Navegando Posts em Personalidades

 

As Esperanças de um outro Polegar

A mente a guiar os atos das mãos.
Provérbio vietnamita

Pouparei o generoso leitor. Não exibirei as fotos da intervenção cirúrgica no meu polegar da mão direita, três dias após o recital no Instituto Dante Pazzanese. As da esquerda estão fixadas em blog anterior (vide Cirurgia da Mão – Rizartrose, 09/10/10). O problema também era o da Rizartrose.

A cirurgia do polegar esquerdo, realizada pelo ilustre cirurgião Prof. Dr. Heitor Ulson, alcançou os mais esperançosos resultados. Diria eu que, hoje, minha mão esquerda está como sempre, antes da evolução da Rizartrose que se instalou lentamente até o impasse. Só de lembrar que todas as minhas gravações no Exterior, desde 1995, foram precedidas por intensas doses de antiinflamatórios, causa-me estranha sensação. Se o polegar da mão esquerda está sem qualquer problema, o da direita, sobrecarregado neste último ano, trazia-me a presença diária da dor quando dos estudos pianísticos, pois, por instinto, levava-me à comparação. Sem as dores na região do polegar esquerdo, acentuaram-se – é mentalmente natural – os incômodos do polegar direito. Igualmente o recital do último dia 3, com obras de forte impacto, teve a tranquilizá-lo fortes doses de medicamentos. As radiografias, tiradas em meados de Maio, não deixavam dúvidas. O quadro atingira um limite e a cirurgia fazia-se necessária, sempre sob os cuidados do Dr. Heitor Ulson. Um pianista tem de pensar muitas vezes antes de escolher o cirurgião preciso. Lembro-me sempre, hoje com certa galhofa, de consulta realizada quando o mal estava a se instalar em meus polegares. “Especialista” em outra área aconselhou-me a parar com os recitais e as gravações. De maneira “segura” e sem rubor, observou: “O Sr. já tocou muito até hoje. Recolha-se e toque para si e para seus familiares”. Saí quase a correr ao ouvir vaticínio contra natura. E na realidade “especialistas” diariamente emitem diagnósticos que podem, até, ter consequências catastróficas.

A Rizartrose instala-se pouco a pouco. Sem contar fatores genéticos, na medida em que as causas não são abolidas, como o impacto dos dedos e dos polegares sobre o teclado em determinadas obras nas quais, in adendo, haja abertura excessiva das mãos, as cartilagens tendem à deterioração, e esse contato direto osso x osso torna o ato de tocar bem doloroso. O temor frente à primeira cirurgia, apesar de insistentes conselhos do Dr. Ulson desde a década de 90, fez-me sempre protelar a decisão. Os paliativos antiinflamatórios conseguiram “anestesiar” os polegares em desempenhos públicos e gravações que poderiam ser realizados em circunstâncias  muito dolorosas. Todavia, não utilizava medicamentos no dia a dia dos estudos pianísticos. Logicamente, outras são as gradações de intensidades, desde os sons menos intensos aos mais impactantes, durante o ato diário de tocar piano. Mas não houve um só dia, nesses 15 ou mais anos, em que a dor deixasse de ser minha “companheira”. E a decisão inalienável foi sempre adiada, até 2010. A recuperação total após a primeira cirurgia levar-me-ia à certeza da segunda.

Sentir segurança. No recital do dia 3 externei em público a minha convicção e confiança no cirurgião competente, presente ao evento. Doses fortes de antiinflamatório me dariam a efêmera garantia de não sentir dores durante a apresentação. E chegou o dia 6. Cirurgia delicada precedida de anestesia geral, mas a esperança como norte. Só de vislumbrar a ausência de poderosos medicamentos no futuro já é uma dádiva, sobretudo ao adentrar os 73 anos. Para este ano, as apresentações deverão privilegiar programas de menor impacto, pois seis meses são necessários para a plena recuperação. Todavia, riqueza repertorial permite a diversificação e a escolha, a depender das situações. A longa tournée em Portugal em Novembro deste ano terá, do compositor português nascido nos Açores, Francisco de Lacerda (1869-1934), as Trente-Six Histoires pour Amuser les Enfants d’un Artiste, com apresentação de datashow preparado pelo ilustre professor e musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso e mais desenhos do excelente Luca Vitali. Dois compositores de grande mérito escreveram obras a homenagear o grande músico açoriano: Eurico Carrapatoso e François Servenière, e essas criações serão apresentadas em première.

