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Princípio primeiro: gostar da atividade

Faz-se necessário salientar fato elementar,
pois o intérprete detém o poder essencial.
É através dele que a música existe realmente.
Ao negligenciar essa evidência
corre-se o risco de distorcer todos os problemas da criação musical.
Andrés Souris
(“Conditions de la Musique”)

O workshop que será a apresentado na Sociedade Brasileira de Eubiose nos dias 6, 8 e 13 de Março tem como propósito expor as condições ideais para que uma gravação tenha êxito qualitativo. Expus no blog anterior a premissa dessas três palestras, enfatizando desde as gravações “heroicas” em LPs gravadas no Brasil, tantas vezes em situações técnico-acústicas precárias, apesar da dedicação dos envolvidos, como o passo decisivo que me levou a apenas gravar na Europa em condições excepcionais.

Em quase todas as áreas ocorre o problema da defasagem entre o que realizamos no Brasil e o que é concretizado em países denominados de ponta. Não é demérito constatar a evidência. É realidade. São tantos os fatores endêmicos!!! Nos esportes, na área empresarial, na mídia como um todo, nas artes. Há defasagem em toda a América Ibérica e, se a qualidade excelsa tem de ser buscada, ultrapassar as fronteiras torna-se um imperativo. Quando menciono os esportes, basta verificarmos a falta de apoio de nossas entidades esportivas para com os heroicos atletas brasileiros que lutam, tantas vezes à míngua, para a realização de sonhos quase sempre impossíveis de serem realizados, mercê da incompetência e por vezes desvio de conduta de dirigentes. O futebol brasileiro, hoje ridiculamente realizado em solo pátrio, tantas vezes com público irrisório, nada mais tem a ver com a qualidade ímpar dos grandes times europeus, eivado de jogadores brasileiros talentosos que buscaram plagas melhores.

O mesmo ocorreria com as gravações. Sob outra égide, a busca sempre incessante pela qualidade é traduzida pela necessidade sine qua non de os intérpretes estarem rigorosamente preparados para o mister. Não é apenas gravar, mas sim pensar no resultado final como algo que permanecerá pelo extremo cuidado durante todo o processo, assim como pela divulgação em países afins. Qualidade atrai qualidade. A experiência gravando em três países europeus, distintos culturalmente, faz com que, nessas três palestras que serão apresentadas, métodos, espaços e técnicas diferenciadas durante o processo de gravação caminhem para um único objetivo, atingir-se o melhor nível possível.

Após a gravação da integral para violino e piano de Henrique Oswald com Paul Klinck ao violino, registro realizado na Rádio de Bruxelas em 1995 para o selo PKP, foram três outras gravações em Sófia, na Bulgária. Primeiramente os dois Concertos para dois cravos de J.S.Bach (pianos, no caso) e orquestra de câmara, a fim de completar a integral para o instrumento solo realizada por meu irmão João Carlos. Gravamos na Sala Bulgária com a direção segura de Plamen Djurov. Em pleno inverno de 1996, a temperatura chegou aos -15º. A seguir recebi o convite de Heiner Stadler, diretor do selo Labor, para o primeiro CD de uma série (“Musik of Tribute”) com vários intérpretes, toda lançada pelo selo nos Estados Unidos. Assim, gravei no verão do mesmo ano “Music of Tribute” – vol. 1, com obras de nosso grande compositor Villa-Lobos e outras de autores consagrados, que lhe dedicaram homenagens pela passagem do centenário de nascimento em 1987, e que resultaram num caderno com as partituras que eu editei na Universidade de São Paulo no ano em pauta.

