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Uma releitura a trazer certezas

A música não é um fenômeno da natureza.
Ela é produzida pelo homem. É uma arte.
Igor Stravinsky

Paulatinamente estou a catalogar meus livros sobre música. Tarefa longa que, felizmente, não realizo isoladamente. Nossa vizinha e amiga Regina Maria, revisora de meus textos semanais e responsável pelos abstracts, tem-me ajudado com eficácia.

A minha faixa etária faz-me enfrentar essa redescoberta, pois muitos livros, apesar de lidos e anotados, não recebiam meu olhar há décadas. Curiosamente, como escreveu meu amigo António Menéres: “Sempre que posso olho os meus livros, quer as lombadas simplesmente cartonadas, a sua cor, os títulos das obras; mesmo sem os abrir adivinho o seu conteúdo e, quando os folheio, reconheço as leituras anteriores, muitas das quais estão sublinhadas, justamente para me facilitar outros e novos convívios” (vide blog “Crônicas contra o esquecimento”, 03/08/2007). Centenas de livros sobre música, a maioria profusamente sublinhada, estão sendo catalogados por ordem alfabética e por categoria. Trabalho lento e que requer atenção redobrada. As primeiras leituras musicais datam do início da década de 1950. Àquela época, música e aventuras por terras e mares desconhecidos eram as minhas preferidas. Somei com o tempo outras preferências.

Ao retirar de uma prateleira os dois primeiros dos quatro volumes de “Plaisir de la Musique” (Roland-Manuel avec la collaboration de Nadia Tagrine – Paris, Aux Éditions du Seuil, 1947-1950), recordei-me da leitura durante os anos parisienses (1958-1962). Folheei-os no presente e instantaneamente os temas voltaram transparentes à memória. Deduzo, sessenta anos após, tratar-se de verdadeiro manancial. “Plaisir de la Musique” é o resultado de entrevistas radiofônicas conduzidas pelo compositor, professor e crítico musical Roland-Manuel (1891-1966), com a colaboração da pianista e professora Nadia Tagrine (1917-2003), durante as quais figuras exponenciais da música em França colocavam suas posições. Os capítulos dos livros seguem uma orientação clara e, basicamente, de maneira agradável e competente, os dois notáveis entrevistadores perpassam parte substancial dos problemas a envolver a Música, sua História, interpretação, instrumentos, técnica e teoria, compartilhando com os ouvintes dos ilustres convidados as conversas sobre música clássica ou erudita transmitidas ao vivo aos domingos. O público participava e os programas eram transmitidos diretamente da Salle Favart, em Paris. A programação estendeu-se de 1944 a 1966. Havia a audição de composições mencionadas durante o decorrer das entrevistas. Ao leitor diria que, entre os entrevistados dessa programação radiofônica, há nomes que perduraram pela excelência: Francis Poulenc, Henri Dutilleux, Arthur Honegger, Jacques Chailley, Marc Pincherle, Claude Rostand, Jean Rivier, Henri Barraud e tantas outras relevantes figuras. Durante as entrevistas, os convidados abandonam o tom professoral, transmitindo ao público, aos ouvintes e aos futuros leitores a essência de temas fulcrais que se tornam bem palatáveis ao se ler os livros em questão. Todavia, há profundidade nas abordagens, a revelar que não há necessidade do discurso tantas vezes enfadonho das Academias, camuflagem a evidenciar a ausência do raciocínio lógico e transparente.

No primeiro volume, os envolvidos debatem em cada programa problemas essenciais relativos à Música: De onde vem a música? Porque a realizamos? A seguir, compartimentam os vários instrumentos e discutem suas características. A cada domingo o convidado especialista expressava suas opiniões profundas, mas de maneira palatável. Como exemplo, ao notável compositor Francis Poulenc foi destinado o Piano como tema. De maneira tranquila Poulenc afirma sua predileção. A uma indagação de Roland-Manuel sobre o compor ao piano de maneira natural, Poulenc diz ser questão de temperamento e que ele sempre o fez desde a infância, como aliás Stravinsky e tantos outros. A conversa a três se prolonga com várias citações históricas, qualidades estilísticas dos compositores que escreveram para piano, capacidade do instrumento, a importância dos pedais como recurso sonoro e a maior dificuldade durante a interpretação representada pelo pianissimo ou as baixas intensidades. Poulenc observa as heranças musicais “transmitidas” por Chopin e Liszt para Debussy e Ravel, respectivamente.

