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François Servenière comenta temas essenciais

O problema dos políticos é o de mudarem o Governo:
o meu é o de mudar o Estado.
Contam eles com o voto ou a revolução.
Conto eu com o curso da História
e a minha vocação e o meu esforço de estar para além dela.
Agostinho da Silva
(“Entrevista”)

Pensara inserir, no post a seguir “Ecos de Berezina”, comentários de François Servenière que enriquecem o blog mencionado. O recital do dia 28 impediu-me a inserção, fazendo-a agora. Um dos aspectos fulcrais de Berezina foi a aceitação do jovem que entra em combate que lhe é imposto. Não haveria tempo para esse soldado, tampouco maturidade para uma reflexão maior sobre o assunto. Sob outra égide, temas a envolver ideologias, sistemas de governo, dialética permanente entre pensamentos divergentes estão contidos nas reflexões de François Servenière.

“Ao reler seu post sobre Berezina e meus comentários publicados em seu blog, compreendi melhor os caminhos tortuosos do pensamento na busca do entendimento de nossa realidade. Com efeito, qual o propósito de conhecermos a história se ela não nos leva a decifrar parte do presente? Trata-se de lição que não aprendemos jamais nos bancos escolares, pois a grande maioria dos professores não nos incita à compreensão do mecanismo de recorrência da história. Sob outro aspecto, o jovem em geral não capta as mensagens ou não tem maturidade para tal; o professor sobrecarregado não estaria disposto a propor esse mecanismo da transmissão do passado ao presente pelo fato de estar preso à ideologia progressista; a criança ou o jovem, impregnado da energia vibrante que o leva a pensar que tudo sabe e que poderá mudar o mundo, estuda os eventos históricos acumulados como uma lição obrigatória de pequenas histórias que lhe são narradas.
Na realidade, essas narrativas são galhos de uma mesma árvore e nós somos os galhos novos que nascem nas alturas. O fenômeno é clássico e universal, causa sensível da incompreensão da história pelos jovens, vítimas que são da patética e ‘eterna’ incúria das elites. Estas pensam influir sobre a história, quando na realidade, por total desprezo ao passado, são como capitães de um cargueiro diante de uma grande tempestade. Na Normandia, onde vivi durante tantos anos, sempre me indagava a respeito dessa tragédia que sacrificou jovens e que fez lotar cemitérios da segunda guerra mundial. Escrevi uma Symphony for the Braves, como você bem sabe. Trata-se de uma reflexão sobre a injustiça que consiste em matar jovens inocentes incapazes de discernir os motivos de suas presenças no campo de batalha, talvez para ‘expiar’ os erros dos poderosos, protegidos em seus palácios dourados.”.

Servenière aborda a seguir aspecto fulcral que atinge parte considerável da juventude, a alienação. Há poucos meses assistimos, pelos noticiários de TV, à absoluta falta de diretriz de quantidade apreciável de jovens alienados, acampados durante meses em barracas ao lado de um Estádio de Futebol. Meses perdidos à espera de um “cantor” do hemisfério norte, igualmente quase imberbe, pois esses brasileiros vindos dos mais variados rincões tinham de se postar na arena bem em frente ao “ídolo” desafinado. Mas a afinação acurada importa?

Continua o pensador francês: “Se os jovens conhecessem a história, revoltar-se-iam contra a constância de seus ascendentes em querer sacrificá-los em combate. Contudo, paradoxo trágico de nosso tempo, as novas gerações, pacificadas pela cultura, não mais têm a força de ir à luta para defender as fronteiras, deixando as portas abertas para que invasores determinados fixem posições, acabando por reivindicar o poder pelas urnas, processo menos violento… Processos não violentos, subreptícios, que jamais vingaram, pois todo processo de invasão não desejada de um território termina em catástrofe. Em todos os lugares do mundo.