A gravação de “Music of Tribute” levou à seguinte, realizada no verão de 1997, com a integral de Jean-Philippe Rameau para teclado em dois CDs. Tendo chegado três dias antes, devido à defasagem horária acentuada, preferi ficar recluso em meu quarto no Hotel Bulgária. Para tanto levei meu teclado mudo e nele estudei minhas horas antes da gravação. O primeiro piano de fato após essa preparação foi um magnífico Steinway & Sons durante as gravações, que se estenderam por três noites. Heiner Stadler, em sua vasta experiência, testou várias salas europeias para as gravações de João Carlos em torno de Bach. A Sala Bulgária, em Sófia, teve de sua parte a plena acolhida. Toda revestida de madeira e com poltronas do mesmo material. A extraordinária acústica dessa grande sala abrigou a integral de Rameau com suas harmonias ousadas, a elegância dos contornos melódicos, a magistral organização formal e… os quase 5.300 ornamentos da fantástica obra ramista. O saudoso engenheiro de som Atanas Baynov, um especialista hors concours.

Entendo o ato de gravar como uma missão. Foi André Posman, diretor da De Rode Pomp, na Bélgica, que, após dois ou três recitais em anos sucessivos em sua temporada musical na cidade de Gent, chamou-me à sua sala e disse-me “professor, chegou o momento de o senhor deixar a sua herança”. Uma relação que dura até o presente me ligaria decididamente à cidade de Gent, sede da extinta De Rode Pomp, empresa responsável pela série ininterrupta de CDs que gravaria de 1999 até 2009, sendo que outras se prolongariam até 2015 para outros selos. Em 2019 penso gravar meu último CD. Sempre lembro o grande escritor e poeta português Guerra Junqueiro: “o tempo é insubornável”. Houve apenas uma exceção durante esse longo período, a gravação do CD “Viagens na Minha Terra”, unicamente com obras do notável compositor português Fernando Lopes-Graça. Gravei-o em 2003 na bela e lendária Leiria e o CD saiu sob a égide do selo Portugaler.

Num sentido abrangente consideraria três tipos de intérprete frente à gravação. Há aquele, que durante a trajetória, perpetuou o repertório por ele visitado desde os anos de aprendizado, incorporando inúmeras outras composições, todas pertencentes à tradição vigente, que remonta à segunda metade do século XVIII, mas estancando suas preocupações a partir do que foi escrito basicamente na segunda metade do século XX. Desafio sim, todavia parte considerável desse repertório já foi gravada dezenas de vezes, quiçá centenas, tantas dessas gravações realizadas por pianistas excelsos. É fato. Temos também o pianista que faz parte da lista de intérpretes das grandes gravadoras. Nesse caso, não são poucas as vezes em que ele aceita gravar repertório imposto pela empresa. Creio já ter narrado que, por volta de 2005, dias antes de uma gravação pelo selo belga De Rode Pomp, dei recital, como habitualmente fazia, com o programa que seria registrado fonograficamente na Capela Sint-Hilarius, em Mullem, que remonta ao século XI. Depois do recital, jantava com músicos belgas no restaurante da De Rode Pomp, quando fui apresentado a um agente de uma das mais prestigiadas gravadoras do planeta. Esse emissário veio de Bruxelas. Assistiu ao recital e viu nas prateleiras da sede da instituição cultural de Gent a série de meus CDs. Disse-me que gostaria que eu estivesse na lista de pianistas da organização. Agradeci, mas fiz-lhe três perguntas concernentes à atuação: poderia escolher o repertório, o local da gravação e escrever o texto incorporado à caixa do CD? A resposta foi sempre não, pois a organização determinava o repertório, o local da gravação em algum ponto do planeta e o texto era da responsabilidade da empresa. André Posman, diretor da De Rode Pomp, passava pelo local, logo após essas negativas. Levantei-me, dei-lhe um beijo na face e disse – ambos sorrindo – “pour l’eternité”. Conto esse episódio pelo fato de que é fácil detectar – consideremos a grande qualidade desses intérpretes, frise-se – nesse repertório preparado açodadamente, gravado e colocado no mercado, o pouco envolvimento do contratado, mesmo que habilmente executado. Não houve a decantação necessária, o debruçar lento que leva à integração com a obra executada. Como dizia um amigo músico belga, “execuções planas”. Sob outro aspecto, é difícil para o ouvinte leigo diferenciar interpretações. Essas grandes organizações estão há tempos repertoriando integrais e para tanto têm de manter entre seus artistas aqueles confiáveis. O único problema é que, na maioria dos casos, o dirigente, big boss, durante sua trajetória como empresário de sucesso, pode ter dirigido anteriormente uma empresa voltada à alimentação, aos produtos de perfumaria, à automobilística ou sabe-se lá quais entidades de outras áreas. Importa-lhe o mercado. Uma terceira categoria, na qual me incluo, esteve ou está ligada às microgravadoras seletivas que, logicamente, lançam pequena quantidade de CDs. Na De Rode Pomp, jamais André Posman impôs programa a ser gravado. Preferenciam o repertório pouco frequentado. Para o selo gravei 12 CDs, sempre a ter como engenheiro de som Johan Kennivé, um dos mais importantes da Europa. Outros sete para selos diversos foram gravados por Kennivé, sempre na Capela Sint-Hilarius. Sobre a mística capela escrevi vários posts ao longo de onze anos de blogs ininterruptos, completados presentemente.