Se no post mencionado apresentei fotos da cirurgia, no presente apenas flash das mãos, quinze dias após a intervenção. Cicatrizes: a recente e a de 2010, esta concernente ao polegar da mão esquerda. Para os instrumentistas ficaria o depoimento a respeito de solução que se pode dar ao problema. Que não aguardem três lustros, como o fiz, e que busquem orientação precisa, sem confundir reumatologista ou ortopedista, com cirurgião da mão,  especialistas em áreas distintas. Há casos que apenas a cirurgia resolve.

Ficaria sempre o meu agradecimento ao Dr. Heitor Ulson, Prof. Dr. do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNICAMP, Coordenador da àrea de Cirurgia da Mão e Ex-Presidente da Associação Brasileira de Cirurgia da Mão. Como bem dizia a minha legendária professora de piano em Paris entre os anos 1958-1962: “Nada resiste ao estudo e à competência”.

For many years I’ve been suffering from rhizarthrosis, a chronic and progressive wear of the cartilage of the joint at the base of the thumb. The extreme exposure of my hands during piano practice made the surgery unavoidable. Last year I was operated on the left hand, with excellent results. Two weeks ago, on the right hand, once again by the hand surgery specialist Dr. Heitor Ulson. This post Is an account of the surgery and the post-surgery treatment.

Quando a Redescoberta é um Tesouro

Clique nas imagens para ampliá-las

Clique para ampliar.

Aqueles que se percam no caminho,
que importa ! chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
e até os mortos vão ao nosso lado.

José Gomes Ferreira (Jornada)

Foram tantos os posts em que o sonhador visualizou o horizonte, certo de que atrás da linha imaginária tesouros estavam a ser desvendados. É bem provável que o jovem que se apresentou no Teatro Municipal de São Paulo em 1962, após longo período a estudar em Paris, já estivesse convicto de que tínhamos um iceberg submerso a ser explorado. Entendeu todavia, ao tocar pela primeira vez no Brasil a magistral Sonata para piano em Sol Maior de Tchaikovsky, recados precisos. A crítica, publicada dias após em jornal renomado e escrita por um músico que o jovem respeitava e continuou a admirar, apontava para o porquê de se revelar obra bem sepultada. Esse fato apenas ratificou tendências que se acentuariam com o passar dos anos. Tantas foram as obras apresentadas – desconhecidas do grande público – a partir de então. O inusitado não modificaria a maioria das consciências habituadas à mesmice. O sonhador ainda acredita que um dia a pouca oxigenação repertorial seja sentida pelo público. De que maneira? Após tantas décadas, já não saberia responder. O sonho acalentado na década de 60 será perenemente individual, mas, tenuemente, projetos de intérpretes conscientes, que almejam a renovação, tornam-se realidades, inclusive na divulgação de compositores da contemporaneidade.
A senda trilhada tem seu desafio maior na desconfiança ou incompreensão da maioria. É muito difícil a mudança de mentalidades relativa ao repertório pouco frequentado do passado e ao do momento atual. A troca de hábitos não surge espontaneamente, tampouco à força. Será necessário muito mais. Glorificar o sacralizado é fundamental, mas jamais o único caminho. Até que haja a mescla como ato natural, sem falsa benevolência, por parte das sociedades específicas, empresários e intérpretes, visando ao convívio constante do tradicional com o repertório ignoto de nível altíssimo, viver-se-á a parcialidade e… o empobrecimento cultural.

JEM e Lopes-Graça. Foto e verso. Sintra, Castelo dos Mouros, 19/07/59. Clique para ampliar.

