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Qualidade repertorial a contradizer silêncio da mídia

Será necessário que o intérprete moderno
tome para si a responsabilidade de completar
a leitura de um manuscrito imaginando
mil pormenores que escapam à notação.
André Souris
(“Conditions de la Musique”)

Que repertório qualitativo pouco frequentado fica a depender de tantos fatores voltados à divulgação é fato. Estou a me lembrar que nos anos 1970 dei palestras em Goiânia sob o patrocínio da MUZIKA, escola de interpretação e dança, a abordar o tema do repertório não visitado pelos intérpretes, mesmo a merecer, pela qualidade, ampla divulgação. Décadas se passaram e poderia repetir as palestras sem nada alterar, mas com uma agravante, a decadência cultural atingiu a divulgação das apresentações de música erudita, mesmo que, em menor escala, programada com autores consagrados. Se isso está a ocorrer, mais sensivelmente o repertório pouco conhecido está fadado a ações voluntárias esparsas. A mídia brasileira dá ínfimo espaço à música erudita. Para as obras de extraordinário valor, mas ainda pouquíssimo divulgadas, a situação é quase caótica.

Considerando-se autores consagrados e presentes nos programas durante séculos, qual a razão para que, das 32 Sonatas para piano de Beethoven, apenas uma dezena seja insistentemente visitada? Seriam muitas outras inferiores? Repetidamente interpretadas, essas tantas Sonatas adquirem uma aura diante do público, possibilitam a insistente reescuta, motivam a comparação que os leigos fazem da execução de um intérprete frente a outro. Tornaram-se a Mona Lisa de Da Vinci ou o Semeador de Van Gogh. Fato semelhante se daria com as obras sinfônicas, óperas, música de câmara de inúmeros autores. Com uma pinça a história da interpretação retira da opera omnia de um autor determinadas composições. Eleitas, perduram per saecula saeculorum.

Tendo apresentado décadas atrás as integrais de Jean-Philippe Rameau (ao piano), Claude Debussy, Modest Moussorgsky e Francisco de Lacerda, verifica-se ao longo do tempo que apenas determinadas obras são “pinçadas” e continuarão isoladamente a ser ungidas pelos intérpretes. Independentemente desse pinçamento histórico, concorrem também a repetição repertorial empreendida por professores de instrumento de todo o mundo, que insistem na repetição, assim como concursos nacionais ou Internacionais de instrumento. Fato concreto nesse mister é a seleção que se faz de obras para os concursos. Bem prioritariamente as mesmas criações. De tal compositor podem tais e tais obras, em detrimento de outras persistentemente ignoradas. Qualidade maior das eleitas? Raras vezes. Das cinquenta e tais peças de Rameau para cravo, apenas 10% são visitadas esporadicamente por poucos intérpretes pianistas. E há quantidade excelsa na integral para teclado de Rameau. Considerando-se criações de Debussy, Clair de Lune, Arabesques, La Cathédrale Engloutie e Feux d’artifice como exemplos, caíram no gosto do público. Superior às dezenas de criações para piano do compositor? Certamente a preferência nasceu por circunstâncias do acaso, de títulos poéticos e até misteriosos, ou de outras mais conotações. Se os extraordinários Quadros de uma Exposição de Moussorgsky granjeiam repercussão permanente, as tantas outras pequenas criações para piano, que juntas seriam outros Quadros, permanecem sem a visitação de que seriam merecedoras.

As palavras acima ratificam o pouco interesse pela divulgação de Francisco de Lacerda, mormente a se ter em conta o desconhecimento pleno que se tem em nosso país das suas criações e a pouca frequência na programação em Portugal. Contudo, no pequeno auditório do Ateneu Paulistano da Sociedade Brasileira de Eubiose, a recepção às obras de Francisco de Lacerda, mormente as Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste, foi intensa. Ao multum in mínimo lacerdiano, aqueles que compareceram ao recital reagiram fortemente às mensagens do compositor açoriano no ano do sesquicentenário de seu nascimento.

