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Recital na “Maison Natale” do Compositor


Meu convívio familiar com a babá
iniciou-me desde a tenra infância a todos os contos russos.
Era ainda um miúdo
e esses contos impediam-me tantas vezes de dormir à noite.
Modest Moussorgsky (notas autobiográficas)

Ninguém falou àquilo que de melhor existe em nós
com um acento mais terno e mais profundo.
Claude Debussy (sobre o ciclo de melodias “Quarto de Crianças”, de Moussorgsky)

Entre 1911 e 1913 Claude Debussy (1862-1918) escreveria três obras para encenação, criações distintas: “Khamma”, “Jeux” e “La Boîte à Joujoux”, esta última um ballet pour enfants. Profícuo período antes do longo calvário que sofreria com a detectação de um câncer que o levaria à morte.

Ao longo dos posts, reiteradas vezes afirmei que um intérprete tende a ter uma apreensão maior do corpus de um compositor se trabalhar a integral ou parcela substancial de sua obra. A visão do todo torna mais tangível o entendimento das muitas transformações da linguagem de um autor através de sua trajetória. O idiomático, esse arquivo mental de um criador, apesar de alterações que podem caracterizar-se como sensíveis, mantém, contudo, traços reconhecíveis nos extremos da produção criativa. A transformação, por exemplo, da linguagem escritural do compositor russo Alexandre Scriabine (1872-1918) é de tal dimensão que torna difícil compreender obras cronologicamente extremas terem sido escritas pelo mesmo músico. Em artigos publicados no Exterior nas décadas de 1970-1980, considerei que elementos desse código estão contidos nesses limites, como a quase absoluta ausência da passagem do polegar nas obras para piano e a progressiva presença de motivos neurótico-obsessivos ao longo da criação.

“La Boîte à Joujoux” é um caso singular na produção de Debussy. Dir-se-ia que nela se faz presente um aparente multum in minimo de tantas propostas de composições anteriores, que teriam  condensação plena nos Douze Études de 1915. A obra é sensível, a respirar a transcendência do universo infantil. Inspirada nas aquarelas e texto do pintor, decorador, criador de brinquedos de madeira e de histórias infantís André Hellé (1871-1945), “La Boîte…” é uma das realizações mais amalgamadas que se conhece nesse compartimento música, texto, ilustrações. Nada é supérfluo, tratando-se de obra lúdica. A apreensão de Debussy das criações de Hellé e a captação dos sentimentos mais íntimos da mente de uma criança, no caso sua única filha, Claude-Emma ou Chouchou (1905-1919), faz-se por inteiro. “Retiro as confidências das velhas bonecas de Chouchou”, escreveria Debussy ao seu editor Durand aos 25 de Julho de 1913.

Resultados de aprofundamento que expus em artigos publicados nos anos 1980-1990 foram aceitos pela comunidade musical em França. O que considera “La Boîte… ” como criação original para piano e não redução de partitura orquestral. O termo réduction está presente em muitos textos sobre a obra escritos ao longo do século XX. Para os dois outros ballets acima citados, “Khamma” et “Jeux”, Debussy realizaria a redução para piano, e os termos “Partition pour le Piano réduite par l’Auteur” estã0 fixados nas respectivas páginas de rosto da edição da A.Durand et Fils do período, sendo que as duas reduções são absolutamente impossíveis de ser tocadas, pois por vezes há quatro pentagramas. No caso de “La Boîte à Joujoux”, não apenas inexiste a palavra, como é rigorosamente pianística. Fosse apenas réduction, a Maison Durand teria realizado edição tão primorosa com todas as aquarelas de André Hellé? Réduction é preferencialmente entendida como realização menor, uma espécie até de “memento”. Desde que considerada original para piano e não redução, “La Boîte… ” torna-se a mais longa obra monolítica para o instrumento escrita por Debussy, pois sequencial nos seus quatro quadros. Sob outra égide, temos que considerar que a partitura para piano, original doravante, é de cunho absoluto de Debussy, pois parte considerável da orquestração, escrita durante período de declínio físico do autor, entre 1914-1917, foi completada pelo amigo e regente André Caplet (1878-1925) após a morte do compositor. Se há todo um vasto dossier a respeito da montagem de “La Boîte à Joujoux”, que teria a primeira audição do ballet no Théatre lyrique du Vaudeville, aos 10 de Dezembro de 1919 sob a direção de D.E. Inghelbrecht, frise-se que seria a partitura para piano solo, a que integraria com o passar dos anos gravações e apresentações em público da obra completa para piano de Debussy.

