Navegando Posts publicados por JEM

Um Conto Singelo

Dom Henrique G. Trindade, óleo sobre tela, Carlos Oswald.

De todas as histórias que nos contava
guardei apenas uma vaga e imperfeita lembrança.
Porém, uma delas ficou tão nitidamente gravada
em minha memória, que sou capaz de repeti-la
a qualquer momento – a pequenina história
do nascimento de Jesus.

Selma Lagerlöf

Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974) foi uma figura extraordinária. Poder-se-ia acrescentar: homem santo ou iluminado, a depender das conceituações espiritualistas. Nascido em Porto Alegre, a vocação levou-o à formação religiosa competente. Tornou-se franciscano e atuou com intensidade frente a várias paróquias do país. Quando designado para a vida eclesiástica em Botucatu, no Estado de São Paulo, teve seu apostolado voltado aos mais simples e às crianças órfãs. Bispo e mais tarde arcebispo da diocese de Botucatu, nem por isso deixou de lado essa missão diária de assistir aos desalentados da cidade. Fundador da Congregação Diocesana das Irmãs Servas do Senhor em 1952 e da Vila dos Meninos Sagrada Família, Dom Henrique amava as Artes. A Capela da Santíssima Trindade do Seminário Arquidiocesano foi pintada por Henrique Oswald, filho do grande artista plástico Carlos e neto do não menos ilustre compositor Henrique (vide post de 19 de Outubro).

Pormenor da ábside da Capela da Santíssima Trindade, Botucatu - óleo sobre reboco preparado, pintura Henrique Oswald.

Em 1952, João Carlos e eu demos um recital na Igreja de São Francisco, no Largo do mesmo nome, em São Paulo. Era uma homenagem ao eminente prelado. Nos anos subsequentes, oferecíamos um recital no Colégio Santa Marcelina, em Botucatu, com a renda inteiramente destinada à Vila dos Meninos. Por várias vezes fomos passar alguns dias no Arcebispado da cidade e, orientados por Dom Henrique, apreciávamos, nos mínimos pormenores, a belíssima pintura de Henrique Oswald na ábside da Capela. Foi nosso padrinho de crisma. Em 1963, em Campinas, oficiaria o meu casamento com Regina.
Recordações tornam-se necessárias. Dom Henrique mostrava-me, em seu quarto, algumas imagens em madeira, a representarem S. Francisco. Chamou-me a atenção sua cama, uma larga tábua envernizada coberta por lençol e manta, sem qualquer colchão ou acolchoado. Perguntei-lhe o porquê. Disse-me que era o mínimo de penitência a ser feita. Indaguei-lhe certa vez a respeito da corrente e do crucifixo, assim como do anel de autoridade eclesiástica, todos em madeira, seus objetos pessoais de todos os dias. Respondeu-me que ouro ou pedras preciosas, comuns à alta hierarquia da Igreja, representavam ostentação. Em outra oportunidade, no início da década de 70, dera um recital em Botucatu e no dia seguinte, bem cedo, fui visitá-lo na Vila dos Meninos, onde há muito se recolhera. Econtrei-o ajoelhado, naquela manhã fria, a podar umas rosas. Tentei levantá-lo. Disse-me que estava bem. Perguntei ainda como se sentia, após a renúncia da arquidiocese muito tempo antes, a fim de cuidar de crianças desamparadas. Baixou o capuz e serenamente respondeu: “Enquanto eu tiver braços para levantar e louvar a Deus, estarei bem”.
Grande orador sacro, seus sermões não apenas cativavam pela profundidade dos ensinamentos, mas igualmente pelo vernáculo impecável. Escreveu vários livros, entre os quais Matt Talbot – O Operário Penitente (Petrópolis, Vozes, 1945, 181 págs.) e Os Nossos Pobres Contos (Petrópolis, Vozes, 1952, 171 págs). Para este Natal, lembrei-me de um conto de Dom Henrique inserido no segundo livro mencionado. Em 1954, nosso padrinho ofereceu-nos essas duas pequenas obras. Li-os, e muito ficou naquele fundo da memória reservado àquilo de que gostamos.
Telefonei à Editora Vozes e gentilmente aquiesceram no sentido da publicação on line de Velho Natal, um conto, entre centenas de outros, escritos por autores os mais díspares, divulgados pelo mundo e relativos ao evento máximo da cristandade. Porventura um dos mais simples e despojados, características essenciais da personalidade de Dom Henrique. Transcrevo-o pois aos leitores:

Presépio - lápis de cor e papel colado, Maria Teresa, minha neta.

