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Viagens significativas que deixaram lastro


Uma edição crítica da música deve ser feita com a colaboração estreita com os músicos,
evidentemente possuidores de uma cultura particular.

Na verdade, músicos-musicólogos e musicólogos músicos,
esta última categoria mais rara.
Há intérpretes musicólogos que trouxeram preciosa colaboração.
François Lesure
(Extraído de palestra na USP, 09/10/1997)

As três viagens do notável musicólogo francês François Lesure ao Brasil (1988, 1990 e 1997) estiveram sob a égide acadêmica. As duas primeiras tiveram como tema central Claude Debussy, pois François Lesure foi certamente o nome referencial na segunda metade do século XX, graças às  pesquisas aprofundadas que resultaram em inúmeros livros indispensáveis sobre o compositor; a terceira envolveu principalmente a avaliação do Departamento de Música da Universidade de São Paulo.

A agenda de 1988 foi intensa. Duas palestras, que deveriam ser realizadas no espaço uspiano, tiveram de ser transferidas à última hora, mercê de greve geral, movimento que ocorre quase todos os anos nas universidades estaduais paulistas. O saudoso Sígrido Levental, tão logo ao saber da paralização, cedeu a sala principal do Conservatório do Brooklin, por ele dirigido. Apesar de público pequeno, motivado pela súbita mudança de local, François Lesure discorreu sobre “Debussy – perfil e avaliação” (19/10), com a participação do flautista Antônio Carlos Carrasqueira, que interpretou do compositor, Syrynx para flauta solo. Interpretei Masques e L’isle joyeuse, criações de Debussy em 1904. No dia seguinte, Lesure ofereceu como tema “A musicologia hoje – propostas para um debate”.

Após as palestras, seguimos para o Rio de Janeiro, a fim de participar do “Ciclo Debussy (1918-1988)” promovido pela Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que se estendeu de 7 de Outubro a 23 de Novembro com recitais de piano apresentados por Homero de Magalhães (Préludes, 1º e 2º livros), Esther Naiberger (Suite Bergamasque, Images I e II), Sonia Goulart (12 Études) e por mim (15 peças avulsas, Images oubliées e La Boîte à Joujoux). A palestra de François Lesure versou sobre “Debussy – Perfil e bibliografia crítica”. O saudoso pianista Heitor Alimonda e eu ilustramos a palestra interpretando a Symphonie en si mineur e Triomphe de Bacchus para piano a mãos (24/10).

Depois das atividades no ensolarado Rio, François Lesure e eu visitamos a neta do compositor Henrique Oswald, a saudosa amiga Maria Isabel Oswald Monteiro e, como sua morada ficava no Leblon, bem perto do mar, François quis pisar nas areias famosas do Rio de Janeiro. À tarde estivemos com sua amiga, a notável musicóloga Cleofe Person de Mattos (1913-2002).

Em 1990, François Lesure esteve no Brasil para compor a comissão julgadora de minha tese de livre docência, sob o título “O idiomático técnico-pianístico na obra de Claude Debussy”, defendida na Universidade de São Paulo. Nos poucos dias subsequentes realizou encontros com professores e alunos do Departamento de Música, salientando com ênfase objetivos precisos para as elaborações de teses e insistindo que uma tese não pode nem deve ser propósito único de ascensão na carreira. A seguir gravou programas para “Tempo de Concerto” da Rádio USP-FM.

Quando da avaliação do Departamento de Música da Universidade de São Paulo em 1997, François Lesure participou, como membro estrangeiro, da equipe de professores designados para esse mister. A visita possibilitou sugestões importantes para o aperfeiçoamento dos cursos oferecidos. Após a avaliação, Lesure proferiu palestra e ouviu considerações de professores, alunos e visitantes, sempre com o precípuo desiderato de transmitir experiências didáticas relevantes e praticadas em vários países da Europa e Estados Unidos. Igualmente abordou outros temas concernentes à musicologia, pesquisa, bibliografia, assim como teceu observações concernentes à prática musical, teoria e metodologia de estudo.

