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Sesquicentenário de um grande músico português

Forçado a optar,
Francisco de Lacerda escolhera a direção de orquestra.
É que ele dispunha de outras possibilidades.
E se incorro na grave indiscrição de mencionar
ainda as suas composições,
que muito poucos conhecem,
é porque creio que só o conhecimento delas
revelará completamente a sua personalidade artística.
Ernest Ansermet  (1883-1969)

Serão dois posts a homenagear Francisco de Lacerda, um dos nomes referenciais da música portuguesa nas décadas fronteiriças dos séculos XIX e XX. Em um primeiro focalizarei sucintos dados biográficos, sua ação como regente de orquestra e a relação musical com Claude Debussy, que o marcaria definitivamente ao longo de sua atividade composicional, pois mesmo pequena, multum in mínimo, tem relevância transparente. Conteúdo expandido dos dois posts fará parte da conferência que darei no dia 19 de Outubro no Consulado Geral de Portugal, em São Paulo. Num segundo, abordarei obras para piano, que interpretarei no dia 26 de Outubro no Ateneu Paulistano.

Se em 1973 a Fundação Calouste Gulbenkian publicava, na coleção “Portugaliae Musica”, Trovas para canto e piano de Francisco de Lacerda aos cuidados do compositor Filipe de Sousa (revisão e prefácio), devem-se ao musicólogo José Manuel Bettencourt da Câmara, açoriano como o homenageado, os estudos aprofundados não apenas da vida e da obra de seu conterrâneo ilhéu, como das edições da correspondência do pai do músico, João Caetano de Sousa e Lacerda, ao filho Francisco, assim como das Trente-six histoires pour amuser les enfants d’un artiste para piano (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, col. “Portugaliae Musica”, 1986), criação a ser interpretada na íntegra no dia 26 do corrente.

Nascido na Ilha de São Jorge, uma das nove do arquipélago dos Açores, ainda adolescente parte para Portugal continental, onde realizou seus estudos mais aprofundados em Lisboa, junto ao Conservatório Nacional. Após os anos de aprendizado leciona no mesmo Estabelecimento de Ensino até 1895, quando uma bolsa de estudos fez com que pudesse se aperfeiçoar em Paris, onde teria entre seus professores Charles-Marie Widor (contraponto e órgão). Após a passagem pelo Conservatório de Paris, ingressa na Schola Cantorum, a ter como mestres Felix Alexandre Guilmant (órgão) e o compositor Vincent d’Indy. Seria este o responsável pela primeira apresentação de Francisco de Lacerda como regente (1900), atividade que o notabilizaria ao longo da carreira. Sempre em ascensão, vemo-lo como Diretor artístico da orquestra do Cassino Municipal de La Baule (Loire Atlantique – 1904) e de Nantes (Concertos Históricos de Nantes). A direção da orquestra do Kursaal de Montreux (1908-1912) fá-lo deparar-se com outra realidade.  Sob sua batuta, alguns dos principais nomes da interpretação europeia se apresentaram, tendo sido o responsável pela execução de obras referencias do período, destacando-se, entre aquelas consagradas do repertório tradicional, criações coetâneas francesas representativas e dos compositores russos de cunho nacionalista. O grande regente Ernest Ansermet (1883-1969), que o sucederia na direção do Kursaal e que se tornaria um dos maiores regentes do século XX, confessaria sua admiração por Lacerda: “a cada vez que me via com tempo disponível em Lausanne, corria até Montreux para assistir a seus ensaios e ele foi meu mestre na direção de uma orquestra, pois regente de primeira categoria”. Em outro escrito louva as qualidades do mestre Lacerda: “Na direção de Francisco de Lacerda deparamos com aquilo que constitui as duas faces de sua personalidade: riqueza e proeminência do instinto musical, que é seu traço pessoal e marca da sua raça; uma cultura profunda e vasta, que é resultado dos seus anos em Paris”. Insiste Ansermet nessa apreensão cultural: “Ela explica a consistência admirável de seus programas, a compreensão que ele demonstra em relação a obras aparentemente alheias ao seu espírito, como as de Strauss ou de Brahms”. Louva a seguir a ato de reger de Lacerda: “ausência completa de truques, de imprecisão, de trompe-l’oreille, simplicidade, clareza, rigor de expressão, franqueza e precisão na dinâmica, no movimento, no acento, no ritmo”. Entre 1912-1913, sob contrato, Lacerda dirigiu em Marselha os Grandes Concertos Clássicos da cidade.