São sempre as mesmas palavras e os mesmos males face à falta de coragem dos que decidem, dirigentes fracos (escolhidos à imagem de seu povo) e animados por desejos espúrios: a reeleição, as vantagens, a corrupção embutida e seus lugares confortáveis”. Não seria esse o quadro atual de nosso país atolado num lamaçal, mercê de governos que nos levaram ao pântano neste início do século?”. Servenière continua: “Parcela do povo grita ‘vivam os dirigentes fortes!’ E assistimos às consequências: milhares e milhares de cadáveres. Os cadáveres das guerras não seriam produtos da fraqueza ou da força do poder? Complexa questão filosófica, cujo alpha não consegui desvendar, tampouco o omega. Enquanto certas ideologias ulteriores do século XX querem liberar o homem de suas correntes, inversamente cerceiam-no em processos de perda da liberdade ainda mais virulentos, sendo que, em consequência da aplicação drástica de ideologias mortíferas, criou-se a legislação a condenar os ‘crimes contra a humanidade’

A partir de frase de Georges Benjamin Clémenceau (1841-1929), Servenière aborda a seguir fato concreto que assola grande parte da juventude: “É necessário um pouco de ordem e um pouco de desordem”. Segundo o compositor e pensador francês, referindo-se a esses jovens: “revoltam-se naturalmente, a fim de fixar seus territórios, contra a autoridade do pai, contra a ordem estabelecida. Como toda geração, eles têm a flama em suas lutas pela vida, como nós a tivemos. Todavia, reproduzirão o mesmo esquema educativo e coercitivo para com seus filhos e assim perpetuam o processo… ‘Tudo deve se transformar para que nada mude’. Vocês, brasileiros, têm um pé sobre cada campo: ‘ordem e progresso’, tradicionalmente direita e esquerda… que simbolizam nossa situação corporal instalada sobre dois pés, dirigida por dois cérebros. Não empregamos em França a fórmula metafórica ‘o coração à esquerda e a carteira à direita’ para exprimir essa dualidade existente? Têm graça a política e a filosofia! Os debates não são novos e se reproduzem a cada geração desde o advento da espécie humana, e muito antes entre os animais, cujos comportamentos adotam situações de submissão e de autoridade, de luta pelo poder, mas também de sabedoria e de instinto acurado… Malgrado os grandes pensadores que se ‘debruçaram’ sobre tais questões universais, as conjunturas sucessivas não fazem mais que reproduzir aos movimentos do balanço à mercê dos eventos que se sucedem. E como o desequilíbrio permanente, à imagem das forças estelares dos Éthers de l’Infini, é característico da sociologia humana, nossas respostas sociais e políticas são sempre as mesmas, idênticas… Sucedem-se umas às outras: ‘remetamos em ordem toda essa desordem’, e após, ‘remetamos um pouco de desordem nessa ordem plena’, parecem-me os mecanismos sociais automaticamente correntes… E assim até o fim dos tempos… Nosso espírito não estaria em permanente dialética a confrontar necessidades vitais: descongestionar a ordem em nossa cabeça e em nosso corpo; posteriormente tentar restabelecer a ordem nos pensamentos e atos confusos que nos assolam? A partir dessa dualidade, aprendemos que não há nenhuma posição congelada em nossas ideias e atos, e sim situações transitórias à imagem do balanço permanente da vida e suas manifestações, como ocorre com os ciclos multiformes da natureza. Em minha obra pianística Rhythmics and Repetitives busquei ‘fundamentar’ essas ideias e propósitos.

Numa outra abordagem, verificamos ainda hoje o processo orweliano através da internet: a mensagem progressista e libertadora ‘parece’ atraente e o controle das massas, assustador. George Orwell (1903-1950) em seu romance Nineteen Eighty Four (publicado em 1949) já preconizaria que os antagonismos filosóficos estão misturados na cabeça dos humanos para fazê-los perder sua referências ancestrais, como numa sociedade imaginária onde se diz ao indivíduo: ‘A paz é a guerra’.

Diria também que, nesse processo voluntário de mentira generalizada propalada nos discursos políticos de hoje, mesmo em França, pátria da literatura, onde as palavras deveriam ter significado claro, os homens voltados públicos dizem sempre o contrário. Inclusive, podemos constatar entre os mais virtuosos entre eles, aqueles da última geração, que expõem na primeira parte de uma fala, uma ideia e, ‘logo a seguir’, se desdizem sem qualquer rubor. Prática feita para agradar a categorias de eleitores, todas as cabeças, lunáticos ou solares… A cada um a escolha. Enfim, todos acabam decepcionados, pois os polos sul e norte, até segunda ordem, não estão situados no mesmo endereço. Na realidade, a vida é feita de escolhas. Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) predisse as consequências desses processos mentais deformados pela ideologia da mentira: ‘Deus ri dos homens que lamentam os efeitos, consequências das causas que eles admiram’. Não seria a mentira a ‘técnica’ absoluta empregada por políticos e empresários brasileiros, corruptos e corruptores, a fim de negarem peremptoriamente quaisquer práticas ilícitas?
Servenière finaliza: “Pensemos na complexidade das almas e dos equilíbrios humanos através das gerações, impulsionando o progresso do ideal humano: ‘Liberdade do pensamento e de expressão nas sociedades cada vez mais seguras’. Vasto programa! Esse último artefato histórico das ‘sociedades seguras’ contém o germe dos perigos de uma nova ditadura mundial, tal qual preconizada por Orwell e Aldous Leonard Huxley (1894-1963), via internet e suas derivantes… O melhor dos mundos… Não obstante, o perigo nunca está distante ‘O combate não tem fim’ é o próprio fim, apesar de que a vida não é feita que de combates… Almejamos todos a paz, no nosso de profundis, entendendo-se todas as aspirações individuais rigorosamente humanas: família, Nação, lei, amor, respeito, ordem virtude, igualdade, liberdade e fraternidade”. (tradução: J.E.M.)