“ O Papai Noel, enviado do Menino Jesus, com suas longas barbas e seu capuz de ponta, já se fora…
Mas quantos presentes deixara! Nunca se mostrara assim tão generoso: tambor, corneta, livros de figuras, roupa e… um velocípede, pelo qual o pequeno felizardo tanto suspirara! Oh! Poder agora correr pelas alamedas do jardim, pelas calçadas e praças públicas, que prazer! Não era muito grande, não; e Papai Noel do Deus Menino dissera que, em breve já não lhe serviria. Mas, qual história! A gente não cresce tão depressa assim: sempre se conhecera do mesmo tamanho e a seu pai sempre vira com seus bigodes salpicados de brancura…
E o rapazito pulava de alegria. Nem era tudo: os armários estavam abarrotados de doces e empadas, nozes, amêndoas e avelãs; sobre as mesas era tudo flores e frutas, maçãs das bem vermelhinhas, e peras daquelas plenas de suco, como de água as esponjas; na cozinha, bem temperadinho, estava o mais gordo peru que fora, já na véspera, degolado. E enquanto pensamentos elevavam o pequerrucho, fazendo vir-lhe água à boca, lembrava-se de que, daí a pouco, vestiria sua roupinha nova, cor de neve, calçaria seus sapatitos pretos de verniz e, depois, todo faceiro, entre o papai e a mamãe, iria assistir à missa de festa na matriz. Lá veria o encantador presépio: o Menino Jesus nas palhas da manjedoura, as ovelhinhas a pastar pelas encostas das montanhas… de papelão, anjinho a voar, pastores com suas flautas a tocar, os reis magos com seus pajens e camelos, lá ao longe, tão longe, tão longe, que só se prostariam aos pés do menino, 12 dias depois. E quando ele tivesse examinado bem todas as maravilhas do presépio, apareceria o bondoso pároco, segurando um cálice de ouro, com os cabelos brancos como a lã das ovelhas; rezaria muito ao altar, contaria a seus paroquianos a história do Menino Deus, que sempre se ouvia com novo prazer. Lá em cima, na tribuna, cantariam: ‘Noite feliz!’ que ele também sabia. Depois, os meninos vestidos de vermelho, tocariam as campainhas, todos bateriam no peito, e lá iriam, papai e mamãe, com as mãos juntas e os olhos baixos, receber sobre a língua, das mãos do pároco, um pãozinho branco, que a mãe sempre dizia ser a morada do Menino Deus; e quando voltassem a seus lugares, o rosto do pai pareceria mais belo e a mãe, com lágrimas de alegria, o apertaria contra o peito, dizendo: ‘Meu filho, meu filho, pede a bênção a Jesus, para que nunca te afastes dele!’ – Depois voltariam para casa e, com os primos e com as primas… que festa o dia inteiro!
Oh! Natal! Natal! Que belo dia! Por que Jesus não nasceu mais vezes? Poderia alguém estar triste em tal festa? Poderia alguém chorar?
E os sinos da matriz bimbalhavam alegremente: ‘vinde adorar o Menino Deus!’
.. .. .. .. ..
E… o jovem despertou. Passou os olhos tristemente esbugalhados pelo quarto, onde a riqueza e o luxo se uniam ao desleixo e à desordem. Olhou para o relógio prateado da parede: nove horas; para a folhinha: 25 de Dezembro!
Os sinos da matriz, sim, repicavam, realmente, mas… o resto fora já, em tempos idos, realidade. Agora… fora um sonho.
.. .. .. .. ..
Natal! Natal! A roupinha branca, há muito que não a tinha; os pais já descansavam sob o mármore do sepulcro, aonde ele ia, uma vez por ano, contrafeito, depositar um punhado de saudades e colher uma braçada de espinhos e remorso. A história do Menino Deus era, agora, para ele, uma bela lenda para educar crianças. Com seus vinte e três anos já era senhor da grande fortuna paterna, que ele se encarregava de dissipar. Tinha liberdade, tinha ‘amigos’, tinha festas, mas não tinha felicidade, pois já perdera aquela inocência da qual a mãe era tão ciosa, e a fé, da qual o pai tanto se orgulhava.
De que servia o seu rio de dinheiro, se não era suficiente para comprar a alegria e a paz da sua infância? De que lhe servia a liberdade, se sua alma gemia em dura escravidão?…
O sonho fez-lhe mal. Levantou-se da cama, banhado em suor frio.
Correu a cortina do balcão, que abria para a rua, e viu o rosto do rapazito alegre, as crianças felizes, sobraçando os seus mimos, e os velhos bem dispostos, em seus fatos domingueiros.
‘Poderia alguém estar triste em tal festa? Poderia alguém chorar?’ E o rapaz atirou-se sobre a poltrona de veludo, cobriu o rosto com as mãos e … chorou! Chorou no meio de sua riqueza, enquanto os pobrezinhos, alegres, acudiam ao bimbalhar dos sinos, que chamavam, alvissareiros: ‘Vinde adorar o Menino!’”