Após esse período glorioso, Francisco de Lacerda permanece durante longos anos nos Açores, período em que intensifica suas pesquisas relacionadas à música de raiz. Em 1921, a demonstrar seu espírito empreendedor, idealiza e funda não apenas a Pró-Arte como a Filarmônica de Lisboa, realizações que tiveram pouco fôlego, mercê de antagonismos que surgiram à sua ação em prol da melhoria da música em seu país. Retorna à França, a fim de desenvolver atividades temporárias como regente em Paris, Marselha, Nantes…

Debilitado fisicamente, retorna a Lisboa, quando continuaria suas pesquisas relacionadas ao folclore português. Parte desse aprofundamento teria progressiva publicação póstuma, o Cancioneiro Musical Português, harmonizações de música de cariz popular. Seu biógrafo, José Manuel Bettencout da Câmara, escreve: “Afirmando-se o seu nome de novo por terra alheia, a Pátria continuará a ignorá-lo, malgrado a homenagem de que, com Viana da Mota, é alvo no Teatro Nacional de S. Carlos a 30 de Abril de 1925″. Prossegue o biógrafo: “Lacerda continua a esperar até o fim da sua vida o reconhecimento que não virá”.  Faleceria em 1934, vítima de doença prolongada, a tuberculose pulmonar.

Francisco de Lacerda guardaria indelevelmente admiração plena por Claude Debussy. Dataria a aproximação entre os dois ao ano de 1904, quando de um concurso de composição organizado pela “Revue Musicale”, no qual Lacerda obteve o primeiro prêmio com sua Danse sacrée – danse du voile. A respeito desse concurso, escreve Ernest Ansermet: “…a sua obra foi premiada e publicada, tendo no júri deixado impressão suficiente para que um dos seus membros, M. Claude Debussy, lhe prestasse homenagem pública, dela retirando, com toda a franqueza, um tema a partir do qual escreveu uma outra dança para harpa cromática e orquestra”. Trata-se das célebres Danses – Danse Sacrée et Danse Profane (1904), em que tema da Dança de Lacerda, assim como o título, testemunham admiração pelo músico açoriano. Se as Danças dos dois compositores serviram para uma aproximação maior em 1904, seria contudo o distanciamento, que se dá devido à atividade de Lacerda como regente fixado temporariamente em tantos centros geográficos fora de Paris, que progressivamente sedimentaria no músico açoriano a irrestrita e perene admiração pelas criações de Debussy.

Tem-se quatro cartas conhecidas do mestre francês para Lacerda (1906-1908), assim como citações de seu nome em missivas endereçadas a músicos, enaltecendo as qualidades de Lacerda. Nas cartas de 22 de Janeiro e 9 de Março de 1906, Debussy faz referência à ópera Fêtes de Polymnie, de Jean-Philippe Rameau (1683-1764), pois encarregado da revisão, pedira a ajuda de Lacerda para esse mister. Debussy reiteradas vezes tece elogios à regência competente do músico açoriano e ao seu trabalho de investigação musicológica: “Lacerda é um músico sólido e experiente, que poderá prestar relevantes serviços em tudo o que se refere aos coros e à orquestra. Tem, em acréscimo, o gosto e o conhecimento profundo dos velhos mestres, o que é raro em nossa época…” (carta a Albert Carré, 08/06/1906); “Aconselhei Lacerda a publicar os Chants et Danses d’un petit peuple oublié… escreverei prazerosamente o prefácio” (carta a Louis Laloy, 11/06/1906); “Permita-me recomendá-lo com ênfase, pois ele é um excelente músico, acreditando mesmo que existam poucos regentes de orquestra que poderiam prestar melhores e mais seguros serviços” (carta a sugerir Lacerda a Alexandre Émery como regente no Kursaal de Montreux, 25/08/1908). Nomeado para o posto, Lacerda recebe de Debussy a carta bem significativa quanto à escolha: “… não lhe parece preferível respirar os ares de Montreux ao invés do perfume de sacristia da Schola?” ( carta a Francisco de Lacerda, 05/09/1908).

