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Os Doze Estudos para Piano

Os termos vanguarda ou modernismo
não têm mais interesse para mim.
A Sagração da Primavera de Stravinsky
é uma obra capital, seja em 1913 ou agora.
Pierrot Lunaire de Schoenberg também.
Os Études para piano de Debussy
e o 4ª Quarteto de cordas de Bartok igualmente.

Pierre Boulez

O CD contendo os Doze Estudos para piano de Claude Debussy que será lançado no sábado, 25 de Outubro, das 12 às 14hs na Loja Clássicos na Sala São Paulo, tem em seu encarte texto que escrevi originalmente em francês para a edição apresentada ao público da Bélgica em 2006. Por ultrapassar os limites a que me proponho para os posts publicados no blog, será inserido nestes próximos dias no item Essays que se encontra no menu de meu website. Contudo, ao prezado leitor, senti a necessidade de explicar as causas que me levaram a gravar essa obra extraordinária. Dir-se-ia, um making-of “subjetivo” da gestação desse CD.
Quando apresentei pela primeira vez a integral para piano de Claude Debussy em 1980, em quatro recitais no MASP, e paulatinamente em anos sucessivos em Portugal, já entendia serem os Doze Estudos o ápice da produção irréprochable do grande compositor francês. No livro O Som Pianístico de Claude Debussy (São Paulo, Novas Metas, 1982), com prefácio da insigne gregorianista e especialista em Debussy, a Profª portuguesa Júlia d’Almendra (1903-1992) (vide A transparência através das cartas, item Essays do site), buscava não apenas abordar a obra completa para piano de maneira sucinta, mas apresentar conceitos que teriam futuramente guarida acima do equador. O então Diretor do Departamento de Música da Bibliothèque Nationale da França, o ilustre François Lesure (1923-2001), convidou-me a iniciar colaboração através de artigos para os Cahiers Debussy do Centre de Documentation Claude Debussy (www.debussy.fr ). Desde 1983, seis textos foram publicados pelos basilares Cahiers, sendo que dois têm os Études como foco: Le langage pianistique des deux dernières Sonates (Nouvelle Série, nº 14, 1990, págs. 55-71) e La technique pianistique et les doigtés dans les Études (nº 19, 1995, págs. 53-68). Quando apresentei uma de minhas teses junto à Universidade de São Paulo, O idiomático técnico-pianístico na obra de Claude Debussy, François Lesure participou da douta Comissão Examinadora. Como um dos quesitos era a apresentação pública, entre as obras executadas constavam criações camerísticas e para piano solo, neste segmento constando alguns Études. A prova de interpretação pública foi gravada pela Rádio Cultura-FM. O notável musicólogo, autor dos mais importantes trabalhos sobre Debussy da segunda metade do século XX, já me aconselhava naquela oportunidade a gravar os Études. Lembro-me de ter-lhe dito que, sendo a obra o grande monumento debussyniano, não pretendia registrá-lo. Criação a ser reverenciada e que contava com gravações históricas excelsas. Debussy, em várias missivas durante a criação dos Estudos em 1915, externaria seu posicionamento a respeito da qualidade e do extremo rigor neles contidos. Motivos vários – como o hermetismo, o abstrato “pedagógico”, quando em outras produções a titulação simbolista corroborou a associação com a música perante o público, o espírito de síntese exemplar – levaram a maioria dos pianistas que interpretam Debussy a preferir obras mais ventiladas e com clara indicação extra-musical.