Once again I publish reflections of the French composer François Servenière after reading the post “Berezina”, this time addressing issues such as weakness and corruption of decision makers, the seeds of dictatorial governments spreading around the globe, youth alienation, the dangers of ignoring the lessons of History and the links between past and present.

 

(clique na imagem para a leitura do programa)

Recital de encerramento

As agências internacionais de concertos
apoderaram-se inteiramente da nossa vida musical,
onde colocam (por vezes a peso de ouro) o êxito acumulado do “centro”.
E nem sequer passa pela cabeça das instituições e dos seus “programadores”
que Brasil e Portugal, juntos,
bem podiam criar uma nova dinâmica
de efectivo intercâmbio que se projectasse
não só no espaço cultural luso-brasileiro, mas também para fora dele.
Mário Vieira de Carvalho
(Professor Catedrático de Sociologia da Música na Universidade Nova de Lisboa)

A última vez que me apresentei como recitalista de piano no Theatro Municipal de São Paulo foi aos 17 de Junho de 1963, com programa dedicado a J.S.Bach.  A progressiva destinação do Theatro Municipal às temporadas líricas, ao ballet e aos concertos orquestrais possivelmente retirou do mais tradicional teatro paulistano muitas das apresentações solo, que foram deslocadas para outras salas da cidade. Estou a me lembrar de que, na minha juventude, o Theatro Municipal abrigou apresentações de muitos dos maiores intérpretes solistas da história: Arthur Rubinstein, Claudio Arrau, Walther Gieseking, Zino Francescatti, Ruggiero Ricci, Christian Ferraz, Alexander Brailowsky, Leonid Kogan, Pierre Fournier, Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Gérard Sousay e tantos mais. Minha primeira ida ao Theatro Municipal foi para assistir ao pianista Alexander Uninsky. Tinha eu pouco mais de dez anos e o espetáculo  maravilhou-me. A todas as apresentações dos intérpretes mencionados meu irmão João Carlos e eu assistíamos entusiasmados! Quando crianças, sempre acompanhados de nossos pais.

Quanto ao Theatro Municipal, o atual prefeito João Dória realizou para a cidade um benefício cultural a ser elogiado, pois o teatro ficou em passado recente à mercê de algumas figuras hoje envolvidas com a Justiça. Propiciou o alcaide uma democratização dessa sala de espetáculos centenária. Foi pois com alegria que recebi do Senhor Cônsul Geral de Portugal em São Paulo, Dr. Paulo Lourenço, convite para encerrar a programação “Experimenta Portugal’17″ que, durante todo o mês de Junho, mostrou à cidade eventos diversificados em vários locais, numa promoção relevante. Junho tem significado especial para Portugal, pois o dia 10 (dias de Camões) é a data nacional do país. O recital se enquadra na programação do Theatro Municipal, que às quartas-feiras, às 20:00hs, tem realizado espetáculos solistas ou camerísticos com boa aceitação pública. Está pois meu recital marcado para o dia 28 deste mês.

Para tanto, apresentarei programa luso-brasileiro que se estende do barroco à contemporaneidade. O ouvinte poderá “viajar” sonoramente através de propostas de compositores de grande valor com linguagens rigorosamente distintas. Diria, não há no programa elaborado dois estilos que se poderiam assemelhar. Aos 79 anos, poderia afirmar que, entre minhas escolhas durante a trajetória, a música de Portugal e do Brasil faz parte atuante de meu repertório, sem distinção, repartida de maneira bem equânime, inclusive em número de CDs gravados, seis brasileiros e outros seis com obras portuguesas significativas.