Um tema recorrente em tantos dos meus blogs ao longo de mais de uma década concentra-se no repertório não frequentado. Roland-Manuel abre um de seus programas com frase de Debussy sobre a glória de um autor desconhecido vir a ser redescoberto. A seguir, menciona Georges de Latour (1593-1652), pintor no reinado de Louis XIII, célebre no período e esquecido durante os três séculos subsequentes, mas hoje uma das glórias do Louvre. A partir do exemplo e de intervenções de Nadia Triguine, Roland-Manuel comenta que temos hoje (década de 1940, no caso) “maior curiosidade sobre o passado do que nossos pais. Interessamo-nos pela música dos séculos XV e XVI e temos prazer nesse mister, inclusive na escuta do canto gregoriano”. O ilustre convidado Claude Rostand (1912-1970), musicólogo, musicógrafo e crítico musical, acrescenta realidade tão presente ainda hoje, setenta anos após: “O espírito rotineiro, o medo da aventura são, infelizmente, difundidos, mesmo na juventude. Pude comprovar recentemente a assertiva na Comissão literária das ‘Juventudes Musicais’, empreendimento aliás digno de interesse. Propusemos aos jovens delegados inscrever em seus programas algumas obras distantes da rotina ordinária. Responderam que não seria possível, pois não gostariam de ouvir músicas desconhecidas”. Roland-Manuel acrescenta “Infelizmente! Eis um vício burguês. Hesitamos viajar pelo fato de sermos prisioneiros de nossos hábitos. Amamos a música e nos esquecemos que não há verdadeiro amor sem risco. Amamos Debussy e nos contentamos em ouvir L’Après-midi d’un Faune. Todavia, quem se preocupa em ouvir Gigues?” ( Gigues -1909-1912 – é a primeira peça das Images pour orchestre de Debussy). Entrevistado, o compositor Henri Barraud (1900-1997) observa algo que era bem sentido na sociedade francesa que frequentava concertos “Infelizmente, o francês da classe média considera a música uma coisa morta. Não parece singular que esse mesmo público, que não lê livros antigos e que raramente assiste às tragédias clássicas, limite sua curiosidade musical às grandes obras do romantismo alemão?”

A leitura de “Plaisir de la Musique” provoca momentos de verdadeiro prazer, como bem atesta o título dos livros. Nessas entrevistas, Rolland-Manuel e Nadia Tagrine perpassam a História da Música, os elementos constitutivos da escrita musical, os instrumentos e suas peculiaridades, discutem Estética, Estilo e Sociedade de maneira natural só possível se a competência plena existir, transmitindo autenticidade e confiabilidade. A formação musical e humanística de todos os envolvidos na programação, entrevistadores e convidados, não os faz hesitar. Sob outra égide, as temáticas precisas e por vezes técnicas apenas dimensionam a qualidade dos programas. Felizmente o livro, quando tesouro, torna-se essência essencial para o aprimoramento humanístico. Por maiores que sejam os avanços da tecnologia, o livro deverá permanecer como guardião do conhecimento.

Estou a me lembrar de ter frequentado durante três meses (1º de Fevereiro- 30 de Abril de 1959) curso de Estética Musical ministrado pelo eminente Roland-Manuel no Conservatoire National de Musique, na Rue de Madrid em Paris. Impressionou-me sua vasta cultura multidirecionada. A seguir interessei-me não unicamente pelo piano – fulcro central –, mas por outras áreas musicais e humanísticas, passando a adquirir doravante livros pertinentes, lidos e anotados e que presentemente visito com renovado prazer, a fim da catalogação.

