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Diminuição do público – juventude – racismo

Não corro como corria
Nem salto como saltava
Mas vejo mais do que via
E sonho mais que sonhava
Agostinho da Silva

Insistentemente tenho pontuado, ao longo de mais de treze anos, a gradual, mas irreversível, mudança de comportamento das gerações mais jovens. Impactadas pelo advento avassalador da internet e de todas as suas ramificações, a atenção dessas novas gerações se fixa no imediato. Assim como as transformações vertiginosas das engenhocas que em curtíssimo tempo levam adquirentes desses aparelhos a desprezá-los em detrimento do novo, de maneira análoga a cultura musical não erudita se transforma e “renova-se” a cada estação e aquilo que era ouvido em certo momento é desprezado sem quaisquer ressentimentos logo a seguir. Uma ou outra “música” desse compartimento prossegue sua existência, mais como mote de “cantor ou cantora” bem conhecido, para delírio de seus aficionados.

A Música Clássica ou de Concerto tradicional é basicamente apresentada há séculos e admirada, tendo, entre seus cultores no Ocidente, preferencialmente gerações de faixa etária mais avançada. Após dias a gravar em Mullem, na Bélgica Flamenga, no início da última década, meu amigo Johan Kennivé, magnífico engenheiro de som responsável por minhas gravações desde 1999, convidou-me a ouvir no grande auditório do De Single (circa 900 lugares), na Antuérpia, a apresentação da Symfonie Orkest Vlaanderen, sob a regência do ótimo Etienne Siebens. Fiquei ao lado de Johan durante a apresentação da 3ª Sinfonia de Mahler. Chamou-me a atenção a plateia lotada. A impressão era de um extenso campo de neve… Público entusiasta, mas praticamente da terceira idade.

Artigo publicado no periódico francês online “Valeurs” aos 22/06/2020, sob o título “Trop blanche: la musique classique, nouvelle sible des antiracistes”, aponta, entre outras considerações, para a diminuição sensível do público mais jovem nos concertos. Reacende problemática que se acentua no Ocidente.

O texto inicial é claro, sem subterfúgio: “É um fato concreto: a música clássica não mais desperta interesse do grande público, ainda menos dos jovens. Estudo realizado pelo ‘National Endowment for the Arts’ indica que o público que assiste a um concerto de música clássica, a representar 13% em 1982, caiu para 8,6% em 2017. Para aqueles com menos de 30 anos a queda foi ainda maior, despencou de 27% para 9% no mesmo período. Face a essa constatação, os profissionais do setor apelam à renovação, explica o ‘Le Figaro’. E o desafio maior, segundo eles, é o de mudar a imagem de um domínio muito branco”. Segundo dados obtidos, afirma o periódico “que nos Estados Unidos a música clássica é julgada muito pouco ‘inclusiva’ e considerada como ‘privilégio’ da população branca”.

Têm interesse essas afirmações. Antes de abordar o domínio “muito branco” (tema do próximo blog), diria que, excluindo-se conjuntos ou intérpretes extremamente mediáticos, a grande maioria das apresentações de música clássica se dá em espaços pequenos, para 100 a 500 ouvintes. Nessas salas se apresentam intérpretes pelo mundo e assim mesmo há redução do público. Estou a me lembrar da sala da De Rode Pomp em Gent, na Bélgica. Comportava cerca de 150 lugares e a organização promovia mais de 120 concertos anualmente. Apresentei-me mais de dez vezes nessa sala ao longo dos anos. Conversei com muitos músicos solistas ou de câmara que se apresentavam nessas programações – belgas, franceses, russos… – tantos deles excepcionais, mas fora do grande circuito. Sentiam a diminuição física dos espaços como realidade para os não mediáticos e a presença maior de ouvintes da terceira idade. Igualmente concordavam com o progressivo desinteresse dos mais jovens pelos concertos de Música Clássica. Anos atrás, De Rode Pomp encerrou suas excelentes atividades, compostas de concertos, gravações para selo da casa e galeria de arte, La Perseveranza. Em Portugal, Bélgica e França apresentei-me em várias dessas salas menores que promovem récitas, inclusive no Museu Debussy em Saint-Germain-en-Laye, cidade natal do compositor. A sala do Museu comporta cerca de 100 pessoas e é concorrida.