Tendo traduzido e gravado o encontro, inseri as perguntas e respostas formuladas por professores, alunos e convidados na “Revista Música” da USP (vol. 8 – Maio/Novembro, 1997), transcrevendo neste espaço algumas de suas considerações, assim como excertos das entrevistas que François Lesure gentilmente concedeu ao “Tempo de Concerto”, que eu apresentava na Rádio USP-FM (1994-2008) às terças-feiras e que foram ao ar em quatro programas no mês de Novembro daquele ano.

Destaco inicialmente seu entendimento sobre a relevância da musicologia na universidade: “Chamo a atenção para que a musicologia não seja esquecida ou o seu papel diminuído na universidade em detrimento da prática instrumental, dado o fato de o sistema daqui ser bem diferente daquele exercitado na Europa, em especial. Estou convencido de que a musicologia é um complemento indispensável tanto para os músicos como para os intérpretes em geral, mesmo em se considerando os rumos outros empreendidos por um músico”.

Sobre o repertório não frequentado, Lesure tem opinião firme voltada à sua qualidade: “Quanto ao problema do repertório dito ‘esquecido’ e que se encontra depositado nos arquivos, penso que há sempre um perigo. Primeiramente, relativo a musicólogos que estudam esse repertório ‘oculto’, mostrando-se por vezes indulgentes quanto ao valor intrínseco desses manuscritos ou edições; em segundo lugar, concernente aos pesquisadores que fazem teses sobre músicos de um segundo escalão, tendendo a magnificar as obras estudadas. Nestes casos, existe a permanente tendência a decepcionar o público, que se interroga, enfim, se valeria a pena recuperar tais músicas”.

A uma pergunta sobre a qualidade, Lesure considera a questão instigante: “Cada um elabora os níveis de qualidade. Contudo, pessoalmente, se tiver de escolher uma peça de salão de 1830 e uma missa de Guillaume de Machault, do pleno século XIV, tenderia a escolher esta última”.

Outra questão levantada precisava a repercussão da obra de Villa-Lobos em Paris. Lesure respondeu: “poderia dizer que Villa-Lobos foi muito tocado logo após a 2ª Grande Guerra e, em parte, pelo que de interessante suscitava um compositor brasileiro. Saliente-se que, para muitos dos franceses, Villa-Lobos era o único compositor do Brasil conhecido. Hoje ele é menos tocado, digo sempre, em França. Não teria explicações claras para dar; porém, haveria a necessidade de se conhecer o que as instituições nacionais têm feito no sentido de promover a difusão da obra de Villa-Lobos no Exterior. E, por consequência, de outros autores brasileiros”.

Precipuamente a respeito de uma conciliação da prática interpretativa com a musicologia, diz François Lesure: “Os senhores se encontram numa posição que chamaria de exceção no sistema. Na universidade francesa não há o instrumental para a prática. Se tanto, um piano, um aparelho de som, outro mais, mas não o ensino específico do instrumento”. Lesure mencionaria excepcionalidades, como as existentes em determinadas secções na Provence e cita Tours, que mantém um conjunto de música antiga dentro da universidade. Contudo, considera que “a estrutura existente não favorece a direção nesse sentido, ou seja, a estreita ligação musicologia-interpretação”. Observaria que “em França, nestes últimos 20 anos mais precisamente, toca-se tanta música do período barroco, nem sempre a melhor, que hoje se pode falar em saturação. Há muitos grupos de música barroca que apresentam, por vezes, repertório de nível discutível e, em certos casos, enfadonho, julgo eu”.

