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Estudo V Die Reihe Courante

Jorge Peixinho. Foto: José Manuel. Clique para ampliar.

Como su vida – la biografia de Peixinho
es como uma apasionada, confusa y contradictoria novela -,
sus composiciones alternan
claridades deslumbrantes y dramáticas tinieblas.
Esperamos su resurrección.

Ramón Barce

A amizade com Jorge Peixinho (1940-1995) data dos anos 80. A meu pedido, o grande compositor português já escrevera Villalbarosa, que constou de um caderno em homenagem a Villa-Lobos (1887-1959), no ano do centenário de seu nascimento, e publicada pela Universidade de São Paulo, com mais outras nove obras específicas de vários compositores, como tributo ao nosso notável músico.
A fazer parte da coleção que iniciei em 1985, solicitando a compositores do mundo inteiro criações para um extenso arquivo de Estudos representativos para piano, Jorge Peixinho escreveu em 1992 o Estudo V Die Reihe-Courante. Tão significativo se mostrava, devido aos ingredientes inusitados e renovadores utilizados por Peixinho, que pedi ao saudoso amigo um ensaio a respeito, publicado na Revista Música da USP e mais tarde no livro Jorge Peixinho – In Memoriam (Lisboa, Caminho da Música, 2002). A minha contribuição no livro encontra-se no item Essays de meu site.

Jorge Peixinho apresenta J.E.M. Recital no Conservatório Nacional em Lisboa. 03 de Fevereiro de 1992. Clique para ampliar.

O Estudo V Die Reihe-Courante é, antes de tudo, uma obra-prima. Nele, o compositor aplica em profusão elementos de sua vasta gama escritural. Material tradicional, aleatório, ambos mesclados, clusters em glissandos vertiginosos, escalas cromáticas com intersecções, movimentos assimétricos, trinados e tremolos e, a preponderar, a série, palavra que designa a sequência dos doze sons cromáticos existentes em uma oitava, aplicação técnica composicional que seria dogma durante tantas décadas para autores a partir dos primeiros decênios do século XX e que surgia numa tentativa de substituir a antiga escala diatônica e seus graus diferenciados, entendida esta, pelos proponentes da série, como exaurida. Jorge Peixinho escreve sobre a série: “Finalmente, e acima de tudo, é de assinalar a presença constante e quase avassaladora da série (Die-Reihe), constituindo esta o núcleo, a raiz e a fonte primacial da obra, ao mesmo tempo que assume uma função emblemática e simbólica. E se considerarmos também metaforicamente a série como uma imagem (visível, reconhecível e projetável em mil reflexos), então poderemos transpô-la ainda para uma dimensão iconográfica”. É sobretudo o rico tratamento dado à série em suas múltiplas aparições no incomensurável todo da escrita que proporciona ao ouvinte o alumbramento. Die Reihe-Courante tem esse último termo que remonta à Courante das suítes barrocas: “tal como a corrente de um rio que flui e se espraia, tal como uma corrente de laços encadeados e interligados”, como bem afirma Jorge Peixinho.
Na tournée a cargo de nós ambos, realizada em 1994 pelo Brasil, um pouco menos de um ano antes de sua morte, ele apresentando obras de Filipe Pires, Clotilde Rosa e as de sua lavra, e eu algumas de suas criações e a extraordinária 5ª Sonata de Lopes-Graça, pude observar a riqueza quanto ao emprego da pedalização. O Estudo V é igualmente uma magnífica criação no que se refere à utilização dos pedais. No texto, publicado no livro citado, já observara a virtuosidade do pianista-compositor quanto ao emprego dos pedais, a buscar unicamente o universo das reverberações sonoras. O resultado mostrava-se surpreendente.
Desde 1992 apresento Die Reihe-Courante. É impossível ficar-se indiferente ao magistral Estudo de Jorge Peixinho. Um dos nomes referenciais da composição contemporânea em Portugal, Eurico Carrapatoso escreveu-me após o recital na Academia de Amadores de Música em Lisboa: “Queira saber que a comoção de o ouvir e de ouvir os meus mestres Jorge Peixinho e Lopes-Graça através de si causaram uma memória indelével”.
Se os comentários dos ouvintes focalizam preferencialmente a estrutura da obra e seus resultados sonoros, a leitura que do Estudo fez a excelente gregorianista Idalete Giga fugiu a todos os ditames. Confessou-me que custou a dormir após a audição de Die Reihe-Courante no recital em Évora, tamanho o impacto causado pela composição que finalizava as apresentações. Escreveu um poema. Traduz a poesia a interpretação de alma sensível ao torrencial Estudo V. Transcrevo-o, após a gentil autorização da autora:

Ars longa vita brevis

Veloz cascata
arrastando
fios de esperança
entrelaçados
em laivos de angústia
e transparentes
ilusões

Alma inquieta
correndo
desnudada
bebendo a
pura loucura
no vazio
do Tempo

Morte anunciada
nas levíssimas asas
da Libertação
obra inacabada
vida incumprida
dor estilizada
escondida
numa doce
e amarga solidão

Fragmento do Estudo V Die Reihe-Courante de Jorge Peixinho. Clique para ampliar.

Que Die Reihe-Courante, assim como outras composições de Jorge Peixinho e de tantos importantes autores contemporâneos portugueses, como Clotilde Rosa, Filipe Pires e Eurico Carrapatoso que muito têm feito pela Música em Portugal, penetrem cada vez mais acentuadamente no repertório dos pianistas. Há a necessidade imperiosa dessa divulgação que, felizmente, está em ascensão. A gravação não profissional, mas plena do espírito de colaboração, realizada pelo dileto amigo Alexandre Branco Weffort durante a apresentação de Die Reihe-Courante na Academia de Amadores de Música em Lisboa, no dia 26 de Maio último, dará ao leitor e ouvinte a possibilidade de conhecer essa obra rigorosamente singular.

J.E.M. a interpretar Die Reihe-Courante. Tomar, 7 de Maio de 2009. Foto: Ludovico António Alves Rosa. Clique para ampliar.

Clique aqui para ouvir Estudo V Die Reihe-Courante, de Jorge Peixinho (1940 – 1995), na interpretação de José Eduardo Martins. Gravação ao vivo realizada na Academia de Amadores de Música, Lisboa, em 26 de Maio de 2009.

This post gives my view of the work “Estudo V Die Reihe-Courante” by the Portuguese composer and my dear friend Jorge Peixinho (1940-1995). With a variety of compositional techniques, I personally consider this etude a masterpiece and it has been part of my repertoire since it was written in 1992. By selecting the link at the end of the post, readers my listen to my performance of “Estudo V Die Reihe Courante” last May at the Academia de Amadores de Música in Lisbon.

A Permanência Através de Horizontes Desbravados

Felicja Blumental e J.E.M. 1955. Foto José da Silva Martins. Clique para ampliar.

E mar vai em vôo aberto
já pássaro aventureiro
para as descobertas.