Quanto a essa terceira categoria, há mínima guarida por parte da mídia. Na prática, ela menospreza o desconhecido e, como a massificação é fato inconteste, quanto mais o que está a agradar perdura, mais ela divulga. Na música dita de concerto, o repertório super ventilado; na música popular, o sucesso de plantão é exaltado ad nauseam. No meu livro “José Eduardo Martins – un pianiste brésilien” (série Témoignages, Paris Sorbonne, 2012) comparava o repertório extraordinário pouco ou nada frequentado com a parte submersa de um iceberg. O grande público conhece essencialmente a ponta desse iceberg e a cultua. Juan Carlos Paz (1901-1972), notável músico e crítico argentino, era extremamente cáustico em relação a esse apego desmesurado à ponta do colossal bloco de gelo, como assim denomino. Escreve: “nefasta disciplina geradora de virtuosos que, durante trinta anos ou mais, passearam os seus repertórios chopiniano, lisztiano, beethoviniano diante de esclerosados, estáticos e estúpidos auditórios que desejam ouvir a cada dia as mesmas obras e a quem só interessa o espetáculo desportivo com que os brinda o pianista favorito”. Sua posição extrema revela contudo a perpetuação do repertório sempre repetido. Diria que as sociedades de concerto fazem esparsamente concessão (remorso inconsciente?) ao passado olvidado.

Atraiu-me, desde os anos 1970, o repertório magistral pouco ventilado ou nada frequentado. Dos 12 CDs gravados para o selo De Rode Pomp, se exceções há, como os “Quadros de uma Exposição” de Moussorgsky ou a “Humoresque” de Schumann, magistralmente gravados por pianistas relevantes, foi pelo fato de integrarem um núcleo específico, pois em contexto definido, uma ideia a entender essas obras como pertinentes a um projeto.

No terceiro e último post tratarei de aspectos interessantes que fixei na memória durante os 22 anos a gravar no Exterior. Nele destacarei a importância fulcral do engenheiro de som. Johan Kennivé, técnico inexcedível, é igualmente psiquiatra. Amalgamamo-nos. Uma segunda metáfora a lembrar o iceberg também estará em pauta.

Resuming the subject of the forthcoming talks I will give on my recording experience in Europe, I plan to comment on performers that play the same repertoire over and over again and on my choice of promoting new masters instead of offering the same alternatives year in, year out, not forgetting to mention that every choice must be paid for.

 

Workshop na Sociedade Brasileira de Eubiose e ecos do blog anterior sobre voos

Há almas que amam os sons.
Franz Liszt

Há tempos pensei apresentar, em três palestras, minhas considerações sobre a experiência acumulada durante 22 anos a gravar na Bulgária, Portugal e sobretudo na Bélgica, resultando em 23 CDs até o presente. Essa ideia ganhou corpo a partir da constatação de que cada gravação propicia uma experiência inédita, mas uma única certeza, a de que, naquele período estreito de dois ou três dias, o hic et nunc aconteça com todas as situações favoráveis.