Entende-se a ironia de Debussy, pois conhecedor da formação de Lacerda na Schola Cantorum, estabelecimento no qual Lacerda esteve a estudar a partir de 1897. Entre os fundadores da Schola estava Vincent d’Indy, que, com seus colegas, tinha como um dos postulados a restauração da música antiga. Debussy não nutria a menor simpatia pela Schola Cantorum. Se princípios indeléveis da Schola podem ser detectados na composição de Lacerda, preponderam as inovações propostas por Debussy, mormente na qualidade sonora, na essência essencial a visar ao timbre, às ressonâncias, às baixas intensidades, que ficariam indelevelmente na mente do músico português. Imitação estilística? Absolutamente não, pois essas apreensões de tendências até antagônicas possibilitaram a Lacerda o amálgama. Se o aprendizado da Schola Cantorum permaneceu como “captações formais”, poder-se-ia dizer que a influência de Debussy é patente em vários procedimentos, a preponderar o culto às sonoridades inusitadas, ao timbre seletivo.

Considere-se que a dedicação à regência em alto nível foi um dos motivos da criação restrita, mas reveladora das qualidades escriturais de um grande mestre. Composições para piano, canto e piano, orquestra, orquestra e canto, câmara, coro, órgão…, geralmente de curta duração, constituem um legado significativo para a música portuguesa.

No próximo post abordarei a obra para piano de Francisco de Lacerda e determinadas características estilísticas de suas esmeradas miniaturas, presença de um estilo personalíssimo.

This is the first of two posts addressing Francisco de Lacerda (1869-1934), one of the most prominent figures of the Portuguese classical music in the late 19th and early 20tth centuries, with a brief biography, his role as composer and conductor, his relationship with Claude Debussy, who would be an indelible influence in his works as a composer. The contents of the two posts are part of a talk on Lacerda I will give at the Consulate-General of Portugal in São Paulo on October 19, followed by a recital with Lacerda’s music for piano in the Ateneu Paulistano concert hall on October 26.

Quando mensagem leva às origens – Em torno de uma Fantasia

Scriabine é o único músico romântico,
no senso pleno da palavra,
que a Rússia produziu até agora.
Nada o liga aos compositores russos que o precederam,
nem àqueles de sua geração;
se teve imitadores, não teve discípulos,
ninguém o seguiu no caminho aberto por ele.
Boris de Schloezer
(escritor e musicólogo nascido em Vitebsky. Irmão da segunda esposa de Scriabine, Tatiana)
(“Musique Russe”, 1953)

Pelas manhãs tenho o hábito de abrir mensagens. Chamou-me a atenção e-mail vindo do Exterior, Reino Unido mais precisamente. Questiona-me um leitor-ouvinte a respeito de minhas gravações para o selo De Rode Pomp (Bélgica), disponibilizadas no YouTube, com obras do notável compositor russo Alexandre Scriabine (1872-1915). Após considerações, escreve que gostaria de saber a origem dessa admiração, mormente tratando-se de um pianista latino americano, assim expresso na mensagem.

Creio que há tipos de envolvimento e, entre estes, destacaria: atávico, desde a infância; progressivo conhecimento das criações de determinado compositor; temporário, quando programação determina o debruçamento sobre certas obras de um ou mais autores; impacto motivado por gravações excelsas, de composições rigorosamente desconhecidas até uma primeira escuta; escolha voluntária a partir de estudo musicológico; admiração por determinados períodos históricos.