Diferentemente do que foi feito em várias cidades portuguesas em 2011, em que as apresentações tinham a apoiá-las o power point preparado pelo ilustre professor da Universidade de Coimbra, o musicólogo José Maria Pedrosa Cardoso, na impossibilidade da utilização de uma tela ao lado do piano na acolhedora sala paulistana, verbalizamos as epígrafes e as frases programáticas inseridas por Lacerda em muitas das histórias. Com um microfone, Marta Salles Corrêa de Oliveira, esposa do compositor Willy Corrêa de Oliveira, lia pausadamente os títulos e eu fazia o mesmo com as epígrafes ou frases contidas em certas histórias. Experiência que deu certo e que mereceu muito boa acolhida.

Na segunda parte, Zara – epitáfio para uma criança, do homenageado, e In memoriam Francisco de Lacerda, de Willy Corrêa de Oliveira, amalgamaram-se, pois a também miniatura de Willy fazia alusão a tantas lembranças… Dois dias antes do recital toquei, como ensaio, as Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste de Francisco de Lacerda para Willy em minha casa. Ao findar, o ilustre compositor e pensador apenas disse: “essa obra é um milagre”!

O programa completou-se com a Danse du voile-Danse Sacrée de Lacerda e as célebres Danses Sacrée e Profane de Debussy, na transcrição para piano solo do editor do compositor francês, Jacques Durand.

Fiquei mais uma vez convencido de que, se houvesse guarida da mídia para eventos dessa natureza, em que obras excelsas são apresentadas, o repertório sacralizado e repetido sem limites teria uma injeção de novas partituras de autores que, pelos mais variados motivos, não conseguiram vencer uma barreira sem o menor sentido de existir, mas a permanecer quase intransponível. O desconhecimento de repertório qualitativo não frequentado limita o conhecimento, empobrece as mentes, pois tesouros jamais ouvidos jazem enclausurados nos arquivos das bibliotecas, consultados por especialistas que tantas vezes, após trabalhos acadêmicos, abandonam pesquisa realizada. Fato comprovado e hodiernamente repetido não apenas em nossas plagas.

Apesar da decadência cultural sensível, tem-se de olhar para o desconhecido. Autores qualitativos, mas desconhecidos, atendem à expectativa do público de concerto? Se pensarmos nos Concertos para piano e orquestra, possivelmente não chegam a três dezenas aqueles mais ventilados, sendo que desses uns poucos são ungidos em todas as temporadas espalhadas pelo mundo, fazendo parte de todos os repertórios dos virtuoses que percorrem as grandes salas de concerto do planeta. Como exemplos, dos 27 Concertos para piano de Mozart, poucos são os ungidos; dos cinco de Beethoven, prioritariamente apenas três são exaustivamente interpretados.

Apesar dos problemas seletivos do Youtube, que aceita joio e trigo indiscriminadamente, louve-se o fato de que Concertos antes desconhecidos do grande público ao menos podem ser ouvidos. Se chegarão às salas de concerto, só o tempo dirá.

Nos anos 1970 decidi enveredar por repertórios qualitativos pouco frequentados, do barroco à contemporaneidade. Visitando periodicamente obras consagradas, foi na opção escolhida que encontrei o meu norte. Mídia e Sociedade de Concertos têm suas regras, o que leva o intérprete a aceitá-las. Permaneço nessa partícula repertorial se considerado for o imenso universo composicional basicamente ignorado. É o que sei fazer. Semear fez-me bem. Sementes germinarão? Talvez…

Over time, a few classical pieces have been picked out by interpreters and concert societies, while others have been kept in limbo despite their quality. The public that goes to classical concerts keep hearing the same repertoire again and again, while excellent works remain hidden in museums and libraries. Since the seventies I’ve opted for the seldom played repertoire, trying to bring to light unknown treasures. Last Saturday at Ateneu Paulistano concert hall I performed pieces by composers Francisco de Lacerda, whose works are little known in Brazil, Claude Debussy and Willy Correa de Oliveira, with good reception from the audience. I believe it is rather healthy – for the growth of both performers and public –  to promote new works instead of offering the same alternatives year in, year out. I consider myself a sower scattering seeds. Maybe they will germinate.