Velho Natal (Old Christmas) is an unpretentious Christmas story written by Dom Henrique Golland Trindade (1897-1974), a priest and a holy man, once archbishop of the city of Botucatu, a position to which he resigned in order to minister to the poor, orphaned and helpless. A very dear friend of mine, he was the sponsor at my Confirmation and officiated my wedding cerimony.

Reflexão, Arte, Transcendência, Realidade

A reencarnação de Khyentsé Rinpotché. Foto Matthieu Ricard

Si l’on est parfaitement conscient
de la valeur de l’existence humaine,
la gaspiller dans la distraction
et la porsuite des vaines ambitions
est alors le comble de la confusion.

Dilgo Khyentsé Rinpotché

O livro Himalaya Bouddhiste (Paris, La Martinière, www.lamartiniere.fr 2002, 424 págs., 285 mm. de largura x 365 mm. de altura, 220 fotos coloridas) é uma obra de arte. Olivier Föllmi, Matthieu Ricard e Danielle Föllmi, fotógrafos e pensadores, reuniram textos competentes, escritos por vinte e um especialistas de seis nacionalidades distintas e pertencentes a diversas áreas: religião, arte, política, meio ambiente, medicina tibetana, e outras mais. Há alternância entre artigos de uma área específica e conjunto de fotos que ocupam, geralmente, duas páginas, mas que estão referenciadas no final do livro, em tamanho diminuto, a explicitar o conteúdo. Os textos, aliás, estão sempre emoldurados com arabescos interpretados a partir de pinturas da região do Himalaia. O tamanho e o peso físico da obra fizeram-me lê-la, durante meses, no período que precede o sono.
Himalaya Bouddhiste estrutura-se sob a égide do ciclo das existências: nascimento, vida, morte, renascimento. Em cada compartimento, os textos reunidos formam um todo homogêneo, mesmo que variantes encaminhem os conteúdos para direções “aparentemente” distintas. Matthieu Ricard, conhecedor da região desde 1967, tornando-se monge budista e tradutor do dalai-lama, é o autor de grande parte dos ensaios que compõem a obra, e textos do casal Föllmi têm a apreensão a partir de profunda observação como fotógrafos que durante decênios percorrem as terras do Himalaia (www.follmi.com).