Bem antes da primeira gravação na Europa foram cinco LPs gravados no Brasil, o primeiro em 1979, num período em que rolos de fita registravam o que era interpretado e, para a edição, o técnico usava uma lâmina de barbear!!! Neste LP havia obras de Claude Debussy, Henrique Oswald e de Tsuna Iwami, estas últimas podendo ser acessadas através do Youtube. Três outros LPs tiveram o selo FUNARTE e foram registrados num período “heroico”, assim diria, pois o ilustre presidente da instituição, o compositor Edino Krieger, estava repertoriando a produção nacional. Num álbum duplo (1983), gravamos a integral para violoncelo e piano de Henrique Oswald (o ótimo Antônio Del Claro ao cello) e, em um segundo LP, registrei obras para piano solo do compositor romântico brasileiro. No ano seguinte, para o selo BASF, gravamos o Quinteto para quarteto de cordas e piano op. 18 de Henrique Oswald (1984). Tive a colaboração de experientes músicos residentes em São Paulo. Novamente pelo selo FUNARTE (1988), contei com a colaboração de Antônio Lauro Del Claro e da virtuose Elisa Fukuda para a gravação do Trio op. 9 e da Sonata para violino e piano de Oswald. Quando menciono “heroicos tempos”, considero o esforço depreendido para que gravações fossem realizadas, quando não faltavam determinadas variantes como precariedade dos ambientes de gravação e até improvisações que surgiam no decorrer das tomadas de som. Essas gravações tiveram importância para a cultura musical brasileira, mas não podiam ser referenciais, se comparadas com as realizadas na Europa, pela própria defasagem técnica como um todo.

O acaso levou ao convite para que gravasse na Bélgica. Músicos belgas em tournée pelo Brasil visitaram a loja da FUNARTE no Rio e adquiriram os três LPs mencionados. Ficaram impressionados  com a qualidade de Henrique Oswald e meses após recebia convite para gravar em Bruxelas a integral para violino e piano com o excelente Paul Klinck ao violino. Cheguei numa sexta-feira a Gent, na Bélgica, vindo do Brasil, e à noite ensaiamos pela primeira vez. Jamais o vira antes. Estou a me lembrar de que, cinco minutos após o início do ensaio, intrigou-me sua presença, de costas a uns passos do piano, portanto sem me olhar. Perguntei-lhe, após uma pausa, qual a razão de assim agir e a resposta foi incisiva. Sinto que não há nenhuma necessidade, pois nos entendemos musicalmente muito bem. E selou-se uma amizade que perdura. No dia seguinte Paul se casava, mas das 20 às 24 horas novamente repassamos o programa pormenorizadamente. Dois dias após realizamos a gravação no Estúdio da Radio Belga em Bruxelas, entre os dias 17 e 18 de 1995.

Novamente o acaso foi responsável por ter iniciado a série de gravações na Bélgica, após ter gravado quatro CDs em Sófia, na Bulgária. O lançamento do CD com a integral das obras de Henrique Oswald para violino e piano deu-se num concerto memorável no Musiekconservatorium de Gent completamente lotado, aos 18 de Novembro de 1995. Fui o pianista do Quarteto para piano e cordas  op. 26, da Sonata para violino e piano op 36, da Sonata-Fantasia op. 44 para piano e violoncelo, do Poemetto Lirico Ofelia para soprano e piano e de algumas peças para piano solo, assim como ouvinte da extraordinária Missa a Capella cantada pelo Coral Novecanto. Após o Concerto de mais de duas horas dedicado a Henrique Oswald, fui dormir com a adrenalina altíssima, pois pensava que aquela noite única se esvaíra e que o retorno no dia seguinte a São Paulo era certeza implacável. Horas depois, colocava minha mala no porta malas de um táxi que me levaria à estação de Sint Peters, em Gent, quando ao lado para um carro e de lá sai um enorme cidadão flamengo. Era André Posman, diretor do selo De Rode Pomp. Disse-me: “Professor, estive ontem e ouvi obras magníficas. O que o senhor vai fazer?” Respondi-lhe do meu regresso. Como chego muito antecipadamente aos aeroportos, mostrei-lhe o bilhete. Retirou minha mala do porta malas do táxi, levou-me à sede da Rode Pomp e, após, ao aeroporto. Vinte segundos mais e nada teria acontecido!!! São 23 anos de uma amizade que perdura e que resultou em inúmeros CDs gravados e bem mais de uma dezena de recitais na Associação por ele presidida.