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Passou-se o tempo. Na Bélgica, a Direção da Rode Pomp, selo para o qual tenho gravado tantos CDs, dois deles com obras fundamentais de Debussy, solicitou que registrasse os Études, pois eu fixara anteriormente todos os de Alexander Scriabine, e mais dois CDs contendo Estudos contemporâneos belgas e brasileiros.
Quando em plena quimioterapia, extremamente fragilizado, assisti deitado, em um domingo frio, pela TV a cabo, a interpretação de pianista internacional da maior visibilidade, que alternava comentários e execução dos Doze Estudos. Perfeição digital absoluta havia, mas a anima e a descaracterização de fundamentos propostos por Debussy, compositor a tudo indicar no sentido do entendimento de suas intenções, eram evidentes, sobremaneira em quesitos essenciais. O fato de Debussy não ter assinalado indicações metronômicas – mensuradoras de andamento – para os Estudos, quando o fizera em outras obras, mormente no 2º Caderno de Images, leva-o a comentar em carta ao seu editor Jacques Durand aos 9 de Outubro de 1915: “Você sabe minha opinião sobre os movimentos metronômicos: eles são justos durante um compasso, como as rosas no espaço de uma manhã”, o que pode levar o intérprete a pressupor, paradoxalmente, a arbitrariedade. Sentia naqueles momentos uma sub-reptícia intenção, determinada pelo pragmatismo do mercado, de se conduzir Debussy às estereotipadas execuções virtuosísticas ou acrobáticas, perpetradas na interpretação de determinadas obras românticas por tantos pianistas consagrados. Levantei-me com dificuldade, fui ao teclado do computador e escrevi à Rode Pomp: “o próximo CD, se forças tiver e o Senhor me der trégua, será dedicado aos Doze Estudos de Debussy”. Logo após, recebia da respeitada casa belga um e-mail em letras garrafais e em vermelho: “À la bonheur!!!” (Felizmente!!!). Já na segunda feira, começei a reestudar essa obra magistral e em 2005, parcialmente restabelecido e com o nihil obstat de meus médicos, gravava a criação pianística testamentária de Debussy na mística Capela Sint-Hilarius de Mullem na Bélgica, sob a supervisão do sempre amigo e extraordinário engenheiro de som Johan Kennivé.

A gravação revestiu-se de intencionalidades múltiplas. Realizava o pedido de meu saudoso amigo François Lesure, prestava um tributo ao extraordinário compositor e, confesso, sentia-me irmanado no mal que o acometera. Debussy, após ter realizado a revisão dos Estudos para piano de Chopin para a casa Durand, compôs a sua obra maior para o instrumento. No verão-início do outono de 1915 escreve os Doze Estudos divididos em dois livros, já com os sintomas do câncer que lhe seria fatal em 1918. Finda a obra, redige carta ao seu grande amigo Robert Godet: “(…) eu escrevi como um louco, ou como aquele que deve morrer na manhã seguinte”. No interior de Sint-Hilarius deu-se essa comunhão. Encerrada a gravação, após três madrugadas de fervor, o alvorecer iluminava tenuemente a capela e a planura flamenga, e uma atmosfera de paz e de gratidão ao Poder Maior aconteceu. Com a saúde sub judice, não deixei de refletir longamente diante do sacrário tão próximo do piano. Todos nós temos os nossos limites e a consciência da existência dessas fronteiras leva-nos ao desafio. Há dez anos gravo em Sint-Hilarius, mas essa gravação esteve sob a aura das identidades. Lançado em 2006 em Gent pela De Rode Pomp, tem agora a edição brasileira. Duplicado na Sun Trip sob encomenda da Clássicos Editorial Ltda., teve o esmero que caracteriza essa empresa.
Por motivos já expressos em As Mortes do Intérprete, texto de 1988 (vide item Essays em meu site), jamais tive minha imagem em capas de LPs ou CDs. Nenhum juízo de valor. Questão de estilo, tão somente. Sabedor dessa minha certeza, Nelson Rubens Kunze, diretor da Clássicos Editorial, idealizou, e Gilberto Duobles realizou a apresentação gráfica do CD, captando, sem que eu soubesse, a essência essencial que emana dessa obra exemplar, que “paira sobre os cimos da execução”, segundo Claude Debussy. Contudo, como curiosidade a ilustrar o presente post, coloquei uma montagem realizada pelo ótimo fotógrafo Rômulo Fialdini. Foi publicada no Suplemento Cultural de “O Estado de São Paulo” aos 16 de Setembro de 1973, como imagem para uma crítica redigida por José da Veiga Oliveira de meu recital no Auditório Itália, quando apresentei os Doze Estudos. Tinha eu a metade dos meus 70 anos.