Duas manifestações que mereceram especial atenção

Deve-se estar atento às ideias novas que vêm dos outros.
Nunca julgar que aquilo em que se acredita
é efetivamente a verdade.
Fujo da verdade como tudo,
porque acho que quem tem a verdade num bolso
tem sempre uma inquisição do outro lado
pronta para atacar alguém;
então livro-me de toda a espécie de poder – isso sobretudo.
Agostinho da Silva
(Entrevista)

Apesar do desconhecimento que se tem no Brasil da criação musical portuguesa de cariz erudito, tiveram invulgar recepção os dois blogs focalizando o compositor Francisco de Lacerda (1869-1934), neste ano em que se comemora o sesquicentenário do músico nascido nos Açores. Gostariam de conhecê-lo mais. Observei no post precedente que brevemente sua produção maior, as “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, estará no Youtube a partir de minha gravação para o selo belga De Rode Pomp em 1999, com power point preparado pelo ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso e a montagem do vídeo pelo devotado amigo Elson Otake, responsável pelas inserções de minhas interpretações no popular aplicativo.

Também, em parte, foi em torno de Francisco de Lacerda que o compositor e pensador Willy Corrêa de Oliveira e eu estreitamos laços de amizade, tênues e sujeitos aos nossos humores no intramuros universitário durante décadas. Dez anos de silêncio após nossas aposentadorias e reencontramo-nos, primeiramente em torno de sua preciosa obra “Recife, Infância, Espelhos…”, 16 peças que estreei em 1989 e que foram gravadas em Maio último na mágica capela de Saint-Hilarius em Mullem, na Bélgica flamenga, para CD a ser lançado em França pelo selo ESOLEM em 2020, junto a obras de François Servenière, Eurico Carrapatoso e Maury Buchala. Nos nossos 81 anos, Willy e eu podemos manter conversas unicamente sobre temas que nos são caros, como música, literatura diversa, poesia…, distantes de quaisquer assuntos da tumultuada vida universitária. Esse tête à tête sem interferências burocráticas ou acadêmicas alegrou nossos corações. Insaciavelmente, a buscar resgatar tempos perdidos, trocamos livros, CDs e filmes, avidamente copiados. Octogenários, ainda encontramos tempo para recuperações e avanços. Já mencionei em posts anteriores o desenrolar dessa nossa “tertúlia” dual.

Duas mensagens recebidas, com teores absolutamente diferenciados, despertaram minha atenção em particular. Regina Porto, musicista, jornalista e promotora cultural de mérito, escreveu-me e-mail que me calou muito. Há longos anos não entrávamos em contato, nem saberia precisar a distância temporal. Parece eternidade. Em torno de Willy em longínqua apresentação e de Francisco de Lacerda a ser interpretado, Regina Porto rememora e capta o instante do acontecido presente. A reminiscência, nessa fase da vida, pode representar tantas outras memórias. A mensagem de Regina Porto faz-me lembrar dos símbolos que, passados 30 anos, não dimensionara à altura. Percebo, através da escrita da amiga, que eram marcos de resistência. Diminuto e fiel público, a ouvir a primeira audição de criações do Willy Corrêa de Oliveira num período em que nossos laços amistosos não eram constantes.

