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Ataque imediato à infecção


Espanto-me sempre com a opinião geral segundo a qual nosso ser se prende à vida. Habituamo-nos docilmente, se bem que pouco voluntariamente, a uma sorte que nos seria totalmente insuportável na véspera.
Hermann Hesse
(“Éloge de la vieillesse”)

O regresso a casa após cirurgia deixou-me tranquilo. Voltara aos estudos pianísticos e preparava meu texto semanal quando, dia 15, um tremor surgiu logo após o café da manhã. Acentuou-se. Duas horas após a primeira tomada de temperatura (37º), ela subira para preocupantes 39,8º, e eu sempre a tremer. Ligamos para o Dr. Belmiro José Matos, que me recomendou imediato retorno ao Hospital Santa Catarina. Inúmeros exames foram realizados durante a tarde e, após resultados preliminares, constatou-se infecção. Se permaneci cinco dias hospitalizado para a cirurgia do divertículo de Jenker, graças ao extremo rigor da equipe do Santa Catarina desta vez deverei ficar de sete a dez dias, sendo que três na UTI.

O piano aguardará meu retorno. Nossa fidelidade é absoluta. Para textos, incluindo o blog, os obstáculos são maiores. Difícil escrever nessas circunstâncias, com fios pelo corpo e uma dedeira no indicador da mão esquerda. Não deixarei, contudo, que sejam interrompidos os posts iniciados aos 2 de março de 2007, sem que tenha havido um só sábado sem a postagem devida.

Dias de reflexão. Na UTI, vi-me cercado por inúmeros profissionais da área médica. Como habitualmente faço, retenho o nome de todos. No que concerne a médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, a equipe como uma unidade, senti a todo instante a vigilância necessária, o alto profissionalismo de um grupo homogêneo e um trato excepcional com todos os internados.

O blog segue bem mutilado. Melhor não pude. Espero retomar a fluência pensada para cada post ainda na próxima semana.

O momento inexorável

Doenças que se não vêem, não são lastimadas.
Ilha de São Miguel
(Adagiário Popular Açoriano)

Dois blogs, pautados para esta e a próxima semana, entrarão atrasados, pois nesta que está a findar permaneci, entre os dias 8-12 no Hospital Santa Catarina, a fim de me submeter a cirurgia de divertículo faringoesofágico de Zenker. Comumente nos descuidamos e, após anos sem muito me importar, acatei os sábios conselhos do excelente cirurgião de cabeça e pescoço, Dr. Belmiro José Matos, docente pela USP, que já me atendera em 2004 quando estive inicialmente sob seus cuidados, pois era portador de um Linfoma T Células Pequenas. Dele guardei a imagem do médico atencioso, generoso e competente. Ajudou-me a transpor uma difícil situação.

Contrariando muitas opiniões médicas, o Dr. Belmiro entendeu que o fato de meu pai ter sido operado de um divertículo de Zenker em 1957 e meus três irmãos, sucessivamente após os 65 anos, finalizando com a minha participação aos 80 anos, há fortes indícios de ser, no caso, uma doença genética, mormente se considerado que o divertículo de Zenker tem baixa incidência na população. Quando da cirurgia de meu saudoso pai havia um risco muito grande. Estou a me lembrar de que o ilustre médico que operou meu pai – foge-me o nome – quis se reunir com a família, eu incluso, para explanar a gravidade da intervenção. Dois dias após, na véspera da cirurgia, apresentava-me na programação da Orquestra Sinfônica da Rádio Gazeta, sempre lotada às segundas-feiras, a fim de interpretar o Concerto para piano e orquestra de Grieg, sob a direção do competente regente Armando Belardi. O locutor César Abrahão, transmitiu ao público presente e aos milhares de ouvintes que o “jovem” pianista dedicava o Concerto ao seu pai, que àquela hora estava a ouvir o programa, mas que nas primeiras horas do dia seria submetido à cirurgia. Saí-me bem, a Rádio daria posteriormente a fita gravada ao meu pai, já amplamente restabelecido, conservando eu a gravação até hoje no formato CD.

Deve-se o nome do divertículo de Zenker ao patologista alemão Friedrich Albert von Zenker  (1825-1898), que o descreveu em 1877. Acomete sobretudo pacientes acima dos 60 anos, mercê da redução sensível da elasticidade dos tecidos e do próprio tônus muscular. Sentimos a presença desse incômodo ao deglutir, pela pressão exercida no complexo sistema de deglutição, causando uma herniação da mucosa e submucosa. Verifiquei esse extraordinário sistema de deglutição a envolver língua, traquéia, laringe e esôfago ao assistir ao vivo o videodeglutograma a que fui submetido três dias após a intervenção.

