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Desapropriações Rigorosamente Açodadas

Esboço aproximado da área a ser desapropriada.

Dentre os atos de intervenção estatal na propriedade
destaca-se a desapropriação,
que é a mais drástica
das formas de manifestação do poder de império,
ou seja, da Soberania interna do Estado
no exercício de seu domínio eminente
sobre todos os bens existentes no terrítório nacional.

Hely Lopes Meirelles

Para aqueles que elegeram o Brooklin como cidade-bairro, foi-lhes possível ter conhecimento, não de maneira oficial, da desapropriação, que está a ser cogitada, de extensa área que se estende entre as fronteiras do Campo Belo e do Brooklin. De um projeto antigo, que já lá tem algumas décadas, mudou-se abruptamente o percurso do Metrô da Av. Vereador José Diniz para a Av. Santo Amaro. Motivos tergiversantes, a tentar explicar o inexplicável.
Desnecessário comentar que o trajeto natural da linha que está por vir deveria seguir a básica linha reta que se estendia outrora da descida, após o Instituto Biológico, situado na Av. Rodrigues Alves, até o Largo Treze em Santo Amaro. Era o caminho dos bondes com rotundas em Moema, Brooklin, Santo Amaro e término na Capela do Socorro. Incontáveis as vezes que percorri este trajeto quando criança, a fim de visitar meus avós em Santo Amaro. Caminho natural, administrativamente bem mais econômico, friso, em relação ao açodado percurso decidido recentemente pelo Metrô em seu projeto funcional. Corresponde este à Linha 5, Lilás, no Trecho Largo Treze – Chácara Klabin, especificamente naquela que está planejada para ser a Estação Campo Belo em sua especificação Estação de Transferência Intermodal. Os dados estão no site do Metro. Trata-se, pois, de um desvio decidido atualmente, de pouca data, a não contrariar interesses poderosos existentes no percurso primitivo. Em acréscimo, tenciona a administração atual, que deverá realizar as obras do Metrô, construir um terminal de ônibus numa das regiões mais tradicionais, é bom frisar, do Brooklin-Campo Belo, a degradar decididamente os dois bairros contíguos. Uma tragédia que se anuncia e fruto de pensares estranhos, interferências estranhas, projetos rigorosamente alterados com pressa estranha e que não resistiriam a um olhar mais atento. Contempla, sim, a equivocada teoria de que a reta não é o caminho mais curto entre dois pontos. Saliente-se, com toda ênfase, que a comunidade da região não foi consultada, não houve um mínimo respeito no sentido de ser constituída uma comissão de moradores, a fim de um debate civilizado e sério. É a plena arrogância administrativa tão atuante em todas as áreas.
Alguns pontos mereceriam considerações. Referem-se a aspectos essenciais, neglicenciados por motivos não devidamente divulgados, mas a abalar profundamente uma extensa área que se estende dos logradouros a serem desapropriados a todo um entorno a partir desse “escolhido” epicentro constituído pela passagem da Av. Santo Amaro, para a qual confluem as Ruas Padre José dos Santos-Vieira de Moraes, Jacucaim, Indiana-Pascal, Guararapes-Jesuíno Maciel (vide esboço, que pode ser ampliado clicando-se sobre a ilustração).
Há, na região da convergência da Av. Santo Amaro com a Av. Água Espraiada, extensa área já desapropriada, assim como terrenos pertencentes ao D.E.R., órgão público pois, distantes cerca de 600 metros do local a ser atingido. Infinitamente menos oneroso. Acrescente-se que deverá passar futuramente, pela Av. Água Espraiada, Metrô a ligar a região à cabeceira da referida avenida. Menos dispendioso, bem mais prático, a atender sim à população, a região circundando essa confluência seria de verdadeiro interesse à comunidade, podendo abrigar naturalmente um terminal de ônibus, pois no entroncamento de duas futuras linhas. Mas não, estudam a desapropriação de área adensada, diria nobre, nessa localização Brooklin-Campo Belo, sem possibilidade de qualquer junção. Tudo decidido sem estudos prévios do impacto sobre o meio ambiente e sem pesquisa aprofundada do solo dessa região “escolhida”, plena de fragilidade conhecida por todos os moradores. Lembrar a tragédia de Pinheiros é um presságio que pode tornar-se realidade. Urgiria um debruçar isento das autoridades, que não visasse ao imediatismo.