A atração pela obra para cravo de Jean-Philippe Rameau, executada ao piano pela notável Marcelle Meyer (1897-1958), surgiu quando meu pai, na década de 1950, ofereceu-me a integral do compositor em álbum de LPs. Era bem jovem e fiquei subjugado pela criação de Rameau e a sublime interpretação de Meyer. Apresentei a integral em 1971 em São Paulo e cidades do país e apenas em 1997 gravaria em Sófia, Bulgária, registro este lançado 1999 em dois CDs pelo selo belga De Rode Pomp e posteriormente no Brasil pela CONCERTO (2005).

Na juventude estudei algumas poucas obras de Alexandre Scriabine (1872-1915), mas foi um LP presenteado por um jovem fagotista russo, em 1962, em Moscou, quando do II Concurso Tchaikowsky, que me chamaria a total atenção a partir da primeira escuta e Scriabine tornar-se-ia um de meus eleitos, graças fundamentalmente à magistral interpretação de Vladimir Sofronitsky (1901-1961). Morrera um ano antes e suas gravações ratificavam louvações à sua leitura das obras de Scriabine, pois dois dos mais importantes pianistas russos mundialmente conhecidos, Sviatoslav Richter (1915-1997) e Emil Guilels (1916-1985), consideravam-no um dos grandes mestres do piano de todos os tempos. Vladimir Horowitz (1903-1989), tendo saído da Rússia em 1925 e mais tarde fixando-se nos Estados Unidos da América obtendo a cidadania norte-americana em 1945, foi um dos maiores intérpretes da obra de Scriabine.

Vários fatores foram responsáveis pela dedicação de Sofronitsky à obra de Scriabine. De 1916 a 1921, Sofronitsky foi colega da filha do compositor, Elena Scriabina, no Conservatório de São Petersburgo, desposando-a em 1920. Essa ligação poderia ser uma das causas do envolvimento do pianista com a obra de Scriabine, da qual se tornou intérprete emblemático. De 1942 até a sua morte foi professor do Conservatório de Moscou. Sofronitsky apenas duas vezes viajou ao Exterior, daí possivelmente ser pouco ventilado no Ocidente àquela altura. Em Moscou, no longínquo 1962, pela primeira tomei conhecimento do seu nome!!!

Ao regressar a São Paulo, imediatamente quis ouvir o LP. O fascínio foi total, mormente pela Fantasia em si menor op. 28. Como curiosidade, conto ao leitor que busquei imediatamente a partitura, após ouvi-la. Não a encontrando na cidade, um dileto amigo conseguiu comprá-la na edição original em um bouquiniste às margens do Sena, em Paris. Nestas últimas décadas edições surgiram a partir dessa primeira e a obra faz parte do repertório de muitíssimos pianistas, sendo que o Youtube exibe quantidade de interpretações do op. 28, inclusive a minha, que está inserida no CD dedicado a Schumann e Scriabine lançado pelo selo belga De Rode Pomp (2007).

Clique para ouvir a magistral gravação de Vladimir Sofronitsky da Fantasia em si menor op. 28 de Scriabine:

https://www.youtube.com/watch?v=Mvc2K_5JWho

Dez anos após o episódio relacionado ao LP, comemorou-se o centenário de nascimento de Alexandre Scriabine, tendo eu apresentado no Auditório Itália recital inteiramente dedicado ao compositor. No programa apresentei a Sonata-Fantasia nº 2, alguns Prelúdios, Estudos e Poemas, assim como a Fantasia op. 28, essa em primeira audição no Brasil, pois, a auscultar músicos pátrios, também desconheciam a composição.