Deveria permanecer um dia no Hospital Santa Catarina, mas prolongou-se a internação de acordo com os conselhos médicos. O procedimento, via endoscópica foi realizado pelo Dr. Renato Luz Carvalho com a assistência do Dr. Guilherme Schreiner, mercê da indicação do Dr. Belmiro, que me visitou durante todos os dias da internação, assim como seu assistente, Dr. Ricardo Fujiwara. O videodeglutograma esteve sob a supervisão da fonoaudióloga Dra. Roberta.

Só tenho elogios ao tratamento recebido no Hospital Santa Catarina. Equipe supercompetente, atendimento extremamente profissional a não faltar amabilidade. À janela do quarto lembrei-me de duas cirurgias dos rins a que minha saudosa mãe foi submetida, sob chefia do notável urologista e professor Dr. Darcy Villella Itiberê. Tinha eu 10 anos e com meu pai e irmãos a visitávamos quase diariamente, percorrendo o trajeto de bonde até ao hospital.

No próximo blog apresentarei a tradução de mensagem de grande interesse que recebi do compositor e pensador francês, François Servenière a respeito do mito do herói. Durante a internação finalizei livro de muita importância, “Messiaen – l’empreinte d’un géant” da professora, musicóloga e escritora francesa renomada, Catherine Lechner-Reydellet e que possivelmente será desdobrado em dois post, tantos são os depoimentos de alto nível colhidos pela excelente pesquisadora.

 

Tema sempre recorrente

Do ponto de vista dinâmico,
o conflito central opõe os desejos da vida gloriosa
e os desejos de morte presentes na origem.
André R. Missenard
(“Narcissisme et rupture”)

Quando o tema é a figura do herói, vasta literatura, que perpassa da Grécia Antiga aos tempos modernos, seja em epopeias, romances e narrativas, desperta sucessivamente interesse às gerações durante o passar dos milênios. Quantos não foram os heróis reais ou aqueles vivificados pela mitologia que alimentaram inúmeras vertentes humanísticas? Mitificados, permanecem na história e na imaginação dos homens. Presentes nas artes visuais, na literatura e na música, perduram até os nossos dias, causando admiração e debruçamento voltado às pesquisas sobre a figura do herói. Quanto já não foi escrito, analisado por especialistas, envolvendo-o? O mito do herói sempre existiu e não desaparecerá. Tem-se o modelo, idealiza-se o personagem que poderá servir de exemplo, seja em momento extremo e único que caracteriza a ação imediata de um salvamento, à constância na ação heroica perpetrada através de aventuras voluntárias que o comum dos mortais vê-se impossibilitado de realizar.

Muitos estudos reportam até à gravidez como ato heroico e seguem acompanhando o desenvolvimento da criança, do adolescente em seu caminho à idade adulta. Análises vêm o herói como arquétipo. O leitor interessado encontrará abundante literatura a respeito, mormente a envolver disciplinas como a psicanálise e, em casos específicos, estudos psicobiográficos que levam à compreensão de personagens tidos como heróis nos mais variados campos.

Vem o tema após conversa com o amigo Marcelo, que habitualmente encontro na feira livre de sábado. “Não seriam os tripulantes da expedição Kon-Tiki os verdadeiros super-heróis da modernidade, em detrimento dos famigerados personagens que infestam as criações cinematográficas rendendo somas volumosas?”, perguntou-me Marcelo. Marcamos um curto no domingo à tarde no Natural da Terra e conversamos a respeito.

A edificação do herói pode ser seguida desde o encaminhamento dos pais visando à vida gloriosa dos ungidos, seja em qual área “escolhida”, ou mesmo no ato “voluntário” que contrariaria desejos paternos e se apresentam como opposit às aspirações almejadas por ascendentes. Seria possível entender que, por vezes, embrionariamente uma semente de “heroísmo” exista e que basta um instante do acontecido para que o ato heroico emerja sem sequer resquício de qualquer ação voluntária anterior voltada à figura do herói. Quando recentemente o imigrante malinês Mamoudou Gassama, de apenas 22 anos, escalou com intrepidez absoluta os cinco andares de um prédio na França, agarrando-se como o mais hábil dos símios a grades e beirais de um edifício, a fim de salvar uma criança dependurada numa sacada e que certamente iria cair, tipificou na essência essencial esse ato heroico que provavelmente jamais teria sido por ele imaginado. Incontáveis exemplos acontecem diariamente e heróis anônimos surgem em catástrofes de todos os tipos. Incêndios, tsunamis, terremotos, desabamentos provocam em tantos cidadãos comuns, que nunca pensaram em situações semelhantes, o impulso que leva ao ato heroico.