No próximo blog comentarei a participação de dois ilustres compositores, Henry Dutilleux (1916-2013) e Arthur Honegger (1892-1955). Entrevistados por Roland-Manuel e Nadia Triguine, de maneira transparente, debatem temas musicais relevantes.

The post of this week addresses the book “Plaisir de la Musique”, derived from a radio broadcasting that took place every Sunday at the Salle Favart, in Paris, from  1944 to 1966, hosted by composer and critic Roland-Manuel and pianist Nadia Tagrine. The pair has invited prominent figures in French classical music to talk about music: its history, instruments, styles, aesthetics, elements of music writing. Among the personalities invited we can mention Francis Poulenc, Henri Dutilleux, Arthur Honegger, Jacques Chailley, Marc Pincherle, Claude Rostand, Jean Rivier and Henri Barraud. All of them speaking in a language accessible to a l ayperson, without jargon-filled vernacular. Depth without pedantry. Re-reading the book has been a real pleasure that reminded me of Vargas Llosa’s views on the decline of culture.  Radio programs such as “Plaisir de la Musique” do not exist anymore because culture today tends to be just entertainment and frivolity.

O mistério a envolver a origem originária

A inspiração não é condição da criação: ela o é de fato.
Jean Rivier (1896-1987)
Compositor francês

Teria sido de Claude Debussy o posicionamento a admitir que só escrevia movido pela absoluta necessidade de compor. A vontade de conduzir o pensamento a um resultado poderia também ter um impulso telúrico, como viria a escrever Guerra Junqueiro, ao admitir não fazer versos “por vaidade literária. Faço-os pela mesma razão por que o pinheiro faz resina, a pereira, peras e a macieira, maçãs: é uma simples necessidade orgânica”.

Ao longo dos séculos continua-se a discutir a origem da inspiração ou a sua ausência. A partir da segunda metade do século XX, mais acentuadamente tentou-se descaracterizar a criação como atitude romântica ou mística, originária de conceitos voltados aos sentimentos ou à espiritualidade. Essa posição, mais vigente outrora, ficaria evidente em quantidade de missivas escritas por compositores e literatos, a depender de engajamentos sensoriais às duas possibilidades apontadas, entre outras.

Parece evidente que a inspiração sensorial, preenchendo títulos de composições, indicaria que um lampejo ou visão acompanhava o desenrolar da criação. Clémet Janequin (1485-1558) inspirou-se na poesia ou na natureza para compor suas canções polifônicas, como Le Chant des Oiseaux, Les Cris de Paris, Le chant de l’Alouette, La Chasse, La Guerre ou La Bataille de Marignan, entre tantas. Batalhas que seriam vertidas para o papel pautado por Johann Kuhnau (1660-1722) em suas célebres Sonatas Bíblicas. Se os cravistas franceses, entre os quais figuram especialmente François Couperin (1668-1733) e Jean-Philippe Rameau (1683-1764), penetraram plenamente no universo descritivo e as titulações de suas peças testemunham essa prática, não menos significativa é a adesão aos sentimentos. Couperin, em suas inúmeras suítes, denominadas “Ordres”, recorre insistentemente ao apelo desse visual ou da interiorização dos sentimentos. A seguir, Rameau, em peças como La Poule, La Boîteuse, Le Rappel des Oiseaux, Les Tendres Plaintes, obtém ao cravo a “reprodução” do gesto, do som emitido pelas aves domésticas ou da lamentação humana, como fontes que levaram às suas criações.