Maria Isabel Oswald Monteiro

Os intérpretes que perduraram através dos tempos têm características bem próximas quanto à freqüência repertorial. Compositores foram privilegiados, a partir de tendências de cada instrumentista. Afinidades, escolas onde estudaram, países de origem, aspectos sociais e culturais, raça, todos são fatores que tendem a determinar orientações que se consolidam através da carreira do intérprete.
Se considerarmos o século XX, talvez o grande século do piano, verificaremos que a grande maioria dos pianistas que permaneceram na história interpretaram basicamente o chamado grande repertório tradicional. Agentes ou empresários, público, comparações influenciaram essa constância. Exceções existiram, a tornar mais significativa a continuidade post mortem de pianistas que entenderam que caminhos outros estavam a apontar horizontes absolutamente inéditos. A divulgação intensa dessa categoria de pianista poderia ocorrer, valorizando sensivelmente aqueles poucos que persistiram pelas sendas do repertório qualitativo esquecido e que hoje são lembrados através da competência exercida e da necessidade de se conhecer a produção extraordinária do passado, que ficara submersa por propósitos tantas vezes estranhos.
Em posts anteriores focalizei dois pianistas exemplares que primaram pela ação repertorial inusitada, apesar de terem perpassado parte considerável do repertório tradicional (vide Marcelle Meyer – A Redescoberta Merecida, 06/03/07 e Jean Doyen – A Interpretação Inefável, 31/08/07). A curiosidade, nos casos citados, fruto de ação voluntária, sem a mínima interferência de agentes voltados ao lucro, resultou, após o desaparecimento dos ilustres intérpretes, no redescobrimento, que hoje nos espanta, de acervo valiosíssimo da criação para piano. Revelou-nos ainda a inteligência desses instrumentistas na escolha seletiva, pois nesse repertório pouco freqüentado há muita obra sem interesse.
O centenário de nascimento de Felicja Blumental, nascida em Varsóvia aos 28 de Dezembro, deve ser comemorado. Trata-se de uma das grandes damas do piano do século XX. Estudou no Conservatório da cidade com professores importantes como Zhigniev Drzewiecki, Karol Szymanowski e Josef Turczynski. A adversidade oriunda da 2ª Grande Guerra acabou trazendo-a ao Brasil, onde permaneceu alguns anos. Tornou-se cidadã brasileira, realizou extensas tournées pela América Latina, regressando posteriormente à Europa, a continuar sua esplêndida carreira. Faleceu no dia 28 de Dezembro de 1991 em Tel Aviv. No ano de 1999, seu nome seria definitivamente incorporado ao Festival de Música de Tel Aviv, promovido pelo Museu de Arte da cidade israelense.
Felicja Blumental é uma dessas intérpretes maiúsculas, que soube entender todos os períodos. Se foi pianista a apresentar largamente o repertório tradicional, entendeu outra mais a sua missão e redescobriu autores, estimulou compositores no sentido de criarem obras para que apresentasse em público, privou da amizade de músicos e pintores ilustres, o que revela a essência de sua rica personalidade cultural. Suas gravações dos Cinco Concertos para piano e orquestra de Beethoven e das Mazurkas de Chopin atestariam sua competência. Gravou sessenta concertos para piano e orquestra, sendo que seus registros fonográficos daqueles compostos por Czerny, Field, Ries, Paisiello, Stamitz, Hummel e Hekel Tavares testemunham a freqüência ao repertório inusitado. Villa-Lobos dedicou-lhe seu 5º Concerto para piano e orquestra, Krzysztof Pendereki a Partita para cravo e orquestra, Witold Lutoslawski orquestraria suas Variações sobre um tema de Paganini para a pianista, que as apresentou em primeira audição. Destaquem-se igualmente as interpretações de obras para piano solo de autores pouco visitados: Clementi, Kuhlau, Viotti, Hoffmeister, Rimsky Korsakof (Quintetos com piano) e tantos outros.
Nos anos 50, a ilustre pianista freqüentou várias vezes a casa de meus pais. Sempre acompanhada de seu marido, Markus Mizne, Felicja Blumental encantava-nos, após o jantar, com a apresentação de algumas peças de seu repertório. Fascinava-me o seu tocar elegante, jamais buscando efeitos virtuosísticos vazios. João Carlos e eu tocávamos obras que estávamos a estudar e, após, Blumental tecia comentários de rara competência. Bem mais tarde, entendi sua mensagem de 1º de Agosto de 1954 em português fluente, deixada naquilo que denominávamos “livro de ouro”, depositário de outros depoimentos mais de notáveis artistas e que me foram tão encorajantes ao longo da trajetória. Meu irmão e eu conservamos os nossos livros. Escrevia ela nas minhas páginas que “ o exibicionismo aniquila a Arte verdadeira”. A sua execução buscava a beleza do som: “Beleza não se aprende, pode-se aperfeiçoá-la”, mais uma das frases de seu escrito. Outras mais, relativas à interpretação do jovem que eu era, preconizavam conceitos que me acompanham até hoje. Quando de meu recital aos 10 de Dezembro de 1954 no Teatro Colombo em São Paulo, lá estava a insigne artista a contemplar o estreante com um desenho realizado durante o evento. Guardo-o com o carinho devido. Meses antes retratara João Carlos quando de sua primeira apresentação no mesmo local. Mais honrado fiquei ao receber Felicja Blumental Portraits, editado pelo The Felicja Blumental International Music Festival at the Tel Aviv Museum of Art em Maio de 1999, com retratos da pianista realizados por artistas como Tsugouharu Foujita, Juan Pons, Kees Van Dongen, Erwin Dom Osem, Rémusat, Mané-Katz, Michonze, entre outros. Por sua vez, traçou ela em desenhos firmes Arthur Rubinstein, J. Heifetz, Oskar Kokoschka, Picasso, Chagall, Pendereki e outros ilustres amigos. Essa faceta de Felicja evidencia a imensa generosidade da artista.