Quanto às gravações visando aos programas para a Rádio USP-FM, tive o cuidado de buscar alternativas às questões propostas pelo público na entrevista do dia 9 de Outubro. Até em perguntas limítrofes ao exposto na palestra houve, por parte de François Lesure, abordagem outra enriquecedora. O insigne convidado comentou perguntas por mim formuladas a respeito de suas pesquisas sobre Debussy que focalizaram a vida, a obra e a busca incessante da atividade epistolar do compositor. Sobre sua biografia, exposta em dois livros mencionados no blog anterior, Lesure considerava naquele 1997: “há 25 ou 30 anos não se publicava uma biografia mais atenta, que privilegiasse as descobertas recentes. Em alguns assuntos, tive de partir basicamente do zero. Tentei mostrar Debussy na medida do possível a cada dia de sua trajetória e, nessa caminhada, algumas lendas criadas em torno do compositor foram demolidas, graças à precisão documental. Certamente, esta não é a última biografia sobre Debussy, mas penso que, pela primeira vez, um Debussy mais verídico, mais próximo psicologicamente da realidade foi retratado. Entenda-se, o temperamento e o caráter do compositor não são fáceis de serem decifrados. Não estou seguro de ter atingido completamente os objetivos, mas acredito que os esforços empreendidos aproximam-nos de uma maior realidade” (tradução: J.E.M.).

Clique para ouvir, de Claude Debussy, Étude pour les arpèges composés, na interpretação de J.E.M. :

https://www.youtube.com/watch?v=VCAH8fYHjSo

A respeito da profícua atividade na Bibliothèque Nationale, François Lesure, que esteve ligado durante 38 anos à Instituição, sendo que 20 anos como chefe do Departamento de Música da B.N., tem considerações de grande interesse: “A B.N. remonta a Charles V, ou seja, ao século XIV e é grande a herança que pesa sobre a Instituição. Creio que, se colocarmos os documentos da B.N. sobre uma estrada, manuscritos e livros, um após o outro, poderia dizer que teríamos uns sete quilômetros de música!” Tem consciência de que nem todas têm a mesma qualidade, “mas há tesouros a serem descobertos. Não quero dizer com isso que temos nesse tesouro uma ‘segunda’ Nona Sinfonia com coral de Beethoven ou então uma nova Sinfonia Fantástica de Berlioz”.

Quanto ao perfil daqueles que buscam a B.N., Lesure pondera: “Prioritariamente têm perfis científicos; bibliotecários e musicólogos, pois esses são os pesquisadores no sentido estrito da palavra, mas também os músicos. Como exemplo, aqueles que encontraram um problema numa partitura, seja pelo fato de acharem que uma determinada nota é duvidosa ou que uma passagem suscita ambiguidade. Conheci regentes que vieram verificar um documento autêntico. Temos aí uma prova de profissionalismo raro da parte de músicos praticantes que se dirigem à B.N.”. François Lesure enfatizaria a necessidade absoluta de o intérprete buscar fontes fidedignas através das edições críticas, pois são muitas as edições que não partiram do exame minucioso dos manuscritos que se encontram no mercado, por vezes eivadas de erros.

Creio que as três visitas do ilustre musicólogo foram extremamente proveitosas para aqueles que souberam apreender seu pensamento voltado ao rigor da pesquisa, à ausência absoluta da vaidade quanto às descobertas, à generosidade plena para com todos aqueles pesquisadores que o procuraram para aconselhamento. Sempre aberto aos objetivos claros dos pesquisadores, ajudou-os nessa busca sem fim em direção ao conhecimento. François Lesure, uma figura exemplar.

François Lesure’s three visits to Brazil (1988, 1990 and 1997) were remarkable. In this post I comment on the activities of the illustrious musicologist in our country, mentioning excerpts not only from one of his lectures at the University of São Paulo (USP), but also from the programs recorded for Radio USP-FM.

Um dos nomes mais relevantes da musicologia no século XX

Poucas personalidades puderam e souberam
conduzir, como ele, várias carreiras
ou atividades paralelas enriquecendo-se mutuamente,
sendo as principais, de um lado,
a função de curador na Bibliothèque Nationale
e a de professor do ensino superior,
e, sob outra égide,
as atividades de musicólogo e de bibliógrafo,
para nos limitarmos ao essencial.