Regina Porto, dotada de fina observação, apreendeu essencialidades de um relacionamento entre dois músicos. No dizer de Stravinsky, na entidade musical há somente duas espécies de músicos, o criador e o intérprete. Mas há mais, acredito, a depender de voos para outras áreas do pensar que dimensionam as duas categorias de músicos. Sem esses acervos reflexivos, por vezes fruto do acaso, lacunas insanáveis estiolam possibilidades. Ausência de amarras, sempre. Escreve Regina Porto, após meu pedido para estar presente ao recital do dia 26 de Outubro no Ateneu Paulistano em São Paulo:

“Você nem imagina os pulos que meu coração deu com a sua mensagem e o seu convite. É uma memória inteira que voltou, de tantas vivências musicais que partilhamos.

E uma dessas vivências primeiras e mais fortes é justamente a lembrança de você tocando Willy no Conservatório do Brooklin em 1988. Aquele foi um momento histórico que me marcou muitíssimo. Está no centro de toda a aproximação que vim a ter com o Willy tantos anos depois. E de tudo o que eu viria a entender dele a partir daí.

Então, vê-los juntos no palco novamente, em um recital, 30 anos depois (!), é coroar um capítulo de vida, se posso dizer assim. No sentido de entender que a vida ajusta as coisas, todos os desvios, todos os desencontros – ou simplesmente que põe todas as coisas nos seus devidos lugares, num gesto maior de compreensão. E no caso seu e do Willy é um ciclo de anos que se completa: as duas pontas se encontrando de novo. É muito lindo. Muito. Fico mesmo comovida.

Isso tudo para dizer o quanto estou encantada. E o quanto quero poder estar lá para, mais uma vez, ser testemunha de um momento histórico e extraordinário.

A última vez em que estive na casa do Willy (semestre passado), a primeira coisa que ele tocou ao piano para mim foi justamente esse Lacerda que você deu a ele. Significou muito para ele, o seu presente, você nem imagina. Você sabe, o Willy é todo ritualístico, me fez ouvir sem dizer o que era, sem que eu pudesse olhar a partitura, nada, aquelas coisas dele. E fui ouvindo aquela peça e me afundando na poltrona até ficar paralisada, sem reação, de tão profunda e imensa é essa miniatura. Agora só posso ansiar pelo que seja a intensidade de resposta do Willy. E posso intuir o que ela já representa para vocês dois.

Então, muito obrigada por convocar minha presença.

E aqui volto ao chão.

… Não queria perder por nada esse recital. E caso, em último caso, se isso não for possível, deixo desde já um pedido: gostaria de vê-los juntos uma vez, você e Willy, tocando e falando música. Seria uma honra viver isso”.

A miniatura de Lacerda tem título e subtítulo: “Zara – Epitáfio para uma criança” e, a anteceder os 23 compassos da peça, estrofes de um poema de Antero de Quental (1842-1891), igualmente açoriano:

Feliz de quem passou por entre a mágoa
E as paixões da existência tumultuosa,
Inconsciente como passa a rosa,
E leve como a sombra sobre a água

Era-te a vida um sonho, indefinido
E tênue, mas suave e transparente,
Acordaste – sorriste… e vagamente
Continuaste o sonho interrompido

Willy captou a essência essencial de “Zara” em sua “In memoriam Francisco de Lacerda”, miniatura atemporal.

Ao leitor José Alberto, autor da segunda mensagem, respondo através de artigo com o título “Francisco de Lacerda e Claude Debussy por José Eduardo Martins”, publicado aos 12 de Janeiro de 1992 em ‘O Telégrafo’, Horta, capital da Ilha Faial, uma das nove do arquipélago dos Açores e assinado pelo redescobridor de Francisco de Lacerda, o musicólogo, também açoriano, José Manuel Bettencourt da Câmara. Anunciava a digressão que realizei àquela altura por três ilhas, Faial, Terceira e São Miguel.