Tão açodado se mostrou o projeto que uma eficiente organização de produtos hortifrutigranjeiros, ao alugar uma vasta propriedade privada que se estende da Rua Pascal à Jesuíno Maciel, despendeu alguns milhões, a dotar recentemente o bairro com um dos mais bonitos hortifrútis de São Paulo, incluindo padaria e restaurante. Muitíssimo bem freqüentado, aperfeiçoou o sentido de escolha de produtos. Nada sabiam sobre o Metrô e um Terminal de ônibus. Um posto de gasolina na esquina da Av. Santo Amaro com a Rua Pascal teve recentemente toda a documentação aprovada e já está com as bombas instaladas. Do outro lado, Brooklin propriamente dito, moradores realizaram reformas custosas em suas residências contando com a preservação do bairro, uma lanchonete adquiriu uma propriedade na qual realizou, há alguns meses, reforma completa, dotando as cercanias de um decente estabelecimento, um Laboratório de Análises Clínicas reconhecidamente importante há pouco instalou um posto de atendimento, Escola de Artes respeitada investiu em uma enorme instalação. Fosse o projeto previamente anunciado, após a oitiva da comunidade, nada teria ocorrido, nenhum empenho particular teria acalentado tantos sonhos. Qual a razão do silêncio por parte das autoridades e do Metrô? Uma resposta torna-se clara, o projeto é de recente feitura. Frise-se que há uma gritante arbitrariedade neste ato de discricionariedade da administração que, sob a dita “declaração de utilidade pública”, estabelece um equivocado juízo de valor a respeito da conveniência e oportunidade (mérito do ato administrativo), afrontando o princípio da eficiência (art. 37 da CF/88), já que o custo-benefício do projeto anterior compensava muito mais do que o atual. Sob outra égide, qual a razão de o Edital para Licitação do Projeto Arquitetônico da Estação Campo Belo, redigido pela Administração Pública, em seu item 9, no último parágrafo, prescrever que “as áreas remanescentes poderão ser aproveitadas para implementação de empreendimentos associados”? O porquê dessa imprecisão? Causa perplexidade tal indefinição.
Ao comunicar a um amigo belga essa intenção já publicada no site do Metrô, mas não devidamente divulgado pela mídia, escreveu-me Johan Kennivé que tal “para nós europeus é inaceitável e desumano. Aqui, respeitamos as leis e dá-se um tempo de anos para que os moradores encontrem casas com os mesmos valores”. Isso na Europa, repito. Aqui, nem a imprensa divulga com a ênfase necessária a possível degradação ambiental absoluta de região já consagrada e sedimentada, como mostram-se a Administração Pública e o Metrô reservados ao não tornar de conhecimento amplo desideratos estranhos. Uma moradora que teria a casa desapropriada leu o projeto no site do Metrô e adquiriu o edital, mas ao consultar a empresa recebeu carta tergiversante, ou seja, camuflam intenções, pretextando imprecisão quanto à região a ser desapropriada. Um absoluto desvio dos reais objetivos, pois todos os mapas estão estampados no site referido.
O lado humano, sobretudo em ano eleitoral, é o menos importante. Imperam o bombástico, a propaganda a camuflar aspirações misteriosas. Tomo a liberdade de transcrever outro trecho do e-mail de meu dileto amigo da Bélgica, que estendo à grande legião daqueles que, de maneira não oficial, estão a inteirar-se de resoluções sobre as quais não foram consultados minimamente, moradores dessa região visada despoticamente: “Dominar a vida foi um desafio para você! E Deus te propõe mais um combate fundamental, a destruição de tua casa, a raiz de sua vida com a família, o lugar de segurança, cultura, humanidade, a casa de tuas filhas. Para mim era a casa belga no Brasil, com todas os objetos tendo uma história particular, sonoridade harmoniosa. E agora, as máquinas com seus ruídos intensos vão tudo destruir sem consciência e significação. O resultado faz-me pensar nos judeus expulsos durante a guerra.” Estamos anos-luz distantes do pensamento de Saint-Exupéry que, sobrevoando à noite as pequenas cidades do sul da Argentina e do Chile nos vôos pioneiros, ao ver luzes cintilando imaginava a confraternização no seio de lares anônimos. E as perguntas não deixam de ser formuladas. Por que a não consulta à comunidade? Quais as razões para a abrupta mudança de trajeto? Que interesses inconfessos fizeram mudar o direcionamento original do conhecimento de todos? Teriam moradores ou empresas realizado obras se soubessem há anos que o Metrô cogitava construir estação e terminal de ônibus, como acréscimo, nesse epicentro tradicional e sedimentado?
Como nos sentimos? A nossa posição é semelhante àquela de uma vila sitiada. Quantas centenas de filmes não mostraram cidades, vilas, castelos aguardando o ataque que poderia vir a qualquer momento. Desconhecemos a face real do agressor recentíssimo, que espreita silencioso. Para alguns dos moradores mais sensíveis, a ameaça dos invasores captados apenas pela internet – à la manière daqueles que, na Idade Média, transmitiam intenções através de pombos-correios -, transformou-se em pesadelo. É a arrogância dos “poderosos”, sem ao menos a atitude corajosa de apresentarem-se frente a nós e à opinião pública, clara e convictamente.
Lutaremos. A nossa atitude de cidadãos cônscios dos deveres terá de ser respeitada. Não poderemos ficar calados. Iremos às instâncias judiciais, a denunciar essa intempestiva mudança de propósitos. As incongruências são muitas. O Poder hoje não deveria jamais pensar na volta da força como instrumento mais fácil. Voltaríamos à barbárie ditatorial? Espero que não.