Em 1977 apresentava no Museu de Arte, MASP, em São Paulo, a integral dos Estudos de Scriabine e em 1986, no mesmo auditório, novamente a integral acrescida da versão alternativa do Estudo op. 8 nº 12 (Patético), assim como sete Poemas, que acabaria apresentando na totalidade de maneira esparsa ao longo dos anos. Somente no ano 2000 gravaria os 26 Estudos para o selo belga De Rode Pomp, na mágica Capela de Mullem, recebendo crítica que me emocionou, pois vinda do Dr. Ilia Fridman, pianista e Presidente da Sociedade Scriabine na Rússia. A versão alternativa do Estudo Patético seria gravada para o CD Schumann-Scriabine. Original e versão encontram-se no Youtube.

Longe de me considerar especialista em um autor, o que, acredito firmemente, pode “obstaculizar” a compreensão de tantos outros compositores, entendo correto o verbo eleger. Elegemos nossas preferências e elas alargam a mente. Essas “especialidades” representam uma corrente com vários elos que a fortificam.

Clique para ouvir a inefável interpretação de Vladimir Sofronitsky dos dois Poemas op. 32 de Scriabine:

https://www.youtube.com/watch?v=4cv_wV7H-JU

Sempre admirei o gênero Estudo para piano. Já disso tratei em blog bem anterior. Parece-me a síntese absoluta de procedimentos de um autor, sob a égide da técnica pianística. Se apenas essa vertente for estabelecida, teremos Estudos estéreis, pois para que um Estudo tenha a ampla abrangência ele deve ultrapassar a barreira do puramente técnico e ter elementos necessários para que a música emerja. Chopin, Liszt, Debussy, Scriabine, Rachmaninov estão entre os poucos que souberam escrever Estudos maiúsculos. Se a contemporaneidade nos legou Estudos significativos de György Ligeti (1923-2006) ou Maurice Ohana (1913-1992), entre outros mais criadores, tem-se na vasta literatura exemplos de compositores que souberam explorar caminhos diferenciados para o gênero, ou até empregando recursos da técnica tradicional, encontrando “achados” relevantes. Os 26 Estudos de Scriabine, conjunto maiúsculo que se estende em vários opus, teve início quando o compositor tinha apenas 15 anos, prolongando-se até o peristilo da morte precoce, advinda aos 43 anos.

Periodicamente visito com renovado prazer a obra para piano de Scriabine. Estudos, Poemas, Sonatas e peças avulsas, como a sensível Valsa op. 38. Piano – J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=97MoXq2KWig

Extraordinária a trajetória composicional de Scriabine, caminhando de um romantismo ainda bem vivo, mas com características personalíssimas, à abstração do Poema Vers la Flamme op. 62 ou dos três Estudos op. 65, compostos em 1912, quando música e metafísica amalgamaram-se em seu pensar numa imaginária fusão com o Cosmos, almejo maior do compositor russo.

Clique para ouvir de Scriabine o Estudo op. 65 nº1. Piano – J.E.M.

https://www.youtube.com/watch?v=5fc96yVOXgQ

A musicóloga Marina Scriabine, filha do compositor, escreve: “É preciso compreender que nós não estamos diante, em se tratando de Scriabine, de duas atividades distintas e paralelas: de uma parte, a criação musical; sob outro ângulo, a especulação filosófica. Existe uma experiência única, o nascimento, no seio de uma tensão espiritual contínua, de um pujante debordamento criador, que se manifestava nas formas musicais, poéticas ou filosóficas, sendo que nenhuma era a tradução ou a adaptação da outra, mas que se apresentavam como signos polimorfos de uma realidade interior”.

Clique para ouvir o Poema Vers la Flamme op. 62 de Scriabine. Gravação ao vivo. Convento Nossa Senhora dos Remédios, Évora, Portugal, Maio 2017. Piano – J.E.M.:

https://www.youtube.com/watch?v=wdgfEnv51MI

Saber que toda a admiração pela obra de Scriabine nasceu de um LP, na interpretação rigorosamente única de Vladimir Sofronitsky, é motivo para relembrar – mercê de mensagem recebida – um longo debruçar nessa criação singular scriabiniana. O fato trouxe-me satisfação interior. E a reminiscência já não basta por si só? Sob outra égide, Sofronitsky a cada geração se apresenta como lenda acrescida. Razões tinham os notáveis pianistas Emil Guilels e Sviatoslav Richter de o reverenciar sem limites.