No programa apresentarei obras de oito autores, também selecionados equilibradamente. Inicio com duas Sonatas do compositor barroco nascido em Coimbra, Carlos Seixas (1704-1742). Seixas, falecido precocemente, legou importante criação distribuída em vários gêneros. Gozou da amizade de Domenico Scarlatti (1685-1757), que teceria elogios ao colega coimbrão, 19 anos mais jovem. Carlos Seixas compôs mais de 100 Sonatas para teclado. Na Bélgica gravei 23 Sonatas para o selo De Rode Pomp. As duas escolhidas são contrastantes, sendo a Sonata em  lá menor (71) plena de poesia e a em dó menor (16) jocosa e virtuosística, com determinadas ornamentações, recorrentes durante a obra, que fazem lembrar a técnica da guitarra.

Também pelo selo De Rode Pomp gravei as “Trente Six Histoires pour amuser les enfants d’un artiste” (1999), obra basilar de Francisco de Lacerda (1869-1934). Apresentei-a mais de uma vez em várias cidades portuguesas. Quando do lançamento de meu livro “Impressões sobre a Musica Portuguesa” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011), apresentei na legendária cidade universitária não apenas muitas dessas pequenas peças, como também duas homenagens a Francisco de Lacerda. O compositor francês François Servenière (1961- ) comporia “Trois musiques pour endormir les enfants d’un compositeur” e o compositor português Eurico Carrapatoso (1962- ), as “Six histoires d’enfants pour amuser un artiste”,  inspiradas nos poemas da poetisa portuguesa Violeta Figueiredo. Pede o compositor que o intérprete leia os curtos e sugestivos poemas antes da apresentação de cada uma das peças da coletânea.

Os “Estudos Transcendentais” de Francisco Mignone (1897-1986), compostos em 1931, pertencem definitivamente ao repertório mais significativo de nossa criação musical para piano. Neles, Mignone emprega processos arrojados, mormente sob o aspecto da busca de resultados sonoros.

Em 1979 solicitei a Francisco Mignone uma obra para comemorar 20 anos de minha primeira apresentação em Lisboa. Surgiu “Adamastor – O Gigante das Tempestades”, inspirado em “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões.

O longo convívio com Gilberto Mendes (1922-2016) na Universidade de São Paulo aprofundou laços de amizade. Ele me honraria com muitas obras que apresentei no Brasil e em vários países europeus. Entre essas: “Viva Villa”, “Il Neige Encore”, Sete “Estudos”, “Sonatina” e mais algumas. Muitas delas têm sido apresentadas no Exterior por pianistas de diversas nacionalidades, o que vem demonstrar que, contemporâneo, Mendes nunca foi compositor de uma única apresentação, fato rigorosamente comum entre seus pares. Para os meus 70 anos, que também seriam lembrados em Portugal, Gilberto Mendes compôs “Largo do Chiado” (2008). A curta peça evoca o fado preferido por Gilberto, “A Severa”, canção que sabia de memória desde o filme português de José Leitão de Barros datado de 1930 e primeira película sonora realizada em terras lusíadas.

De Fernando Lopes-Graça (1906-1994), compositor que tive o privilégio de conhecer e de cuja amizade privei desde 1958, gravei três CDs, a maioria com obras em primeira audição. Apresentarei “Morto, José Gomes Ferreira vais ao nosso lado”, pertencente às nove “Músicas Fúnebres”, nas quais Lopes-Graça homenageia amigos que partilhavam ideologia e conceitos artísticos e literários. Como a peça apresenta várias vezes o tema de “Jornada”, uma das canções de Lopes-Graça  sobre versos do poeta José Gomes Ferreira e pertencente às “Canções Heróicas”, antes da interpretação da composição tocarei a canção precedida da leitura dos versos do ilustre poeta português.

Júlio Medaglia (1938- ), um dos músicos mais versáteis do país, compôs uma peça para CD de Estudos Brasileiros que gravei na Bélgica e lançado pela Academia Brasileira de Música. “Zé Eduardo arpeggiando do choro” nasceu após solicitar ao amigo um choro para piano, mercê de ter ouvido uma outra composição sua do gênero dedicada ao quinteto de metais da Orquestra Sinfônica de Berlim. Um primor que continua a granjear ótima recepção.