Criação, Trajetória, Novos Horizontes

Revista Música (1990-2007). Vinte Números.

Ainsi n’écoute jamais ceux qui te veulent servir
en te conseillant de renoncer à l’une de tes aspirations.

Antoine de Saint-Exupéry

No longínquo 1990, a Revista Música foi criada. Lutei por essa conquista a partir de meu ingresso na Universidade de São Paulo, em 1982. Desde o primeiro número, publicado em Maio daquele ano, estive como editor responsável, a ter como assistente o colega Marcos Branda Lacerda.
Pareceu-me sempre muito perigosa a premência pela produção acadêmica por parte dos Institutos de Fomento e das Universidades Públicas, prática nacional que obriga aqueles que seguem caminhos universitários a publicar em prazos certos, mas com resultados tantas vezes incertos. O açodamento leva à quantidade, não à qualidade. Soma-se um item ao currículo individual, mas a densidade, ou mesmo, num sentido mais originário, a vocação ficariam constantemente à margem, pois itens desconsiderados numa avaliação simples. Desta maneira, parte considerável das publicações universitárias estaria a abrigar artigos rigorosamente descartáveis, mas “indispensáveis” à somatória que será avaliada em tantos sentidos a beneficiar interessados: curricular, concursos, possibilidade de viagens para participação em Congressos, estágios prolongados visando a doutorados ou aos chamados pós-doc, obtenção de bolsas individuais ou aquelas a atender a projetos temáticos ou outros mais, que adquirem designações dependendo dos dirigentes acadêmicos de plantão. Acumulam-se dissertações e teses nas muitas universidades brasileiras sem o embasamento necessário, mas que atenderam aos requisitos institucionais e responderam aos relatórios extensos e friamente burocráticos (vide O Drama da Pós-Graduação, 21/06/07). O governo rejubila-se ao apresentar índices crescentes relativos à pós-graduação e às somas que foram dedicadas à pesquisa. Dados estatísticos tantas vezes tergiversantes.
Na minha área específica, sucessivas viagens ao exterior fizeram-me entender que uma publicação acadêmica no Brasil necessitaria de permanente diálogo com outros países, onde a Música tem raízes sólidas e aprofundamentos fazem-se sentir há milênios. Precisaríamos de longo debruçar nessa busca de conhecimentos diferentemente orientados, a enriquecer toda uma comunidade universitária. O excelente compositor Aurelio de la Vega, então professor da Universidade da Califórnia, em entrevista lapidar a mim concedida e publicada no saudoso “Cultura” de O Estado de São Paulo (nº 309, ano V, 18/05/86, págs. 11-12), ao discorrer sobre a criação erudito-musical do Brasil, afirmou que “o isolamento pronunciado em que se mantém o compositor brasileiro é perigoso, pois cria uma atmosfera cômoda de autocomplacência, afugenta a comparação crítica, muitas vezes proveitosa, e rebaixa com os anos o nível técnico-criativo do compositor”. Mutatis mutandis, essa prática autocomplacente não teria penetrado em outras áreas musicais, como as referentes a teses, artigos, performances, em que uma atitude condescendente existe? As Revistas sobre Música no Brasil não estariam exageradamente acalentando uma extensa rede musical endogênica? Não haveria, por falta de diálogos mais abrangentes com o Exterior e pela necessidade da publicação brasileira que leva a pontuações nos currículos apresentados aos Institutos de Fomento, uma espécie de perigosa reserva de mercado?