Felicja Blumental, desenho de J.E.M. com esferográfica vermelha.10/12/54. Clique para ampliar.

Certa noite em que veio com Markus Mizne jantar em casa de meus pais, ofereceu-me um LP gravado em Londres para o selo Decca, quando pela primeira vez ouvi obras de Carlos Seixas, o notável compositor barroco conimbricense. Dela receberia igualmente as partituras dos cravistas portugueses. Sua interpretação absoluta ao piano impressionaria o redescobridor de Carlos Seixas e um dos maiores defensores do cravo, Macarius Santiago Kastner, que escreveria em 1953: “Fiquei encantado ao encontrar em Felicja Blumental a maravilhosa intérprete dos Cravistas Portugueses, que executa essa música com a real compreensão de estilo, com a alma e grande entendimento do som e da proporção”. É surpreendente que o notável Kastner se tenha submetido ao fascínio da interpretação ao piano de um repertório ainda reivindicado na época calorosamente pelos adeptos do cravo. Tão forte foi o impacto que aquele LP me causou que em 2003 gravaria na Bélgica, igualmente ao piano, dois CDs inteiramente dedicados às sonatas de Seixas. À Felicja Blumental prestei publicamente minha homenagem de gratidão quando de meu recital na Biblioteca Joanina em Coimbra, nas comemorações do tri-centenário de nascimento de Seixas em Junho de 2004.

Soirée Musical em São Paulo, 1954. Em pé, da esq. p/ dir.: Magda Tagliaferro, Madalena Lébeis e Felicja Blumental. Foto de meu pai José da Silva Martins. Clique para ampliar.

Louve-se a atitude da Concerto – Guia Mensal de Música Erudita – ao oferecer aos seus assinantes o CD Música Portuguesa com execuções de Felicja Blumental, integrando a série Música de Concerto de Clássicos (www.concerto.com.br). A organização dispões de outros CDs da intérprete. Destaque-se igualmente o empenho de sua filha, a cantora Annette Celine, radicada na Inglaterra, que tem feito revelar aos ouvintes as inexcedíveis interpretações da mãe ilustre (www.branarecords.com).

CD Música Portuguesa, pianista Felicja Blumental. Kees Van Dongen, óleo. Clique para ampliar.

Felicja Blumental continuará a ser lembrada e a servir de exemplo, a demonstrar que através da inteligência e da fina sensibilidade pode o intérprete conhecer caminhos novos, descortinar horizontes insondáveis antes, assim como, na busca do inusitado, tornar-se realmente o artista a desempenhar a missão integral.
Meus agradecimentos à Annette Celine, por ter generosamente autorizado a inserção neste post de faixa do mencionado CD Música Portuguesa, contendo a bela interpretação de Felicja Blumental da Sonata em fá menor de Carlos Seixas.

Clique para ouvir Felicja Blumental ao piano, tocando Carlos Seixas: Sonata em fá menor.
Faixa extraída do CD “Felicja Blumental – Música Portuguesa”, Clássicos Editorial MC009, lançado pela Revista Concerto.