On the origin of my admiration for Alexander Scriabine, which stems from a vinyl record in which Vladimir Sofronitsky, undoubtedly one of the greatest Russian pianists in the 20th century, played Scriabin’s works. That was back in the 60s, at a time when Scriabin’s music was relatively unknown to me. I was fascinated by Sofronitsky’s virtuosity, in special when playing the Fantaisie op 28, a brilliant work. Since then Scriabin has been one of my favorite composers and his music a constant in my repertoire, both in recorded and live performances.

 

 

 


 

 

 

Música popular brasileira relevante: criação e interpretação

A finalidade da música é despertar em nós paixões variadas.
René Descartes (1596-1650)

Prefiro aquilo que me emociona àquilo que me deslumbra.
François Couperin (1668-1733)

A música é a linguagem do coração.
Jean-Philippe Rameau (1683-1764)

O SESC estará a lançar em breve um CD memorável, “Espelho”. O conteúdo integral foi apresentado em três récitas em São Paulo. Regina e eu estivemos em uma delas. Noite de puro deslumbramento.

A enxurrada, que está a destruir todos os valores existentes, como moral, costumes, honestidade, artes, faz com que progressivamente não mais tenhamos esperanças. Que a Cultura Erudita está a se desmilinguir é fato. No caso específico da música popular, que hoje se apresenta sob tantas roupagens, a maior parte delas descartável, mas que, por interesses vários, como patrocínios visando a público enorme e lucro advindo, mídia a acobertar, por vezes sem o menor compromisso com a qualidade, faz com que vivamos numa Torre de Babel, na qual as “linguagens” são dicotômicas e desprezíveis. Os valores de mérito foram negligenciados sem rubor pelos cultores do Cifrão que estão a esmagar o passado, pois sua existência implica a lembrança, e esta tem que desaparecer na “mente” dos responsáveis por essa derrocada dos costumes, graças à massa basicamente inculta que acorre a megaeventos, agendados tantas vezes com muitos meses de antecedência.

O Concerto, assim o nomeio, pois não se tratou de um Show, palavra que pode ser entendida como pejorativa quando empregada para minimizar o termo Concerto, apresentou composições de Cristóvão Bastos e Maury Buchala, este, tema de um blog quando do lançamento do CD de música contemporânea “Portraits”, gravado em França por conjunto instrumental respeitado e igualmente lançado pelo selo SESC.

Durante toda a apresentação, se sob a égide essencial alumbrava-me a cada uma das 16 músicas interpretadas, mais a executada extraprograma, sob outro contexto meu sentimento era de nostalgia e inquietude. Voltava meu pensar, por vezes, ao que se propaga em escala ascendente nos provedores e nas redes sociais a respeito de determinados “famosos”, insistentemente incensados, sem o menor talento musical, despudoradamente se produzindo, alguns quase desnudos, amparados por parafernália de luzes a ocultar a mediocridade, sons estratosféricos a impedir avaliações, mas levando multidões desprovidas de senso crítico e rigorosamente incultas ao delírio. Esses “famosos”, quando se pronunciam em “entrevistas”, são logorreicos e, espremendo-se conteúdos, nada sobra. E a música? Existiriam resquícios, se ao menos houver algum?