Não foi fácil estabelecer parâmetros porcentuais aos artigos internacionais, que pudessem ao menos indicar pensares outros, constantemente trazendo subsídios de grande valia para a ampla área da Música, seja na teoria, na musicologia como um todo ou na interpretação. Sofri críticas as mais díspares por ter insistido nesse caminho, que entendo profícuo à ventilação de outros conhecimentos. Esse olhar diferenciado não apenas nos enriquece, como provoca a necessidade do aperfeiçoamento. Frisaria que, ao buscar a excelência – inúmeras vezes presente entre nossos estudiosos -, deparamo-nos com o choque, pois são múltiplas as tendências além-fronteiras. Nesse desiderato, mantivemos no idioma original artigos escritos em inglês, francês, espanhol e italiano, pois são as línguas mais familiares aos estudos universitários.
Mencionemos, como reconhecimento, os colaboradores internacionais nestes dezessete anos, seguindo a cronologia da Revista Música. São eles: Günter Mayer, Karlheinz Stockhausen, Mario Lavista, Wilhelm Zobl, Bruno Prunés, Myriam Chimènes, Aurelio de la Vega, Giuseppe Chiari, Keith Swanwick, Kwabena Nketia, Vincent Déhoux, Massimo Caselli, Humberto D’Ávila, Kasadi Mukuna, J.M. Bettencourt da Câmara, Ricardo dal Farra, Juan Pablo Gonzáles, Robert Blackburn, Jorge Peixinho, Antônio Sérgio Azevedo, Didier Gigue, Anik Devriés-Lesure, Caroline Rae, Enrico Fubini, Pierre Boulez, Angela Tosheva, François Lesure, Herman Sabbe, Rui Vieira Nery, José Maria Pedrosa Cardoso, Nancy Lee Harper, Elisa Lessa. Quanto aos estudiosos brasileiros, inúmeros estiveram a enriquecer o conteúdo da publicação com artigos que se tornaram referências. Dentre os autores responsáveis por artigos argutos e originais, sempre em ordem cronológica: Marcos Branda Lacerda, Régis Duprat, Walter Zanini, Maurício Dottori, Paulo Chagas, Carlos Tarcha, Celso Mojola, Paulo Costa Lima, Paulo Castagna, Arnaldo Daraya Contier, Mario Ficarelli, José Paulo Paes, Gilberto Mendes, Lorenzo Mammi, Enio Squeff, Willy Corrêa de Oliveira, Luiz Tatit, Antônio Luis Cagnin, Pedro Paulo Salles, Luís Antôno Giron, Paulo Roberto Peloso Augusto, Marco Antônio da Silva Ramos, Ricardo Tacuchian, Susana Cecília Igayara, Ecléa Bosi, Benedito Lima de Toledo, Mario D’Agostino. A qualidade dos artigos tem servido de fonte importante para tantos outros estudos e de luz para pesquisas de destaque.
Importa considerar que a Revista Música jamais, friso, jamais solicitou ajuda aos Institutos de Fomento do Estado ou do Governo Central. Sim, é muito difícil a sobrevivência sem o auxílio oficial. A fim de que não houvesse quaisquer interferências, seja através de pareceres por vezes estranhos, seja pela enorme burocracia a levar à publicação, seja nessa característica da Revista Música de forte alento aos artigos qualitativos internacionais, estando eu desde 1990 como editor responsável sempre mereci a generosa acolhida, em oportunidades distintas, dos diversos órgãos da Reitoria da Universidade de São Paulo e da Escola de Comunicação e Artes da U.S.P., assim como a atenção cuidadosa da Editora da Universidade, a EDUSP. Isso nos deu liberdade da escolha, a busca sine qua non da não concessão e o interesse claro de ilustres musicólogos além-fronteiras pela austeridade de propósitos. Sendo uma publicação do Laboratório de Musicologia do Departamento de Música da ECA-USP, Laboratório este que esteve sob minha coordenação até fins de 2007, houve sempre uma simpatia das lideranças universitárias pela publicação, pois sabiam de nosso norteamento, assim como de nossas dificuldades.