Mantive com Jorge Peixinho (1940-1994) uma amizade que me estimulou muito no sentido de entender melhor a escrita decorrente do pensamento da Escola de Darmstadt, com a qual Peixinho tanto se identificou. Gravei duas obras do notável músico, “Villalbarosa” para o selo Labor dos Estados Unidos (2001) e, mais recentemente, o “Étude V Die Reihe – Courante” (1992) para o selo Francês ESOLEM (2017), criação que explora de maneira notável a “série” (técnica de composição baseada na disposição de 12 sons sequencialmente diferentes – total cromático da oitava) e que veio enriquecer a coletânea de Estudos para piano que iniciei em 1985 e que teria a duração de 30 anos, findando pois em 2015. Em blogs anteriores escrevi a respeito do projeto, criado com data marcada para ser finalizado. Tem-se uma panorâmica do gênero Estudo na passagem do milênio. Recebi cerca de 80 Estudos vindos de inúmeros países.

Finalizarei o programa com uma obra de nosso grande compositor romântico, Henrique Oswald (1852-1931), músico que tive o privilégio de redescobrir e dele gravar cinco LPs no Brasil e três CDs na Bélgica, sendo que um quarto deverá ser lançado no próximo ano. A “Valse-Caprice” op. 11 nº 1 é simplesmente extraordinária em sua condução e apresenta temas contagiantes. Na realidade, uma grande Valsa.

Mesclar obras brasileiras e portuguesas é motivo de alegria. Todavia, vergonhosamente em nosso país não se toca música erudita ou de concerto composta em Portugal. Continuamos a reverenciar os mesmos compositores consagrados europeus, os de sempre. Por motivos que poderiam ter explicação numa análise mais profunda, passando pela colonização, teimamos em dar as costas à excelente criação musical erudita, clássica ou de concerto portuguesa. Exceções das exceções existem e ficam nessa categoria.

Convido os leitores que me têm prestigiado desde Março de 2007 através do blog a assistir um programa diversificado, que bem posiciona criações relevantes oriundas de nossos países, que deveriam ser sempre irmãos em todos os aspectos. Preservemos esse amálgama que existe a partir de tantos elos insubornáveis, eternos.

On my forthcoming recital on 28 June at the Theatro Municipal, part of the agenda of “Experimenta Portugal 17”, event promoted by the  General Consulate of Portugal in São Paulo. The recital will be entirely dedicated to Luso-Brazilian composers: Carlos Seixas, Eurico Carrapatoso, Francisco Mignone, Gilberto Mendes, Fernando Lopes-Graça, Júlio Medaglia, Jorge Peixinho and Henrique Oswald. A richly varied programme ranging from the Baroque to the present, with extraordinary works from Portugal and Brazil, “sister nations” that should be always united by genuine ties of friendship.

 

 

 

 

O pensamento de François Servenière em torno do tema

- On gouverne mieux les hommes par leurs vices que par leurs vertus.
- Le peuple est le même partout. Quand on dore ses fers, il ne hait pas la servitude.
- Le mot de “vertu politique” est un non-sens.
- Ce n’est pas possible ; cela n’est pas français.
- Une societé sans réligion c’est comme un vaisseau sans boussole.
Napoleão Bonaparte (1769-1821)

A figura de Napoleão fascinava-me na juventude, pois aos 16 anos já havia lido obras do historiador francês Octave Aubry (1881-1946) em torno do Imperador. Um certo romantismo permeava esses livros. Com o passar do tempo, a leitura de outras obras levou-me para uma posição mais crítica. Faz parte de nossas transformações à medida que os acúmulos acontecem.

A recepção ao blog anterior foi bem expressiva. Em mensagens curtas houve elogios e críticas à figura de Napoleão Bonaparte, suas conquistas e derrotas em campo de batalha, assim como suas decisões em tantas áreas que tiveram guarida na legislação e na vida do povo francês ao longo dos séculos. Concentrar-me-ei na longa e substanciosa apreciação de François Servenière, compositor de mérito e um arguto pensador francês. Para aqueles que me honram com a leitura semanal é sem dúvida de grande interesse o posicionamento de um conhecedor profundo da música, da literatura e da história da França.