“Encontrámo-nos pela primeira vez vai para três anos, na tarde acalorada duma Lisboa de Junho. José Eduardo Martins havia dado aqui o recital que o trouxera a Portugal, e eu falhara. Telefonara-me um crítico musical seu amigo, propondo o encontro, e a razão, para mim, já então com notícia, se bem que imprecisa, do percurso do pianista brasileiro, adivinhava-se facilmente: ao intérprete de Debussy, ao músico formado na velha França, interessavam naturalmente os traços que na música portuguesa encontrasse do chamado impressionismo musical, interessaria, concretamente, Francisco de Lacerda. Se algumas responsabilidades me já cabiam na matéria, havia, pois, que arcar com elas…

Para um segundo encontro, dias depois, em casa da minha velha professora, sua amiga igualmente, D. Júlia d’Almendra, apareci munido, como assentáramos, da cópia de trechos inéditos de Francisco de Lacerda, que previamente selecionara (das ‘Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste’ obtivera já José Eduardo Martins um exemplar da minha edição, incluída na coleção ‘Portugaliae Música’ da Fundação Calouste Gulbenkian).

Escutei-lhe então a leitura, à primeira vista, de algumas peças que, se não são de dificuldade transcendente, apelam, contudo, a outras qualidades de que não pode o pianista prescindir. Lembro ainda o esvoaçar leve de ‘Papillons’, sem hesitações, o elaborado modalismo de ‘Feuilles mortes’, o contraponto de ‘Danse funèbre’ – tudo, o que é sem dúvida mais importante, já na boa opção interpretativa, na melhor configuração estilística. Era a primeira vez que aqueles sons – que, tanto quanto sei, não tinham ainda conhecido outros dedos além daqueles que os haviam criado (e dos meus, que décadas passadas sobre a morte do compositor, os procuraram recuperar) – passavam a um outro plano de existência, objeto de diferente exigência interpretativa”.

Fica-me indelével esse sesquicentenário. Propiciou-me a introspecção sonora nessa fase crepuscular. Sondar o som puro que se desprende das harmonias para vibrar com as consequentes ressonâncias que lhe dão permanência, mesmo que efêmera. Mas, não seria a ressonância a alma inefável do som ou dos sons? Francisco de Lacerda, legado.

In this post I publish a message that touched me deeply, in which the journalist and musician Regina Porto whom I’ve known for a long time , recollects with affection the roundabout course of my relationship with composer Willy Corrêa de Oliveira through time. Next, in reply to a reader, I transcribe an article appeared in 1992 in the newspaper “O Telégrafo” (from Faial Island, Azores), entitled “Francisco de Lacerda and Claude Debussy by José Eduardo Martins”, signed by musicologist José Maria Bettencourt da Câmara. This article, so I think, well explains the genesis of my admiration for the work of the Portuguese composer Francisco de Lacerda.


Em torno de uma coletânea singular

Que beleza há na música “apenas ela”,
aquela que não toma partido,
uma busca para surpreender os ditos “diletantes”…
Seria a plena emoção que ela contém encontrável em qualquer outra arte?
… raros são aqueles para quem basta apenas a beleza do som.
Claude Debussy
(carta de Debussy a Bernardo Molinari, 06/10/1915)

No post precedente tracei sucintamente dados biográficos de Francisco de Lacerda, assim como seus laços musicais com Claude Debussy, fundamentais para a conferência do dia 19 no Consulado Geral de Portugal em São Paulo com o tema “Francisco de Lacerda e o requinte sonoro”. Ilustres coetâneos do músico açoriano louvaram suas inefáveis qualidades no comando de uma orquestra. No presente blog, abordarei Francisco de Lacerda compositor, pormenorizando-me nas obras para piano que serão apresentadas no dia 26 no Ateneu Paulistano, em São Paulo.