Catherine Massip

Há exatamente 20 anos, 21 de Junho, a França perdia um de seus mais notáveis musicólogos e bibliógrafos. A lembrança de François Lesure faz-se necessária neste espaço, pois sou-lhe eternamente grato. Foi ele que, ao conhecer minhas pesquisas e interpretação de toda a obra para piano de Claude Debussy, propiciou-me aberturas fundamentais em torno do imenso compositor. Abriu-me inclusive, como Diretor de Música da Bibliothèque Nationale, o estudo de toda a criação pianística de Debussy através dos manuscritos originais, experiência fulcral para aprofundamentos. À medida que as pesquisas prosseguiram, por três vezes convidou-me para palestras na École Pratique des Hautes Études em Paris, assim como para escrever, ao longo dos anos, artigos para os “Cahiers Debussy”, publicação do Centre de Documentation Claude Debussy, por ele criado.

Essa premissa faz-se necessária. Rememorar François Lesure é descortinar uma mente privilegiada, brilhante, plena de sabedoria e de generosidade para com todos aqueles que, imbuídos de propostas pertinentes, procuravam-no na Secção de Música da Bibliothèque Nationale, Rue Louvois, nº 2. Foi um grande privilégio privar de sua amizade.

François Lesure foi certamente uma das figuras mais significativas da cultura musical em França, quiçá a mais enciclopédica, na segunda metade do século XX. Tendo estudado na Sorbonne, na École Pratique des Hautes Études, École de Chartes e no Conservatoire de Paris, legou nas duas Escolas mencionadas teses referenciais sobre a feitura instrumental (1948) e os instrumentistas (1950) na Paris do século XVI. Em 1954, como secretário do Repertoire International des Sources Musicales (R.I.S.M.), François Lesure seria determinante na elaboração de catálogos, mormente três (1960, 1964 e 1971), que repertoriam do século XVI ao XVIII. A dedicação à vasta produção da música antiga ocuparia parte das investigações de François Lesure. Saliente-se a colaboração efetiva de sua esposa, Anik Devriès-Lesure, na edificação dos dois volumes do “Dictionnaire des éditeurs de musique français”, que abrange dos primórdios da atividade até 1914.

Posteriormente, o musicólogo estaria na direção de publicações da coleção “Le Pupitre”, com música dos séculos XVII-XVIII (Paris, Heugel, Leduc), assim como da coleção “Patrimoine”, que privilegia compositores franceses relevantes nascidos no século XIX (Paris, du Marais). Da primeira, presenteou-me com a edição das obras de Jean-Philippe Rameau (1683-1764) para cravo (Paris, Heugel. “Pupitre”, coleção de música antiga publicada sob sua direção. Edição crítica de Kenneth Gilbert) e com o “Traité de l’Harmonie” do genial compositor (France, Klincsiek, 1992, fac simile do exemplar conservado na Biblioteca da Sorbonne. Nota bibliográfica de François Lesure), essenciais para a minha gravação da integral ao piano em Sófia, na Bulgária, em 1997 e lançada em dois CDs pelo selo belga De Rode Pomp com texto do encarte assinado pelo ilustre musicólogo.

Clique para ouvir, de Jean-Philippe Rameau, “Les Niais de Sologne”, na interpretação de J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=xdKjHjNx700

Seria em 1950 que François Lesure entraria no Departamento de Música da Biblioteca Nacional da França e, entre 1970 e 1988, diretor do Departamento. Como professor de musicologia lecionou, de 1964 e 1977, na Universidade Livre de Bruxelas, sendo que em 1977 sucedeu a Solange Corbin (1903-1973) na cadeira de musicologia da École Pratique des Hautes Études. Presidiu a Société Française de Musicologie entre 1971-1974 e 1988-1991. François Lesure foi responsável pela organização de exposições junto à Biblioteca Nacional e alhures. Uma delas teve relevo especial, “Debussy et le symbolisme”, na Villa Médicis em Roma, onde o compositor, após receber o Prix de Rome no Conservatório de Paris, estagiou entre 1885-1887. Recordo-me que François Lesure situava Debussy nessa atmosfera simbolista, rejeitando o termo impressionista. Para tanto, disse-me ele que, naquela Exposição, colocara embaixo das escadas, com pouca visibilidade, um pequeno quadro da escola impressionista, apenas para evidenciar a diminuta influência.