O fluxo sonoro clássico ou erudito, como também é conhecido, acelera-se em países do Oriente. Não há presentemente, no grande volume de jovens oriundos da China, Japão e Coréia do Sul que têm alcançado notoriedade no Ocidente, crítica à Música Clássica como pertencente a uma determinada raça. A cada ano é mais praticada nesses países. Na China, dezenas de milhões de crianças e jovens estudam piano!!! Meu dileto amigo e fundador do Instituto URBEN, Philip Yang, há tempos falou-me algo a impressionar. Tratava-se de artigo publicado no New York Times em 03/04/2007: “O entusiasmo chinês sugere o potencial de um mercado crescente para gravações e apresentações ao vivo, enquanto que o envelhecimento dos admiradores de música erudita e a venda de discos em declínio preocupam muitos profissionais na Europa e nos Estados Unidos.

Gravações de música clássica no Ocidente, vendidas há 25 anos às dezenas de milhares, ficaram reduzidas apenas a milhares. Mais profundamente, os executivos da música clássica dizem que essa forma de arte está sendo cada vez mais marginalizada em um mar de cultura popular e novas mídias. Um número menor de jovens ouvintes americanos segue o caminho da música clássica, em grande parte devido à falta de educação musical que era comum nas escolas públicas há duas gerações. Como resultado, muitas orquestras e casas de ópera lutam para encher suas salas.

A China, com cerca de 30 milhões de estudantes de piano e 10 milhões de estudantes de violino, está em uma trajetória oposta. Agora, testes abrangentes para entrar nos principais conservatórios atraem quase 200.000 estudantes por ano, em comparação com alguns milhares na década de 1980, de acordo com a Associação Chinesa de Músicos.

O lado do hardware também explodiu. Em 2003, 87 fábricas produziam instrumentos musicais ocidentais. No ano passado, o número havia aumentado para 142, produzindo 370.000 pianos, um milhão de violinos e seis milhões de violões. A China domina a produção mundial dos três”.

E qual é o repertório estudado progressivamente desde a infância e vindo a público? O ocidental, preferencialmente europeu. No famoso Concurso Internacional de Piano Chopin em Varsóvia em 2015 viu-se, entre os cinco primeiros laureados, quatro orientais!!! Nos principais concursos internacionais de piano ou violino existentes no hemisfério norte raramente não se encontram intérpretes do Extremo Oriente entre os laureados.

Que houve diminuição de frequentadores em salas e teatros que interpretam Música Clássica no Ocidente é fato. Um deslocamento geográfico do gosto pela Música Clássica tem-se acentuado em direção ao Extremo Oriente. O número extraordinário de estudantes entusiastas já garantiria a lotação nas salas de concerto. Se a menos de duas décadas os intérpretes orientais que se deslocavam para o Ocidente vinham muitíssimo bem preparados sob o aspecto técnico-pianístico, mas tendo tantas vezes compreensões questionáveis sob o conteúdo musical, assiste-se presentemente, mormente na China, Taiwan e Coreia do Sul, à assimilação progressiva da cultura musical voltada à Música Clássica sob as várias especificações, analítica das partituras e sócio-cultural referente aos períodos históricos da criação composicional. Na China está-se distante da revolução maoísta iniciada em 1966, e que se prolongou de fato por mais de uma década, período em que a cultura erudito-musical do Ocidente foi execrada. Em pungente livro, a notável pianista chinesa Zhu Xiao-Mei narra suas vicissitudes nesse trágico período (vide blog La Rivière et son secret. 06/11/2009). Presentemente Xiao-Mei vive em Paris. O Japão estaria fora dessa realidade, pois há muitas décadas já professava com competência o repertório ocidental.

Não deixa de ser extraordinária a apreensão da Música Clássica pelo Extremo Oriente. Conservatórios, intérpretes, orquestras e salas amplas abrigando a criação musical erudita, uma das fontes essenciais da cultura humanística.

Que o jovem ocidental, hoje, basicamente busca outras manifestações “musicais” é também fato. Contudo, a Música Clássica é e continuará a ser, através da História, mesmo que a sofrer diminuição de público no Ocidente e ataques movidos por ideologias, o testemunho de que a raça humana conseguiu atingir níveis inefáveis sob o aspecto humanístico e espiritual.