“Berezina é um episódio típico sobre o qual o francês não gosta de falar, salvo em caso de uma derrota catastrófica política, emocional, humana, pessoal ou esportiva. Berezina é nossa referência absoluta em termos de psicologia negativa. E há razões. Temos também Trafalgar, Waterloo, as últimas Guerras, em registros de batalhas perdidas antes mesmo de terem começado… Jamais perdemos uma batalha sem causa. Derrotas ensanguentadas, trágicas, aquelas dos ‘galos’ se achando mais fortes do que todo mundo! O drama francês, sempre em atraso no início de uma guerra – ‘quem nos quer mal?’ – , um povo obrigado a fazer a guerra pelo fato de estar acuado, pressionado pelos inimigos, mas globalmente incapaz e despreparado para o combate, sob os aspectos material, psicológico e físico, como também derrotados antes do combate pela presença de uma ideologia pacifista. O que teria feito a avestruz para não ter nascido na França? Mesmo encurralados hoje pela presença de 100.000 possíveis combatentes islamitas (um pequeno exército, segundo estimativas de estrategistas do Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália…), continuamos a preferir os passarinhos, os programas ecumênicos de televisão, as séries adocicadas, o cinema egocentrado germânico e acender velas quando tragédias surgem, como recentemente no Reino Unido, que gritou em coro ‘vocês não terão nosso ódio!’ Ganha-se uma guerra com esse gênero de afirmação? Lembremo-nos do tout va bien, Madame la Marquise. Num outro plano completamente distinto, vocês têm a referência da semifinal da Copa do Mundo de 2014.

A realidade subjacente, mesmo com o sol a brilhar, é uma: ‘A civilização democrática é a primeira na história que se equivoca face às forças que trabalham para destruí-la’ (Jean François Revel  (1924-2006), filósofo, escritor e jornalista francês).

Os intelectuais, as elites mundiais traem. Nenhuma originalidade. Eles detestam o princípio de Nação. Nem há necessidade de se falar sobre sua extensão em ‘ismos’. Eu não falo dos esportes olímpicos ou coletivos diversos, quando os países são representados: segundo eles, são baixas pulsões orgânicas, como as culturas locais, outras manifestações, quermesses, etc…. Alguns desses intelectuais que ainda perduram adularam Mao e Pol Pot, o genocida que liderou o Kmer Vermelho no Camboja! Cuba lhes é o paraíso absoluto, mas gostam de viver em torno do Central Park… Lógica também nesses casos! A globalização econômica é seu credo, atualmente… Em caso de guerra, saberão se proteger em Casablanca, Rio, em Los Angeles, nos seus resorts já preparadas para tal fim. Comparados aos povos antigos, a evolução nesse sentido foi ínfima. Encontramos sempre as mesmas oposições ideológicas, os mesmos abusos das elites, os mesmos heroísmos da ruralidade, as mesmas celebrações após vitória e os mesmos ‘resistentes’ de primeira hora sempre em primeiro plano, ‘diante das câmaras’ para obter medalhas e prebendas, após o povo ter sido sacrificado em campos de batalha. Napoleão não estaria fora do contexto, mesmo se tratarmos de temas de nossa época, pois ele evoca uma transformação radical de um antigo regime odiado em direção a um regime mais democrático. As mesmas forças estão em marcha nos dias de hoje com as instâncias superiores europeias, odiadas igualmente pelos povos.

Os períodos históricos fazem-nos pensar no boomerang que se volta contra nós. O Ocidente desfrutou de um período de paz nesses últimos 70 anos, graças ao capital com uma força incrível de inércia, mas igualmente dos espíritos doravante enfraquecidos, mercê do conforto moderno e da alimentação açucarada. Todavia, o inimigo assim não entende e quer por fim, não importa o preço, ao panorama etéreo no azul pacífico europeu. Os povos dormem, despertam assustados logo após um massacre e, antes de voltar a dormir, balbuciam ‘ah, mais um atentado!’.

Ainda não li ‘Berezina’, de Sylvain Tesson. Admiro muito sua obra e outros aspectos a ele concernentes: personalidade, escolhas, coragem, temeridade, apesar de reprovar seu desligamento deste mundo que ele despreza e que pinta com acidez, quiçá cinismo e desencorajamento. Tesson é de tal nível cultural que se desespera diante da humanidade, após ter auscultado com um bisturi todos os recantos mais abissais dos erros acumulados pelo homem. Amamos ler Tesson, pois seu estilo e sua cultura são prazerosos. Sob outra égide, precisamos nos distanciar de sua alma vital para não nos deixar poluir por suas ideias negras e desesperançosas. Há nele forças mórbidas para disputa e duelo constante com a morte, que por várias vezes dele se avizinhou. Há certamente facetas nesse duelar: voluntarismo, atração ou desprezo. O terreno no qual Sylvain Tesson protagoniza, admirável cabeça incandescida, é certamente aquele da morte. É a vida, é assim. Sua escolha. Admiro pelas mesmas razões Mike Horn”. Numa entrevista tempos após o grave acidente que sofreu ao cair da parede de um prédio que tentava escalar em Chamonix e que o levou ao coma, Tesson diria, com aparente serenidade, que espera ter morte violenta. Continua Servenière: “Encontrei alpinistas também enlouquecidos, compositores suicidas, artistas atormentados. Felizmente não faço parte de suas famílias, pois amo muito a vida para não colocá-la em risco a cada segundo, mormente pelo fato de que penso perenizar-me através de meus filhos. Bela aventura, a vida e a continuação através das gerações.