Franz Liszt (1811-1886) saberia aproveitar no limite extremo o contexto enredo-música, sem se descartar a explosão dos sentimentos. As titulações que imprime em suas composições evidenciam o pensamento literário ou seguem escolha puramente pessoal. As duas lendas franciscanas para piano induzem o ouvinte a ouvir gorjeios de passarinhos rodeando S. Francisco de Assis ou a imaginar mar revolto na travessia sobre as ondas de S. Francisco de Paula. A cavalgada, no magnífico Estudo Transcendental Mazeppa, transforma o piano num frenesi fantástico. Hector Berlioz (1803-1869) conduz o ouvinte à viagem mágica em sua Sinfonia Fantástica. Os dois, ao comporem, já pressupunham a ação após a origem misteriosa, a ideia que leva à criação. Chopin (1810-1849) atinge o limite extremo desse externar sentimentos e a aceitação plena de suas composições testemunha a assertiva. Não há o programático como procedimento utilizado pelos seus coetâneos citados, mas o abstrato de suas titulações apreende terminologia corrente. Não menos imbuído de pleno romantismo, as inspirações de Robert Schumann sofreriam um forte apelo literário.

Durante décadas as composições de Claude Debussy estiveram sob a égide do termo impressionismo, que na realidade o autor negava. Foi mais acentuadamente após exaustivos aprofundamentos do saudoso amigo e notável musicólogo francês François Lesure (1923-2001) que se passou a considerar efetivamente Claude Debussy (1862-1918) como um compositor envolvido substancialmente com o movimento simbolista. Considere-se que sua “inspiração” tantas vezes surgiu da visão da natureza ou foi consequência de leituras, mormente a poética. Debussy sugere, não impõe, e em carta à sua mulher, Emma Bardac, não admitiria até uma retificação de título de um determinado Prélude para piano?

O compositor e professor belga André Souris (1899-1970), em “Conditions de la Musique”, menciona fato curioso ocorrido com seu conterrâneo, o também compositor Fernand Quinet (1898-1971), que, ao ser questionado por uma senhora idealista, segundo Souris, sobre o que ocorria no ato de compor, recebeu como resposta “é bem simples, exatamente como a senhora durante a preparação de uma sopa”, o que a deixou vexada. Souris acrescenta que, apesar de “ignorarem as práticas verdadeiras da composição, confere-se a elas um caráter misterioso, mágico, completamente distante do comportamento cotidiano do comum dos mortais”.

O compositor e musicólogo francês Roland-Manuel (1891-1966) com cautela observa: “penso, como Stravinsky, que esse problema emotivo, denominado impropriamente inspiração, não é, como se crê, a origem do ato criador. Trata-se de uma reação emotiva que acompanha a proximidade da descoberta”.

O termo inspiração é entendido por muitos compositores hodiernos como pejorativo, pois o compreendem como destituído de relevância. Contudo, mesmo a se considerar três compositores basicamente na mesma faixa etária, pois nascidos na década de 1960, François Servenière (1961 – França), Eurico Carrapatoso (1962 – Portugal) e Maury Buchala (1967 – Brasil), mas com escritas distintas, o primeiro a eleger, entre aqueles que o influenciaram, Debussy e Ravel; Carrapatoso a encontrar na música polifônica portuguesa dos séculos anteriores a fonte segura para algumas de suas criações mais significativas; Buchala a sorver ensinamentos decorrentes das tendências que fluíram em França mais acentuadamente a partir da segunda metade do século XX, o termo inspiração pode ter interpretações diferenciadas. Como exemplos, mencionaria de Servenière as Tribulations d’un Écureil Lambda (2002), testemunho claro da existência da inspiração, como descreve o próprio autor: “Passeando em torno de um de meus lagos preferidos, repentinamente deparei-me com um esquilo. A ginástica criada pela agonia do roedor frente à minha presença deixou-me espantado, divertiu-me e após, inspirou-me. Aquele esquilo lambda, assim passei a designá-lo, tornar-se-ia imediatamente 7 peças transcendentes para piano, que acompanham o esquilo do amanhecer ao crepúsculo. Como todas as minhas composições para meu instrumento, a inspiração surge diante do teclado. Não é o caso de meu trabalho orquestral, onde o lápis e a partitura são os únicos mestres”. Carrapatoso, ao escrever a “Missa sem palavras” para piano partindo do texto canônico, nele tendo a inspiração, não o verbaliza. “Este texto sacro refulge no fragor bronzino do latim. Escrito na partitura, faz dela parte intrínseca. Mas não será verbalizado no sopro da voz. Está lá para dele ser feita uma leitura íntima, secreta”, como afirma o autor. Buchala adquiriu o domínio escritural em grande parte a partir do acervo de ascendentes musicais escolhidos. A inspiração viria de esmerada seleção e, ao escrever, tem também a noção do fragmento, essa possibilidade cara para tantos compositores, inclusive Debussy. Em mensagem enviada, Maury Buchala explica suas ascendências musicais: “A reflexão sobre a inspiração na concepção de uma obra vem do fato de um acúmulo de experiências musicais vividas. No meu caso, a música depois dos anos 50 foi um fator relevante para isto. Fui influenciado principalmente por Boulez, Ligeti, Carter. Diria que esta influência compreende também o aspecto formal com a utilização de fragmentos na construção da forma global nas minhas obras”.