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Mercê da gravação belga lançada em 2006, tenho sob encomenda um artigo para publicação internacional e conferências na Antuérpia e na Sorbonne em 2009 e 2010, respectivamente, quando estenderei minhas conceituações a respeito da observância imperiosa aos critérios estabelecidos por Debussy para os Douze Études, condição sine qua non para que uma tradição interpretativa não se estiole.

My CD with Debussy’s twelve Études for piano will be released in Brazil on 25 October 2008 and this post explains the reasons why it was recorded. These days more and more pianists seem to have become infected by speed, maybe due to the proliferation of piano contests all over the world. They want to set up new records, especially in the field of tempi. Of course, virtuosity has always been an important aspect of the Concert Étude. In the case of Debussy, however, forcing the pace in fast movements can sweep away the essence of the interpretation, turning it just a display of bravura. This recording had multiple intentions: to fulfill the expectations of my late friend, François-Lesure, former director of the music department of the French Bibliothèque Nationale; to pay a tribute to one of the most important of all French composers by recording his Études strictly observing his indications; and also, I must confess, to find an outlet for the mystic bond I had with the composer at the time. In October 2004, when I decided to accept the challenge of recording the Études, I had to fight two battles: one to master the demands of Debussy’s pieces, another to survive a lymphoma. In 1915, when Debussy wrote his Études, he was also struggling against the ravages of a cancer that would kill him three years later. In his own words, he wrote them “as someone who will die the following morning”.

Clique aqui para ouvir Pour les Arpèges Composés, executado ao piano por J.E.M.

Evidências Reveladoras da Sinceridade

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Os sonhos dividem-se em duas categorias.
Na primeira, aquele que cria o sonho torna-se mestre dos acontecimentos
que se desenvolvem em seu devaneio,
no qual ele é como um mágico, um demiurgo.
Na segunda, o sonhador não consegue controlar as coisas,
ele é passivo, impotente e incapaz
para se defender contra a sua visão.
Aquilo que lhe acontece é exatamente o que ele receia,
o que ocasiona terror e tortura.