Especialista referencial da música a partir do século XVI, estudando aprofundadamente manuscritos editados ou não, repertoriando, catalogando, nessa importante via de elaborações bibliográficas, François Lesure teria uma relevância absoluta na edificação das fontes relacionadas, mormente as referentes a Claude Debussy. Inquestionavelmente, posicionou-se como o mais abrangente pesquisador nos estudos relacionados ao notável compositor francês na segunda metade do século XX.

Afirmaria em entrevista à Rádio USP-FM, São Paulo, aos 9/10/1997: “Houve uma mudança de rumo quando se deu o centenário de Claude Debussy em 1962. Já estava na Bibliothèque Nationale e, nessa instituição, há o hábito de celebrar os grandes centenários através de catálogos e exposições. Nesse ano entrei pois pela primeira vez, de uma maneira focalizada, no mundo debussista”. Em 1971 foi o responsável pela edição de “Monsieur Croche”, edição da obra crítica de Debussy (Paris, Gallimard), republicada pela mesma editora em 1987 numa edição revista e aumentada. Em 1977 é publicado o “Catalogue de l’oeuvre de Claude Debussy” (Genève,Minkoff) e, já no início da introdução, Lesure afirma que “todos os catálogos são provisórios”. A essa altura, François Lesure se preocupava não apenas com a biografia, como também com a seleção da vasta correspondência de Debussy. Quanto à primeira, posiciona-se Catherine Massip ao considerar a biografia de Debussy depositada em dois livros — “Claude Debussy avant Pelléas ou les années symbolistes” (Paris, 1992) e “Claude Debussy: biographie critique” (Paris 1994) – como “a melhor biografia de Debussy atualmente disponível”. Aliás, biografia não superada até o presente, apesar das precedentes obras de Léon Vallas (1879-1956) e Edward Lockspeiser (1905-1973), entre tantos outros que se dedicaram ao difícil mister. Quanto à reunião da correspondência de Debussy, Lesure empreendeu um trabalho de longo fôlego, inicialmente introduzindo imagens nas duas obras da década de 1970, “Claude Debussy – iconographie” (Genève, Minkoff, 1975) e “Claude Debussy – Lettres” (Paris, Hermann, 1980). Desse período até a publicação de “Claude Debussy – Correspondance – 1884-1918” (Paris, Hermann, 1993), dezenas de outras missivas manuscritas seriam divulgadas (vide blog: “Claude Debussy e a atividade epistolar”, 11/01/2020). François Lesure continuava a pesquisa com vistas à publicação da correspondência completa – provisória, se considerada sua opinião sobre catálogos, quando vem a falecer aos 78 anos, em 2001. O trabalho hercúleo de François Lesure seria completado pelo seu ex-aluno Denis Herlin juntamente com Georges Liébert (Paris, Gallimard, 2005). Ainda no universo de Debussy, Lesure foi o criador e supervisor da edição crítica da obra completa de Debussy pela Durand-Costallat, com muitos volumes já publicados, mas em andamento há décadas.

Durante as várias viagens a Paris para pesquisas relacionadas a Debussy, destaco a importância de Myriam Chimènes, a quem François Lesure confiou, a partir de 1984, a responsabilidade do “Centre de documentation Claude Debussy” por ele criado, convidando-a a fazer parte do comité de redação da Edição crítica das obras completas de Claude Debussy, acima mencionada. François Lesure foi seu orientador da tese de doutorado, a ter como tema “Khamma, ballet de Claude Debussy, Histoire et Analyse” (Université Paris IV, 1980).

No próximo blog abordarei as três viagens de François Lesure ao Brasil (1988, 1990, 1997) para conferências, entrevistas, avaliação do Departamento de Música da Universidade de São Paulo e participação em banca de livre-docência na mesma instituição.

François Lesure, bibliographer and one of the leading musicologists of the 20th century, passed away twenty years ago. Professor at the École Pratique des Hautes Études and curator of the Music Department of the Bibliotèque Nationale in Paris (1970-1988), François Lesure specialized first in 16th and 17th centuries music and later in Claude Debussy. His researches, which resulted in fundamental books, place him as the most representative scholar on the French composer in the second half of the 20th century.