A nova digressão terá início neste mês de Maio em curso. As obras de Fernando Lopes-Graça já me fascinaram anteriormente, desde a primeira impressão, quando o Mestre nascido em Tomar convidou-me, no longínquo 1959, para um primeiro recital em Lisboa. Ofereceu-me duas peças que apresentei no recital: Em Alcobaça dançando um velho fandango, das Viagens na Minha Terra, e Dança Antiga, das Bagatelas. Os dois manuscritos autógrafos, que conservei com carinho, estarão a ser entregues pessoalmente pelo intérprete ao Museu da Música Portuguesa quando dos recitais em Cascais. Ficarão no lugar devido. O Professor Catedrático de Sociologia da Música na Universidade Nova de Lisboa, Mário Vieira de Carvalho já observava a respeito dessa imensidão que é Lopes-Graça: “Há sempre uma nova perspectiva que antes nos escapara, uma nova dimensão por descobrir. Expostas à sua própria apropriação pelos intérpretes e pelos ouvintes, revelam a cada passo facetas diferentes, num processo permanente de historicidade imanente. Não são conclusas, no sentido em que cada audição nos devolvesse aquilo que nelas reconhecemos como familiar. Pelo contrário: cada nova abordagem, sobretudo por um novo intérprete, faz delas outra coisa. Suscitam um processo inconclusivo e inesgotável de conhecimento. Eis o que faz a diferença em Lopes-Graça e que o torna, cada vez mais, com o decurso do tempo, um grande compositor, um grande nome da história da música”. Não seria a minha admiração crescente pela obra de Lopes-Graça essa ebulição que se processa a partir de um maior conhecimento de sua criação? Quão mais estudo suas composições, mais aumenta o meu fascínio pela construção musical do autor. Quão mais conheço sua imensa obra literária, mais entendo ser Lopes-Graça um dos grandes pensadores portugueses do século XX.
O projeto que resultou nessa digressão encerra obras basilares de Fernando Lopes-Graça: Cosmorame (1963), Música para Piano para Crianças (1968-1976), a integral das Músicas Fúnebres (1981-91) e Canto de Amor e de Morte (1961). Já apresentara Cosmorame em 2009 durante a tournée por Portugal. Estará presente no álbum duplo de CDs que estarei a gravar na capela de Sint-Hilarius, em Mullem, na planura flamenga, entre os dias 13 e 15 de Maio, e que conterá as outras três obras mencionadas. Quanto às Músicas Fúnebres e Canto de Amor e de Morte, mantêm-se inéditas até o presente. Brevemente, a conferência que apresentarei em quatro cidades portuguesas, pormenorizando-me nos processos criativos de Lopes-Graça na elaboração do repertório em questão, estará à disposição no item Essays do site. Comunicarei aos leitores quando da inserção. Todavia, o texto de 2006, Piano sem Fronteiras, publicado on line pela Fundação Gulbenkian de Lisboa, encontra-se nos Essays.
O compositor, regente, pianista e escritor teve corajosa posição política durante todo o salazarismo, fato este que o levou a várias situações complexas. A sua não posse junto ao Conservatório Nacional devido à posição ideológica, a insistência em apontar totalitarismos, as canções de protesto, a militância política, as passagens pelas prisões do regime, o ter sido monitorado pela PIDE – Polícia do Regime -, todos são episódios que dimensionariam a criação composicional de Lopes-Graça. Sob outra égide, teve sempre a liberdade de escolher seus credos musicais. Elegeu seus compositores preferidos e, entre estes, Bela Bártok e Stravinsnky são importantes. Amou o povo como poucos, a preferenciar aquele habitante da aldeia e seu cancioneiro, os folguedos populares e as manifestações religiosas das comunidades campesinas. Dir-se-ia que o abstrato que provoca forte impacto e o paisagismo físico-espiritual frequentam o pensar de Lopes-Graça. A dimensão universal viria dessa fusão absoluta das tendências musicais existentes, mais o seu interior enriquecido pelos acervos que a vida lhe proporcionou.

Desenho de Luca Vitali. Maio, 2010. Clique para ampliar.