Acabo de atingir a compulsória e deixo a função de editor responsável. O número ora publicado é o último sob minha coordenação. Assume Marcos Branda Lacerda, competente professor e especialista em etnomusicologia. Sugeriu-me continuar como membro do Conselho Editorial. Não aceitei o sincero convite, por entender que rumos novos deverão advir e que o meu tempo como responsável encerrava-se com o número ora lançado. Sob nova orientação, certamente trilhas outras serão tomadas, oxalá altamente positivas. Faz parte do caminhar. A sensação, ao ver as lombadas dos vinte números reunidos, traz-me reconforto, pois percorro com o olhar todo um longo trajeto que surgia da idéia, do convite ao articulista, das revisões necessárias e do lançamento. Foram dezessete anos de fervor.
Deixo pois registrado o grande carinho que sempre mantive pela Revista Música. Cada exemplar significou, para este professor que atinge hoje a aposentadoria, uma categoria de felicidade possível. Outros compartimentos estão a proporcionar-me alegria de viver. A todos os que colaboraram, fica o meu profundo respeito e gratidão. Sem as contribuições preciosas, a Revista Música não teria razão de existir. E na certeza da permanência da publicação, conduzida pelo pensar de Branda Lacerda, renova-se a esperança de continuidade com qualidade. Que o canto das sereias não o perturbe. Assim espero.

After entering the University of São Paulo in 1982, I founded in 1990 a music periodical, “Revista Música”, published on behalf of the Department of Music by EDUSP (the University Press). I have been its chief editor from the beginning until now, when I am retiring from my position at the University. The present issue is a major milestone for me, for it is the last under my supervision. My aim has always been to publish creative writing on music by welcoming first-rate contributors from a variety of disciplines, countries and theoretical perspectives. I believe it is through interaction with others and confrontation of ideas that we construct new meanings, thus the importance of the articles by foreign authors, who brought new ideas and approaches. My thanks to all who have made “Revista Música” possible. The ethnomusicologist and fellow professor Marcos Branda Lacerda will succeed me as chief editor. I wish him well.

Saúde “Sub Judice”

 J.E.M. na largada da Maratona 2008. Corrida dos 5 km.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
mora um Pai Amado.

Friedrich von Schiller (Ode à Alegria – An die Freude)