Recepção ao filme reflexivo

Sempre tive a necessidade não só de tocar,
mas de escrever.
Alfred Brendel (1931- )

Foram inúmeras as mensagens - de músicos ou não - sobre o post anterior. Alguns já tinham visto “A última nota”. Todos os leitores que privilegiam o blog, o que muito me honra, teceram comentários positivos sobre o filme.

Chamou mais atenção o drama enfrentado pelo personagem ficcional, pianista Henry Cole, que, após décadas de carreira consagrada, entende o momento de finalizá-la. Curiosamente, o medo do palco foi pouco mencionado. Ele é real e interrompeu muitas carreiras, inclusive teria sido motivo fulcral para a decisão final de Henry Cole, o pianista protagonizado por Patrick Stewart.

Entre as tantas mensagens, destacaria a do advogado Pedro de Almeida Nogueira, que, ao mencionar uma frase minha interrogativa, constrói um conto pertinente e sugestivo, a abordar uma atividade hipotética. Com a permissão do autor transmito aos leitores o texto citado, pois ao longo da existência assisti a muitos casos de aposentados que exerceram as mais variadas funções e que se afastaram das cidades grandes para viver a tranquilidade em outras bem menores ou ainda no campo, na montanha ou no litoral.

De meu questionamento, surgiu: “Hoje a provocação e o estímulo foram grandes, quando disse: ‘Qual o momento a se pensar no encerramento de uma carreira?’. E escrevi:

QUEM ACREDITA NUM VELHO

Quando o nível de cansaço e estresse chegou ao limite e passou a influir na razão, comecei perder o equilíbrio e, antes de sucumbir, resolvi deixar tudo; os amores, a moradia, a cidade, os amigos, e o trabalho! Abandonei a profissão. Não entreguei os pontos, fui vencido. Sabe do avião em estol? Do motor que funde? Do atleta que cai sem fôlego? Do barco à vela sem vento? Pois bem, qualquer um desses era exemplo de meu estado! Tornei-me irritadiço e não queria mais ouvir explicações. Até desacreditei dos incentivos e fechei a porta do mundo que havia conquistado. Fui ou fugi para um lugar distante e bem modesto, onde não conhecia ninguém. Ali sabia que não seria aconselhado, cobrado, perguntado ou bajulado, nem estava com vontade de conversar.

Queria esse lugar! Onde eu pudesse ser eu nu! Necessitava me conhecer sem influência e sem influir, por isso a intenção de omissão e esconderijo.

Nesse novo lugar e sozinho, não teria que dar satisfações e ter obrigações. Poderia contemplar a natureza sem reserva prévia e a qualquer momento tomar um café sem formalidade, comer sem hora, tomar uma bebida em casa, no botequim, na conveniência ou onde fosse, sem ninguém acompanhando.  Iria ouvir animais e pássaros e não buzinas.

Consegui o lugar muito modesto e no desterro pensei em escrever. Ocupar o tempo com alguma coisa que gosto de fazer e sem obrigação: artigos, poesias, peça teatral e um livro!  Sempre tive muita vontade de escrevê-lo: o tema não faltava. Escolhido, a ele me dediquei dias e noites sem me encontrar. Nunca estava bom; escrevia e apagava com enorme frequência e velocidade de fazer inveja a Penélope. O tempo começou a fazer provocações e a esmorecer o entusiasmo de ficar só. Comecei a me sentir inútil. Comecei pensar na necessidade de tirar o pijama nas manhãs.