Dilgo Khyentsé Rinpotché. Foto Matthieu Ricard

A figura de um iluminado, o mestre espiritual Dilgo Khyentsé Rinpotché (1910-1991), interpenetra muitos dos textos. Matthieu Ricard tem o cuidado de, ao longo do livro, introduzir ensinamentos de Khyentsé Rinpotché. Estes estrategicamente percorrem o ciclo das existências e, naturalmente, o mestre iluminado pode ser apreendido em parcela de seu aprofundamento espiritual. Os preceitos básicos do budismo tibetano vão sendo pouco a pouco inseridos: as Três Jóias tendo o Buda como aquele que despertou do sono da ignorância e se iluminou, o Dharma representado pela palavra através dos ensinamentos e o Sangha que compreende a comunidade como um todo. Em torno da tríade, preceitos dos mestres espirituais do passado e do presente denunciam o conceito da ilusão, a conduzir o homem aos caminhos do sofrimento representados pelo rancor, inveja, orgulho, desejo e ignorância. Eliminá-los levaria o ser humano à possibilidade da compaixão. Essas colocações poderiam ser uma armadilha à ventilação apenas de ensinamentos religiosos. Não o são porque, através de posicionamentos transparentes, os autores levam o leitor à percepção dos costumes, da simplicidade, da alma, do fervor, da alegria, da tragédia, do profundo sentimento de respeito ao divino e às hierarquias milenares, da nobreza e das artes representadas pelas manifestações que nos conduzem a compartimentos precisos: música, dança, pintura, escultura, arquitetura.

Uma mulher nômade ao fogão. Foto Matthieu Ricard

Geograficamente, Tibete, Nepal e Butão são observados com olhos atentos, mas sempre amorosos. Os diversos outros autores, ocidentais ou não, deixam um contributo onde o mais profundo respeito à região é facilmente detectado. Nesse sensível debruçar, a simbologia é um axioma. Os autores apresentam-na metamorfoseada em inúmeras manifestações. As bandeirolas que levam as mensagens impulsionadas pelos fortes ventos, a vida nômade de tantas famílias no entendimento da terra como dádiva, apesar do clima inóspito, o iaque como um “membro” da família, a tudo fornecer: leite que faz queijo, lã que agasalha, pele que cobre as tendas, esterco que serve de combustível. Nos grandes deslocamentos as povoações levariam sempre esperanças, apesar de todas as adversidades. Guiam-se pelos astros, cúmplices da religiosidade atávica. Sob outro aspecto, a astrologia tibetana, que deve muito à cultura chinesa, estabelece símbolos para o calendário e preceitos para a medicina, cujos ensinamentos, transmitidos do mestre para o discípulo nos monastérios, tornavam certos recintos destes, verdadeiros ambulatórios, a atenderem doentes através de remédios resultantes de produtos naturais. Segundo um aforismo da medicina tibetana, o sofrimento está ligado aos seres, mesmo com boa saúde, assim como o pássaro está seguido por sua sombra até durante o vôo.
A compreensão da Morte como passagem em direção ao renascimento, inserida nos conceitos budistas, é essencial ao entendimento dos textos. Através dessa captação, torna-se transparente toda a concepção da existência para esses povos. Apreender o natural das coisas, eliminando os aspectos negativos da vida, a fim de se atingir o estágio da compaixão, etapa encontrada após a eliminação do sofrimento, levaria o ser humano à morte “transitória”, mas tranqüila.
A figura do Bodhisattva, ou seja, aquele que direcionado à compaixão, tem como missão eliminar dos seres humanos o sofrimento que, no conceito budista, corresponderia a deles suprimir o círculo das existências, samsara. O encaminhamento dos textos tem sempre esse sentido da ajuda ao próximo, preceito que, sob outra égide, encontramos no cristianismo. Todavia, a concepção do renascimento, existências anteriores e futuras a dependerem dos acúmulos kármicos direcionam as reflexões de religiosidade a caminhos bem distintos nas duas religiões.

O aconchego de duas irmãs em Zanskar. Foto Olivier & Danielle Föllmi.