Comments on the opposite directions taken by classical music in Western and Far Eastern countries China in particular in the last decades. An article published by the The New York Times in 2007 sums up the situation perfectly: “… China has become a considerable force in Western classical music. Conservatories are bulging. Provincial cities demand orchestras and concert halls. Pianos and violins made in China fill shipping containers leaving its ports”. On the other hand, younger generations in the West have grown alienated from classical music, increasingly excluded from dominant music media by financial sponsors in favor of pop-music. Spaces for soloists and orchestras dwindle since senior audiences the public that still listens to classical music today are not enough to fill concert halls. However, my belief is that classical music will continue to be, even with a drop in audience attendance and attacks fueled by ideologies in the West, the testimony that men succeeded in achieving the ineffable in terms of their cultural heritage.

 

Competência e apego às raízes da Bahia

O compositor se vê forçado a praticar,
em relação ao intérprete, uma política de prudência,
de observar seus reflexos,
de distinguir em seu comportamento
tudo que pode lhe servir e também de rejeitar.
Breve, ele deverá fazer um estudo psicológico
do intérprete, se quiser recuperar
sobre sua criação um certo poder perdido.
André Souris (1899-1970)
(“Conditions de la Musique”)

Com surpresa recebi notícia de amigo a dizer que no YouTube havia três obras para piano do compositor da Bahia, Paulo Costa Lima, que gravei em 1996 em Sófia, na Bulgária. Ao acessar o aplicativo, comprovei e apreendi que os três Estudos para piano foram inseridos na Itália pelo grupo Wellesz Theatre (The Wellesz Company) nesses últimos anos. A organização tem divulgado a atividade composicional contemporânea mundial com regularidade e esmero.

Foi em 1985 que idealizei projeto a visar aos caminhos da composição para piano, sem participação eletrônica, estendendo-o até 2015, ou seja, trinta anos, no desiderato de entender a criação para o instrumento nas fronteiras do século. Convidei compositores de vários países e muitos aceitaram o desafio. Já havia gravado a integral dos Estudos de Alexandre Scriabine e de Claude Debussy, assim como Estudos contemporâneos para piano de compositores da Bélgica (selo belga De Rode Pomp), Estudos Brasileiros (selo ABM, Academia Brasileira de Música) e um último dedicado a compositores da França, Bulgária e Portugal (selo francês Esolem). Encerrei o ciclo no ano previsto, 2015, tendo apresentado em público cerca de 80 Estudos das mais diversas tendências. Vários foram publicados no Exterior, mas as dificuldades encontradas para que a extensa coletânea fosse impressa no Brasil inviabilizaram esse propósito. Apraz-me saber que doravante essas criações integram catálogos de respeitáveis compositores.

Durante o desenvolver da coletânea conheci criações do compositor da Bahia Paulo Costa Lima. Encantaram-me de imediato. Sua visão erudita e a mesclagem com o que há de mais profundo nas raízes de sua terra possibilitaram composições as mais expressivas destinadas a instrumento solo e conjuntos. Quanto às criações para piano que surgiram de sua lavra naquele efervescente período, acrescentaria que rítmica riquíssima e uma inédita e transcendente abordagem pianística serviram de profícuo desafio para o intérprete. Apresentei-as nos Festivais Música Nova (Santos e São Paulo), nos anos 1991-1993, assim como na Bélgica e em Portugal.

Pega essa nêga e chêra, Imikayá e Ponteio-Estudo (1991-1993), trilogia que me foi dedicada e que tive a honra de gravar em Sófia, com o também saudoso engenheiro de som Atanas Baynov a conduzir os registros, atestam o imenso talento do músico e teórico da Bahia.

Sobre o compositor Paulo Costa Lima (1954- ) diria que suas criações multidirecionadas já receberam mais de 500 performances em mais de 20 países. Escreveu 10 livros sobre música, a abordar temas como teoria e pedagogia do compor, análise e relação entre música e psicanálise. Professor Titular de Composição da Universidade Federal da Bahia, foi Pró-Reitor da UFBA e Secretário de Cultura da Cidade de Salvador. Membro da Academia Brasileira de Música (cadeira 21 – Cláudio Santoro), Paulo Costa Lima tem recebido inúmeros prêmios.