Comparando-se à opera omnia de tantos ilustres compositores, a produção de Francisco de Lacerda é quantitativamente ínfima. Sob outra égide, o notável Henry Duparc (1848-1933) bem mais não produziu por ter sido acometido por doença mental, impossibilitando-o de continuar a compor regularmente. Seu legado maiúsculo é constituído pelas 17 melodias (1868-1884) que têm sido visitadas pelos mais respeitados cantores, como Gérard Sousay, Jessye Norman, José van Dam, Kiri Te Kanawa… A intensa atividade de Lacerda como regente foi uma das razões para que ele se tenha fixado nas peças de curto fôlego, as denominadas miniaturas. Não obstante, excelsa qualidade emana das “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1902-1922) e da “maioria” de outras pequenas composições avulsas, cerca de três dezenas. Dessas composições apresentarei cinco na segunda parte, que dizem muito da personalidade de seu criador.

“Zara – epitáfio para uma criança” (1900), miniatura que, em apenas 23 compassos, expõe magistral capacidade de síntese. O compositor e pensador Willy Corrêa de Oliveira (1938- ), ao ouvir “Zara”, pediu-me imediatamente uma cópia. Dias após, nascia “In Memoriam Francisco de Lacerda” (2019), outra categoria de síntese onde não faltam alusões a Chopin, Beethoven, Schönberg e Zara, “o som de Zara”, como diz Willy. Gostei imenso. Lembro ao leitor que em 2011 os ilustres compositores Eurico Carrapatoso (Portugal) e François Servenière (França) escreveram, respectivamente, “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste” e “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” em homenagem a Francisco de Lacerda. Apresentei as duas séries no mesmo ano e em primeira audição, na cidade de Coimbra em Portugal.

“Papillons” (1896) evidencia outro compartimento, diria raro, na criação de Lacerda. Trata-se de uma valsa d’un mouvement trés vif et capricieux.

As três peças, pertencentes às “Levantinas – Impressões de viagem”, teriam sido escritas em 1925, ano em que Lacerda esteve no Próximo Oriente. Em “Acrópole – Dança grega”, “Dos minaretes de Suleiman-Djami” e “Ao crepúsculo – No cemitério de Eyoub” Lacerda impregna-se da atmosfera vivenciada e o trio, mormente na segunda criação, emana nítido orientalismo. Quanto “Ao crepúsculo…”, Francisco de Lacerda faria versão para orquestra sob o título “Almourol”. Seu biógrafo José Manuel Bettencourt da Câmara escreve: “É significativo que, no frontispício de páginas musicais indubitavelmente destinadas ao piano, Francisco de Lacerda tenha escrito: ‘Je ne peux rien concevoir sans entendre l’orchestre’… tal afirmação manifesta também, reversamente, o lugar por Lacerda atribuído ao piano, na sua vida e no conjunto de sua produção musical”.

Clique para ouvir de Francisco de Lacerda, Almourol. Budapest Philharmonic Orchestra sob a direção de János Sándor (selo PortugalSom) Fonte: Google / Youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=gF7hzW2SR8I

No post anterior comentei a premiação recebida por Lacerda no Concurso promovido pela Revue Musicale em 1904, estando Claude Debussy no júri. Interpretarei a “Danse du Voile – Danse Sacrée” de Lacerda e as duas danças de Debussy, “Danse Sacrée  Danse Profane”, na versão para piano solo realizada pelo editor do compositor, Jacques Durand (1907), aprovada pelo mestre francês, finalizando o programa do recital do dia 26 de Outubro.