O livro tem imagens simplesmente mágicas. Percebe-se a relação íntima, cúmplice e amorosa dos autores com o ambiente, a religião, o conjunto absoluto do budismo no Himalaia. As fotografias, por vezes, transcendem o próprio objeto focalizado, dele a extrair sua essência.
Lamentam os autores a tomada do Tibete, a violência inaudita das tropas chinesas a partir de 1949 e relatos pessoais testemunham cenas cruentas provocadas pelos invasores. Dantesca visão comprovada pelo fato de 85% da população de Lhassa, a capital do Tibete, ser hoje constituída de chineses enviados para a cidade sagrada do verdadeiro povo tibetano. Em Himalaya Bouddhiste, as estatísticas das brutalidades surpreendem. Jamyang Norbu, um dos maiores escritores tibetanos da contemporaneidade, afirma em seu texto inserido no livro: O afluxo maciço de colonos chineses torna a situação interior do Tibete particularmente sombria. Mas a imigração, por mais inquietante que possa parecer, não é um fenômeno irreversível. Stalin forçou milhões de russos a imigrarem para Lituânia, Letônia e Estônia. Hoje, essas nações são livres, falam suas línguas e possuem as suas próprias bandeiras.
A extraordinária coleção de textos e a iconografia de beleza inconteste faz-nos “presentes” na região inóspita, mas plena de encantos. Podemos, minimamente, penetrar nesse universo tão distante do nosso, onde pensar e agir estão impregnados de misticismo pleno de mistérios e do eterno insondável.
Meus agradecimentos ao Atelier Föllmi (França) por ter autorizado a reprodução das inefáveis fotografias.

The book Buddhist Hymalaias, written by Olivier Föllmi, Matthieu Ricard and Danielle Föllmi, is a work of art, alternating breathtaking images with passages written by thinkers of Tibetan Buddhism. Besides offering an introduction to religious precepts, it delves deep into the geography, the history, the traditions and the wisdom of the Tibetans.

“Himalaya Bouddhiste” c’est tout d’abord un oeuvre d’art. Le livre conçu par Matthieu Ricard, Danielle, Olivier Föllmi et Benoit Naci fait resplendir l’essence des peuples de l’Himalaya bouddhiste. Les textes choisis, écrits par vingt et un spécialistes de six nationalités différentes, sur les thèmes de la région himalayenne, ainsi que les photos magiques et innéfables, rendent à l’oeuvre, un caractère unique.

Origem do Fascínio

Página de O Mundo Pitoresco

Domar a mente
é a tarefa mais importante
da vida de uma pessoa.

XIVº dalaï-lama Tenzin Gyatso (1935 – )

Meu pai e eu aniversariávamos no mesmo dia. Pediu-me que eu o presenteasse com a Valsa op. 64 nº 2 de Chopin, popularmente conhecida como 7ª Valsa. No dia da comemoração, durante o café da manhã toquei para ele o que prometera. O seu presente, jamais esqueceria: O Mundo Pitoresco, a belíssima coleção encadernada em IX tomos ( Rio de Janeiro, W.M.Jackson, 1946, 2.331 págs.). Completava meus 12 anos e a obra seria minha cúmplice geográfica. O mundo lá estava: regiões, povos, tradições, abundantes ilustrações, textos assimiláveis. O adolescente que eu fui leu devotadamente a coleção, sonhou e viajou pelas terras desconhecidas, a pensar em como seria extraordinário conhecer o planeta, na época ainda a apresentar regiões misteriosas e a ter uma integridade física que a incúria humana não fez mais do que deteriorar ao longo das últimas décadas.
Já no início do primeiro volume deixei-me fascinar pelo texto Através das Terras Proibidas, no qual Tibete, Nepal e Butão eram apresentados como regiões localizadas no topo do mundo e praticamente ignotas pelo homem. O autor do relato já advertia que aqueles territórios permaneciam fechados. O jovem cresceu e o interesse por essa região também, não apenas no aspecto geográfico e das populações que lá existem, mas igualmente na maneira como elas entendem a vida através da tradição de milênios a resultar na prática religiosa diária, costumes simples e rudes, respeito absoluto à natureza e deslocamentos constantes de determinadas povoações nômades naquelas alturas gélidas. Vôo para a imaginação. Na adolescência sonhei até em ser alpinista, atividade incompatível para um jovem que se dedicava seriamente ao piano. Todavia, o interesse pela extensa cadeia representada por quantidade imensa de picos acima dos 7.000 metros persistiu, e quando viajo levo comigo escritos sobre o Himalaia.
Tantas foram as obras lidas: aventuras visando à conquista de alguns dos altos cumes, narrativas de viajantes ou daqueles que buscaram refúgio místico, coletâneas de textos enriquecidas por fotos de perfeição mágica, pensamentos filosófico-religiosos; todos ainda despertando no hoje quase septuagenário o prazer inconfessável dos sonhos secretos.
Duas narrativas chamaram-me a atenção neste ano: a de Alexandra David-Néel (Au coeur des Himalayas, Paris, Payot, 2004, 193 págs.) e a de Paul Brunton (Un ermite dans l’Himalaya, France, du Rocher, 2006, 431 págs. trad. do inglês). Ambas pertencem à primeira metade do século XX, quando as regiões mencionadas eram pouco freqüentadas, e abordam aspectos distintos, porém concordantes em tantos ângulos.