No próximo blog comentarei sobre o processo de gravação em condições excepcionais, que resultou em 23 CDs gravados na Bulgária, Portugal e, majoritariamente, na Bélgica, levando-me a propor essas três palestras que serão apresentadas na Sociedade Brasileira de Eubiose nos próximos dias 6, 8 e 13 de Março, das 17:00 às 18:30. Abordarei a preparação de repertório, a escolha do local ideal para a gravação, a qualidade do piano e a extrema competência do engenheiro de som. Serão abordados igualmente fatores extramusicais de relevante importância para que, naqueles dias precisos, todas as circunstâncias estejam rigorosamente propícias. Gravações realizadas durante mais de duas décadas serão apresentadas.

A seguir comento os Ecos do blog anterior:

Quem tem a faca e o queijo, corta onde quer.
Adágio Popular Alentejano

Como houve Ecos de “Voos que deixaram Saudades”, entendo que seria oportuno colocar algumas posições de interesse que ampliam o conteúdo de meu blog, pois todos expressos por viajantes que habitualmente atravessam oceanos ou se deslocam nesta vasta América.

O professor titular da USP Gildo Magalhães considera: “… estocada certeira! Deveria ser impresso para ficar como leitura nas salas de espera dos aeroportos…. Curioso que, enquanto escrevo, passa em movimento na tela uma tira anunciando as maravilhas da Air France…”

Eudóxia de Barros, consagrada pianista, escreve: “… de pleno acordo, e sem falar da imposição daquele maldito ar condicionado, que já me ocasionou várias  gripes fortes, tendo numa das vezes transtornado todo o roteiro de nossas férias pelo Equador, Peru e Chile; a etapa Peru teve de ser cancelada pois eu permanecia acamada num hotel, com despesas extras com médico e remédios caros. Este seu artigo mereceria publicação nos jornais, ao menos na seção de Reclamações …”.

A professora Jenny Aisenberg escreve sobre necessaires distribuídas aos passageiros e nunca olvidadas: “Fiquei a lembrar-me das amenidades que nos eram oferecidas a bordo, como os kits (contendo pequeno tubo de creme dental + escova de dentes, máscara para dormir, meias, creme de mãos, flaconete com perfume, pente, proteção auditiva etc.)  e as toalhinhas brancas, umedecidas e quentinhas, que eram distribuídas pelas atendentes antes das refeições. De bom grado eu dispensaria esses mimos em troca de um pouco mais de espaço entre as poltronas, já exíguo, hoje cada vez mais restrito”.

Maria Izabel Ramos que já viajou por todos os continentes, escreve: “Faz-me relembrar a época de ouro de nossos voos internacionais, em classes econômicas ou em outras, de 1988 a 2010, quando se viajava elegantemente de roupa social “.

O arquiteto Marcos Leite tece considerações pertinentes: “Viajei muito menos que você, mas lembro-me de uma dessas transoceânicas anos atrás, São Paulo – Rio – Lisboa, pois fui de TAP e o jantar, se não magnífico, estava absolutamente correto, o bacalhau acompanhado por meia garrafa de um honesto tinto da Bairrada. Mesmo as nossas VARIG e VASP tinham pratos apresentáveis e um serviço de bordo gentil. A sugestão de um inglês, há uns 3 ou 4 anos atrás, não foi adotada no resto do mundo, mas talvez daqui a pouco vejamos implantada por aqui: espaço em pé, como nos ônibus urbanos, para percurso com tempo inferior a uma hora. E não estranhe se te cobrarem para usar o banheiro da aeronave!”