Lacerda seria imortalizado, porém, pela magistral coletânea “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste”, longamente gestada, que será apresentada na íntegra na primeira parte do programa. Miniaturas que representam uma enciclopédia de timbres, de sonoridades seletivas, de ressonâncias, de processos escriturais. Seguindo trilha paralela à de Debussy nesse aspecto sonoro e na busca dos timbres inusitados, Lacerda realizaria penetração incisiva nessas searas, mormente se considerarmos a extrema economia quanto a processos virtuosísticos e o emprego de formas tratadas de maneira resumida. Sob outra égide, à inexistência da transcendência técnico-pianística contrapõe-se outra transcendência, essa de ordem interpretativa, pois em todas as 36 miniaturas o cuidado com a sequência sonora, que tem de ser seguida com o esmero de um ourives, implica emergir o que há de mais intrínseco no de profundis de um intérprete. A expressão que emana dessas miniaturas corresponderia à contemplação. Inexiste o arroubo, a vaidade a evidenciar egos e exterioridades. Enciclopédia outra de aspectos “interiorizados” da técnica pianística como legatos; substituições dos dedos sobre uma mesma tecla; pedais em múltiplas gradações; articulação; agógica; dinâmica preferencialmente voltada às baixas intensidades; prolongamento sonoro da nota solitária, continuação de discurso que, a certa altura, deixa-a soar até a extinção. Por vezes, na plena textura essa nota tem o caráter de nota pedal, não apenas como fundamental. Essa nota destacada, geralmente de um acorde, estabelece outras ressonâncias. Liberada tornando-se isolada, segue seu destino até o inaudível ou a gerar outras possibilidades. Solitária, povoa as Trente-six histoires… Testemunha sem disfarces as impressões digitais etéreas de Lacerda. A nota som, a soar com suas ressonâncias, está presente em tantas obras de Debussy, mas em Lacerda adquire o permanente convívio.

Temos nas Trente-six histoires… uma fauna basicamente doméstica ou não violenta para o humano e mesmo se há um velho lobo, ele deixou sua agressividade e tem-se um canto de lamento. O bestiário de Lacerda, em muitas situações, busca inspiração e soluções sonoras na onomatopeia. Camille Saint-Saëns, Maurice Ravel, Francis Poulenc e Érik Satie, sob outra égide, assim o fizeram. Em várias histórias Lacerda segue o princípio da música programática, escrevendo frases acompanhando segmentos do discurso musical. Noutras, insere epígrafes em francês, umas jocosas, outras tristes, outras mais reflexivas. Insiro algumas dessas epígrafes, indicando o número da miniatura, traduzindo título e epígrafe:

6 – “O galo e sua sombra”: Um muro branco. / Um galo. / Muito sol!
12 – “Pomba Rola”: Felizes no medo e na solidão…
14“Meu cachorro e a lua”: Venha cá! Cala-te! O que tu vês? / Sombras? Chopin? Debussy? / Venha cá. Cala-te. São Amigos de nós todos.
17 – “O Macaco que Sonha”. Ao fim da peça: Algumas observações: O macaco que sonha… que devaneia, ou o macaco distraído, como quiseres. / Essa História deve ser muito bem tocada, pois deve ser bem uma macaquice… O ponto culminante é a palavra “Sol”. Tu entenderás que nesse momento será necessário que seja bem quente e luminoso. Para o vento, apenas uma pequena brisa, imperceptível. Quanto à queda – patatras? – não mexer o teclado, tampouco os dedos… E estarás bem assim.
18 – “Anacleto, o Simples”: Trata-se do único humano da coletânea: Está escuro…/ Brr… / Faz frio… / Tenho fome… / Brr…
21 – “O bode bêbado”: Bacchus et coetera, / Pã, Faunos e Sátiros, / tudo isso… / sou eu!
22 – “O cordeiro fugidio”: Um cordeiro. / Um rebanho. / Um pastor. / Um cachorro. / Sinos, etc, etc. / Uma colina à direita ao fundo / O mar ao fundo. / O céu muito azul.
23 – “ Pequeno Elefante Chora”: Ele chora pois fez traquinagem e então  apanhou um pouco, lamentando sua mãe e seu país a pensar então em coisas bem elefantinas e tristes…
24 – “O Polvo”. Erik Satie, ao escrever “O Polvo”, integrante da coletânea “Sports et Divertissement” (1911), apresenta o polvo a comer um crustáceo, inserindo a frase após o ato: bebe um copo de água salgada para se recompor”. Lacerda narra a história de seu polvo: O peixinho nada em círculos… e Madame Polvo observa / Viscoso e trágico / Após comer, ela entra em seu buraco… vê-se apenas um olho fosforescente e diabólico. Na realidade, liberando os sons do acorde, Lacerda deixa ouvir apenas a nota solitária tratada acima.
28 – “Lamúria de uma Cabra”: Quando encarceramos uma cabra habituada ao convívio de seus semelhantes, ela emite balidos de desespero, e fica muito tempo sem beber ou comer… (Brehm, vol. III, pag, 604).
30 – “O Velho Lobo”: Acabaram-se os rebanhos! / Colinas áridas; vales desertos! / Os doces e tenros cordeirinhos / Tornaram-se grandes e fortes carneiros / Acabaram-se os rebanhos / Colinas áridas, vales desertos.