Lembrar 2004 é recordar extremos. A morte de meu querido genro José Rinaldo, um linfoma que instalou-se em meu interior, químios prolongadas e debilitantes, mas também o lançamento de quatro CDs, recitais nos lugares que amo na Europa e a família, esta proteção extraordinária que nos dá forças inacreditáveis. Se, por um lado, o vaticínio médico inicial foi plúmbeo, com prazo de sobrevivência limitado, sob aspecto outro jamais me alarmei, a entender, àquela altura que vivera bem, conseguira objetivos que na juventude pareciam-me nebulosos e constituíra uma bela descendência ao lado de minha mulher Regina. Em nenhum instante pensei em batalha perdida, mas sim na luta cotidiana a visar suplantar o mal instaurado.
Segui criteriosamente todos os conselhos de médicos competentes aos quais devo permanente gratidão. Rui Yamanishi, meu clínico geral desde 1978, Sílvio Donatangelo, Belmiro José Matos e Ana Rita Burgos, hematóloga e oncologista que me recebe todos os meses em consultas longas e minuciosas, a interpretar com competência os exames obrigatórios.
Durante os primeiros meses recebi o mesmo conselho de todos os dedicados profissionais: evite aborrecimentos, alimente-se bem, curta sua Música e prepare-se fisicamente através de exercícios sistemáticos. Tenho sido um discípulo aplicado, pois abandonei, a partir de meados de 2004, todas as Comissões da Universidade de São Paulo, pois tantas eram as reuniões que se mostravam estéreis, dedicando-me doravante à sala de aula, à edição da Revista Música e à revisão de manuscritos de Henrique Oswald. Liguei-me ainda mais aos recitais e gravações no Exterior. Baixou a adrenalina, senti-me bem e passei a praticar outros exercícios, ter mais tempo para a Música e para as leituras, cuidando também da alimentação mais selecionada. Como sempre, família e amigos leais enriqueceram o período pós-químio. A conselho de meu saudoso pai, desde os anos 60 realizo pela manhã, durante 15 minutos, os movimentos da chamada ginástica sueca.
A partir de Janeiro de 2006 corro – o melhor seria dizer troto – pelas ruas de minha cidade-bairro, o Brooklin. Três vezes por semana cinco quilômetros são percorridos com alegria e disposição. A vontade de superar o mal não é consciente, mas faz parte de um todo que aponta para a esperança. Esse lento correr tornou-se um hábito salutar. Aumentou minha disposição e prazerosamente passo por pontos que me são familiares, mas a obedecer roteiros diferentes. Aos domingos chego a percorrer seis quilômetros, devido ao silêncio das ruas. À medida que o condicionamento físico se aprimora, mais o prazer de correr, de estar vivo é real. Os entendidos falam nas endorfinas. Diria, contudo, uma concessão Superior sentir o prolongamento da existência. Nessas trajetórias vêm-me à mente muitas das idéias de posts futuros. Cruzo com muitos cidadãos que fazem o mesmo, corridas ou caminhadas. Tornamo-nos hábeis em reconhecer as calçadas em péssimo estado – quando existem – e as ruas plenas de irregularidades. Quase nada a fazer, pois o descaso faz parte da cultura de todas as nossas administrações. A situação ajuda-nos, porém, a ter aguçado um outro sentido, aquele voltado à “acrobacia”.
Passadas e respiração mesuradas desenvolvem a rara qualidade da paciência. Na minha faixa etária, o correr obedece a pulsações que não devem suplantar determinado índice, mesmo que o físico clame por uma maior velocidade. Aprende-se a ter cautela, a esperar o tempo, a controlar o limite das batidas cardíacas. Uma lição para a mente e para o físico.
Soube da Maratona de São Paulo, impossível, no meu caso, de ser percorrida em seu trajeto integral. Generosamente, a organização Yescom cuidou de dois outros percursos, que saem basicamente do mesmo ponto, com cinco e dez quilômetros. Alegra a todos os que se amoldam a essas distâncias. Com inicial temor, e logo após movido por pleno entusiasmo, inscrevi-me no percurso menor. Ao pagar em um banco a taxa de inscrição, senti-me como um jovem, não acreditando que isso fosse realmente possível após vicissitudes de anos anteriores. O Barão Pierre de Coubertin (1863-1937), fundador do Comitê Olímpico Internacional, dizia que o importante não era ganhar, mas competir. Acrescentaria que competir pressupõe, talvez, a vontade silenciosa de ganhar, mas no meu caso se traduz na simplicidade de apenas participar. Já é uma dádiva poder correr com milhares de participantes, a esmagadora maioria somente pelo prazer. Festa para todos, alegria indizível para poucos.
Ao buscar o meu kit, uma sensação inusitada. Deparei-me com uma legião com o mesmo propósito. A terceira idade tem suas compensações e logo fui atendido. Recebido o material, dele a constar camiseta, chip para tênis, folhetim com as instruções e mais o número a ser fixado no peito, fiquei deveras receoso por ter decidido voluntariamente participar, num misto de alegria e ansiedade. Fui contemplado com o número 20.544.
Confesso que dormi bem na noite que antecedeu a corrida e acordei pleno de euforia. Tinha a impressão de um primeiro recital de piano. Outra era a vestimenta daquela das apresentações pianísticas. Com orgulho coloquei o uniforme do Vitória de Guimarães – terceiro no campeonato português de 2008 – que me foi oferecido este ano em Lisboa pelo dileto amigo José Maria Pedrosa Cardoso, mas o chapéu era de minha Portuguesa de Desportos, lusa de tantas glórias e tradições igualmente. Uma multidão aglomerava-se, pois foram 12.000 participantes para as quatro modalidades: Maratona, 10 e 5 mil metros e também caminhada dessa última distância. A largada foi inesquecível. Os mais jovens e os melhores atropelaram e passaram-me com extrema facilidade na primeira subida da nova e belíssima Ponte Estaiada. Segui o conselho de meu bom amigo Jorge, presente ao evento como assistente. Asseverou-me que nos primeiros minutos deveria correr com os cotovelos apontados para fora, a fim de evitar ultrapassagens perigosas daqueles mais rápidos ou vigorosos. Na marginal de Pinheiros consegui acompanhar as passadas da maioria e já na outra subida, na Ponte do Morumbi, muitos foram ficando para trás. Novamente na marginal, sentido contrário, em direção à Avenida Águas Espraiadas, houve equilíbrio, mas na alça da Ponte Estaiada uma longa subida fez com que dezenas continuassem apenas a andar. Nesse trecho consegui ultrapassar, sem mudar meu ritmo de corrida, muitos outros inscritos. Já na Águas Espraiadas, mais uns 1.500 metros separavam-nos do término dos 5 mil metros. Cheguei no pelotão intermediário, absolutamente feliz com o meu tempo de 40’43”; diria, vivendo a alegria da maturidade da idade adulta. Com muito orgulho, fui o primeiro colocado na minha faixa etária, que incluía outros dois corredores. Todos entregaram os chips amarrados aos cadarços dos tênis e receberam as medalhas de participação, água, chocolates e frutas. Uma festa. Minha netinha Emanuela, de quatro anos, ao ver-me com a medalha pendurada no peito, abraçou-me com o sorriso puro da idade: “Vovô, eu sabia que você ia ganhar”. Sim, ela tinha razão. Ganhamos todos os participantes.