José Monteiro é comerciante e observa fato que realmente demonstra que o passageiro é apenas um detalhe na grande engrenagem a visar ao lucro. Comenta: “Anteriormente escolhíamos o assento no avião, desde que o bilhete fosse adquirido bem antecipadamente. Hoje, as companhias, no meu caso a TAP, coloca-o no assento por elas selecionado e, se porventura você quiser alterar, tem de pagar uns bons euros. Acho um disparate”.

A frase de Magnus Bardela é curta. Revela a decadência apontada por viajantes experientes: “Voo na econômica só é aceitável com um bom sonífero”.

O compositor e regente Maury Buchala em constate ponte-aérea Paris-São Paulo escreve: “Os voos são terríveis atualmente. Sobretudo para mim, pois não tenho espaço. A comida piorou muito, graças a essas embalagens de plástico. Atualmente, até a escolha das músicas que colocam para ouvirmos, deixa muito a desejar. E quando você tem que ficar 11hs  dentro de um voo, torna-se insuportável, sendo esse o meu caso com os voos periódicos para o Brasil”.

Essas observações qualificadas apenas reiteram o conteúdo do blog anterior, realçando fatos que não foram por mim citados. Entendo vergonhoso esse capitis diminutio relativo às nossas expectativas. Há termos bem mais fortes na língua portuguesa para definir essa escalada nos preços e a retirada do mínimo conforto dos passageiros que viajam na classe econômica. Aqueles 25.000 bovinos que, retidos inicialmente num de nossos portos, seguiram após, amontoados, para a Turquia, levaram-me a reflexões. Os poderosos tomarão providências? Nem pensar. Creio que o arquiteto Marcos Leite tem absoluta razão. Ainda teremos de pagar para a utilização da exígua toilette das aeronaves. Rigorosamente estamos à mercê. Nada a fazer.

This post addresses the forthcoming talks I will give on my recording experience in Europe and all the lessons drawn from that experience, which I would like to share with others.
I also publish a selection of messages received with comments on last week’s post about onboard services in economy class. I’m not the only one to notice that airlines are engaged in a race downhill when it comes to customer satisfaction.

 

A decadência nos serviços de bordo

O pensador lança-se à tarefa de desembaraçar
o enrolado novelo que o mundo lhe apresenta,
mostrando como todo o fio não é mais do que ligação entre dois extremos,
o da eternidade e do tempo,
o da substância e o do acidente,
o de Deus e o do Homem.
E neste trabalho de desenrolar o novelo se lhe vai a vida.
Agostinho da Silva
(“As Aproximações”)

Ao longo das décadas foram dezenas de voos para a Europa, sempre em classe econômica, para atividades ligadas à música, como palestras, participação em Congressos ou júris de doutorado, mas preponderando, recitais e gravações. A constância determina a avaliação, após observação retida na memória. Há não muitos decênios os voos não saíam diretamente de São Paulo e a passagem obrigatória pelo aeroporto do Galeão era um fardo para qualquer paulistano, mercê da desorganização e da demora. Com a construção do Aeroporto Internacional de Guarulhos, os deslocamentos passaram a ser a partir de São Paulo. Depois da recente modernização desse aeroporto, o melhor do país, a vida do viajante tornou-se menos incômoda, pois alguns melhoramentos aconteceram. Ainda continua um transtorno absurdo chegar ao aeroporto, sobretudo em horários de pico ou quando há acidente grave ou chuva torrencial obstaculizando o trajeto. O trem expresso que sairá do congestionado centro de São Paulo, promessa bem antiga do governo estadual, deverá entrar em circulação brevemente, mas há ainda o problema da distribuição dos passageiros para os diferentes terminais que deverá ser feita, ainda, pelos ônibus. Alguns dos principais aeroportos do mundo já dispensaram esse meio de transporte para a ligação entre terminais.