O saudoso amigo e pintor Luca Vitali (1940-2013) recriou algumas figuras do bestiário nas atribuições que Francisco de Lacerda conferiu na sua criação maior, as “Trente-six histoires por amuser les enfants d’un artiste”. Essas imagens e mais o power point de todas as 36 histórias, preparado pelo ilustre musicólogo português José Maria Pedrosa Cardoso, estarão até o final do ano no Youtube, a partir de minha gravação da obra para o selo De Rode Pomp (1999). Elson Otake, como sempre, já está  a adaptar cronometricamente imagens e música.

As seis ilustrações de Luca Vitali para a coletânea:

“Os pássaros que se vão para sempre”

“Anacleto, o simples”, “Certa raposa”, “Macaco”, “O cão a sonhar”, “O galgo russo”

“O veado ferido”, “O cachorro e a lua”, “O bode bêbado”, “O pequeno elefante chora”

“O galo e sua sombra”, “Duas pombas na torre”, “Mestre corvo”, “O pato que comeu a rã”:

“O polvo”, “Mamãe leão marinho acalanta seu bebê”, “Canção dos pinguins”, “Dança nupcial das morsas”:

“O dragão vermelho”
Alusão à Revolução Russa de 1917?
O ritmo marcial da seção intermediária da peça, a indicação de andamento “encore plus lent” e a frase “Très moscovite et mystérieuse” são indícios.
Luca Vitali teria captado a essência da mensagem de Lacerda:

Se encontramos tantas influências de compositores que Lacerda conheceu pessoalmente ou através de obras, como as de Moussorgsky e Borodin, destaca-se prioritariamente Claude Debussy e, independentemente dos aspectos sonoros, essa influência se estabeleceria também num plano do universo lúdico infantil. Quando estive em tournée pelo arquipélago dos Açores em 1992 (Museu de Angra do Heroísmo, Ilha Terceira), observei que as inúmeras partituras de Debussy para piano, orquestra, canto, mormente “Childrens’s Corner” (1906-1908) e “La Boîte à Joujoux” (1913) para piano, estavam profusamente assinaladas e estudadas por Lacerda. Essas anotações visavam sobretudo a aspectos coreográficos das duas criações.

Entendo que a obra “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” é capital na literatura pianística. Francisco de Lacerda, apesar de não divulgado à altura, deixou legado insofismável. Contudo, para o público que aprecia a obra de arte que independe de outra categoria de valor, como o impacto e o possante holofote, ouvir Francisco de Lacerda subjetiva tantos outros valores…

The Portuguese musician Francisco de Lacerda, better known as conductor, was also a first class composer, but sacrificed his job as composer to that of conductor. For this reason, his production is very small and basically restricted to miniatures. Though Lacerda has not received the recognition a composer with his accomplishments would deserve, he left a precious legacy behind him, as evidenced by his “Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1902-1922), a masterpiece of the pianistic literature on which he worked for twenty years. I will play the “Trente-six histories…” and five of Lacerda’s miniatures for piano, together with Debussy’s “Danse sacrée” and “Danse profane” (original ly written for harp and strings, piano transcription made by Debussy’s publisher Jacques Durand) and “In memoriam Francisco de Lacerda”, by Willy Corrêa de Oliveira, in my forthcoming recital at the Ateneu Paulistano on 26 October.