Interessou-me, após a gravação para o CD Viagens na Minha Terra de 2003 para o selo Portugaler, em que constavam unicamente obras de Lopes-Graça, essa atração pela morte, uma das fixações. Considere-se que duas das obras que serão apresentadas em primeira audição, Canto de Amor e de Morte, um ápice na criação portuguesa de todos os tempos, e a integral das Músicas Fúnebres, nove tributos a amigos que partiram, apresentam características a deixar evidente um idiomático técnico-pianístico do compositor, fixado, em parte, em seu de profundis desde os anos 30. O leitor poderá ouvir Três Epitáfios de 1930 ao clicar nos links no final do texto. O tríptico já não seria uma antevisão da mors certa hora incerta? Gravei-o em Leiria para o CD mencionado do selo Portugaler. Intriga o terceiro epitáfio, Para o Autor. Cosmorame , em suas 21 peças, torna bem transparente a intenção de Lopes-Graça de ver a união dos povos. Música de Piano para as Crianças é a síntese da síntese de um piano voltado ao miúdo em seus primeiros passos.
Atravessar novamente esse Atlântico e novamente poder estar no interior da Capela Sint Hilarius, sob a supervisão do incomparável engenheiro de som Johan Kennivé, e deixar registradas essas quatro composições de Lopes Graça gratificam as décadas de dedicação amorosa à música. Sint-Hilarius várias vezes percorreu outros posts. É a magia incrustada na Bélgica flamenga. Deslocar-se após as gravações para Portugal, percorrendo-o do Minho ao Algarve a interpretar essas quatro criações do Mestre de Tomar, torna-se raro privilégio.

On my 2010 concert tour in Portugal in May-June I’ll visit Lisboa, Évora, Tomar, Cascais, Lagos, Portimão, Lagoa and Braga. The recitals will present works by one of the main Portuguese composer of all times, Fernando Lopes-Graça: Cosmorame (a series of piano pieces fostering the friendship among countries), Música de Piano para as Crianças (Piano Music for Children), and the world premiere of Canto de Amor e de Morte (Song of Love and Death) and Músicas Fúnebres (Funeral Music).

Clique para ouvir os Três Epitáfios, de Fernando Lopes-Graça, com J.E.M. ao piano:

1. Para um céptico
2. Para uma donzela
3. Para o autor

Artista da Hiper-Super-Ação

Você não se sente livre sendo filho,
você não se sente livre sendo mãe.
Livre é um caminho crítico,
por felicidade na liberdade.

Luca Vitali

Mestre Luca Vitali e Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Em posts anteriores, referi-me ao emprego inadequado de certos termos. Outros mais, à força da reiteração, banalizam-se e não mais correspondem à sua real acepção. Incluiria nessa categoria a palavra superação. Igualmente mencionada ad nauseam em propagandas e nos meios de comunicação, raras vezes adequa-se ao verdadeiro sentido que deveria ter. É um fato com que nos deparamos a todo instante. Em qualquer das atividades humanas há aqueles que conseguiram a superação após vicissitudes de toda a ordem, assim como há a sua “aparência” em tantas mais figuras divulgadas pela mídia. Todavia, legião de verdadeiros heróis poderia ser citada. Felizmente esta existe, a fim de que exemplos dignificantes sirvam como faróis para a trajetória do homem. Já mencionei no post anterior Edson Dantas, bi-campeão da Maratona de Nova York na categoria amputados, como cidadão forjado no destemor e que soube superar o que poderia parecer impossível.
Há contudo uns poucos, raríssimos, que ultrapassam a aplicação do termo superação. Incapacitados para a vida e dependendo inteiramente de ajuda diuturna, representam esses seres extraordinários exemplos para todos aqueles que, pelos mais variados pretextos, tendem a viver na lamentação. Quando a fé inabalável – a que remove montanhas – tem a alimentá-la a força criativa sedimentada pelo tempo, surge o herói verdadeiro, o demiurgo que encontrará seu espaço e será paradigma para todos os mortais. Ergue-se sob a égide da Hiper-Super-Ação, figura acima das tão decantadas superações, válidas, inquestionáveis, mas apenas superações.

Evilásio e seu universo. Clique para ampliar.