O cansaço das atividades desenfreadas de outrora passou e veio a reflexão de que perdera a credibilidade conseguida à custa de muito sofrimento e trabalho dedicado.  A ausência dos filhos e netos começou a incomodar. Por todo lugar que passava via avôs acompanhados. Amigos visitando amigos. Gente jogando conversa fora nos bares e restaurantes. Percebi que o arquivo da memória se descortinava diante de uma simples foto vista até sem querer ou do nome de alguém ouvido por acaso, lembrando-me de um amigo abrindo o palco do passado. Comecei a ter sistemáticas e doces lembranças que só provocam saudades, justo dessas que são só ‘mardade’, como diz Genésio de Arruda. Só agora entendi que estava em solidão, porque no primeiro momento foi gratificante ir ao banheiro com a porta aberta, como disse Antônio Maria, mas com o tempo fui percebendo que estava no mundo dos excluídos. Que lugar cinzento! O que adianta a privacidade estando a sós; muito melhor eram as interferências. Então porque ficar na solidão, se caminho com meus próprios pés? Simplesmente pela perda do elo, da interação com a profissão e a certeza de saber impossível retomá-la. Quem sai tem o lugar preenchido e o substituto impõe novo ritmo, fazendo obsoleta a volta de quem foi. Na vida não há vazios e ninguém é insubstituível.

É verdade que conceitos se incorporam às pessoas e por eles são elas rotuladas, mas com o tempo perdem a validade, principalmente sem o renovar do convívio. Até os conceitos ficam ultrapassados e passam a servir apenas de exemplo ou, quando muito, de apoio para uma afirmação. Sem atividade envelhecemos e perdemos a credibilidade.

Hoje penso que deveria ter lutado contra o stress, pelo menos para não abandonar tudo, e ter esperado pelo momento certo de encerrar a carreira!”

Todos os pianistas têm o seu dia D, programado ou alongado, quanto ao término da carreira, o que não ocorreu com Mônica de la Bruchollerie (1915-1972) e William Kapell (1922-1953), acidentados em estrada (1966) e em queda de avião, respectivamente, ou mesmo Solomon Cutner (1902-1988), que em plena carreira teve problema cardiovascular a comprometer um dos braços, décadas antes de sua morte. Nesses três casos o dia fatal, a encerrar carreiras gloriosas, foi abrupto. Aqueles que prosseguem, mesmo no declínio, são reverenciados pelo público como lendas, apesar de problemas técnico-pianísticos e falhas de memória não raras. Saber o momento de parar reflete ato de sabedoria. Nos primeiros anos deste século, o afinador do Palais des Beaux Arts de Bruxelas, Taki, afinava o piano durante os três dias de minhas gravações em Mullem. Tinha eu sessenta e tais anos e Taki me afirmou que, quando afinava o piano para as apresentações do notável pianista Alfred Brendel (1931- ), este ficava ao seu lado, a observar os mínimos detalhes. Nas nossas conversas, disse-me Taki que Brendel lhe afirmara que encerraria a carreira, em plena forma certamente, aos 75 anos. Finalizou-a aos 77, em 2008. Essa determinação pragmática merece louvor. Ao se aposentar diria que sessenta anos de carreira foram bem suficientes. Ao jornal Daily Telegraph, declararia: “”Mapeei exactamente o que faria quando me aposentasse. Durante muito tempo tive uma vida literária – não um passatempo, uma segunda vida – e é bom continuar a dar aulas e a escrever de uma forma mais focalizada”. Essa determinação expressa por Brendel longe está do pensamento da maioria dos intérpretes, que, indecisos quanto ao afastamento ainda no domínio do teclado, fazem-no por problemas acentuados pela idade, assim como dificuldades motoras outras, perda progressiva da visão ou alteração na audição. Neste caso específico, Sviatoslav Richter (1915-1997) sentiu disfunção auditiva relacionada à exatidão da altura dos sons registrados na partitura.

Empresas e serviço público têm suas regras para que, independentemente da vontade, o afastamento se processe. Para o músico não engajado em qualquer das duas opções elencadas, a decisão individual será a porta aberta para outros caminhos que preencherão a existência ou para a solidão do pensar, que pode levar a um futuro nostálgico. Sob outra égide, se deixou um legado através das gravações ou de textos relevantes, será lembrado pelas gerações de aficionados.

I received countless messages praising the Canadian movie “Coda”. In one of them, the lawyer Pedro de Almeida Nogueira sends a story based on my questioning about the moment of saying farewell to the public. To conclude, I comment further on this decisive moment in one’s career.