This year we celebrate the birth centennial of Felicja Blumental (1908-1991), one of the most accomplished pianists of the 20th century. Born on 28 December in Warsaw, Poland, she left Europe shortly before the outbreak of World War II to escape the growing anti-semitism and settled in Brazil for some years, becoming a Brazilian citizen. In the early 1950s she returned to Europe, where she continued her brilliant career. I was fortunate to know Felicja personally. In the 1950s she was a frequent guest at my father’s home in São Paulo. My brother João Carlos and I, teenagers at the time, listened in silent awe to her elegant and restrained performances and she was generous to listen to the two piano students, leaving her comments in the visitors’ book (our so called “golden book”). I still keep it with her wise and encouraging words written in fluent Portuguese. What fascinates me more with Felicja Blumental is her ability to choose from various musical periods. While she was greatly admired for her interpretation of the conventional repertoire, she also recorded many seldom played concertos and solo piano pieces of a remarkable diversity of composers, contemporary works – many written specially for her – of notable 20th century musicians, Spanish and Portuguese Baroque composers. A true pathfinder, surveilling and fostering the piano literature from the past and the present. On one occasion in my father’s house she offered me a LP she had recorded in London with sonatas by the Portuguese Baroque composer Carlos Seixas on the piano. It was the first time I heard them. So strong was the impression of her performance on me that in 2003 I would record in Belgium two CDs with Seixas’ Sonatas, also on the piano. Her lifelong commitment to music, intellectual depth and extensive body of works remain an inspiration to many classical music performers around the world, myself included. My thanks to the singer Annettte Celine for the permission to include in this post Carlos Seixas’s Sonata in fa minor played by her mother, Felicja Blumental.

Jacques Durand (1865-1928)

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Quand l’esprit ne se tourne plus naturellement vers l’avenir,
on est devenu un vieux.