Quantos não foram os blogs que escrevi sobre Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), autor que admiro profundamente, tendo como livro de cabeceira seu extraordinário Citadelle. Herói, sobrevoou o Atlântico Sul em um monomotor, a serviço da Aéropostale. Perdeu companheiros e morreria tragicamente no fim da guerra, de maneira misteriosa, com a queda de seu avião não distante de Marselha aos 31 de Julho de 1944, possivelmente abatido por caças alemães. No ano 2000 destroços do avião foram encontrados e livro foi escrito pelo mergulhador Luc Vanrell e o jornalista Jacques Pradel na busca de esclarecer o enigma. Conselhos para que não realizasse a missão de observação a que se propôs não demoveram a obstinação de Saint-Exupéry. O herói em arriscado encontro “voluntário” que o levou à morte. Anteriormente, Jean Mermoz (1901-1936), o extraordinário piloto da Aéropostale, desapareceria no Atlântico Sul em sua 25ª travessia. Henry Guillaumet (1902-1940) estaria presente em um dos livros mais marcantes de Saint-Exupéry, Terre des Hommes, após queda nos Andes em 1930 na sua 92ª travessia sobre a cordilheira, das 393 que realizaria nessa região montanhosa. Caminhou durante sete dias até ser encontrado. Teria dito a Saint-Exupéry: “O que eu fiz, eu te juro, nenhum animal teria feito”. Morreria tragicamente depois de seu avião ter sido abatido por caça italiano sobre o Mediterrâneo. Outros aviadores franceses sucumbiram durante esse período heroico nessa longa viagem da França ao Chile, sempre a serviço.

Quanto a Thor Heyerdahl (1914-2002), entende-se com clareza que a Expedição Kon-Tiki (1947) não foi um capricho (vide blog anterior). A construção do projeto foi longamente arquitetada. Sabia de todos os riscos, mas desafiá-los a fim de provar sua teoria suplantou todas as opiniões, que viam a possibilidade da tragédia na empreitada visando à travessia de 4.300 milhas em precária jangada. Crescia o herói. Todo o esforço preparatório dá a medida da obstinação. Com cinco companheiros chegou a termo numa aventura que ficou consagrada.

Neste espaço já resenhei livros de Sylvain Tesson, que me surpreende sempre, mercê de voluntária necessidade de enfrentar longas marchas a pé através do planeta, não apenas para evidenciar ser possível realizá-las, como no intuito de revelar civilizações outras, possibilidade de sobrevivência em áreas inóspitas ou mesmo denunciar descasos. Passou por perigos que o levariam fatalmente à morte. Num prosaico acidente em Chamonix em 2014, quando “escalava” um prédio de poucos andares, caiu, entrou em coma e subsistiu com graves sequelas que persistem. Parcialmente recuperado, continua com suas aventuras. Teria declarado, logo após sair do hospital, que acredita que irá morrer de maneira violenta. O herói a cumprir sua trajetória.

Esse breve relato sobre alguns heróis modernos tem origem também em minha infância. Aos dez anos de idade, li com avidez “Os Doze Trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato. Aqueles feitos heroicos encantaram a criança que eu fui e na adolescência e juventude, entre as muitas leituras, as façanhas de personagens intrépidos ficaram na memória. Só para citar três que abordam figuras que permaneceram na história e no imaginário, mencionaria “Haníbal”, de Mirko Jelusich (Porto Alegre, Globo, 1942), “A Conquista da Terra”, de Wilhelm Treue (Rio de Janeiro, Globo, 1945) e “A Vida de Nun’Álvares”, de Oliveira Martins (Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1944). Aos oitenta anos ainda tenho prazer de ler determinadas aventuras ou feitos que foram vencidos ou tragicamente abortados. Afinidades temáticas fincam raízes e essas só se aprofundam. Parece-me um bom sinal.

This post is a brief consideration about a few modern heroes and their outstanding feats, impossible to be achieved by common mortals. They are: Saint-Exupéry, Jean Mermoz, Henry Guillaumet, Thor Heyerdahl and Sylvain Tesson.