Através de relatos pungentes de Luca Vitali, habituara-me a ouvir a saga de Evilásio Luiz Cândido, um vitimado pela paralisia cerebral. No inícío dos anos 90, o adolescente, assistido pela Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), com extrema dificuldade externou a Luca Vitali o seu desejo de pintar, de mostrar ao mundo as aspirações acalentadas às quais o destino parecia opor-se. Foi Luca que, ao conhecer o drama de Evilásio, indicou-lhe a senda da luz, aquela que, ao ser percorrida, pode explicar a passagem do homem pelo planeta. Torná-lo exemplo. Apreendeu o mestre que a vocação de Evilásio seria a de pintar, sonho aparentemente irrealizável. Mas como ajudar alguém que em cadeira de rodas, sem poder fazer uso dos membros superiores e inferiores, com sérios problemas de coordenação da fala e de outros movimentos corporais, inclusive da cabeça e da boca, a encontrar realização na pintura? A AACD já adaptara uma tiara, a fim de que Evilásio pudesse escrever. Luca adaptou à tiara um pincel. Isso se deu em 1992. Magia. Tiara do desvelamento, possibilidade única para que o imaginário rico de Evilásio pudesse vir à superfície. Tiara da esperança, da concretização da luz. Pincel, instrumento a fixar os mistérios da mente. Houve momentos de desalento por parte do discípulo, não relacionados ao desejo final, mas às próprias dificuldades sobre-humanas do aprendizado. A técnica lhe foi ensinada com paciência e relação de afeto: planos, cor, perspectiva a partir dos tons claros aos escuros, entrada da luz e das sombras, a noção das distâncias, harmonia, dimensões dos quadros, do pequeno à grande tela, misturas, limpeza de pincéis. Evilásio dedicou-se com afinco, aprendeu o métier e hoje, amparado pela dedicadíssima mãe Dilza – entre outras tarefas, é ela que diariamente carrega o filho ao subir os 12 degraus que levam ao quarto de dormir -, pela irmã Juliana e a ter como verdadeiro anjo protetor Eliana Pereira Bento, carinhosa especialista a cuidar dessa difícil comunicação de Evilásio com o mundo que o circunda. Eliana é fonoaudióloga e tem acompanhado o desenvolvimento de Evilásio há longos anos, não apenas a solucionar problemas do cotidiano, mas também estabelecendo contatos com os que se interessam por arte. Frise-se o apoio que o artista recebe até o presente do Núcleo Assistencial Irmão Alfredo.

Flora. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Luca confessou-me que jamais interveio nos desideratos do discípulo. Ele é o mestre a guiá-lo, tão somente. A temática criativa de Evilásio passaria a brotar como o magma das profundezas da terra, e o interior singular do pintor tem emergido em deslumbramento da cor, em apelo à vida e à compaixão. Como não pensar no Douanier Rousseau (1844-1910) e suas florestas tropicais, fauna e flora, oriundas da imaginação?

Primavera. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Impressionaram-me pinturas brotadas não apenas do espírito criador, mas de uma reflexão concernente à vida, seus embates e conflitos, mas igualmente dessa incessante busca da pureza do espírito e da luz como almejo final. Se pinturas como Flora e Primavera traduzem um universo que o homem teima em extinguir; se Recanto leva-o a pensar num abrigo tranquilo para um Evilásio morador em casa simples e prestes a vê-la demolida pelas máquinas impiedosas da modernidade; se Israel, representado pela árvore enroscada por galhos que a sufocam, estaria a lembrar um país sem paz duradoura, mercê de intolerâncias; uma outra árvore, aquela que conduz o olhar à luz em Iluminada, não seria a confissão desse artista que tem como fim único a aspiração do bem e do belo? Não representaria a Ponte, a transição do “impossível” a almejar a plena humanidade?

Recanto. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Quis conhecer Evilásio. Sua figura, constantemente exaltada com emoção por Luca, contagiou-me. O amigo agendou esse encontro. Ao leitor diria que Evilásio é um ato de fervor. Entrevistei-o, a questionar-lhe os porquês da opção, a relação com a vida, possíveis desencantos pelo impedimento quase que absoluto de participar do cotidiano de todos. Suas necessidades básicas têm de ser acompanhadas. Tem alma pura e seus sentimentos revelam grandeza de espírito. Evilásio ultrapassa qualquer julgamento a respeito da superação. É ele essa encarnação da Hiper-Super-Ação, pois as vicissitudes imprimiram em seus 33 anos de existência o sentido do espírito solidário, do amor vertido nesse pincel preso à tiara que pouco a pouco traduz o que sente em cores vivas, a natureza em festa ou em paz, os miúdos em seus folguedos. Deles participa na imaginação e no olhar, sem jamais ter tido a oportunidade de fazê-lo fisicamente. Sente ternura pelas crianças. Ama a vida e a humanidade, sem quaisquer barreiras. Um iluminado.