Andreï Tarkovski

A trajetória do ser humano é marcada por impactos os mais variados. É possível que ela se mantenha serena durante o percurso completo, ou sofra maiores ou menores turbulências que afetarão a conduta, o vislumbre do caminho a ser percorrido, a relação com o próximo, as regras relativas à boa manutenção físico-psíquica, o entendimento espiritual. A qualidade do impacto poderá determinar as flexibilizações da existência, ou a ruptura absoluta com os padrões seguidos anteriormente. Seria possível compreender as palavras de Jiddu Krishnamurti, que asseverava que somos peregrinos sobre a Terra e que não nos devemos deter, mas sim continuar a senda trilhada. Fatos geradores de grandes transformações seriam, creio eu, passagens que podem afetar profundamente a nossa conduta. Seria o equilíbrio interpretativo que realizamos a nossa maior salvaguarda, a fim de que haja razão nesse permanente caminhar, e que o olhar, a partir da filtração que fazemos do fato que causa impacto, torne-se diferenciado.
Trocara idéias com uma vizinha no episódio Metrô – felizmente, decidiram-se pela Estação Águas Espraiadas, juntamente com o Terminal de Ônibus – quando Penha falou-me a respeito de seu filho, morador em Curitiba, que tivera um linfoma do tipo Hodkins, já extinto. Como aquele que me atingiu era mais agressivo, Tipo T de células pequenas, quis conhecê-lo. Sob aspecto outro, mudanças ocorridas em sua vida, mercê da doença, fizeram-no mudar sua visão de mundo. Uma guinada absoluta se daria e Vitor Caruso Jr. tornar-se-ia um outro homem. Tive o prazer de manter com ele longa e prazerosa conversa e realmente apreendi muito deste jovem voltado a empreendimentos ligados à Ciência Meditativa (www.cienciameditativa.com) e a ações voluntárias junto à APACN – Associação Paranaense de Apoio à Criança com Neoplasia (www.apacn.org.br).
Vitor é hoje budista, praticante de Yoga e emana contagiante alegria. O nosso diálogo abordou desde a luta individual contra o câncer, como aspectos ligados à existência. Apesar do distanciamento etário, creio que enfrentamos o mal com ferramentas bem parecidas. Vitor Caruso teve a coragem de expor em livro todo o processo do mal que o afligiu, em seus mínimos pormenores, assim como os mecanismos que o levaram a enfrentar com determinação o mal de Hodkins. Jamais se submeteu aos diagnósticos plúmbeos. Toda essa epopéia está relatada em Com Qualquer Um de Nós (São Paulo, Rinacy, 2003, 66 págs.). A doença, que eu não quis revelar em seus pormenores, vejo através da pena do autor narrada de maneira direta e sincera, sem preocupações estilísticas, tampouco visando a agradar segmentos corporativos. Trata-se de um desabafo necessário, a servir de alento a todos os que lutam, vencem e não se submetem ao infortúnio. Mesmo àqueles que estão a sucumbir, há a palavra reconfortante de Vitor Caruso Jr. Um ponto chamou-nos a atenção. Em plena químio, contrariando os médicos, Vitor, hoje com 38 anos, disse ao oncologista que iria correr a São Silvestre, tradicional prova de 15 km que se realiza em São Paulo aos 31 de Dezembro. Este, pasmo pela notícia, desaconselhou vivamente o “irresponsável”. Vitor não apenas correu como bateu o seu recorde pessoal. Isso em pleno tratamento. Como não lembrar exemplo que vivi bem posteriormente (vide Sobreviver com Qualidade de Vida, 07/06/08)? Contei ao agora jovem amigo que eu também, desaconselhado pelos médicos, internado no Hospital Nove de Julho, com agulha a importunar minha mão esquerda – o que levou a um grande edema que durou 48 horas para ser absorvido -, estudei durante dez dias em um teclado mudo, pois havia um desafio a vencer: o recital comemorativo ao tri-centenário de nascimento do notável compositor português Carlos Seixas (1704-1742), conimbricense. O recital deu-se na Biblioteca Joanina – uma das Jóias da Humanidade – em Coimbra, na extraordinária Universidade do mesmo nome. Com uma bengala, pois as pernas fraquejavam, adentrei o mágico recinto e encarei o recital inteiramente dedicado ao compositor, retornando dois dias depois a São Paulo, a fim de continuar o tratamento. Durante a apresentação, passei por momentos dramáticos, pois nas peças mais rápidas por várias vezes tive cãimbras nas mãos, o que me obrigou a encontrar solução alternativa imediata – sem prejuízo ao todo – à execução. Um sufoco ! Conseqüências quimioterápicas.

Os peregrinos, pormenor do tímpano Cristo Ressuscitado. Catedral de Autun, França, Séc. XII. Clique para ampliar.