Uma outra conclusão refere-se ao desdobramento do affaire Moussorgfsky-Debussy. Durante um século debateu-se muito – a literatura sobre a obra de Debussy é riquíssima nesse item – sobre a influência nítida de “Boris Goudnov”, a extraordinária ópera de Modest Moussorgsky (1839-1881), encontrável na ópera “Pélleas et Mélisande”, do compositor francês. Confessadamente, Debussy escreve a respeito dessa admiração que se estende ao ciclo de canções “Quarto de Crianças”, de Moussorgsky, que teria nítida influência sobre “Childrens’s Corner” para piano, coleção que o pai amoroso dedica à Chouchou.

Um dos mais fiéis amigos de Debussy, Robert Godet (1866-1950), escreveu: “Já a conviver com doença fatal, uma das últimas alegrias veio dos ‘Quadros’ “. Procurei evidenciar em artigo publicado nos Cahiers Debussy, “La vision de l’univers enfantin chez Moussorgsky et Debussy” (1985), que Debussy teria sido igualmente influenciado pela magistral obra quando antolhou-se-lhe a possibilidade de escrever um ballet pour enfants, que seria “La Boîte à Joujoux”.

Fator externo evidente, que faz entender o apreço de Debussy pela obra de Moussorgsky, já se configura na inspiração, pois ambas partiram de imagens contidas em aquarelas. No caso de Moussorgsky, as expostas na exposição dedicada a Viktor Hartmann (1834-1873), seu amigo falecido recentemente. Quanto a Debussy, as ideias brotaram a seguir às aquarelas e história contínua de André Hellé. Os “Quadros…” e “La Boîte..” são enderaçados ao universo lúdico, pois, apesar da grandiosidade da primeira, metade das aquarelas escolhidas por Moussorgsky para a edificação dos “Quadros…” destina-se ao imaginário da criança. Em carta de 23 de Julho de 1913 ao seu editor, Jacques Durand, Debussy faz referência aos brinquedos da filha ao abordar “La Boîte…”: “arranco confidências das velhas bonecas de Chouchou”. Quanto a determinadas aproximações escriturais e de mood, em vários segmentos do ballet pour enfants podem ser sentidas influências moussorgskianas. São inúmeras as identidades. No aprofundamento realizado constatei que o tema principal de “A Grande Porta de Kiev”, monumentalmente tratado, não deixa de ser outro que Frère Jacques, tão conhecido mundialmente, com a redundância de Moussorgsky evocar também sinos. Portanto, a frase sonnez les matines da canção popular francesa ganha maior sentido na apreensão moussorgskiana. Conscientemente ou não, o autor russo aplicou o tema que teria passado incólume por mais de um século! E de pensar que a ideia me veio, na edificação da integral para piano do compositor, ao constatar, através das cartas de Moussorgsky ao amigo Stassov, que a Niania (babá) de sua infância não apenas contava-lhe histórias que, por vezes, “impediam-me de dormir”, como cantava-lhe canções do populário. Considere-se a forte influência francesa na Rússia entre os séculos XVIII e XIX, que propiciava à aristocracia russa a presença de governantas vindas de França, primeiras preceptoras de seus filhos. Por sua vez, Debussy utilizará também, conscientemente no caso, temas de canções populares francesas como Il pleut, il pleut, bergère e Fanfan la tulipe, assim como aludirá a temas de Charles Gounod (1818-1893) e Felix Mendelssohn (1809-1847).

A grandeza dos “Quadros de uma Exposição” não esconde a fina destinação lúdica. Epilepsia e alcoolismo deprimiam o compositor e voltar-se para as reminiscências da infância poderia traduzir o regresso ao universo infantil perdido, redimido pela música. Saliente-se que Moussorgsky foi bom pianista e que, entre muitas pequenas peças para piano, tantas evocam lembranças tantas, a infância e Niania, a babá.