Ter recebido essa medalha foi para mim algo especial, emoção superior àquelas conseguidas nos difíceis concursos pianísticos no Brasil e no Exterior durante a juventude. As musicais apontavam para a trajetória sonora, minha companhia existencial e amorosa, a da corrida indicava o maravilhamento que é a vida. Quão bem o grande Beethovem soube entender no final da Nona Sinfonia a Ode à Alegria de Schiller (1759-1805). Humildemente entendo como dádiva o estar a participar intensamente de emoções tão fortes. Que o entusiasmo permaneça, a indicar outras aspirações.
Não posso contudo deixar de voltar à realidade. Nas próximas semanas novas tomografias computadorizadas, novos exames de sangue. Lá estará Dra. Ana Rita a interpretar os insondáveis mistérios de nossas transformações. Mas as esperanças continuam em alta. Bem haja!

São Paulo City Marathon:
In 2004, after a diagnosis of lymphoma, sessions of chemotherapy and somewhat gloomy prognosis from the doctors, I was advised to avoid stress, sedentary life, junk food and to take exercises. So, in addition to my usual daily Swedish gymnastics, I began to jog in the streets of my neighborhood, running 6 km three times a week. I heard of the annual São Paulo Marathon, held last June 1st. The race organizers also sponsored a 5km-10km fun run and a 5 km walk in conjunction with the main event for those who, not qualified for the marathon, wanted to participate for the accomplishment of having run the race at all. I registered for the 5 km fun run. This post is an account of the emotions of my first run: the start with a mixture of amateur and professional runners, the course through the city and the climbing of the new bridge (Ponte Estaiada) – for me the most difficult point of the run, where lesser trained runners were forced to walk – people lining the sides of the course to cheer the participants, the arrival at the finish line, the medal. Not bad for a cancer patient like me, a way to prove to those in the same conditions that it is possible to overcome our deficiencies and have the same life experiences others are so lucky to have.