Israel. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Fiz-lhe muitas perguntas. Respondeu a todas, apesar da complexidade da fala. Pergunta: O que é liberdade para você? Resposta: É poder ir a qualquer lugar sem sair de minha cadeira de rodas. Apesar de todas as dificuldades, sou livre e viajo quando estou pintando e procurando as cores, que são a minha luz. P: Luz, indaguei? R: Sim, luz é coisa de Deus e eu me sinto um iluminado ao fazer o que mais amo. Realizar tudo sem medo de ser feliz e de poder sonhar. P: O Evilásio gosta da natureza e das crianças. Qual a razão dessas preferências? R: Amo a natureza, pois os grandes espaços me dão o sentido da vida e da liberdade. Amo as crianças, pois participo interiormente de suas brincadeiras. P: A natureza parece estar sempre em harmonia nos seus traços. Como você a recria? R: Eu sei que ela está lá. Televisão e livros mostram imagens que nunca conhecerei. A natureza que eu pinto, árvores, campos, é aquela que está dentro de mim. P: Há uma quase fixação em cenas do Natal, como demonstram seus cartões postais, que propiciam parte de sua subsistência. Seria fruto de sua infância difícil? R: Jesus e Natal representam uma coisa só. Sem o menino Jesus o que seria do Natal? P: E Luca em sua vida? R: Não tenho o que falar, só a agradecer pelo fato de ter acreditado em mim. Incentivou-me a ser o que sou. Mesmo quando está longe, ouço a sua voz me aconselhando. P: Sei que você gostaria de conhecer a França e que estuda não apenas francês, como português. R: Estudo para estar preparado. Francês com a professora Maria Lúcia Vaz Guimarães, mas também português, pois tenciono escrever um livro.
Eliana Bento Pereira ratifica as palavras de Luca Vitali. Para a fonoaudióloga, tudo é extremamente difícil para Evilásio, mas jamais o artista desiste. “Há uma força descomunal nesse ser humano que não conseguiria sobreviver sem atenção diuturna. Procura retribuir carinhos com o amor que suas pinturas traduzem.”

Iluminada. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Observa-se que, para aqueles que superaram adversidades, geralmente a compensação acabará dando alento novo à vida. Para Evilásio, o impasse permanente está sempre a apontar ou para o naufrágio à espreita, ou para a absoluta impossibilidade física, com exceções da mente criativa e da tiara-pincel redentora. Para Evilásio, a hercúlea vontade de expor ao mundo a vocação artística, apesar dessa sofrida dependência, é inequívoca. A arte não trouxe a restauração física, tampouco a possibilidade do ir e vir. A pintura é para Evilásio a própria mensagem divina, a revelar ao homem a sua fraqueza ao lamentar-se seja qual for a situação. A paralisia de Evilásio que, paradoxalmente, tornou-o pintor e até digitador de um computador, é o sinal Superior dado a todos nós de que se amor e esperança houver, a redenção se dá. Evilásio não é apenas o ato de amor, mas também o estímulo vivo para os incapacitados físicos, a lição permanente para os que têm o privilégio de conhecê-lo.
Através do site www.projetoevi.org e do e-mail evicandido@gmail.com, pode o leitor ter acesso aos seus cartões de festas natalinas, aos calendários por ele idealizados e a sua pintura singular. Cenas do Youtube revelam parcela desse universo desconhecido por nós, razão de viver de Evilásio Cândido:
http://www.youtube.com/watch?v=dBBjr2SAeFU

Ponte. Pintura de Evilásio Cândido. Clique para ampliar.

Evilásio Cândido is a 33-year-old painter. What sets him apart from other artists is that he was born with brain paralysis and can only move his head and eyes. His severe disabilities make communication difficult, but he managed to express to the painter and graphic designer Luca Vitali his wish of learning to paint. It was so that Luca began to instruct him in the techniques of artistic painting, which he has learned with gigantic determination, working with the paintbrush attached to his forehead. This post tells a little of the story of this extraordinary human being, his thoughts, his art, his efforts to make something of his life, his refusal to give up, his permanent lesson of encouragement for those who have the privilege of knowing him.