Paradoxalmente, as duas criações apresentam resultados diversos. Poder-se-ia afirmar que “La Boîte…” é intimista, tem dinâmica a permanecer basicamente nas baixas intensidades e a escritura é mais “horizontal”. Frise-se que se está diante de obra programática, pois há uma história e os quatro quadros de “La Boîte…” contam as peripécias de três personagens centrais: a boneca, o soldado e Polichinelo. Outros tantos personagens surgem e até batalha entre polichinelos e soldados enriquece a criação. Essa visão de um ballet pour enfants, com drama sequencial e temas precisos (leitmotivs) para os personagens, dá coerência e unidade à obra. Quanto aos “Quadros… “, o leimotiv está afirmado em todas as “Promenades” (Passeios) que ligam a maioria dos quadros. Na obra de Moussorgsky tem-se preferencialmente a presença “vertical”, constituída de massa de acordes e também de sonoridades que chegam ao limite extremo das intensidades. Não por acaso a obra, de grande difusão mundial, sofreria transcrições para orquestra, sendo a mais conhecida a realizada por Maurice Ravel. Entre outros, Dmitri Shostakovich e Francisco Mignone também transcreveram os “Quadros de uma Exposição”. Deste, significativa é a opinião datada de 1947 (A Parte do Anjo – autocrítica de um cinquentenário): “Originalidade está na lógica da criação e se Debussy é feito de uma terça parte de franceses (até de Massenet!), e uma terça parte de Moussorgsky, lhe bastou botar uma parte de Debussy na sua criação para ser original e chefe de escola!”

Foi, pois, com imensa alegria que recebi o convite do Musée Debussy, sediado na casa em que o compositor nasceu em Saint-Germain-en-Laye, para festejar o centenário de “La Boîte à Joujoux”. Digo que é uma emoção grande, pois parte considerável de meus aprofundamentos deu-se em torno do grande mestre da música. Mais intenso será o acontecimento, pois a envolver igualmente os “Quadros de uma Exposição”, mercê de dados por mim levantados relacionando Debussy a Moussorgsky no direcionamento das duas extraordinárias criações para piano.

Soma-se a todo o exposto uma grata relação em torno de “La Boîte à Joujoux”. Alexandre Martin-Varroy, cantor lírico, comediante e “metteur en scène” profissional, realizou magnífico memorial para o CRD de Pantin, na França. Escolheu como tema “La Boîte à Joujoux” e, para maiores aprofundamentos, buscou o Centre de Documentation Claude Debussy em Paris. Quis conhecer dois artigos meus sobre o ballet pour enfants mencionados na extraordinária biografia crítica de François Lesure (Claude Debussy. Paris, Klincksieck, 1994; reedição, Fayard, 2003). Entrou em contacto e durante meses trocamos e-mails dirimindo dúvidas. O memorial, acompanhado de apresentação da obra em sua prova por pianista francesa e três atores-dançarinos, teve recepção que não poderia ser melhor. Pois bem, Alexandre Martin-Varroy deverá fazer uma exposição do ballet pour enfants, explicando a plasticidade de “La Boîte à Joujoux” e suas possíveis múltiplas caracterizações. Lembremos que em 1913 Debussy pensou na apresentação de “La Boîte…” com marionetes, certamente com as aquarelas de André Hellé em mente. Também foi imaginada para atores, dançarinos e orquestra, apenas narrador e piano e, presentemente, a integrar todas as performances em que a obra completa para piano é apresentada.

O post que deveria ser publicado na madrugada do dia 11 sofrerá um possível atraso de no máximo dois dias, pois o recital do sábado será tema do texto em questão.

On my recital in France next 11 at the house where Claude Debussy was born in Saint-Germain-en-Laye (Musée Claude Debussy). I will play Debussy’s La Boîte à Joujoux and one of Modest Moussorgsky’s masterpieces, Pictures at an Exhibition, a work that, conciously or not, would have influenced the French composer. On the occasion of the recital, the French actor Alexandre Martin-Varroy will explain the plasticity of La Boîte… and its several ways of artistic expression.