Au coeur des Himalayas - Alexandra David-Néel (1868-1969)

A escritora, budista e exploradora francesa Alexandra David-Néel (1868-1969) teve uma vida plena. Escreveu mais de 40 livros sobre viagens, espiritualismo, posicionamentos políticos. Percorreu a região do Himalaia por cerca de quinze anos. Em 1949, é publicado Au coeur des Himalayas, reeditado recentemente. Nele a escritora, que foi a primeira mulher ocidental a se tornar Jétsunema, ou seja, lama, relata uma extraordinária peregrinação durante o inverno de 1912-1913 ao coração das regiões montanhosas, a fim de visitar os lugares onde viveu Buda. Mencionávamos o desconhecido relacionado ao Himalaia. Naquele início de século, a andança de uma mulher voltada à cultura e religião orientais era algo quase inimaginável. Madame David-Néel aprofunda-se no conhecimento das tradições da região. Misticismo, hábitos atávicos, pureza, simplicidade, fatalismo e crueldade são naturalmente expostos enquanto a escritora espiritualista visita lugarejos, paisagens. Nepal e Tibete surgem, sob a pena de David-Néel, como alumbramentos: Ó! Tibete! Como este país tão diferente do meu conseguiu me conquistar de maneira tão profunda, possuindo-me inteiramente corpo e espírito, pensamentos e sensações? A autora observa diferenças entre as arquiteturas dos monastérios da India meridional e aquelas do Tibete e do Nepal; mantém algumas tradições ocidentais, mas incorpora-se, em parte, ao modus vivendi dos monges budistas, respeitando-o; encanta-se com as paisagens fantásticas da cadeia de montanhas entre esses dois últimos países. Compartimenta o termo paisagem. Ela afirmaria ter tido como fim essencial a curiosidade que leva ao conhecimento, no amplo sentido do conhecer “paisagens”. Se altas montanhas, vales, florestas, rios, flores e pedras têm muito a revelar, pois vivem intensidades e para isso é só necessário ter ouvidos e olhos atentos, paisagens são também a vida dos homens e aquilo que eles estão a traduzir através da conduta. Esta evidencia-se por meio das idéias, desejos, crenças, amores, rancores, esperanças, conteúdos sempre em movimento naquilo que a autora nomeia como a própria alma. O livro relata a experiência da viajante frente a um tigre. Imóvel, libertou-se de pensamentos, fitou o animal sem medo, pois estava em meditação, e o felino, após algum tempo, afastou-se. As narrativas de Alexandra David-Néel cativam pela sagacidade das observações.