Voltemos à apresentação de “Espelho”. Conheço Maury Buchala desde os bancos universitários, pois foi meu aluno de piano durante o curso de quatro anos e já revelava talento invulgar. Quando me solicitou conselho para estudar no Exterior, recomendei Paris, dando-lhe algumas indicações. Radicado há mais de três décadas na capital francesa, Maury é expressão como compositor de música de vanguarda e regente com atuações no leste europeu e no Brasil. Sempre duvidei do compositor de música contemporânea que desconhece a escrita convencional, partindo já de processos que se multiplicaram nestas últimas décadas. Maury escreveu canções lindamente harmonizadas e soube escolher textos. O resultado foi surpreendente, pois suas canções, tão bem escritas, atingem o âmago do ouvinte. A cada canção mais surpreso ficava. Em duas delas, seu conhecimento das entranhas de nosso país no quesito da música de raiz mostra-se sólido, pois Choreando e Baião são exemplos. Carrosséis, Moças de Louça, Imagens e Morto Mar dão a exata medida da versatilidade de Maury Buchala, que se reinventa a cada canção. Luciana é uma canção homônima a de António Carlos Jobim, compositor que Maury admira nessa área específica. A apresentação dessa música foi feita pela ótima Mônica Salmaso, apesar de no CD ter sido gravada por Leila Pinheiro.

https://www.youtube.com/watch?v=RlgP8n6t4Xg

Confesso meu pouco convívio com a música popular e meu conhecimento menor da criação de Cristóvão Bastos (1946- ), respeitado compositor nascido no Rio de Janeiro, premiadíssimo e com carreira das mais expressivas. Emocionaram-nos suas canções: Acalanto pros Avós, Poranduba, Todo o Sentimento, Flor Negra, Virou Ciranda e Rede Branca.

Neste espaço insiro uma das mais sensíveis canções de Cristóvão Bastos, Santo Forte, apresentada no Concerto numa esplêndida interpretação do notável Renato Braz. Entendo-a como uma das mais intensas músicas de nosso cancioneiro, a causar-me uma fortíssima impressão.

https://www.youtube.com/watch?v=DWgDrV4tRlI

Maury Buchala e Cristóvão Bastos souberam com rara sensibilidade escolher os letristas-poetas, o que acentua a qualidade do todo.

Os quatro cantores que se apresentaram no Concerto mereceram justíssimos aplausos. A quase octogenária Áurea Martins expressava em cada verso cantado toda uma vivência dedicada à música popular. Plena de aura, mereceu de seus três outros colegas uma bela atitude reverencial. Mariana Baltar encantou com sua voz nuançada, assim como a exibir gestual de extrema elegância, mercê também de ter sido bailarina. Mônica Salmaso cantou com expressão e acurada percepção em peças de Cristóvão Bastos e de Maury Buchala, estas de muita dificuldade, pois de harmonias rebuscadas. Renato Braz é verdadeiramente um artista na acepção. Suas interpretações excedem pelo esmero com que expõe as frases musicais, acabamento cuidadoso e dicção transparente.

Maury Buchala e Cristóvão Bastos, graças às qualidades como músicos, souberam escolher os excelentes intérpretes que integraram o conjunto. Todos se apresentaram com empenho, qualidade e entusiasmo. Mencionaria pela ordem alfabética: Andreia Carizzi (violino 2), Bruno Aguilar (baixo acústico), Dirceu Leite (flauta e clarinete), Hugo Pilger (violoncelo), João Lyra (violão), Jurim Moreira (bateria), Marcos Catto (viol), Ricardo Amado (violino).

Louve-se toda a equipe do SESC por esse magnífico CD, que em breve estará à disposição dos aficionados. Presentemente já se encontra nas plataformas Spotify, Deezer e Aple, assim como no Youtube.

My impressions after attending the release concert of the CD “Espelhos” (SESC Record Label) with songs of unquestioned quality composed by Maury Buchala and Cristóvão Bastos. As I listened, bewitched, to the entire album repertoire presented by stunning singers and musicians, I saw that excellence still exists. What is lacking is interest of media and financial backers in promoting some superlative talents that have not gained traction in the mainstream music world, opting instead for a handful of celebrated and often mediocre performers that capture more public and bring in more money. Congratulations to SESC on this initiative that helps promote major talents of the Brazilian music scene.