 

 

 

 

 

 

Seguir a Observar nosso Entorno

A grande diferença entre o inteligente e o estúpido
- entre o chamado inteligente e o chamado estúpido –
é que o primeiro se esforça.

Como nada entenderam do passado,
nada podem sonhar para o futuro.
Agostinho da Silva

A impressão parece ser a de um acelerar, à medida que a idade segue sua trajetória. Estou a me lembrar de que na infância-adolescência o fim do ano demorava uma eternidade para chegar. A inexorabilidade do tempus finitus nos faz sentir mais próximos de nossos destinos finais.

Alguns aspectos mereceriam considerações nesse ano que ora finda. Este post, longe de ser temático, capta algumas impressões assimiladas ao longo do ano de 2013. Não poderia deixar de me posicionar frente ao que estamos a viver em nosso país e na cidade como um todo. É triste constatar a deterioração evidente dos costumes e da desacreditada e nefasta grande maioria de nossa classe política. Raro o dia em que um escândalo a envolver algum personagem político não vem a público, majoritariamente sobre corrupção. Corruptos por vezes são denunciados, corruptores permanecem quase sempre impunes. Aos esclarecidos é motivo de desalento e tristeza; aos beneficiários de bolsas, cotas e demais benesses do governo, esses fatos nocivos não têm a menor influência na hora do voto. O partido planaltino não tem a mínima oposição dessa gigantesca legião de adeptos, mercê desses favorecimentos. Sob outro aspecto, o léxico brasileiro conhecido no Exterior tem uma palavra que se junta a outras bem ventiladas, como samba, Corcovado, Copacabana, Bahia, Pelé, Amazonas… Trata-se de mensalão. Sabem pronunciá-la razoavelmente bem e conhecem os porquês, dois os três personagens principais e a extensão do significado.

A Prefeitura tem no alcaide de plantão figura que, já no Ministério da Educação, foi alvo de críticas fundadas, graças aos episódios sobre os exames do ENEM e a publicação de livros que continham erros essenciais. Ao contribuinte ficou a incumbência de cobrir, com seus impostos, tributos e taxas elevadas, os erros devidos à “desatenção”. À testa da maior cidade da América do Sul, o ex-ministro está a cometer equívocos que igualmente não enaltecem sua figura. O aumento do IPTU algumas vezes acima da inflação gerou protestos generalizados, e a cobrança do imposto predial urbano encontra-se suspensa pelo Judiciário até que o Tribunal de Justiça Paulista aprecie o mérito. O “silêncio” frente à progressiva invasão dos “sem teto” na imensa urbe é outro exemplo de gestão complicada. Neste item, algumas dessas “apropriações” mereceriam destaque. O vão do MASP, o mais importante museu do cone sul americano, tem sido invadido sistematicamente por sem teto; a Praça Cedro do Líbano, em plena Avenida Brasil, abriga algumas tendas de moradores de rua, assim como a Acibe Ballan Camasmie e a perigosa esquina da rua Ribeiro do Vale com a Av. Bandeirantes, no Brooklin. O centro da cidade exibe calçadas a abrigar quantidade expressiva de moradores de rua. Esse é o clima que parece estar a imperar na atual gestão, não enfrentar problemas que possam acarretar algum tipo especial de desgaste junto a determinadas camadas sociais. O atual burgomestre, não tomando qualquer medida para solucionar essa silenciosa e constante invasão, corre o risco de ser personagem similar a “L’Apprenti Sorcier” (O aprendiz de feiticeiro) composição de Paul Dukas (1865-1935), baseado em conto de Goethe e popularizado através do filme Fantasia (1940), de Walt Disney, em que Mickey Mouse é o astro a representar o aprendiz. Ainda há tempo para que essa invasão seja contida. Haveria vontade política?