Gustave Flaubert

A leitura de memórias pode apresentar problemas de confiabilidade. Se o autor tergiversa, não é difícil, em determinados segmentos, entender desvios comprometedores. Se, sob outro ângulo, o memorialista espera décadas para iniciar suas lembranças, alterações podem encaminhar o texto para fantasias, até perigosas, a não resistir às comprovações que um dia vêm à superfície. Tantas não foram as memórias escritas que perderam validade na confrontação direta com a veracidade. O equilíbrio estaria reservado àqueles que rememoram, mas acolhem os novos dias.
Há tempos procurava Quelques Souvenirs d’un Éditeur de Musique de Jacques Durand. As memórias publicadas em dois volumes, nos anos de 1924 e 1925, foram editadas em Paris pela A. Durand et Fils. Adquiri a obra em um alfarrabista em São Paulo.
Jacques Durand e seu pai, Auguste Durand (1830-1909), foram ilustres empresários e tiveram sólida formação musical. O conhecimento pleno da área amalgamou-se à vocação de editores e ambos pontificaram durante décadas no cenário das publicações musicais em França. Antes do fim do século XIX, Jacques Durand já se integrara às edições e em 1921 passou à direção da Durand & Cie juntamente com Gaston Choisnel e Roger Dommage.
A casa Durand tornar-se-ia referencial, pois seria a editora de autores como Edouard Lalo (1823-1892), Jules Massenet (1842-1912), Camille Saint-Saëns (1835-1921), Claude Debussy (1862-1918), Maurice Ravel (1875-1937), Paul Dukas (1865-1935) e tantos outros. Deve-se a ela as edições francesas de óperas de Richard Wagner, assim como a edição crítica da obra completa de Jean-Philippe Rameau que teve como diretor preliminar Saint-Saëns. Igualmente à Casa Durand creditam-se três revisões da maior importância para o piano do século XIX: Chopin por Debussy, Mendelssohn por Ravel e Schumann por Gabriel Fauré (1845-1924). Mais tarde, Francis Poulenc (1899-1963), Olivier Messiaen (1908-1992), André Jolivet (1905-1974) et Darius Milhaud (1892-1974) tiveram suas obras editadas pela prestigiosa Durand & Fils.
O interesse maior por Quelques souvenirs… veio da leitura, há muitas décadas, de Lettres de Claude Debussy à Son Éditeur, publicadas em 1927 pela mesma organização. São íntimas essas missivas de Debussy, que se estendem de 1894 a Novembro de 1917, poucos meses antes da morte do compositor, abordando a criação, o cotidiano, o acompanhamento das revisões, as crises afetivas, o engajamento ideológico, demonstração inequívoca da qualidade do destinatário. Durand participou de muitas apresentações pianísticas, compondo igualmente, tendo sido responsável pela transcrição para piano solo – com o consentimento de Debussy – das célebres Danses Sacrées et Profanes, escritas originalmente para harpa cromática com acompanhamento de orquestra de cordas, fato a testemunhar a competência do memorialista.
Encontra-se nas memórias de Durand uma panorâmica do ambiente sócio-musical do período. O autor perpassa toda a sua vida envolvida com a música e com as edições musicais. Quelques Souvenirs… indica precisamente que a ligação amorosa de Durand com a profissão escolhida resultou não apenas da feitura de publicações esmeradas, como da escolha dos compositores que permaneceriam na história. Se nomes desapareceram no pó das produções menores, contudo personalidades musicais representativas francesas e européias figuraram no amplo catálogo de Durand & Fils.
Os dois volumes encerram preciosidades. Jacques Durand, na introdução já clareia as intenções: “esforçei-me somente em consignar os fatos da melhor maneira que consegui”. Longe de serem memórias supérfluas, comuns no período dos salões freqüentados por artistas, intelectuais, políticos e empresários afamados, as evocações do autor se estendem da infância a alguns anos antes da morte, com acuidade e forte presença do observador atento.
Tem orgulho de uma linhagem que remonta aos tempos de Henrique IV e indica, através da história, ascendentes relevantes. Lembra-se da infância, quando ouvia seu pai organista. Jacques teria aprendido a solfejar antes mesmo de ler o alfabeto. Parte desse período passou em Gent, pois sua mãe era belga. Em Paris, recordar-se-ia do apoio de seu pai editor aos jovens compositores franceses logo após a guerra de 1870. Realizaria sérios estudos no Conservatório de Paris, a aprofundar-se naqueles de piano e de composição. Nas memórias, refere-se às recepções no salon de seus pais, freqüentado por compositores eminentes: Georges Bizet (1838-1875), Edouard Lalo, Saint Saëns, Massenet, Charles Gounod (1818-1893), pormenorizando fatos que ficaram gravados. Jovem, mercê do prestígio de seu pai músico e editor, conheceu pianistas como Anton Rubinsntein (1829-1894) e Hans von Bülow (1830-1894), violinistas como Pablo de Sarasate (1844-1908) e Eugène Ysaÿe (1858-1931), tecendo sempre comentários competentes sobre as extraordinárias interpretações desses ilustres músicos.
São interessantes os relatos de Jacques Durand sobre as récitas nas salas de concerto ou, mais informais, nos salões onde se fazia música. O do grande pianista e professor Louis Diémer (1843-1919) é mencionado com ênfase, pois o mestre quase nunca deixava o banco do piano, acompanhando à perfeição cantores e violinistas ilustres. Preferenciava, quando solista, o repertório escrito originariamente para cravo. Personalidades parisienses importantes da vida cultural, política e social freqüentavam o salon de Diémer.
A recepção das óperas de Richard Wagner é acompanhada com acuidade por Durand. Particulariza os embates comerciais devido aos direitos autorais das composições do músico alemão. Pormenoriza a edição de obras de tantos autores e, através de suas memórias, entende-se o processo de escolha e a negociação dessas edições. A competência musical de Jacques Durand teria sido a responsável pela permanência de muitos compositores de relevo que tiveram suas criações divulgadas.
Abrigou autores das mais diferentes tendências, e sua memória capta com clareza determinados flashes, como a entrada de Maurice Ravel na Casa Durand levando a célebre Sonatina para piano. O encorajamento àqueles merecedores de publicações e os Concerts Durand, por ele criado a fim da promover obras de compositores ilustres ou jovens, dão às Memórias de Jacques Durand o sentido pleno do humanismo e do respeito aos músicos.
Camille Saint-Saëns merece um destaque especial. O pequeno Jacques conheceu-o como freqüentador da casa de seus pais, quando o compositor já era um músico respeitado. Durante toda a vida, Durand teria uma quase “veneração” pela extrema versatilidade de Saint-Saëns como pianista, compositor e músico possuidor de uma memória absolutamente extraordinária, pois, como narra o editor, sabia as óperas conhecidas inteiras de memória, partituras e libretos. A excepcionalidade de Saint-Saëns em tantas áreas, musicais ou não, será objeto de posts futuros, pois trata-se igualmente do primeiro pianista a apresentar-se em vários continentes: Europa, Ásia, África e América.