Após ter sido surpreendido com as gravações inseridas no YouTube pelo grupo italiano Wellesz Theatre, pensei participar aos leitores o tríptico de Estudos de Paulo Costa Lima e solicitei-lhe um texto a comentar as criações. Ei-lo:

“Retornar à cena da criação é sempre um desafio. Todos reconhecem. Essas obras foram escritas no início da década de 90, por um compositor ainda jovem, e dedicadas a José Eduardo Martins. Todas elas brincam com a geração de sentido através das técnicas de variação e transformação temático-motívica – aliás, um traço característico do Movimento de Composição na Bahia (que se inicia com Koellreutter e Ernst Widmer em 1954 e prossegue até os dias de hoje), mas fazem isso de forma distinta. Todas investem de forma sistemática na dimensão rítmica como fio condutor da atenção na obra, bordando esses ritmos no tecido melódico das melodias originais (quando é o caso), e assim almejando um ambiente rítmico de interação entre vanguarda e uma série de outros contextos (sem repetir os bordões do nacionalismo).

A primeira a ser escrita foi Pega e essa nêga e chêra, e esse título, que soa insólito fora do contexto, é, na verdade, o título da canção recolhida nas margens do Rio São Francisco. A melodia celebra um traço distintivo da cultura nordestina, o cheirar como manifestação de afeto, de carinho. Ora, a melodia tem uma característica deveras interessante, ela se desenrola no espaço de um trítono, e só isso. O compositor passou a imaginar que esse trítono era apenas o trecho superior de um modo mixolídio (sib, lá, sol, fá, mi…) e acrescenta a sua fundamental imaginada, o dó. Daí surge uma trajetória de transformações.

Clique para ouvir, na interpretação de J.E.M., Pega essa nêga e chêra:

https://www.youtube.com/watch?v=m0UA0Tu_sHg

A segunda a ser escrita foi Imikayá, que utiliza como ponto de partida uma melodia de origem banto, celebrando Kayá, uma divindade das águas (que tem paralelismo com Yemanjá da nação Ketu). Creio que o discurso das variações fica mais ágil nessa obra, ela almeja uma fluidez que consegue em vários momentos. Assim como na anterior, o estímulo melódico é usado como forma de transitar para o mundo dos motivos e dos conjuntos, criando ambientes que soam modais, tonais ou seriais.

Clique para ouvir, na interpretação de J.E.M., Imikayá:

https://www.youtube.com/watch?v=Fw2qYBd-kyE

A terceira da série foi o Ponteio-Estudo e, no coração de quem as escreveu, a mais querida. Aqui já não há um ponto de partida que venha de algum contexto cultural, a própria peça fabrica seu ponto de partida, um motivo (ou conjunto) com duas quartas justas e duas terças menores – mas isso é apenas pretexto para fazer explodir uma espécie de vulcão sonoro que explora a densidade dos graves no piano, mas logo inverte a direção para o lado mais agudo. Há uma análise recente desta obra, feita por Guilherme Bertissolo, que investiga justamente essa capacidade de gerar movimento (e inércia de movimento), até o ponto de inflexão na seção central. Pois bem, é tudo variação, tudo é ‘deduzido’ do motivo inicial, mas o interesse vai muito além desse desafio formalista, o intuito real é pegar o ouvinte pelas orelhas e arrastá-lo para um gozo pianístico todo seu, intenso e breve…

Clique para ouvir, na interpretação de J.E.M., Ponteio-Estudo:

https://www.youtube.com/watch?v=T3NQ23n_PwE

Creio que essas peças plasmaram um caminho de maturidade para o meu fazer de compositor, e isso só foi possível por causa do diálogo que elas permitiram com a genialidade interpretativa de José Eduardo Martins. Há muito dele em todas elas – tanto no sentido da escolha interpretativa, que molda a natureza da obra, como também por permitir que o compositor cultivasse insights que vinham diretamente do que ouvia deste piano – e não apenas em suas próprias obras, mas também através de Rameau, de Debussy, de Gilberto Mendes…

Fica, portanto, esse breve registro das obras e da gratidão enorme pela parceria que as iluminou”.