Lamentável o que ocorreu na Universidade de São Paulo, que tende a despencar em próximas avaliações internacionais. O Jornal da USP apresenta, em sua edição de 2 a 8 de Dezembro de 2013, cenas da maior barbárie. Bandidos travestidos de alunos, semelhantes aos bandidos igualmente travestidos de torcedores que infestam estádios, destruíram a Reitoria. Uma total falta de autoridade por parte da cúpula da universidade e do Estado. E só de pensar que o delinquente que está com uma marreta em uma das ilustrações deste post deveria ser um dos celerados que pleiteava votação direta para Reitor e outras mais reivindicações!!! Foram presos, haverá sanção aos invasores delinquentes “uspianos” fácilmente reconhecíveis através de inúmeras fotos, serão expulsos da universidade? Neste caso, é o mínimo que se pode pensar antes de uma ação penal rigorosa. Contudo, nada acontecerá e outras greves e destruições ainda maiores poderão ocorrer. E de pensar que esses bandidos que quebraram o que havia dentro da Reitoria, saqueando-a e lá permanecendo durante mais de um mês, um dia estarão a ocupar postos prováveis de importância!

Vergonhoso o estender do tapetão no julgamento de minha desafortunada Portuguesa de Desportos. Neste país, os poderosos sempre obtêm privilégios, ou através de renomados advogados ou pela posição econômico-social influente. Triste constatar que o Fluminense tem farta tradição nessas viradas de mesa em tribunais esportivos instalados na engrenagem da CBF no Rio de Janeiro. Comentaristas afirmaram que, durante o campeonato de 2013 da série A, a Portuguesa foi prejudicada em vários jogos, mercê das arbitragens. Hoje relegada à pequena torcida, mas a merecer continuar na série A graças ao desempenho no campo de futebol, está a dar lugar ao Fluminense em decisão estranhíssima de tribunal esportivo no… Rio de Janeiro, sede do time carioca. A Portuguesa de Desportos tem o dever moral de entrar na Justiça Comum. Não há outra saída. Certamente tomará tal atitude. O mundo esportivo além- fronteiras precisa conhecer o que ocorre no futebol brasileiro. Qual a razão para que não haja concurso público para a composição dos tribunais esportivos?  Meu querido irmão e ilustre advogado Ives Gandra, em entrevista concedida ao programa de Milton Neves na Rádio Bandeirantes, pronunciou-se a respeito dessa concentração de poderes do STJD (Superior Tribunal de Justiça Esportiva) no Rio de Janeiro… em mãos de um feudo: “Temos um tribunal como feudo de uma família, os Zveiters dominam o STJD. O atual presidente (Flávio Zveiter) foi considerado um grande jurista já no terceiro ano de faculdade para ingressar no STJD. Nem o Miguel Reale no terceiro ano de faculdade era considerado um grande jurista.” (band.com.br ; 16 de Dezembro, 17:03). Sem mais comentários!!! Ao fim do julgamento com cartas marcadas, enquanto, com razões de sobra, torcedores da Portuguesa choravam, após luta árdua dentro do campo para se manter na série A, outros do Fluminense, de maneira constrangedora, insensata e melancólica, saudavam com euforia o “Tricampeonato” obtido no tapetão e não no gramado. Especialistas na matéria, dirigentes do Fluminense já têm a tradição de nefasta façanha e saberão valer-se da artimanha sempre que se fizer necessário.

Se quase nada temos a comemorar em nosso país sob o aspecto ético e moral, se o crescimento do Brasil foi pífio, se a Petrobrás – outrora uma das grande empresas mundiais – claudica, após gestões complexas nesses últimos 12 anos, se os corredores dos hospitais públicos mostram vergonhosas imagens que ratificam o descaso, graças à desídia administrativa, se anualmente dezenas de milhares de brasileiros sucumbem nas estradas ou em assassinatos brutais, há que se considerar que o povo saiu às ruas a clamar reivindicações básicas e moralidade política. As imagens de milhões de brasileiros ocupando avenidas e praças em Julho correram o mundo. Esse imenso povo ainda não foi atendido em seus pedidos essenciais.  Tudo está a tender ao esquecimento. Até quando?