Un ermite dans l’Himalaya - Paul Brunton (1898-1981)

Paul Brunton (1898-1981), pensador, jornalista, viajante, místico e guru inglês, teve uma vida igualmente intensa. Seus livros refletem o interesse do pensador em busca de explicações que levem o homem à paz interior. Em Un ermite dans l’Himalaya, Paul Brunton em 1936 retira-se do convívio com a turbulenta sociedade londrina e encontra, durante meses, um local perdido entre o Nepal e o Tibete. Instala-se em um bangalô e diariamente passa horas a meditar em local próximo, mas ainda mais alto, de onde descortina segmento da cadeia montanhosa do Himalaia. Um velho deodar – cedro do Himalaia – à frente de um abismo torna-se seu confidente. No livro há relatos dos caminhos percorridos, mas diferentemente de David-Néel, Brunton está na região para esse encontro místico com o almejado esvaziamento do pensar. Compara as múltiplas idéias a ocorrerem na mente de um citadino ocidental com a evaporação dos pensamentos simultâneos, num desiderato único de, em meditação, conseguir a quase impossível meta de, longamente, ter apenas uma fixação. Seria a idéia única que, almejada, deve tornar-se imanente. Em seu exílio voluntário, recebe visitas esporádicas de grandes mestres yogas, como Pranavananda, assim como a de um Príncipe Sábio. Registra tudo em sua máquina de escrever. Pranavananda conta a Brunton que seu mestre, Swami Jnanananda teria permanecido longo período em meditação durante o inverno acima dos 3600 metros, sem roupas e sem fogo para aquecê-lo, apenas com a força do pensamento. Chegara ao estágio de alcançar apenas uma fixação e conservá-la. Parece-nos fantasioso, mas relatos testemunham essa façanha de um verdadeiro yoga despojado de quaisquer outros pensamentos que pudessem distraí-lo ou perturbá-lo. Paul Brunton vive a sua experiência, relata-a e sua narrativa jamais perde o encanto nesse solilóquio previsto. O Príncipe do Nepal que o visitou, Mussooree Shum Shere, escreve na apresentação do livro que Brunton considerava Un ermite dans l’Himalaya horrivelmente egocêntrico, no que o apresentador discordou. A obra tem interesse, a ensinar, através da experiência vivida, que o homem deve buscar, mesmo nas grandes cidades ocidentais, refúgios para a mente, despojando-a de pensamentos dispersos, provocadores e inúteis. Um parágrafo do livro sintetiza o esforço nessa intenção, certo niilismo, mas a certeza de ser a luta constante o caminho a ser seguido: Eis-me presentemente letárgico, inútil à sociedade e sem ocupação lucrativa, um desocupado que se contenta em permanecer sentado sem se mexer e esforçando-se em expulsar vagas de pensamentos invasores que tentam subjugá-lo. Em resumo, eu não tenho nem status oficial nem lugar reconhecido no mundo. Eu não mais sou respeitado. Isso não tem importância!. Como curiosidade, Brunton mantinha em seu bangalô uma foto de Charles Chaplin, dedicando longas reflexões ao ator: porque ele fala a língua universal que brancos, mestiços, amarelos e negros compreendem bem – a língua do humor e do patético. Divaga sobre o esplendor das estrelas em noites imaculadas naquelas altitudes, a comentar não apenas constelações e astros, mas os reflexos noturnos nas paredes nevadas do Himalaia. Assim como Alexandra David-Néel, Brunton encontra na solidão o seu felino, uma pantera. Fixaram-se, o animal demonstrou sua raiva, mas não atacou, devido à “aparente” tranqüilidade do autor. Os livros de Paul Brunton tiveram enorme sucesso. Entrara em contacto com grandes figuras do pensamento místico da India, e o acervo de experiências e captações tornaram Brunton um mestre para seus seguidores. Embora enfoquem período determinado, tornam-se atemporais, despertando interesse de todos que almejam a paz interior.

When I was a boy I was given the encyclopedia O Mundo Pitoresco (The Picturesque World). I read bewitched the stories of far-off countries, with their rich and unique cultural heritage and uncommonly diverse landscape. This was the beginning of my lifelong interest for the Himalayas, home to the world’s highest peaks. This post is about two books I have recently read on this subject: Alexandra David-Néel’s Au Coeur des Himalayas (In the Heart of the Himalayas) and Paul Brunton’s A Hermit in the Himalayas. Two narratives written in the first half of the XXth century, approaching the matter from different but equally fascinating perspectives.