Com Qualquer Um de Nós é uma ode à vida. Seguir a tribulação de Vitor, preso anteriormente a uma multinacional, como tantas e tantas extraindo até a alma de seus funcionários; ser atingido pelo tumor de Hodkins e vencê-lo; entender a vida posterior como uma graça que o fez desligar-se de um tipo de morte à qualidade de vida, preocupação derradeira dessas empresas tentaculares; encarar tantos desafios; contrariar metodologias médicas ortodoxas após leituras insistentes sobre o mal; todos esses aspectos tornam a leitura da narrativa de Vitor Caruso Jr. uma extraordinária lição de vida. Os médicos acertam o diagnóstico, mas falham por não entender o ser humano em sua individualidade. Recomenda o autor a urgência da psicologia àqueles que “uniformizam” o paciente, não o vendo como uma pessoa, única e fragilizada em seu extremo limite físico-psíquico. Conversar com o doente, transmitir-lhe a verdade sem a frieza tão comum, eis o que muitos médicos deveriam aprender. Vitor passou por momentos estressantes frente aos doutores. Em acréscimo, considera as dificuldades que determinados Planos de Saúde impõem aos segurados portadores de câncer, doença muito dispendiosa. De maneira coloquial, os curtos capítulos servem de guia para cancerosos e para todos aqueles que queiram evitar a doença. Regime alimentar, exercícios, meditação são vários os temas abordados pelo autor na busca do encontro de uma vida saudável.
Outros livros mais foram escritos por Vitor, já sob a aura de visão espiritualista que o budismo lhe proporcionou. Conheceu Sua Santidade o Dalai Lama, freqüenta monastério ao norte da India e desempenha um humanitário trabalho junto às comunidades e às crianças em Curitiba. Curado fisicamente, e espiritualmente um outro homem, Vitor Caruso Jr. terá muito a transmitir neste nosso país tão carente de valores voluntários e desinteressados.
Saí substanciado após nosso diálogo e li com interesse seu livro. Continuarei com meus exames periódicos, mas a esperança que foi dele, e é minha também, leva-me sempre a acreditar. Nós temos forças que na realidade mal conhecemos. Caminho a ser percorrido, olhar confiante e a crença na ajuda de um Poder Maior. Nossa vida transforma-se. Quantas não são as coisas que entendíamos fundamentais que perdem completamente o significado. E quão importante são os laços de sangue, os entes solidários. Vitor tem a bela família e o aprofundamento espiritual; eu, igualmente a preciosa família, a música, que é meu descortino diário, e o convívio que tanto amo na minha cidade bairro, Brooklin-Campo Belo. Somos peregrinos a entender que o tempo que nos é dado caminhar nada mais é do que uma grande dádiva.

My chance meeting with Vitor Caruso who, after a Hodgkin’s lymphoma, left the constant strain of a job in a multinational corporation, becoming a Buddhist and a yogi with a high level of spiritual insight. He is the author of a number of books on philosophical and spiritual subjects, among them “Com Qualquer Um de Nós” (To Anyone of Us), a story of his successful struggle against the lymphoma. The book involved me completely because I have a non-Hodgkin’s lymphoma myself and drew a parallel between his experience and mine. Like Vitor Caruso, I believe that determination and faith are the weapons to carry us through this battle.

Problemática e Possíveis Soluções

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Quando teço reflexões a respeito
de meus sucessos e meus fracassos,
constato uma ligação estreita entre a vida que eu levava
durante os dias a precederem o resultado final.
O repouso, o estado de saúde,
o equilíbrio do corpo e do espírito são condições da realização
.
Henrich Neuhaus (pianista e pedagogo)