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Claude Debussy ocupa parte considerável em Quelques Souvenirs… Durand conhece-o em 1884 na classe de composição de Ernest Guiraud (1837-1892) e ratifica a posição de outros biógrafos a respeito da extrema amizade do mestre para com o aluno preferido: “muitas vezes, à noite, eles se encontravam em um pequeno café da rua de La Bruyère; jogavam bilhar e era necessário o fechamento do café para arrancá-los de lá. Depois, uma vez fora, as conversações estéticas continuavam sob a fumaça de seus cigarros, enquanto reconduziam-se mutuamente e de maneira sucessiva a suas moradas respectivas”. Acompanha com felicidade a obtenção do Prix de Rome em 1884, premiação maior do Conservatório de Paris, obtida pelo amigo com a cantata L’Enfant Prodigue, que seria editada pela casa Durand. Relata, à medida em que as memórias fluem, as primeiras apresentações das principais obras de Debussy, verdadeiro testemunho receptivo dessas composições. Aliás, tal procedimento dar-se-ia em relação às produções dos principais autores franceses e do Exterior, em apreciações breves, mas competentes, de Jacques Durand.
Dois outros aspectos concernentes a Debussy mereceriam menções. Comenta os 12 Études para piano, de 1915, e a Sonata para violino e piano, de 1917. Após uma apresentação na Casa Durand, Debussy mostrou-se insatisfeito com o final desta obra. Levou-o de volta e oito dias após entregou uma nova versão, o que motivou Durand a comentar: “Vê-se o quão difícil Debussy se mostrava frente à suas composições, exemplo a ser citado para aqueles, muitos numerosos, que se contentam bem facilmente”. Jacques Durand visitaria Debussy no peristilo de sua morte. Em estado terminal devido a um câncer prolongado e ouvindo o bombardeio a que Paris estava sujeita naquele dia, “disse- me que tudo acabara, e bem sabia que era questão de horas, curtas na verdade. Hélas! Era fato. Diante de minha denegação, fez sinal para que me aproximasse para um abraço; após, pediu-me um cigarro, sua última consolação. Eu sai de sua casa muito perturbado, sem esperanças. Dois dias após, era o fim !…”
Como conclusão de Quelques Souvenirs d’un Éditeur de Musique, o autor escreve: “nossos mestres atuais produzem sempre belas obras e eu conheço jovens nos quais devemos depositar as maiores esperanças” a evidenciar um espírito superior afeito à tradição e aberto a novas perspectivas. O ter seguido com acuidade o movimento musical em França e a sua vida pessoal de raro interesse dá às Memórias de Jacques Durand uma importância referencial para a compreensão de período tão extraordinário.

Jacques Durand (1865-1928), the author of “Some Memories of and Editor of Music”, and his father, Auguste Durand, had a solid music education and owned a publishing firm that by the end of the XIXth century was already a landmark in France. The Durand house was responsible for the publication of authors such as Edouard Lalo, Jules Massenet, Camille Saint-Saëns, Claude Debussy, Maurice Ravel, Paul Dukas. It published also the French edition of some of Wagner’s operas, the critical edition of Rameau’s complete works (under the initial direction of Saint-Saëns) and three very important works for piano in the XIXth century: Chopin revised by Debussy; that of Mendelssohn by Maurice Ravel and that of Schumann by Gabriel Fauré. Later on, the works of Francis Poulenc, Olivier Messiaen, André Jolivet and Darius Milhaud were also edited by the prestigious Durand & Fils. The book is interesting because the author was well acquainted with outstanding musicians of his time- – with special emphasis on Camille Saint-Saëns and Debussy – and manages to capture the complexity of the musical, social and political world of fin-de-siècle Paris.