Aos 11 de Setembro de 1997 interpretei em Gent, na Bélgica, Vassourinhas-Estudo-Frevo (1997), criação de Paulo Costa Lima em homenagem ao notável compositor português Jorge Peixinho (1940-1995). Tocaria igualmente homenagem a Peixinho, criação do saudoso compositor e amigo Gilberto Mendes (1922-2016), Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois (1997). Esteve no recital o sensível artista plástico holandês Jan De Wachter (1960- ), que me ofereceu, dias após, seis expressivos trabalhos (técnica mista), entre esses um a lembrar Vassourinhas, outro In Memoriam Jorge Peixinho, um terceiro a rememorar Estudo, Ex-tudo, Eis tudo pois. De Wachter expunha na Galeria La Perseveranza, em Gent, suas obras dedicadas ao notável cineasta russo Andrei Tarkovsky (1932-1986).

Paulo Costa Lima continua sua sólida e profícua atividade de compositor, teórico e professor, respeitado no Brasil e no Exterior.

Ao leitor que quiser conhecer melhor a produção de Paulo Costa Lima, sugiro a consulta aos vídeos que apresentam parte substancial de sua música e do seu pensar:

https://www.youtube.com/channel/UC8LQtZ2vUWNU-ocKi_eAXAw/videos?view_as=subscriber

From 1985 to 2015 I worked on a project for piano etudes, trying to embrace with a comprehensive view  the technical possibilities of the instrument in the transition between the 20th and 21st centuries. Brazilian and foreign composers have been invited for the project, among them Paulo Costa Lima. Award–winning composer with more than 500 performances in more than twenty countries, music theorist and teacher of composition at the Federal University of Bahia, Paulo Costa Lima was born in Salvador, Bahia, in 1954. His three etudes for my project —“Pega essa nêga e chêra”, “Imikayá” and “Ponteio-Estudo” —, all of them real challenges for any interpreter, have conquered me immediately for their fusion of classical compositional techniques with Afro-Bahian elements. I recorded the three works and, much to my surprise, learned that the recordings have been posted on YouTube by the Italian music video channel The Wellesz Company. In this post I give the YouTube links to my recordings of Costa Lima’s works, preceded by valuable comments by the composer himself on the genesis  and main features of each of them.

 

Excepcionalidade pianística frente aos dramas

É um inútil desperdício de tempo
celebrar a memória dos mortos
se não nos esforçamos
em exaltar as obras que deixaram.
Monteiro Lobato

Um dos maiores pianistas do século XX, Sviatoslav Richter, permanecia encoberto em mistérios até o desvelamento parcial de seu de profundis exibido no exemplar documentário do cineasta e escritor Bruno Monsaingeon, “L’Insoumis – The Enigma” (1998). Desvelava-se parte de seu diário que seria publicado posteriormente, “Notebooks and Conversations” (U.K., 2001).

Os dois nomes maiores da arte do piano da antiga União Soviética, Emil Gilels (1916-1985) e Sviatoslav Richter, nascidos pouco antes da Revolução de 1917, granjeariam recepção acalorada no mundo, mas apenas após a 2ª Grande Guerra apresentar-se-iam no Ocidente. Ambos foram alunos do notável pianista e professor Heinrich Neuhaus (1888-1964). Em seu livro referencial, “L’Art du Piano” (Tours, Van de Velde, 1971, tradução da edição russa publicada em 1958), o mestre louva seus dois discípulos, mas é nítida sua preferência por Richter. Se as referências a Gilels são sempre elogiosas, as endereçadas a Richter são pormenorizadas e plenas de adjetivos os mais efusivos. Entre essas afirmações: “Jovem ainda, já dava provas de perfeita compreensão musical, acumulando reservas em seu cérebro e possuindo um dom excepcional de virtuose, levando-me a seguir velho conselho: ensinar um sábio resulta deformá-lo”; “Quando ouço Richter, minha mão espontaneamente gestualiza o compasso. O universo rítmico de seu toque é tão poderoso, seu ritmo tão lógico, tão organizado, tão rigoroso e tão livre que é difícil resistir à tentação de participar através do gesto…”; “tenho a impressão de que toda a obra que ele interpreta, quão gigantesca possa ser, se nos depara como uma imensa paisagem, todos os detalhes inseridos, olhar de águia nas alturas com nitidez prodigiosa. Diria de uma vez por todas que jamais tive a oportunidade de ouvir um pianista cujo horizonte artístico fosse tão vasto, cuja interpretação fosse também tão completa organicamente”; “Através de Richter ouvi a melhor execução de Bach, a mais fiel, a mais acessível e convincente”.