Num primeiro approach, você disse tudo da trama dramática e histórica. Aproximações líricas de Sylvain Tesson! Apesar de ainda não ter lido o livro, tem-se de considerar a personalidade de Napoleão – psicologia, loucura guerreira, egoísmo, inteligência, conhecimento dos homens em suas fraquezas e falhas – e perguntar-se. Primeiramente, antes de tornar-se Imperador, Napoleão era um militar oriundo da Revolução Francesa, apesar de que deu de ombros como Imperador a alguns de seus legados. Completa e visceralmente tornou-se opositor dos Antigos Regimes monárquicos e feudais europeus. Busca instaurar um novo mundo. É a trama de toda a sua revolta contra a Europa e a finalidade de todos os seus combates assassinos contra os regimes atuantes ao preço de milhões de mortos. Alguns, na Europa e na França, comparam Napoleão a Hitler e a Stalin! Certo, suas batalhas contra os Regimes Antigos resultaram em misérias atrozes por onde passou. Tabula Rasa. É fato. A miséria dos povos em consequência da passagem da Grande Armée tem registros históricos por toda a Europa. Apesar de todas essas atrocidades, entendo – criticam-me por assim pensar -  que o legado de Napoleão está muito acima daqueles ‘deixados’ por Hitler, Stalin, Mussolini ou Franco.

Considerando-se essas misérias e desgraças, não tão diferentes das que as precederam sob os regimes políticos abjectos de Reis e Príncipes da Europa antes de 1789, a ação de Napoleão deu início e propiciou o continuum sobre este continente, relacionado a uma reforma democrática profunda que se embasa através do Código Civil que foi difundido pelos países, chegando aos países árabes e às Américas”. Apenas para esclarecimento ao leitor sobre o “Code Civil des Français” ou “Code Napoléon”, promulgado aos 21 de Março de 1804 por Napoleão Bonaparte, reúne o célebre Código regras que fundamentam o status das pessoas (livro Iº), dos bens (livro IIº) e as das relações entre as pessoas privadas (livros III e IV). Para o leitor que deseja inteirar-se mais profundamente sobre a matéria, há farta literatura, mormente nos sites franceses.

Prossegue Servenière: “Napoleão quis acabar com o Antigo Regime na Europa. Certamente foi ele um dos pais da Europa atual (seu Código Civil baseia-se nos Evangelhos, e o Tratado de Roma seguiu o mesmo caminho), mesmo a se considerar que seu poder temporal tinha todos os quesitos de um imperador romano. Reconhece-se em Júlio César a paternidade da modernidade romana e… europeia, sendo Carlos Magno seu sucessor, o que significaria a primeira ‘moagem’ da Europa ocidental. Poderemos entender ser Napoleão o pai da modernidade europeia, diga-se. Nenhum outro monarca do continente teve durante os últimos séculos tanta influência positiva sobre o que viria após sua morte, em 1821.

Os séculos XVIII e XIX deixaram montanhas de cadáveres através das conquistas… Mas havia o respeito às leis da guerra e ao inimigo derrotado; reconheciam-se bravura e inteligência, Um século após, a influência bolchevista estruturada na teoria marxista, que pregava a eliminação dos povos ‘inúteis’ (balcânicos, ucranianos, judeus, bascos, sérvios, romenos, ciganos…), fez desfilar perante nós os criminosos de guerra dos séculos XX-XXI (Stalin, Trotski, Lenine, Mao, Castro, Pol Pot, Maduro, o Estado Islâmico…). Não há possibilidade de estarem todos esses na mesma foto com Napoleão. Entre o Imperador e eles, há um mundo ao nível da moral e das realizações que perdura positivamente. Napoleão é um rio na nossa história, no qual nos banhamos um dia ou outro. Faz parte de nosso DNA.