Tenho por hábito chegar muitas horas antes de um voo. Há sempre um bom livro para se ler enquanto aguardamos o momento do embarque. Mais agradável seria a espera se preços escorchantes não fossem cobrados do momento em que ultrapassamos a barreira do exame dos passaportes pela PF e a verificação da bagagem de mão e dos pertences nas vestes. Esses preços estão acima do que se cobra no hemisfério norte. Nada a fazer, pois certamente uma engrenagem muito bem montada faz com que os preços nos vários pontos de venda de bebidas ou algo comestível se equivalham.

Modernizações como o finger, dispositivo que leva o passageiro até a porta da aeronave, já existem há tempos; contudo, quando se espera uma comodidade no interior do avião, assim como serviço de bordo menos direcionado à redução de custos durante as longas travessias, tal não acontece, apesar de preços das passagens em elevação contínua. Para o viajante que realiza desde o final dos anos 1950 a rota Brasil-Europa, a decadência e até, utilizando-me de palavra mais veemente, mesquinharia para com o passageiro naquilo que lhe é oferecido durante a travessia chama a atenção. Se for realizada uma pesquisa no que concerne ao tratamento desde a década de 1970 ao presente, a diferença no serviço de bordo é gritante.

Estou a me lembrar de voos, décadas atrás, por várias companhias que realizam a travessia a partir de São Paulo em direção à Europa. Altura do voo estabilizada, as aeromoças já apresentavam o menu completo impresso, podendo o passageiro escolher entre duas sugestões. Precedendo a refeição noturna, aperitivo era servido e havia farta variedade de bebidas para escolha. Logo após serviam o “jantar” e ofereciam para os amantes de vinho a garrafinha do tipo escolhido. Finda a refeição, passava o carrinho com licor ou conhaque. O material utilizado para todo esse processo era de boa qualidade, em plástico rígido ou vidro (entende-se o não emprego desse material após o fatídico 11 de Setembro). Quanto às mantas, algumas companhias as tinham em lã pura!!! Atualmente tudo foi alterado drasticamente, tanto na qualidade pífia do material, como no processo todo de apresentação e simplificação dos bens oferecidos.

Talvez o único benefício ocorrido nestas últimas décadas tenha sido a proibição do fumo durante as longas travessias, pois ao chegar ao destino o passageiro ainda teria durante um bom tempo suas roupas lembrando-o das horas vividas no interior da aeronave.

Um outro aspecto que evidencia a sanha predatória das companhias que fazem a travessia oceânica refere-se às bagagens. Em 2017 realizei três viagens para a Europa para participar de júri de doutorado, recitais e Simpósio, respectivamente. As três pela TAP. Nas duas primeiras, tive direito a duas bagagens de 32ks gratuitas, aliás, como nos anos precedentes. Na terceira, apenas uma até 23ks e para esse exemplar único foi cobrado E$ 75,00 (sic)!!! Paguei cerca de R$ 290,00. No regresso também tive de pagar a mesma quantia. O leitor nem precisa realizar elucubrações a respeito. É algo rigorosamente desproporcional. Os preços das passagens diminuíram, o serviço de bordo tornou-se mais generoso? Não, apenas não. Igualmente no presente cobram para os voos pelo país tarifa por bagagem sem que as passagens tenham sofrido redução, como alardearam as companhias aéreas.

Quanto às viagens mais longas pelo interior do Brasil, serviam, décadas atrás, a refeição. Em muitas delas o passageiro recebe hoje um pequeno invólucro com algumas sementes e um copo de água!!! Se quiser um café, tem de pagar. Passagem cara, café de garrafa!!! É algo inadmissível!!! Entendo como miserabilidade. Quanto ao preço da Ponte Aérea São Paulo – Rio, afirmam ser a mais cara do planeta, considerando-se os quase 40 minutos de voo.