O compositor Gilberto Mendes (1922-2016), ao compor O Pente de Istambul para vibrafone, marimba e percussões (1990), obra que seria apresentada em festival na Alemanha a partir de convite do percussionista Carlos Tarcha, poucos dias antes da performance recebeu telefonema do músico, preocupado com a ausência de um título para a composição. Falava ao telefone quando sua esposa Eliane diz-lhe que encontrara “o pente de Istambul”, objeto de plástico comprado na cidade durante viagem do compositor à Turquia. Imediatamente transmitiu ao percussionista o título da peça. Como a escrita da composição se daria muito bem ao piano, pedi a Gilberto uma versão. Durante a escrita um amigo meu viajou para a Turquia. Pedi-lhe que me trouxesse um pente mais sofisticado. Ao regressar de Istambul com o belo exemplar, ofereci-o a Gilberto. Dias após entregou-me a versão com o título O Pente de Istambul. O outro. O compositor francês Éric Satie (1866-1925) não empregou inúmeras vezes títulos aleatórios? Apesar de partir de uma ideia precisa para as suas composições (inspiração?), Gilberto Mendes tinha certo prazer em criar titulação inusitada. Fê-lo muitas vezes.

Acredito na inspiração. Parece-me que, assim pensando, dá-se uma determinada aura à criação. Existindo ou não, o ato inspirador será benvindo, tanto para o compositor como para o intérprete.

This post discusses the role of inspiration – or its absence – in classical music creation.

 

O compositor frente ao desafio musical permanente

Musica movet affectus, provocat in diversum habitus sensus.
(A Música desperta afetos e provoca diversos sentimentos e atitudes)
Santo Isidoro de Sevilha
(560-636)

O blog anterior suscitou por parte dos leitores-ouvintes uma série de considerações. A escuta dos “Études Cosmiques” para piano de François Servenière, obra inspirada nas telas do saudoso amigo e pintor de tantos méritos Luca Vitali, fez com que, independentemente das opiniões concordantes a respeito da qualidade da coletânea, a tão decantada “emoção” viesse à tona.

Um dos temas que serviu para discussões acaloradas ao longo dos séculos, mormente a partir da segunda metade do século XIX, foi o que se refere à música como possibilitadora da transmissão de sentimentos. Mencionei Jean-Philippe Rameau no blog precedente, que afirmaria que “a música é a linguagem do coração”. Eduard Hanslick (1825-1904), escritor e crítico musical austríaco, mas nascido na Boêmia, foi um dos mais influentes críticos do século XIX e defensor ferrenho da denominada “música pura”, em detrimento da música direcionada aos sentimentos, ao programático ou mesmo ao descritivo, a primeira a ter seu amigo Brahms como exemplo e, para a segunda, mais acentuadamente Liszt, Berlioz, Wagner, Bruchner… Hanslick afirmaria em sua obra capital datada de 1854, “Vom musikalisch-Schonen” (“O Belo Musical”), que “o efeito da música sobre o sentimento não possui nem a necessidade, nem a exclusividade, nem a continuidade que um fenômeno deveria apresentar para poder estabelecer um princípio estético”. Paradoxalmente, Hanslick, a partir de seu “formalismo”, pode ser entendido como um dos pioneiros dos conceitos abstratos que levariam a determinadas tendências que, oriundas das primeiras décadas do século XX, hoje são bem diversificadas e mutantes.