Napoleão jamais quis exterminar os povos. Sinceramente pretendia liberá-los com suas ideias fixas militares, a fim de atingir seus fins. Combatia regimes políticos antigos, os Príncipes de linhagem, perversos, depravados, sedentos do sangue e suor de seu povo, as genealogias despóticas que se enriqueciam pelo berço e não pelo mérito. Eis sua invenção republicana: o mérito, a coragem e suas recompensas, a Legião de Honra e a Medalha do Mérito. Queria modernizar a Europa através da força das armas. Não era seu objetivo aniquilar a humanidade. Napoleão era da velha época, cheia de coragem e de honra, se bem que não ignorava nenhuma lei da guerra, de Carl von Clausewitz (1780-1831) a Sun Tzu (544 a 496 a.C.), passando por Maquiavel (1469-1527). Napoleão permanece como um sonho de grandeza, malgrado seus erros trágicos: é sempre invocado como salvação. Assim também foi De Gaulle, quando a Nação Francesa esteve no patamar mais baixo. Na realidade, os europeus reconhecem essa qualidades de Napoleão e sua ambição de elevar os povos da Europa acima das monarquias de direito divino.

Retornando a Berezina, um erro estratégico magistral que foi sem dúvida a Campanha da Rússia, fruto, como sempre, de um gigantesco pecado de orgulho. Napoleão se acreditou muito forte, inteligente, astuto, sutil, seguro de si mesmo. Não querendo ceder em nada face aos monarcas de direito divino, impregnado que estava de seu destino revolucionário e reformista. Napoleão, envergonhado e confuso, entendeu que não poderia ir mais longe. O que ocorreu nessa retirada serve ainda de lição, pois ela é abrangente, a compreender: território, clima, vantagem que os autócnes têm sobre suas terras e a dúvida quanto à proporção numérica que não mais serve em nossos dias. A inteligência estratégica sendo a mãe dos combates ganhos: os islamitas, com 10 terroristas prestes a morrer, fazem maior mal aos inimigos psicologicamente, do que uma bomba atômica. Trump teria compreendido isso ao lançar 59 tomahawks sobre uma base síria e a mais poderosa bomba americana antes das bombas A e H sobre posições do Daesh, no Afeganistão. Para poder tratar após e impor suas regras ao Islam… O futuro próximo dirá!

Sob aspecto outro, os exércitos modernos aprenderam a acumular, bem antes das batalhas, longas ou curtas, rações de sobrevivência, doravante compactadas, ligeiras e otimizadas pela liofilização. Essa é ainda uma lição da Retirada da Rússia, entendida hoje como obrigatória nas Escolas Militares, pois a política da terra queimada ordenada pelo czar Alexandre 1º da Rússia impediu o exército heteróclito de Napoleão de se alimentar em terras percorridas. Erro estratégico, um dos últimos da história, mas que será reeditado por Hitler 130 anos mais tarde na Europa ocidental e na Rússia.

Em França, Berezina é considerada como uma derrota, quando na realidade pode também ser entendida como uma vitória francesa do General Jean-Baptiste Eblé (1783-1812). Berezina está ligada intimamente à Retirada da Rússia, esta sim uma verdadeira Berezina, no senso literal da palavra correntemente utilizada na língua francesa, pois esse episódio impregnou profundamente nossa psique de maneira absolutamente negativa. Representa o símbolo mesmo da derrota, o apogeu do desastre em todos os registros da vida. Não por acaso, a expressão popular francesa ‘C’est la Bérézina’ significa  situação de derrota ou o trágico insuperável.

Eis minhas reflexões após a leitura de seu blog apaixonante sobre tema não menos apaixonante, que nos atingirá a todos se não conseguirmos segurar o touro pelos chifres. As soluções aí estão, mas a classe política, que poderia colocá-las em pauta, não o faz por causa de negócios e também da petromonarquia… Que dizer dos povos? Vencidos antes do combate?

Não sei, mas não cesso de refletir a cada dia. Meus propósitos decorrentes da atualidade não estão fora do contexto. Estaríamos nos preparando para uma nova Berezina? Conhecemos a sequência da história, mas não a decorrência que está por vir… Teriam razão as Cassandras?”. (tradução: J.E.M.)

Resuming the subject of last week’s post, I transcribe today excerpts of an e-mail message from the French composer and intellectual François Servenière discussing positive and negative aspects of Napoleon’s accomplishments and legacy.