Em post bem anterior abordei um mal físico que pode afetar os intérpretes de maneira temporária ou definitiva (vide L.E.R. – Lesão por Esforço Repetitivo, 16/11/07). Muitos são aqueles que, diante de empecilho a afetar dedos, mãos e braços, desiludem-se, frustram-se e buscam caminhos incertos.
Há contudo um mal comum à quase totalidade dos músicos, atores, bailarinos, atletas e acrobatas, possível de ser bem administrado durante toda a trajetória, mas a provocar, em pessoas mais sensíveis, danos irreparáveis na seqüência de seus desempenhos. Refiro-me ao medo do palco, le trac, em francês.
Dois livros exemplares, abordando essa presença que pode levar à insegurança total, esclarecem pontos até obscuros da problemática, e expõem várias categorias de tratamento (André-François Arcier. Le Trac: le comprendre pour mieux l’apprivoisier e Le Trac: stratégies pour le maîtriser. France, Alexitère – Collection Médicine des Arts, 1998, 288 págs. e 2004, 271 págs., respectivamente). Se no primeiro Arcier fixa com clareza fatores prováveis a favorecerem a inibição e aponta meios de administrar e até dominar a terrível, mas majoritária, presença do medo, no segundo, escrito alguns anos após, alarga as possibilidades de tratamentos, que se estendem desde medicamentos alopáticos, entre os quais as benzodiazepinas e os beta-bloqueadores, àqueles alternativos, como a homeopatia, a fitoterapia e a acupuntura. Aborda estratégias corporais que podem efetivamente levar à diminuição das tensões, como os métodos Feldenkrais e Jacobson ou a técnica Alexander, ou ainda o Yoga e outras práticas orientais. Pormenoriza as técnicas relaxantes, a sofrologia e penetra na seara da programação neurolingüística e do desenvolvimento da auto estima. “A estima de si mesmo se aprende e se cultiva” como afirma o autor, finalizando pelas estratégias comportamentais e cognitivas.
O domínio da angústia que antecede a apresentação pública é uma das preocupações de médicos, psicólogos, psicanalistas e especialistas nas muitas vertentes que levam ao relaxamento físico e mental, no desiderato de, através de estudos cada vez mais aprofundados, ao menos atenuar a real ansiedade que existe entre músicos, atores, atletas e outros, que têm de se defrontar com um público, seja este leigo ou especializado, entre os quais uma Comissão Julgadora quando de concursos tipificados. Arcier focaliza preferencialmente os músicos solistas ou de orquestra e atores, daí o palco ser o epicentro a causar a euforia, a plena realização ou o desequilíbrio físico-emocional que prejudica a performance. Os trabalhos de André-François Arcier poderiam ser entendidos como simplesmente acadêmicos, não fosse a quantidade apreciável de depoimentos fulcrais, de músicos e atores da maior respeitabilidade, que aprenderam a conviver com a aflição, entendendo-a, administrando-a da maneira a mais razoável possível e, em muitos casos, buscando auxílio médico, psicológico ou relaxante. Que le trac existe, existe. Ao apresentar estatísticas entre músicos de orquestra, é considerável o número daqueles que sofrem de ansiedade pré-apresentação.
Diferentes tipos de angústia exigem tratamentos variados, pois jamais o medo tem característica padrão, apresentando infinidade de nuances, conforme os perfis estudados por Arcier. Gráficos estão sempre a apontar, numa simplificação para o leitor, as modalidades, resultados, estatísticas. Quando segmentos do corpo humano são apresentados, locais onde nasce e age le trac são pedagogicamente explicados.
Há aqueles para os quais o palco tornou-se um terror. Muitas carreiras tiveram de ser interrompidas pela não adaptação à realidade necessária à performance, pois em cena a tensão pode traduzir-se em obstáculo insuperável. Determinados medicamentos alopáticos, como exemplo, podem ter eficácia para o executante de um instrumento e não para um cantor, outros podem agir atenuando transpirações pré-apresentação, batimentos cardíacos acentuados, problemas no aparelho digestivo, todos ocorrendo nos momentos que precedem a representação.