Após tecer considerações sobre as propostas composicionais de Servenière em sua produção, focalizando, no caso, os sete “Études Cosmiques” + “Outono Cósmico” para piano, acrescentaria que, durante sua formação, transitou por várias tendências. Recebi do autor dos Estudos comentários sobre o blog anterior. Antes de traduzir sua mensagem, transmitirei ao leitor a posição do compositor francês Serge Nigg (1924-2008), primeiro a compor obra dodecafônica em França e admirado no período. Tendo abandonado tendência “cultuada” e vigente no país, escreve: “desgraça ao músico que não sentiu a necessidade de aderir aos princípios da escritura serial dodecafônica; taxado por sua inutilidade, era ele condenado ao silêncio ou à execração pública. O mais extraordinário é que tínhamos a certeza de estar agindo em nome de uma liberdade a ser ganha. Vivíamos a ilusão de formar a elite musical de nosso tempo. Daí pois, se o povo não estivesse contente com a sua elite, era simples, mudar-se-ia o povo” (“Serge Nigg, compositeur”, série Temoignages, nº 3, Université Paris-Sorbonne, OMF, 2010).

De maneira franca, Servenière abre-se na mensagem enviada. Sabe também dos percalços que passou e continua a sofrer, mas é cônscio do valor de sua obra. Tem interesse a autoavaliação de um compositor. Muitos a fizeram. A revelação implica o desvelamento de tantos anseios guardados secretamente. Nesse espaço, não poucas vezes comentei a qualidade do compositor francês, mormente na área que me é mais afeita, a pianística, considerando a qualidade inquestionável de sua escrita transparente, hodierna e inovadora, mercê de acervo conquistado no labor de décadas. Escreve Servenière:

“Não esperava tamanho elogio de sua parte. Agradeço-lhe o post bem pensado a respeito de meu labor como compositor. As pinturas de nosso saudoso amigo Luca Vitali estão muito bem apresentadas. Fico feliz ao lê-lo comentar que minha escrita pianística é referência para nossa época, seguindo a tradição do piano que foi edificada por pianistas e para as mãos de pianistas. Faço-lhe uma confidência. Em nenhum momento, durante a escrita dos “Études Cosmiques”, atentei para a compatibilidade do que estava a brotar com a física de minhas mãos. Meu cérebro de músico foi calibrado para essa maneira de compor, a pressupor, em vários momentos, a plena abertura das mãos. Seus comentários são pertinentes.

No que concerne à minha carreira, sou consciente do que realizo e de ter escolhido um caminho menos visível, comparado ao de tantos confrades que estão sempre buscando os holofotes e o ouro advindo da divulgação, não apenas na criação da música contemporânea como na voltada à música ligeira. Sou consciente igualmente de que minha obra, completamente diferenciada daquela solicitada ainda hoje aos compositores ditos acadêmicos, permite-se ser original, apesar de, paradoxalmente, estar ligada à filiação do passado. Portanto, não compreendo a atitude do criador musical, como o exemplo que você rememora ao tratar do encontro com o compositor inglês, premiado em concurso de composição, que negligenciou completamente a filiação com o passado, criando, na realidade, uma obra impossível de ser tocada!!! E de pensar que todo o caminhar da música pela história, monodia, polifonia, harmonia e seus desdobramentos, até processos mais enxutos como o minimalismo, têm origem!!! Se recusarmos a gênese – mencionemos Pitágoras -, por que não recusar o fogo, a roda, a pólvora e toda a civilização a que pertencemos?