A visita de Sua Santidade Papa Francisco foi o mais belo exemplo de fé, congraçamento, integração, despojamento. Milhões de jovens vindos de tantos países para a JMJ participaram durante uma semana inteira dos encontros com o Papa no Rio de Janeiro e na Basílica de Aparecida. A não se esquecer jamais aqueles momentos. Sob o plano individual, tristeza ao perder minha sogra, a ilustre professora Olga Normanha e o diletíssimo amigo, o pintor Luca Vitali. As alegrias vieram do amoroso convívio familiar e dos poucos e fiéis amigos; das leituras de tantos universos contidos nos livros percorridos; dos posts semanais; da Música, minha companheira desde a infância; das corridas de rua, que já somam 73 em cinco anos. Após um lustro participando ininterruptamente da Corrida de São Silvestre, não mais correrei a prova, mercê da irresponsabilidade da organização em manter a perigosa descida da Major Natanael neste próximo dia 31, causadora na edição passada da morte de um cadeirante. Israel Cruz Jackson de Barros não conseguiu fazer a curva no final da rua, a cadeira de rodas virou e o atleta amador bateria a cabeça no muro do complexo do Estádio do Pacaembu. Um desrespeito à comunidade esportiva a manutenção do percurso para este fim de ano. Quando interesses estão em jogo…

Enquanto o sopro existir continuarei a manter os posts semanais e a estreita relação com os leitores. São eles que me dão o estímulo para prosseguir. A todos, os meus votos profundos de um 2014 mais esperançoso.

It’s New Year again but I don’t see much to celebrate. All I see is the defeat of Christian morals, corruption, the streets of my city invaded by homeless people and panhandlers and authorities not dealing with the problem, the building of the Rectorate of USP (University of São Paulo) destroyed by revolted students whose acts remained unpunished, my football team relegated to the 2nd division of our national league thanks to a dirty trick played by directors of Fluminense, one of the most widely supported football teams in Brazil – and thus a guarantee of sold-out stadiums. What remains to be celebrated are family, friends, my music, my books, my blog and always the hope for a new beginning.

Quando Lembrança é Bem-Vinda

Espelho, amigo verdadeiro, 
Tu refletes as minhas rugas, 
Os meus cabelos brancos, 
Os meus olhos míopes e cansados. 
Espelho, amigo verdadeiro, 
Mestre do realismo exato e minucioso, 
Obrigado, obrigado! 

Mas se fosses mágico, 
Penetrarias até o fundo desse homem triste, 
Descobririas o menino que sustenta esse homem, 
O menino que não quer morrer, 
Que não morrerá senão comigo, 
O menino que todos os anos na véspera do Natal 
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
Manuel Bandeira  (Lira dos cinquent’anos)

Aproxima-se mais um Natal. Para o cristão que apreendeu, através de ascendentes, o espírito do nascimento do Cristo, há sensíveis motivos para que a comemoração represente um repensar o ano que está a findar, experiências boas ou menos favoráveis que foram percorridas e, entre os seus mais caros, congraçar-se de maneira fraterna. Sob outra égide, mais e mais antecipa-se a propaganda natalina, a descaracterizar por completo a essência do evento. Publicidades já em fins de Agosto!!! Uma total irreverência. Estou a me lembrar de que em minha infância-adolescência todo o pensamento voltado ao Natal iniciava-se no dia 1º de Dezembro. Comércio e Mídia conseguiram banalizar a festividade maior da cristandade, mormente para quem não vive intensamente o nascer de Cristo.

Estou a me lembrar de episódio que ficaria registrado para sempre. Nas décadas de 1980-1990 foram várias as viagens a Paris para aprofundamentos na obra de Claude Debussy. Em uma delas, ainda no aeroporto de Guarulhos, encontro-me casualmente com o competente historiador e estudioso de uma das vertentes da musicologia, Arnaldo Contier, então professor da FFLCH da Universidade de São Paulo. Coincidentemente viajávamos na mesma aeronave para pesquisas na Bibliothèque Nationale, ele a buscar subsídios para a sua área. Durante duas semanas encontrávamo-nos na BN e algumas vezes almoçamos no entorno.

Nesse profícuo período, o ilustre musicólogo e amigo François Lesure – quase que consensualmente o mais importante especialista em Claude Debussy num plano mundial na segunda metade do século XX – dirigia o Departamento de Música da BN. Propiciou-me o privilégio de poder trabalhar durante as duas semanas os manuscritos originais para piano do grande mestre. Recolhia-me a uma sala individual e, à medida que findava o estudo de determinada partitura, uma funcionária a retirava e colocava à mesa outro manuscrito. Munido de luvas e de um sistema para virar páginas amarelecidas pelo tempo, percorri com reverência cada compasso, a entender a escrita precisa, não desprovida de certas rasuras. Debussy escreveria em 1915 ao seu editor Jacques Durand, ao concluir os “Douze Études” para piano: “a mais minuciosa estampa japonesa é uma brincadeira de criança ao lado do grafismo de certas páginas, mas estou contente, foi um bom trabalho”!