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André-François Arcier penetra fundo em todos os possíveis traumas causadores do trac, passível de múltiplos tratamentos. Não obstante o “medo” do inesperado existir para todos os que enfrentam o palco, o autor preocupa-se com aqueles para os quais a ansiedade ultrapassa a razoabilidade. Considera também que a ausência absoluta do medo pode caracterizar até um outro tipo de anomalia.
Traumas oriundos da infância, quando de apresentações não satisfatórias; pressão dos pais nessa antevisão do menino prodígio a provocar no futuro a idiossincrasia absoluta pelo palco por parte do jovem, já não mais uma revelação; a insegurança frente a um repertório musical ou teatral; a presença de um público competente; a banca examinadora de concursos; episódios múltiplos de ordem absolutamente individual, mas com antecedentes preocupantes; a necessidade – para muitos – de ser o melhor, o que os torna sensíveis à recepção que o público fará de suas apresentações; o terror das falhas técnicas ou do chamado “branco” em relação à memória, todos são fatores que levam intérpretes e atores ao stress, à instabilidade emocional frente ao público e, quando o limite é sentido, a algum acompanhamento médico, terapêutico, fisiológico, relaxante ou psicanalítico.
Quando o pianista canadense Glenn Gould asseverava não sentir le trac antes da apresentação, evidenciava contudo um problema em torno do medo, o pavor de verificar o seu batimento cardíaco aumentar – uma variante da ansiedade, causa provável que o levou a abandonar a apresentação pública, dedicando-se a certa altura da brilhante carreira unicamente às gravações. Teria sido esse sofrimento cênico que conduziria ilustres intérpretes, em períodos determinados, ao afastamento temporário ou definitivo do palco. Vladimir Horowitz teve traumas provocados pela ansiedade pré-apresentação. Martha Argerich confessa, segundo o exposto na obra de Arcier (2004): “Hoje, eu poderia muito bem deixar de dar concertos. É um ato contra a natureza. O prazer é tão raro. No palco não temos a naturalidade de quando em nossa casa, pois não realizamos os mesmos gestos com as mãos frias, há os joelhos que tremem, o nariz que escorre. A interpretação se modifica. E mais, o peso dos olhares sobre você… O efeito da multidão que te observa… julga. Eu não suporto mais ser prisioneira de uma programação, eu que hesito, tateio permanentemente… Hoje, quando te apreciam, fixam um novo encontro dentro de três anos. Eu tenho pesadelos ao pensar”. A grande pianista refere-se às temporadas musicais acima do equador, sempre agendadas com enorme antecedência. Por sua vez, o extraordinário pianista Georges Cziffra afirmou que “adentrar um palco é um ato de coragem. É nesse instante que reside a fragilidade do intérprete. Leva-se uma mensagem que tem de ser passada em hora precisa, por vezes fixada anos antes, sendo um paradoxo que oscila entre a ação de graça e o suplício de Tântalo”. A uma pergunta a respeito do prazer de tocar em público, o pianista Murray Perahia afirmaria: “Não, não é um trauma, se bem que sinto le trac que não é tão indolor como eu desejaria, mas a música é comunicação e é comunicando-se que aprendemos, daí serem necessários os concertos”. E a convivência com essa angústia indesejada, mas sempre presente, seria um fato. Talvez possamos entender as considerações do pianista francês Jean-Philippe Collard citadas por Arcier como uma síntese existente do medo do palco. Considera Collard le trac um companheiro que o pianista conhece bem, entendendo-o necessário, impedindo-o, por vezes, de exprimir-se como gostaria. E afirma: “um companheiro que torna algumas apresentações dolorosas comparadas à fugacidade dos instantes de embriaguês impalpável que existem apenas na geografia de uma sala”.
Entre músicos e atores, a ansiedade pode advir no instante a preceder a apresentação, ou horas, dias ou meses antes de um evento. Dependerá das estruturas mentais de cada artista. Haveria, como afirma André-François Arcier, a necessidade não de suprimir le trac, mas de domesticá-lo. Saber entender que a existência do medo a preceder a apresentação faz parte dessa íntima relação intérprete-público é compreender não apenas a responsabilidade do artista frente àqueles que estão ávidos por receber a mensagem, como também entender a fragilidade humana perante o desafio.

A few comments on two books written by the French doctor André-François Arcier, a research on the causes and effects of stage fright – “trac” in French, the performance anxiety to some extent affecting all performers, from beginners to professionals, when they step on-stage – and a variety of strategies to control it.