Os tempos românticos se foram. Estou a me lembrar de ter solicitado em três viagens as mantinhas de lã pura de companhias aéreas transoceânicas. Apesar de propriedade da empresa, as aeromoças me ofereceram gentilmente. Àquela altura, minhas filhas ainda pequenas e minha mãe agradeceram essas prendas vindas do ar. Em outra oportunidade, ao preencher uma ficha que me foi entregue durante voo pela Air France, solicitei auxílio à aeromoça, pois tinha uma dúvida. Após dirimir minha hesitação, verificou, sem nada dizer a respeito, que aquele era o dia de meu aniversário, pois fixei-o na papeleta que exigia tal referência. Minutos depois voltou com um pacote fechado, desejando-me feliz aniversário. Havia seis pequenas garrafas de champagne que compartilhei, bebendo com velhos amigos parisienses!!! Outros tempos.

Poderei parecer demasiadamente conservador. A viagem aérea no passado revestia-se de certa magia. Na verdade existia um quase ritual. Os passageiros trajavam-se bem e, essa tradição mantida, influía certamente no serviço de bordo. Com a “democratização” dos voos na classe econômica, certamente um avanço social, esse ritual, que também poderia ser visto pelas ruas da cidade de São Paulo, perdeu completamente sua aura. Presentemente não mais existem “normas” para se trajar, exceções às tradições que permanecem nas classes empresarial e política, no judiciário e em tantas profissões. Contudo, nos voos que cruzam os oceanos, vê-se de tudo. Opções discretas ou berrantes são aceitas ou ao menos toleradas. A quebra absoluta daquelas condutas que existiam, mas não eram impostas, pois faziam parte de uma natural observância, não resultaria, sob alguma forma, nessa decadência do atendimento? Toda aquele esforço em manter um certo requinte no serviço de bordo não era assim pensado pelo fato de que as empresas sabiam que os que mantinham a tradição opinavam se algo não estivesse à altura? Nesses últimos anos durante os voos há aqueles que esticam as pernas pelos corredores, outros que não endireitam as poltronas quando do serviço de bordo, assim fazendo quando alertados pelo passageiro que se encontra na fila logo atrás. Nem comentemos os que falam alto durante horas. Jamais viajo sem proteção auditiva ou earplugs. Observo as muitas transformações que, apesar do “progresso”, remetem-me às recordações. No passado tinha verdadeiro prazer em estar num voo. Hoje, ao entrar na aeronave, só penso em chegar bem ao destino, desiderato final.

Sob outra égide, o poder das grandes empresas beneficiadas por agências reguladoras de toda ordem, é causador de distorções enormes, não mais se preocupando com o interesse do passageiro, do consumidor, do doente e de tantos outros cidadãos. Sempre afirmo que uma das chagas da atualidade é o lobista, figura que entendo sinistra. Haveria exceções? Esse personagem pode sempre ser encontrado junto aos três poderes e às agências reguladoras. A Lava-Jato e outras investigações sob diversos rótulos já retiraram do “mercado” muitas dessas figuras nocivas à sociedade. Mas, à maneira da erva daninha, extirpá-las é tarefa hercúlea nesse nosso país tão dilapidado e com a Justiça rigorosamente morosa, mercê dos recursos quase intermináveis apresentados pelos advogados das “vítimas”. Rigorosamente nada a fazer, a não ser mudar mentalidades. Será possível que isso aconteça? A decadência cultural, dos costumes, da moralidade, da ética é velocíssima. Quem não a sente? Será que a palavra esperança ainda persiste nos dicionários? Vou verificar.

This post deals with flying in economy class, comparing international flights onboard services of the past with those we have today, in the era of mass travel. Not only air companies seem to be engaged in a race downhill but now they also charge high prices for passengers to check their baggage, with no reduction on flight ticket cost.