Certa noite François Lesure convidou-me para jantar em seu apartamento. Noite muito agradável em que a adorável Anik Lesure e François mostraram-se impecáveis anfitriões. Estava presente dirigente da importante livraria Aux Amateurs de Livres, Alain Baudry, que, após relato de François a respeito de meu longo envolvimento com a obra de Debussy, mostrar-se-ia interessado pelos estudos que eu estava a realizar. Comentei que faltavam à minha biblioteca particular determinados livros sobre o compositor, mormente escritos na primeira metade do século XX. Convidou-me a visitar a livraria-editora, pois não apenas trabalhavam com  edições raras abrangendo várias áreas, como também exportavam obras francesas relevantes, em edições cuidadosas, para  universidades da América do Norte e do Japão. Editavam igualmente teses meritórias de séculos precedentes. A livraria mantinha  importante acervo de livros de arte e de literatura não mais encontráveis no mercado.

Manhã fria de um 24 de Dezembro, véspera de Natal. Convidei Arnaldo Contier para me acompanhar à livraria, situada no 62 da Avenue de Suffren, bem próxima à Tour Eiffel. Atônito e encantado, encontrei a maioria dos títulos que buscava, desde o livro do amigo de Debussy e seu biógrafo, Louis Laloy, editado em 1909 e tendo o número 17 de uma tiragem de 200 exemplares, assim como um dos compêndios (1926) de um dos mais importantes estudiosos do compositor, Léon Vallas, com dedicatória do punho do autor à “Ouvreuse du Cirque d’Été”, a célebre romancista francesa Colette. Cerca de vinte livros dessa rica bibliografia da primeira metade do século XX foram por mim selecionados. Ainda era a época dos francos franceses e a soma foi além dos 1.500 euros de hoje. Fui ao caixa para saber quais livros levar, pois teria de adequá-los ao meu orçamento econômico. Perguntei à senhora que me atendeu pelo senhor Alain Baudry. Avisado, desceu as escadarias com um grande cão labrador, a dizer que acabara de ler meu artigo publicado nos Cahiers Debussy, “La vision de l’univers enfantin chez Moussorgsky et Debussy” (1985). A senhora apresentou-lhe a elevada conta com a relação completa. Alain Baudry leu o papel, olhou-me e, apertando minha mão, disse: “C’est l’esprit de Noël”. Ofereceu-me ainda livros recentes sobre música, publicados pelas Éditions Klincksieck, também sob sua direção.  Fiquei estupefato e essas obras vieram enriquecer meu conhecimento sobre o grande mestre francês. Arnaldo e eu saímos maravilhados com o gesto de tamanha generosidade.  À noite, Contier e eu, fomos comemorar o Natal em restaurante italiano em Montparnasse. Ao comentar com François Lesure sobre o ato do amigo, disse-me: “esse é Alain Baudry”.

O Espírito de Natal pode estar traduzido nas mais diversas ações de generosidade. Tem ela de ser natural, daquele que entende a dádiva  como extensão. Entidades religiosas ou laicas, sem contágio político, têm apreendido, ao longo dos tempos, o evento maior da cristandade como congraçamento pleno. Contudo, é no seio familiar que a semente de solidariedade torna-se planta e frutifica. Que a família continue como o bem maior! A todos leitores envio votos de paz e congraçamento nesta data maior da Cristandade.

On Christmas season and commercial interests transforming the date into a secular holiday for the celebration of materialistic consumerism. This reminded me of a Xmas spent in Paris. Visiting the bookshop of editor Alain Baudry, I selected a pile of books about Debussy I could not afford. While trying to sort out the ones I needed most, Alain Baudry, who was aware of my research on Claude Debussy’s works, shook my hand and offered me all the books as a gift, saying: c’est l’esprit de Noël.