Ratificando considerações de Heinrich Nehuaus sobre as interpretações da obra de J.S.Bach por Sviatoslav Richter, clique para ouvir a Fantasia e Fuga em lá menor (BWV 944):

https://www.youtube.com/watch?v=c7OS_vpMz-s

Sobre a excepcional qualidade de rapidamente aprender uma composição, Neuhaus comenta: “Há alguns anos, Richter teria de tocar três concertos russos num mesmo programa. O de Rachmaninov ele já conhecia, mas jamais tocara os outros dois, de Glausonov e Rimsky-Korsakov. Após trabalhá-los durante uma semana ele os interpretou magistralmente”.

Clique para ouvir, na interpretação de Sviatoslav Richter, L’Alborada del Gracioso de Maurice Ravel:

https://www.youtube.com/watch?v=OePeT12EJ14

A competência de Heinrich Neuhaus é incontestável e seu livro, fonte de ensinamentos perenes. Contudo, não lhe teria faltado uma certa apreensão psicológica? Gilels e Richter foram seus alunos maiores e o excesso de lisonjas a Richter não condiz absolutamente com a avaliação da história, que dá merecimento nivelado nas alturas aos dois pianistas, apesar de personalidades tão diferentes sob os aspectos pianísticos e de vida, a entender musicalmente a plena regularidade e tradição de Gilels e a interpretação singular e telúrica de Richter. Mistérios que se fazem maiores quando, nas 228 páginas de “L’Art du Piano”, desfilam tantos personagens, mas sobre seu filho, Stanislav Neuhaus (1927-1980), ótimo pianista – há gravações no YouTube -, seu aluno e assistente, tornando-se futuramente mestre de notáveis pianistas como Brigitte Engerer (1952-2012) e Radu Lupu (1945- ), não há sequer uma citação?

Tive o privilégio de ouvir Sviatoslav Richter interpretar o 2º Concerto para piano e orquestra de Brahms no Palais de Chaillot, em Paris, no início da década de 1960. Inesquecível. Colegas curiosos foram até a Salle Gaveau e, em compartimento anexo, ouviram-no estudar para a apresentação noturna. Disseram-me que ele ficou cerca de uma hora só a repetir as duas passagens introdutórias do Concerto. Aliás, Neuhaus comenta em “L’Art du Piano” que habitualmente Richter se pormenorizava durante um bom tempo sobre determinada passagem e que, após ter-lhe dito que certa frase musical da 9º Sonata de Prokofiev – dedicada ao pianista – saíra muito bem, ouviu de Richter “Estudei-a durante duas horas sem interrupção”.

Richter confessava ter 80 programas em seu repertório. Nas digressões pela imensidão russa levava cerca de 25 programas diferentes. Preferia tocar em salas pequenas e nas tantas cidades maiores e menores da antiga União Soviética a se apresentar nos Estados Unidos. Essa atitude recrudesce com o passar dos anos. Também confessaria que não tocava para o público, mas para si mesmo, a parafrasear, logicamente sem o saber, o ilustre poeta e escritor português Guerra Junqueiro (1850-1923): “Os meus livros imprimo-os para o público, mas escrevo-os para mim”.

Clique para ouvir, na interpretação de Sviatoslav Richter, a Fantasia op 28 de Alexandre Scriabine:

https://www.youtube.com/watch?v=-mSsFzEhl8E

Richter testemunharia a primazia das baixíssimas intensidades, os pianíssimos a contrastar com o limite extremo da alta intensidade. Em determinadas obras tem-se a impressão de que o piano será demolido. Toda essa força extraída através de esforço homogêneo. Nesses extremos, considere-se o relativo aos andamentos. Os lentos por vezes se tornam bem mais lentos ou largos e os rápidos, prestos, prestissimos volando ou velocissimos. Estou a me lembrar de que, tendo visitado a insigne professora e musicista francesa Nadia Boulanger (1887-1979) em Maio de 1961, para ela toquei três peças – Estudos de Debussy e Roger Ducasse e a Tocata de Camargo Guarnieri. Antes de me retirar, fiz-lhe uma pergunta: qual o segredo maior da interpretação? Mlle Boulanger, figura fundamental na história da música francesa do século XX, responderia ser a dinâmica extrema, do som quase inaudível à intensidade mais ampla, sem agressão, exemplificando justamente a citar Richter.

