.M. Clique para ampliar.

Álvaro Guimarães foi um amigo impecável. Músico, fixou-se em 1990 na Bélgica, Gent seu universo. Constituiu família e sua esposa, Katrijn Friant, é excelente regente coral e pianista. Tiveram três filhos: Mabel, Mariuga e Celso. Morava na cidade em uma tranquila Béguinage, comum na região flamenga, a conter vários edifícios. De cunho religioso, as Béguinages abrigavam no passado viúvas e solteiras. No aprazível recanto na Lange Violettestraat, Álvaro praticava música dia e noite, amando-a e a pensar nos outros, não apenas a tentar ajudar colegas na área musical, mas também contatando sociedades de concerto e organizando mesmo tantos eventos especiais. Como estudioso preparou o doutorado sob a orientação de Herman Sabbe. Era professor do Conservatório de Música de Gent. Revelou-se igualmente compositor de mérito.
Devo a Álvaro Guimarães minha primeira ida à Bélgica (vide Gent-A Flandres Rejuvenescida, 28/04/07). Em fins de 1994 procurou-me em São Paulo. Ficara impressionado com as composições de Henrique Oswald, que eu gravara em quatro LPs na década de 80, tencionando realizar um evento especial no Musiekconservatorium de Gent, dedicado unicamente às obras do compositor. Empenharam-se, ele e Katrijn, durante todo o ano de 1995 para a récita que se deu aos 18 de Novembro. Participei, como pianista, executando várias obras camerísticas e para piano solo. A Missa de Requiem foi magistralmente interpretada na segunda parte pelo coral Novecanto, sob a regência de Katrijn Friant. Era a primeira vez, após a morte do compositor em 1931, que todo um longo concerto com tantos participantes homenageava Henrique Oswald. Álvaro Guimarães exultou.
Nas primeiras idas à Bélgica, fiquei hospedado em sua casa, que respirava música, ao vivo ou através da rádio. Espírito inquieto, Álvaro partiu para projetos ousados. Foi ele o verdadeiro Embaixador da música brasileira na Bélgica, creio que o maior, assim como um imenso divulgador da música flamenga na Europa e no Brasil. Quantos não foram os músicos de nosso país por ele acalentados que atravessaram o oceano a fim de se apresentar em Gent, ou ter obras interpretadas? Professava admiração confessa pelas obras de Gilberto Mendes e Willy Correa de Oliveira, tendo sido idealizador e responsável pelo magnífico CD lançado na Bélgica unicamente com obras de câmara de Gilberto executada por músicos flamengos. Intérpretes e outros tantos compositores brasileiros tinham de sua parte a melhor acolhida, pois suas portas estavam sempre abertas.
Houve a fase de imenso trabalho para a fixação junto ao público do repertório recente belga e brasileiro. Ao administrar os concertos para o conjunto flamengo The Spectra Ensemble, de música contemporânea, não poupava esforços no sentido de tudo organizar. Foi o responsável pela construção de pontes extraordinárias, ligando Gent ao Festival Música Nova de Santos e às programações em São Petersburgo. Entusiasta, polemizava sempre com afinco. Quantas não foram as vezes em que, calorosamente, dialogamos sobre estéticas musicais. Divergíamos em muitos pontos, mas eu admirava a defesa que fazia de suas idéias arrojadas, sempre com raro brilhantismo. Concordávamos inteiramente quando o tema compreendia repertórios, pois nós ambos lamentávamos a mesmice das programações que ainda impera em tantas sociedades de concerto.
Foi o amigo que me apresentou aos excelentes compositores Boudwijn Buckinx e Lucien Posman, entre outros músicos. Buckinx escreveu, entre 1999-2001 Sete Estudos para o CD que eu gravaria para o selo De Rode Pomp, New Belgian Etudes, sendo que o nº 4 da série foi dedicado a Álvaro Guimarães (Clique para ouvir).
Traduziria do holandês para o português De Kleine pomo – of muziekgeschiedenis van het postmodernisme (O Pequeno Pomo ou a história da música do pós-modernismo, São Paulo, Giordano-Ateliê, 1998), instigante livro do compositor-pensador Boudwijn Buckinx. A meu convite, escreveu para a Revista Música da USP o importante artigo A Bélgica e a Recepção da Música Erudita Brasileira (vol.6 nºs. 1-2, Maio/Novembro 1995, págs. 150-169).
Compareceu a quase todos os meus recitais em Gent desde 1996. Era um prazer revê-lo, conversar e beber in loco, durante as discussões musicais, a cerveja considerada a melhor do planeta. Preferíamos a triplet, realmente excepcional.
Álvaro fumava muito. Diria excessivamente. Acometido por um câncer muito agressivo, lutou com todas as forças, heroicamente. Em Fevereiro último, compareceu ao meu recital no Parnassus, em Gent. Dias após almoçamos e houve troca de experiências quanto à administração do mal, mas já se podia apreender em sua fala resignada, mas com um fio de esperança, o drama que estava a viver.
Ao regressar ao Brasil, mantivemos um intercâmbio através de e-mails, ele relatando a evolução e o tratamento da doença, eu a encorajá-lo. Durante todo esse período, Álvaro era lembrado diariamente em minhas preces noturnas e matutinas. Não hesitei em comunicar o fato a ele. Ao receber de um amigo O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, de Sogyal Rinpoche, disse-me que a obra fazia-lhe bem. Realmente, trata-se de livro singular, pleno de sabedoria. Uma grande obra. Nos últimos meses, a religião foi-lhe reconfortante, e o livro, indicado pelo amigo, tem sido também minha leitura de cabeceira.
Um pouco antes de minha viagem a Portugal, Álvaro escreveu-me a dizer que os médicos tinham-lhe dado poucos dias de vida. Mas havia serenidade e resignação em seu e-mail, característico de alguém que encontrara a paz. Tenho a convicção de que a família e o livro mencionado foram decisivos. Ao regressar no começo de Junho, mais e-mails foram trocados. Acreditava que estava a se recuperar, pois ganhara peso e sentia-se melhor. A mensagem do dia 18 de Junho último confirmava esperanças, mas tudo a deixar nas mãos de Deus: “A máxima de minha mãe ainda é a melhor explicação, deixar com Deus aquilo que os médicos não conseguem, e seguir em frente. Obrigado pelas preces, agora e sempre.”
Ao telefonar ao amigo dias antes de minha viagem, Álvaro, completamente estruturado na Bélgica, citou Gonçalves Dias, dizendo: “Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá”. Não foi possível. Álvaro Guimarães morreu no dia 23 de Junho, cinco dias após nosso último contacto, sem concretizar o que almejava. O e-mail de sua dedicada esposa Katrijn, “Álvaro nos deixou”, abruptamente levou-me às lágrimas, pois já começara a conviver com suas esperanças. Duas pátrias Álvaro leva consigo indelevelmente, Brasil e Bélgica, países que amou.