Breve, se bem que isolado em minha época, afastei-me da música contemporânea francesa ligada às Instituições proclamadas, pela qual tinha absoluta idiossincrasia, retomando os caminhos do passado (século XIX até 1950), continuando a trilhar o meu, a buscar aumentar as conquistas do século XX, ampliando-as através de projetos inusitados no senso literal do termo (ainda não apresentados ao público). Isso se apresenta em minha obra orquestral, sobretudo aquelas após o início deste século. Entre meus eleitos do século passado mencionaria Ravel, Stravinsky, Debussy, Prokofiev, Scriabine, Dutilleux. Sinto-me continuador das conquistas deste último. Todavia, não sou tão ousado como Dutilleux, pois não sou uma criança que passou pelas guerras, sendo que minha obra está mais voltada à empatia harmônica com os humanos e sua escuta agredida pelo mundo atual. Buscarei criar obras mais voltadas ao belo e menos ao horror, incluindo denúncias à barbárie, etc. Tecnicamente eu me sinto próximo dessa maturidade de escrita. Tudo o que escrevo para orquestra a partir de agora inscreve-se nessa linha, não ao nível da harmonia, para mim mais clássica, mais jazística, mais sincera, diria, mais temática e menos pasteurizada. Sob o prisma da construção mental, encontro-me nessa clareza bem francesa. As minhas obras precedentes, aquelas de antes da entrada do novo século, eram obras da juventude, fundamentos essenciais para as criações da maturidade.

Sob outra égide, seu texto me fez refletir sobre minha carreira, pois preciso policiar-me para não ser um compositor exclusivamente ‘para piano’. Mercê de minha formação bem acadêmica sou vocacionado para orquestra. Tenho um espírito profundamente polifônico, o amálgama com a harmonia é o meu hobby. O piano é o instrumento rei, o meu, adorando-o mais do que todos, tornando-se pois a alavanca essencial de minha inspiração. Não obstante, não tenho nenhuma vocação intimista em minha arte. Confesso-lhe que também não sou vocacionado para a música de câmara. Dedico-me, sim, a compor para orquestra, desde a juventude. É certo que a composição para orquestra custa muito mais com vias à produção e à consequente apresentação. É minha armadilha atual, pois há a necessidade da notoriedade para que criações orquestrais sejam difundidas. Não tenho Conservatórios à minha disposição, nem contrato de residência junto às orquestras, consequentemente torna-se imperioso buscar novos caminhos para começar essa nova fase de minha vida de músico, a última.

O seu blog, incrivelmente ditirâmbico, sobre os ‘Études Cosmiques’, levou-me à reflexão profunda durante umas boas horas, pois a minha verdadeira vocação estaria colocada ultimamente um pouco de lado, graças ao acúmulo de outras obrigações criativas e materiais dos últimos anos. Todas essas obrigações conduzem-nos a repensar nós mesmos, nossas aspirações, nosso de profundis que a modernidade com suas atribulações, leva-nos a deixar em segundo plano. Todas as problemáticas recaem sobre pais criativos e artistas, e essas se concentram em nossos caminhos tão particulares. Obrigam-nos a nos colocar sempre em questão de maneira permanente, permitindo-nos fixar limites, encruzilhadas, caminhos a apreender, aspirações que remontam à infância na lista de nossas prioridades. A vida é curta e passa diante de nós numa velocidade infernal. O fato de ter-me tornado avô amplifica essa tomada de consciência. O que pode se passar no seu espírito, meu caro amigo, ao ter-se tornado bisavô?”. Tradução: JEM.

Fica o registro sincero e raro de um músico pelo qual tenho a maior admiração não apenas como grande músico que é, mas também como pensador de respeito e figura humana ímpar.

In an almost confessional tone, the French composer François Servanière talks about his career, his penchant for writing orchestral music, the value of his work and the awareness that all choices must be paid for. A sincere and rare account of professional achievements made by a great composer, intellectual and human figure whom I greatly admire.