O pianista, segundo Neuhaus, conseguia abranger o intervalo de 12ª!!! E o exemplo por ele citado, de uma 10ª em complexa posição dos cinco dedos, é salientado pelo autor de “L’Art du Piano”.

O notável pianista preferia tocar em salas com pouca luz, apenas com iluminação sobre o teclado. Dizia que o público ia ao teatro para ouvi-lo, não para vê-lo.

Em 1980, após falhas de memória em Tóquio e na França, passou a se apresentar com a partitura à frente. Confessa no documentário mencionado que o fato revelou algo que considera honesto, pois desaparece o arbítrio. Vários notáveis pianistas têm se valido dessa prática.

Clique para ouvir, na interpretação de Sviatoslav Richter, seleção de Estudos de Chopin, op. 10 e op. 25:

https://www.youtube.com/watch?v=4etQPsY-2YM

A figura emblemática de Sviatoslav Richter, se em parte foi desvelada através do documentário de Bruno Monsaingeon, revelaria nos estertores da existência a depressão ou desalento. A natureza singular frente à vida e à música; a opção pela carreira que a certa altura se torna quase “monástica”, distanciando-o das grandes salas em que parte do público tende ao supérfluo, como afirmava, fato que o conduz acentuadamente às audiências das pequenas salas e cidades menores na vastidão das estepes russas e, certamente, a disfunção auditiva relacionada à exatidão da altura dos sons gravados na partitura, impedindo-o de prosseguir se apresentando poucos anos antes da morte, que ocorre em 1997 após ataque cardíaco, endossam o abatimento.

Convido o leitor a assistir ao documentário de Bruno Monsaingeon “L’insoumis – The Enigma”, dividido em duas partes e legendado em inglês. Depoimentos colhidos por volta dos 80 anos são pungentes. Interpretações marcantes são apresentadas durante a exibição com diversos depoimentos fulcrais, mormente da cantora Nina Dorliac, com quem viveu de 1946 a 1997. Uma amizade profunda os unia, apesar da homossexualidade do pianista, numa União Soviética avessa à situação, mas veladamente a “aceitar” em se tratando de Sviatoslav Richter. Tanto era admirado que, ao morrer Joseph Stalin (1878-1953) no dia de 5 de Março, foi Richter que tocou no velório em um piano de armário com pedais danificados. Todavia, seu pensamento estava inteiramente direcionado ao seu grande amigo Serguei Prokofiev (1891-1953), que lhe dedicou obras e que o considerava “o maior pianista do mundo”. Prokofiev morreria também no mesmo dia, 5 de Março.

Clique para assistir no YouTube, de Bruno Monsaingeon, o documentário “L’Insoumis – The Enigma”:

https://www.youtube.com/watch?v=yfJVpjI3wJM (1ª Parte)
https://www.youtube.com/watch?v=iVhxqEN9j7k (2ª Parte)

Sviatoslav Richter (1915-1997) is widely recognized as a giant of 20th century pianism, defined as a genius by Heinrich Neuhaus, his teacher at the Moscow conservatory. I was lucky enough to hear him play Brahms’ piano concert nº 2 in Paris in the sixties. Some friends who watched him rehearsing commented later that Richter spent one hour over a single passage. With an immense repertoire and despite his great acclaim in his own country and the West, Richter much preferred playing in small venues with just a single lamp on the piano, explaining that this helped audiences to focus on the music and not on the musician. An intensely introverted and enigmatic individual, his life story has been somewhat hidden in shadows, reason why I invite readers to watch on YouTube the documentary “Richter, The Enigma”, which reveals, through conversations with Richter himself and people who knew him, some moments of his often troubled life together with clips of memorable performances.