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Álvaro Guimarães. Dignificou com o mais puro empenho a música brasileira no Exterior. Música multifacetada, de várias tendências. Disposto ao diálogo, entendeu igualmente que deveria se abrir para a música de outros povos. E o fez com dedicação. Uma personalidade que trabalhou sempre longe dos holofotes. Tem ele grande relevância para a cultura musical como um todo. Repouse em paz, meu querido amigo.

Comovente texto de Katrijn Friant. Clique para ampliar.

Álvaro Guimarães moved to Belgium when still a young musician. There he settled in Gent, married the pianist and choral conductor Katrijn Friant, raised three children and taught at the local conservatory. It was at his invitation that I gave my first recital in Gent in 1995, entirely dedicated to the works of the Brazilian composer Henrique Oswald. Like me, many fellow musicians crossed to ocean thanks to Álvaro’s efforts to promote our classical music in Belgium. He was the link between Gent and the New Music Festival in Santos and also the musical associations of St. Petersburg in Russia. It was Álvaro who introduced me to the great Belgian composers Lucien Posman and Boudwijn Buckinx, among others. Buckinx was the author of seven etudes of my CD ”New Belgian Etudes”. One of them he dedicated to Álvaro Guimarães, who has honored me with his presence in almost all my recitals in Gent. It was so last February, despite his failing health. After my return to Brazil, we kept in touch by e-mail. Though the doctor’s prospects for him were somber, he confessed he felt an urge to visit Brazil once more, quoting a passage of our famous poem “Canção do Exílio” (Song of Exile) written by Gonçalves Dias: “May God not let me die/without going back there”. But it was too late. The man with two homelands died last June 23 in Gent without fulfilling his last dream. The professional who, through his lifelong commitment to music and his enthusiasm in promoting composers and performers of his native country in his adopted country, was in my view the greatest ambassador of the Brazilian music in Belgium. May you rest in peace, my friend.